
Jean M. Auel

Ayla: a filha das cavernas



     Traduo de
     Maria Thereza de Rezende Costa

     
     
     
     Ttulo original norte-americano
     THE CLAN OF THE CAVE BEAR
     
     Copyright  1980 by Jean M. Auel
     
     
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Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!     
     
     
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     Para Ray
     Meu pior crtico e melhor amigo

MILHAS
     KM 400
     
     
     OS FILHOS DA TERRA
     A EUROPA PR-HISTRICA
     DURANTE A ERA GLACIAL
     
     Uma onda de calor faz retroceder as geleiras durante poca plistocena. De 35 mil a 25 mil anos antes de nossa era.
     
     
     AGRADECIMENTOS
     Nenhum livro editado  obra exclusiva do autor. A ajuda brota diferentemente de vrias fontes e algumas contribuies a este meu trabalho me foram fornecidas 
por pessoas que jamais vi e  provvel que nunca verei. No obstante, sou grata aos habitantes da cidade de Portland e do Condado de Multnomah, Oregon, que, com 
o dinheiro de seus impostos, mantm a Multnomah County Ubrary, a qual proporcionou o material de referncia para esta obra. Sem isto, o livro no teria sido escrito. 
Sou tambm grata a arquelogos, antroplogos e muitos outros especialistas no ramo que escreveram livros onde colhi grande parte das informaes para compor o cenrio 
e o ambiente deste romance.
     H, entretanto, aqueles que contriburam com ajuda direta. Dentre estes, quero especialmente agradecer a: Gino DeCamp, o primeiro a ouvir a idia de minha
histria, o amigo nas horas de necessidade, aquele que teve a pacincia de ler um grosso original com entusiasmo e olhos atentos s falhas. Foi quem idealizou o 
smbolo para esta srie. John DeCamp, o amigo e colega de letras que, conhecedor das agonias e xtases do ofcio, tinha o dom de me ligar exatamente quando eu precisava
falar com algum por dentro tambm de tais agruras.
     Karen Auei, que encorajou sua me de modo como jamais poder imaginar, rindo e chorando quando era esperado que o fizesse, embora o livro estivesse apenas esboado.
     Cathy Humbie, a quem pedi o maior favor que se pode pedir a uma amiga: uma crtica honesta, pois que muito valorizei o seu senso de medida das palavras. Ela
fez o impossvel, uma crtica arguta e, ao mesmo tempo, simptica. Deanna Sterett, por se ter interessado pela histria e ser suficientemente entendida em caas
para apontar alguns de meus deslizes. Lana El mer que, com uma ateno desmedida, passou horas a fio ouvindo minhas dissertaes e ainda assim conseguindo gostar 
da histria. Mina Bacus, dona de um discernimento inigualvel, de quem recebi uma ajuda Inventiva nas dvidas de transliterao .Nem todas as minhas pesquisas foram 
realizadas em bibliotecas. Eu e meu marido fizemos diversas viagens para conhecer diretamente, no prprio terreno, como so certos aspectos da vida em contato ntimo 
com a natureza. Neste sentido, os meus especiais agradecimentos a Frank Heyl, especialista em sobrevivncia no rtico, junto ao Oregon Museun of Science and Industry, 
que me mostrou como fazer uma cama em caverna de neve, esperando, em seguida, que eu dormisse nela! Sobrevivi quela fria noite de janeiro nas encostas do Monte
Hood, aprendendo muitas coisas com o Sr. Heyl, que  a pessoa que mais quero perto de mim durante a prxima Era Glacial.
     Estou tambm em dvida com Andy Vant Hul por ter comigo compartilhado de seus excepcionais conhecimentos sobre a vida junto  natureza. Foi quem me mostrou 
como produzir fogo sem fsforos, machados feitos de pedra, torceduras de cordas, cestos tecidos com fibras e couro cru e a polir uma lasca de pedra at que ela chegasse 
a atravessar o couro como se este fosse manteiga.
     Meus agradecimentos ilimitados a Jean Naggar, uma agente literria to competente que conseguiu transformar a fantasia mais delirante em realidade e at ultrapass-la. 
Tambm a Carole Baron, editora arguta, fina e sensvel, que, ao acreditar neste livro, incorporou todo o meu trabalho, realizando-o ainda melhor.Finalmente, as duas 
pessoas que no tinham a menor idia de estar ajudando, mas cuja assistncia me foi de grande valor. Um deles, conheci pessoalmente, mas a primeira vez que ouvi 
o escritor e professor Don James falar sobre literatura de fico ele ainda no sabia que se estava dirigindo especialmente a mim. Acreditava, ento, falar para 
todo um auditrio. As palavras que pronunciou foram exatamente as que eu tinha necessidade de ouvir. Don James no poderia saber disso na ocasio, mas talvez eu 
jamais tivesse terminado este livro se no fosse ele.
     A outra pessoa, conheo-a s atravs de seu livro. Ralph S. Solecki, autor de Shanidar (Alfred A. Knopf, Nova York). A histria da escavao da Caverna de Shanidar 
e a descoberta de vrios esqueletos de Neandertal deixaram-me profundamente comovida. Foi quem abriu para mim uma perspectiva do homem pr-histricos do homem da 
caverna, sem o que eu no teria tido a boa compreenso do significado da humanidade. E, mais do que simples agradecimentos, devo pedir desculpas ao Professor Solecki 
por ter, em nome de minha fico, tomado liberdades poticas com os fatos levantados por ele. Na verdade, em termos histricos, quem pela primeira vez botou flores 
num tmulo foi um neandertalense.


***

Captulo 1

     J inteiramente despida, a menina correu para fora de uma cabana coberta com peles de animal em direo  praia pedregosa na curvatura de um pequeno rio. Nem 
pensou em olhar para trs. Nada em sua experincia anterior lhe dava motivos para duvidar de que a cabana e as pessoas dentro dela no estariam naquele ponto quando 
voltasse.
     A menina atirou-se na gua e sentiu as pedras e a areia escorregadia sob os ps, depois que a margem terminou abruptamente. Mergulhou na gua fria e voltou 
 tona com o rosto esbaforido, para, em seguida, com braadas firmes, alcanar a borda escarpada do lado oposto. Aprendera a nadar antes que soubesse andar e, nos 
seus cinco anos, j se sentia perfeitamente  vontade na gua. A nado, era praticamente o nico meio de se atravessar um rio.
     Por algum tempo, ficou de brincadeira, nadando de um lado para outro, at que se deixou ir pela correnteza, flutuando rio abaixo. No lugar onde o rio se alargava, 
espumando sobre rochas, levantou-se e foi em direo  margem. Andou, ento, de volta  praia e se ps a catar seixos. Acabara de pr uma pedra sobre uma pilha,
feita s das mais bonitas, quando a terra comeou a tremer.Surpresa, viu a pedra rolando sozinha e, espantada, parou olhando a pequena pirmide de seixos balanando 
e vindo depois abaixo. S ento percebeu que tambm ela estava balanando; sentia-se, no entanto, mais confusa do que apreensiva. Olhou  volta, tentando entender 
por que o universo com portava-se de forma to inexplicvel. No se esperava que a terra se mexesse.
     O rio, antes fluindo mansamente, revolvia-se agora em ondas picadas que iam bater nas barrancas, enquanto o leito rochoso, ao sabor das correntezas desencontradas, 
dragava a lama do fundo para cima. O matagal rente aos barrancos, a jusante, tremia, animado por movimentos invisveis em suas razes e as enormes pedras, a montante, 
balanavam-se numa instabilidade inteiramente inusitada. Mais alm, na floresta, as majestosas conferas, alagadas pelas torrentes, vergavam grotescamente. Um gigantesco 
pinheiro prximo  margem, com as razes expostas e o centro de apoio enfraquecido pelas cachoeiras, dobrava-se na direo do outro lado do rio, at que com estrondo 
cedeu, para esborrachar-se no solo e formar uma ponte vacilante sobre o rio turvo, num mundo onde nada era seguro.
     A menina tomou um susto com o som da rvore caindo. Seu estmago estreitou-se com um n apertado, e o medo comeou a invadir-lhe o pensamento. Tentou erguer-se, 
mas voltou a cair, desequilibrada com aquele tremor estonteante. Novamente tentou e deu um jeito para pr-se de p, mas sem firmeza e temerosa de dar uma passada.
     Enquanto se dirigia para a cabana coberta de peles, num stio atrs do rio, sentiu um surdo ribombar que cresceu num estrondo aterrorizador. Saa da fenda aberta 
no cho um fedor azedo de coisa mida e podre, como se a terra estivesse dando um imenso bocejo pela manh e soltasse fumos por sua respirao. A menina olhava sem 
compreender a lama, as pedras e rvores, tudo caindo por aquela garganta escancarada, enquanto a carcaa do planeta derretido se rachava em convulses.
     A cabana, pendurada na extrema beirada do abismo, oscilava enquanto a terra que ainda restava sob ela ia sendo arrastada. Sua frgil cumeeira balanava relutante; 
por fim, tudo ruiu e a cabana desapareceu no enorme buraco, carregando consigo a cobertura de couro e tudo o mais que abrigava. Com horror, a menina tremia de olhos 
arregalados, vendo aquele enorme bucho escancarar-se com seu mau hlito para engolir todas as coisas que tinham dado sentido e segurana aos cinco curtos anos de 
sua vida.
     -  Mameee! - gritou, quando pde ter algum entendimento. No sabia se o grito ecoando nos seus ouvidos era dela mesmo, em meio ao rugir trovejante de rochedos 
se esfacelando. Ajudando com as mos foi subindo em direo  enorme garganta, mas a terra se levantava e a atirava ao cho. Agarrou-se, ento, ao terreno, tentando 
encontrar, naquele mundo trmulo e arfante, algo seguro em que pudesse apoiar-se.
     Nisso, a garganta fechou-se, o rugir cessou e a terra aquietou-se, mas no a menina. Deitada, com o rosto colado ao cho mido e solto, revolvido pelo cataclismo 
que convulsionara a Terra, ela estremeceu de medo. Tinha razo para isso.
     Encontrava-se s na imensido de estepes verdejantes e florestas dispersas. As geleiras ao norte haviam feito uma ponte sobre o continente, levando seu frio 
para l. Um nmero indizvel de animais, alguns inofensivos, outros, carnvoros e ferozes, rondavam as vastas pradarias. Gente mesmo era muito pouca. Ela No tinha 
aonde ir e ningum viria para cuidar dela. Estava s.
     O solo tremeu de novo, assentando-se, e a menina ouviu um rumor sa do das profundezas da terra, como se esta estivesse digerindo o alimento tragado de uma 
s bocada. Ela, em pnico, deu um salto aterrorizada, achando que o cho fosse rachar novamente. Olhou, ento, para o lugar onde a cabana estivera. Terra bruta e 
arbustos com razes levantadas era o que restava ali. Aos prantos, voltou para o rio, l ficando perto da gua barrenta, encolhida num soluar sem fim.
     Mas os barrancos tmidos do rio no ofereciam segurana contra a turbulncia daquele planeta. Veio outro abalo mais srio que o anterior, fazendo a terra outra 
vez tremer. Uma pancada de gua fria sobre seu corpo nu f-la estremecer, O pnico voltou e ela deu um pulo sobre os ps. Tinha de fugir daquele lugar monstruoso, 
de uma terra oscilante e famlica, mas aonde ir?
     Na praia pedregosa do rio no cresciam plantas, era completamente desprovida de verde, mas os barrancos rio acima estavam cheios de arbustos com folhinhas recm-nascidas. 
Qualquer coisa dentro dela lhe dizia para ficar perto da gua, s que aquele mato emaranhado mostrava-se impenetrvel. Com os olhos midos e a viso turva, olhou 
para a floresta de pinheiros.
     Tnues raios de luz filtravam-se pelas ramagens entrelaadas que formavam um bosque de pinheiros prximo ao rio. A sombria floresta estava praticamente nua 
de plantas rasteiras e com muitas rvores tombadas. Umas cadas por terra e outras, curvando-se em ngulos desajeitados, escoravam- se nas vizinhas que continuaram 
firmemente plantadas. Alm da massa de pinheiros, a floresta boreal mostrava-se escura e to pouco convidativa quanto as galhadas dos barrancos a jusante. A menina 
no sabia que rumo tomar, ficando a olhar para um e outro lado, sem poder decidir-se.
     Um tremor sob os ps enquanto olhava na direo rio abaixo fez com que se arrancasse do lugar. Depois de um ltimo olhar saudoso, na v esperana de que qualquer 
coisa da cabana ainda estivesse por l, a menina correu para dentro da mata.
     Premida pelos roncos da terra que ainda continuava assentando-se, a menina seguiu o curso dgua, parando apenas para beber, em sua pressa de se ver bem longe 
dali. Os pinheiros que haviam sucumbido no terremoto jaziam no cho e a garota tinha de ladear as crateras deixadas pelo emaranhado das razes, ainda com terra mida 
e pedras coladas em suas partes internas.
     Ao entardecer, comeou a ver menos sinais de turbulncia. As rvores com razes levantadas j no eram tantas, comeavam a rarear os deslocamentos de pedras 
e a gua clareava. Parou quando j no dava mais para ver o caminho que havia percorrido, deixando-se cair exausta no cho da floresta. Enquanto estivera movimentando-se, 
o exerccio a manteve aquecida, mas agora, enterrada dentro de um grosso tapete de folhas de pinheiro, enroscada como uma bolinha e atirando punhados de folhas sobre 
o corpo, tremia com o ar gelado da noite.
     Mesmo cansada como estava, o sono no chegou fcil. Enquanto esteve ocupada nas imediaes do rio, saltando os obstculos pelo caminho, havia conseguido afastar 
o medo do pensamento. Mas o pavor agora tomara conta. ela. Ficou deitada, inteiramente imvel, de olhos bem abertos, vigiando a escurido aumentar, at que tudo 
ficou escuro em derredor.
     At ento, nunca havia ficado sozinha de noite e, ainda assim, sempre com um fogo por perto, mantendo a distncia as trevas do desconhecido. Por fim, no conseguiu 
conter-se mais. Com um soluar convulso, chorava sua angstia, botando-a para fora. Todo seu corpo se sacudia com o choro e os soluos, mas ela foi ficando mais 
aliviada e acabou caindo no sono. Um pequeno animal noturno veio cheir-la, mas s por simples curiosidade.
     Ela acordou gritando!
     O planeta continuava ainda desassossegado e um rumor distante, sado das profundezas, trouxe de volta todo o horror na forma de pavoroso pesadelo. A menina 
deu um salto, querendo correr, mas os olhos abertos no enxergavam melhor do que com as plpebras fechadas. A princpio, no conseguia lembrar-se do lugar onde se 
achava, O corao batia com toda fora. Por que no podia ver? Onde estavam os braos amorosos que sempre estiveram perto dela consolando-a, quando acordava de noite? 
Aos poucos, sua conscincia foi voltando e, tremendo de frio e medo, tornou a enroscar-se, enterrando-se debaixo do tapete de folhas. Os primeiros raios do amanhecer 
ainda a encontraram dormindo.
     Vagarosamente, a luz do dia foi penetrando no interior da floresta. Quando acordou, a manh j ia alta, mas, naquele denso sombreado, era difcil dizer. No 
dia anterior, quando comeara a escurecer, ela se afastara do rio e agora, ao ver apenas rvores a seu redor, o pnico ameaou voltar.
     A sede fez com que prestasse ateno a um rumor de gua nas proximidades. Passou ento a seguir o barulho e com grande alvio deu de novo com o pequeno rio. 
Estava to perdida ali como na floresta, mas o riozinho fazia com que se sentisse melhor, era qualquer coisa que lhe dava um sentido de direo e sempre poderia 
matar a sede, se permanecesse junto dele. S que, na vspera, ele pde dar-lhe alguma alegria, mas agora pouca coisa podia fazer por sua fome.
     No ignorava que se comiam folhas e razes, mas no tinha noo de quais eram comestveis. A primeira folha que provou era de gosto amargo e lhe deixou a boca 
ardendo. Cuspiu e lavou a boca, ficando hesitante em fazer novas experincias. Depois de beber mais gua para sentir-se temporariamente cheia, retomou a caminhada 
descendo o rio. A escura floresta agora a amedrontava e ela tratou de ficar sempre perto do riacho, onde o sol era brilhante. Quando a noite caiu, cavou um lugar 
fora do terreno do pinheiral e ali se enroscou como na vspera.
     Sua segunda noite sozinha no foi melhor do que a primeira. Tinha fome e sentia na boca do estmago um medo paralisante. Jamais tivera tanto pavor, tanta fome 
e se sentido to s. 
     O sentimento de perda era to doloroso que bloqueou na memria tudo que se referia ao terremoto e  sua vida anterior. Quanto ao futuro, o seu pensamento lhe 
dava pnico e ela se esforava para no pensar nele. No queria pensar no que lhe poderia acontecer ou quem iria tomar conta dela.
     Vivia exclusivamente o momento, tratando apenas de vencer o obstculo seguinte, de cruzar algum afluente do rio ou escalar um lenho atravessado no caminho. 
Seguir o riozinho tornou-se um fim em si mesmo, no por que isso a fosse levar a alguma parte, mas porque era a nica coisa que lhe dava uma direo, um propsito, 
uma linha de conduta. Era melhor do que no fazer nada.
     Depois de algum tempo, o vazio no estmago tornou-se uma espcie de dor anestesiada que lhe amortecia o pensamento. De vez em quando chorava, enquanto prosseguia, 
penosamente, o caminho com as lgrimas escorrendo e fazendo riscas brancas no rosto encardido. Seu corpinho nu estava em pastado de lama e os cabelos, outrora quase 
brancos, lindos, macios como seda, achavam-se emplastrados na cabea, formando um emaranhado de folhas de pinho e barro.
     A caminhada ficou mais difcil quando a floresta verdejante foi-se transformando numa vegetao menos densa, desaparecendo do cho as folhas cadas dos pinheiros 
e sua passagem obstruda por matos e gramleas altas, o caracterstico revestimento de terrenos com rvores de folhas pequenas e efmeras. Quando chovia, ela se 
enroscava em algum tronco cado, ou debaixo de alguma pedra grande ou aforamento de rocha, ou ento, simplesmente, continuava caminhando pela lama, deixando a chuva 
cair sobre ela.  noite, amontoava folhas velhas e secas, sobras de outras estaes, e se metia dentro desse monte para dormir.
     O enorme suprimento de gua impediu a desidratao que provoca a hipotermia, isto , o abaixamento da temperatura do corpo que pode levar  morte devido  longa 
exposio ao frio. Mas a menina estava cada vez mais fraca. Havia ultrapassado a sensao da fome, apenas acompanhava-a uma dor enjoada e constante e, de vez em 
quando, o sentimento de vertigem. Tentava no pensar nisso ou em qualquer outra coisa, a no ser no rio, simplesmente seguir o rio, nada mais do que isso.
     Com o sol penetrando em seu ninho de folhas secas, acordou. Levantou-se do aconchego de seu buraco e, ainda com folhas midas coladas ao corpo, foi ao riacho 
tomar seu gole matinal. O cu azul e a luz do sol foram acolhidos com prazer aps o dia chuvoso da vspera. Pouco depois, ela se botou a caminho. A margem de seu 
lado gradualmente tornou-se mais alta. Foi, ento, que resolveu parar para tomar outro gole. Uma descida ngreme separava-a da gua. Comeou a descer com cuidado, 
mas perdeu o equilbrio e rolou pela ribanceira, at atingir o p do barranco.
     Ali, ficou deitada, ferida, cheia de arranhes, enroscada no lamaal perto do riacho, cansada, fraca, desgraada demais para poder mover-se. Grossas lgrimas 
brotavam dos olhos, escorrendo-lhe pela face, enquanto sentidos lamentos cortavam o ar. Ningum ouvia,O choro foi-se tornando uma lamria, pedindo algum para socorr-la. 
Ningum veio. Os ombros arquejavam com os soluos de seu pranto desesperado. No tinha vontade de levantar-se, nem de prosseguir, mas que outra coisa poderia fazer? 
Ficar simplesmente chorando ali, no meio da lama?
     Quando parou de chorar, foi deitar-se na beirada da gua. Deu-se, ento, conta de que tinha a boca com gosto de lama e que uma raiz a espetava, incomodando-a. 
Isso a fez sentar-se. 
     Exausta, levantou-se e foi at o riacho beber gua. Outra vez, retomou a caminhada, obstinadamente, afastando os galhos do caminho, passando por cima dos troncos 
musgosos, ora entrando ora saindo da margem enlameada do rio.
     As guas, que j estavam altas com as primeiras enchentes da primavera, haviam dobrado o volume dos afluentes. Bem antes de avistar a cachoeira que despencava 
na confluncia de um outro rio, duas vezes mais volumoso, a menina j tinha ouvido seu rumorejar. Passando a cachoeira, as correntes dos rios se combinavam num curso 
de gua que, depois de espuma sobre algumas rochas, seguia por estepes e plancies verdejantes.
     As guas estrondorosas da cachoeira se precipitavam por cima dos bordos da ribanceira, formando um largo lenol de guas brancas que caam num lago espumoso, 
cavado no cho rochoso, criando uma nuvem de vapores e de redemoinhos feitos pelas contracorrentes no lugar da juno dos rios. Em algum tempo, num passado distante, 
o rio escavara mais profundamente o rochedo por trs da catarata. A plataforma saliente, por onde a gua se despencava, avanava do paredo, atrs da cachoeira, 
formando ali uma passagem.
     A menina circundou a entrada e, depois de olhar com ateno para dentro do tnel enevoado, ps-se a caminhar por detrs daquela cortina movedia de gua. Agarrava-se 
nas rochas midas, para poder firmar-se, mas o jorrar ininterrupto e constante das guas a deixava tonta. O barulho era ensurdecedor, ecoando no paredo rochoso 
por trs do tumulto da torrente. Olhou para o alto, cheia de medo, percebendo, aflita, que o rio estava sobre as rochas gotejantes por cima de sua cabea, e comeou 
a avanar vagarosamente de rastros.
     Estava quase do outro lado, quando a passagem foi gradualmente se estreitando at tornar-se de novo o alto paredo. O corte sob a rocha tinha um fim e ela foi 
obrigada a fazer a volta e retornar a seu caminho. Ao alcanar o ponto de partida, olhando para a torrente estrepitosa, abanou a cabea. No, no tinha jeito.
     Ao entrar no rio, a gua estava fria e as correntezas muito fortes. Nadou at o meio e deixou que as correntes a arrastassem ao redor da cachoeira, quando fez 
uma virada na direo da margem do rio, que se alargava mais  frente. O exerccio de natao deixou-a cansada, mas estava agora mais limpa, embora com os cabelos 
ainda formando uma moita embaraada. Retomou a caminhada, sentindo-se refrescada, mas no por muito tempo.
     Devido a primavera tardia, fazia um calor inusitado para aquela poca do ano. O sol estava bom e agradvel, e as rvores e arbustos comeavam a espaar-se, 
substitudos por campos abertos.  medida, no entanto, que a bola de fogo alteava no cu, seus raios iam consumindo as parcas reservas da criana. Por volta da tarde, 
ela cambaleava numa estreita faixa de areia entre o rio e um penhasco escarpado. A gua cintilava, refletindo nela o brilho do sol, enquanto os arenitos quase brancos 
esparziam luz e calor, contribuindo para a intensa luminosidade.
     Do outro lado do rio e  frente, pequeninas flores - brancas, vermelhas e amarelas - misturadas ao verde-claro de uma vegetao baixa, recm-brotada estendiam-se 
at o horizonte. - A menina, porm, no tinha olhos para a beleza efmera da primavera nas estepes. Fraca e faminta, ela delirava, comeando a ter alucinaes.
     - Eu disse que vou ter cuidado, mame. Vou nadar s por perto, mas para onde voc vai? - murmurou. - Me, quando vamos comer? Estou com fome e calor. Por que 
voc no veio quando chamei? Chamei, chamei e voc no apareceu. Onde tem andado, me? Mama no vai embora outra vez! Fique aqui! Me, me espere. No me deixe!
     Ela corria na direo da miragem, enquanto a viso desaparecia, seguindo pela base do penhasco que num certo ponto comeava a afastar-se da margem, tomando 
direo  diferente a do rio. Abandonava, assim, sua fonte abastecedora. Correndo s cegas, bateu com o dedo do p numa pedra e caiu em cheio no cho. Isso veio 
sacudi-la e bot-la na realidade ou, pelo menos, quase. Sentou-se extenuada, esfregando o dedo, tentando desesperadamente ordenar os pensamentos.
     O penhasco era naquela parte um paredo irregular, riscado de fendas e gretas, com cavidades escuras formando cavernas. A expanso e a contrao de temperaturas 
extremas - desde um calor causticante a um frio intenso, abaixo de zero - fragmentaram a rocha pouco consistente. A menina olhou para dentro de uma pequena cavidade 
 altura quase do cho mas a minscula caverna no lhe fez grande impresso
     Bem mais impressionante era a manada de auroques pastando pacificamente na relva fresca e viosa entre o rochedo e o rio. Em sua correria cega atrs da miragem 
deixara de ver os enormes e ferozes animais de cor marrom-avermelhada, com dois metros de altura e chifres arqueados. Quando os enxergou, o susto botou um pouco 
de luz na confuso de seu crebro. A menina recuou para mais perto do paredo de rocha, com os olhos fixos no corpanzil de um daqueles enormes touros que havia parado 
de pastar para ficar vigiando-a. Ela deu a volta e comeou a correr.
     Ao olhar para trs, por cima do ombro, suspendeu a respirao ao perceber de relance e confusamente uma cena que a fez parar em sua corrida. Uma imensa leoa,
duas vezes maior do que qualquer felino dos que em pocas muito posteriores iriam habitar as savanas mais ao sul, estava  espreita da manada. A menina sufocou um
grito, quando o monstruoso animal deu um salto sobre uma daquelas gigantescas vacas.
     Numa confuso de garras, presas e rosnados selvagens, a leoa levou a massa do auroque ao cho e, com uma dentada poderosssima, rasgando-lhe a garganta, deixou 
interrompido no ar o berro lancinante do animal O sangue esguichado manchava o focinho da leoa, respingando de vermelho sua pele fulva. As pernas do auroque continuaram 
pulando espasmodicamente, mesmo depois que a leoa lhe rompeu o estmago e tirou um naco quente de carne vermelha e quente.
     A menina se viu tomada de total terror e correu em pnico, vigiada de perto por outro daqueles felinos. Havia cometido o pecado de entrar no territrio dos 
lees da caverna. Normalmente, esses animais teriam desdenhado uma presa to pequena, do porte de uma criana de cinco anos, preferindo robustos auroques, enormes 
bises ou veados de tamanho avantajado. Mas ela em sua fuga se aproximara demasiadamente de uma caverna onde viviam dois leezinhos recm-nascidos.
     Deixado na guarda da prole enquanto a leoa caava, o macho com sua formidvel juba rugiu avisando. A menina, ao virar a cabea para cima, horrorizada, deu com 
o gigantesco gato agachado sobre a salincia de uma pedra, pronto para saltar. Ela deu um grito e escorregou, ferindo a perna no cascalho solto, junto ao rochedo. 
Levantou-se, e instigada por um medo ainda maior, correu de volta pelo mesmo caminho que a levara at ali.
     O leo saltou, indolente, confiante no seu poder de agarrar o pequenino intruso que ousara violar o sacrossanto reduto de seus filhotes. No tinha pressa. A 
menina ia devagar em comparao com suas lentas passadas. O leo parecia brincar de gato e rato.
     No pnico, somente o instinto levou-a de volta  pequena cavidade que ficava  altura do cho, vista pouco antes. Com os quadris doendo, arquejante, sem poder 
respirar, deslizou pela abertura que mal deu para passar. Era uma gruta minscula, rasa, pouco mais do que uma fenda na rocha. Naquele pequenino espao, foi retorcendo-se 
at conseguir ficar de joelhos com as costas voltadas para a parede, querendo fundir-se com as pedras atrs dela.
     O leo rugiu toda sua frustrao ao chegar  frente do buraco e ver sua caa perdida. A menina tremia ao som dos bramidos, hipnotizada de terror com as patas, 
de garras curvas e afiadas, querendo esticar-se para dentro do buraco. Sem poder mexer-se, ela soltou um berro de dor quando viu a garra pegar-lhe a coxa, fazendo 
quatro profundos talhos paralelos.
     Contorcendo-se para ficar fora do alcance do leo, encontrou uma pequena depresso no lado esquerdo da parede. Ali, botou as pernas, comprimindo-se tanto quanto 
podia e prendendo a respirao. A pata vagarosamente tornou a passar pela abertura, quase tapando toda a luz que chegava ao pequeno nicho, mas desta vez nada encontrou, 
O leo ficou rugindo, andando de l para c, na frente do buraco.
     A menina permaneceu no abrigo o resto daquele dia, toda a noite e ainda a maior parte do dia seguinte. A perna inchou com uma ferida Supurada. A dor era constante 
e o exguo espao de paredes speras impossibilitava que ela se virasse ou se espichasse. Passou a maior parte do tempo num medo atroz, delirando de fome e dor, 
e com pesadelos povoados de terremotos e garras afiadas. No foi a ferida ou a fome e nem mesmo a dolorida queimadura de sol que a fez sair de seu refgio, mas sim 
a sede.
     Cheia de medo, olhou para fora da fenda. Grupos espaados de salgueiros e pinheiros projetavam enormes sombras de princpio de entardecer. A menina ficou por 
muito tempo olhando para a extenso de terra coberta de relva e para a gua cintilando mais alm, antes de conseguir coragem suficiente para sair. Lambia os lbios 
gretados com a lngua ressequida, enquanto examinava o terreno. Apenas a relva batida pelo vento se movia. O leo tinha ido embora. A leoa, preocupada com seus filhotes 
e inquieta com o cheiro de uma criatura estranha to perto de sua toca, resolveu procurar outro abrigo.
     De gatinhas, a menina foi saindo do buraco e depois se levantou. Sua cabea latejava e manchas ficavam danando confusamente diante dos olhos. Cada passo era 
acompanhado de dores terrveis, e das feridas escorria um repugnante lquido verde-amarelado.
     No tinha certeza se conseguiria chegar at a gua, mas a sede era irresistvel. Caiu sobre os joelhos e percorreu de rastos a distncia que faltava. Deitada 
de bruos, com o estmago colado  terra, bebeu sofregamente goles e goles de gua fria. Quando, por fim, a sede ficou saciada, tentou botar-se de p outra vez, 
mas havia chegado ao limite de sua resistncia. Com manchas passando diante dos olhos, a cabea rodando e tudo ficando escuro  volta, ela tombou por terra.
     Voando devagar ao redor, um corvo espiava aquela forma imvel. Baixou o vo, querendo sentir mais de perto a presa.


***

Captulo 2

     O grupo de viajantes cruzou o rio, pouco mais adiante da cachoeira, no ponto onde as guas alargavam e espumavam sobre rochas despontando do leito pouco profundo. 
Eram em nmero de 20, contando com jovens e velhos. Antes de o terremoto lhes haver destrudo a caverna, o cl fora composto de 26 pessoas. Dois homens iam  frente 
guiando o caminho, no muito distante das mulheres e crianas, flanqueadas por alguns homens mais idosos. 
     Os jovens seguiam atrs.
     Vinham seguindo pela margem do rio de maior largura, desde o ponto onde o curso comeava a entrelaar-se com outros afluentes e a serpentear pelas terras planas 
das estepes. Eles estavam sempre com os olhos nas aves de rapina. Animais necrfagos voando normalmente significavam que ainda havia vida naquilo que lhes despertava
ateno. Um bicho j ferido era presa fcil para caadores, contanto que predadores de quatro patas tambm No tivessem a mesma idia.
     Uma mulher, a meio caminho de sua gravidez, caminhava  frente do seu grupo. Viu quando os dois homens da dianteira olharam para o cho e continuaram em frente.
Deve ser algum comedor de carne, pensou. O cl dificilmente comia animais carnvoros.
     Tinha menos de metro e meio de altura, era troncuda, de constituio ssea avantajada, pernas arqueadas e musculosas, mas caminhava ereta sobre os ps chatos
e descalos. Os braos pareciam compridos em proporo ao corpo e, tal como as pernas, eram arqueados. 
     Tinha largo nariz adunco e mandbulas prognatas que se projetavam no rosto como um focinho. O queixo no existia. A testa baixa escorria para trs, formando 
uma cabea longa e larga, assentada sobre o pescoo curto e grosso. Na parte de trs da cabea havia uma protuberncia ssea como um coque occipital que lhe acentuava 
a largura.
     As pernas e ombros eram cobertos por um manto macio de plos castanhos e curtos que descia ao longo da espinha na parte alta das costas. O mesmo pio engrossava 
na cabea, formando quase uma mata de cabelos longos e pesados. Sua palidez de inverno j havia quase desaparecido. Os olhos marrons-escuros - grandes, redondos, 
inteligentes - estavam profundamente assentados sob as salincias das sobrancelhas escorridas e, naquele instante, cheios de curiosidade, quando ela apressou o passo 
para ver o que os homens tinham visto sem se deter em sua marcha.
     J era velha para ter o primeiro filho. Estava com quase 20 anos e at que a vida despertada dentro dela no comeasse a aparecer, o cl havia pensado que fosse 
estril. No entanto, o peso que carregava no tinha sido aliviado pelo fato de estar grvida. Levava um grande cesto preso s costas, onde havia trouxas amarradas: 
atrs, debaixo e empilhadas. Diversos sacos atados com correias penduravam-se de uma pele, embrulhando o couro malevel que vestia, de maneira a produzir dobras 
e bolsas para carregar coisas. Uma das sacolas era particularmente distinta, por ser feita com o couro inteiro de uma lontra, inclusive com o rabo, ps e a cabea 
do animal deixados intatos.
     Em vez de a pele do bicho ter sido rasgada na barriga, apenas sua garganta fora cortada de modo a fazer uma abertura para que fossem retirados os ossos, entranhas 
e carnes, deixando o couro parecendo com uma bolsa. A cabea, atada por uma tira no lombo do animal, servia como tampa, e uma fibra tingida de vermelho, enfiada 
atravs de buracos perfurados ao redor da abertura do pescoo e puxada firmemente, prendia a sacola  cintura da mulher.
     Quando ela botou os olhos pela primeira vez na menina, os homens haviam ficado atrs. 
     Estava espantadssima com aquilo, que lhe pareceu ser um bicho sem plos. Ao aproximar-se mais, porm, prendeu a respirao, e em seguida se afastou, agarrando 
o saquinho de couro pendurado no pescoo. Um gesto instintivo para defender-se dos maus espritos. Suas unhas cravaram-se no couro, fincando os pequenos objetos 
dentro do amuleto, enquanto invocava proteo. Curvou-se, ento, para olhar mais de perto, hesitando avanar, sem poder acreditar muito no que pensava estar vendo.
     Seus olhos no a haviam enganado. No era nenhum bicho que estava atraindo a ateno dos pssaros, mas uma criana. Uma criana descamada e estranhssima.
     A mulher olhou ao redor, imaginando que outros enigmas ainda poderiam existir por ali. 
     Enquanto andava  roda da menina desmaiada, ouviu um gemido. Ento, esquecendo-se de seus medos, parou, ajoelhou-se e sacudiu com brandura a criana. Ao virar 
o corpo para cima, a curandeira viu a inchao na perna e as marcas de garras, fazendo uma ferida purulenta. 
     Imediatamente, desatou o cordo que prendia a sacola de lontra  sua cinta.
     Um dos homens que ia no comando olhou para trs e viu a mulher de joelhos junto da criana. Ele voltou.
     - Iza! Vamos! - ordenou. - Rastros de lees. Ande, v em frente!
     -  uma criana, Brun. Est s ferida. Ainda no morreu.
     Brun olhou para a menina. Esta tinha um rosto esquisitamente achatado, de fronte alta e nariz pequeno.
     - No  dos cls - disse por meio de gestos rpidos, logo se virando para retomar o caminho.
     - Brun,  uma criana. Est ferida. Vai morrer, se ficar aqui - falou Iza com olhos suplicantes, enquanto fazia sinais com as mos.
     O chefe do reduzido bando olhou para a mulher que implorava. Ele era maior do que ela, bastante musculoso, forte, com largo trax cilndrico e per nas grossas 
arqueadas. Seus traos eram semelhantes aos da mulher, embora mais pronunciados; as salincias supra-orbitais mais marcadas e o nariz mais alargado. As pernas, estmago, 
peito e a parte superior das costas cobriam-se de um plo duro, marrom, No chegando a ser propriamente a pele de um animal felpudo, mas No estava muito longe disso. 
Uma barba cerrada escondia- lhe as mandbulas protuberantes e a falta de queixo. A vestimenta tambm era parecida com a da mulher, apenas mais simplificada. Estava 
cortada mais curta e amarrada de modo diferente, tendo somente algumas dobras e bolsas para guardar coisas.
     Brun No carregava nenhum peso, apenas suas armas e uma manta de pele jogada nas costas, presa por uma tira larga de couro que passava em volta de sua testa 
ovalada. Em sua coxa direita havia uma cicatriz escura como uma tatuagem, desenhada grosseiramente na forma de um U com as pontas abertas para os lados. Era a marca 
de seu totem, o biso. 
     Mas ele prprio no precisava de marcas ou smbolos para mostrar sua condio de chefe. Seu comportamento e a deferncia com que era tratado j deixavam patentes 
sua posio dentro do cl.
     Tirou do ombro sua maa, feita do osso da perna dianteira de um cavalo e a colocou no cho, com o cabo apoiado na coxa. Iza sabia que seu pedido estava sendo 
seriamente considerado. Esperava quieta, escondendo a ansiedade, para dar-lhe tempo de pensar. Em seguida, ele pousou a pesada lana de madeira, inclinando-a no 
ombro com a ponta afiada virada para cima e ajeitou as boleadeiras que trazia penduradas no pescoo junto com o amuleto, de modo a equilibrar as trs bolas da arma. 
Por fim, tirou do couro da cintura a funda, uma tira flexvel feita de pele de veado, com um bojo no meio para segurar as pedras e estreitada nas pontas. Ficou alisando 
o couro, sentindo-lhe a maciez e pensando.
     Brun no gostava de tomar decises apressadas sobre qualquer coisa fora do usual que pudesse afetar a vida do cl, sobretudo agora, quando estavam sem moradia. 
Mas resistia ao impulso de simplesmente dizer No. Eu de via saber que Iza iria querer ajudar a menina. 
     At com animais ela costuma usar suas mgicas de curar, principalmente se so bichinhos novos. Vai ficar contrariada se eu No deixar que ajude a menina. Seja 
dos cls ou dos outros, pouco importa. Tudo que ela est vendo  uma criana ferida. Bem, pode ser isto que faz dela uma boa curandeira.
     Mas curandeira ou No, ela  s uma mulher. Que importncia tem se ficar zangada? Isso, ela melhor do que ningum sabe mostrar. Mas ns j temos muitos problemas 
sem um estranho ferido. S que o totem da menina vai saber, bem como todos os espritos. Ser que, se Iza ficar contrariada, eles ainda vo mostrar-se com mais raiva? 
Se encontrarmos uma caverna... No, quando acharmos uma caverna Iza vai ter de fazer a bebida para a 
     cerimnia. E se ela estiver zangada,  bem possvel que cometa um erro, No  verdade? Os espritos com raiva podem fazer com que tudo saia errado e, com raiva, 
eles j esto bastante. Nada deve sair errado na cerimnia da nova caverna.
     Bom, que ela leve a criana, continuou dizendo para si. Logo estar cansada de carregar um peso a mais; alm disso, a menina est to mal que nem mesmo a mgica 
do meu germano tem fora para cur-la. Brun enfiou outra vez a funda em seu cinto, pegou as armas e encolheu os ombros. O negcio era com ela, podia ou no levar 
a criana se o desejasse. Ele deu as costas e comeou a caminhar.
     De dentro da cesta, Iza tirou uma capa de couro com a qual embrulhou a criana desacordada. Depois, suspendeu-a, prendendo a garota a seu quadril com ajuda 
de uma correia flexvel, surpresa do pouco peso da menina em relao  altura. Ao ser suspensa, ela soltou um gemido e Iza fez-lhe uma festinha, tranquilizando-a. 
Em seguida, foi colocar-se atrs dos dois homens.
     As outras mulheres haviam parado, mantendo distncia da conversa entre Iza e Brun. 
     Quando viram a curandeira pegar qualquer coisa do cho para levar, suas mos se puseram a gesticular com movimentos rpidos, intercalados de sons guturais. 
Elas discutiam agitadas, cheias de curiosidade. Fora a sacola de pele de lontra, estavam vestidas da mesma forma que Iza e, igualmente, carregando enormes pesos. 
Levavam tudo quanto o cl possua neste mundo, aquilo que pde ser salvo dos destroos ocasionados pelo terremoto.
     Duas das sete mulheres levavam seus bebs junto do corpo, numa dobra da vestimenta que lhes permitia comodamente amament-los. Enquanto estavam  espera de 
Iza e Brun, uma delas sentiu cair-lhe um pingo quente. Imediatamente, sacou o beb de dentro da dobra da roupa e ficou segurando-o  sua frente, at que ele acabasse 
de urinar. Quando No estavam viajando, os bebs quase sempre eram envolvidos em macios cueiros de pele. Para absorver urina e fezes, havia diversos tipos de material 
como a la de carneiros selvagens que ficava agarrada nos espinhos das plantas  poca da muda, a plumagem dos ninhos de pssaros, a felpa de plantas fibrosas, e 
muitas outras coisas. Mas, em viagem, era mais fcil e simples levar os bebs nus e deixar que fizessem suas necessidades no cho.
     Quando comearam a caminhar outra vez, uma terceira mulher apanhou um garoto e o apoiou em seu quadril, metendo-o dentro de uma sacola de couro. Alguns momentos 
depois, ele estava esperneando, querendo descer ecorrer por sua prpria conta. Ela deixou-o sair, sabendo que voltaria quando estivesse cansado. Logo depois da mulher 
que seguia iza, ia uma menina mais velha, ainda no adulta, o que no impedia, no entanto, de estar levando uma carga to pesada quanto as outras. De vez em quando, 
a garota atirava um olhar para trs na direo de um rapaz, j quase homem feito, caminhando logo depois do grupo das mulheres. Ele tentava manter distncia de modo 
a parecer que fosse um dos trs caadores guardando a retaguarda e no como se fizesse parte do grupo de crianas. Sua vontade era a de estar levando caas, tal 
como um dos velhos que flanqueava as mulheres e que carregava uma enorme lebre sobre o ombro, morta por uma pedra de sua funda.
     Mas nem s de caa vivia o cl. As mulheres quase sempre eram quem contribuam com a maior parte e a fonte de abastecimento delas era bem mais confivel. Mesmo
com toda a carga que levavam, ainda tinham tempo durante a viagem de apanhar alimentos, e com tanta eficincia que, dificilmente, atrasavam a marcha. Uma rea de 
hemerocales rapidamente ficava nua de seus botes e flores. Razes tenras e suculentas eram retiradas da terra com alguns poucos golpes de seus pauzinhos de escavar, 
enquanto aquelas como as de tbua eram mais fceis ainda de ser apanhadas por estar soltas nas superfcies dos terrenos alagadios ou pantanosos.
     Se no estivessem em viagem, as mulheres teriam a obrigao de guardar na lembrana o local onde se achavam certas plantas taludas, para voltar mais tarde no 
decorrer da estao e colher suas pontas macias, e que eram consumidas como legumes. Numa fase posterior, a mistura de plem no amarelo com a farinha feita das 
fibras de velhas razes serviria para o preparo de bolinhos fofos e sem fermento. Ao secarem os talos, colhiam-se as fibras e muitas das cestas eram feitas de resistentes 
talos e folhas de plantas. No momento, elas colhiam s o que encontravam, mas pouca coisa lhes passava despercebida.
     Folhas frescas e tenras de trevo, brotos de alfafa e de dente-leo cardos ainda com suas folhas espinhosas, alguns frutos prematuros e amoras silvestres, nada 
escapava das mos geis e destras das mulheres. Seus pauzinhos de escavar no paravam. J conheciam o uso da alavanca e estavam sempre revirando troncos de madeira 
 procura da salamandras e rechonchudos lagartos. Tambm moluscos eram pescados dos rios e postos na praia para ficar ao alcance delas, e toda uma variedade de bulbos 
tubrculos e razes eram apanhados do cho.
     Tudo encontrava lugar certo nas dobras das vestimentas ou em algum canto vazio dos cestos. As folhas grandes serviam para fazer embrulhos, e algumas, como as 
de bardana, eram cozidas como legumes. Madeira seca, galhos, certos tipos de gramneas e esterco de animais no pasto tambm eram recolhidos. Embora mais tarde, durante 
o vero, a colheita fosse mais variada, a comida era farta, sabendo-se onde procur-la.
     Depois de se porem novamente a caminho, Iza levantou os olhos ao pressentir que um dos velhos, um homem j passado dos 30, vinha em sua direo Ele no trazia 
consigo nem carga nem armas. Apenas o bordo que o ajudava a caminhar. Sua perna direita era aleijada e menor do que a outra, embora desse jeito de locomover-se 
com incrvel rapidez.
     Como o ombro e a parte superior do brao direito houvessem nascido atrofiados, amputaram-lhe o brao deficiente, logo abaixo do cotovelo. Tendo apenas um lado 
plenamente desenvolvido, sua aparncia era de extrema assimetria, e a cabea, por sua vez, era maior do que a dos outros membros do cl Trazia tais defeitos desde 
o nascimento e que o aleijaram para a vida.
     Era germano de Iza e Brun e nascido primeiro que os outros. Teria sido o chefe, se no fossem as deficincias fsicas. Usava uma vestimenta cortada ao estilo 
masculino e levava nas costas, tal como os outros, uma manta para ser usada externamente e que lhe servia tambm de pele de dormir. No entanto, diferentemente, ele 
tinha diversas sacolas penduradas  cinta e uma capa, parecida com o modelo usado pelas mulheres, s que com um bolso nas costas onde levava um objeto grande e abaulado.
     O lado esquerdo do rosto era marcado por uma horrenda cicatriz e pela falta de olho tambm neste lado. Mas seu olho direito era perfeito, brilhava com inteligncia 
e alguma coisa mais no definida. Apesar de todo este aleijo ele se movia com uma graa que lhe advinha de sua enorme sabedoria e a segurana de sua posio dentro 
do cl Ele era o Mog-ur, o feiticeiro mais poderoso, mais temido e o homem mais venerado e reverenciado de todos os cls. Estava convencido de que seu corpo disforme 
lhe fora dado para que servisse de intermedirio com o mundo dos espritos e no para ser o chefe do cl. Sob muitos aspectos, tinha mais poder do que qualquer chefe, 
e disso ele sabia. Somente os parentes prximos lembravam de seu nome de batismo e o chamavam por este.
     - Creb - disse Iza cumprimentando-o, cheia de reconhecimento pela presena dele e fazendo um movimento que expressava o prazer de t-lo em sua Companhia.
     - Iza? - perguntou ele, gesticulando na direo da criana que ela carregava.
     A mulher abriu sua capa e ele olhou de perto o rostinho rosado l dentro. Os olhos se dirigiram para a perna inchada e supurando. Depois, voltaram-se novamente 
para os da curandeira, lendo neles o que ela queria dizer. Nisso, a criana soltou um gemido, e a expresso do rosto dele se amaciou. Creb meneou a cabea em sinal 
de aprovao
     - timo - disse ele, numa voz spera e gutural. Em seguida, fez um sinal significando: bastante gente morreu.
     Creb ficou ao lado de Iza. Ele no tinha de obedecer s regras subentendidas que definiam a posio e o status de cada um. Podia caminhar junto de quem quisesse, 
inclusive do chefe, se assim o entendesse de fazer. O Mog-ur estava acima e fora da hierarquia rgida que governava o cl.
     Quando Brun parou para estudar a paisagem, ele j havia posto sua gente bem longe do faro dos lees da caverna. Do outro lado do rio, tanto quanto dava para 
ver, a pradaria estendia-se por um terreno suavemente ondulado com uma plancie verdejante ao longe. 
     Nada obstrua a viso da paisagem. As poucas rvores existentes eram atarracadas, transfiguradas pelas ventanias constantes em caricaturas daquilo que poderiam 
ter sido. S serviam para pr em perspectiva o campo aberto e acentuar o espao vazio.
     Prximo  linha do horizonte, nuvens de poeira se levantavam do cho com os cascos pesados de uma manada em movimento, e Brun lamentou No poder, naquele instante, 
fazer sinal a seus caadores e conduzi-los  caa dos animais. Atrs dele, apenas os topos de altos pinheiros podiam ser vistos surgindo para alm da folhagem amarelecida 
de rvores menores, formando uma floresta eclipsada pela vastido das estepes.
     Do seu lado do rio, a pradaria terminava abruptamente, cortada a alguma distncia por um penhasco que fazia uma virada afastando-se do rio. A face rochosa do 
ngreme paredo fundia-se com os contrafortes de majestosas montanhas encimadas de neve, avultando perto dali. Os picos gelados com refulgncias rosa, magenta, violeta 
e vermelha refletiam o pr-do-sol como gigantescas jias faiscantes que coroavam os cumes soberanos. At mesmo o chefe, homem essencialmente prtico, estava comovido 
com o deslumbrante espetculo.
     Desviou-se do rio e conduziu o cl na direo do penhasco, onde haveria mais probabilidades da existncia de cavernas. Precisavam de abrigo, porm, mais importante 
ainda, os espritos protetores de seus totens tambm o necessitavam, se  que eles j no os haviam abandonado. Os espritos mostravam- se zangados, o terremoto 
estava a para prov-lo, ou pelo menos estavam com bastante raiva para provocar a morte de seis pessoas do cl e destruir o lar de toda sua gente. Se um lugar permanente 
para os espritos dos totem no fosse encontrado, eles deixariam o cl  merc dos outros, dos malignos, que causavam doenas e espantavam as caas. Ningum sabia 
por que os espritos estavam zangados, nem mesmo o Mog-ur, apesar de que ele conduzisse os rituais noturnos para apaziguar-lhes a clera e tentasse diminuir as aflies 
do cl. Estavam todos preocupados, mas ningum tanto quanto Brun.
     O cl achava-se sob sua responsabilidade e isto o deixava enormemente tenso. Espritos, essas foras invisveis de desejos insondveis, eram algo que o desconcertava. 
Sentia-se mais  vontade no mundo fisico, com suas caadas e chefiando sua gente. Nenhuma das cavernas que at ento havia examinado servira. A todas faltava alguma 
coisa que lhes era essencial e o chefe j comeava a desesperar-se. Aqueles eram dias preciosos, fazendo tempo quente, quando deveriam estar armazenando comida para 
o prximo Inverno e eles os perdiam nessa busca de casa. 
     Logo se veria forado a abrigar o cl em alguma caverna pouco satisfatria e a deixar a procura para o ano seguinte. Coisa bastante incmoda, fsica e emocionalmente, 
mas Brun esperava com toda sua fora que isto no acontecesse.
     Caminhavam ao longo da encosta do rochedo, enquanto as sombras do dia iam se aprofundando. Quando atingiram o ponto onde se achava uma estreita cachoeira cascateando 
pelas vertentes do enorme paredo, com seus vapores formando nos raios de sol um belo e tremeluzente arco-ris, Brun ordenou uma parada. Cansadas, as mulheres puseram 
no cho seus fardos e foram catar lenha, espalhando-se ao redor do lago e do pequeno escoadouro das guas.
     Iza estendeu sua capa de pele e deitou a menina nela; depois, correu para ajudar as outras mulheres. Estava preocupada com a garota. A respirao se fazia com 
dificuldade e No havia ainda despertado. At os gemidos eram cada vez menos frequentes. Iza vinha pensando em como poderia ajud-la e refletindo sobre as ervas 
secas que trazia em sua sacola de pele de lontra. Enquanto catava pedaos de madeira, examinava as plantas das redondezas. Para ela, conhecidas ou No, tudo na natureza 
tinha algum valor nutritivo ou medicinal e pouca coisa ela No podia identificar.
     Ao dar com os olhos nos ps de ris, j quase em flores, que cresciam na orla alagadia da sada das guas, foi imediatamente cavando as razes dessa planta. 
Elas resolveriam uma parte do problema. As folhas dentadas de lpulo que se enrolavam em uma das rvores deram-lhe outra idia, mas achou melhor usar o p de lpulo 
seco que trouxera consigo, pois o frutos ali ainda no estavam amadurecidos. Retirou a casca mole e acinzentada de um amieiro que crescia perto do lago, sentindo-lhe 
o perfume forte. Em seguida, meteu-a numa das dobras da roupa, fazendo um sinal de aprovao com a cabea. Mas antes de voltar, ainda colheu um punhado de folhas 
novas de trevo.
     Depois de terem arrumado madeira e a fogueira estar armada, Grod, o homem que caminhava na frente ao lado de Brun, tirou de dentro de um chumao de musgo um 
pedao de carvo aceso, trazido no fundo do chifre de um auroque. Eles sabiam produzir fogo, mas, viajando por terras desconhecidas, era mais fcil pegar a brasa 
viva e acender a fogueira com esta, do que todas as noites ter de fazer fogo, muitas vezes com materiais desapropriados.
     Durante a viagem, a tarefa de manter aquela brasa sempre acesa constitura-se na grande preocupao de Grod. O carvo incandescente que acendeu a fogueira da 
noite anterior fora aceso pelo carvo da noite precedente quela que, por sua vez, teve sua primeira origem na fogueira armada com destroos do terremoto na entrada 
da velha caverna. Para que uma nova caverna fosse aceita como residncia, os rituais exigiam que se acendesse uma fogueira com o carvo que remontasse em sua histria 
ao ltimo lugar onde haviam morado.
     O encargo da manuteno do fogo era atribuio exclusiva de um homem ocupando alta posio  social. Caso a brasa se apagasse, isto era sinal certo de que os 
espritos protetores os haviam abandonado, e Grod, de seu posto de segundo em comando, seria rebaixado para o posto mais inferior na hierarquia masculina. Uma humilhao 
por que no desejava passar. Sua tarefa, por tanto, no s era uma grande honra, mas tambm uma pesada responsabilidade.
     Enquanto Grod, com toda ateno e cuidado, colocava o pedao de carvo incandescente dentro de um ninho de acendalhas e soprava as chamas, as mulheres se voltaram 
para outros afazeres. Com uma tcnica de muitas geraes, rapidamente tiraram as peles das caas que, momentos depois, estavam atravessadas por varetas verdes e 
pontiagudas, apoiadas sobre forquilhas e assando num fogo de labaredas. O calor alto tostava a carne, estancando seu suco, de modo que, quando o fogo se apagasse, 
pouca coisa de valor nutritivo tinha sido perdido nas chamas.
     Com as mesmas facas afiadas de pedra que usavam para tirar a pele e cortar a carne, elas raspavam e partiam as razes e os tubrculos. Cestas de tecidos apertadssimos, 
 prova dgua, e bacias de madeira eram enchidas de gua e pedras aquecidas nas fogueiras. As pedras iam esfriando e sendo levadas de volta ao fogo de onde saam 
outras, at que a gua fervesse e cozinhasse os legumes. Insetos carnudos iam sendo torrados num ponto crocante, e pequenos lagartos postos por inteiro para assar, 
com suas carapaas aos poucos ficando enegrecidas e quebradias, deixavam entrever saborosos nacos de carne bem churrasqueados.
     Ao mesmo tempo em que ajudava a fazer a comida, Iza trabalhava seus preparados. Numa bacia de madeira - que ela mesma, tempos atrs, talhara de uma tora - botou 
gua para ferver. Lavou as razes de ris, socou-as at ficarem como pasta e as jogou dentro da gua fervendo. Numa outra bacia - uma cuia feita da imensa mandbula 
de um veado - triturou as folhas de trevo, socou na palma da mo uma quantidade de p de lpulo, rasgou em tiras as cascas de amieiro e despejou sobre tudo isto 
gua fervendo. Em seguida, esmigalhou entre duas pedras uma quantidade de carne-seca, guardada para alguma emergncia, e misturou numa terceira bacia essa poro 
de protena concentrada com a gua do cozimento dos legumes.
     A mulher que durante a viagem viera atrs de Iza de vez em quando lanava um olhar para seu lado, na esperana de Iza fazer algum comentrio. Todos, inclusive
os homens, estavam morrendo de curiosidade, embora fizessem por no demonstr-lo. Haviam visto quando Iza pegara a criana e, agora,depois de terem acampado, estavam 
sempre inventando alguma razo para ficar por perto dela. Dando tratos  bola, punham-se a especular sobre como pde acontecer de aquela criana estar ali. O que 
teria sido feito do resto da gente dela? E o mais estranho: o que teria dado em Brun para permitir a Iza trazer uma menina que visivelmente pertencia aos Outros.
     Ebra, melhor do que ningum, sabia das dificuldades de Brun. Era ela quem vinha massagear-lhe o pescoo e os ombros para aliviar sua tenso e era ela quem aguentava 
suas exploses de mau humor, alis raras, naquele homem que era o seu companheiro. Brun chegava a ser estico em seu autocontrole, e ela sabia que depois dessas 
exploses viria o arrependimento, embora jamais fosse admiti-lo. Mas at mesmo Ebra gostaria de saber por que teria ele permitido que a criana viesse, sobretudo 
num momento em que qualquer desvio do comportamento normal poderia provocar maior ira dos espritos.
     Por mais curiosa que estivesse, Ebra no fez perguntas a Iza e as outras mulheres no tinham status para tanto. Alm disso, uma curandeira no podia ser perturbada
num momento em que visivelmente trabalhava no preparo de suas mgicas, acrescendo o fato de que Iza parecia no estar muito para tagarelices. Todo o seu pensamento 
concentrava-se na criana por quem Creb tambm se mostrava interessado. Mas ele era diferente, sua presena era bem recebida por Iza.
     Ela, em muda gratido observava o feiticeiro mudar a posio da menina ainda desacordada. Por um instante, ps-se a olhar pensativo para a criana e, em seguida, 
apoiou seu cajado contra uma pedra e fez uma srie de gestos ondulantes sobre ela. Invocava os bons espritos para que a ajudassem em sua recuperao. Doenas e 
acidentes eram manifestaes misteriosas da guerra dos espritos que faziam do corpo das pessoas seu campo de batalha. 
     A mgica de Iza vinha dos espritos protetores que agiam por seu intermdio, mas nenhuma cura seria completa sem a interveno do homem santo. A curandeira 
era meramente uma agente dos espritos, j o feiticeiro entrava em relao direta com eles.
     Iza ignorava por que sentia tanta preocupao por uma criana que, afinal, era completamente diferente da gente dos cl mas o fato  que desejava que a menina 
vivesse. 
     Depois de o Mog-ur ter terminado os seus passes, Iza tomou a menina nos braos e a levou at o lago ao p da cachoeira. A, mergulhou-a, deixando s a cabea 
de fora, retirando a sujeira e a lama empastada em seu corpinho franzino. A gua fria trouxe-a de volta, mas ainda delirante. Ela se mexia, contorcendo-se, gritando 
e murmurando sons que nunca Iza ouvira antes. Enquanto voltavam para o acampamento, segurou-a apertada contra o corpo e foi sussurrando-lhe palavras doces, mais 
parecidas com carinhosos rosnados.
     Delicadamente, mas com o traquejo de sua longa experincia, iza lavouas feridas com um pedao de rabo de coelho que ia mergulhando no lquido, feito  base 
das razes de ris. Em seguida, retirou a polpa dessas razes e as colocou diretamente sobre o machucado, que cobriu com pele de coelho. Por fim, enrolou a perna 
com tiras macias de pele de veado para que o curativo ficasse firme sobre a ferida. Feito isto, retirou da bacia de osso, com um garfo de pau, as folhas de trevo 
esmigalhadas, as tiras de amieiro e as pedras quentes, pondo o lquido para esfriar ao lado da bacia de caldo quente.
     Creb fez um gesto interrogativo na direo das bacias. No estava Inquirindo propriamente, nem mesmo o Mog-ur faria perguntas diretas a uma curandeira sobre 
suas mgicas. O gesto era apenas de interesse e, como se tratava do seu germano, Iza no se importava. Ele, mais do que ningum, admirava- lhe os conhecimentos mdicos. 
Algumas ervas que ela usava tambm eram em pregadas por ele, s que para fins diferentes. Afora as reunies dos cl quando encontrava outras curandeiras, essas conversas 
com Creb era tudo que ela mantinha em matria de troca de idias com um colega.
     - Isso destri os espritos ruins que provocam as infeces - gesticulou Iza, apontando para a soluo anti-sptica de ris. - O cataplasma feito com as razes 
expulsa o veneno e ajuda a ferida a sarar mais depressa. - Pegou a bacia de osso e mergulhou o dedo dentro para testar a temperatura. - O trevo estimula e fortalece 
o corao na luta contra os maus espritos.
     As poucas palavras que ela usava em sua fala eram mais para enfatizar o que as mos diziam. A gente dos cls no conseguia articular os sons suficientemente 
para formar uma linguagem verbal plenamente desenvolvida. Comunicavam-se mais atravs de gestos e movimentos, mas a linguagem por meio de sinais era perfeitamente 
compreensiva e rica em nuanas.
     - Mas trevo  comida normal. Foi o que comemos ontem - gesticulou Creb.
     - Sim - disse Iza com a cabea. - E vamos comer essa noite outra vez. A mgica est no modo de preparar. Um bom punhado de trevo fervido com pouca gua extrai 
tudo que  preciso da planta, jogando-se as folhas depois fora.
     Creb acenou com a cabea em sinal de que estava compreendendo, e ela prosseguiu:
     - A casca do amieiro serve para purificar e limpar o sangue. Enxotam os espritos que envenenam o corpo.
     - Voc usou uma coisa tirada da sacola de remdios.
     - P de lpulo. Feito com pinhas bem maduras e cheias de fibras. Serve para acalmar e fazer a menina dormir em paz. Enquanto os espritos estiverem lutando, 
ela precisa descansar.
     Creb tornou a acenar com a cabea, dizendo que compreendia. Estava familiarizado com as propriedades soporferas do lpulo que, usado diferentemente, podia 
provocar agradveis estados de euforia. Embora estivesse sempre interessado nos tratamentos de Iza, raramente lhe prestava informaes sobre seus prprios mtodos 
de preparar poes. Tal conhecimento era restrito aos mog-urs e aclitos, no era para mulheres, ainda que se tratassem de curandeiras. Iza entendia mais de plantas 
do que Creb, e ele tinha medo de que ela acabasse por deduzir certas coisas. Seria bastante inconveniente, se comeasse a fazer conjeturas sobre suas mgicas.
     - E essa outra bacia? - perguntou ele.
     - Isso  apenas um caldo. A pobrezinha est morrendo de fome. O que voc acha que aconteceu com ela? De onde ser que veio? E sua gente onde estar? H dias 
que ela deve estar rodando por a sozinha.
     - Isso s os espritos podem saber - falou o Mog-ur. - Voc tem certeza de que sua mgica vai funcionar nela? Olhe que a menina  diferente de nossa gente.
     - Deve funcionar. Os Outros so humanos tambm. Voc se lembra da me contar a histria daquele homem que quebrou um brao e que a me dela ajudou a tratar? 
A mgica do cl foi boa para ele. S que os remdios para dormir fizeram com que ele levasse muito mais tempo para acordar do que se esperava.
     - Foi pena voc No ter conhecido a me de nossa me. Era uma curandeira de primeira. As pessoas dos outros cls vinham s para v-la. Uma tristeza que tenha 
to cedo deixado o mundo dos vivos, logo depois de voc ter nascido. Foi ela mesma quem me falou desse homem e tambm o Mog-ur antes de mim. Ele ainda ficou por 
uns tempos com a gente, depois que sarou. Chegou at a caar com o cl. Devia ser bom caador, pois deixaram que participasse de uma cerimnia de caa.  fato que 
so humanos, mas so muito diferentes de ns. - Interrompeu o que dizia de repente. Iza era extremamente astuta, e ele no podia permitir-se falar muito; do contrrio, 
ela poderia comear a tirar concluses por conta prpria a respeito dos rituais secretos dos homens.
     Iza testou outra vez a temperatura dos lquidos nas bacias. Aninhou, ento, a cabea da menina no colo e ps-se a dar-lhe pequeninos goles do contedo da cunja 
de osso. Foi mais fcil de dar o caldo. Enquanto murmurava coisas incoerentes, a menina tentava cuspir o remdio de gosto amargo. Mas mesmo no delrio, seu corpo 
faminto implorava por comida. Iza continuou a segur-la at que a menina caiu num sono tranquilo e, em seguida, verificou-lhe as batidas do corao e o ritmo da 
respirao. Fizera o que podia. Se a menina no tivesse ido muito longe, teria alguma chance. Daqui por diante, tudo dependia dos espritos e das foras internas 
que atuavam nela.
     Iza viu quando Brun se encaminhava em sua direo, olhando-a com azedume. Ela se levantou rapidamente e correu para ajudar a servir a comida.
     Depois daquelas primeiras consideraes, ele se esquecera da garota, mas agora voltara a pensar nela. Embora o usual fosse desviar os olhos para No ver quando 
as outras pessoas conversavam, ele No pde impedir-se de observar o que todo mundo no cl comentava. As especulaes sobre os motivos que o levaram a permitir a 
Iza trazer a criana acabaram por fazer com que tambm ele comeasse a pensar. Passou a temer que a ira dos espritos fosse aumentar ainda mais pelo fato de haver 
um estranho no meio deles. Estava-se dirigindo para interceptar Iza no seu caminho, mas Creb oviu e barrou-lhe o intento.
     - O que h de errado, Brun? Voc parece preocupado.
     - Iza tem de abandonar esta criana aqui, Mog-ur. Ela no faz parte do cl. Os espritos no vo gostar se ela ficar com a gente, enquanto estamos procurando 
por uma caverna. 
     Nunca deveria ter permitido a Iza fazer isso.
     - No, Brun - contraps o Mog-ur. - Os espritos protetores no ficaro zangados com a bondade. Voc conhece Iza, ela no consegue ver nada sofrendo sem tentar 
ajudar. 
     Acha que os espritos no conhecem tambm a garota? Se No quisessem que Iza ajudasse, a menina no seria posta no caminho dela. Deve haver uma razo para isso. 
De qualquer forma, Brun, a menina talvez morra. Se Ursus quiser chamar a menina para o mundo dos espritos, deixe que ele mesmo resolva. No se intrometa agora. 
Com toda a certeza, ela teria morrido se no fosse trazida conosco.
     Brun No estava gostando da coisa. Havia algo na menina que o incomodava. Mas, em deferncia ao maior conhecimento do Mog-ur em assuntos do outro mundo, ele 
condescendeu.
     Depois da refeio, Creb se sentou em silncio contemplativo, esperando que todos acabassem de comer para que ele comeasse a cerimnia noturna. Enquanto isso, 
Iza arranjava-lhe o lugar de dormir e fazia os preparativos para a manh do dia seguinte. 
     Enquanto no achassem a nova caverna, o Mog-ur proibira os casais que dormiam juntos de terem relaes sexuais, de modo que os homens pudessem concentrar suas 
energias nos rituais e que cada um sentisse estar dando sua contribuio pessoal para lev-los rpido  nova moradia.
     Isso no tinha importncia para Iza. Seu companheiro foi um dos que haviam morrido no desabamento da antiga caverna. No enterro, ela o pranteara devidamente 
e mostrara seu pesar, e seria de mau agouro comportar-se diferentemente. Mas ela No se sentia infeliz por ter ele partido. No era segredo para ningum que seu 
companheiro tinha sido um homem cruel e desptico. Nunca existira afeio entre os dois. No tinha idia do que Brun iria decidir sobre ela, agora que estava sozinha. 
Algum teria de mant-la, No s ela mas tambm a criana que carregava no ventre. A nica coisa que esperava  que pudesse continuar cozinhando para Creb.
     Desde os tempos dela com o seu companheiro ainda vivo que o Mog-ur compartilhava com eles da mesma fogueira. Iza percebia que ele apreciava tanto seu companheiro 
quanto ela prpria, embora Creb jamais houvesse se metido com seus problemas ntimos. Sentia-se honrada em cozinhar para o Mog-ur e, aos poucos, foi-se afeioando 
a ele tal como algumas mulheres vo criando laos de amizade com seus companheiros.
     De vez em quando, tinha pena de Creb. Se ele quisesse poderia ter arrumado uma companheira. Ela sabia, porm, que mesmo com toda sua magia e sua elevada posio 
social, nenhuma mulher olharia sem repugnncia para seu corpo disforme e sua cara marcada por hedionda cicatriz. E ela no tinha dvida de que ele tambm sabia disso. 
     Jamais assumiu uma companheira, mantendo-se nesse assunto sempre reservado. O que s fazia engrandec-lo. Todos, inclusive os homens, exceto talvez Brun, temiam 
o Mog-ur e o olhavam com reverncia. Todos, menos Iza, que desde que nascera conhecia a delicadeza de seus sentimentos. Um lado da natureza do Mog-ur que ele raramente 
deixava transparecer.
     E era justamente esse lado que naquele instante ocupava a mente do Mog-ur. Ao invs de estar meditando na cerimnia, tinha o pensamento voltado para a menina. 
Sempre sentira curiosidade sobre a gente dela, mas as pessoas do cl evitavam tanto quanto podiam os Outros. Esta era a primeira vez que ele via uma criana de sua 
espcie. Supunha que o terremoto tivesse qualquer coisa a ver com o fato de ela estar sozinha, embora fosse surpresa para ele que houvesse gente dela to perto. 
Normalmente, viviam bem mais ao norte.
     Creb percebeu que alguns homens j estavam comeando a sair e se apoiou no seu cajado para levantar-se e ir supervisionar os preparativos. O ritual, alm de 
ser um dever, era uma prerrogativa masculina. S muito rara mente se permitiam s mulheres participarem da vida religiosa do cl e, da cerimnia daquela noite, estavam 
inteiramente excludas. No poderia haver maior desastre do que uma mulher assistir aos secretos ritos dos homens. Al go que no s traria um incomensurvel azar, 
como tambm espantaria os espritos protetores. O cl inteiro morreria, se tal acontecesse.
     Mas o perigo disso era praticamente nenhum. Jamais passaria pela cabea de qualquer mulher aventurar-se a chegar por perto de um ritual daquela natureza. Na 
verdade, aqueles eram momentos por que ansiavam, quando, enfim, iam poder relaxar, estar longe das constantes exigncias dos homens e no precisar comportar-se com 
o devido decoro e respeito. Era duro para as mulheres terem os homens rondando  sua volta o tempo todo, especialmente se estavam nervosos e descarregando seu mau 
humor sobre as companheiras. 
     Em geral, eles passavam boa parte do tempo fora, caando. As mulheres, por tanto, viam-se igualmente ansiosas para encontrar de uma vez a nova moradia,mas no 
havia muito o que pudessem fazer. Brun era quem escolhia o rumo a tomar. Ele no lhes pedia conselhos e nem elas estavam autorizadas a da-los.
     As mulheres confiavam nos homens para gui-las, assumir responsabili dades por elas e tomar todas as decises importantes. O cl mudara to pouco em quase cem 
mil anos que, agora, estava incapaz de absorver qualquer coisa nova e os avanos feitos em outras eras por exigncias da adaptao haviam sido incorporados  estrutura 
gentica. Tanto o homem como a mulher aceitavam seus papis sem questionar, irremediavelmente impossibilitados de assumir qualquer outro. Para eles, querer mudar 
o tipo de relaes que os regia era o mesmo que tentar fazer crescer um brao ou modificar a forma da cabea.
     Depois de os homens terem sado, as mulheres se reuniram em torno de Ebra e esperaram que Iza fosse juntar-se a elas para, finalmente, satisfazer-lhes a curiosidade. 
Mas Iza estava exausta e no queria afastar-se da menina. Logo que Creb saiu, ela foi deitar-se ao lado da criana, embrulhando as duas com a mesma pele. Por um 
instante, ps-se a observar a garota dormindo  luz meio indistinta do fogo j quase apagado.
     Que coisinha curiosa, pensou. De certo modo, bem feia. Seu rosto fica to chato com esta testa para fora e esse toquinho de nariz. E que osso esquisito debaixo 
da boca, parece mais um caroo. Quantos anos ter?  mais criana do que eu havia imaginado. Ela  bastante alta, fica tudo muito enganador. To magrinha que posso 
sentir todos os ossos dela. Pobre menina. Gostaria de saber h quanto tempo est sem comida e andando sozinha por a. Iza passou o brao em torno da garota, querendo 
proteg-la. A mulher que, em caso de necessidade at de animais cuidava, no poderia agir diferente com aquele ser to miservel, que era s pele e osso. Todo o 
seu generoso corao estava entregue quela pobre criana indefesa.
     Enquanto os homens chegavam, o Mog-ur conservou-se afastado, esperando que todos se acomodassem, para ento ir postar-se em seu lugar, atrs de uma pedra arrumada 
dentro de um crculo, por sua vez rodeado por um crculo maior de tochas acesas. Estavam em pleno terreno das estepes, longe do acampamento. O feiticeiro esperou 
que todos estivessem sentados e foi para dentro do crculo carregando um pequeno archote de madeira aromtica. 
     Colocou a tocha no cho num espao vazio, prximo de onde se achava seu cajado.
     Ficou ereto sobre sua perna sadia, no meio do crculo e olhou, por cima das cabeas dos homens sentados, a distncia, na escurido, com um olhar vago e sonhador, 
como se visse com seu olho nico um mundo para o qual os outros eram cegos. Envolto pela pesada capa de pele de urso que no cobria as salincias desirmanadas de 
seu vulto assimtrico, era uma figura imponente, se bem que fazendo uma presena estranhamente irreal. Um homem, apesar da forma desvirtuada, no propriamente um 
homem ou qualquer coisa semelhante, mas algo de diferente. A prpria deformidade imbua- o de uma qualidade sobrenatural que nunca se mostrava to Intimidadora como 
quando ele estava  frente dos rituais religiosos.
     Subitamente, num passe de mgica, mostrou uma caveira. Segurou-a com seu musculoso brao esquerdo por cima da cabea e, vagarosamente, fez a volta ao crculo 
para que todos vissem aquela inconfundvel forma arredondada. Os homens olhavam fixamente para a caveira, brilhando sua brancura  luz trmula das tochas. Em seguida, 
Creb colocou-a no cho, em frente a seu archote e se sentou atrs deste, fechando o espao vazio do crculo.
     Um rapaz, sentado a seu lado, levantou-se e apanhou uma bacia de madeira. Tinha pouco mais de 11 anos e seu ritual de passagem havia ocorrido algum tempo antes 
de acontecer o terremoto. Goov fora escolhido para aclito, ainda bem menino, e frequentemente auxiliava o Mog-ur nos preparativos. Entretanto, s se permitiam aos 
aclitos assistirem a uma cerimnia de verdade depois de j homens feitos. A primeira vez que Goov passou a exercer sua funo foi quando comearam a buscar moradia 
e ele ainda se sentia nervoso executando suas tarefas.
     Para Goov, a descoberta de uma nova caverna representava algo de muito especial. Era sua oportunidade de aprender do prprio Mog-ur os detalhes de uma cerimnia 
raramente executada e de difcil descrio: os ritos que faziam de uma caverna aceitvel para moradia. Em criana, sentia medo do feiticeiro, apesar de entender 
a honra de ser escolhido para aclito. Mas aos poucos comeara a compreender que aquele homem aleijado no s era o mais competente feiticeiro de todos os cls, 
mas que tambm tinha um corao generoso, sob aquela mscara de austeridade. Goov respeitava seu mentor.
     O aclito iniciara a preparao da beberagem que se achava na bacia, to logo Brun dera a ordem de fazer alto. A primeira coisa que fez foi apanhar duas pedras 
para triturar ps de datura, que esmigalhou com as folhas, talos e flores. A parte mais difcil era a de dosar a quantidade certa de cada uma dessas coisas. Depois, 
despejou gua fervendo, deixando que as plantas ficassem em infuso at a hora da cerimnia.
     Alguns instantes antes de o Mog-ur entrar no crculo, Goov despejou o ch de datura numa bacia - de uso exclusivo das cerimnias religiosas - que apertava entre 
as mos, aguardando, ansioso, o sinal de aprovao do todo-poderoso feiticeiro. O Mog.ur tomou um gole, acenando em aprovao, e depois bebeu mais, para alvio de 
Goov, que soltou um silencioso suspiro. Em seguida, o rapaz passou a bacia diante de cada um, obedecendo  hierarquia do cl. O primeiro foi Brun. Ele segurava a 
bacia e controlava a quantidade que iam bebendo at que chegou sua vez, o ltimo a tomar.
     O Mog-ur esperou que seu aclito se sentasse para fazer um sinal. Imediatamente, todos passaram a bater ritmicamente no cho com a parte grossa das lanas. 
As pancadas surdas e montonas foram crescendo em intensidade at que nenhum outro som era mais ouvido. 
     Inteiramente tomados pelas batidas sempre iguais, levantaram-se e se puseram a movimentar o corpo dentro do ritmo. O Mog-ur tinha os olhos presos na caveira, 
e a fora desse olhar acabou atraindo a ateno dos homens para a sagrada relquia como se por vontade dele. O senso de oportunidade era importante e, nisso, ele 
era um mestre. 
     Mantinha exatamente o tempo necessrio para conservar a expectativa do ponto culminante. Um pouquinho mais e o clima de tenso estaria perdido. Olhou, ento, 
para seu germano o homem que tinha a responsabilidade de conduzir o cl. Brum veio agachar-se diante da caveira.
     - O Esprito do Biso, Totem de Brun - comeou o Mog-ur.
     De fato, pronunciou apenas Brun, o resto foi dito por meio de gestos, sem verbalizar qualquer outra palavra. Tudo que se seguiu foi uma srie de movimentos 
convencionais de uma antiga linguagem No articulada, reservada  comunicao com os espritos e com os outros cls, cujos poucos sons guturais e gesticulaes nem 
sempre conferiam com a maneira de expressar deles. Era uma prece silenciosa em que o Mog-ur implorava ao Esprito do Biso para que os perdoasse de qualquer falta 
cometida que o tivesse ofendido e pediu por fim, que os ajudasse.
     Este homem sempre honrou os espritos, Grande Biso. Sempre zelou pelas tradies do cl. Este homem  um chefe forte, sbio, generoso, bom caador e o sustento 
de sua famlia. Um homem controlado, digno do poderoso Biso. No o abandone. Conduza-o  nova casa, um lugar onde possa estar feliz. O cl pede pela ajuda do totem 
deste homem - disse, como concluso. Em seguida, aps a retirada de Brun, lanou um olhar na direo do segundo em comando, e Grod veio agachar-se diante da caveira 
do urso da caverna.
     A nenhuma mulher era permitido assistir  cerimnia, porque ficariam elas sabendo que aqueles homens que se portavam sempre com uma fora verdadeiramente estica 
pediam e imploravam a foras invisveis, tal como elas o faziam junto a eles.
     - O Esprito do Urso Marrom, Totem de Grod - recomeou o Mog-ur, prosseguindo com uma prece em termos semelhantes, mas endereada ao totem de Grod. E assim 
foi feito com todos os outros. Depois de terminar, voltou seus olhos novamente para a caveira, enquanto as batidas surdas se faziam ouvir, numa outra expectativa 
de clmax.
     Todos j sabiam o que estava para vir. A cerimnia jamais mudava, eraa mesma, noite aps noite. Contudo, a expectativa nunca deixava de renovar-se. Esperavam 
pela invocao  do Esprito do Ursus, o Grande Urso da Caverna e totem do prprio Mog-ur, o mais venerado de todos os espritos.
     Ursus no era somente o totem do Mog-ur. Ele pertencia a todos e era mais do que um totem. Havia sido Ursus quem fizera deles uma raa, a raa dos cls. Ele 
era o esprito supremo e supremo protetor. A reverncia ao Urso da Caverna era o fator comum que os unia, a fora que fazia de todos os cl vivendo separadamente 
e com autonomia, um nico povo. O povo dos Cls do Urso da Caverna.
     Quando o feiticeiro achou que j era tempo, deu o sinal. Os homens pararam de bater e foram sentar-se, mas o cadenciado das batidas estava nas suas correntes 
sanguneas e continuava soando em suas cabeas.
     O Mog-ur pegou, ento, numa pequena sacola e tirou de dentro uma pitada de um p (esporos secos de licopdio). Mantendo a mo por cima do pequeno archote, ele 
se inclinou para a frente e soprou a chama ao mesmo tempo em que despejava o p sobre o fogo. Os esporos se incendiaram produzindo dramaticamente em torno da caveira 
uma cascata de fagulhas de magnsio, num violento contraste com a escurido da noite.
     A caveira brilhava como se animada de vida e, na verdade, estava, pelo menos para aqueles que tinham a percepo alterada pelos efeitos da bebida. Numa rvore 
perto, uma coruja soltou seu grito - como se por encomenda - elevando o esplendor fantasmagrico com o som de sua voz agourenta.
     - Grande Ursus, Protetor dos Cls! - falou o feiticeiro por meio dos gestos convencionais. - Mostre a este cl uma nova casa, tal como outrora o Urso da Caverna 
mostrou aos cls como viver em cavernas e a se vestir com peles. Proteja seu cl contra a Montanha de Gelo e contra o Esprito da Neve Granular que o gerou e tambm 
contra o Esprito das Nevascas, o seu companheiro. Este cl pede ao Grande Urso da Caverna para no deixai que nenhum mal lhe suceda, enquanto estiver sem lar. Reverendssimo 
esprito de todos os espritos, os cls aquele que  o seu povo implora ao esprito do todo-poderoso Ursus para se juntar a ele, enquanto faz a viagem de volta ao 
princpio.
     Neste ponto, o Mog-ur passava a usar a fora de seu formidvel crebro.
     Todos aqueles povos primitivos sem lbulos frontais e de fala limitada devido ao atrofiamento dos rgos vocais tinham crebros avantajados, maior do que de 
qualquer outra raa da mesma poca ou de futuras geraes ainda por nascer. Representavam o ponto culminante de um ramo da espcie humana cujo crebro desenvolveu-se 
na parte traseira da cabea, nas regies occipital e parietal, aquelas que controlam o rgao da viso e que respondem tambm pela sensao do corpo e pela memria.
     E era justamente a memria que fazia deles seres extraordinrios. Neles, o conhecimento Inconsciente do comportamento ancestral, dito instinto, era extremamente 
desenvolvido. 
     Armazenada na zona anterior de seus imensos crebros, no estava apenas a memria particular do Indivduo, ali se achava tambm as memrias pertencentes a seus 
antepassados e, em certas circunstncias, eles podiam ainda dar um passo mais alm. Podiam recordar-se de sua memria racial e de sua prpria evoluo E quando voltavam 
muito atrs em suas recordaes podiam fundir esta memria, a mesma em todos eles, juntando suas mentes telepaticamente.
     Mas s no tremendo crebro da monstruosa figura do aleijado esta faculdade se achava plenamente desenvolvida. Creb, o bondoso e tmido Creb, cuja enorme cabea 
fora a causa de seu aleijo, tinha, como Mog-ur, aprendido a usar o poder desse crebro para fundir as entidades separadas, que estavam sentadas ao redor dele, numa 
nica mente e dirigi-la. 
     Podia lev-las a qualquer ponto de sua herana racial e transform-las em mentes pertencentes a seus antepassados. Ele era O Mog-ur. Seu poder era real, No 
se restringia a meros truques de luzes e ingesto de alucingenos. Isso servia apenas para criar o clima e faz-los aceitar sua direo.
     Naquela noite escura e sossegada, somente iluminada por velhas estrelas, alguns homens reviveram cenas impossveis de ser descritas. Eles no viram apenas. 
Eram parte delas. Viram com os olhos, sentiram na pele, lembrando-se dos insondveis primrdios da existncia. Nas profundezas de suas mentes, eles encontraram os 
crebros ainda no desenvolvidos de criaturas marinhas, flutuando em quentes ambientes calmos. 
     Sobreviveram  dor do primeiro ar respirado e se tornaram em anfbios, partilhando dos dois elementos.
     Porque adoravam o urso da caverna, o Mog-ur evocou neles a lembrana do mamfero primordial - o ancestral que deu origem a duas espcies e a uma legio de outras 
- e fundiu a unidade de suas mentes com a origem do urso. E assim, atravs das idades, foram sucessivamente vivenciando todos os seus antepassados e sentindo aqueles 
que divergiram para tomar outras formas. Isso os tornava conscientes de sua relao com toda espcie de vida na terra e o respeito que nutriam at pelos animais 
que matavam e comiam formava a base do parentesco espiritual com seus totem.
     Suas mentes se processavam como uma s, apenas quando se aproximaram do presente se separaram nas de seus pais e, por fim, na de cada um deles. Pareceu ter 
durado uma eternidade e, num sentido, durou, mas de fato foi pouco o tempo transcorrido. Quando voltavam a si, levantavam-se e saam para ir dormir um sono profundo 
e sem sonhos, pois sonhar mais j no era possvel.
     O Mog-ur foi o ltimo. Em sua solido, ps-se a meditar sobre a experincia. Aps certo tempo, comeou a sentir uma estranha Inquietude. Eles podiam conhecer 
o passado com a profundidade e a grandeza que elevava a alma, mas s Creb sentia um tipo de limitao que jamais seria percebida pelos outros. Eles No tinham a 
capacidade de projeo, nem mesmo pensar um pouco adiante podiam. Apenas Creb fazia uma plida idia dessa possibilidade.
     A raa dos cls no conseguia conceber um futuro diferente do passado, nem alternativas inovadoras para o amanh. Todo o conhecimento e tudo o que fazia era 
repetio de alguma coisa j feita anteriormente. At mesmo o armazenamento de comida necessrio s mudanas de estaes era resultado de experincias passadas.
     Houve poca, muito distante, quando a inovao  se processava com facilidade. Foi no tempo em que uma pedra lascada com um bordo afiado sugeriu a algum quebrar 
outra de propsito e fazer-lhe um gume cortante, ou quando a extremidade quente de um pau que algum girava deu-lhe a idia de gir lo por mais tempo e com mais 
fora para saber at que ponto o calor obtido podia chegar. Mas,  medida que o nmero de memrias foi-se acumulando, enchendo e alargando a capacidade de armazenamento 
dos crebros deles, as mudanas foram ficando mais difceis. No havia mais espao para novas idias em seus bancos de memria, as cabeas j estavam extremamente 
grandes. s mulheres passaram a ter problemas de parto, e eles no podiam mais dar-se ao luxo de adquirir novos conhecimentos, aumentando-lhes ainda mais o tamanho 
da cabea.
     Os cl viviam de acordo com tradies inexorveis. Todas as facetas de suas vidas, desde que nasciam at que eram chamados ao mundo dos espritos, estavam circunscritas 
ao passado. Era uma tentativa de sobrevivncia, inconsciente, no planejada, a no ser pela natureza, num derradeiro esforo para salvar a raa da extino e destinada 
 falncia. S que No podiam parar de mudar, resistir a isso significava auto-anular-se, era o prprio conceito da anti- sobrevivncia.
     Eram extremamente lentos na adaptao. Invenes se faziam ao acaso e quase sempre no as punham em prtica. Se qualquer coisa de novo lhes acontecesse, a nova 
informao seria estocada num compartimento de reservas e a mudana se faria com grande esforo; mas, uma vez Imposta, eles se mostravam inflexveis e seguiam  
risca o novo curso. Alter-lo novamente seria demasiadamente penoso. Mas uma raa sem espao para aprender, para desenvolver-se, deixou de estar equipada para um 
meio ambiente passando por transformaes fundamentais. Eles haviam perdido o momento de desenvolver-se diferentemente. Isso ficaria a cargo de uma forma mais nova 
de vida, de algum experimento diferente da natureza.
     Enquanto se sentava sozinho, em pleno campo aberto, vendo a ltima das tochas crepitando e extinguindo-se lentamente, Creb lembrou-se da estranha menina que 
Iza encontrara e sua Inquietude aumentou ainda mais, chegando a ser quase um desconforto fsico. J haviam encontrado a espcie dela antes, mas, por seus clculos, 
s recentemente, e os poucos encontros casuais no haviam sido muito agradveis. De onde teriam vindo eles era um mistrio. A gente dela estava recm-chegada  terra 
deles, mas, desde que haviam surgido, comearam a haver mudanas. Eram pessoas que pareciam trazer a mudana consigo.
     Creb, ignorando seu mal-estar, enrolou com cuidado a caveira do ursona capa, pegou o cajado e, em seu passo coxo, foi para a cama.
     

***

Captulo 3
     
     A menina se virou, comeando a debater-se, agitada.
     - Mame - murmurava, batendo com os braos e chamando cada vez mais alto. - 
     Mame! Mani
     Iza segurou-a, sussurrando-lhe baixinho. Era como um ronco surdo e suave, O calor de seu corpo e seus rudos acalentadores penetravam no cre bro febril da 
menina, aquietando-a. 
     Ela passara a noite num sono intranquilo, acordando frequentemente a mulher com suas sacudidelas, seus murmrios e palavras delirantes. Eram sons estranhos, 
diferentes daqueles expressados pela gente dos cls. Saam com facilidade, fluindo livremente, cada som imiscudo em outro. Impossvel a Iza querer reproduzir muitos 
deles. Seus ouvidos no estavam condicionados quelas sutis variaes sonoras. Como, no entanto, um certo nmero de sons era repetido constantemente, Iza concluiu 
que deveria ser o nome de algum chegado  criana e, ao notar que sua presena a acalmava, percebeu quem era esse algum.
     Ela no deve ser muito velha, no soube nem como achar comida para matar a fome, pensava Iza consigo. O que eu gostaria de saber  h quanto tempo est sozinha. 
O que poderia ter acontecido com o povo dela? Teria si do apanhado pelo terremoto? Ser que est rodando sozinha desde essa ocasio? E como teria escapado de um 
leo s com alguns arranhes Iza j havia tratado de bastantes ferimentos para saber que aqueles s poderiam ter si do feitos por algum gato gigantesco. Espritos 
poderosos devem proteg-la, concluiu a mulher consigo mesma.
     Quando, por fim, a febre comeou a ceder, com a menina banhada de Suor, a madrugada j se aproximava, embora ainda estivesse escuro. Iza aninhou-a perto de 
seu corpo, aumentando-lhe o calor e se certificando de que estava bem coberta. A menina acordou pouco tempo depois, querendo saber onde se encontrava, mas estava 
muito escuro para ver. 
     Sentiu a proteo daquele corpo junto ao seu e tormou a fechar os olhos, embalada j por um sono mais tranquilo.
     Ao clarear o cu, fazendo aparecer as silhuetas das rvores sob os plidos raios de luz, Iza arrastou-se em silncio para fora da coberta. Atiou o fogo, acrescentou 
mais lenha, indo em seguida ao pequeno crrego para encher sua bacia e apanhar mais cascas no tronco de salgueiro. Por um instante, deu uma parada e, agarrando o 
amuleto, agradeceu aos bons espritos pela presena ali do salgueiro. 
     Sempre agradecia aos espritos, no s pela onipresena dessa rvore, como tambm por suas propriedades analgsicas. J nem se lembrava de quantas vezes teve 
de fazer ch de cascas de salgueiro para aliviar dores e sofrimentos. Conhecia outros remdios mais fortes contra dores, s que esses tiravam a dor, mas embotavam 
os sentidos. O salgueiro no, atacava apenas a dor e diminua a febre.
     Algumas pessoas haviam comeado seus afazeres, quando Iza agachou se junto do fogo, apanhando pedras para pr na bacia cheia de gua com cascas de salgueiro. 
Depois de pronto, ela foi para o lugar onde se achava sua pele e colocou com cuidado a bacia numa depresso escavada no terreno. Em seguida, silenciosamente, meteu-se 
sob a pele, ao lado da menina. Ficou observando-a dormir, reparando que tinha a respirao  normal. Iza estava intrigada com seu rosto. A queimadura de sol comeara 
a tomar uma cor bronzeada, exceto o pequenino nariz que ainda descascava no cavalete.
     A curandeira j havia visto pessoas da raa dela, mas s uma vez e a distncia. As mulheres dos cl sempre corriam e se escondiam, quando as encontravam. Incidentes 
desagradveis ocorridos nos poucos encontros casuais de gente dos cl com os Outros eram comentados em suas reunies peridicas, por isso os evitavam. s mulheres, 
especialmente, No era permitido muito contato. Mas a experincia particular de seu cl no fora m. Iza lembrou-se da conversa com Creb sobre o homem que, h muito 
tempo, entrara cambaleando na caverna, tonto de dor, com seu brao quebrado.
     Ele chegou a aprender um pouco da lngua, mas seus modos eram muito estranhos. 
     Gostava de conversar tanto com as mulheres como com os homens e tratava a curandeira com toda a deferncia, quase que com venerao Isso na o havia impedido 
de ganhar o respeito dos homens. Deitada de olhos abertos, com o dia j clareando, examinava a criana, deixando-se levar por suas divagaes, pensando nos Outros.
     Enquanto a olhava, um raio de sol que se insinuava no horizonte bateu-lhe no rosto. As plpebras tremelicaram e a menina abriu os olhos, dando com outros enormes, 
castanhos, profundamente encravados debaixo das sobrancelhas, num rosto que se projetava de certo modo como um focinho.
     A menina soltou um grito e apertou os olhos novamente. Iza puxou-a para perto, sentindo seu corpo magricelo tremendo de medo e se ps a murmurar alguns sons 
suaves. Os rudos que fazia tinham qualquer coisa de familiar para a criana, mais familiar, entretanto, era o calor do corpo que a aconchegava. Aos poucos, a menina 
foi parando de tremer. Abriu uma pontinha dos olhos e olhou de novo para Iza. Desta vez, j no gritou. Por fim, abriu-os por inteiro e fixou a cara assustadora, 
inteiramente desconhecida para ela.
     Iza tambm, espantada, fixou seus olhos na menina. Nunca havia visto at ento olhos cor do cu. Por um instante, pensou se a criana no seria cega. Os olhos 
das pessoas idosas dos cl s vezes, criavam uma pelcula por cima e,  medida que essa pelcula ia fazendo uma sombra cada vez mais clara, nublando os olhos, a 
viso ia empanando-se. Mas as pupilas da menina dilatavam-se normalmente, no havendo dvida de que tinha visto sua figura. Essa cor de azul claro acinzentado deve 
ser normal nela, pensou Iza.
     A menina permaneceu deitada, de olhos bem abertos, mas completamente imvel, com medo de mexer um s msculo. Quando por fim se sentou com a ajuda de Iza, encolheu-se 
com a dor sentida e as lembranas dos ltimos dias passaram-lhe pela cabea aos borbotes. Com um estremecimento, lembrou-se da garra afiada do monstruoso leo riscando 
com sangue sua perna. Lembrou-se dos momentos em que se debateu na correnteza do rio, desde de que havia vencido seu medo e da dor na perna. Mas do que acontecera 
antes disso no se lembrou. Bloqueara na memria todo seu pavoroso sofrimento, No se recordou de suas andanas solitrias, da sede e da fome sofrida, do monstruoso 
terremoto e das pessoas queridas que havia perdido.
     Iza levou a cuia com o ch at os lbios da menina. Ela estava com sede e tomou um gole, fazendo uma careta ao sentir o gosto amargo. Mas quando novamente Iza 
tornou a botar a conja em sua boca, voltou a beber; estava amedrontada demais para tentar qualquer resistncia. Iza balanou a cabea em sinal de aprovao e saiu 
para ajudar as outras mulheres no preparo da refeio matinal. Os olhos da garota acompanharam Iza, arregalando-se ao dar com aquele acampamento repleto de gente 
parecida com aquela mulher.
     O cheiro da comida cozinhando fez com que seu estmago desse pulos e, quando a mulher voltou com uma pequena conja cheia de caldo de carne engrossado com farinha 
de fibras trituradas, a menina, esfaimada, engoliu tudo sofregamente. A curandeira achava que ainda No estava na hora de dar-lhe comida slida. No era necessrio 
muita coisa para encher-lhe o estmago desacostumado de comida e Iza guardou a sobra numa sacola impermevel, para que a garota tomasse durante a viagem. Depois 
que terminou de comer, Iza deitou-a e retirou o curativo da perna. As feridas purgavam, mas a inchao diminura.
     - Muito bem - disse Iza, em voz alta.

     A criana deu um pulo ao ouvir pela primeira vez os sons speros e guturais emitidos pela mulher. Aquilo No tinha nada a ver com palavras. Para seus ouvidos 
desacostumados, pareciam mais grunhidos ou roncos de animal. Mas o comportamento de Iza estava longe de ser animal, era humano e bem humano. A curandeira j tinha 
pronto outro cataplasma de pasta de razes e, enquanto fazia a aplicao, um homem desengonado, disforme, veio coxeando na direo delas.
     Era a figura mais repulsiva e medonha que a menina j vira em sua vida. Num dos lados do rosto havia uma horrenda cicatriz e o lugar onde deveria existir um 
dos olhos achava-se coberto por um retalho de couro. Para ela, entretanto, aquela era uma gente to estranha e to feia que o fsico desfigurado e intimidador de 
Creb era apenas uma questo de grau. 
     Ela no tinha noo de quem eram aquelas pessoas e como fora parar em seu meio, mas sabia que estava sendo tratada. Havia sido alimentada, o curativo refrescava 
e diminua a dor em sua perna e, inconscientemente, sentia-se mais tranquila, sem o estado de tenso que lhe provocava um medo doloroso. Por mais estranhas que fossem 
tais pessoas, com elas, pelo menos, No estaria sozinha.
     O aleijado diminuiu o passo para examinar a menina melhor. Ela devolveu-lhe o olhar com franca curiosidade, o que o deixou surpreso. As crianas do cl estavam 
sempre com receio dele. Bem depressa, aprendiam que at os mais velhos sentiam por ele um temor respeitoso. 
     Alm disso, as maneiras arredias do velho feiticeiro no encorajavam maiores familiaridades e o abismo aumentava mais, quando os filhos chegavam numa certa 
idade e as mes passavam a amea-los com a figura do Mog-ur, se eles no se comportassem bem. Na poca em que se aproximavam da idade adulta realmente sentiam medo 
dele, sobretudo as meninas. S mais tarde, na idade madura,  que conseguiam contrabalanar o medo com o respeito. O olho bom de Creb, no lado direito do rosto, 
acendeu-se de interesse. No esperava aquele destemido olhar.
     - A criana est melhor, Iza? - perguntou ele, indicando a menina. Sua voz era num tom mais baixo do que a da mulher, mas, para a garota, continuava igualmente 
parecendo grunhidos. Ela no reparou na gesticulao da mo dele. Era uma linguagem inteiramente estranha, percebia apenas que o homem comunicava alguma coisa  
mulher.
     - Ela ainda est fraca por causa da falta de comida - respondeu Iza. - Mas o ferimento j est melhor. As unhadas pegaram fundo na carne, mas no deram para 
afetar a perna e a infeco ainda purga. Foi um leo da caverna que fez isso, Creb. Voc j viu algum leo se contentar s com uns arranhes depois de ter atacado? 
Estou espantada que ela ainda esteja viva. Seus espritos protetores devem ser muito fortes. Mas... o que estou dizendo? Nada sei sobre espritos.
     Realmente falar sobre espritos no era assunto prprio para uma mulher ter com o Mog-ur, mesmo que essa fosse sua germana. Iza fez um gesto de humildade, pedindo-lhe 
desculpas por sua presuno Ele no tomou conhecimento e nem ela esperava que o fizesse, mas, em compensao Creb olhou para a criana ainda com maior interesse. 
     Tambm tinha pensado quase a mesma coisa, embora jamais fosse admiti-lo, a opinio de sua irm pesava muito para ele e, no caso, veio confirmar seus pensamentos.
     Rapidamente, eles levantaram o acampamento. Iza se armou com sua cesta e trouxas, iou a menina para seu quadril e foi meter-se atrs de Brun e Grod. Durante 
a viagem, montada na anca da mulher, a garotinha ia olhando, cheia de curiosidade  sua volta, observando tudo que Iza e os outros faziam. Ficava principalmente 
interessada na comida que catavam. 
     Iza estava sempre lhe dando para morder alguma plantinha fresca ou algum pedao macio de raz e isso lhe trouxe uma vaga lembrana de outra mulher que tambm 
fazia assim com ela. Mas agora punha toda sua ateno nas plantas, observando as caractersticas particulares de cada uma. Seus dias de fome fizeram nascer nela 
um vivo desejo de aprender como encontrar comida. A menina apontou uma planta para Iza e ficou alegre de ver que a mulher parou e foi cavar-lhe a raz. Iza tambm 
ficou contente. A menina  viva, pensou, ela no devia conhecer isto, seno teria comido.
     J perto do meio-dia, pararam para descansar, enquanto Brun examinava nos arredores as possibilidades de uma caverna. Depois de dar o resto do caldo, trazido 
na sacola de couro impermevel, Iza ofereceu  menina uma tira de carne-seca para mastigar. A caverna no satisfez s exigncias. J chegando mais para a tarde, 
a perna da menina passou a latejar, quando comeou a diminuir o efeito analgsico das cascas de salgueiro. Ela se remexia irrequieta. Iza fez-lhe uma festinha, ajeitando-a 
numa posio mais confortvel. A menina deixou-se inteiramente entregue aos cuidados da mulher. Com total confiana e abandono, passou os braos magros em torn do 
pescoo de Iza, descansando a cabea sobre seus ombros largos. A curandeira que, por tantos anos, havia vivido sem filhos, sentiu brotar-lhe uma onda de ternura 
pela pequena rf. Ela ainda estava fraca e cansada, mas, embalada pelas passadas ritmadas de Iza, acabou adormecendo.
     Com o pr-do-sol j se aproximando, Iza sentia o esforo que fazia para aguentar o peso extra que levava e deu graas quando Brun ordenou alto e ela pde enfim 
botar a menina no cho. A garota tinha febre, os olhos brilhavam, e as bochechas estavam coradas e quentes. Assim, quando foi catar lenha para fazer fogo, Iza procurou 
tambm plantas para renovar os curativos. Ela no sabia o que provocava infeces, mas sabia como trat-las, bem como uma srie de outras enfermidades.
     Embora a arte de curar fosse expressada em termos de bruxaria e magia, nem por isso a medicina de Iza deixava de ter sua eficcia. Os velhos cls sempre viveram 
da caa e da colheita de plantas. O uso emprico da flora no estado bruto feito por sucessivas geraes acabou por reunir grande nmero de informaes sobre o assunto. 
E os animais, depois de mortos, tinham suas peles removidas, eram esquartejados e os rgos observados e comparados. Ento quanto preparavam as refeies, as mulheres 
dissecavam os bichos, prestando ateno  sua anatomia, para depois aplicar esse conhecimento s pessoas.
     A me de Iza, como parte do treinamento da filha, lhe havia mostrado os diferentes componentes internos do animal, explicando-lhe as funes. No entanto, fazia 
assim apenas para lembrar Iza de coisas que ela j sabia. Iza vinha de uma linhagem de curandeiras altamente respeitadas e, por meios mais misteriosos do que a simples 
aprendizagem, o conhecimento mdico ia passando de me para filha. Uma curandeira, novata ainda no ofcio, mas com antecedentes ilustres, era mais considerada do 
que outra contando apenas com sua prtica e seu saber, e havia boas razes para isso.
     O conhecimento adquirido por seus ancestrais, uma longa linha de curandeiras da qual Iza descendia diretamente, achava-se armazenado em seu crebro desde que 
nascera. Podia lembrar-se do que suas avs outrora souberam, e isso no era muito diferente do que lembrar-se de suas prprias experincias. Uma vez estimulado, 
o processo se fazia automaticamente. Conhecia a origem de suas prprias memrias, porque se lembrava de circunstncias associadas a estas. Nunca se esquecia de nada, 
e podia recordar o conhecimento estocado em seu banco de memrias, mas no como ele fora aprendido por suas antepassadas. Apesar de serem filhos dos mesmos pais, 
nem Creb nem Brun possuam o saber mdico de Iza.
     As memrias nos indivduos dos cl se faziam diferentemente nos dois sexos. As mulheres tinham tanta necessidade de saber sobre caa, quanto os homens no precisavam 
do mais rudimentar conhecimento de plantas. A diferena entre o crebro masculino e o feminino era imposta pela prpria natureza, e a cultura a sedimentava. Essa 
era outra tentativa da natureza para limitar o tamanho da cabea, em seu esforo de prolongar a vida daquela raa. Qual quer criana que trouxesse de seu nascimento 
um tipo de conhecimento caracterstico do sexo oposto ao dela iria perd-lo pela falta de estmulo, quando atingisse o status adulto.
     Entretanto, a tentativa da natureza de salvar a raa da extino trazia em seu prprio bojo os elementos da destruio Se os dois sexos eram essenciais  procriao, 
igualmente um precisava do outro no dia-a-dia; separados, no sobreviveriam por muito tempo. E estavam impossibilitados de adquirir o conhecimento, pois no tinham 
a memria deste.
     Outra particularidade da raa dos cl era a de que os seus indivduos
     - homens e mulheres - haviam sido dotados de uma viso extremamente fina e perceptiva, embora usada de diferentes modos. O terreno, enquanto viajavam, fora 
gradualmente mudando e, no seu subconsciente, Iza havia guardado cada detalhe dos lugares por onde passaram, especialmente no que se referia  vegetao. Podia discernir 
 grande distncia as menores variaes da forma de  uma folha ou na altura de algum talo. 
     Embora houvesse certas plantas, alguma rvore ou um arbusto ou flor que nunca vira antes, todos, de certa maneira, lhe eram familiares. Num recanto l no fundo, 
atrs de seu enorme crebro, ela ia buscar o conhecimento da planta, na memria que havia nascido com ela. 
     No entanto, com todo esse imenso reservatrio de informaes a seu dispor, assim mesmo, comeara a ver, desde algum tempo, certos vegetais completamente desconhecidos, 
to estranhos quanto a prpria regio por onde passavam. Teria gostado de examin-los mais de perto. Todas as mulheres estavam tambm curiosas sobre a flora do lugar. 
Apesar de isso representar aquisio de conhecimento, esse era essencial  sua sobrevivncia.
     Tambm fazia parte da hereditariedade feminina saber como testar uma planta desconhecida. Da mesma forma que as outras mulheres, Iza se ps a experimentar os 
vegetais que lhes eram estranhos. As plantas novas semelhantes quelas j conhecidas eram postas em categorias correlatas, mas Iza sabia dos riscos que havia em 
tomar caractersticas semelhantes por propriedades idnticas. O procedimento num teste era simples. Primeiro, ela dava uma pequena mordida. Se o gosto fosse desagradvel, 
cuspia imediatamente. Ao contrrio, se agradvel, retinha na boca uma mnima poro da planta, prestando o mximo de ateno s mudanas do paladar, se picava, queimava 
etc. 
     Se nada acontecesse, ela engolia e esperava para ver se era possvel detectar alguns efeitos. No dia seguinte, dava uma mordida maior, procedendo da mesma forma 
anterior. Caso nenhum efeito nocivo fosse observado, depois do terceiro dia de teste, a planta passava a ser considerada comestvel, inicialmente em pequenas quantidades.
     Contudo, Iza quase sempre ficava mais interessada quando havia efeitos perceptveis, pois significavam a possibilidade de a planta ter algum uso medicinal. 
E as outras mulheres, depois de aplicar o mesmo teste, traziam para ela qualquer coisa que lhes parecesse estranha, bem como todas as plantas com caractersticas 
parecidas com aquelas que sabiam ser venenosas ou txicas. Procedendo com cautela, Iza fazia tambm testes com estas, mas aplicando mtodos exclusivamente seus. 
Como os testes levavam tempo, ela preferia, enquanto viajavam, continuar s com as plantas j conhecidas.
     Perto do acampamento, encontrou uma quantidade de ps de malva, altos, de caules finos como varetas e de flores grandes de tonalidades fortes. Tais como as 
razes de ris, tambm as dessa planta com flores multicolori das davam cataplasmas que serviam para reduzir inchaes, processos inflamatrios, apressando a cura. 
O ch de malva no s era bom para anestesiar dores, como tambm servia para fazer dormir. Assim, junto com a lenha, as malvas foram colhidas.
     Depois da refeio da noite, a garota, sentada contra uma enorme pedra, ficou observando as actividades das pessoas a seu redor. A comida e um curativo novo 
a haviam revigorado, e ela, agora, falava animada com Iza, apesar de no ter muita certeza de estar sendo entendida. As pessoas olhavam em sua direo com ar de 
reprovao, mas ela no compreendia o significado latente naqueles olhares. O atrofiamento dos rgos vocais impedia a raa dos cl de ter uma articulao precisa. 
Os poucos sons que usavam com carter de exclamaes tinham evoludo de gritos de advertncia ou de uma necessidade de chamar ateno, e a importncia que atribuam 
s verbalizaes fazia parte de suas tradies. Os meios primitivos de comunicao - sinais de mios, gestos, posturas, os costumes estabelecidos, a intuio nascida 
do contato ntimo entre as pessoas e o fino discernimento de expresses, tanto do rosto como do corpo - eram bastante expressivos, mas limitados. Era, por exemplo, 
com a maior dificuldade que tentavam descrever algum objeto novo que ainda no conhecessem, e mais difcil ainda era a expresso do pensamento abstrato. A fluncia 
da garota, portanto, deixava-os perplexos e desconfiados.
     Eles tinham grande apego s crianas, que cercavam de terna e amorosa afeio. S quando elas ficavam mais velhas  que a disciplina passava a ser mais rgida. 
Os bebs eram mimados tanto pelas mulheres como pelos homens, e a maneira que tinham para castigar uma criana era a de simplesmente no tomar conhecimento de sua 
pessoa.  medida que iam crescendo, comeavam a tomar conscincia do status das mais velhas e dos adultos, passando a imitar-lhes as atitudes e j No querendo ser 
mais mimadas, coisa de bebs. Aprendiam desde cedo a se comportar dentro das estritas regras do cl, e uma delas  a de que no se devia emitir sons suprfluos, 
algo bastante fora de propsito. Devido  sua altura, a menina parecia-lhes mais velha do que realmente era, e todos a estavam considerando indisciplinada e mal-educada.
     Iza, pelo maior contato com ela, imaginava que deveria ser mais criana do que aparentava e comeava a chegar perto de sua verdadeira idade, compreendendo com 
indulgncia seu estado de carncia. Percebeu tambm, por seus murmrios durante o delrio, que a gente dela devia falar com muito mais frequncia e fluncia do que 
eles. Sentia-se atrada por aquela menina que to confiantemente a rodeara com seus bracinhos descarnados e que tinha sua vida dependendo dela. H muito tempo para 
que aprenda boas maneiras, disse consigo. Iza j comeava a pensar na menina como dela.
     Creb, que rondava por perto enquanto Iza preparava o ch de malva, veio sentar-se prximo  garota. Estava intrigado com ela. Os preparativos para a cerimnia 
noturna ainda no tinham ficado prontos e ele aproveitava aqueles minutos para saber como ela ia passando. Os dois se olharam, a garotinha e o velho feiticeiro aleijado 
com sua assustadora fisionomia, um examinando o outro com a mesma curiosidade. Ele nunca estivera to perto de algum dos Outros e muito menos j vira uma criana 
daquela raa. A menina, por sua vez, at que acordou no meio deles, jamais soubera da existncia dos cl Contudo, mais do que simplesmente caractersticas raciais, 
ela estava curiosa com aquela pele enrugada no rosto de Creb. Em todos os seus pouqussimos anos de vida, jamais vira uma cicatriz to horrenda e, num impulso,com 
toda a desinibio de uma criana, tocou-lhe a face, querendo sentir o que era aquilo.
     Creb, surpreso, viu-se inteiramente desconcertado com o suave toque da menina. Nunca outra criana j havia estendido a mo para ele daquela maneira. Tampouco 
os adultos. Evitavam seu contato como se sua deformidade pegasse. Apenas Iza, que cuidava de seus achaques reumticos, a cada inverno mais dolorosos, parecia no 
ter escrpulos. O aleijo de seu corpo e a feia cicatriz do rosto No lhe causavam repugnncia, como tambm o poder que emanava de sua elevada posio social no 
lhe infundia maiores temores. Assim, aquele doce roar da mo de uma criana tocou em alguma corda recndita do velho corao solitrio. Quis, ento, comunicar-se 
com ela e, por instantes, ficou pensando em como abord-la.
     - Creb - disse ele, apontando para si mesmo.
     Iza observava em silncio, esperando que as flores ficassem bem encharcadas. Sentia-se contente por ver Creb se interessando pela menina e no deixou de perceber 
que ele tinha usado seu nome de nascena.
     - Creb - repetiu ele, batendo no peito.
     A menina levantou a cabea, tentando entender. Ele queria que ela fizesse alguma coisa. 
     Creb disse seu nome pela terceira vez. Sbito, ela se iluminou, sentou-se direita e sorriu.
     - Grub? - perguntou, enrolando o R para imitar o som.
     O velho fez que sim com a cabea. A pronncia estava parecida. Em se guida, apontou para ela. A garota franziu a cara, sem muita certeza do que ele estava agora 
querendo. Creb, ento, tornou a bater no peito, repetindo seu nome e batendo no dela logo em seguida. Sim, ela havia entendido, mas o largo sorriso que deu era, 
aos olhos dele, como uma careta, e a palavra polissilbica que lhe saiu dos lbios era no s impronuncivel, mas quase incompreensvel. No entanto, ele procurou 
fazer os mesmos movimentos de boca. Curvou-se para mais perto, tentando ouvir melhor. Ela repetiu seu nome.
     - ay-rr - disse ele, hesitando. Abanou a cabea e tentou novamente.
     - Aay-lla, Ayla? - foi a coisa mais aproximada que conseguiu dizer. E bem poucos eram aqueles no cl que poderiam chegar to perto da pronncia dele.
     A menina deu uma risada radiante, balanando afirmativamente a cabea. No era exatamente o que tinha dito, mas aceitava, percebendo, apesar de muito criana, 
que ele no poderia pronunciar melhor seu nome.
     - Ayla - repetiu ele o nome, querendo acostumar-se com o som.
     - Creb? - disse a garota, puxando-lhe o brao para chamar-lhe a ateno. Depois, apontou para a mulher.
     - Iza - respondeu Creb. - Iza.
     - liiz-sa - repetiu ela. Estava encantada com aquele jogo de palavras.
     - Iza, Jza - ficou repetindo e olhando para a mulher.Iza, solenemente cumprimentou-a com a cabea. Os sons dos nomes eram muito importantes. Ela se inclinou 
e bateu no peito da menina, do mesmo jeito como fizera Creb, esperando que a menina dissesse o seu nome outra vez, O nome foi repetido por inteiro. Mas Iza simplesmente 
abanou a cabea. No compreendia. Era-lhe impossvel fazer aquela combinao  de sons que saa com a maior facilidade dos lbios da menina. A garota estava desanimada. 
Ento olhando para Creb, pronunciou o seu nome  maneira dele.
     - Aii.gaa? - tentou Iza.
     A menina tomou a repetir o nome.
     - ii-ga? - tentava iza mais uma vez.
     - Aiii no Iza. Aay-lla - falou Creb muito vagarosamente para Iza poder escutar aquela estranha combinao de sons.
     - Aaay-lla - disse Iza com cuidado, esforando-se para pronunciar a palavra do modo como Creb a emitira.
     A menina sorria. No tinha importncia que seu nome No estivesse certo. Iza se esforava tanto para dizer o nome que Creb lhe dera que ela o aceitava como 
se fosse o seu. Para eles, seria Ayla. Com toda a naturalidade estendeu os braos para Iza, querendo abra-la.
     iza a estreitou com brandura, afastando-se pouco depois. Teria ainda de ensin-la que demonstraes de afeto em pblico era algo de imprprio. Mas ficara contente 
assim mesmo.
     Ayla no se continha de alegria. Havia se sentido perdida e isolada entre aquela gente que lhe parecia to estranha. Esforara-se tanto para comunicar-se com 
a mulher que cuidava dela e sara to frustrada de suas tentativas que esse comeo j significava muito para ela. Pelo menos tinha agora um nome para chamar a mulher 
e outro para ser chamada. Virou-se para o homem que dera partida ao processo de sua comunicao Ele j no lhe parecia to feio. Estava transbordante de alegria, 
cheia de ternura por ele e, tal como muitas vezes havia feito com um homem de quem vagamente se lembrava, rodeou os braos em torno do pescoo de Creb e lhe puxou 
a cabea para baixo para poder colar sua bochecha na dele.
     O gesto de afeto deixou-o perturbado. Resistia ao impulso de corresponder ao abrao. Seria extremamente imprprio que o vissem abraando aquela criaturinha 
estranha, fora dos limites do ncleo familiar, mas assim mesmo deixou que Ayla comprimisse sua bochecha firme e macia contra seu rosto barbudo, antes de delicadamente 
tirar-lhe os braos de seu pescoo.
     Creb pegou o cajado e, com sua ajuda, levantou-Se. Enquanto a andando, pensava na garota. Tenho de ensin-la a falar. Ela precisa aprender a comunicar-se direito, 
disse consigo. Afinal, no posso confiar toda sua educao a uma mulher, mas ele sabia que o que realmente estava querendo era passar mais tempo com a menina. Sem 
se dar conta, j pensava nela como fazendo parte para sempre do cl.
     Brun no tinha avaliado bem as implicaes do fato de haver permitido Iza pegar uma menina desconhecida no meio do caminho. Isso no era culpa dele como chefe, 
mas sim dele como produto de sua raa. Naturalmente, no poderia prever esse encontro e igualmente suas consequncias lgicas. Ela tinha sido salva, sua vida estava 
fora de perigo; agora, se no a quisesse no cl a nica coisa que lhe restava era mand-la embora e deix-la novamente entregue  prpria sorte. Mas sozinha no 
sobreviveria. No se tratava aqui de raciocinar sobre o futuro, era simplesmente a constatao de um fato. Salv-la, para exp-la por uma segunda vez  morte significaria 
comprar uma briga com Iza que, se no tinha poder pessoal, dispunha de uma legio de espritos do seu lado. E, agora, havia tambm Creb, o Mog-ur, que, por sua vez, 
possua poder para invocar qualquer ou todos os espritos que bem entendesse. Espritos, uma fora poderosssima, com a qual Brun no tinha a menor vontade de se 
ver s voltas. A bem da verdade, esta era justamente a possibilidade que o levava a desgostar da menina. Ele no sabia expressar isto para si mesmo, mas sentia qualquer 
coisa pairando no ar. No havia percebido ainda que seu cl estava aumentado para 21 membros.
     Ao examinar a perna de Ayla no dia seguinte, Iza notou que melhorara. Sob seus sbios cuidados, a infeco praticamente desaparecera, e os arra nhes, na forma 
de quatro riscas paralelas, estavam fechados e j curados, embora a garota fosse ficar para sempre com aquela cicatriz. Iza achou que os cataplasmas j no eram 
mais necessrios, mas ainda fazia os chs de casca de salgueiro. Nesse dia, ao sair da pele de dormir, Ayla tentou ficar de p com a ajuda de Iza, que a escorava, 
enquanto a menina ia aos poucos assentando o peso do corpo sobre a perna. Doa, mas, depois de alguns passos cautelosos, comeou a sentir-se melhor.
     De p, sobre as duas pernas, a menina ainda era mais alta do que imaginara Iza. Eram pernas esguias, longas, de joelhos pontudos e retos. Iza chegou a pensar 
se a garota no seria aleijada. As pernas das pessoas dos cls eram arqueadas, formando uma curva para fora. No. A menina no tinha qualquer problema para andar, 
apenas estava ainda um pouco fraca. Pernas retas devem ser tambm normal nela, concluiu... do mesmo modo que olhos azuis.
     A curandeira enrolou-se em sua capa e suspendeu Ayla para mont-la mais uma vez sobre sua anca. A perna ainda No estava bastante boa para caminhadas maiores. 
Vez por outra naquele dia, Iza colocou-a no cho para que fizesse um pouco de exerccio. A garota comia com gulodice, descontando todo o seu tempo de fome, e Iza 
j a achava mais gorda. Ficava contente de se ver livre por algum tempo daquele fardo extra, sobretudo porque a viagem mostrava-se cada vez mais difcil.
     O cl havia deixado para trs o vasto terreno das estepes e os dias seguintes foram passados atravessando uma regio acidentada, com os morros ficando cada 
vez mais ngremes. Estavam nos contrafortes de belas montanhas, cujos picos gelados e brilhantes mostravam-se a cada dia mais prximos. As coli nas eram revestidas 
por densas florestas, no com a vegetao perene da floresta boreal, mas com folhagens de tons magnficos de verde e com velhas r vores de folhas largas e grossos 
troncos nodosos. Brun achava-se espantado. A temperatura esquentara, avanando rapidamente sobre a estao. Os homens haviam trocado suas capas por uma pea de couro 
mais curta que lhes deixava  mostra o torso nu. As mulheres no alteraram as vestimentas. Era mais fcil carregar suas tralhas usando o traje completo que diminua 
o atrito da carga sobre o corpo.
     O terreno no tinha mais qualquer semelhana com a pradaria fria do antigo cenrio da outra caverna. Iza se via cada vez mais dependente do conhecimento de 
seu banco de memrias,  medida que iam passando por sombrios desfiladeiros ou caminhando por elevaes verdejantes em pleno ambiente da floresta temperada. Os troncos 
escuros de cascas grossas - carvalhos, faias, nogueiras, macieiras, acerceas - misturavam-se com outros de cascas lisas e flexveis - salgueiros, btulas, crpeas, 
lamos - tudo em meio a frondosos amieiros e aveleiras. O ar estava impregnado de um aroma forte e penetrante que parecia elevar-se da brisa suave e quente vinda 
do sul. Um cheiro que Iza no conseguiu de pronto identificar. Arnentilhos ainda se colavam s folhas dos ps de btulas e delicadas ptalas voavam ao sabor do vento, 
enquanto nas rvores as flores desabrochadas prometiam um outono farto em frutas.
     Lutando contra um cerrado matagal e o emaranhado de plantas trepadeiras da floresta fechada, eles subiam pelas encostas mais  mostra dos rochedos. Enquanto 
galgavam os aforamentos, ao redor os flancos das colinas resplandeciam com folhagens de todos os matizes. O verde-escuro dos pinheiros tornou a reaparecer ao lado
de abetos prateados e, um pouco mais acima, surgiam aqui e ali as manchas dos espruces azuis. As cores se entremeavam, dos tons sombrios das conferas ao verde forte
e vivo das frondes de folhas largas, at as tonalidades esmaecidas das tlias e das rvores de delicada folhagem. O musgo e a relva contribuam com suas nuanas
para o mosaico formado por luxuriante vegetao e pequenos arbustos. L se achavam desde as oxalis - os trevos e azedinhas - at pequeninas suculentas que se agarravam 
s paredes nuas das rochas. E espalhando-se por toda a mata, mirades de flores silvestres: lrios brancos, violetas amarelas, espinheiros rosa, enquanto nos altiplanos 
dominavam os junquilhos dourados e as gencianas azuis e amarelas. Por fim, saindo de algumas sombras, os ltimos aafres da temporada ainda corajosamente exibiam 
suas flores amarelas, brancas e vermelhas.
     O cl fez uma parada para descansar, quando atingiu o topo de um alto aclive. Embaixo, o panorama das florestas, cobrindo os flancos montanhosos, terminava 
abruptamente nas estepes que se estendiam at o horizonte. De onde eles se achavam, viam diversos rebanhos pastando a distncia na relva alta e amarelecida pelo 
sol de vero. Se os caadores estivessem livres e desembaraados das mulheres carregando seus pesados fardos, poderiam dar-se ao luxo de escolher que caa preferiam 
dentre uma enorme variedade de rebanhos e manadas. Facilmente, estariam em pouco tempo nos terrenos das estepes. O cu a leste, para o lado da pradaria, estava claro, 
mas rajadas de vento traziam pesadas nuvens negras, armando-se ao sul. Se continuassem a avanar, a alta cordilheira de montanhas, ao norte, era uma barreira para 
as nuvens que iriam descarregar toda a sua massa de chuvas sobre eles.
     Brun e os homens estavam tendo uma reunio fora das fileiras das mulheres e das crianas, mas, por suas carrancas e gestos, podia-se bem imaginar do que tratavam: 
se deveriam ou no prosseguir no caminho. Aquele era um terreno desconhecido, e o pior, estavam-se afastando muito das plancies. Embora tivessem avistado alguns 
animais no p da cordilheira, nada se comparava com os rebanhos nutridos com as gordas pastagens das campinas. Em campo aberto, os animais eram presas mais fceis. 
No tinham a floresta para encobri-los e estavam longe dos predadores que lhes disputavam a carne com o homem. Alm disso, os animais nas plancies quase sempre 
eram gregrios, andando aos bandos, diferentes dos da floresta, vivendo solitariamente ou em pequenos grupos.
     Iza achava que voltariam, que todo o esforo para subir as ngremes encostas fora em vo. A massa pesada de nuvens e a chuva ameaadora se constituam num melanclico 
manto negro sobre suas desalentadas cabeas. Enquanto esperavam, Iza ps Ayla no cho, aiviando-se de seu peso. A garota, gozando da liberdade de movimento que sua 
perna curada lhe permitia, e depois de tanto tempo presa ao quadril de Iza, imediatamente foi passear. Iza viu quando ela sumiu de vista por trs da ponta de um 
monte, pouco mais adiante. No queria que ela se afastasse muito. A reunio poderia terminar a qualquer instante e Brun no iria olhar com bons olhos, se a menina 
atrasasse a partida. Foi procur-la e, ao contornar a ponta, deparou-se com Ayla. Mas, o que viu para alm do lugar onde se achava a menina fez seu corao disparar 
descompassadamente.
     Correu de volta, ao mesmo tempo que olhava para trs por cima do ombro. No ousou interromper Brun, esperando cheia de impacincia que os homens terminassem 
a reunio. Brun a havia visto. Percebeu logo, mesmo sem demonstr-lo, que alguma coisa a incomodava. Quando a reunio por fim se desfez, Iza correu em sua direo, 
sentando-se na frente dele, com os olhos postos no cho, numa atitude que indicava estar querendo falar-lhe. Brun poderia ou no conceder-lhe audincia, a deciso 
era exclusivamente dele. Se a ignorasse, ela No teria licena para dirigir-se a ele.
     Brun ps-se, ento a imaginar o que poderia Iza estar querendo. Ele vira quando a menina sara a passear, pouca coisa em seu cl lhe escapava. Mas naquele momento 
tinha problemas mais urgentes para tratar. Deve ser alguma coisa sobre a menina, pensou, franzindo a testa e sentindo vontade de dispensar Iza. Pouco importava o 
que o Mog-ur houvesse dito, ele no gostava da garota viajando com o cl. Ao levantar os olhos, deu com o feiticeiro observando-o a distncia, mas era um rosto impassvel, 
onde ele no pde ler qualquer pensamento.
     Voltou ento os olhos para a mulher sentada a seus ps. A postura dela traa a intensa agitao que lhe ia por dentro. Iza est realmente perturbada, disse 
consigo. Brun no era homem sem sentimentos e tinha a germana em alta conta. Apesar de todos os problemas que teve com seu companheiro, sempre foi uma mulher que 
soube conduzir-se com correo Era um exemplo para as outras. Raramente vinha aborrec-lo com ninharias. Talvez devesse deix-la falar. Ele no era obrigado a atend-la. 
Estendeu a mo e lhe bateu de leve no ombro.
     Ao sentir o toque, Iza soltou a respirao sem sab-lo a tinha mantido suspensa o tempo todo. Ele havia deixado que falasse! Custara tanto a decidir-se que 
j estava certa de que seria ignorada. Ps-se de p e apontou na direo do monte, dizendo apenas uma palavra: caverna!
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     

***

     Captulo 4
     
     Brun rodou nos calcanhares e caminhou na direo indicada por Iza. Ao contornar o lugar onde o morro fazia uma ponta, parou, inteiramente tomado pela vista 
que tinha  frente. Uma onda de emoo perpassou por todo o seu corpo. Uma caverna! E que caverna! No primeiro momento em que botou os olhos nela, o chefe soube 
que era exatamente o que procurava. Mas esforava-se por se conter, no querendo deixar-se levar pela esperana. Pondo toda sua ateno procurava reparar nos detalhes 
e na situao da caverna. To concentrado estava que quase no se dava conta da menina rondando por perto.
     Mesmo de onde ele se achava, a umas centenas de metros, a boca triangular da caverna, cavada na rocha marrom-acinzentada, prometia um espao interior mais do 
que suficiente para acomodar o cl. A abertura que a caverna tinha do lado sul era batida pelo sol durante quase todo o dia. Como se para confirmar, um raio de sol, 
encontrando uma brecha nas nuvens, veio iluminar o cho avermelhado do largo terrao na parte da frente. Brun vasculhava a rea, fazendo uma inspeo rpida. Um 
enorme penhasco ao norte e outro igual a sudeste ofereciam proteo contra os ventos. A gua tambm estava prxima, pensou ele, somando mais um dado a favor, ao 
ver um riacho correndo a oeste do p da colina. De longe, era a melhor coisa que j tinha visto. Fez sinal para Grod e Creb, reprimindo o entusiasmo enquanto os 
esperava. Juntos, iriam examinar a caverna de perto.
     Os dois correram em sua direo seguidos por Iza, que foi buscar Ayla. A mulher tambm deu mais uma olhada de inspeo aprovando satisfeita, com a cabea, antes 
de voltar para o grupo de pessoas gesticulando excitadas. A emoo reprimida de Brun falava por si. Sabiam que uma caverna fora encontrada e sabiam tambm que Brun 
via grandes possibilidades nela. Luminosos raios de sol vararam a sombria e tristonha atmosfera, parecendo encher de esperana o ar que se punha de acordo com os 
nimos de toda aquela gente em ansiosa expectativa.
     Ao se aproximar da entrada, Brun e Grod seguraram firmes em suas lanas. No viram qualquer sinal de presena humana, mas isso no significava que a caverna 
estivesse desabitada. Passarinhos se lanavam pipilando e cantando numa revoada circular. Pssaros  bom sinal, pensou o Mog-ur.  medida que se acercavam, foram 
caminhando com mais cautela, contornando a boca de entrada, enquanto Brun e Grod procuravam por pegadas frescas e vestgios de excrementos. O que existia de mais 
recente era de alguns dias atrs. Os rastros e as marcas de enormes dentadas nos ossos da perna de um animal, partidos por poderosas mandbulas, contavam sua prpria 
histria. Um bando de hienas havia usado temporariamente a caverna. Depois de atacarem um velho e grande gamo, arrastaram sua carcaa para o interior da caverna 
e l terminaram  vontade e em relativa segurana seu festim.
     Prximo  extremidade oeste da entrada, aninhado num emaranhado de arbustos e trepadeiras, havia um lago alimentado por uma cascata. Sua sada era um regato 
que escorria pela encosta at encontrar o primeiro riacho. Dei xando os outros dois  espera, Brun foi em direo  nascente, brotando da rocha, um pouco mais acima 
na encosta acidentada que encobria a lateral da caverna. A gua, cintilando, logo ali na boca da entrada, era fresca e pura, fazendo com que Brun acrescentasse mais 
esse dado a favor. O lugar era bom, mas seria a prpria caverna que decidiria. Os dois caadores e o feiticeiro se prepararam para passar pela enorme e escura abertura.
     Retornando para a outra extremidade do lado leste, penetraram no buraco cavado na montanha com os olhos voltados para cima e reparando na altura colossal da 
entrada de forma triangular. Todos os sentidos alerta, iam caminhando cautelosamente com os corpos junto s paredes. Com os olhos j acostumados  escurido, olhavam, 
admirados, em derredor. Um teto em abboda fazia arcos sobre um enorme espao, suficientemente grande para abrigar um nmero bem maior do que aquele de que se compunha 
o cl. Passo a passo, rente  parede, iam andando e vendo se no haveria outras aber turas dando para novos recintos. J quase ao fundo, uma segunda fonte de gua 
escorria da parede, formando uma poa que desaparecia pouco mais adiante no cho seco e arenoso. Neste ponto, a parede fazia uma curva inesperada, levando de volta 
 entrada. Seguindo a parede do lado oposto, a partir da boca da caverna, a luminosidade era um pouco mais forte permitindo que eles vissem uma fenda escura delineada 
na parede cinza. Ao sinal de Brun, Creb parou em seus passos desajeitados e vacilantes, enquanto Grod e ele foram olhar no interior do buraco na parede. S viram 
a escurido.
     - Grod! - chamou Brun por meio de um gesto, significando que estava precisando de sua ajuda.
     O segundo em comando correu para fora da caverna, enquanto Brun e Creb, nervosos, aguardavam sua volta. Grod vasculhou a vegetao por perto e, em seguida, 
dirigiu-se a um grupo de ps de abeto prateado. Bolos de uma secreo resinosa minavam atravs das cascas, pondo manchas luzidias sobre os troncos. Ele deu uma olhada 
sob as cascas soltas. A seiva gotejava, pegajosa, das cicatrizes deixadas nos troncos. Separou, ento, alguns galhos secos e mortos que continuavam ainda presos 
s ramagens vivas. Com uma machadinha que tirou de dentro da roupa, cortou um galho verde, rapidamente desfolhando-o. Numa das extremidades deste, enrolou capim 
junto com a resina e os pequenos galhos secos. Por fim, com todo o cuidado, retirou o carvo aceso do chifre de auroque que trazia pendurado na cintura e encostou 
a brasa junto da resina, pondo-se a sopr-la. Pouco depois, estava correndo para a caverna, levando na mo uma tocha acesa.
     Com Grod segurando a luz bem no alto, e Brun,  frente, empunhando sua maa, pronto para o que desse e viesse, os dois passaram pela fenda. Em silncio, avanaram 
com dificuldade por uma estreita passagem que, aps alguns passos, fazia um cotovelo para dobrar na direo dos fundos, mas, antes, dando para uma segunda caverna, 
logo depois da virada. O espao nesta, bem menor, era quase circular. Empilhado contra a parede do fundo, um monte de ossos brilhava sua brancura  luz trmula da 
tocha. Brun chegou-se para mais perto, querendo ver melhor e, subitamente, seus olhos saltaram. Esforava-se para poder controlar-se. Fez um sinal para Grod, e os 
dois rapida mente bateram em retirada.
     O Mog-ur esperava ansioso, apoiando todo seu peso sobre o cajado. Ao ver Brun e Grod sarem para fora da escurido Creb ficou surpreso. No era normal em Brun 
aquela agitao. A um gesto deste, o Mog-ur seguiu os dois homens que de novo retornavam  passagem no interior da caverna. Chegando ao pequeno recinto, Grod suspendeu 
a tocha bem no alto.  vista da pilha de ossos, o Mog-ur estreitou os olhos. Deu uns passos  frente e caiu sobre os joelhos, enquanto seu cajado se esboroava no 
cho Arrastando-se em meio aos ossos, viu uma enorme forma oblonga e, pondo de lado os outros ossos, pegou uma caveira.
     No havia a menor dvida. O alto arco frontal abobadado ia de par com aquele que carregava em sua capa. Ele se sentou, suspendendo o crnio  altura dos olhos, 
pondo-se a mirar, entre incrdulo e reverente, os dois buracos escuros das rbitas. Ursus usara aquela caverna e, pela quantidade de ossos, os ursos de outrora deveriam 
ter hibernado naquele lugar por muitos e muitos invernos. Agora, Creb compreendia a perturbao de Brun. A caverna j fora moradia do Grande Urso da Caverna. A essncia 
da poderosa criatura, reverenciada e honrada acima de todas as outras, achava-se impregnada na prpria rocha das paredes. Sorte e fortuna para o cl que fosse viver 
ali. Pela idade dos Ossos, era evidente que a caverna havia ficado desabitada por longos anos, como se estivesse esperando por eles.
     Era a caverna perfeita, bem situada, espaosa, com outra anexa que poderia ser usada no inverno e no vero para os rituais secretos, um recinto, por sinal, 
alentado pelo mistrio que se constitua na vida espiritual dos cl. OMog-ur j visualizava suas cerimnias. Naquela pequena caverna estaria o seu domnio. A busca 
terminara, o cl encontrou um lar... s faltava a primeira caada ser bem-sucedida.
     Quando os trs homens saram da caverna, o sol brilhava, as nuvens iam em debandada, levadas por um vento cortante vindo do este. Brun viu nisso um sinal de 
bom pressgio. Mas daria no mesmo, se as nuvens estivessem sendo estilhaadas por raios e troves e se despencando sobre a terra na forma do mais completo dilvio. 
Veria igualmente um sinal de bom agouro. Nada podia empanar sua alegria ou dissipar seu sentimento de satisfao. Ele ficou de p, no terrao,  porta da caverna, 
olhando a vista dali.  frente, atra vs da fenda formada por duas colinas, viu tremeluzindo a distncia uma vasta extenso de gua que se perdia na distncia. No 
pensava que estavam to perto, disse subitamente compreendendo. Agora estava resolvido o problema daquela vegetao inusitada e daquela rpida mudana de temperatura.
     A caverna localizava-se no sop de uma cadeia de montanhas na ponta sul de uma pennsula que se projetava num mar interno, situado entre terras continentais. 
O lugar era ligado ao continente em dois pontos. A conexo principal se fazia por um largo istmo ao norte; as terras montanhosas do leste ligavam-se por uma marnota 
que servia tambm como escoadouro para um outro mar interno, de menores propores, na parte nordeste da pennsula.
     As montanhas ao fundo protegiam a faixa litornea do gelado frio de inverno e dos ventos tenebrosos originados nas geleiras continentais ao norte. Os ventos 
da orla martima, abrandados pelas guas tpidas do mar, criavam um estreito cinturo de clima temperado na protegida ponta sul da pennsula, alm de prover com 
bastante umidade e calor a floresta formada de velhas e frondosas rvores de madeira de lei, caractersticas das regies de clima tem perado.
     A caverna encontrava-se numa localizao ideal. O cl usufrua do me lhor dos dois mundos. A temperatura era mais quente do que qualquer outra que predominava 
nas reas por perto e havia abundncia de madeira para supri-los com lenha e aquec-los durante os gelados meses de inverno. Um enor me mar estava bem ali  mo, 
repleto de peixes e frutos martimos e, ao longo da praia, os penhascos abrigavam os ninhos das aves marinhas com seus ovos. A floresta era um paraso para aquele 
povo que ainda vivia da coleta de frutas, nozes, sementes, legumes e verduras. Alm disso, o cl tinha fcil acesso  gua potvel, provinda das fontes no terreno 
e do rio, O mais importante, porm,  que se podia facilmente chegar s plancies, cujas extensas reas cobertas de relva sustentavam compactas manadas de animais 
de pastagens que No s lhes forneceriam carne, como tambm roupa e muitos outros implementos. O pequeno cl de caadores-coletores vivia da natureza e esta era 
abundante.
     Enquanto caminhava de volta, em direo ao cl sempre  espera, Brun quase No via o cho em que pisava. Nem em pensamento havia vislumbrado caverna mais perfeita. 
Os espritos haviam voltado outra vez. Talvez nunca ti vessem ido embora,  provvel que quisessem apenas que mudssemos para esta caverna, muito melhor e mais espaosa 
do que a antiga. Claro! Deve ser isso! Estavam cansados da outra e desejavam uma nova moradia, por isso provocaram o terremoto para que sassemos de l. Talvez as 
pessoas que morreram estivessem fazendo falta no mundo dos espritos e agora, eles, para nos compensar, deram essa caverna. Deviam estar nos botando  prova, querendo 
testar minha capacidade de chefe. Foi por isso que eu No conseguia resolver se devamos ou No voltar. Brun sentia-se feliz por ver que No falhara em sua liderana. 
Se No fosse inteiramente imprprio, teria sado correndo para contar aos outros.
     Quando os trs homens surgiram, No havia necessidade de contar a ningum que a viagem chegara ao fim. Todos sabiam. Mas s Iza e Ayla j tinham visto a caverna, 
e somente Iza pde apreci-la. Tinha certeza de que Brun iria reivindic-la. Agora, ele No pode mandar Ayla embora, pensou consigo mesma. Se No fosse a menina, 
ele teria voltado antes de encontrar a caverna. O totem de Ayla deve ter muita fora e ela, uma boa estrela. Ayla traz sorte para ns. Olhou para a garotinha sentada 
a seu lado, inteiramente alheia ao rebulio que causara. Mas, se ela tem tanta sorte, por que ento perdeu sua gente? Iza meneou a cabea. Nunca vou entender os 
caminhos usados pelos espritos.
     Brun tambm estava olhando para a menina. Logo que ps os olhos em cima de Iza e de Ayla, lembrou-se de que tinha sido Iza que lhe falara sobre a caverna e 
ela nunca a teria achado se No tivesse ido atrs da garota. Havia ficado at aborrecido quando viu a menina passeando sozinha, pois dissera a todos que esperassem. 
Mas se No fosse por ela ser to indisciplinada, ele teria perdido a caverna. Por que teriam os espritos primeiro conduzido a menina? O Mog-ur estava certo. Alis, 
ele est sempre certo. Os espritos No ficaram zangados pelo fato de Iza ter tido d da garota e nem estavam descontentes por Ayla estar com eles. O mais provvel 
 que a protegessem.
     Brun olhou a figura deformada do homem que deveria ter sido o chefe em seu lugar. Sorte a nossa de que meu irmo seja o nosso Mog-ur. Estranho, continuou dizendo 
consigo, h muitos anos que No pensava nele como meu irmo... desde o tempo em que ramos crianas. Isso havia sido na poca em que ele, ainda muito jovem, lutava 
consigo mesmo para adquirir o autodom nio necessrio a todo homem, sobretudo para algum destinado a se tornar chefe. Seu irmo mais velho tambm tinha travado 
sua luta pessoal: contra o sofrimento e o ridculo de No poder caar, e ele parecia ter o dom de adivinhar quando Brun se achava infeliz. O olhar suave de Creb 
o acalmava e, mesmo at hoje, Brun sentia-se melhor quando seu irmo vinha sentar-se perto dele, oferecendo-lhe o consolo de sua compreenso silenciosa.
     Todas as crianas que nasciam da mesma me eram germanas, mas s as crianas do mesmo sexo referiam-se umas s outras, como irmo ou irm, esses eram termos 
mais ntimos e, assim mesmo, usados quando j estavam maiores e nos raros momentos em que queriam demonstrar sentimentos afetivos. Os homens No tinham irmos bem 
como as mulheres no tinham irms Creb era germano e irmo de Brun; Iza era apenas germana, e ela no tinha irmsHouve tempo em que Brun sentia pena de Creb, mas 
h muito se esquecera das atribulaes do outro, em vista de sua sabedoria e poder. Prati camente, havia deixado de v-lo como homem. Para Brun, Creb era o grande 
feiticeiro, cujos sbios conselhos estava sempre  procurando. Achava que o irmo no lamentava o fato de no ter sido o chefe, mas, s vezes, punha-se a imaginar 
se Creb no gostaria de ter tido uma companheira e crianas junto a sua fogueira. As mulheres, em certas ocasies, podiam ser bem cansativas, mas quase sempre traziam 
um pouco de alegria e ternura. Creb no teve com panheira, nunca aprendeu a caar, jamais conheceu os prazeres ou as responsabilidades normais prprias da natureza 
masculina, mas ele era mog-ur, o grande Mog-ur.
     Brun nada sabia sobre feitiarias e muito pouco sobre espritos, mas era o chefe e sua companheira havia tido um magnfico filho. Ele se enchia de orgulho e 
prazer sempre que pensava em Broud, o menino que estava educando para um dia assumir seu lugar. Vou lev-lo na prxima caada, resolveu subitamente, a caada para 
a festa da nova caverna. Essa poder ser tambm a caada de sua passagem. Se ele conseguir matar algum animal, poderemos fazer a iniciao dele conjuntamente com 
a cerimnia da caverna, isso vai deixar Ebra orgulhosa. Broud j est suficientemente crescido,  forte e corajoso. s vezes, um pouco cabea-dura, mas j estava 
aprendendo a controlar seu temperamento. Brun estava necessitando de mais um caador. Agora que j tinham uma caverna, precisavam trabalhar, prevendo o prximo inverno. 
O me nino achava-se com quase 12 anos, j bastante grande para entrar na idade adulta. Na nova caverna, Broud poderia, pela primeira vez, participar das memrias, 
pensou o pai. Elas vo ser especialmente boas. Iza far a bebida.
     Iza! O que vou fazer com ela? E com a menina? Iza j est muito ligada  garota... por mais estranha que seja. Deve ser porque passou tantos anos sem ter filhos. 
Mas daqui a pouco tempo vai ter o filho dela e No tem nenhum companheiro para sustent-la. Com a menina, sero duas crianas com quem vai ter de preocupar-se. Iza 
j No  moa, mas est grvida e tem status e suas mgicas. Iza  uma honra para qualquer homem que quiser assumi-la. Se No fosse pela garota, um dos caadores 
poderia tom-la como segunda mulher. Mas a garota, os espritos a protegem, e eles vo ficar com muita raiva se agora eu a mandar embora. Podem fazer com que a terra 
trema outra vez. Brun teve um arrepio.
     Sei que Iza quer ficar com a menina e foi ela quem me falou da caverna. Merece ser distinguida por isso, mas a coisa No  simples. Se eu deixar que a garota 
fique, isso mostra que est sendo honrada, mas a menina no  da raa dos cl Ser que nossos espritos vo quer-la? Ela nem totem possui. Como vamos permitir que 
fique conosco, se No tem totem? Ah, espritos! Nunca vou entender deles.
     - Creb! - chamou Brun.
     O feiticeiro voltou-se ao ouvir o som da voz, surpreso pelo fato de Brun o estar chamando por seu nome de nascena. Quando seu irmo lhe fez sinal, dizendo 
que a conversa seria em particular, ele foi capengando na direo do outro.
     - Essa menina... a que Iza trouxe... Bem, voc sabe, Mog-ur. Ela no  da raa dos cls - comeou Brun a falar, um tanto inseguro, sem saber como principiar 
a conversa. Creb esperou. Foi voc quem disse para que eu deixasse Ursus decidir se ele queria ou no que a menina continuasse vivendo. Parece que ele resolveu deixar 
que ela viva e, agora, o que vamos fazer com a garota? Ela no  da nossa raa. No tem totem. Nossos totens no vo permi tir nem mesmo pessoas de Outro cl na 
cerimnia que vai preparar a caverna para eles. S aqueles que tm espritos vivendo aqui  que vo poder participar. A menina  muito criana, nunca ir sobreviver 
sozinha e voc sabe que Iza quer ficar com ela... mas, e a cerimnia da caverna, como fica?
     Creb j esperava por essa conversa e estava preparado.
     - A menina tem totem, Brun. E um poderoso totem. Apenas no sabemos qual. Foi atacada por um leo da caverna e saiu apenas com alguns arranhes.
     - Um leo da caverna? Poucos caadores iriam conseguir escapar com to pouca coisa.
     - lio mesmo. E pense que ela ficou caminhando sozinha por longo tempo, quase morrendo de fome e no morreu. Foi posta em nosso caminho para que Iza a achasse. 
E no se esquea tambm, Brun, de que voc no impediu isso. Ela  muito criana para aguentar tanto sofrimento - prosseguiu falando o Mog-ur. - Mas minha impresso 
 que a menina est sendo testada pelo totem dela para ver se  digna. Seu totem no  apenas poderoso, ele tem tambm uma boa estrela. Ns poderamos participar 
da sorte dela. Talvez at j estejamos.
     - Voc est se referindo  caverna?
     - Foi para ela que a caverna foi mostrada primeiro. Ns j estvamos prontos a voltar. Voc nos conduziu to perto, Brum e...
     - Os espritos me conduziram, Mog-ur. Eles queriam uma nova casa.
     - Claro, eles o conduziram, mas foi para a menina que mostraram em primeiro lugar. Estive pensando, Brun. H dois bebs que ainda no tm totens conhecidos. 
Ainda no tive tempo. Encontrar uma caverna era mais importante. Acho que, quando a caverna for santificada, podemos fazer ao mesmo tempo uma cerimnia de totens. 
Isso traria sorte aos bebs e agradaria s mes.
     - E o que isso tem a ver com a menina?
     - Quando eu for meditar sobre os totens dos dois bebs, pedirei um para ela tambm. Se o totem da menina se revelar a mim, ela poder participar da cerimnia. 
Isso no exige muito dela, e ns, nesta mesma ocasio poderemos aceit-la no cl. Assim, No existir mais qualquer problema no fato de a garota ficar conosco.
     - Aceitar a menina no cl. Mas ela no  da nossa raa. Ela  gente dos Outros. Quem falou em aceit-la no cl? Isso no seria permitido. Ursus no gostaria. 
Nunca se viu uma coisa desta antes! - objetou Brun. - Eu no estava imaginando em faz-la um de ns. Pensava apenas em que os espritos talvez pudessem deix-la 
continuar vivendo aqui, at que ficasse um pouco mais velha.
     - Iza salvou-lhe a vida, Brun. Agora, Iza carrega uma parte do esprito da menina. Isso torna a garota parte de nossa gente. Ela andou perto de ir para o outro 
mundo, mas continua viva.  a mesma coisa que ter nascido outra vez, que ter nascido para nossa gente. - Pelas mandbulas contradas de Brun, Creb viu que ele estava 
contra sua idia e foi logo apressando-se em falar, antes que o outro dissesse qualquer coisa. - As pessoas de um cl se juntam com as de outro cl Brun. No existe 
nada de estranho nisso. Houve poca em que jovens de diversos cl se juntavam para formar novos cls. Lembra-se da ltima reunio de cl Dois pequenos cl no resolveram 
juntar-se e fazer um s? Os dois ficaram morando juntos, mas no nasceram muitas crianas, e das que nasceram foram poucas as que conseguiram passar do primeiro 
ano de vida. Aceitar algum de fora no  coisa nova.
     -  verdade, algumas vezes, pessoas de um cl se unem com outras de fora, mas a menina no  da nossa raa. Voc nem sabe se o esprito do totem dela vai falar 
com voc, Mog-ur. E se falar, como saber que est entendendo o que ele diz? Se nem a menina eu consigo entender, quanto mais seu totem. Voc realmente acha que 
pode fazer isso? Descobrir qual  o totem dela?
     - Vou tentar. Pedirei a Ursus para me ajudar. Os espritos tm a lngua deles, Brun. Se a inteno for de que ela se junte a ns, o esprito protetor dela dar 
um jeito para se fazer entender.
     Brun por um momento ficou pensativo.
     - Mas mesmo que voc descubra o totem dela, qual o caador que vai quer-la? Iza e o beb j vo ser um fardo bastante pesado e ns no temos muitos homens 
para caar. No foi s o companheiro de Iza que perdemos no terremoto. O filho da companheira da Grod morreu e ele era jovem e bom caador. O companheiro de Aga 
tambm se foi e ela ficou com dois filhos e a me que est dividindo a fogueira com ela. - Uma pontinha de dor se insinuou nos olhos de Brun,  lembrana de todas 
essas mortes havidas no cl. 
     E Oga - continuou Brun - primeiro o companheiro da me Morto com uma chifrada e logo depois a me morrendo no desmoronamento. Eu disse, ento, a Ebra que a 
menina iria ficar conosco. Oga j est quase moa. Quando chegar o tempo, acho que vou d-la a Broud. Isso vai deix-lo contente. - Por um instante, Brun ficou distrado, 
pensando em suas responsabilidades. - J existe muito trabalho para os homens que ficaram, sem contar com essa menina, Mog-ur. Se eu a aceitar no cl, para quem 
vou poder dar Iza?
     - E para quem voc iria dar Iza, durante esse meio tempo, at que a menina tenha idade para ir embora, Brun? - perguntou Creb. Brun parecia confuso, o irmo 
prosseguiu, antes que o chefe pudesse responder. - No h necessidade de encarregar nenhum caador do sustento de Iza e da criana, Brun. Eu sustentarei as duas.
     -Voc?
     - Por que no? Elas so mulheres. No h meninos para educar, pelo menos por enquanto. 
     Eu, como Mog-ur, tenho direito a uma parcela de cada caa, no  verdade? Nunca precisei e nunca reclamei. Mas se eu quiser, eu posso. No seria mais fcil, 
se todos os caadores dessem para mim o qui  devido ao Mog-ur? Assim, poderei sustentar Iza e a menina, ao Invs de um nico caador ficar encarregado delas. Eu 
estava mesmo pretendendo ter uma conversa com voc sobre isso. Queria dizer-lhe que logo que encontrssemos uma caverna, eu gostaria de ter a minha prpria fogueira 
e que me encarregaria de Iza, a no ser que outro homem queira ficar com ela. H muitos anos venho dividindo minha fogueira com ela. Para mim, seria difcil mudar 
de hbito, depois de tanto tempo. Alm disso, Iza me ajuda com meu reumatismo. Se a criana que nascer for menina, eu tomo conta dela tambm. Se for menino, bem... 
no adianta nos preocuparmos com isso por enquanto.
     Brun ruminava a idia. Sim. Por que No? Facilitava para todo mundo. Mas o que levava Creb a querer fazer isso? Iza iria do mesmo jeito continuar sempre cuidando 
do reumatismo dele, seja l em que fogueira ela estivesse. Por que ser que um homem na idade de Creb, de repente, resolve querer chatear-se com crianas pequenas? 
E por que desejava tomar a responsabilidade de educar e disciplinar uma menina to estranha? , ele deve sentir-se responsvel. Brun no gostava da idia de receber 
a criana no cl; preferia que o problema nunca tivesse sido posto; e muito menos gostava da idia de receber algum de fora, algum que escapava a seu controle. 
Talvez fosse mesmo melhor aceit-la e educ-la direito, tal como uma mulher deve ser, prosseguia ele remoendo seu pensamento. Pode ser tambm que desta maneira fique 
mais fcil para o cl conviver com a menina. E se Creb estava querendo encarregar-se dela, no havia motivos para que ele pusesse obstculos. 
     Por fim, fez um gesto concordando.
     - Est bem. Se voc conseguir descobrir o totem dela, ns receberemos a menina no cl, Mog-ur; e ela pode ficar vivendo em sua fogueira, pelo menos enquanto 
o beb de Iza no nascer.
     Pela primeira vez em toda a sua vida, Brun se viu desejando o nascimento de uma menina e no de um garoto.
     Uma vez a deciso tomada, ele se sentiu aliviado. O problema do que fazer com Iza vinha aborrecendo-o, mas era uma coisa que ia sempre adiando. Tinha problemas 
mais importantes a tratar. A sugesto de Creb no s veio solucionar uma questo intrincada que cabia a ele, como chefe, resolver, como tambm veio dar soluo a 
um problema de ordem pessoal. Por mais que tentasse, desde que Iza perdera seu companheiro, ele no achava outra sada a no ser a de receb-la com o futuro filho 
em sua fogueira e, talvez, tambm Creb. Ele j era responsvel por Broud e Ebra e, atualmente, por Oga. Mais gente criaria atritos no nico lugar onde ele relaxava 
sua guarda e estava  vontade. E sua companheira no ficaria tambm muito feliz com o arranjo.
     Ebra se dava bastante bem com a germana de seu companheiro, mas vivendo na mesma fogueira seria a mesma coisa? Embora nada fosse dito abertamente, Brun sabia 
que ela tinha cimes do status de Iza. Na maioria dos cls, Ebra, na qualidade de companheira do chefe, seria a mulher com a posio mais elevada. No entanto, Iza 
vinha em linha direta de uma longa dinastia de curandeiras que foram sempre as mais respeitadas e prestigiosas no s de seu cl, como de todos os outros. Ela possua 
status por direito seu e no devido ao companheiro. Quando Iza salvou Ayla, Brun chegou a pensar que teria de receber a menina tambm. Nunca poderia pensar que o 
Mog-ur fosse assumir a responsabilidade dele prprio e ainda a de Iza e mais duas crianas. Creb no podia caar, mas o Mog-ur tinha suas fontes.
     Uma vez o problema resolvido, Brun correu em direo a seu cl, ansiosamente aguardando pela palavra do chefe que viria confirmar o que todos j sabiam. E seus 
gestos, ento, disseram:
     - A viagem terminou, a caverna foi encontrada.
     - Iza - disse Creb, enquanto ela preparava ch de casca de salgueiro para Ayla. - Esta noite, no vou comer.
     A curandeira curvou a cabea em sinal de que havia compreendido. Sabia que suas meditaes sempre eram precedidas por algumas horas de jejum.
     O cl estava acampado perto do rio, no sop da pequena colina que levava  caverna. Enquanto a moradia no fosse consagrada segundo os rituais prprios  ocasio, 
as pessoas no poderiam mudar-se. Embora fosse inconvemiente demonstrar ansiedade, todo mundo estava sempre arranjando pretexto para chegar perto da caverna e dar 
uma olhada para o interior. As mulheres sempre davam jeito de colher perto da boca da entrada e os homens as se guiam, ostensivamente no propsito de vigi-las. 
O cl estava nervoso, mas de nimo elevado. A angstia sentida desde o terremoto desaparecera. Gostavam da aparncia da enorme caverna. Apesar de ser difcil ver 
dentro da escurido, assim mesmo dava para perceber que ela era espaosa, com muito mais recantos e redutos do que a antiga. As mulheres, encantadas, apontavam para 
o manso lago de gua nascente, bem junto da boca de entrada. No precisavam nem mesmo chegar at o riacho para apanhar gua. Esperavam com impacincia pela sagrao 
da caverna, uma das poucas cerimnias religiosas de que elas podiam participar e no havia pessoa que no estivesse ansiosa para mudar-se.
     O Mog-ur afastou-se do acampamento, naquele momento em grande actividade. Queria encontrar um lugar sossegado, onde pudesse pensar sem ser perturbado. Enquanto 
caminhava ao longo do riacho correndo ligeiro ao encontro do mar, uma brisa quente, soprada novamente do sul, descabelava-lhe a barba. Apenas umas poucas nuvens 
a distncia perturbavam a claridade cristalina daquele fim de tarde. No cho crescia um mato espesso e exuberante, e ele tinha de avanar com cuidado, contornando 
obstculos, mas pouco se dando conta disso, to concentrado estava em seus pensamentos. Um rudo vindo de um matagal perto fez com que parasse de repente. Era um 
terreno desconhecido e sua defesa resumia-se no cajado que o ajudava a firmar-se sobre as pernas, no entanto em sua mo til, dotada de fora descomunal, ele tinha 
uma bela arma. Pronto para o que acontecesse, segurou firme o cajado, pondo-se a escutar os grunhidos e bufidos sados do denso matagal e os sons de galhos partindo-se, 
na direo do mato que se mexia.
     Subitamente, atravs daquela grossa cortina de vegetao, surgiu um bicho, com um corpanzil atarracado e apoiado sobre quatro pernas curtas e troncudas. Os 
caninos inferiores, pontiagudos e perigosos, projetavam-se do focinho como duas presas. O nome do animal veio-lhe  cabea, embora jamais tivesse visto um deles 
em toda a sua vida. Javali, O imenso porco selvagem olhava-o inamistosamente, confuso e indeciso. Depois, ignorou-o e, enterrando o focinho na terra fofa, tormou 
a meter-se pelo matagal. Creb deu um suspiro de alvio, continuando sua caminhada, seguindo rio abaixo. Numa estreita faixa de areia, deteve-se. Ali, estendeu sua 
capa, botou a caveira do urso da caverna em cima e sentou-se de frente para ela. Depois de uma gesticulao de sentido religioso, pedindo a assistncia de Ursus, 
limpou a mente de todos os pensamentos, concentrando-se exclusivamente nos bebs que precisavam conhecer seus totens.
     As crianas sempre haviam intrigado Creb. Muitas vezes, quando se deixava ficar sentado em meio s pessoas, aparentemente perdido em seus pensamentos, observava 
a meninada, sem que ningum se desse conta disso. Uma das crianas era um robusto menino, bem constitudo, de uns seis meses de idade que na hora do nascimento berrara 
com todas as foras e assim continuava a faz-lo, principalmente quando queria mamar. Desde o princpio, Borg estava sempre fussando a me, enterrando-se nos seus 
seios fofos e s parando depois de encontrar o mamilo, quando, com grunhidos de prazer, punha-se a mamar. Isso o fazia lembrar, pensou Creb bem-humorado, do javali 
que acabara de ver, grunhindo e enterrando tambm o focinho na terra macia. O javali era um animal digno de respeito. Inteligente, podendo fazer com seus agressivos 
caninos srios estragos quando provocado, e correndo com incrvel velocidade, se decidisse atacar. Nenhum caador desdenharia tal totem que estava muito de acordo 
com o lugar e o seu esprito ficaria perfeitamente bem na nova caverna.  o javali, decidiu, convencido de que o prprio totem lhe havia aparecido para que ele se 
lembrasse de sua existncia.
     O Mog-ur sentia-se satisfeito com a escolha e voltou, ento, sua ateno para o outro beb. Ona, cuja me tinha perdido o companheiro no terremoto e que nascera 
pouco tempo antes da catstrofe. A menina possua um germano, Vom, que era agora o nico varo da fogueira daquela pequena famlia. Aga vai precisar logo de outro 
companheiro, disse consigo o Mog-ur, algum que fique com ela e tambm com sua velha maaba. Mas isso  problema de Brun. Preciso pensar  em Ona e no na me.
     As meninas careciam de totens mais delicados; os delas no podiam ser mais fortes do que os dos homens, do contrrio seus totens destruiriam a essncia que 
engravida e a mulher no teria filhos. Creb pensou em Iza. Por muitos anos, o totem do companheiro dela no conseguiu sobrepujar o antlope saiga de Iza... ou ser 
que. ..? O Mog-ur frequentemente voltava a pensar nesse assunto. Iza conhecia mais mgicas do que se supunha, e ela no era feliz com o homem a quem fora dada. Sob 
muitos aspectos, Creb No a culpava. Ela sempre soube conduzir-se com dignidade, mas o estado de tenso entre os dois era visvel. Bem, o homem j se foi, pensou 
consigo. O Mog-ur  que ir sustent-la agora, isto , se no aparecer algum novo companheiro.
     Sendo sua germana, Creb No podia tomar Iza para companheira, seria contra todas as tradies. Por outro lado, h muito ele j havia perdido o desejo de ter 
uma mulher. Iza era apenas uma boa companhia, fazia tempo que vinha cozinhando para ele e cuidando de sua pessoa, e a fogueira deles iria daqui por diante ficar 
bem mais agradvel, sem aquela constante atmosfera de animosidade. Alm disso, havia Ayla para preencher mais o vazio. Creb sentiu percorrer-lhe um fluxo de suave 
ternura  lembrana dos bracinhos estendidos o abraando. Mais tarde, disse para si, primeiro vamos a Ona.
     Ela era um beb sossegado, satisfeita, que costumava olhar sria para ele com seus enormes olhos redondos. Observava tudo em silncio, com interesse, sem que 
nada lhe escapasse, pelo menos era o que lhe parecia. A figura de uma coruja rapidamente passou pelo pensamento do feiticeiro. Mas no seria um totem forte demais? 
A coruja  bicho caador, ps-se a conjeturar, mas s pega animais pequenos. Se uma mulher tiver um totem forte, o do companheiro ter de ser mais forte ainda. Nenhum 
homem com uma proteo fraca pode ter uma mulher que tenha como totem a coruja. Por outro lado, ela poder vir a precisar de um homem com totem forte. Ento  a 
coruja, resolveu. Todas as mulheres tm necessidade de companheiros com protees poderosas. Seria por isso que eu nunca tornei uma companheira? Que proteo pode 
ria dar um pobre cabrito monts? O totem que Iza recebeu ao nascer era bem mais forte do que o meu. H muitos anos que Creb no pensava no tmido e delicado cabrito, 
seu totem de nascena. Mas os cabritos, lembrou-se, habitavam essas densas florestas, tal como o javali. O feiticeiro era dos poucos que possuam dois totens: o 
cabrito, o totem de Creb, e Ursus, o do Mog-ur.
     O Ursus Spelaeus, os antigos ursos da caverna, enormes animais vegetarianos que tinham quase o dobro da altura de seus primos onvoros e pesavam trs vezes 
mais do que estes, foi o maior urso que j se conheceu e um animal normalmente pacato, difcil de zangar-se. No entanto, uma ursa da espcie atacou um garoto indefeso 
e aleijado que, perdido em seu pensamento, aproximou-se, sem sab-lo, perto demais do seu filhote. Foi a me do garoto que o encontrou - estraalhado e coberto de 
sangue, com um olho e a metade do rosto saltados para fora - e quem cuidou dele, devolvendo-lhe  vida. Ela amputou, abaixo do cotovelo, o brao que j era paraltico, 
esmigalhado pela fora brutal do gigantesco animal. Pouco tempo depois, a criana deformada e levando no rosto uma hedionda cicatriz foi escolhida para aclito pelo 
mog-ur que o precedeu. Ursus, disse-lhe ento o mog-ur, o escolhera, o havia posto  prova e o achara digno. Seu olho ficara com Ursus como smbolo da proteo dele 
e suas cicatrizes eram para ser ostentadas com orgulho, elas eram a marca de seu novo totem.
     Ursus nunca permitiu que uma mulher lhe absorvesse o esprito para que ele pudesse ter gerado um filho. O urso da caverna dava proteo somente queles que 
passavam por sua prova. Foram poucos os escolhidos. Seu olho foi um preo muito alto, mas ele No se lamentava. Era o Mog-ur. Nunca outro feiticeiro tivera tamanho 
poder, e esse poder, Creb no duvidava, lhe fora dado por Ursus. E agora, naquele instante, estava o Mog-ur pedindo pela ajuda de seu poderoso totem.
     Agarrado ao amuleto, implorava ao esprito do grande urso para que lhe revelasse o esprito do totem da criana nascida da raa dos Outros. Uma verdadeira prova 
 sua competncia, e ele No estava absolutamente seguro de obter resposta para sua mensagem. Concentrava-se na menina e no pouco que sabia a seu respeito. Ela  
destemida, pensou. Dera-se a ele de corao aberto, sem qualquer medo dele ou da censura do cl. Raro, numa menina. Em geral, elas se escondiam atrs das mes quando 
ele estava por perto. Ela era uma criana curiosa e aprendia com facilidade. Um quadro comeou a se esboar, mas ele o afastou. No. No est direito. Ela  mulher, 
isso No  totem de mulher. limpou a mente para empreender nova tentativa, mas o quadro voltava sempre. Resolveu, ento, deixar que a cena tomasse corpo, talvez 
levasse a qualquer coisa diferente.
     Visualizava um bando de lees esquentando-se preguiosamente ao sol quente das pradarias. Havia dois filhotes. Um desses brincava saltitante na relva crescida 
e alta, rosnando de brincadeira e enfiando o nariz curioso nos buracos de bichinhos roedores. Era uma leoazinha que, um dia, se tornaria na principal caadora de 
seu bando; seria ela quem iria levar o alimento para seu macho. Ela pulava por cima de um leo com uma enorme juba, tentando atra-lo para sua brincadeira. Num momento, 
sem medo nenhum, bateu com a pata no focinho do parrudo leo. Foi um leve toque, quase uma carcia. O leo jogou-a no cho e ficou segurando-a sob a enorme pata, 
pondo-se a lamb-la com sua lngua comprida e spera. Os lees da caverna tambm criam seus filhotes com amor e disciplina, pensou o Mog-ur, querendo saber por que 
a cena de felicidade domstica felina No lhe saa da cabea.
     Novamente, tentou limpar a mente, procurando concentrar-se na menina, mas a cena No arredava.
     - Ursus - disse ele, por meio de gestos - mas um leo da caverna? No pode ser! Uma mulher No pode ter totem to forte. Quem poderia ela ter por companheiro?
     Nenhum homem em seu cl tinha o totem do leo da caverna e bem poucos nos outros cls o possuam. A figura da menina veio-lhe  mente. Alta, esqulida, braos 
e pernas retos, rosto chato com testa larga e saltada, pele plida e esbranquiada, at mesmo os olhos eram plidos. Iria ser uma mulher feia, pensou ele com objetividade. 
Qual a possibilidade de um homem quer-la? A viso de sua prpria figura, tambm repulsiva, atravessou-lhe o esprito, lembrando-se do modo como as mulheres o evitavam, 
principalmente quando era jovem. Talvez ela nunca tenha companheiro e se tiver de manter-se sozinha, sem um homem para proteg-la, ir precisar de um totem forte. 
Mas to forte assim? Tentou lembrar-se se j existira alguma mulher nos cls com tal totem.
     Mas ela No  de fato gente dos cls, disse assegurando-se, e No h dvida de que sua proteo seja poderosa, do contrrio No estaria viva. Poderia ter sido 
morta por um leo. O pensamento comeava a tomar forma. Um leo da caverna! Atacou e no matou... ser que atacou mesmo? Estaria testando a menina? Ento um outro 
pensamento lhe ocorreu, sentindo um frio passando pela espinha. Toda a dvida havia desaparecido. Ele estava certo. Nem Brun poderia duvidar disso, pensou. O leo 
tinha marcado a menina com quatro sulcos paralelos na coxa esquerda, uma cicatriz que ela levaria pela vida afora. Na cerimnia de passagem, aquela em que o mog-ur
grava no corpo do jovem a marca de seu totem, o smbolo justamente do leo da caverna era quatro linhas paralelas gravadas na coxa!
     No caso do homem a marca era a mesma, s que feita na coxa direita, mas ela era mulher. Claro! Por que no pensara nisto antes? O leo sabia que seria difcil
para ns aceitar o fato, por isso ele mesmo tinha feito a marca e de forma to clara, to inconfundvel para que ningum pudesse pr em dvida. Ele gravou com a
marca usada por ns. O leo queria que os cls soubessem. Desejava que ela vivesse conosco. Ele levou o povo da menina para que ela pudesse viver aqui. Por qu?
Veio-lhe, ento, uma sensao de desconforto, a mesma que sentira aps a cerimnia no dia em que Ayla tinha sido encontrada. Se ele tivesse um conceito para expressar
o que sentia, lhe daria o nome de pressgio, se bem que repassado por um confuso sentimento de esperana.
     O Mog-ur procurou espantar do esprito aquela estranha sensao. Nunca um totem se revelara a ele com tanta fora. Devia ser isto que o desconcertava, pensou
consigo. O leo da caverna  o totem dela. Escolheu-a, tal como Ursus fez comigo. Olhou para dentro das rbitas vazias da caveira  sua frente. Inteiramente rendido,
maravilhava-se com os caminhos usados pelos espritos, era s uma questo de compreend-los. Tudo estava muito claro agora. Achava-se aliviado e ao mesmo tempo muito
abatido. Por que essa menininha precisa de um poder to forte para proteg-la?


***

Captulo 5

     Ondulando  brisa do entardecer, as folhagens negras nas rvores balanavam-se como silhuetas danantes contra o cu escuro. O acampamento encontrava-se silencioso,
j acomodado para dormir.  luz fraca dos pedaos de carvo aceso, Iza examinava o contedo de diversas pequenas sacolas, postas em fileiras sobre sua capa e, de 
vez em quando, olhava na direo de onde Creb saira. Estava preocupada com ele, sozinho, sem armas para defender-se, no meio de uma mata desconhecida. A menina j 
estava dormindo e,  medida que a luz se extinguia, Iza ia ficando mais preocupada.
     Durante a tarde, ela fora examinar a vegetao que crescia perto da caverna. Precisava reabastecer-se e tambm aumentar sua farmacopia. Sempre carregava na 
sacola de pele de lontra certas coisas, mas para ela; os saquinhos com plantas secas - folhas, flores, razes, sementes e cascas - eram apenas medicamentos para 
primeiros socorros. Na nova caverna, teria espao para armazenar maior quantidade e tambm para ter uma maior variedade. Entre tanto, nunca se afastava muito sem 
levar sua sacola de remdios, que fazia par te dela como a prpria roupa que vestia. At mais. Sem remdios, sentia-se nua e sem roupa.
     Por fim, Iza viu o velho feiticeiro caminhando de volta. Ela deu um pulo, indo botar para aquecer a comida que havia guardado para ele. Depois, ps gua para 
ferver, iria preparar o ch com sua erva preferida. Ele ficou circulando por perto; e em seguida veio ajeitar-se a seu lado, enquanto Iza metia as sacolinhas dentro 
da sacola grande, a de pele de lontra.
     - Como est a menina essa noite? - indagou Creb.
     - Mais repousada. A dor praticamente desapareceu. Ela perguntou por voc.
     Creb grunhiu qualquer coisa, sentindo-se alegre por dentro.
     - Amanh de manh, faa um amuleto para ela.
     Iza abaixou a cabea, dizendo que tinha compreendido e, em seguida, levantou-se apressada para ver se a comida e a gua estavam no ponto. Ela precisava se mexer. 
Estava to feliz que no aguentava permanecer parada. Ayla ia ficar. Creb deve ter falado com o
totem dela, pensou, emocionada, com o corao batendo forte. As mes dos bebs haviam feito os amuletos naquele dia. Elas no foram nada discretas e todo mundo acabou
sabendo que os filhos iriam conhecer seus totens na cerimnia da caverna. Isso era bom agouro para os bebs, e as mes, orgulhosas, puseram-se a pavonear-se. Seria 
essa a razo por ter Creb passado tanto tempo fora? Deve ter sido difcil para ele. Iza tinha curiosidade de saber qual seria o totem de Ayla, mas conteve-se. De 
qualquer modo, ele no lhe contaria mesmo, e ela, dentro de pouco tempo, iria ficar sabendo.
     Trouxe a comida para o seu germano e fez ch para ambos. Ficaram, ento, sentados em silncio, envolvidos por um clima de clida e tranquila afeio. Quando 
Creb terminou, eram os nicos ainda acordados.
     - Os caadores vo sair de manh cedo - disse ele. - Se fizerem boa caada, a cerimnia poder ser no dia seguinte. Voc est preparada?
     - J verifiquei na minha sacola e h bastantes razes. Estarei com tudo pronto - disse Iza, erguendo, na direo dele, um pequeno saco. Este era diferente dos 
Outros. Tinha o couro tingido num carregado tom vermelho-castanho, uma tinta obtida da mistura de ocre vermelho, muito refinado, com banha de urso, a mesma usada 
para curtir a pele de que a sacola era feita. Nenhuma outra mulher possua qualquer objeto na sagrada cor vermelha, embora todos no cl carregassem um pedao de 
ocre vermelho em seus amuletos. Aquela era a coisa mais preciosa que Iza possua. - Amanh de manh eu vou me purificar.
     Creb grunhiu outra vez. Esta era uma forma rotineira de os homens responderem s mulheres, dando-lhes a entender apenas que foram ouvidas, sem prestar muito 
interesse no que diziam. Permaneceram ainda algum tempo sem falar, at que Creb ps no cho sua pequena caia de ch e olhou para a irm- O Mog-ur ir manter no 
s vocs, mas tambm a menina e a criana que ir nascer, se esta for mulher. Na nova caverna voc ficar na minha fogueira, Iza - disse ele. Ento pegou o cajado 
para ajud-lo a levantar-se e foi coxeando na direo de seu lugar de dormir.
     Iza ia erguer-se, mas voltou a sentar-se inteiramente estupefata. Era a ltima coisa que esperava. Com o companheiro morto, sabia que algum outro homem iria 
ter de sustent-la. Vinha procurando afastar do pensamento o problema relacionado com seu destino. Tambm, se ela se sentisse dessa ou daquela maneira, No iria 
fazer a menor diferena. Brun no iria consult-la mesmo... contudo, no conseguia impedir-se de algumas vezes ficar pensando. Dentre as possveis opes, algumas 
a atraam e, outras, achava pouco provveis de acontecer.
     Havia Droog, j que a me de Goov tinha morrido no terremoto e ele agora se achava sozinho. Iza respeitava Droog. Era o melhor fazedor de ferramentas do cl. 
Qualquer um dos outros podia tirar lascas de um bloco de pedra e fabricar machadinhas ou raspadores, mas ningum com o talento de Droog para isso. Ele preparava 
a pedra de tal modo que as lascas que cortava j saam do tamanho e da forma desejados. Suas facas, raspadeiras e qualquer ferramenta eram objetos da maior admirao 
Se fosse dado a ela escolher, dentre todos os homens do cl, escolheria Droog. Ele fora bom para a me do aclito, e a relao de ambos foi marcada por sincera afeio.
     No entanto, Iza sabia que o mais provvel seria que Aga fosse dada a ele. Era mais jovem e me de dois filhos. Vorn, o seu filho, logo estaria precisando de 
um caador para se responsabilizar por sua educao e o beb, Ona, tambm tinha necessidade de um homem que a sustentasse at que crescesse e fosse dada a algum. 
Era possvel que o fazedor de ferramentas estivesse disposto ainda a receber Aba. A velha, tanto quanto a filha, precisava tambm de um lugar. Assumir todas essas 
responsabilidades iria provocar grandes mudanas na vida do pacato e ordeiro Droog. Aga, s vezes, podia ser bem difcil. Ela no era a mesma pessoa compreensiva 
que fora a me de Goov, mas o rapaz logo tambm estaria tendo sua fogueira. Droog, portanto, estava precisando de uma mulher.
     O prprio Goov para companheiro dela era algo inteiramente fora de cogitao Muito jovem, quase ainda uma criana, nem mesmo j havia dormido com uma mulher. 
Brun jamais iria dar-lhe uma mulher velha, e Iza se sentia mais como me de Goov do que uma possvel companheira para o rapaz.
     Pensou que, talvez, pudesse ir viver com Grod e Ika, numa fogueira onde j vivia tambm Zoug, que fora o companheiro da me de Grod. Quanto a Grod, era um homem 
rgido, lacnico, mas no cruel, e de uma lealdade para com Brun  toda prova. Iza no se importaria de viver com Grod, apesar de que, na sua fogueira, fosse ser 
segunda mulher. No entanto, Ika era irma de Ebra e nunca perdoara inteiramente Iza o fato de esta ter uma posio social que deveria pertencer  sua germana. Alm 
disso, desde a morte do filho - que nem chegara a constituir sua fogueira - Ika mostrava-se desgostosa e arredia. At mesmo Ovra, sua filha, no conseguia faz-la 
esquecer de sua dor. H muita tristeza naquela fogueira, pensou Iza.
     Dificilmente poderia cogitar na fogueira de Crug. Ika, sua companheira e me de Borg, era uma mulher jovem, afetuosa e sincera nos seus sentimentos. Justamente 
este era o problema, os dois eram bastante jovens, alm do que, ela, Iza, nunca se dera muito bem com Dorv, o velho que j fora companheiro da me de Ika e que estava 
dividindo a fogueira com os outros.
     Com isto, sobrava Brun, mas, na sua fogueira, nem mesmo segunda mulher seria, j que era germana dele. No que isso tivesse Importncia, ela tinha o seu prprio 
status. Pelo menos No sou aquela pobre velha que, por fim, durante o terremoto, acabou achando seu caminho para o mundo dos espritos. Iza pensava numa mulher que 
viera de outro cl; seu companheiro j tinha morrido h muito tempo e ela nunca teve filhos. A Infeliz ficara de fogueira em fogueira, sempre um fardo para os outros, 
uma mulher, enfim, sem status e importncia.
     A possibilidade, no entanto, de compartilhar da fogueira de Creb e de ser sustentada por ele nunca lhe passara pela cabea. No havia ningum no cl - homem 
ou mulher - a quem fosse mais afeioada. E Creb tinha a vantagem de gostar de Ayla... tenho certeza de que ele gosta, dizia ela para si. Ser um arranjo perfeito, 
a no ser que eu tenha um filho. Todo menino precisa viver na fogueira de um homem que possa ensin-lo a caar, coisa que Creb no pode.
     Poderia tomar remdio para perder a criana, pensou por um momento. S assim poderia ter certeza de que no viria um menino. Apalpou a barriga e abanou a cabea. 
No, j era tarde demais. Isso poder trazer problemas. Havia chegado  concluso de que queria o beb e, a despeito de sua idade, a gravidez ia progredindo bem, 
sem nenhuma dificuldade. Eram boas as chances de nascer um beb normal e sadio. Criana  um bem muito precioso, no se pode renunciar a ele to levianamente. Vou 
pedir a meu totem outra vez para que o beb seja menina. Ele sabe que sempre desejei que fosse mulher. Prometi que cuidaria de mim para que o beb que ele permitiu 
formar nascesse sadio, s falta agora ele conseguir uma menina.
     Iza sabia que mulheres de sua idade podiam ter problemas com a gravidez, e por isso tomava remdios e comia alimentos apropriados a seu estado. Apesar de nunca 
ter sido me, a curandeira sabia mais sobre gestao, parto e cuidados com recm-nascidos do que a maioria das mulheres. tinha ajudado no parto de todas as mocinhas 
do cl e seus conhecimentos e os remdios que preparava estavam sempre  disposio das mulheres. Contudo, havia uma poo to secreta, cuja frmula era passada 
de me para filha, que ela preferia uma boa morte a ter de revelar seu segredo, sobretudo se fosse para um homem que jamais deixaria uma mulher us-la, se ele soubesse 
para que era.
     O segredo vinha sendo mantido, porque ningum - fosse homem ou mulher - indagava a curandeira sobre suas mgicas. O costume de no se fazer perguntas diretas 
j vinha de longa data e essa tradio tornara-se praticamente uma lei. Se algum se mostrasse interessado, ela podia expor seus conhecimentos, mas nunca falava 
de sua poo especial, pois, se algum homem pensasse em fazer perguntas, ela estaria na obrigao de responder-lhe. A mulher jamais poderia deixar de dar resposta 
ao homem e era impossvel s pessoas dos cls mentirem. A forma de comunicao, dependendo de nuanas sutis na mudana quase imperceptvel na expresso do rosto, 
na postura e na gesticulao tornava qualquer tentativa nesse sentido imediatamente detectvel. Nem mesmo um conceito para a mentira eles tinham. O que mais se aproximava 
dessa idia  quando eles simplesmente deixavam de falar, e isso, quase sempre, era percebido, mas em geral aceito.
     Iza jamais falava desta poo, mas ela prpria j a havia usado. Era uma mgica que impedia a concepo No permitindo que o esprito do totem do homem penetrasse 
nela para formar a criana. Nunca passou pela cabea daquele que foi seu companheiro indagar o porqu de ela No ter filhos. Simplesmente admitia como verdade que 
Iza tinha um totem forte demais para mulher. Muitas vezes, ele lhe disse isso, e costumava lamentar-se com os outros homens pelo fato de a essncia de seu totem 
No ser capaz de sobrepujar a da companheira. Iza tomava a poo porque No queria ter filhos, era essa a maneira que tinha escolhido para envergonhar o companheiro. 
Queria que ele e todo o cl pensassem que o elemento gerador de vida do totem do seu homem fosse fraco demais para romper as defesas dela, apesar de por isso apanhar 
muito.
     Mas surras supostamente eram dadas para submeter o totem dela ao dele, mas Iza percebia que ele lhe batia por prazer. No incio, ainda teve esperanas de que, 
se no tivesse filhos, seria passada para outro homem. Mesmo antes de ter sido dada a ele, j odiava suas maneiras cheias de bazfia e empertigadas e, quando soube 
que seria ele o seu companheiro, No lhe restou outra coisa sem voltar-se em desespero para a me Esta apenas consolo tinha para oferecer, pois podia opinar tanto 
sobre o assunto quanto a filha. Ele, no entanto, No quis dispor dela. Iza era uma curandeira, a mulher ocupando a posio social mais alta na hierarquia dos cl 
e ter o seu controle fazia-o sentir-se msculo. Quando a fora de seu totem e essa sua virilidade comearam a ser postas em dvida pelo fato de a companheira no 
produzir rebentos, ele, para compensar, passou a exercer sua superioridade fsica.
     Apesar de as surras serem admitidas, na esperana de que delas resultasse um filho, Iza percebia que Brun estava em desacordo com tal procedimento. Tinha certeza 
de que, se ele tivesse sido o chefe na ocasio, Brun nunca a teria dado a um tipo daquele. Na opnio de Brun, um homem No prova sua masculinidade subjugando mulheres. 
A essas, no resta seNo a submisso. Era indigno para um homem bater-se com adversrio mais fraco e se deixar levar pela raiva por ser provocado por uma mulher. 
Era dever de um homem ter autoridade sobre ela, manter a disciplina, caar e sustentar, saber controlar-se e no mostrar sentimentos quando sofresse. A mulher podia 
levar alguns tabefes, se fosse preguiosa ou faltasse com o respeito, mas no nos momentos de raiva e tampouco por prazer, apenas para disciplinar. Embora alguns 
batessem mais do que outros, poucos faziam disso um hbito. Somente o marido de Iza tornou essa uma prtica habitual.
     Depois de Creb ter-se juntado  fogueira deles, o companheiro de Iza se mostrou ainda mais relutante em d-la a outro. Ela j No era somente a curandeira, 
mas a mulher que cozinhava para o Mog-ur. Se Iza o deixasse, o Mog-ur a acompanharia. Ele queria que o resto do cl pensasse que o grande feiticeiro lhe estava passando 
seus segredos. Na verdade, durante todo o tempo em que compartilharam da mesma fogueira, Creb jamais foi alm de uma polidez formal, e muitas vezes mal tomava conhecimento 
da presena dele, principalmente quando - e Iza bem o sentia - o feiticeiro notava alguma equimose de tom suspeito na irm.
     Mesmo com todas as surras, Iza No parou de usar suas mgicas preparadas com ervas. No entanto, quando viu que estava grvida, resignou-se a seu destino. Algum 
esprito conseguira, por fim, vencer o seu totem e suas poes. Talvez tenha sido o dele, mas ento pensava Iza, se o princpio vital do totem dele tinha conseguido 
finalmente vencer, por que esse esprito o havia abandonado no desabamento da caverna? Ela ainda guardava uma ltima esperana. Queria que fosse uma menina para 
diminuir um pouco o recm-adquirido prestgio dele; alm disso, uma menina poderia dar continuidade  sua linhagem de curandeiras, embora j estivesse disposta a 
acabar com essa linha em sua pessoa. Isso era prefervel do que ter um filho, enquanto vivesse na companhia de seu companheiro. Se a criana fosse homem, ele estaria 
justificado em suas pancadarias; mas, uma menina, sempre ficaria ainda faltando algo. Agora, mais do que nunca, desejava que nascesse mulher. No para denegrir postumamente 
a imagem do companheiro, mas porque isso iria permiti-la viver com Creb.
     Iza guardou a sacola e se enfiou dentro da pele, ao lado da menina que dormia tranquilamente. Ayla deve trazer sorte, pensou ela. Temos uma nova caverna, ela 
foi autorizada a permanecer e vamos ficar na fogueira de Creb. Talvez ele me d sorte e eu tenha uma filha. Passou o brao em volta de Ayla, aconchegando-se bem 
junto do corpinho quente da garota.
     No dia seguinte, aps a primeira refeio Iza acenou para Ayla e foram caminhar, subindo a margem do riacho. Enquanto iam andando, a curandeira procurava por 
determinadas plantas. Depois de alguns minutos, viu uma clareira e se dirigiu para l. Havia ali algumas plantas de uns 30 centmetros de altura, presas a caules 
muito finos de cujas pontas saam flores em cachos parecidos com espigas. Eram marantas, e Iza colheu alguns ps. Depois, encaminhou-se para uma rea alagada, perto 
de um remanso do riacho, onde apanhou cavalinhas e, seguindo um pouco mais adiante, encontrou alguns ps de saboeiro que tambm colheu. Ayla acompanhava-a, observando 
com interesse e morrendo de Vontade de conversar. Sua cabea estava cheia de perguntas que gostaria de fazer e no podia.
     Voltaram ao acampamento, e Ayla viu-a despejar gua num balaio, tecido com as tramas muito apertadas, e jogar dentro deste as cavalinhas e pedras quentes sadas 
do fogo. A menina sentou-se ao lado de Iza, enquanto a observava cortando, com uma afiada faca de pedra, um pedao redondo do couro que a curandeira tnha usado 
para carreg-la. Era uma pele macia e flexvel, curtida com banha, mas ao mesmo tempo grossa. A faca passava atravs dela com a maior facilidade. Com uma outra ferramenta 
de pedra, aguada na ponta, Iza fez vrios furos a volta do pedao de couro redondo. Em seguida, pegou algumas fibras duras, extradas da casca de um pequeno arbusto, 
e torceu-as num cordo que enfiou nos buracos e puxou apertado, de modo a formar uma sacola. Usando uma faca feita por Droog, uma das que mais gostava, cortou um 
pedao da correia que lhe prendia a roupa, mas, antes, tendo o cui dado de medi-la no pescoo de Ayla. Tudo isto no levou mais do que poucos minutos.
     Depois que a gua ferveu no balaio impermevel, Iza pegou-o e, junto com as outras plantas que havia colhido h pouco, voltou novamente ao riacho com Ayla. 
Caminharam pela margem at chegar a um lugar onde havia um declive que levava suavemente at a gua. Com uma pedra redonda, triturou as razes de saboeiro junto com 
gua numa enorme pedra achatada que tinha uma cavidade parecida a um pires. As razes soltaram uma espuma cheia de saponceo. Depois de tirar das dobras da roupa 
ferramentas de pedra e outros pequenos utenslios, Iza desatou a correia de sua vestimenta e se despiu. Por fim, tirou por cima da cabea o amuleto e, com cuidado, 
colocou-o sobre a pedra.
     Ayla ficou encantada quando  viu Iza peg-la pela mo e conduzi-la ao riacho. Ela adorava gua. Mas, depois de molhada por inteiro, a mulher levantou-a e a 
botou sentada sobre a pedra, comeando a ensabo-la dos ps  cabea, inclusive os cabelos duros e emaranhados. Aps faz-la mergulhar na gua novamente, Iza fechou 
os olhos bem apertados. Ayla no entendeu, mas imitou o gesto, Iza fez que sim com a cabea e ela compreendeu que era para fazer o mesmo. Sentiu, ento, que sua 
cabea estava sendo abaixada para a frente e que um lquido quente caa sobre ela. A cabea da menina andava coando e Iza notara minsculos bichinhos passeando 
pelos cabelos, por isso agora os massageava com a infuso de cavalinhas que servia para matar piolhos. Em seguida, mais uma nova lavada nas guas do rio e outra 
vez Iza se ps a esmigalhar razes de saboeiro, desta vez com as folhas, para uma ltima ensaboada nos cabelos e um mergulho final no riacho. Iza passou, ento, 
a repetir a mesma operao nela mesma, enquanto Ayla brincava na gua.
     Durante o tempo em que estiveram sentadas na beirada do riacho, esperando o sol sec-las, Iza esgarou com os dentes um pequeno galho e o usou para tirar os 
ns dos cabelos das duas, ainda molhados. Estava espantada com a maciez e a beleza dos cabelos quase brancos de Ayla. Uma coisa fora do comum, mas bem bonita, pensou 
consigo, na verdade, o que ela tem de melhor. Olhava para a menina sem deixar transparecer seu pensamento. Apesar de queimada de sol, Ayla ainda era mais branca 
do que ela, parecendo-lhe inteiramente desprovida de atrativos com aquela pele desbotada e olhos claros.  uma gente esquisita, disse consigo, mas no h dvida 
de que so humanos tambm, s que muito feios. Pobrezinha. Como ir fazer para encontrar um companheiro?
     E se no arrumar um homem, como vai adquirir algum status? Ela poder ficar como a velha que morreu no terremoto. Se fosse minha filha de verdade, teria seu 
prprio status. Ser que no daria para ensinar algumas de minhas mgicas benficas para ela? Isso lhe iria dar uma certa importncia. Se eu tiver uma filha, posso 
ensinar s duas ao mesmo tempo, mas, se for menino, no haver nenhuma mulher para continuar minha linhagem. O cl algum dia ir precisar de uma nova curandeira. 
Se Ayla aprender a fazer mgicas, eles talvez a aceitem... pode ser at que um homem v quer-la para companheira. Se ela vai ser acolhida no cl, por que no poderia 
ser minha filha? Iza j pensava na menina como dela. Por enquanto, eram apenas divagaes, mas os germes da idia tinham sido plantados.
     A mulher olhou para cima, o sol j estava bem mais alto, concluindo que j estava ficando tarde. Preciso acabar o amuleto dela para depois comear a fazer a 
bebida de razes, pensou, subitamente lembrando-se de suas responsabilidades.
     - Ayla - chamou a menina que passeava prximo ao riacho. Ayla veio correndo. 
     Olhando para a perna dela, Iza reparou que a gua tinha amolecido a crosta da ferida que, no entanto, ia sarando depressa. Iza meteu-se rapidamente em sua roupa 
e foi com a menina para um pequeno monte perto da caverna, mas antes dando uma parada no acampamento para buscar o saquinho que tinha feito e seu pau de cavar. Reparara 
numa vala de terra vermelha, no outro lado, perto do lugar onde haviam parado quando Ayla lhes mostrou a caverna. Ao chegar ali, Iza se ps a cavucar o cho at 
se soltarem torres de ocre vermelho. Ento pegou alguns pedaos e os estendeu na direo de Ayla. A memina olhava sem entender o que se esperava dela. Hesitando, 
tocou num deles. Iza pegou-o, meteu-o dentro do saquinho, fechando-o bem, e guardou numa dobra de sua roupa. Antes de voltar, olhou em torno, vendo pequeninas figuras 
se movendo l embaixo na plancie. Os homens haviam partido, cedo naquela manh para caar.
     Em pocas bem remotas, homens ainda mais primitivos do que Brun e seus cinco caadores aprenderam a disputar a caa com os animais carnvoros, observando-os 
e copiando seus mtodos. Viam, por exemplo, como lobos, atacando aos bandos, podiam jogar ao cho uma presa muito maior e mais forte do que eles. Com o tempo, ao 
invs de garras e dentes, j usando armas e outros instrumentos, os homens perceberam que, se tambm fossem aos bandos, poderiam apanhar os imensos animais que dividiam 
com eles a natureza. E, assim, mais um passo estava dado em sua caminhada evolucionria.
     Enquanto estavam  espreita de caas, para no espant-las, eram obrigados a se manter em completo silncio. Da, passaram a desenvolver toda uma gesticulao 
que evoluiu em gestos e sinais mais complexos, j usados com outros objetivos. Os gritos de aviso comearam a ter variaes de altura e tom, trazendo maior contedo 
de informaes. No entanto, o ramo que deu na espcie dos cls no desenvolveu suficientemente os mecanismos vocais para criar uma linguagem verbal plena, mas nem 
por isso seus homens deixaram de ser bons caadores.
     Os seis caadores do cl puseram-se em campo aos primeiros clares do dia. De onde eles se achavam observavam o sol enviando seus raios, como se ainda explorando 
o terreno, timidamente se insinuando no horizonte, para de pois assumir o pleno comando do dia. Do lado nordeste, uma imensa nuvem de poeira fina de loesse deixava 
entrever uma massa ondulante de plos marrons, onde se destacavam as curvas negras de cornos bem marcados. Uma larga trilha de terra pisada, inteiramente desprovida 
de vegetao, ia ficando para trs, enquanto os bises lentamente se locomoviam, desfigurando a plancie verde-dourada. Agora, desembaraados das mulheres e crianas, 
em pouco tempo os caadores cobriram a distncia que os separava do terreno das estepes.
     Deixando o sop das colinas, diminuram o passo e foram se aproximando mansamente, sempre a favor do vento. Quando estavam perto, agacharam se em meio  relva 
e ficaram observando as figuras dos gigantescos animais. Enormes dorsos em corcova, afunilando-se em estreitos traseiros, suportavam massudas cabeas lanosas com 
imensos chifres que, nos adultos, chegavam a ter quase um metro de comprimento. O cheiro de suor de gado amontoado batia-lhes nas narinas, enquanto a terra vibrava 
com o movimento de milhares de cascos.
     Brun, botando a mo na testa para sombrear os olhos, examinava cada um que passava, esperando pelo animal certo e o momento exato. Quem o visse naquele instante 
no diria que ele tinha sob controle o peso de uma tenso insuportvel. Apenas o pulsar das tmporas sobre as mandbulas cerradas traa-lhe o corao disparado e 
os nervos a flor da pele. Esta era a caada mais importante de sua vida. Nem mesmo o seu primeiro animal abatido que o elevara  condio de adulto equiparava-se 
 caada de cujo resultado eles dependiam para morar na nova caverna. Uma caada bem-sucedida no s iria fornecer a carne para a festa da cerimnia como tambm 
lhes daria a certeza de que seus totens haviam de fato aprovado a moradia. Se voltassem de mos abanando, o cl estaria na obrigao de procurar outra caverna, mais 
aceitvel para seus espritos protetores. Era a maneira de os totem os avisarem de que a caverna no traria sorte. Quando Brun viu a imensa manada de bises, ficou 
animadssimo. Nela, achava-se seu prprio totem incorporado.
     Brun deu uma olhada na direo dos homens, ansiosamente esperando por seu sinal. Esperar tem sempre a parte mais difcil, mas qualquer movimento prematuro poderia 
ter consequncias desastrosas e isso era possvel de acontecer. Portanto, teria que se esforar ao mximo para que nada sasse errado. Olhando a expresso preocupada 
no rosto de Broud, por um momento, quase se arrependeu de t-lo trazido. Mas logo se lembrou do brilho nos olhos do garoto, cheio de orgulho, quando lhe dissera 
para preparar-se para a caada da passagem.  normal que esteja nervoso, pensou Brun. No  s sua primeira caada, a sorte do cl est dependendo da fora do seu 
brao.
     Broud deu com o olhar de Brun e tratou imediatamente de controlar a expresso reveladora de sua agitao interior. No fazia idia do tamanho do bicho quando 
vivo que, de p sobre as patas, ficava a uns 30 centmetros acima de sua e nem supunha que a viso de uma manada inteira pudesse ser to assustadora. Pelo menos 
o primeiro ferimento de verdade teria de ser feito por ele para que a caa lhe fosse atribuda. E se eu errar? E se no acertar e o bicho escapar? A cabea de Broud 
achava-se num turbilho.
     L se foram os seus sentimentos de superioridade, suas gabolices diante de Oga: ele treinando estocadas certeiras e ela o olhando em adorao. Ele fingia no 
perceber. Oga era s uma criana. , no final das contas, s uma menina. Mas, dentro em pouco, seria mulher. No estaria mal como companheira quando ela crescesse, 
dizia consigo. Vai precisar de um homem forte para proteg-la, agora que sua me e o companheiro dela morreram. Broud gostava dos cuidados especiais que Oga lhe 
dispensava, sempre correndo e pronta para obedecer a todos os seus desejos, apesar de que nem homem ainda era. Mas o que vai ela pensar de mim, se eu no conseguir 
acertar no animal? E se eu no puder ficar homem na cerimnia da caverna? O que Brun vai dizer? E o cl? O que ir pensar? E se tivermos de abandonar essa linda 
caverna j abenoada por Ursus? Broud agarrou firme sua lana e pegou no amuleto, suplicando ao grande rinoceronte peludo para lhe dar coragem e fora no brao.
     No haveria muita chance de o animal escapar, se Brun ajudasse. Ele deixou que o rapaz pensasse que o destino da nova caverna estava em suas mos. Se Broud 
iria algum dia ser chefe, tinha desde j de ir aprendendo a conhecer o peso da responsabilidade e do posto. Brun daria uma chance ao garoto, mas estaria por perto 
para, se necessrio, ele prprio abater o bicho. Para o bem de Broud, esperava no precisar fazer isso. O rapaz era orgulhoso, e seria grande sua humilhao; no 
entanto, o chefe no tinha inteno de sacrificar a caverna em nome desse orgulho.
     Brun se virou para observar a manada. Um instante depois, viu um macho, ainda jovem, extraviado do resto. Era um animal quase adulto, mas ainda imaturo e inexperiente. 
Brun esperava que ele se perdesse mais dos outros, aguardando por um momento em que estivesse sozinho, fora do cordo de proteo do rebanho. O sinal, ento foi 
dado.Os homens partiram como flechas, dispersando-se para os lados, com Broud  frente. Brun, ansioso, sempre com os olhos presos no biso desgarrado, via ao mesmo 
tempo os caadores espalhando-se, guardando, entre eles, uma distncia regular. A outro sinal seu, os homens pularam na direo da manada, aos gritos e berros, agitando 
os braos. Os assustados animais que iam pela beirada correram para juntar-se  massa da manada, fechando as brechas e empurrando os de fora para o centro. Brun 
se colocou entre eles e o jovem biso obrigando-o a mudar de direo.
     Enquanto os animais na periferia procuravam abrir caminho para o meio do tumulto, Brun correu atrs daquele que havia marcado. Botou cada grama de sua energia 
na perseguio fazendo o bicho correr tanto quanto aguentavam suas grossas e musculosas pernas. Naquele furioso redemoinho, a terra seca das estepes ia enchendo 
o ar de uma poeira fina, limosa, revolvida por centenas de pesados cascos. Brun franziu os olhos, tossindo, parcialnente cego pelo p que lhe entupia as narinas 
e o sufocava. Ofegante, quase No se aguentando mais, notou que Grod vinha correndo para substitu-lo na perseguio.
     Com a nova investida de Grod, o animal mudou outra vez de direo. Os homens atacavam, cercando-o, de modo a traz-lo de volta para Brun que, ainda arquejando, 
ia aproximando-se com passos lentos do crculo. Deu-se, ento, o estouro da enorme manada que saiu em louca correria pelas estepes. O barulho que os animais ouviam 
de seu prprio tropel multiplicava um medo que no tinha razo de existir. S o biso novo havia ficado para trs, correndo em pnico de criaturas com uma frao 
de sua fora, mas com inteligncia e determinao bastante para compensar a diferena. Grod, cobrindo- o de pancadas, recusava-se a largar a luta, apesar de o corao 
estar prestes a estourar. O suor criava crregos pela camada de poeira que lhe cobria o corpo, dando um sombreado pardacento  sua barba. Por fim, ele baqueou no 
momento mesmo em que Droog veio tomar-lhe o lugar.
     A resistncia daqueles caadores era grande, mas o jovem e forte biso com uma energia inquebrantvel, no se entregava. Droog era o mais alto do cl, tendo 
as pernas um pouquinho mais compridas do que as dos outros. Instigando o animal, sempre pela frente, num dado momento teve de partir a toda velocidade para cima 
do bicho, desviando-o de sua tentativa de pegar a trilha da manada em fuga. Quando Crug tomou a frente de Droog, exausto a mais no poder, o animal j estava visivelmente 
sem flego. Crug estava descansado e levantou os mpetos do bicho, trazendo-lhe, com uma estocada em sua ilharga, um novo brotar de energias.
     Quando Goov veio para o revezamento, o imenso animal peludo j estava mais vagaroso. Corria s cegas, obstinadamente, sempre seguido de perto por Goov que lhe 
dava estocadas, esvaindo os ltimos laivos de energia. Broud viu quando Brun se aproximou e soltou um rugido, assumindo sua vez de correr atrs do biso. As corridas, 
no entanto, foram poucas e curtas. O animal j tinha tido sua dose. Ele foi indo, indo, at que parou de vez, recusando-se a mexer. O couro estava escumoso, a cabea 
pendente e a boca espumava. J com sua lana preparada, o garoto aproximou-se do biso que estava inteira mente fora de combate.
     Com um julgamento fruto da experincia, Brun fez uma rpida avaliao. No estaria o garoto nervoso demais para matar seu primeiro animal? Ou muito afoito? 
Ser que o bicho j estava realmente esgotado? Alguns velhos bises matreiros, s vezes paravam de repente, parecendo completamente exauridos e, no ltimo instante, 
atacavam, matando ou ferido o caador, sobretudo se este fosse inexperiente. Deveria Broud usar suas boleadeiras para primeiro tontear o animal e depois derrub-lo? 
A cabeorra do bruto estava quase arrastando no cho e as ilhargas tombadas no enganavam: o biso estava de fato acabado. Mas, se Broud usasse as boleadeiras, seu 
feito j no teria tanto mrito. Brun resolveu deixar que Broud tivesse todas as honras.Rapidamente, antes que o biso recuperasse o flego, Broud se encaminhou 
na direo daquela enorme massa peluda, empunhando a lana para cima. Com o ltimo pensamento a seu totem, fez a arremetida final. A comprida e pesada lana cravou 
fundo na ilharga do animal, numa estocada rpida e mortal, a ponta endurecida a fogo trespassou o grosso couro, quebrando uma costela. O biso uivou de dor e, mesmo 
com as pernas vergadas, ainda se virou tentando chifrar seu atacante. Brun percebeu a manobra, deu um salto para se postar ao lado de Broud e, usando de toda a fora, 
partiu sua maa na cabea do animal. O golpe veio apressar a queda. O biso caiu junto dele, com as patas apontando os cascos para cima, j nos seus ltimos estertores. 
Depois, ficou imvel.
     Broud, de incio, mostrou-se espantado e um tanto abatido, mas logo o ar foi varado por um grito agudo exprimindo todo o seu triunfo. Ele tinha conseguido. 
Havia matado seu primeiro animal! Agora, era um homem!
     Estava exultante. Veio, ento, buscar sua lana espetada na ilharga do biso. Ao arranc-la, sentiu no rosto o jorrar quente do sangue, provando- lhe o sabor 
salgado. Com orgulho nos olhos, Brun aproximou-se e bateu no ombro do rapaz.
     - Muito bem - disse, num gesto de muda eloquncia. O chefe estava feliz por poder acrescentar s suas fileiras mais um caador, um rapaz forte,orgulho e alegria 
de sua vida. O filho de sua companheira, o filho de seu corao.
     A caverna era deles. Os ritos da cerimnia viriam sacrament-la, mas a caa de Broud assegurou-a definitivamente. Os totens se achavam contentes. Broud segurava 
a lana com a ponta manchada de sangue voltada para cima, quando os outros vieram correndo juntar-se a eles, cheios de alegria,  vista do animal abatido. Brun j 
tinha a faca na mo, pronto para cortar a barriga e estripar o biso antes de carreg-lo para a caverna. Retirou o fgado, cortou-o em fatias, dando um pedao a 
cada caador. Era a parte nobre, reservada s aos homens. O fgado dava fora aos msculos e boa viso para caar. Em seguida, tirou o corao para fora e enterrou-o 
no cho perto do animal. Era uma promessa que pagava a seu totem.
     Broud, com o corao estourando de alegria, sentia o sabor de sua virilidade. Tornar-se-ia homem na cerimnia que santificaria a caverna e a ele caberia a honra 
de conduzir a dana dos caadores. Tinha, doravante, o direito de participar dos rituais secretos que eram realizados no interior da pequena caverna, e o rapaz daria 
de bom grado a vida pelo olhar de orgulho que viu no rosto de Brun. Era o supremo momento de sua vida. J se antevia como centro de atenes na cerimnia da caverna, 
depois de concludo seu ritual de passagem. Teria toda a admirao e todo o respeito do cl. S se falaria nele e em sua bravura na caada. Seria sua noite, e os 
olhos de Oga estariam brilhando cheios de muda devoo e reverente encantamento.
     Os homens amarraram, acima das juntas, as quatro pernas do biso. Grod e Droog juntaram suas lanas e Crug e Goov fizeram o mesmo, de modo a formar com elas 
um par de reforadas estacas. Uma foi passada entre as pernas dianteiras e a outra, entre as traseiras, no sentido horizontal, atravessando o bicho. Brun e Broud 
iam lado a lado, cada um segurando num chifre e levando na outra mo a lana. Grod e Droog pegaram cada um numa das extremidades da estaca dianteira, enquanto Crug 
se postou do lado esquerdo e Goov do direito das pernas traseiras. A um sinal do chefe, puseram-se a caminho, carregando o animal pela relva, meio suspenso e meio 
arrastado. A volta foi muito mais demorada do que a ida. Apesar da fora que tinham, esfalfaram-se sob aquele enorme peso, arrastando-o pela plancie e, depois, 
subindo a colina.
     Oga estava vigiando e viu quando despontaram ao longe, l embaixo na plancie. Quando estavam mais perto, o cl que j os esperava, saiu inteiro para fazer, 
junto deles, a ltima etapa do trajeto, aplaudindo-os silenciosamente. A posio de Broud,  frente dos caadores vitoriosos, indicava seu feito. At mesmo Ayla, 
que No estava entendendo o que se passava, foi tomada por toda aquela excitao, quase palpvel, pairando na atmosfera.
     

***

Captulo 6
     
     - O filho de sua companheira fez bonito, Brun. Um animal e tanto - disse Zoug, enquanto os homens punham o biso em frente  caverna.
     - Voc j tem mais um caador e pode orgulhar-se dele.
     - Ele mostrou coragem e muita fora no brao - disse Brun, gesticulando com uma das mos e a outra apoiada no ombro do rapaz. Seus olhos brilhavam de orgulho. 
O elogio direto deixou Broud ainda mais cheio de si.
     Zoug e Dorv examinavam o jovem biso, tomados de admirao. mas um tanto saudosos das emoes de suas antigas caadas e das vibraes senti das nos momentos 
de glria, esquecidos dos perigos e desapontamentos, parte tambm da difcil aventura que  a caa de um animal de grande porte. J No podendo caar mais com os 
jovens, mas tambm No querendo ficar do lado de fora, os dois haviam passado a manh explorando as matas nas encostas da colina, buscando presas menores.
     - Vejo que voc e Dorv puseram suas fundas para funcionar. Desde a metade da subida do morro que j vinha sentindo o cheiro de carne assando- prosseguiu Brun. 
- Depois que estivermos instalados na caverna, vamos achar um lugar para treinar. O cl s tem a ganhar, se todos souberem usar a funda como voc, Zoug. E No vai 
custar muito a chegar o tempo para Vorn comear a treinar.
     Brun tinha perfeita conscincia do que representava a contribuio dos velhos e desejava que eles tambm o soubessem. Nem sempre suas caadas eram bem-sucedidas. 
Muitas vezes, existia carne, graas aos esforos deles e, durante as pesadas nevascas de inverno, a carne fresca quase sempre era obtida na caa com funda. Representava 
nessa poca do ano uma agradvel mudana na alimentao do cl, constituda quase s de carne-seca, e principalmente no final da estao, quando comeavam a faltar 
as caas abatidas no ltimo outono.
     - Sim, mas nada como um jovem biso como este a. Conseguimos pegar alguns coelhos e um castor gorducho. A comida j est pronta. Estvamos s esperando por 
vocs - falou Zoug. - Vi uma clareira num terreno plano, mais ou menos perto daqui. L, vai dar um bom lugar para treinar.
     Zoug, que vivia com Grod desde que sua companheira morreu, vinha exercitando sua pontaria com a funda, depois que se retirou das fileiras dos caadores de Brun. 
O bom domnio das boleadeiras e da funda era o que havia de mais difcil para os homens dos cls conseguirem. Apesar de seus braos, ligeiramente arqueados e musculosos, 
serem dotados de tremenda fora, eles podiam executar trabalhos que exigiam grande preciso e delicadeza, como o de lascar pedras. O desenvolvimento das juntas dos 
braos, particularmente a maneira como seus msculos e tendes se ligavam aos ossos, dava-lhes uma perfeita destreza manual em combinao com uma formidvel fora. 
Mas isso tinha tambm seus inconvenientes. Esse mesmo tipo de desenvolvimento de junta restringia-lhes os movimentos. No conseguiam, por exemplo, fazer uma arcada 
completa com o brao, o que lhes tornava bastante difcil o gesto de arremessar objetos. O que perdiam em troca da fora era, no o controle de preciso, mas a energia 
em seus arremessos.Suas lanas no eram como dardos que se atiram a distncia, mas um tipo de estocada feita de perto e com grande fora. O exerccio com lanas 
e paus era pouca coisa mais do que desenvolver uma boa musculatura, mas o uso da funda ou das boleadeiras levava anos de prtica e concentrao. A funda, uma tira 
de couro flexvel que o atirador, segurando por suas duas extremidades fazia girar por cima da cabea para dar impulso a uma pedra posta no centro da correia, era 
arma que exigia grande treinamento. Zoug era vaidoso de seus tiros certeiros e agora estava tambm orgulhoso pelo fato de Brun t-lo escolhido para treinar os garotos 
do cl.
     Enquanto Zoug e Dorv vasculhavam as encostas com suas fundas, as mulheres apanhavam plantas no mesmo terreno, e um aroma apetitoso de comida no fogo enchia 
o ar, aguando-lhes o apetite. Isso veio lembr-los de que o mvel da caada era a fome. No tiveram de esperar muito.
     Depois da comida, relaxados e inteiramente satisfeitos, rememoraram os incidentes e as emoes da caada para prazer deles e tambm para o de Zoug e Dorv. Broud, 
radiante com seu novo status, recebendo calorosas felicitaes de seus novos pares, via Vom olhando-o, esttico, cheio de admirao. At aquela manh, os dois haviam 
estado em mesmo p de igualdade, e Vom, depois de Goov ter passado para o grupo dos homens, fora seu nico companheiro.
     Broud se lembrou de como tambm ele ficava rondando os homens, de pois das caadas, tal como agora Vom fazia. Nunca mais estaria relegado s sombras, inteiramente 
ignorado e bebendo avidamente as histrias que os outros contavam. Nunca mais estaria s ordens da me e das mulheres, chamando-o para ajudar nos servios domsticos. 
Era agora um caador. Um homem. Para que assumisse os plenos direitos do status adulto, faltava apenas um ltimo ritual que seria celebrado conjuntamente com a cerimnia 
da caverna, um acontecimento que seria particularmemte memorvel e auspicioso.
     Quando acontecesse, estaria ocupando a posio mais baixa na hierarquia masculina, mas isso no tinha muita importncia. Daqui a uns tempos mudaria; o seu lugar 
no cl estava preestabelecido. Era filho da companheira do chefe, algum dia seria ele o cabea. Vorn, s vezes, tinha sido uma praga, mas ele, Broud, podia permitir-se 
ser magnnimo. Encaminhou-se para o menino, percebendo os olhos de Vorn acenderem de prazer com sua aproximao.
     - Vom, acho que voc j est bastante crescido - disse Broud com gestos pomposos, tentando assumir uma postura de homem. - Vou fazer uma lana para voc. J 
 tempo de comear a treinar para caador.
     - Sim - respondeu o menino, com um movimento de cabea. - J estou crescido sim, Broud - prosseguiu, timidamente. Fez, ento, um gesto indicando a ponta manchada 
de sangue da pesada lana. - Posso tocar?
     Broud colocou a ponta de sua lana no cho, e Vorn, hesitante, encostou o dedo no sangue seco do biso, jazendo agora em frente  entrada da caverna.
     - Voc teve medo, Broud?
     - Brun diz que todos os caadores ficam nervosos na primeira caada
     - respondeu Broud, sem admitir seus temores.
     - Vorn! At que enfim encontrei-o! Bem que eu devia ter imaginado. Seu lugar era ajudando Oga a catar lenha - disse Aga, vendo o filho que conseguira escapulir 
das mulheres e das crianas.
     Vom seguiu a me, olhando por cima do ombro seu novo dolo. Brun observava, satisfeito, o filho de sua companheira. O rapaz tem boa ndole. No se esqueceu 
do amigo s porque ele  ainda criana, disse consigo. Um dia Vom ser caador e Broud, chefe, e ele, ento, se lembrar dessa gentileza que recebeu quando ainda 
criana.
     Broud ficou olhando Vom ir arrastando-se atrs da me. E pensar que, at ontem, tambm sua me vinha busc-lo para fazer servios domsticos. O rapaz deu uma 
olhada nas mulheres que, no momento, cavavam um buraco. Seu impulso foi o de escapar de mansinho, sem que a me o visse, mas, ento, percebeu Oga olhando em sua 
direo. Minha me no pode mais dizer o que tenho ou no de fazer. No sou criana, sou homem. Agora, ela tem de me obedecer, pensava Broud, estufando um pouco 
o peito. Ela tem de... e Oga est olhando...
     - Ebra! Traga gua! - ordenou, imperioso e olhando arrogante para as mulheres. Estava quase esperando que sua me lhe mandasse catar lenha. A rigor, no seria 
homem enquanto no se consumassem os ritos de passagem.
     Ebra suspendeu os olhos, cheia de orgulho. Ali estava o seu rapazinho que to bem se sara de sua misso, o seu filho que chegara ao belo status de homem. Ela 
deu um salto e foi at o lago perto da caverna, voltando rapidamente com a gua e olhando desdenhosa para as outras, como se dissesse:esto vendo o meu filho? Olhem 
s que caador corajoso e que beleza de homem!
     Percebendo todo aquele entusiasmo e orgulho por ele, Broud saiu um pouco da defensiva e se disps a agraciar a me com um breve grunhido. A pronta obedincia 
de Ebra agradou-o quase tanto como a saudao de cabea seguida pelo olhar de adorao que ele viu em Oga, quando se virava para sair.
     Oga tinha ficado profundamente abatida e triste com a morte de sua me, ocorrida pouco tempo depois do falecimento do companheiro dela. Como filha nica, fora 
muito querida pelo casal. A companheira de Brun mostrava-se delicada com ela, depois que foi morar com a famlia do chefe. Podia sentar-se junto deles para comer 
e, durante a viagem, caminhara logo atrs de Ebra. Mas Brun a intimidava. Parecia ser muito mais severo do que o companheiro de sua me. Suas responsabilidades eram 
grandes e pesavam de mais sobre os seus ombros. A principal preocupao de Ebra era Brun e, viajando, ningum teve muito tempo para pensar na pobre menina rf. 
Certa noite, Broud a viu sentada, num desalento s, com os olhos fixos na fogueira. Oga se viu numa gratido sem limites, quando o orgulhoso garoto, quase um homem, 
que raramente prestava atenob nela, veio sentar-se a seu lado e passou o brao em torno de seus ombros, ouvindo-a silenciosamente chorar suas mgoas. A partir 
daquele momento, s teve um desejo: o de ser a companheira de Broud, quando se tornasse mulher.
     Fazia um sol quente de fim de tarde, numa atmosfera inteiramente parada. Nem uma pontinha de brisa agitava a menor das folhas. O silncio de expectativa era 
apenas rompido pelo zunir das moscas rodeando os restos de comida e pelo barulho dos pauzinhos das mulheres cavando um buraco na terra. Iza, com Ayla a seu lado, 
procurava, dentro da sacola de pele de lontra, a outra menor de cor vermelha. A menina andara atrs dela o dia inteiro, mas agora havia certos rituais que Iza tinha 
de levar a cabo com o Mog-ur, certos preparativos relacionados com o importante papel que desempenharia na cerimnia da caverna, pois j no havia a menor dvida 
de sua realizao Ela pegou a menina de cabelos louros e a levou at o grupo de mulheres cavando o buraco, prximo  entrada da caverna. Faziam um buraco que iriam 
forrar de pedras, no qual o fogo arderia a noite toda. Pela manh, o biso sem a pele e esquartejado, seria posto envolvido por folhas dentro do buraco e, depois, 
coberto com mais folhas e uma camada final de terra. Nesse forno de pedras, o animal assaria at o entardecer.
     Que servio lento e tedioso, a escavao! Os pauzinhos pontudos eram usados para soltar a terra para cima que ia sendo jogada com as mos num lenol de couro, 
o qual era arrastado para outro ponto e a esvaziado. Mas uma vez o buraco pronto, ele serviria para muitas vezes mais, bastando que, ocasionalmente, fosse limpo 
das cinzas depositadas. Enquanto as mulheres escavavam, Oga e Vorn, sob os olhares vigilantes de Ovra, a filha de Ika, catavam lenha e traziam pedras do fundo do 
riacho.
     Com a aproximao de Iza trazendo a menina pela mo, as mulheres pararam.
     - Eu preciso ir ver o Mog-ur - disse Iza falando por gestos. Em seguida, empurrou Ayla na direo  delas. A menina ainda fez meno de segui-la, mas Iza abanou 
a cabea,dizendo no e tornando a empurr-la na direo das mulheres. Logo depois foi embora.
     Exceto Iza e Creb, Ayla ainda no tinha tido contato com qualquer outra pessoa do cl. Sentiu-se perdida e tmida longe da presena encorajadora de Iza. Ficou 
presa no cho, sem jeito, olhando para os ps, de vez em quando levantando os olhos para dar uma olhada apreensiva. Contra todas as regras do decoro, todo mundo 
se ps a encarar a garota magricela de pernas compridas, rosto chato e testa saliente. Todos estavam curiosos a seu respeito e aquela era a primeira oportunidade 
que tinham para v-la de perto.
     Por fim, Ebra quebrou o silncio.
     - Ela pode ir catar lenha - disse por gestos, dirigindo-se a Ovra e voltando imediatamente ao que estava fazendo.
     Ovra ia na direo de um trecho com muitas rvores e troncos cados. Oga e Vom pareciam grudados no cho Ovra fez um aceno impaciente e, em seguida, outro para 
Ayla. A menina achou ter entendido o gesto, mas no estava muito certa do que se esperava dela. Ovra, outra vez, acenou e se encaminhou para o lugar das rvores. 
As duas crianas mais prximas em idade de Ayla foram com certa relutncia atrs de Ovra. A menina ficou, por um instante, vendo Oga e Vorn pegarem galhos secos, 
enquanto Ovra, com o seu machado de pedra, rachava uma tora de bom tamanho, cada no cho. De volta, depois de ter depositado um tronco perto do buraco, Oga comeou 
a arrastar na direo da pilha de troncos uma tora que Ovra tinha rachado. Ayla viu a luta da menina e veio ajud-la. Curvou-se e segurou o outra ponta. Quando as 
duas ficaram de p, Ayla olhou bem dentro dos olhos negros de Oga. Por um momento, ficaram paradas, uma encarando a outra.
     To diferentes e ao mesmo tempo to contraditoriamente parecidas. Provinham de um mesmo tronco, mas a descendncia do ancestral comum s duas havia tomado rumos 
divergentes, ambos dando origem a inteligncias extremamente desenvolvidas, se bem que distintas. Todos os dois sapiens e, igualmente, dominantes em determinado
perodo da histria, quando entro o abismo que os separava no era muito grande. Entretanto, sutis diferenas levaram a destinos totalmente diversos. Ayla e Oga,
cada qual segurando numa ponta de tora, foram carregando-a at a pilha de lenha. Ao voltarem, lado alado, as mulheres pararam outra vez de trabalhar para ficar observando-as. 
As duas eram quase da mesma altura, embora a mais alta tivesse quase o dobro de idade. Uma, esguia, membros retos, cabelos louros. A outra atarracada, pernas tortas 
e mais morenas. As mulheres faziam suas comparaes, mas as garotas, como toda e qualquer criana, logo esqueceram suas diferenas. A diviso de trabalho veio facilitar 
as coisas e, antes que o dia tivesse terminado, j haviam arranjado um jeito de comunicar-se e de dar um pouco de graa ao servio que faziam.
     Ao entardecer, enquanto os outros comiam, elas se buscaram e sentaram-se juntas, comprazendo-se com uma camaradagem que vinha do fato de terem quase a mesma 
altura. 
     Iza ficou feliz de ver Oga aceitando Ayla e esperou que anoitecesse para busc-la. Ao se separarem, uma olhou muito para a outra e, ento, Oga deu as costas 
e se dirigiu para sua pele de dormir, ao lado de Ebra. Homens e mulheres ainda dormiam separados. A proibio do Mog-ur s seria suspensa depois de haverem mudado 
para a caverna.
     Os olhos de Iza se abriram com os primeiros raios da luz do dia. Ficou ainda deitada, escutando as dissonncias melodiosas dos pssaros, saudando o amanhecer 
com seus chilreios, pipilos, trinados e gorjeios. Dentro de bem pouco, pensou, quando abrir os olhos, ser para uma parede de pedra. Enquanto o tempo estivesse agradvel, 
no se importava de dormir ao relento, mas estava ansiosa por ver-se protegida dentro da caverna. O pensamento lembrou-lhe de tudo quanto tinha de fazer naquele 
dia e rapidamente se levantou, alvoroada, com a lembrana da cerimnia.
     Creb j estava acordado. Pareceu-lhe que ele no tinha dormido nem um pouco. Estava no mesmo lugar onde o tinha deixado na noite anterior, com os olhos parados 
no fogo, em silenciosa contemplao. Iza comeou a pr a gua para ferver e, quando lhe trouxe o ch feito de hortel, alfafa e urtiga, Ayla achava-se j sentada 
a seu lado. Para a menina, arrumou uma refeio com as sobras da comida da vspera. Os homens e as mulheres do cl iriam ficar sem comer at a hora da festa.
     Mais para o meio da tarde, deliciosos aromas, sados das diversas fogueiras em que se preparavam as comidas, enchiam o ar perto da caverna. Os utensilios e 
toda uma parafemlia de cozinha, salvos do terremoto, foram trazidos e, agora, desempacotados. Cestas impermeveis - magnificamente trabalhadas, com texturas diferentes 
e sutis desenhos feitos na prpria trama - eram usadas para tirar gua do lago ou como vasilhame de cozinha, ou ainda como recipiente para guardar mantimentos. As 
bacias e cunjas de madeira tinham finalidades semelhantes. Os ossos de costelas serviam para mexer a comida e os ossos rasos da pelve e as toras delgadas e cncavas 
eram usados como pratos e travessas. Os ossos da cabea e mandbulas faziam o papel de conchas, xcaras e tigelas. Finalmente, as cascas de btula coladas com uma 
goma de blsamo, s vezes tambm com uma amarrao feita de tendes e nervos para reforar, recebiam formas diferentes para aplicaes diversas.
     Num couro de animal, suspenso em cima do fogo por uma armao de correlas, borbulhava uma saborosa sopa. A vigilncia tinha de ser constante para que o lquido 
no secasse muito. Enquanto o nvel da sopa fervendo se mantivesse acima do nvel das chamas, o calor no couro no daria para queim-lo. Ayla observava Ika revolvendo 
os ossos e nacos da carne do pescoo do biso, que cozinhavam com cebola do mato, tussilagens e outras ervas. Depois, a mulher provou e acrescentou para engrossar 
o caldo talos de cardo, cogumelos, razes, brotos de lrio, agrio, folhas de serralha, inhames novos, arandos trazidos da outra caverna e hemerocales colhidas na 
vspera.
     Razes de taboa haviam sido esmigalhadas e limpas de suas fibras mais duras. Ao amido resultante, assentado no fundo das cestas com gua fria, foram adicionados 
mirtilos secos e sementes modas e torradas tambm trazidos com eles e, agora, pes, numa massa escura no fermentada, assavam nos formos de pedra, junto das fogueiras. 
Folhas de caperioba, anserina, trevos novos e dentes-de-leo, tudo temperado com tussilagem, cozinhavam em outra panela e um molho feito de mas cidas com ptalas 
de rosa silvestre e mel (afortunadamente encontrado no local) apurava em outra fogueira.
     Iza havia ficado agradavelmente surpresa ao ver Zoug voltando de uma ida na plancie com um punhado de ptrmigas. Esses pesados pssaros de vo rasteiro eram 
facilmente abatidos com as pedras das fundas, sendo os preferidos de Creb. Recheados com ervas e folhas comestveis que envolviam, inteiros, os seus prprios ovos, 
essas saborosas aves assavam em fornos menores. Lebres e gigantescos hamsters sem as peles eram postos em espetos sobre as brasas e montanhas de minsculos morangos 
silvestres cintilavam,  luz do sol, sua forte cor vermelha.
     Uma festa digna do acontecimento.
     Ayla no tinha certeza se poderia esperar. Ficara o dia inteiro rondando sem destino por perto da rea de preparo das comidas. Tanto Iza como Creb passaram 
a maior parte do tempo em algum outro lugar, e quando Iza aparecia estava sempre ocupada. Oga tambm trabalhava com as mulheres preparando a festa e ningum tinha 
tempo e nem vontade de incomodar-se com a menina. Depois de algumas palavras mal-humoradas e umas cotoveladas no muito delicadas, Ayla tratou de estar fora do caminho 
das mulheres.
     Logo que as sombras do fim de tarde comearam a se estender sobre o cho de terra vermelha em frente da caverna, um silncio de expectativa baixou sobre o cl. 
Todos foram reunir-se em torno do grande buraco onde assavam os quartos do biso Ebra e Ika comearam por retirar a camada de terra quente e, depois de afastarem 
as folhas moles e chamuscadas, surgiu o bicho numa nuvem de vapores de dar gua na boca. A carne era retirada cuidadosamente, to tenra que se desprendia fcil dos 
ossos. A Ebra, como companheira do chefe, coube a honra de partir e servir. Seu orgulho era visvel, quando deu o primeiro pedao ao filho.
     Broud No se fez de rogado, sem nenhuma falsa modstia, avanou para receber sua poro. Depois dos homens servidos, seguiram-se as mulheres e, por fim, as 
crianas. Ayla foi a ltima, mas dava para todos e ainda sobrava. Um novo silncio tornou a baixar, mas desta vez de fome, o cl faminto devorava avidamente seu 
banquete.
     Era uma festa sem pressa, com as pessoas voltando para se servir de um pouco mais de biso ou repetindo seus pratos favoritos. As mulheres tinham dado duro, 
mas sua recompensa No estava apenas na viso do cl plenamente satisfeito: nos prximos dias no teriam que cozinhar. Em seguida, todos se puseram a descansar, 
preparando-se para a longa noite que tinham pela frente.
     Quando as sombras comearam a alongar-se, fundindo-se com a luz acizentada da noite prxima, a atmosfera de preguia da tarde foi gradualmente cedendo a uma 
outra, carregada de expectativa. A um olhar de Brun, as mulheres rapidamente limparam os restos da festa e foram tomar seus lugares em volta de uma fogueira ainda 
no acesa, armada  entrada da caverna. Parecia um quadro formado ao acaso, desmentindo o rgido formalismo que regia o cl. As mulheres se postaram uma junto da 
outra, de acordo com seus status. Os homens se reuniram do lado contrrio, numa configurao obedecendo suas posies hierrquicas. O Mog-ur no se achava presente.
     Brun, o que estava mais perto da entrada, fez um sinal a Grod. Este, com passos lentos e dignos, aproximou-se e retirou do chifre do auroque o carvo em brasa,o 
mais importante de todos os carves, numa longa sequncia que tinha comeado com aquele aceso nos escombros da antiga caverna. Dar continuidade a este fogo era dar 
continuao  vida do cl, e reacend-lo  entrada da caverna significava proclam-la como deles, estabelec-la como lugar de sua residncia.
     O controle do fogo foi uma inveno do homem, essencial  vida em terras de climas frios. S o cheiro de fumaa j bastava para trazer a sensao de segurana 
e evocar nos espritos a lembrana de um lar. A fumaa da fogueira, filtrando-se para dentro da caverna, subia aos altos tetos abobadados e saa para o exterior 
pelas fendas e rachaduras. Levaria consigo todas as foras invisveis que poderiam ser hostis e purificaria a moradia, permeando-a com sua essncia, a essncia do 
humano.
     A fogueira acesa, em si mesma, j se constitua num ritual de purificao e de tomada de posse, mas outros tantas vezes foram realizados conjuntamente com os 
ritos da cerimnia da caverna que o cl quase j os considerava como fazendo parte do mesmo cerimonial. Um desses, era o de familiarizar os espritos dos totens 
protetores com a nova moradia, feito normalmente em particular pelo Mog-ur e na presena s dos homens. s mulheres tinham suas prprias celebraes, por isso Iza 
fizera uma bebida especial para os homens.
     O sucesso da caada j dera provas de que os totens se achavam de acor do com a caverna e a festa confirmava a inteno deles de fazer dela um lugar permanente 
de morada, o que no impedia de, em certas ocasies, o cl passar longas temporadas fora. Os espritos totmicos tambm viajavam, contanto que as pessoas trouxessem 
consigo seus amuletos para que os totens pudessem lev-las e traz-las, quando necessrio.
     J que os espritos de qualquer maneira estariam presentes  cerimnia da caverna, frequentemente aproveitava-se para a incluso de outras. A parte preponderante 
de qualquer cerimnia estava associada ao estabelecimento de uma nova moradia e ao subsequente vnculo do cl com a terra. Apesar de que cada tipo de cerimnia possusse 
sua forma ritualstica que era sempre a mesma, os acontecimentos celebrados divergiam de carter, dependendo da forma de serem conduzidos os ritos.
     Era o Mog-ur que, em geral de acordo com Brun, decidia como fazer a juno das diversas partes, de modo a englobar todas numa s cerimnia, mas essa era uma 
questo orgnica que dependia de como eles se sentissem. A cerimnia daquele dia constaria dos ritos de passagem de Broud e daqueles que dariam a conhecer os totens 
das crianas, j que isso tinha de ser feito e tambm porque eles desejavam agradar os espritos. O tempo no era o que contava. A cerimnia poderia durar o que 
durasse. Estivessem eles em perigo, ou sem esprito para festejos, o simples ato de acender a fogueira j bastava para fazer a caverna deles.
     Com postura grave, apropriada  magnitude da tarefa, Grod ajoelhou- se, encostou a brasa no madeirame seco e ps-se a soprar. As pessoas, ansiosas, inclinando-se 
para a frente, soltaram todas ao mesmo tempo um suspiro de alvio ao ver os galhos secos comeando a arder em chamas. O fogo pegou e, de repente, surgida, no se 
sabe de onde, uma figura assustadora, de p junto  fogueira, como se sada do meio das labaredas crepitantes. Tinha o rosto pintado de vermelho vivo e se achava 
encimada por uma lgubre caveira branca que parecia ter sado inclume das chamas, suspensa por gavinhas de trmula energia.
     Ayla, a princpio, no viu aquela assombrao chamejante, mas logo comeou a respirar ofegando, tremendo de medo. Sentiu que Iza apertava-lhe a mo tranquilizando-a. 
Pouco depois, fizeram-se ouvir as vibraes das montonas batidas no cho feitas pelas pontas de lanas. A menina deu um salto para trs, virando a cabea contra 
um tronco, quando um caador mais  frente deu um pulo na direo das chamas no momento mesmo em que Dorv comeou a fazer uma batida de som mais alto e em contraponto 
rtmico, num enorme instrumento de madeira abaulado.
     Broud agachou-se e olhava a distncia, com as mos abrigando os olhos de um sol inexistente. Os outros caadores pularam de seus lugares e foram juntar-se e 
ele na reconstituio  da caada ao biso De tal ordem era o poder evocativo da pantominia - afinal uma expresso que vinha sento burilada por incontveis geraes 
- que conseguiram recriar toda a intensidade das emoes vividas na caada. At mesmo a menininha de fora, com os seus cinco anos, recebia o impacto daquela representao 
As mulheres do cl ntimas das finas nuanas de sua linguagem, viram-se transportadas ao calor da plancie poeirenta. Sentiram o trovejar da terra vibrando sob os 
cascos; provaram o gosto da poeira sufocante e exultaram com a caa abatida. Era um raro privilgio que lhes permitia partilhar da sacrossanta vida dos caadores, 
mesmo que se tratasse de um plido vislumbre.
     Desde o incio, Broud assumiu o comando da dana. Havia sido o autor da proeza e a noite era sua. O rapaz recebia as emoes vividas ali por empatia, o tremor 
de medo das mulheres, e reagia fazendo uma interpretao ainda mais viva e apaixonada. Era um consumado ator e nunca estava to em seu elemento como quando se via 
no centro das atenes. Brincava com as emoes de sua platia e sua representao da cena da estocada final teve um qu de ertico que levou as mulheres a estremecerem 
extasiadas. O Mog ur, por detrs da fogueira, observava no menos impressionado: estava sempre ouvindo conversas sobre caadas, mas somente nessas espordicas cerimnias 
tinha oportunidade de sentir de perto toda a gama das emoes vividas pelos caadores. O rapaz  bom, pensou ele, passando para a frente da fogueira. Faz jus  marca 
do totem que leva. Talvez tenha o direito de se exibir um pouco.
     A ltima cena botou Broud face a face com o poderoso mago, ao mesmo tempo em que as batidas silenciaram - uma, montona sempre igual, e outra, fazendo um vivo 
contraponto staccato - depois de um floreado rtmico. O velho feiticeiro e o jovem caador ficaram encarando-se. Tambm o Mog-ur sabia representar seu papel. O mestre 
do timing esperava, deixando que se evanescessem as emoes da dana e criando aos poucos o clima de expectativa. A enorme e desproporcionada figura, envolvida numa 
pesada capa de pele de urso, projetava sua sombra contra as labaredas. O rosto, pintado de ocre vermelho, estava sugerido por sua prpria configurao que fazia 
de seus traos um borr indefinido, com o funesto olho assimtrico de um demnio.
     A quietude da noite era apenas perturbada pelo crepitar da fogueira ao lado de uma suave brisa sussurrando nas rvores e o grito de uma hiena caca rejando a 
distncia. Broud, com os olhos brilhando, ofegava. Um tanto pelo exerccio da dana, um tanto pela excitao e vaidade, mas sobretudo por um medo cada vez mais premente.
     Sabia o que estava por vir. Quanto mais pensava nisso, mais lutava contra o calafrio, prestes a transformar-se numa grande tremedeira. Estava na hora de o Mog-ur 
esculpir-lhe na carne a marca de seu totem. Havia procurado no pensar no fato, mas, agora que chegara o momento, viu-se com mais medo do que propriamente dor. O 
feiticeiro projetava uma aura que ainda enchia mais o rapaz de pavor.
     Ele trilhava as fronteiras do mundo dos espritos, um lugar que encerrava seres muito mais aterrorizantes do que o gigantesco biso Este, com todo o seu tamanho 
e fora, era pelo menos slido, algo palpvel do mundo fsico, com o qual o homem podia engalfinhar-se. J essas foras invisveis, infinitamente mais poderosas, 
capazes de fazer com que a prpria terra tremesse, era coisa bem diferente. Mas Broud no estava sozinho. Ele no era o nico ali a reprimir um calafrio, quando 
as angstias vividas durante o ter remoto de repente batia-lhes na lembrana. Apenas os homens santos, os fei ticeiros, ousavam enfrentar esse plano insubstancial, 
e o supersticioso rapaz s desejava naquele instante que o Mog-ur terminasse o mais rapidamente possvel com o que tinha a fazer.
     Como se tivesse escutado o desejo de Broud, o feiticeiro levantou o brao e dirigiu os olhos  lua crescente. Em seguida, com gestos ondulantes, passou a fazer 
uma splica em tons ardorosos. Sua platia, entretanto, no estava ali no da inteiramente hipnotizado. Sua eloquncia se dirigia ao etreo, mas No menos real mundo 
dos espritos, numa gesticulao de grandes efeitos cnicos. Valia-se de truques bastante sutis de posturas e finas nuanas de gestos, superando as desvantagens 
que levava em sua prpria lngua. Conseguia ser mais expressivo com um brao s do que a maioria dos homens com dois. Quando estava chegando ao fim, ningum duvidava 
de estar cercado pela essncia de seu totem protetor e por uma legio de espritos no conhecidos. O calafrio de Broud se transformara numa total tremedeira.
     Com um lance inesperado que levou alguns a prenderem a respirao, o Mog-ur, num abrir de olhos, puxou da dobra da roupa uma afiada faca que segurou por cima 
da cabea. Em seguida, num segundo gesto, tambm inteiramente de surpresa, baixou a faca e enfiou sua ponta no peito de Broud. Um pouquinho mais, o golpe seria fatal, 
mas o feiticeiro tinha o perfeito domnio dos movimentos. Depois, com a mo firme gravou na carne de Broud duas linhas que saam de um mesmo ponto e faziam uma curva 
na mesma direo, tal como o formato dos chifres de rinocerontes.
     Broud tinha os olhos fechados, mas no fez meno de esquivar-se no momento em que a faca furou-lhe a pele. O sangue veio  superfcie, fazendo regatos vermelhos 
escorrerem pelo peito. Goov surgiu ao lado do Mog-ur, segurando uma tigela com unguento feito de gordura de biso e cinzas vegetais. O Mog-ur untou a ferida com 
essa pasta, estancando o sangue. Em seguida, olhou para ver se a cicatrizao estava se processando bem. A marca na pele proclamava Broud como homem, um homem para 
sempre sob a proteo do poderoso e imprevisvel esprito do rinoceronte.
     O rapaz voltou a seu lugar plenamente consciente de estar sendo o centro das atenes e vivendo toda sua glria, agora que o pior j havia passado. A coragem, 
a competncia na caada, o belo desempenho de sua dana evocativa, a firmeza com que enfrentara a gravao da marca do totem, tudo isto, tinha certeza, seria assunto 
para animadas conversas tanto entre os homens como entre as mulheres. Pensou que talvez seus feitos fossem transformar-se numa lenda, numa histria a ser repetida 
nas reunies dos cls e a ser contada e recontada durante os longos e frios invernos que confinavam o cl  caverna. Se no fosse eu, a caverna no seria nossa, 
dizia consigo. Se no tivesse matado o biso no estaramos tendo agora uma cerimnia, ainda estaramos procurando uma morada. Broud comeava a pensar na caverna 
e em todos os outros acontecimentos como se fossem devidos exclusivamente a ele.
     Ayla, fascinada e ao mesmo tempo com medo, observava o ritual, No conseguindo evitar um estremecimento ao ver o enorme e assustador vulto esfaqueando Broud 
e tirando-lhe sangue. Quando Iza tomou-lhe a mo para conduzi-la  presena da lgubre figura do feiticeiro enrolado numa pele de urso, ela retraiu o corpo, imaginando 
o que ele iria fazer com ela. ga, com Ona nos braos, e Ika, com Borg, tambm iam ao encontro do Mog-ur e foi com alegria que Ayla viu as duas se alinharem na frente 
dela e de Iza.
     Goov agora segurava uma cesta vermelha que de tanto carregar ocre amassado com banha animal acabou ficando com a mesma cor. O Mog-ur olhou por cima das mulheres 
 sua frente para o fiapo de lua no cu. Fez alguns gestos ritualsticos conclamando os espritos a se reunirem para guar dar as crianas cujos totens iam ser revelados. 
Em seguida, meteu um dedo na pasta vermelha e fez um desenho no quadril do menino, numa forma espiralada lembrando o rabo de um porco. Um murmrio baixo subiu do 
cl enquanto as pessoas, por meio de gestos, comentavam o acerto daquele totem.
     -  Grande Esprito do Javali, o menino Borg est entregue  sua proteo  - dizia as mos do feiticeiro, enquanto ele fazia passar pela cabea da criana um 
saquinho amarrado por um cordo de couro.
     Iza inclinou a cabea num gesto que expressava tanto submisso como o seu agrado pela escolha. Era um esprito forte e respeitvel e a escolha estava muito 
de acordo. Em seguida, ps-se de lado, afastando-se um pouco.
     Novamente o feiticeiro tornou a invocar os espritos e a meter o dedo na cesta que Goov segurava. Desta vez, ele desenhou com a pasta um crculo no brao de 
Ona.
     -  Grande Esprito da Coruja - falavam os seus gestos - entrego a menina Ona  sua proteo - Ps, ento o amuleto no pescoo da criana.
     Grunhidos dissimulados e mos agitando-se no ar, mais uma vez, comentaram o totem forte que a menina tinha para proteg-la. Aga estava feliz. Sua filha estaria 
bem protegida, e isso significava que o homem dela no futuro no poderia possuir totem fraco. S esperava que o totem no tornasse as coisas muito difceis e deixasse 
sua filha engravidar.
     As pessoas, cheias de curiosidade, espicharam-se para a frente, quando Aga se afastou e Iza se inclinou para pegar Ayla nos braos. A menina j no estava mais 
com medo. Chegara  concluso depois de ver de perto, que aquela majestosa figura de cara pintada de vermelho no era outra senso Creb. Havia um brilho de ternura 
nos olhos do feiticeiro, quando ele olhou para a garota.
     Para surpresa do cl os gestos de invocao dos espritos eram diferentes. Era a gesticulao usada para dar nome s crianas no stimo dia aps o nascimento. 
A menina no ia apenas ter o seu totem revelado, iria ser adotada pelo cl! Depois de meter o dedo na pasta, o Mog-ur fez uma linha do meio da testa nas pessoas 
da raa dos cls, no ponto onde se juntam as salincias sseas, acima dos olhos) at a ponta do seu pequenino nariz.
     - O nome da menina  Ayla - disse ele, pronunciando devagar e com cuidado para que tanto o cl como os espritos entendessem.
     Iza virou a cabea, querendo ver a reao das pessoas. A adoo era tanto surpresa para ela quanto para os outros, e Ayla sentiu-lhe o corao batendo mais 
forte. Isso deve significar que ela  minha filha. A minha primeira filha, disse Iza consigo. S a me carrega a criana no dia em que ela recebe o nome e  reconhecida 
como membro do cl. Ser que esto fazendo sete dias que encontrei Ayla? No me lembro. Tenho de perguntar a Creb, mas acho que sim. Ela agora  minha filha, quem 
mais poderia ser me dela depois disso?
     Cada pessoa ia passando por Iza com Ayla nos braos como se esta fosse um beb e repetindo o nome da menina, com maior ou menor correo de pronncia. Iza ento 
se virou, ficando outra vez de frente para o feiticeiro. Este olhou de novo para cima, conclamando os espritos a reunirem-se. O cl aguardava ansioso, e o Mog-ur 
tinha plena conscincia da expectativa que suscitava, usando-a a seu favor. Com movimentos propositadamente lentos, espichando o tempo para manter o suspense, ele 
retirou um pouco da pasta vermelha e pintou uma linha em cima da cicatriz deixada pela garra do leo na perna de Ayla.
     O que quer isto dizer? Que totem  este? O cl estava perplexo. O feiticeiro, de novo, tornou a pegar mais um pouco de pasta e pintou uma segunda linha. Ayla 
sentiu que Iza tremia. Ningum se movia, nem uma s respirao era ouvida. Na terceira linha, Brun com o rosto franzido de raiva, procurava o olhar do Mog-ur que, 
por sua vez, desviava o seu. Na quarta linha, o cl j sabia, mas recusava-se a acreditar. Afinal, a marca fora posta na perna errada. Quando fez os gestos de encerramento, 
o Mog-ur virou a cabea e olhou francamente para Brun.
     -  Poderoso Esprito do Leo da Caverna, a menina Ayla est entregue  sua proteo.
     A gesticulao dissipou a ltima sombra de dvida. Enquanto era pendurado o amuleto no pescoo de Ayla, as mos dos membros do cl se agitavam, escandalizadas 
com a surpresa. Seria verdade? Poderia uma menina ter o mais forte de todos os totens masculinos? O leo da caverna?
     Creb lanou a Brun, que estava furioso, um olhar firme e inflexvel. Por um instante, os dois ficaram olhando-se em silncio, como se numa guerra de nervos. 
Mas, para o Mog-ur, o totem de Ayla estava estruturado segundo uma lgica implacvel, por mais absurdo que parecesse a proteo de um esprito to poderoso para 
uma mulher. Ele apenas tinha posto  mostra aquilo que o prprio leo da caverna fizera. Brun jamais questionou as revelaes anteriores do Mog-ur, mas, por alguma 
razo, sentia-se desta vez ludibriado pelo feiticeiro. Podia no gostar; no entanto, era obrigado a admitir que nunca vira um totem se dar a conhecer de forma to 
concreta. Foi ele quem desviou primeiro o olhar, sentindo-se bastante mal com tudo aquilo.
     S a idia de aceitar a criana no cl j fora bem difcil e agora mais essa do totem. Era demais. Algo irregular, fora do comum. Ele no gostava de ver anomalias 
no seu cl, sempre muito bem ordenado. Daqui por diante, nem mais um desvio, pensou, com ar decidido. Se a menina tiver de fazer parte do cl, que trate de se amoldar... 
com ou sem leo da caverna.
     Iza estava atordoada, ainda com Ayla nos braos, baixou a cabea em sinal de aceitao. Se o Mog-ur decretou  porque deve ser assim. Imaginava que Ayla devesse 
ter um totem forte, mas tanto assim? O pensamento botou-a apreensiva. Uma mulher com o totem do mais poderoso de todos os felinos? Agora, tinha certeza de que Ayla 
jamais arrumaria companheiro. Isso veio reforar sua deciso de fazer da menina uma curandeira para que Ayla tivesse seu prprio status. Enquanto Creb a reconhecia, 
dava-lhe um nome e revelava seu totem, ela ficou carregando a garota; se isto no a tornava sua filha, ela ento j no sabia de mais nada. Subitamente, Iza se lembrou 
de que, se tudo continuasse dando certo, dentro de pouco tempo estaria outra vez diante do Mog-ur com um beb nos braos. Ela, que tanto tempo passara sem filhos, 
em breve estaria com dois.
     O cl estava alvoroado, e o assombro manifestava-se por gestos e gru nhidos. Constrangida, Iza voltou a seu lugar em meio ao espanto geral. As pessoas tentavam 
no olhar para ela e a menina - seria uma descortesia - mas uma pessoa fazia mais do que olhar, encarava diretamente.
     A expresso de dio no olhar de Broud para Ayla assustou Iza. Tentou botar-se entre os dois, escudando a garota contra aquele mau-olhado. Broud, de repente, 
havia percebido que j no era mais o centro das atenes. Ningum mais estava falando dele. Tudo esquecido: o seu corajoso feito que lhes assegurara a caverna, 
sua estupenda dana e seu sangue-frio na hora da gravao da marca do totem em seu peito. O unguento anti-sptico e adstringente tinha dodo mais do que o prprio 
corte e ainda ardia, mas havia ali algum reparando em sua coragem? Na sua fora de vontade para enfrentar a dor?
     Ningum lhe prestava a mnima ateno. Os ritos de passagem para os meninos aconteciam com certa frequncia, mesmo para aqueles predestinados a chefes. Nem 
de leve podiam comparar-se com a fantstica e inesperada revelao do Mog-ur, sem precedentes na histria deles. Broud reparou que comentavam o fato de a menina 
ter sido a primeira pessoa a ser conduzida  caverna. Aquela garota horrenda ter encontrado a casa deles, quem diria! Mas, e da? Tambm com um leo da caverna por 
totem, pensava ele carregado de mau humor. Por acaso foi ela quem matou o biso? Aquela era para ter sido a sua noite, deveria ser ele o centro das atraes, ele 
 que era para ser o objeto de admirao e ter o respeito do cl, mas a desgraada da menina lhe passara uma rasteira.
     Enquanto lanava olhares furiosos para Ayla, viu que Iza correu na direo do terreno ao lado do riacho e a ateno do rapaz voltou outra vez para o Mog-ur. 
Logo, muito em breve, ele estaria sendo admitido nos rituais secretos dos homens. No sabia ainda o que o aguardava. Tudo que lhe fora dito era que, pela primeira 
vez, iria ficar sabendo do que se tratavam as memrias.
     O ltimo passo que ainda faltava para se tornar um homem.
     Ao lado da fogueira, perto do riacho, Iza se despiu s pressas e pegou uma bacia de madeira e a sacola vermelha com razes secas que havia tirado para fora. 
Depois de encher a bacia com gua, voltou para junto da fogueira principal, onde as chamas subiam alto com nova lenha posta por Grod.
     A roupa que Iza tinha usado havia encoberto, em parte, o motivo de suas prolongadas ausncias durante aquele dia. Quando ela reapareceu de novo na frente do 
Mog-ur, estava completamente nua, tendo apenas o seu amuleto pendurado no pescoo e umas riscas vermelhas pintadas no corpo. Um grande crculo ressaltava-lhe a barriga 
prenhe. Os dois seios tambm estavam rodeados por crculos com uma risca que, sada de cima de cada um, passava pelos ombros e se ia juntar, formando um V na altura 
dos rins. s duas ndegas igualmente achavam-se circundadas por crculos vermelhos. Osenigmticos smbolos, de sentido conhecido apenas para o Mog-ur, visava  proteo 
dela e a dos homens. Uma mulher envolvida nos ritos religiosos era algo de perigoso, mas, para este, ela se fazia necessria.
     Iza estava de p, perto do Mog-ur, suficientemente perto para perceber gotas de suor em seu rosto que lhe vinham do calor do fogo e de sua pesada vestimenta. 
A um sinal imperceptvel dele, Iza suspendeu a bacia para o alto e se virou de frente para o cl Era uma antiga bacia que vinha sendo conservada atravs de geraes 
e usada exclusivamente em cerimnias daquela natureza. Alguma ancestral de Iza, em tempos muito remotos, a havia cuidadosa mente talhado num pedao de madeira e 
depois tinha aplainado sua superfcie com pedra e areia. A essncia abrasiva de talos de caperioba fez o acabamento final, dando-lhe um sedoso polimento. O tempo 
e o uso terminaram por lhe dar do lado de dentro uma ptina esbranquiada.
     Iza encheu a boca de razes secas e mastigou-as vagarosamente, com todo o cuidado, de modo a no engolir nenhuma saliva, enquanto seus enormes dentes trituravam 
as fibras duras. Por fim, cuspiu a polpa mastigada dentro da bacia com gua e mexeu a mistura at que ficasse uma gua leitosa. Somente as curandeiras da linhagem 
de Iza conheciam o poder daquelas razes. Era uma planta relativamente rara, mas no desconhecida. Quando fresca, no se notavam suas propriedades narcticas. As 
razes, depois de secas, eram postas para envelhecer durante pelo menos dois anos. Diferente mente da maioria das outras plantas, estas se penduravam para secar 
com as razes voltadas para baixo e no para cima. Embora apenas mulheres curandeiras tivessem permisso para preparar a bebida, por tradio de longa data s os 
homens a tomavam.
     Segundo uma velha lenda, passada de me para filha, ao lado das instrues esotricas sobre como promover a concentrao do componente forte da planta na raiz, 
a poderosa beberagem em algum tempo no passado fora usada s por mulheres. No entanto, os homens lhes roubaram as cerimnias com os ritos associados  bebida, alm 
de proibirem as mulheres de tom-la. S No conseguiram roubar o segredo do seu preparo. As curandeiras, donas do segredo, evitavam de tal forma revel-lo - exceo 
feita s filhas - que ningum mais sabia desta frmula, a no ser uma mulher que pudesse reivindicar uma ascendncia direta de curandeiras, cuja linhagem se perdia 
nas profundidades do passado. E, mesmo agora, a bebida jamais era dada, se alguma coisa de valor e qualidade correspondentes no viesse em troca.
     Quando a bebida ficou pronta, Iza fez um sinal de cabea e Goov se aproximou com a bacia de ch de figueira, preparado  maneira como ele usualmente fazia para 
os homens, s que desta vez seria tomado pelas mulheres. Numa postura solene, as bacias foram trocadas. O Mog-ur, ento, ps-se  frente, e os homens se retiraram 
para a caverna menor.
     Depois de eles sarem, Iza levou a bacia com ch de figueira a cada uma das mulheres. Ela prpria, muitas vezes, j havia usado a beberagem, mas com outras 
finalidades, como remdio para dormir ou tirar dor. Como sedativo, ela j tinha ali uma quantidade pronta para dar s crianas, s que preparada de forma especial. 
As mulheres no ficavam descansadas, enquanto no soubessem que os filhos estavam bem e que no viriam procur-las. Nas pouqussimas ocasies em que se permitiam 
o luxo de uma cerimnia, Iza tratava de fazer com que a crianada estivesse dormindo um sono seguro e tranquilo.
     Em poucos instantes, as mulheres puseram os filhos entorpecidos para dormir e voltaram para a fogueira. Iza, depois de meter Ayla dentro da pele, dirigiu-se 
para o instrumento que Dorv havia tocado durante a dana da caada e comeou a bat-lo num ritmo vagaroso e firme, alterando o som, ora batendo com o pauzinho na 
borda, ora mais no centro da caixa de ressonncia.
     No incio, as mulheres permaneceram imveis. Estavam demasiadamente acostumadas a refrear seus movimentos na frente dos homens. Mas, aos poucos, a beberagem 
foi surtindo efeito e, na certeza de que eles estariam fora de vista, passaram a se mexer dentro da cadncia rtmica. Ebra foi a primeira a dar um pulo sobre os 
ps. Danava com passos intrincados, rodeando Iza e,  medida que as batidas aceleravam, as outras, estimuladas pelo ritmo, se juntavam. Em pouco tempo, todas danavam 
ao lado de Ebra.
     Num ritmo sempre mais acelerado e cada vez mais complexo, elas, que em sua vida diria eram de extrema docilidade, passaram a uma dana lasciva, movimentando-se 
desinibidamente, enquanto arrancavam do corpo as vestes. Nem repararam quando Iza parou e veio tambm juntar-se a elas. Danavam inteiramente presas ao ritmo interno 
de seus prprios corpos. As emoes contidas e to reprimidas no dia-a-dia se extravasavam em seus movimentos livres de todo constrangimento. Eram tenses convertidas 
em cartase de liberdade, uma forma de catarse que as ajudava a aceitar as limitaes de sua existncia. Com corropios, saltos e passadas frenticas, danaram at 
quase o raiar do dia, quando, exaustas, tombaram no cho e dormiram no lugar mesmo em que haviam cado.
     s primeiras luzes do dia, os homens comearam a sair da caverna. Saltando por cima dos corpos cados, procuraram os seus lugares de dormir e, em instantes, 
viram-se embalados por um sono sem sonhos. Neles, a catarse se fazia pela tenso da caa, o que dava a seus ritos diferente dimenso: eram mais contidos, voltados 
para dentro e estavam mais arraigados ao costume, mas nem por isso menos excitantes.
     Quando o sol despontou no oriente, por cima da colina, Creb veio para fora da caverna e olhou a cena a seus ps, formada por uma quantidade de corpos estendidos 
no cho. Em certa ocasio, observou por curiosidade celebraes das mulheres. Com muita agudeza de esprito, compreendeu a necessidade de liberao. Sabia que os 
homens tinham curiosidade de saber o que elas faziam que as deixava em tamanho estado de exausto mas jamais lhes falou sobre isto. Ficariam chocados com aquela 
soltura de cor tamerito, tanto quanto elas se vissem as fervorosas splicas que seus esto companheiros dirigiam aos espritos que participavam de suas existncias.
     De vez em quando, o Mog-ur pensava se seria ele capaz de conduzir mentes femininas s suas origens. Nelas, a memria era diferente, mas de mesma capacidade 
para reviver os acontecimentos do passado distante.  possvel realizar uma cerimnia em conjunto com homens e mulheres? tinha curiosidade de saber, mas no seria 
ele que iria descobrir isto e afrontar a ira dos espritos. O cl seria destrudo, se alguma mulher participasse dos sagrados ritos.
     Creb se dirigiu ao acampamento e acomodou-se em sua pele de dormir. Uma massa de cabelos dourados na pele de Iza levou-o a reviver toda uma srie de acontecimentos 
ocorridos a partir do instante em que ele sara da antiga caverna, pouco antes do desabamento. Por que artes teria aquela estranha menina entrado to depressa em 
seu corao? Incomodava-o a m vontade latente de Brun para com Ayla e tambm no lhe passara despercebido os olhares rancorosos que Broud lanara  menina. As desavenas 
naquele cerrado cl tinham prejudicado a cerimnia e isto o punha intranquilo.
     Broud no ficar s a, pensou Creb. O rinoceronte  um totem muito apropriado para nosso futuro chefe. Broud pode ser corajoso, mas  tambm um cabea-dura 
e muito orgulhoso. Num momento  calmo, racional, chegando at a ser um rapaz bom e gentil; em outro, por uma bobagem qualquer,  capaz de ficar furioso, cego de 
raiva. S espero que no se vire contra a garota.
     No seja idiota, disse consigo mesmo, censurando-se, o filho da companheira de Brun no vai deixar-se abalar por causa de uma simples menina, Broud agora  
um homem, ir saber controlar-se.
     Por fim, deitou-se, percebendo o quanto estava cansado. Desde o terremoto que a tenso nunca mais o havia largado, e agora podia finalmente relaxar. A caverna 
lhes pertencia. Os totens estavam l firmemente estabelecidos e o cl poderia mudar logo que acordasse. Deu, ento um bocejo, espreguiou-se e fechou os olhos.
     

***

Capitulo 7
     
     Ao entrar pela primeira vez em seus domnios, um silncio reverente abateu-se sobre o cl, intimidado pela imensido daquela catedral esculpida pela natureza. 
Mas logo foi-se acostumando  nova moradia. A lembrana da velha caverna e a ansiosa busca rapidamente passaram a ser coisas do passado e, quanto mais eles conheciam 
seus novos domnios, mais contentes ficavam com o achado. Passaram, ento a viver a rotina de todos os veres, quentes se no muito prolongados; caa, coleta e armazenamento 
da comida que os manteria por todo um longo e frio inverno, que j conheciam de experincias anteriores. Eles tinham uma bela variedade  sua disposio.
     Trutas prateadas reluzindo nas espumas brancas das saltitantes guas do rio eram apanhadas  mo com infinita pacincia, quando, desavisadamente, os peixes 
ficavam sob as razes pendentes das margens ou debaixo das pedras. Isto e gigantescos salmes, muitas vezes com um prmio extra de caviar ou de ovas cor-de-rosa, 
saracoteavam nas embocaduras do rio, enquanto enormes bagres e bacalhaus moviam-se majestosamente no fundo das guas. Redes de arrasto, feitas de crina animal retorcida, 
colhiam em seus ns os grandes peixes, quando estes tentavam escapar ao bloqueio de seus perseguidores. Eles estavam sempre fazendo o fcil percurso de cerca de 
10 quilmetros at o mar e l se abastecendo de peixes de gua salgada que punham para curtir na fumaa das fogueiras e depois eram guardados para o inverno. Os 
moluscos e crustceos eram apanhados tanto por suas carapaas, que lhes serviam de colheres, cuias, conchas e xcaras, como tambm por suas apetitosas carnes. Nos 
promontrios alcantilados iam buscar ovos nos ninhos dos mais variados pssaros martimos, e vez por outra, uma pedra bem atirada vinha aumentar-lhes a festa com 
alguma gaivota, maarico ou mergulho.Razes, talos e folhas suculentas, abboras, legumes, amoras, frutas, nozes, sementes, cada coisa era colhida a seu tempo, 
 medida que o vero avanava. Muitas folhas, flores e ervas eram postas a secar e usadas depois para ch ou como condimentos, e os torres de sal, formados na poca 
em que as geleiras do nordeste chupavam a umidade do ar, fazendo recuar o mar, eles os transportavam  caverna, de modo a ter sua comida temperada no inverno.
     Os caadores estavam frequentemente saindo. As plancies prximas, ricas em relvas e ervas, com apenas uns poucos e isolados grupos de rvores atar racadas, 
abundavam em animais de pastagem e rebanhos dos mais diversos. Gigantescos veados percorriam as estepes com seus fantsticos chifres palmados que chegavam, nos adultos, 
a ter uma abertura de trs metros, ao lado de enormes bises com os seus chifres de igual dimenso. Os cavalos das estepes raramente iam to ao sul, mas burros selvagens 
e onagros um intermedirio de asno e cavalo) estavam sempre cruzando as plancies da pennsula, enquanto seu alentado primo, o cavalo da floresta, vivia  parte, 
ou em pequenos grupos nos terrenos perto da caverna. Pelas estepes tambm passavam ocasionalmente pequenos bandos de antiopes saigas, os parentes que alguns caprinos 
montanheses tinham nas plancies.
     Nos terrenos entre a pradaria e as encostas, habitavam os auroques, de cor marrom-escura ou negra, os ancestrais do nosso gado domstico, de propores mais 
delicadas. Os rinocerontes da floresta, parecidos com as espcies herbvoras surgidas posteriormente em terras tropicais, mas adaptados s florestas de clima frio, 
avanavam um pouco sobre o territrio de outra variedade de rinoceronte que preferia as pastagens prximas s encostas. Ambos, com seus chifres menores, pontiagudos 
e eretos, e uma cabea alinhada horizontalmente, diferiam do rinoceronte lanoso que, junto com os mamutes de plo alto, eram visitantes s ocasionais. Esses tinham 
um comprido chifre inclinado para a frente e uma cabea voltada para baixo, muito prtica para espanar a neve das pastagens durante os invernos. Suas grossas camadas 
subcutneas de gordura e um manto formado por uma cabeleira fulva, crescida por cima de uma penugem macia, eram adaptaes que os obrigavam a estar confinados s 
geladas e secas estepes do norte ou s plancies de loesse.
     Somente na presena de geleiras formava-se o loesse nas estepes. Uma baixa e constante presso atmosfrica nos vastos lenis de gelo sugava a umidade do ar, 
no deixando cair grande quantidade de neve nas regies perifricas das geleiras e gerando constantes correntezas de vento. A fina poeira calcria, dita loesse, 
provinha das rochas causticadas na orla das geleiras e era depositada por centenas de quilmetros ao redor. Uma curta primavera derretia a escassa neve e a camada 
superior do permafrost, o bas tante para rpidos enraizamentos e o brotar das ervas. As plantas cresciam e secavam depressa, produzindo milhares e milhares de hectares 
de feno para alimentar milhes de animais que se haviam adaptado ao gelado frio do continente.
     As estepes da pennsula s recebiam os animais de plo alto no final do outono. Os veres eram demasiadamente quentes e, no inverno, a neve densa demais para 
ser posta de lado. Muitos outros, chegando o frio, tomavam rumo norte at as fronteiras das estepes de loesse, mais frias, porm mais secas. A maioria deles, com 
a volta do vero, estava l outra vez. Os animais com capacidade para sobreviver de galhos, cascas de rvores ou lquens de plantas permaneciam nas encostas com 
florestas que lhes ofereciam proteo, mas excluam aqueles andando em grandes manadas.
     Alm dos cavalos e rinocerontes das florestas, porcos selvagens e grandes variedades de veados encontravam abrigo nas paisagens florestais: o veado vermelho, 
vivendo em pequenas manadas; sozinhos ou ento em pequenos grupos, os arredios cervos com seus chifres de trs pontas; os gamos, um pouco maiores e malhados de marrom 
e branco; e os alces, conhecidos mais tar de na Amrica do Norte como moose.
     Mais para cima na montanha, os carneiros selvagens de grandes chifres, agarrados aos penhascos e aos floramentos nas rochas, viviam do pastoreio alpestre. Mais 
para o alto ainda, o ib o cabrito-monts, e a camura cabriolavam de precipcio em precipcio. Pssaros de vos dardejantes punham msica e cor na floresta e muitas 
vezes tambm comida. No entanto, tinham presena mais constante nos menus as carnudas ptrgmigas e os galinceos das estepes que podiam ser abatidos com pedradas, 
ou tambm os gansos e patos apanhados em redes, quando vinham pousar nos lagos pantanosos das montanhas. Aves de rapina flutuavam vagarosamente ao sabor dos ventos, 
vasculhando embaixo as plancies e florestas fartas e dadivosas.
     Uma infinidade de animais de tamanho menor - caados ou caadores - pululava nas montanhas ou na plancie perto da caverna, abastecendo o homem com carne e 
pele. Dentre os caadores, contavam-se: viso, lontra, carcaju, arminho, marta, raposa, zibelina, texugos e os felinos de pequeno porte que deram origem  nossa 
imensa legio de gatos domsticos. E como animais caados: esquilo, porco-espinho, lebre, coelho, toupeira, rato almiscarado, ntria, castor, zorrilho, rato, arganaz, 
lemingue, hamsters gigantes e uma multido de outros que jamais receberam nomes e, atualmente, extintos.
     Os carnvoros de dimenses mais avantajadas eram essenciais para enfraquecer as fileiras dos pequenos predadores. Dentre os caninos: os lobos e seus parentes 
chamados dholes que conseguiam ainda ser mais ferozes do que eles; e dentre os felinos: lince, lobo tigrado, tigres, leopardo e, com o dobro do tamanho de qualquer 
um desses, o leo da caverna. Os ursos onvoros, de plo marrom, tambm caavam nas redondezas, mas seus gigantescos primos vegetarianos, os ursos da caverna, j 
no se encontravam mais l. E para completar esse quadro da vida selvagem, a onipresente hiena da caverna.
     A terra era de riqueza incrvel, e o homem, ali, uma insignificante frao das mltiplas formas de vida que habitaram e morreram naquele den perdido no tempo. 
Faltando-lhe as experincias inatas, sem nenhum predicado natural superior, exceto o seu bem desenvolvido crebro, ele era o mais fraco dos caadores. Embora com 
toda sua manifesta vulnerabilidade, desprovido de garras e presas, perdendo em velocidade e na fora dos saltos, o caador de duas pernas havia granjeado o respeito 
de seus competidores de quatro patas. Bastava seu cheiro para que um animal de muitssimo mais fora se desviasse do caminho, onde quer que os dois vivessem muito 
tempo em estreita proximidade. Os caadores do cl, experientes e capazes, eram to bons na defesa como no ataque e, quando a segurana ou a vida do grupo se achava 
ameaada, ou quando desejavam um bom e quente agasalho, punham-se  espreita de seus incautos espreitadores.
     Era um dia luminoso, quente, em pleno despontar do vero. As folhas brotadas nas rvores projetavam suas sombras, mas ainda sem a intensidade com que o fariam 
mais para diante da estao. Insetos zuniam, indolentes, em volta dos ossos sobrados de outras refeies. Uma brisa fresca vinda do mar trazia consigo um vestgio 
de vida, e a folhagem em movimento desenhava sombras na ensolarada encosta, frente  caverna.
     Terminada a luta pela moradia, as obrigaes do Mog-ur se tornaram muito poucas. Tudo que se exigia dele era que, vez por outra, celebrasse uma cerimnia de 
caa e alguns ritos para espantar os maus espritos e, em caso de doenas ou acidentes, sua interferncia espiritual para ajudar a medicina de Iza. Os caadores 
haviam partido e, com eles, algumas mulheres. Por muitos dias estariam fora. As mulheres eram levadas para que preparassem as conservas das carnes dos animais abatidos. 
As caas, depois de j secas, ficavam mais fceis de ser trazidas e estocadas para o inverno. O sol quente e o constante vento na plancie rapidamente curtiam as 
carnes cortadas em tiras. A fumaa nas fogueiras de capim e esterco tinha mais o objetivo de afugentar as moscas varejeiras, que deixavam seus ovos na carne fresca, 
apodrecendo-a. E as mulheres, na volta, carregariam o grosso da carga.
     Quase diariamente, depois que se instalaram na caverna, Creb passava um bom tempo com Ayla, tentando ensin-la a lngua deles. s palavras bastante elementares 
que usavam - normalmente a parte mais difcil para as crianas dos cl aprenderem - ela pegou com facilidade, mas o intrincado sistema de gestos e sinais estava 
alm de sua compreenso O feiticeiro tentava faz-la entender o significado do gesto, mas No havia uma base comum no mtodo de comunicao dos dois, alm de No 
existir ningum ali para explicar ou interpretar. O pobre homem dava tratos  bola, mas no conseguia encontrar um jeito de fazer-se entender. Ayla, igualmente, 
sentia-se frustrada.
     Ela sabia que alguma coisa lhe estava escapando, e desejava com todas as suas foras poder expressar mais do que as suas poucas palavras lhe permitiam. Era 
evidente para ela que as pessoas no cl se faziam entender atravs de alguma coisa, diferente das meras palavras que usavam. S que ela no entendia como era isso. 
O problema estava no fato de no ver os sinais feitos com as mos. Parecia-lhe que eram movimentos ao acaso, no intencionais. Simplesmente no fora capaz de penetrar 
no conceito de uma linguagem gestual, e tal possibilidade jamais lhe poderia ocorrer; estava totalmente fora do mbito de suas experincias anteriores.
     Creb comeava a formar uma vaga noo do problema, embora achasse difcil acreditar no que imaginava. Deve ser porque ela no sabe que os movimentos tm significado, 
dizia consigo.
     - Ayla - chamou-a, com um aceno.
     O problema deve estar a, pensou, enquanto iam por um caminho prximo ao riacho. Ou  isto, ou ento ela no  suficientemente inteligente para compreender 
uma linguagem. Mas, pelo que at ento ele tinha podido observar, no era falta de inteligncia, por mais diferente que Ayla pudesse parecer. No entanto, a menina 
entendia gestos simples e, com isto, Creb compreendeu que toda a questo se resumia em ampliar-lhe a gesticulao.
     De tanto os membros do cl sarem para caadas, pescarias e coletas de plantas, a relva e os arbustos foram ficando batidos, formando-se uma trilha ao longo 
da mata. Os dois foram dar num lugar por que Creb tinha especial predileo. Era um espao aberto, perto de um carvalho com as razes levantadas, formando um banco 
sombreado e alto, mais cmodo para Creb sentar-se do que o cho. Para comear a lio, ele apontou na direo de uma rvore com seu cajado.
     - Carvalho - respondeu, prontamente, Ayla.
     Creb aprovou com a cabea e mostrou, em seguida, o riacho.
     - gua - disse a menina.
     Ele tornou a fazer que sim com a cabea e logo depois fez um gesto ao mesmo tempo em que repetia a palavra dita por Ayla. Significava gua correndo, ou seja, 
rio.
     - gua? - disse Ayla, hesitante; espantada por ele ter indicado que sua palavra estava correta e tornado a fazer a pergunta anterior. Ela comeava a sentir 
um frio no estmago. J havia sido a mesma coisa antes, e percebia que havia qualquer coisa que ele desejava, mas No o entendia.
     Creb fez no com a cabea. Muitas e muitas vezes, j havia feito o mesmo tipo de exerccio. Tentou novamente, agora apontando para os ps.
     -Ps - falou Ayla.
     - Sim - disse ele, acenando com a cabea. Tenho de arrumar um jeito que ela tambm veja e No s oua, pensou consigo. Levantou-se, pegou a mo de Ayla e deu 
com ela alguns passos, deixando seu cajado para trs. Ele fez um gesto e disse a palavra p. Ps mexendo significa caminhar, era o que tentava transmitir-lhe.
     Ela se esforava para ouvir bem, achando que poderia haver qualquer coisa no som que no estivesse pegando direito.
     - Ps - falou Ayla, trmula, certa de que no era essa a resposta pretendida.
     - No! No e no! Ps mexendo, igual a caminhar! - repetia, olhando diretamente para ela e exagerando nos gestos. Andava com Ayla, apontando para os ps, desesperanado 
de que algum dia ela viesse a aprender.
     Ayla sentia que as lgrimas lhe brotavam nos olhos. Ps! Ps! Sabia que estava falando a palavra correta. Por que continuava ele abanando a cabea, sempre dizendo 
no? Por que no pra de mexer com a mo na frente de meu rosto? O que estou fazendo de errado?
     Creb tornou a caminhar com ela; apontava-lhe os ps, mexia com a mo e dizia a palavra. Ela parou e ficou observando-o. Ele fez o gesto novamente,exagerando-o 
tanto que quase j significava outra coisa e repetiu mais uma vez a palavra. Tinha se curvado para a frente, olhando-a em cheio no rosto e fazendo os gestos bem 
em frente aos olhos dela.
     O que ele quer? O que espera que eu faa? Ayla queria entend-lo. Sabia que ele estava tentando dizer-lhe qualquer coisa. Por que no pra de mexer a mo?, 
perguntou-se.
     Ento, um raiozinho de luz passou-lhe pela cabea. A mo dele! Ele no pra com a mo. 
     Hesitante, levantou a sua.
     - Sim! Sim! Isso mesmo! - disse ele, com um sim entusiasmado, quase gritado. - Faa o gesto! Mexa o p - repetiu.
     A compreenso comeava a fazer-se e ela observava o movimento dele, tentando copi-lo. 
     Creb est dizendo sim!  isto que ele quer! O gesto, ele quer que eu faa o mesmo movimento.
     A menina tornou a fazer o gesto, repetindo a palavra sem entender o significado, mas pelo menos compreendendo que aquele era o gesto que ele queria que fizesse 
enquanto pronunciava a palavra. Depois, Creb virou-lhe o corpo e a conduziu de volta ao carvalho, mancando mais do que nunca. Apontando para os ps de Ayla, enquanto 
andavam, ia fazendo a combinao de gesto com palavra.
     De repente, o estalo, e ela fez a conexo. Mexer o p, igual a caminhar.  isto o que ele quer dizer. No era s ps. O movimento da mo com a palavra ps significa 
caminhar. Sua mente havia disparado. Lembrava-se agora dever sempre as pessoas fazendo sinais com as mos. Via na mente Iza e Creb, os dois de p, olhando um para 
o outro, mexendo com as mos e dizendo poucas palavras. Ento eles estavam conversando?  assim que se falam?  por isso que dizem to pouca coisa? Ento eles conversam 
com as mos?
     Creb se sentou. Ayla de p, ps-se na frente dele, tentando acalmar-se.
     - Ps - disse ela, apontado para seus prprios ps.
     - Sim - fez ele, curioso, com a cabea.
     Ela se virou, caminhou e quando voltou a aproximar-se, fez o gesto e disse a palavra ps.
     - Sim, sim! Isso mesmo! A idia  essa - disse ele. Conseguiu pegar. Acho que entendeu!
     Por um instante, Ayla parou quieta no lugar, depois virou-se e saiu correndo. Deu uma corrida pela clareira e voltou, ficando, ofegante, parada na frente dele, 
esperando.
     - Correr - falou ele por gesto, enquanto ela o observava com ateno. Sua gesticulao era parecida com a anterior, mas no totalmente igual.
     - Correr - disse ela imitando, hesitante, o gesto.
     Ela tinha compreendido!
     Creb vibrava. Por enquanto, os movimentos dela eram grosseiros, no chegando nem a ter a sutileza daqueles feitos pelas crianas do cl, a idia da linguagem, 
porm, tinha sido entendida. Ele fez um sim entusiasmado e quase foi derrubado do assento, quando Ayla atirou-se sobre ele, abraando-o em sua alegria por poder 
comunicar-se.
     O velho feiticeiro passou os olhos ao redor, quase instintivamente. Os gestos de afeio no deviam ultrapassar os limites das fogueiras de cada um. Mas estavam 
sozinhos e ele lhe correspondeu com um afetuoso abrao, pela primeira vez sentindo o que era o prazer de uma terna afeio.
     Todo um mundo novo de compreenso abriu-se para Ayla. A menina tinha um natural pendor para representar e um talento especial para imitaes que punha inteiro 
nos arremedos que fazia dos movimentos de Creb. No entanto, Creb tinha gestos de maneta, adaptado s suas condies fsicas. Foi Iza quem teve de ensinar os detalhes 
mais elaborados da linguagem. Ayla aprendia como um beb que comea primeiro expressando as coisas de que tem necessidade, s que seu aprendizado se fazia muito 
mais rpido. Tanto tempo se sentira frustrada em suas tentativas para comunicar-se que estava resolvida a recuperar o mais depressa possvel o tempo perdido.
     Quando comeou a compreender melhor, a vida do cl surgiu diante de seus olhos com outras cores. Extasiada, observava, atenta, as pessoas  sua volta comunicando-se, 
tentando pegar o que umas diziam s outras. No incio, o cl se mostrou complacente com aquela intruso visual e tratava-a com a um beb. Mas, com o tempo, os olhares 
de desaprovao lanados em sua direo deixavam bem claro que comportamento to mal-educado no mais seria tolerado dali por diante. Ficar olhando era to descorts 
quanto o ato de escutar s escondidas. A boa educao mandava que se desviassem os olhos, quando pessoas conversavam em particular. O problema estourou numa certa 
tarde, quando o vero j ia pela metade.
     O cl se achava no interior da caverna, com as famlias reunidas em volta de suas fogueiras, depois da ltima refeio do dia. O sol havia mergulhado por trs 
do horizonte e a plida luz de seus ltimos raios delineava os contornos das copas de folhagens escuras, farfalhando com a suave brisa da noite. A fogueira  entrada 
da caverna, acesa para espantar os maus espritos e animais rapaces, esquentava a atmosfera, enviando ao ar volutas de fumaa e ondas de calor que faziam as sombras 
escuras das rvores e arbustos ondularem ao ritimo silencioso das chamas bruxuleantes. Luzes e sombras danavam nas paredes rochosas da caverna.
     Ayla, sentada dentro do setor pertencente a Creb, circundado por pedras, no tirava os olhos da fogueira de Brun. Broud, chateado, descontava em sua me e Oga, 
fazendo valer suas prerrogativas de homem adulto. O dia tinha comeado mal para ele e terminado pior. 
     As longas horas que passara na trilha  espreita de uma raposa foram desperdiadas quando perdeu o tiro e o animal, cuja pele j havia solenemente prometido 
a Oga, fundira-se com a mata, prevenido com o zunir da funda. O olhar de compreenso de Oga s fez ferir mais seu orgulho j ferido. Ele  quem deveria perdoar as 
faltas dela e no o contrrio.
     Ebra, exasperada com as constantes interrupes, fez um leve sinal para Brun. Estavam todas cansadas de um dia trabalhoso e querendo logo terminar com os afazeres. 
O chefe via o que se passava, perfeitamente consciente daquelas exigncias desmedidas. Era um direito de Broud, mas Brun sentia que ele poderia mostrar-se mais sensvel. 
No havia necessidade de botar as mulheres correndo pelas menores coisas, quando elas j estavam to ocupadas e cansadas.
     - Broud, deixe as mulheres em paz. Elas j tm muito o que fazer - gesticulou Brun, ralhando em silncio.
     A censura foi a gota dgua, sobretudo vinda de Brun e na frente de Oga. O rapaz saiu pisando duro e foi curtir sua raiva na outra extremidade da rea pertencente 
a Brun, perto das pedras que faziam limite com a fogueira de Creb. Foi ento que deu com Ayla encarando-o diretamente. O que impor tava no era o fato de Ayla - 
ainda que no tenha percebido direito - ter presenciado aquela sutil briga domstica, passada na fogueira do vizinho, mas sim porque o vira sendo censurado, como 
se faz com uma criana. Foi um golpe mortal no seu j frgil ego. Puxa, no tem nem a delicadeza de desviar os olhos, pensou Broud. Bem, ela no  a nica aqui que 
pode ignorar simples atos de boas maneiras. Todas as frustraes do dia explodiram e, ostensivamente, afrontando as convenes, dirigiu um olhar carregado de dio 
na direo da garota que detestava.
     Creb tinha conscincia das disputas sem importncia que ocorriam na fogueira de Brun, bem como de tudo que acontecia no cl. Quase sempre, como um barulho de 
fundo, as coisas iam filtrando-se a seu conhecimento, mas, quando se tratava de Ayla, ele era todo ateno. Sabia que para Broud ter conseguido vencer o condicionamento 
de toda uma vida e chegar a olhar para o interior da fogueira de outro homem, isso s poderia ser um ato deliberado de sua parte e carregado de uma inteno extremamente 
maldosa. A animosidade de Broud em relao a Ayla  muito grande, pensou o feiticeiro. Para o prprio bem da menina, j  tempo de ensin-la algumas regras de bom 
comportamento.
     - Ayla! - chamou, seco. A garota se sobressaltou com o tom da voz. - No olhe para as outras pessoas - gesticulou.
     Ayla estava espantada.
     - Por qu?
     - No olhe. No encare. As pessoas no gostam - tentou explicar, certo de que Broud os observava com o canto dos olhos, no se dando mesmo o trabalho de esconder 
o prazer que sentia por estar presenciando Ayla levar um caro. Afinal, ela  muito mimada pelo Mog-ur, pensou Broud. Se vivesse conosco, eu logo iria ensin-la 
como uma mulher tem de se comportar.
     - Estou olhando para aprender a falar - disse Ayla por meio de gestos, ainda surpresa e um tanto magoada.
     Creb sabia muito bem por que Ayla estava espiando, mas ela precisava aprender. Talvez isso diminusse o dio de Broud, vendo que estava sendo repreendida por 
causa dele.
     - Ayla, no encare - disse Creb, com expresso severa. - Responder aos homens  mau. 
     Olhar a fogueira dos outros  tambm mau. Mau! Entendeu?
     Ele tinha sido rspido. Queria falar o que tinha a dizer. Percebeu quando Brun chamou Broud e este se levantou, visivelmente em melhor estado de esprito.
     Ayla sentia-se arrasada. Jamais Creb havia sido rspido com ela. Achava justamente o contrrio, que ele estava contente por v-la querendo aprender a lngua 
deles, e o velho agora vinha dizer-lhe que ela era m porque estava espiando as pessoas e com vontade de aprender mais. Confusa, magoada, as lgrimas encheram seus 
olhos, escorrendo-lhe pelas faces.
     - Iza! - chamou Creb, preocupado. - Venha c! H alguma coisa errada com os olhos de Ayla.
     As pessoas da raa dos cls no choravam, s se lhes casse algo dentro dos olhos, ou quando estavam resfriadas ou sofrendo de alguma doena no rgo da viso. 
Creb nunca vira lgrimas de tristeza. Iza veio correndo.
     - Olhe isto! Os olhos dela esto cheios de gua.  capaz de ter cado alguma fasca neles.  melhor dar uma olhada - insistiu ele.
     Iza tambm estava preocupada. Levantando as plpebras de Ayla, olhou de perto dentro dos olhos.
     - Esto doendo? - perguntou. Ela no conseguia ver qualquer sinal de inflamao. No parecia haver nada de errado com os olhos da menina, fora o fato de estarem 
vertendo gua.
     - No. No esto doendo - disse Ayla, choramingando. No estava entendendo a preocupao com seus olhos, mas isso serviu para perceber que, mesmo Creb dizendo 
ach-la m, ambos gostavam dela. - Por que Creb est furioso, Iza? - perguntou, soluando.
     - Voc precisa aprender - explicou Iza, sria, olhando para a menina - que no  educado ficar encarando. No  educado olhar para a fogueira de outro homem 
e ver o que as pessoas esto dizendo. Ayla precisa aprender que, quando um homem fala, a mulher abaixa os olhos. Assim. - Ela mostrou como. - Quando um homem fala, 
a mulher no pergunta. S as criancinhas fi cam olhando. Os bebs. Ayla  grande e as pessoas ficam zangadas com ela.
     - Creb est zangado? No gosta de mim? - perguntou, derretendo-se outra vez em lgrimas.
     Iza se via ainda desorientada com aquele derramar de gua dos olhos de Ayla, mas percebeu a confuso em que a garota se achava.
     - Creb gosta de Ayla e Iza tambm. Creb ensina Ayla. Ele quer que Ayla aprenda. Ayla no tem de aprender s a falar. Ela precisa tambm aprender as maneiras 
do cl - disse a mulher, tomando Ayla nos braos e segurando-a com brandura, enquanto a menina chorava suas mgoas. Depois, enxugou-lhe os olhos inchados com uma 
pele macia e olhou dentro deles outra vez para se certificar e se tranquilizar.
     - O que h com os olhos dela? - perguntou Creb. - Ela est doente?
     - Ela est achando que voc no gosta dela e que voc est furioso. Deve ter ficado doente por isso. Talvez olhos claros como os dela sejam fracos. No vi nada 
de errado com eles e ela diz que no esto doendo. Acho que a tristeza faz os seus olhos se encherem de gua, Creb.
     - Tristeza? Ficou to triste assim porque pensou que eu no gostasse dela? Por causa disso ficou doente? Foi o que botou seus olhos cheios de gua?
     Creb estava estarrecido. Mal podia acreditar e se via atravessado por toda uma srie de pensamentos desencontrados. Ento Ayla estava adoentada? Mas parecia 
com sade, e pessoa alguma j havia ficado doente por achar que ele no gostasse dela. Nunca ningum, fora Iza, havia gostado dele daquela maneira. Ao contrrio, 
todo mundo tinha medo dele. Temor e respeito foi o que sempre havia despertado e jamais uma pessoa tinha desejado que ele gostasse tanto dela, a ponto de ficar com 
gua nos olhos. Talvez Iza tenha razo. Talvez os olhos dela sejam fracos, mas a viso  tima, disso ele tinha certeza. De qualquer jeito, tenho de fazer com que 
ela entenda que  para seu prprio bem que tem de aprender a comportar-se direito. Se ela no aprender as maneiras do cl, Brun ir expuls-la.  uma coisa que ele 
ainda tem direito. Mas isso no significa que eu no goste dela. Pelo contrrio, admitiu consigo. Por mais estranha que seja, gosto muito dela.
     Ayla, nervosa, veio caminhando na direo dele, olhando, sem jeito, para os ps. Ficou parada na sua frente, depois levantou os olhos, tristes, ainda midos.
     - Nunca mais vou encarar as pessoas - disse ela, gesticulando. - Creb no est zangado?
     - No. No estou zangado, Ayla. Mas agora voc faz parte do cl, voc pertence a mim. Voc tem de aprender a lngua, mas tambm precisa aprender as maneiras 
da gente. Entende?
     - Eu perteno a Creb? Creb gosta de mim?
     - Sim, eu gosto de Ayla.
     A menina deu um largo sorriso e abraou-o; depois, meteu-se no colo dele, aconchegando-se a seu corpo disforme.
     Creb sempre se interessou por crianas. Na funo de mog-ur, raramente revelava o totem de algum garoto que a me logo no o achasse muito apropriado ao filho. 
O cl atribua este dom a seus poderes mgicos, mas, na verdade, isto provinha de seu poder de observao e de sua grande perspiccia. Ele tomava conhecimento da 
criana desde o seu nascimento e estava sempre vendo tanto homens como mulheres igualmente ninando e consolando seus bebs, mas ele prprio jamais conheceu a alegria 
de embalar uma criana nos braos.
     A menininha cansada de tantas emoes caiu no sono. Sentia-se segura com o terrvel feiticeiro. Ele veio substituir no seu corao a figura de um homem de quem 
j no se lembrava mais, exceto em algum canto recndito do inconsciente. Ao olhar a fisionomia tranquila e confiante daquela estranha menina em seu colo, Creb sentiu 
por ela um profundo amor brotando-lhe na alma. No poderia am-la mais se ela fosse dele de verdade.
     - Iza - chamou, muito suavemente.
     A mulher veio tom-la do colo de Creb, no antes de ele tornar a abra-la.
     - A doena fez com que ficasse cansada - disse ele, depois de Iza ter deitado Ayla. - Faa com que ela descanse amanh e  melhor que voc torne a examinar-lhe 
os olhos pela manh.
     - Sim - falou Iza, com a cabea. Adorava aquele seu germano aleijado. Conhecia melhor do que ningum a alma delicada que existia por trs daquele semblante 
sombrio. Sentia-se feliz por ver que ele tinha encontrado algum para amar, algum que tambm gostava dele, o que s fazia aumentar seu afeto por Ayla.
     Desde os tempos de criana que iza no se lembrava de ter sido to feliz. A nica coisa a empanar a alegria era o medo de que a criana que carregava na barriga 
nascesse menino. Se fosse homem, teria de ser criado por um caador. Era germana de Brun, a me deles fora companheira do chefe anterior. Se algo acontecesse a Broud 
ou se a companheira dele No tivesse filho, a liderana do cl passaria para o filho dela, Iza, se este nascesse homem. Brun se veria forado a dar tanto ela como 
o beb para um dos caadores, ou do contrrio ele prprio teria de assumi-la. Todos os dias pedia a seu totem para que nascesse uma menina. Contudo, No conseguia 
deixar de preocupar-se.
      medida que o vero avanava, graas  serena pacincia de Creb e  grande fora de vontade de Ayla, esta comeou a entender No s a lngua, mas tambm os 
costumes da gente que a adotara. Aprender a desviar os olhos - o nico jeito possvel de as pessoas desfrutarem de alguma privacidade - foi apenas a primeira de 
muitas outras difceis lies que teve de reter na cabea. Mas dificil foi reprimir a curiosidade natural e seus mpetos cheios de vida para se pr de acordo com 
o comportamento sempre dcil das mulheres.
     Creb e Iza tambm estavam aprendendo. Os dois descobriram que, quando Ayla fazia uma certa careta, arreganhando os lbios e mostrando os dentes, em geral seguida 
de um peculiar som aspirado, isso significava que ela estava feliz e alegre. Mas eles nunca conseguiram dominar seu nervosismo diante daquela estranha doena que 
fazia os olhos dela se encherem de gua, nos momentos de tristeza. Iza acabou concluindo que se tratava de uma deficincia prpria de olhos claros e tinha curiosidade 
de saber se esse era um trao normal nos Outros, ou se s os olhos de Ayla aguavam. Por precauo, lavava-lhe os olhos com um lquido claro, extrado de uma planta 
branco-azulada que crescia nos lugares sombrios da mata. No p, a planta parecia morta; alimentava-se de madeiras podres e de outras matrias orgnicas, j que lhe 
faltava clorofila, e sua superfcie cerosa ficava logo preta quando tocada. Mas Iza No conhecia melhor remdio para doenas e inflamao nos olhos do que o lquido 
frio que escorria dos talos quebrados desta planta e o estava sempre aplicando em Ayla, todas as vezes que ela chorava.
     Ayla, entretanto, No chorava muito. J que as lgrimas imediatamente despertavam a ateno dos outros, a menina fazia a maior fora para controlar-se. No 
s porque era uma coisa que perturbava duas pessoas de quem gostava muito, como tambm porque isso a diferenciava e ela desejava estar bem ajustada e ver-se aceita 
pelo cl. As pessoas, por sua vez, estavam aprendendo a aceit-la, mas ainda continuavam olhando desconfiadas aquelas suas peculiaridades.
     Cada vez mais, Ayla ia conhecendo o cl e aprendendo a tom-lo tal como ele era. Embora os homens tivessem curiosidade a seu respeito, a dignidade no lhes 
permitia demonstrar muito interesse por uma menina, por mais fora do comum que ela fosse. Dessa forma, Ayla os ignorava tanto quanto eles fimgiam No perceb-la. 
Brun era quem demonstrava mais interesse, mas o chefe a amedrontava. Um homem srio demais e No permitia maiores familiaridades. Muito diferente de Creb. Ela no 
imaginava que, para o resto do cl, o Mog-ur parecesse uma figura muito mais distante e intocvel do que Brun e, por seu lado, todos se achavam espantados com a 
intimidade que se criara entre a estranhssima menina e o terrvel feiticeiro. De quem ela particularmente desgostava era do rapaz que vivia na fogueira de Brun. 
Broud sempre lhe parecia mesquinho, quando a olhava.
     Foi com as mulheres que se familiarizou primeiro. Passava agora mais tempo na companhia delas. Exceto quando estava na fogueira de Creb ou quando ia com Iza 
colher plantas medicinais, as duas em geral ficavam quase todo o tempo junto da ala feminina do cl. A princpio, Ayla se limitava a ficar rondando por perto de 
Iza, apenas observando os trabalhos: pelar animais, botar couros para curtir, tecer cestas e redes, esticar as tiras que cortavam em espiral numa pea nica de couro, 
esculpir vasilhames de madeira, colher alimentos, preparar comidas, fazer conservas com carnes e vegetais para o inverno e ainda atender os desejos de qualquer homem 
que ordenasse um servio. Mas depois que notaram sua vontade de aprender, No s a ajudaram na lngua, como tambm comearam a ensinar-lhe suas habilidades.
     Ayla No era to forte como as mulheres e as crianas do cl - sua com pleio mais delicada No comportava o musculoso arcabouo sseo da raa clnica - em 
compensao, era muito jeitosa e flexvel. Trabalhos pesados lhe eram difceis, mas, para sua idade, tecia muito bem cestas e cortava com mo firme as tiras de couro. 
Em pouco tempo, fez boa amizade com Ika que, com seu temperamento afetuoso, facilmente se fazia gostar. Ika, ao ver o interesse de Ayla por seu beb, deixava que 
a menina carregasse Borg e desse passeios com ele por perto. J Ovra mostrava-se reservada, mas tanto ela como Yka eram especialmente gentis com Ayla. A dor dessas 
duas - uma de me e outra de germana - pela perda do rapaz morto no desabamento da caverna levou-as a simpatizar com a sorte da criana que perdera toda sua famlia. 
Mas, companheiros do sexo masculino, Ayla No os tinha.
     Aquele primeiro despontar de amizade surgido entre ela e Oga havia arrefecido depois da cerimnia da caverna. Oga viu-se dividida entre Ayla e Broud. A menina 
recm-chegada, apesar de mais moa, poderia ter sido uma boa companhia para Oga, alm de que as duas tinham a uni-las um destino parecido, mas os sentimentos de 
Broud em relao a Ayla No deixavam margem a dvidas. Assim, Oga, relutante, preferiu evitar Ayla em deferncia ao homem do qual esperava tornar-se companheira. 
Fora os momentos em que trabalhavam juntas, raramente uma procurava a outra e, depois de Ayla ver repilidas todas as suas tentativas de aproximao, preferiu afastar-se 
sem fazer outros esforos neste sentido.
     Ayla no gostava de brincar com Vom. Mesmo sendo um ano mais moo do que ela, a idia de Vorn de brincadeira envolvia sempre uma quantidade de ordens para lhe 
dar, imitando o comportamento dos homens que Ayla ainda achava difcil de aceitar. Se tentasse rebelar-se, ela se via alvo da raiva tanto dos homens como das mulheres 
e, especialmente, da de Aga, me de Vorn. A me achava-se orgulhosa de ver o filho aprendendo a comportar-se como um homem e, tanto ela como o resto do cl, no 
ignoravam a animosidade que Broud sentia por Ayla. Algum dia, Broud seria o chefe, e Vorn, se continuasse sempre nas boas graas dele, poderia ser escolhido para 
o posto de segundo em comando. ga No perdia oportunidade para fazer seu filho crescer em importncia, a ponto de implicar com a menina, quando visse Broud por 
perto. Tambm se visse ayla e Vom juntos, com Broud nas proximidades, imediatamente chamava o filho.
     A capacidade de Ayla comunicar-se foi rapidamente melhorando, sobretudo depois da ajuda das mulheres. No entanto, foi por observao prpria que aprendeu a 
exprimir determinada idia. Sem dar tanto na vista, ela ainda continuava observando as pessoas. Era algo que No conseguia evitar.
     Certa tarde, vendo Ika brincando com Borg, percebeu a me fazendo um gesto para o filho, repetidas vezes. Quando os movimentos das mos do beb casualmente 
pareceram imit-la, ela chamou a ateno das mulheres e se ps a gabar o filho. Algum tempo depois, Ayla viu Vom correr na direo de Aga e cumpriment-la com o 
mesmo gesto. E tambm Obra fazia o movimento ao comear uma conversa com Ika.
     Naquela noite, Ayla timidamente se aproximou de Iza e lhe fez o gesto, quando esta olhou em sua direo. Os olhos de Iza arregalaram-se.
     - Creb - disse ela. - Quando voc ensinou Ayla a me chamar de me?
     - No fui eu quem ensinou, Iza - respondeu o feiticeiro. - Ela deve ter aprendido sozinha.
     Iza virou-se para a menina.
     - Voc aprendeu isto por voc mesma?
     - Sim, me - respondeu Ayla, repetindo o gesto. Ela No tinha muita certeza do significado daquele movimento de mo, mas fazia uma vaga idia. Sabia que as 
crianas gesticulavam daquela maneira para as mulheres que gostavam delas. Apesar de a mente ter bloqueado a memria de sua me, seu corao No havia esquecido. 
Iza veio substituir a mulher que j havia amado, mas que perdera.
     E Iza, que passara tantos anos sem filhos, ficou emocionada.
     - Minha filha - disse ela, abraando Ayla, num de seus raros momentos de espontaneidade afetiva. - Minha filhinha. Sabia que ela era minha filha desde o primeiro 
momento, Creb. Eu No disse? Ela foi dada a mim. Os espritos destinaram Ayla para ser minha, tenho toda certeza disso.
     Creb No discutiu, talvez ela estivesse certa.
     Depois daquela noite, os pesadelos de Ayla diminuram, embora, vez por outra, ainda fosse acometida por algum. Dois sonhos estavam sempre voltando. Um era com 
ela escondida numa gruta muito pequena, tentando pr-se a salvo de uma enorme e afiada garra. O outro, mais vago e perturbador, era a sensao da terra tremendo 
e um fantstico estrondo seguido de dolorosssimo sentimento de perda. Ela acordava, gritando na sua estranha lngua - cada vez menos usada - e se agarrando a Iza. 
Logo que chegou, sem perceber, deixava-se levar por sua lngua, mas,  medida que foi aprendendo a se expressar  maneira do cl, s em sonhos lhe acontecia isto. 
Depois de algum tempo, nem mesmo nos sonhos, mas nunca acordava de seus pesadelos sem um profundo sentimento de desolao.
     O curto e quente vero passou e agora as ligeiras geadas das manhs de outono faziam o ar frio e picante, com o verdume da floresta j salpicado por manchas 
escarlates e cor de mbar. Algumas neves prematuras, carregadas depois por fortes pancadas de chuva que desnudavam os galhos de seus mantos coloridos, prenunciavam 
o intenso frio que estava por chegar. Mais tarde no dia, com apenas algumas folhas mais tenazes ainda coladas aos ramos nus das rvore se arbustos, um breve interldio 
de sol brilhante trazia a ltima lembrana do calor de vero, antes que as ventanias impiedosas e o frio causticante viessem encerrar as actividades ao ar livre.
     O cl estava inteiro do lado de fora, gozando o sol. No largo terrao em frente da caverna, as mulheres limpavam cereais trazidos da plancie. Um vento fresco 
jogava para cima quantidade de folhas secas, dando uma imagem de vida ao que ficara do auge do vero. Tirando vantagem da atmosfera ventosa, elas atiravam com uma 
peneira os gros para o alto, deixando que o vento carregasse as palhas, antes de tornar a apanh-los de volta na peneira.
     Iza, postada por trs de ayla, segurava as mos da menina na peneira, mostrando-lhe como atirar os gros para cima, sem jog-los fora junto com as cascas e 
fiapos de palhas.
     Ayla percebia em suas costas o volume duro e grande da barriga de Iza e lhe sentiu a forte contrao que a obrigou de repente a parar. Pouco depois, Iza afastou-se 
e entrou na caverna, seguida por Ebra e Ika. A menina, apreensiva, lanou um olhar ao grupo de homens que havia cessado de conversar para acompanhar com os olhos 
as mulheres saindo e esperou que eles fossem ralhar com as trs por largar o servio, quando ainda havia muito o que fazer. Mas, inexplicavelmente, os homens se 
mostraram tolerantes. Ayla resolveu arriscar e foi atrs das outras.
     Na caverna, Iza estava descansando na sua pele de dormir, ladeada por Ebra e Ika. Por que est Iza deitada no meio do dia?, perguntava-se Ayla. Ser que est 
doente? Iza viu sua expresso preocupada e lhe fez um sinal, tranquilizando-a, mas que no serviu para diminuir muito a preocupao da menina. E mais preocupada 
ainda ficou, quando viu o rosto tenso de Iza na contrao seguinte.
     Ebra e Ika conversavam com Iza sobre coisas banais: a comida que j ti nham armazenado, a mudana de tempo, enfim, o assunto de todos os dias.
     Mas Ayla j sabia bastante da lngua para ler em suas expresses e posturas a ansiedade que lhes ia por dentro. Alguma coisa estava errada, ela tinha toda a 
certeza disso. Resolveu que nada a faria sair dali, enquanto no descobrisse o que se passava e se sentou aos ps de Iza, esperando.
     Ao entardecer, chegou Ika com Borg, carregado em sua cintura, e Aga com a filha Ona. As duas mulheres sentaram-se fazendo uma visita e trazendo sua solidariedade, 
enquanto davam de mamar aos filhos. Ovra e Oga, quando vieram juntar-se ao grupo em torno de Iza, estavam preocupadas, mas cheias de curiosidade. Embora a filha 
de Ika ainda no tivesse companheiro, ela j era moa e sabia que estava apta para botar uma criana no mundo. Oga dentro em breve tambm seria mulher e estavam 
as duas interessadssimas no desenrolar dos acontecimentos.
     Quando Vorn viu Aba ir sentar-se junto da filha, quis saber o que levava todas as mulheres a se juntarem na fogueira do Mog-ur. Ficou rondando por perto, at 
que veio aboletar-se no colo de Aga, ao lado de sua germana, para ver o que estava acontecendo. Mas Ona ainda mamava, e Aba pegou-o e o botou no colo. Ele nada viu 
ali de grande interesse, apenas uma curandeira descansando, por isso levantou-se e foi embora outra vez.
     Algum tempo depois, as mulheres tambm saram para comear a preparar a refeio da noite. Ika permaneceu com Iza, enquanto Ebra e Oga foram cozinhar, mas no 
deixando de lanar, de vez em quando, um olhar discreto na direo delas. Ebra, primeiro, serviu Creb e Brun; depois, trouxe comida para Ika, Iza e Ayla. Ovra cozinhou 
para o companheiro de sua me, mas ela e Oga logo saram, quando Grod veio juntar-se a Creb e Brun na fogueira deste. Elas No queriam perder nada e se puseram sentadas 
ao lado de Ayla, que no arredara de seu lugar.
     Iza apenas tomou um pouco de ch e Ayla tambm estava sem fome. S beliscou a comida. Com o n que sentia na boca do estmago, No tinha a menor vontade de 
comer. O que est acontecendo com Iza? Por que no se levantou para fazer a comida de Creb? Por que o feiticeiro no est pedindo aos espritos para que ela fique 
boa? Por que ele est com todos os homens na fogueira de Brun?
     As contraes de Iza estavam cada vez mais dolorosas. De momento emmomento, ela parava para tomar flego, com a respirao curta, fazendo fora para expelir, 
enquanto apertava as mos das duas mulheres a seu lado. A noite avanava, com o cl inteiro de viglia. Os homens amontoavam-se ao redor da fogueira de Brun, aparentemente 
envolvidos em alguma conversa. Entretanto, vez por outra, um olhar disfarado traa-lhes o verdadeiro interesse. As mulheres estavam sempre indo ver Iza, averiguando 
como ela ia progredindo. s vezes,l permaneciam por uns momentos e depois saam. Todos esperavam, unidos em solidariedade e em ansiosa expectativa, enquanto a curandeira 
elaborava seu trabalho de parto.
     De repente, j muito depois de ter escurecido, comeou um rebulio, dando partida a uma srie de intensas actividades. Ebra estendeu um pano de couro, enquanto 
Ika ajudava Iza a se pr agachada. Ela, ofegante, comprimia com fora o corpo para baixo e gritava de dor. Ayla tremia, sentada entre Ovra e Oga, que, por solidariedade 
a Iza, tambm grunhia e fazia os mesmos movimentos. Iza respirou fundo e, com um prolongado esforo, acompanhado de ranger de dentes e fortes contraes musculares, 
veio para fora a coroa da cabea, num jorrar de gua. Num outro tremendo esforo, desprendeu-se a cabea do beb. O resto foi mais simples para Iza, que pariu com 
facilidade um corpinho contorcido e mido de uma minscula criana.
     Com um ltimo esforo, expeliu um bloco de tecido sangrento. Iza, ento, voltou a deitar-se inteiramente exausta, enquanto Ebra pegava o beb e lhe extraa 
com o dedo uma secreo mucosa da boca. Depois, botou-o sobre o estmago de Iza e bateu com fora na sola de seus ps, quando se ouviu um berro alto anunciando o 
primeiro sopro de vida do beb de Iza. Ebra amarrou uma tira no cordo umbilical e Cortou com os dentes a parte que ainda estava ligada  placenta. Em seguida, suspendeu 
o beb para que Iza o visse. Acabado o servio, ela se levantou e se dirigiu  sua fogueira para dar a notcia ao com panheiro e contar-lhe o sexo da criana. Sentou-se 
 frente de Brun com a cabea abaixada, e depois, olhou para cima ao sentir uma pancadinha no seu ombro.
     

***


***

Captulo 8

     - Lamento informar - disse Ebra, fazendo o habitual gesto de pesar -
     - que Iza teve uma menina.
     A notcia, no entanto, no foi recebida com tristeza. Brun sentia-se aliviado, embora jamais fosse confess-lo. O arranjo de Creb, sustentando a germana, especialmente
depois da incluso de Ayla no cl vinha funcionando s maravilhas, e ele, como chefe, no se mostrava propcio a fazer qualquer alterao. O trabalho de educar a 
garota que o Mog-ur vinha realizando era dos mais louvveis, muito melhor do que ele havia esperado. Ayla estava aprendendo a comunicar-Se na lngua dos cls e tambm 
a se comportar de acordo com os costumes deles. Quanto a Creb, ele no s se sentia aliviado, como extremamente feliz. Na sua idade avanada, pela primeira vez em 
toda a vida, estava conhecendo os prazeres de possuir uma famlia terna e amorosa. E, agora, a filha de Iza vinha garantir a possibilidade de eles permanecerem todos 
juntos.
     Pela primeira vez tambm, desde que se mudaram para a nova caverna, Iza podia dar um longo suspiro de alvio. Estava feliz por ter tido um parto to bom, sendo 
uma mulher de certa idade. J atendera muitas mulheres que tiveram muitssimo mais dificuldade do que ela. Houve diversas que quase morreram, algumas de fato morreram, 
e uns tantos bebs tambm. Parecia- lhe que as cabeas das crianas eram muito grandes em comparao com as estreitas passagens que tinham que vencer por ocasio 
do nascimento. Sua preocupao com o parto havia sido quase to grande como a que tinha com o sexo da criana. Para a gente dos cls, uma tal insegurana em relao 
ao futuro era uma sensao insuportvel.
     Iza reclinou-se na sua pele de dormir, relaxando. Ika enrolou a criana num macio cueiro de pele de coelho e a colocou nos braos da me. Ayla at aquele instante 
no se havia arredado do lugar. Ansiosa e cheia de curiosidade, olhava para Iza que, ao perceb-la, fez-lhe um aceno.
     - Venha c, Ayla. Voc quer ver o beb?
     Ayla se aproximou acanhada.
     - Sim - disse com a cabea.
     Iza afastou a coberta para que ela pudesse ver.
     A minscula rplica de Iza tinha a cabea coberta por uma penugem marrom e a protuberncia ssea atrs ficava mais visvel sem a mata densa de cabelos que iria 
ainda formar-se. De certa maneira, sua cabea era mais redonda do que a dos adultos, mas, mesmo assim, ainda bastante comprida, e a testa, como os ossos sobre as 
sobrancelhas, tambm no se achavam plenamente desenvolvidos, parecendo escorregar direto para trs. Ayla tocou nas suas bochechas fofas, e o beb instintivamente 
se virou na direo do dedo dela, fazendo rudos como se estivesse mamando.
     - Ela  linda - gesticulou Ayla, maravilhada com o milagre que acabara de presenciar. - Ela est tentando falar, Iza? - perguntou, quando o beb agitou no ar 
suas mozinhas fechadas.
     - Ainda no. Mas logo vai querer falar e voc tem de ajudar a ensinar - respondeu iza.
     - Ah, vou sim. Quero ensin-la a falar do mesmo jeito que voc e Creb me ensinaram.
     - Sei que vai querer, Ayla - disse Iza, tornando a cobrir o beb.
     Ayla ficou ali vigiando, enquanto Iza descansava. Ebra tinha embrulhado a placenta no pano de couro que estendera embaixo de Iza, na hora do parto, e o havia 
escondido num canto difcil de ser achado. Ficaria l at que Iza pudesse ir enterr-lo em algum lugar onde s ela saberia. Caso a criana ti vesse nascido morta, 
seria enterrada ao mesmo tempo e ningum poderia mencionar o fato e tampouco a me dar grandes mostras de pesar; apenas alguns gestos discretos de simpatia e gentileza 
seriam externados.
     Se tivesse nascido com vida, mas defeituosa, ou se o chefe do cl por qualquer razo, achasse que a criana era inaceitvel, a tarefa da me era ainda mais 
pesada. Estaria na obrigao de levar o filho para algum lugar e ali enterr-lo, ou ento deix-lo  sorte da natureza, o que muito provavelmente significava ser 
devorado por animais. Era muito difcil que uma criana defeituosa fosse deixada viver. Se mulher, quase nunca. Homem, especialmente se fosse primognito, e se o 
companheiro da me desejasse a criana, esta poderia, se gundo o julgamento do chefe, permanecer com a me durante os primeiros sete dias de vida, para provar sua 
capacidade de sobreviver. Qualquer criana que vivesse depois do stimo dia do nascimento, pela tradio (na prtica funcionando como lei), tinha o direito de receber 
um nome e de ser aceita no cl.
     A vida de Creb havia ficado pendente desses seus sete primeiros dias de existncia. Sua me quase no lhe sobreviveu ao nascimento. O companheiro dela era tambm 
o chefe, e a deciso de deixar ou no viver o menino era inteiramente dele. A deciso, no entanto, foi tomada mais em benefcio da mulher do que por respeito  vida 
do beb, cuja cabea deformada e membros paralticos logo evidenciaram as leses sofridas durante um parto extremamente difcil. A me estava muito fraca, perdera 
grande quantidade de sangue, ficando entre a vida e a morte. O companheiro No podia exigir que ela se livrasse da criana, No tinha foras para fazer isso. Em 
casos assim, ou no da morte da me, a tarefa passava  curandeira s que a me de Creb era a curandeira do cl. Assim, no houve como seNo deix-lo na sua companhia, 
mas ningum esperava que ele sobrevivesse.
     A me tinha pouco leite e custava a sair. Quando, a despeito de tudo, o menino se agarrou  vida, uma mulher que amamentava se apiedou do beb e deu-lhe o primeiro 
alimento que o susteve para a vida. E foi nestas precrias circunstncias que comeou a vida do Mog-ur, o mais venerado dentre todos os homens venerados e o mais 
poderoso e hbil feiticeiro de todos os cls.
     E agora ali estava ele, junto do irmo, indo os dois ao encontro de Iza. A um sinal imperioso de Brun, Ayla imediatamente se levantou, afastando-se, mas ficou 
observando a distncia com o rabo dos olhos. Iza se sentou, desenrolou o beb e o suspendeu na direo de Brun, tendo o cuidado de No olhar para nenhum deles. Ambos 
examinaram a criana que, ao sair do calor da me e ser exposta ao frio da caverna, ps-se aos berros. Tanto um como o outro tiveram o mesmo cuidado de no olhar 
para Iza.
     - A criana  normal - anunciou Brun, com um gesto solene. - Ela pode ficar com a me Se viver at o dia de receber o nome, ser aceita.
     Na verdade, Iza No tinha o menor receio de que Brun fosse rejeitar sua filha, mas mesmo assim no deixou de sentir alvio ao ouvir a declarao for mal do 
chefe. Restava-lhe apenas uma ltima pontinha de preocupao S esperava que a filha No ficasse infeliz pelo fato de a me no ter companheiro. Afinal, conjeturava 
Iza, ele ainda vivia, quando a feiticeira teve certeza de que estava esperando... mas Creb era como um companheiro, pelo menos garantia o sustento delas. Com isto, 
Iza afastou o pensamento da cabea.
     Nos prximos sete dias, Iza ficaria isolada, no podendo ultrapassar os limites da fogueira de Creb, a No ser para fazer suas necessidades. Oficialmente, a 
existncia do beb de Iza no seria reconhecida enquanto ela estivesse em isolamento, exceo feita para aqueles que compartilhavam com ela da fogueira. Mas as mulheres 
do cl traziam-lhes comida, para que Iza pudesse repousar. Visitinhas rpidas e olhadelas descompromissadas ao beb, isso podia. Depois dos sete dias, enquanto ainda 
estivesse sangrando, no poderia levar uma vida normal. Seus contatos estavam restritos s mulheres, tal como se dava durante os dias de menstruao.
     Iza passava o tempo dando de mamar ou cuidando do beb. Depois que se sentiu mais descansada, comeou a pr em ordem a fogueira, arrumando as diferentes reas 
ali. A rea de guardar comida, de cozinhar, de dormir e o lugar reservado a seus medicamentos, tudo dentro do espao circundado por pedras que definiam a fogueira 
de Creb, os domnios dele dentro da caverna, agora divididos com trs mulheres.
     Devido  posio nica do Mog-ur na hierarquia do cl, sua fogueira se achava num local privilegiado: era suficientemente perto da entrada da caver na para 
se beneficiar com a luz do dia e o sol do vero e, ao mesmo tempo, no to perto para que ficasse sujeita aos inconvenientes das correntezas no inverno. A fogueira 
ainda tinha mais uma caracterstica que Iza muito prezava em nome do bem-estar do Mog-ur. Havia um aforamento da rocha, prolongando-se do paredo lateral, que lhes 
dava uma proteo extra contra as ventanias. Mas, mesmo com esta barreira e com um fogo sempre aceso  entrada da caverna, as correntezas geladas chegavam a queimar 
a pele nos lugares mais expostos. A artrite e o reumatismo do pobre homem sempre pioravam no inverno, agravados pela circunstncia de uma caverna fria e mida. Iza 
cuidava para que houvesse uma boa camada de palha e capim sob as peles de dormir de Creb, acondicionada numa espcie de trincheira rasa que ficava num canto mais 
resguardado.
     Dos poucos servios que se tinha pedido aos homens para fazer alm de caar, um foi o de colocar,  entrada da caverna, uma cortina feita de couro, sustentada 
por estacas fincadas no cho; e outro, o de calar a rea diante da entrada com pedras trazidas do riacho, de modo que as chuvas e a neve derretida no fizessem 
um lamaal ali. O cho das fogueiras particulares era de terra, com algumas esteiras espalhadas, onde as pessoas se sentavam, ou se servia comida.
     Duas outras pequenas trincheiras forradas de palha e cobertas de pele achavam-se perto da de Creb. A pele que ficava por cima de cada uma delas era a mesma 
usada como capa pela pessoa que estava dormindo ali. Alm do manto de urso de Creb, havia o de antilope saiga de Iza e uma pele branca e nova de leopardo da neve. 
O animal estava escondido perto da caverna, num ponto muito mais abaixo das reas normalmente frequentadas por ele, l nos altos das montanhas. Coube a Goov o mrito 
de sua caa e ele deu a pele para Creb.
     Muitas pessoas no cl usavam as peles ou guardavam um pedao de clire ou algum dente do animal simbolizando seu totem protetor. Creb achou que a pele do leopardo 
da neve seria apropriada para Ayla. No era a de seu totem, mas guardava alguma semelhana, e ele sabia que seria muito pouco provvel que algum dia os caadores 
se pusessem  caa de um leo da caverna. Raramente, esses gigantescos felinos extraviavam-se dos terrenos das estepes e no representavam grande ameaa para o cl 
instalado numa caverna situada em encostas muito arborizadas. Eles no estavam dispostos a enfrentar uma fera daquelas, a no ser que tivessem um bom motivo para 
isto. Ainda durante sua gravidez, Iza havia curtido a pele e feito tambm um novo calado para Ayla. A menina achava-se encantada e estava sempre procurando alguma 
desculpa para sair e poder usar a pele.
     Iza fazia para si mesma um ch de erva-de-santa-maria que era bom para ajudar o leite a sair e alivi-la das dores do tero que se contraa, voltando  forma 
normal. No princpio do ano, j se precavendo em relao ao nascimento do beb, Iza havia colhido e posto para secar as folhas compridas e florezinhas esverdeadas 
dessa planta. Olhou na direo da entrada procurando por Ayla. Tinha acabado de trocar a faixa absorvente de pelica, o material que usava durante as menstruaes 
e, agora, enquanto estivesse sangrando. Queria sair para enterrar o absorvente sujo em algum ponto l fora, e precisava de Ayla para dar uma olhada no beb, por 
alguns minutos.
     Ayla, entretanto, no se encontrava em nenhum lugar perto da caverna. Caminhava ao longo do riacho procurando por pedrinhas pequenas e redondas. Iza havia comentado 
que queria pegar mais pedras de cozinhar, antes que as guas do riacho se congelassem, e Ayla achou que lhe agradaria se levasse algumas. Ajoelhada na praia pedregosa, 
procurava, perto da beirada da gua, pedias que fossem de bom tamanho. Ao levantar os olhos, viu uma bolinha de plos brancos debaixo de um arbusto. Afastando os 
galhos para os lados, deu com um coelho de porte mdio deitado de banda. A perna estava quebrada e com crostas de sangue seco.
     O animalzinho ferido, ofegando de sede, no podia mexer-se. Olhou apreensivo para a garota, quando ela o tocou, sentindo seu plo macio e quente. Foi um filhote 
de lobo, comeando a exercer seus dotes de caador, que o agarrara, mas o coelho dera um jeito de escapar. Antes que o jovem aprendiz de caador tivesse tempo de 
fazer sua segunda investida, a me loba lanou seus uivos ao ar, chamando-o. O pequeno lobo, que no estava com muita fome, fez meia-volta e, sem muita pressa, foi 
atender o chamado urgente. O coelho mergulhara na mata, morto de medo, esperando no ser visto. Quando se sentiu seguro bastante, quis saltar para fora, mas no 
conseguiu e teve de ficar cado, a um pulo do riacho, morrendo de sede. Sua vida estava quase indo embora.
     Ayla pegou o bichinho felpudo e ficou ninando-o em seus braos. Ela havia segurado o beb de Iza enrolado numa pele de coelho e, agora, aquele ali lhe dava 
uma sensao parecida com a do beb. Sentou-se no cho, embalando-o, quando reparou no sangue e na perna dobrada num estranho ngulo. Pobrezinho, est com a perna 
machucada, disse consigo mesma. Talvez Iza possa ajeit-la. Certa vez, ela curou a minha. Esquecida da inteno de pegar pedras de cozinhar, levantou-se e foi com 
o coelho para a caverna.
     Quando ayla chegou, Iza cochilava, mas acordou com o barulho dos passos. A menina, ento, estendeu o coelho em sua direo, mostrando-lhe os ferimentos. Iza 
tambm ficava s vezes com pena de animaizinhos e tratava deles, mas nunca havia trazido nenhum para dentro da caverna.
     - Ayla, bichos no ficam na caverna - falou ela com as mos.
     Todas as esperanas de Ayla desmoronaram. Aconchegou o coelho contra o corpo e, muito triste, inclinou a cabea, preparando-se para sair com os olhos j meio 
cheios de lgrimas.
     Iza percebeu-lhe o desapontamento.
     - Bom, j que voc trouxe, posso bem dar uma olhada nele.
     Ayla se iluminou, entregando-lhe o bichinho ferido.
     - Esse animal est com sede. Arrume um pouco dgua - gesticulou Iza.
     Ayla imediatamente foi buscar gua num enorme cantil e trouxe uma cuia cheia at a borda. Iza lascou um pedao de madeira, fazendo uma tala, e no cho j se 
achavam tiras de couro para firmar a tala na perna do coelho.
     - V encher de novo o cantil, pois j estamos quase sem gua. Depois, vamos precisar de gua quente, vou ter de limpar a ferida - disse, atiando o fogo e botando 
algumas pedras para esquentar.
     Ayla agarrou o cantil e correu at o lago. A gua reanimou o coelhinho e, quando a menina voltou, ele estava mordiscando gros e sementes que Iza lhe dera.
     Creb, ao chegar mais tarde, ficou inteiramente pasmo vendo Ayla ninar um coelho no colo, enquanto Iza dava de mamar  filha. O feiticeiro percebeu a tala na 
perna do bicho e olhou para Iza que o observava, parecendo dizer: o que eu podia fazer? Enquanto Ayla, absorta, ocupava-se com seu boneco de verdade, os dois se 
puseram a conversar por meio de sinais silenciosos.
     - O que deu em Ayla para trazer um coelho para dentro da caverna? - perguntou Creb.
     - O bichinho estava machucado e ela trouxe para que eu tratasse dele. Ayla no sabia que ns no botamos animais na caverna. Mas os sentimentos dela no esto 
errados, Creb. Acho que ela tem jeito para curandeira. - Iza fez uma pausa. - Queria mesmo falar com voc sobre isso. Bem, voc sabe que ela No tem muitos atrativos 
fsicos.
     Creb olhou na direo de Ayla.
     -  uma menina simptica, mas voc tem razo. Bonita no  - admitiu ele. - Mas o que tem isso a ver com o coelho?
     - Quais as chances que Ayla tem de arrumar um companheiro? Qual quer homem que possua um totem bastante forte para o dela no vai quer-la. Ele poder escolher 
a mulher que quiser. Eo que vai acontecer ento, quando ficar moa? Se no tiver companheiro, no vai ter posio.
     - Eu tenho pensado nisso, mas o que se h de fazer?
     - Se Ayla fosse curandeira, ela teria seu prprio status - sugeriu Iza.
     - E, afinal, ela  como uma filha para mim.
     - Mas ela No pertence  sua linha, Iza. Ayla no nasceu de voc. Sua filha  que vai prosseguir com sua linhagem.
     - Eu sei disso. Sei que tenho agora uma filha, mas por que no posso ensinar Ayla tambm? Ela no estava nos meus braos, quando voc lhe deu um nome? E voc 
No revelou o totem dela na mesma ocasio Isso faz com que ela seja minha filha, ou no . Ela foi aceita e agora  como se fosse dos cl no  verdade? - Iza se 
expressava com veemncia, falando apressada, com medo de ouvir uma resposta desfavorvel de Creb. - Acho que Ayla tem dom inato para isso. A menina mostra interesse, 
sempre est fazendo perguntas, quando estou preparando minhas poo curativas.
     - Ela faz mais perguntas do que qualquer outra pessoa que j conheci- interps Creb. - Pergunta sobre tudo. Precisa aprender que no  de boa educao fazer 
tantas perguntas.
     - Mas repare bem nela, Creb. Encontra um animal ferido e logo deseja tratar dele. Ou isso  um indcio de quem tem inclinao para curandeira, ou ento j no 
sei de mais nada.
     Creb ficou em silncio, pensativo. Depois, disse:
     - Ser aceita no cl no vai mudar a natureza dela, Iza. Ayla nasceu de uma mulher dos outros, como vai poder aprender tudo o que voc sabe? No se esquea de 
que ela no tem as memrias de nossa raa.
     - Mas Ayla aprende depressa. Voc mesmo viu isto. Veja como aprendeu rpido a falar. Ficaria surpreso se soubesse de tudo que ela j aprendeu. Depois, ela possui 
umas mos muito jeitosas para curandeira... um modo delicado de pegar nas coisas. Foi ela quem segurou o coelho, enquanto eu punha a tala. O bichinho parecia confiar 
nela. - Iza inclinou o corpo para a frente. - J no estamos mais jovens, Creb. O que vai acontecer com ela, depois que ns dois passarmos para o mundo dos espritos? 
Quer que ela fique de fogueira em fogueira, sempre um fardo para todo mundo, sempre uma mulher ocupando a posio mais baixa do cl.
     Tambm Creb estava preocupado com isso, mas como no via nenhuma soluo para o problema, ele ia afastando-o do pensamento.
     - Voc realmente acredita que pode ensin-la, Iza? - perguntou, ainda duvidando.
     - Posso comear com o coelho. Deixo que ela tome conta dele e lhe vou mostrando como. Tenho certeza de que Ayla consegue aprender, Creb, mesmo sem as nossas 
memrias. No existem tantos tipos diferentes de doenas e ferimentos. Ela ainda  bastante jovem, tem tempo para aprender. No precisa ter uma memria para isso.
     - Tenho que pensar no assunto, Iza - disse Creb.
     Durante todo esse tempo, Ayla ficara embalando e cantarolando baixinho para o coelho. Percebeu que Iza e Creb conversavam e lembrou-se de t lo muitas vezes 
visto fazendo gestos chamando os espritos para ajudar nas mgicas de curar de Iza. A menina trouxe o bichinho felpudo para o feiticeiro.
     - Creb, voc quer pedir aos espritos para curar o coelho? - disse gesticulando e botando o animal aos ps dele.
     O Mog-ur olhou para o rostinho ansioso dela. Nunca havia invocado espritos para ajudar na cura de um animal e se sentia meio tolo fazendo-o, mas no teve foras 
para recusar. Passou os olhos  sua volta e depois fez uns gestos rpidos.
     - Agora, tenho certeza de que ele vai ficar bom - gesticulou a menina. Em seguida, vendo que Iza terminara de amamentar, perguntou: - Posso segurar o beb? 
O coelhinho era um substituto amoroso e aconchegante do beb, mas s quando ela no podia segurar na coisa verdadeira.
     - Pode - disse Iza - mas cuidado com ela. Segure como eu lhe mostrei. Ayla, ento, ps-se a ninar e a cantarolar, como havia feito com o coelho.
     - Qual o nome que voc vai dar para ela, Creb? - indagou a menina.
     Iza tambm estava curiosa, mas nunca perguntaria isso ao germano. Elas viviam na fogueira de Creb, eram sustentadas por ele e era seu o direito de dar nomes 
s crianas que nasciam em seu domnio.
     - Ainda no resolvi. E voc tem de aprender a no fazer tantas perguntas, Ayla - falou Creb repreendendo, mas se sentia contente por ela confiar em suas mgicas, 
ainda que fosse para um coelho. Virou-se, ento, para Iza e acrescentou: - Acho que no faz mal se o coelho ficar aqui at que sua perna esteja curada. Ele  um 
bichinho inofensivo.
     Iza fez um gesto de aquiescncia, sentindo por dentro um calor de satisfao Tinha certeza de que Creb no se oporia a que ela preparasse Ayla para curandeira, 
mesmo sem ter seu consentimento explcito. Tudo o que ela realmente precisava saber era que ele no a interromperia em seu trabalho.
     - Gostaria de saber como  que ela faz para tirar este som da garganta - falou Iza, ouvindo o cantarolar de Ayla e querendo mudar de assunto. - No  desagradvel, 
mas  esquisito.
     - Esta  outra diferena entre a gente dos cl e a dos Outros - gesticulou Creb, com o ar de um professor transmitindo um fato de extrema sabedoria a um aluno 
embasbacado. - Do mesmo modo que a falta de memrias na raa dela. Esses sons estranhos so prprios dos Outros. Mas desde que vem aprendendo a falar direito j 
deixou de us-los bastante.
     Ovra chegou  fogueira de Creb trazendo a refeio da noite. Seu espanto no foi menor do que o de Creb, quando deu com o coelho l. E mais espantada ainda 
ficou quando Iza lhe deu seu beb para segurar e Ayla pegou no coelho, ninando-o como se este tambm fosse criana. Ovra lanou um rabo de olho para ver a reao 
de Creb, mas parecia que ele No percebia nada. Mal aguentava esperar para contar  me. Imagine s, ninar um animal. A garota no deve estar boa da cabea. Ser 
que ela acha que bicho  gente?
     No muito depois, Brun veio caminhando e fez um sinal para Creb, significando que queria falar-lhe. Creb j esperava por isso. Os dois seguiram juntos na direo 
da fogueira da entrada, afastada da fogueira de cada um.
     - Mog-ur - comeou o chefe hesitando.
     - Sim.
     - Estive pensando, Mog-ur. . que j  tempo de prepararmos uma cerimnia para unir alguns casais aqui. Resolvi dar Ovra a Goov, e Droog concordou em assumir 
Aga com os filhos e permitiu tambm que Aga fosse viver com eles - disse Brun, sem saber muito como levantar o assunto do coelho na fogueira de Creb.
     - Eu estava mesmo imaginando quando voc iria decidir fazer essas unies - respondeu Creb, sem qualquer comentrio sobre o assunto que ele sabia Brun estar 
querendo discutir.
     - Eu quis esperar. A caa estava muito boa. No me podia dar o luxo de ficar com dois caadores a menos. Quando voc acha que ser a melhor ocasio - Brun fazia 
o possvel para no olhar na direo dos domnios de Creb, que se divertia um pouco com a falta de jeito do outro.
     - Em breve vou dar o nome da filha de Iza. Podemos realizar a cerimnia na mesma ocasio.
     - Vou falar com eles - disse Brun. Ele ficava, ora sobre um p, ora sobre outro, olhando para o teto, para o cho para o fundo da caverna, para a entrada, s 
no olhava para o lugar onde se achava Ayla com o coelho no colo. A educao mandava que no se olhasse para dentro das fogueiras dos outros, mas se ele sabia da 
existncia do coelho, era porque o tinha visto. Tentava pensar numa maneira aceitvel de introduzir o assunto. Creb esperava.
     - Por que h um coelho em sua fogueira? - disse Brun, atravs de uma gesticulao rpida. Estava em desvantagem e tinha conscincia disso. Creb se virou e olhou 
de propsito para as pessoas em sua fogueira. Iza sabia perfeitamente bem o que se estava passando. Ela se ocupava com o beb, s esperando no ter de ir participar 
da conversa. 
     Ayla, a causa de todo o rebulio, achava-se inteiramente alheia  situao.
     -  um animal inofensivo, Brun - disse Creb, com evasivas.
     - Mas por que um animal dentro da caverna? - insistia Brun.
     - Foi Ayla quem trouxe. O animal estava com a perna quebrada e ela queria que Iza fizesse um curativo - respondeu Creb, como se fosse o fato mais normal deste 
mundo.
     - Nunca ningum antes trouxe um animal para dentro da caverna - argumentou Brun, desapontado por No conseguir encontrar uma objeo mais contundente.
     - Mas que mal h? O bicho no vai ficar aqui por muito tempo, s at a perna ficar boa - retrucou Creb, com bom senso e falando calmamente.
     Brun no conseguia achar uma boa razo para continuar a insistir com Creb para que ele expulsasse o animal, j que esta era sua vontade. Afinal, o bicho estava 
dentro dos domnios dele. No havia nenhum costume proibindo animais em cavernas, era apenas uma coisa que nunca fora feita antes. Mas a verdadeira razo de seu 
incmodo No era essa. 

     Havia chegado  concluso de que o problema real estava em Ayla. Desde que Iza a trouxera com eles, comeou a haver uma srie de incidentes associados com a 
menina e todos fora do comum. Tudo que lhe dizia respeito era sem precedentes, e isso, agora, quando ela era ainda criana, mais tarde ento como seria? O que no 
teria ele de enfrentar? Brun No tinha nenhuma experincia daquele tipo de comportamento, nenhuma regra preestabelecida que o pudesse orientar no trato com a garota. 
E tampouco estava sabendo como externar suas dvidas a Creb. Este, sentindo a inquietao do irmo tentou dar mais uma razo para que o coelho permanecesse em sua 
fogueira.
     - Brun, a caverna designada para anfitri de nossas reunies tem sempre um filhote de urso - lembrou o feiticeiro.
     - Mas aqui a coisa  diferente. Trata-se de Ursus. O animal est l para o festival do urso. Antes de as pessoas habitarem cavernas, os ursos j viviam nelas, 
mas coelhos nunca moraram em cavernas.
     - S que o filhote  trazido. Ele no estava morando l.
     Brun no tinha nenhuma resposta para dar e o raciocnio de Creb parecia seguir um encadeamento lgico. Mas por que a menina tinha de ser a primeira a meter 
um bicho numa caverna? Se no fosse por ela, o problema nunca teria existido. Brun sentia que toda a base slida de sua argumentao lhe escapulia, como se pisasse 
em terras pouco firmes. Resolveu, ento, deixar o assunto morrer.
     O dia que antecedeu  cerimnia foi frio mas ensolarado. Tinha havido algumas rajadas fortes de vento e os ossos de Creb, ultimamente, andavam doendo muito. 
Ele estava certo de que uma tempestade deveria estar a caminho. Antes que a neve comeasse a cair para valer, queria gozar dos ltimos dias claros daquele inverno 
e passeava pelo caminho perto do riacho. Ayla estava com ele, estreando os sapatos novos. Iza os havia feito, cortando pedaos circulares de couro de auroque que 
curtiu com a pelcia debaixo e com uma camada extra de gordura para que ficassem impermeveis. Fizera furos ao redor das beiradas, tal como para uma sacola e os 
uniu em torno dos tornozelos de Ayla, com a parte de plo voltada para dentro, de modo a esquentar melhor.
     A menina estava feliz com eles e, toda vaidosa, ia jogando os ps para cima, ao lado de Creb. Sobre a roupa, levava a pele de leopardo e uma pele de coelho, 
macia e peluda, saa-lhe da cabea, cobrindo as orelhas e amarrando debaixo do queixo com a pele que formara as patas do animal. De vez em quando, disparava  frente 
e depois voltava para caminhar ao lado de Creb, refreando suas passadas exuberantes para igualar com o andar arrastado dele. Por um momento, fez.se um silncio agradvel 
entre os dois, cada qual envolvido com seu prprio pensamento.
     Gostaria de saber que nome poderia dar  filha de Iza, pensava Creb. Ele adorava sua germana e queria escolher um nome que fosse do agrado dela. Nenhum que 
possa lembrar qualquer coisa de seu companheiro. O pensamento desse homem fazia-lhe arrepiar a pele. 
     Os maus-tratos que infligira a Iza deixava-no ainda furioso, mas sua raiva vinha de mais longe. Lembrava-se de como, em criana, o outro escarnecia dele, chamando-o 
de maricas pelo fato de no poder caar. Creb imaginava que o ridculo s parou por medo ao seu poder como Mog-ur. Fico alegre por Iza ter tido menina, pensou. Um 
menino seria muita homenagem para seu companheiro.
     Sem aquele espinho encravado na garganta, Creb desfrutava dos prazeres da vida em famlia, muito mais do que imaginara possvel. Ser o patriarca de sua pequena 
famlia, o responsvel e o provedor dela, tudo isso lhe dava uma sensao de virilidade que jamais conhecera. Percebeu que estava sendo respeitado de maneira diferente 
pelos homens e se viu, para surpresa sua, interessado nas caadas, j que tinha direito a um quinho delas. Antes, sua preocupao centrava-se mais nas cerimnias 
de caas, mas, agora, tinha outras bocas a alimentar.
     Tenho certeza de que Iza tambm est mais feliz, disse consigo, pensando nas atenes e no afeto que ela lhe dedicava: fazendo sua comida, cuidando dele e prevendo 
todas as suas necessidades. Em todos os sentidos, menos um, era como se ela fosse sua companheira, aquilo que mais se aproximava da idia que Creb tinha disso. Ayla, 
por seu turno, era uma constante alegria. Encontrava grande interesse nas diferenas naturais que ia descobrindo nela. Educ-la era um desafio, tal como aquele que 
um professor de verdade sente diante de um aluno inteligente e voluntarioso, mas com suas peculiaridades. E o beb de Iza tambm o deixava intrigado. Depois dos 
primeiros tempos, quando Iza passou a deixar a menina no seu colo e ele pde dominar o nervosismo, ficava embevecido, observando os movimentos desordenados de suas 
munhecas e seus olhos perdidos, sem focalizar nada em especial. Como uma coisinha to minscula e pouco desenvolvida, pensou ele, poderia dar numa mulher adulta?
     Ela vai assegurar a linhagem de Iza. E  uma linha digna da posio que ocupa dentro dos cls. A me deles fora uma das mais renomadas curandeiras de sua poca. 
As pessoas vinham dos outros cls para tratar-se com ela ou buscar seus remdios. Iza era de igual valor e sua filha tinha tudo para alcanar o mesmo sucesso. Merecia 
um nome  altura de sua antiga e ilustre estirpe.
     Pensando na linhagem de Iza, Creb lembrou-se da mulher que fora me da me deles. Sempre havia sido boa e gentil com ele. Depois que Brun nascera, ela cuidara 
mais dele do que sua prpria me. Suas qualidades como curandeira tambm eram famosas, chegou at a curar o homem nascido da gente dos Outros, tal como Iza agora 
fizera com Ayla. Pena que Iza no chegou a conhec-la. De repente, Creb interrompeu-se em suas divagaes.
     Pronto, a est! Vou dar ao beb o nome dela, disse consigo, cheio de alegria com a feliz inspirao.
     Uma vez decidido o nome da criana, Creb voltou o pensamento para a cerimnia de acasalamento. Pensava em Goov, o seu devotado aclito. Uma pessoa sossegada 
e sria, Creb o estimava. O totem do auroque do rapaz era bastante forte para o de Ovra, que possua o do castor. Ovra trabalhava com vontade, raramente precisando 
ser repreendida. Ser uma boa companheira para ele. No h razo para que no lhe d filhos. Goov, por sua vez,  bom caador e vai poder sustent-la bem. Quando 
se tornar o mog-ur e suas obrigaes o impedirem de caar, ser recompensado com o quinho que lhe  de vido.
     Iria ser um mog-ur poderoso?, perguntou-se Creb. Ele fez no com a cabea. Por mais que gostasse do aclito, chegara  concluso de que Goov nunca teria as 
qualidades que sabia ele prprio possuir. Se, por um lado, suas deficincias fsicas o impediam para atos normais da vida, como caar, ter companheira; por outro, 
proporcionaram-lhe tempo para pr toda sua capacidade mental no desenvolvimento da fora por que se tornara famoso. 
     Da ser ele o Mog-ur. A ele cabia dirigir a mente de todos os mog-urs nas reunies dos cls, na mais sagrada de todas as cerimnias religiosas. No entanto, 
se podia realizar a simbiose das mentes dos homens de seu cl, isso j lhe era mais difcil com as mentes treinadas dos outros feiticeiros, que no se comportavam 
com a mesma fuso de almas. Creb pensou na prxima reunio dos cls, mas ainda faltava muito para ela. As reunies se realizavam a cada sete anos, e a ltima tinha 
sido no vero que antecedeu ao desmoronamento da caverna. Se viver at l, pensou subitamente, essa ser a minha ltima.
     Creb voltou sua ateno novamente para a cerimnia de acasalamento; agora, a queiria unir Droog a Aga. Droog era um caador experiente que h muito dera provas 
de sua capacidade. Sua competncia como ferramenteiro ainda era at maior. Um homem tranquilo e srio, tal como Goov, o filho de sua falecida companheira. Os dois 
tinham o mesmo totem. Sob certos aspectos, inclusive, pareciam-se muito, e Creb no tinha dvidas de que fora o esprito do totem de Droog que havia criado Goov. 
Pena a companheira de Droog ter sido chamada para o outro mundo, pensou. Entre o casal existiu uma grande afeio, e isto possivelmente no se dar com Aga. Mas 
ambos esto precisando de companheiros, e Aga deu provas de ser mais frtil do que a me de Goov.  uma unio natural esta.
     Creb e Ayla foram arrancados de seus pensamentos por um coelho que cruzou o caminho deles. Isso fez a menina lembrar-se do outro, o que estava na caverna, e 
a trouxe de volta ao que vinha pensando durante todo aquele tempo: o beb de Iza.
     - Creb, como  que o beb entrou dentro de Iza?
     - A mulher engole o esprito do totem de um homem - disse Creb distrado, ainda perdido em seus pensamentos. - Depois, o esprito dele luta contra o esprito 
do totem dela. Se o do homem vencer, uma parte do seu espirito fica na mulher para criar uma nova vida.
     Ayla olhou  sua volta, maravilhada com a onipresena dos espritos. No via nenhum, mas, se Creb dissesse que eles estavam ali, ela acreditava.
     - O esprito de qualquer homem pode entrar numa mulher? - perguntou, em seguida.
     - Pode. Mas ele tem de ser um esprito mais forte para poder vencer o dela. Muitas vezes o totem do homem pede ajuda a outro espirito. Esse outro tem, ento 
licena para deixar sua essncia. Mas, em geral,  o esprito do companheiro da mulher aquele que luta mais. Ele  mais concentrado, mas mesmo assim, frequentemente, 
precisa de auxlio. Se um menino tiver o mesmo totem que o companheiro da me isso significa que ter sorte - explicou Creb, cuidadosamente.
     - S as mulheres tm bebs? - perguntou Ayla, excitada com o assunto.
     - Sim.
     - A mulher s pode ter filho depois que tem companheiro?
     - No. s vezes, ela engole um esprito antes de ter o companheiro. Mas, se ela no arrumar um at o beb nascer, seu filho vai ser infeliz.
     - Eu posso ter um beb? - perguntou, esperanosa.
     Creb pensou no fortssimo totem dela. Um princpio vital forte demais. Mesmo com a ajuda de outro esprito, No era provvel que fosse vencido. Mas isto ela 
vai descobrir daqui a algum tempo, pensou ele.
     - Voc ainda no tem idade bastante - disse Creb, de modo evasivo.
     - Quando vou ter bastante idade?
     - Quando voc for mulher.
     - E quando vou ser mulher?
     Creb j comeava a achar que aquele interrogatrio jamais terminaria.
     - Quando o esprito do seu totem entrar em luta pela primeira vez contra outro esprito, voc ir sangrar. Isso  um sinal de que ele foi ferido. Al guma coisa 
da essncia do esprito que lutou contra ele foi deixada em voc para preparar seu corpo. Seus seios vo crescer e tambm algumas mudanas vo acontecer. Depois 
disso, o esprito de seu totem passa regularmente a lutar contra outros espritos. Se numa ocasio que o sangue deve correr isso no acontecer, significa que o esprito 
que voc engoliu derrotou o seu, e uma nova vida estar comeando.
     - Mas quando  que vou ser mulher?
     - Talvez quando voc tiver passado por todos os ciclos das estaes umas oito ou nove vezes - respondeu Creb.
     - Mas daqui a quanto tempo vai ser isso? - insistiu Ayla.
     O velho feiticeiro, pacientemente, soltou um suspiro.
     - Venha c. Vou ver se consigo explicar - disse ele, pegando uma vareta e tirando uma faca de pedra de sua sacola. Duvidava que ela pudesse entender, mas isso 
poria fim s perguntas.
     Calcular representava uma forma de abstrao muito difcil para a gente dos cl A maioria no conseguia ir alm de trs: voc, eu e o outro. No era uma questo 
de inteligncia. Por exemplo, Brun sabia perfeitamente se um dos 22 membros de seu cl estivesse faltando. Ele teria apenas de pensar em cada um deles individualmente 
e o fazia rpido, de maneira inconsciente. Mas passar do indivduo concreto para o conceito um, isso significava uma dificuldade que s poucos conseguiam sobrepujar. 
Como pode essa pessoa ser um e aquela outra tambm ao mesmo tempo ser um. No s essas pessoas diferentes? Essa era a primeira questo que normalmente eles se punham.
     A incapacidade das pessoas de sintetizar e abstrair estendia-se a outras reas da vida. Eles tinham um nome para cada coisa. Conheciam salgueiro, carvalho, 
pinheiro, mas no possuam o conceito genrico para isso, ou seja, no tinham no vocabulrio a palavra rvore. Cada tipo de terra, rocha e at mesmo as modalidades 
de neve eram nomeadas diferentemente. Eles dependiam de sua bela memria e de sua capacidade de aument-la. Praticamente, no se esqueciam de nada. Era uma lngua 
repleta de cor e descrio mas desprovida quase na ntegra do pensamento abstrato. A idia era algo de estranho  natureza, aos costumes e  forma como se desenvolveram. 
Dependiam do Mog-ur para situ-los em determinadas coisas que envolvessem algum tipo de clculo: o tempo decorrido entre uma e outra reunio dos cl as idades das 
pessoas do cl, o tempo de isolamento aps a cerimnia de acasalamento, e os primeiros sete dias da vida de uma criana. O fato de o feiticeiro poder realizar essas 
operaes era encarado como uma de suas maiores mgicas.
     Depois de sentado, Creb cravou firme a vareta entre seu p e uma pedra.
     - Iza acha que voc  um pouco mais velha do que Vorn - comeou ele. - Vom viveu o ano do seu nascimento, viveu o ano em que andou, depois outro ano mamando 
e o ano em que deixou de mamar - explicou Creb, fazendo um talho na vareta para cada ano que mencionava. - Vou fazer uma marca a mais para voc. Esta  a idade que 
voc tem atualmente. Se eu pegar os meus dedos e puser cada um em cada marca, vou cobrir todas elas com uma das mos entende?
     Ayla olhava compenetrada para as ranhuras na vareta, segurando os dedos da mo. Ento se iluminou.
     - J sei, tenho tantos anos quanto isso! - disse, mostrando a mo com todos os dedos estendidos. - Mas quanto tempo vai levar para eu ter um beb?- perguntou, 
mais interessada no problema da reproduo do que no de clculos.
     Creb estava estupefato. Como pde a menina pegar a idia da coisa to rpido? Ela no chegou nem a perguntar quais marcas tinha de cobrir com os dedos ou o 
que fazer com os anos ali marcados. Isso com Goov teve de ser repetido inmeras vezes, at que ele conseguisse entender- Creb fez mais trs talhos e tapou-os com 
trs dedos. Para ele, que usava s uma das mos, isso havia sido particularmente difcil na ocasio em que aprendeu. Ayla olhou para sua outra mo e imediatamente 
suspendeu trs dedos, dobrando o polegar e o mindinho.
     - Quando eu tiver isso? - perguntou, estendendo oito dedos.
     Creb fez um gesto afirmativo. O prximo passo de Ayla pegou-o inteiramente de surpresa. Era um conceito que at ele tinha levado anos para dominar. Ela baixou 
uma das mos e suspendeu s trs dedos da outra.
     - Eu vou ter idade para ter um beb quando passar esse muito de anos - gesticulou, segura, inteiramente confiante em sua deduo.
     O espanto do velho feiticeiro no tinha limites. Era impensvel que uma criana, ainda por cima menina, pudesse chegar quela concluso to facilmente. Ele 
se via atordoado demais, mal se lembrando de fazer reparos no prognstico dela.
     - Esta quantidade provavelmente  para a primeira vez. Mas poder ser este tanto aqui ou, ainda, mais este outro tanto - disse ele, fazendo duas outras riscas 
na vareta. - Ou talvez at mais. No h como se saber ao certo.
     Ayla franziu um pouco o rosto, suspendeu o indicador e depois o polegar.
     - Como posso saber de mais quantidade de anos? - perguntou.
     Creb a olhava desconfiado. Estavam penetrando num terreno onde at ele tinha dificuldade. J comeava a lamentar ter deixado o assunto ir to longe. Brun no 
ia gostar se soubesse que a menina podia fazer aquelas poderosas mgicas, mgicas reservadas apenas aos mog-urs. Mas sua curiosidade tinha sido aguada. Seria ela 
capaz de compreender conhecimentos to avanados?
     - Cubra com suas mos todas as marcas - disse Creb. Aps ela, muito compenetrada, ter botado cada dedo em cada ranhura, Creb fez outro talho e o tapou com o 
seu dedo mnimo. 
     - A marca seguinte est coberta pelo meu dedo mnimo. Depois da primeira srie, voc tem de pensar no primeiro dedo da mo de outra pessoa, e depois no dedo 
seguinte da mo dessa pessoa. Entende? - perguntou, observando-a com ateno.
     Ayla nem pestanejava. Olhou para as suas mos, depois para a dele, e ento fez a careta que Creb j conhecia como sendo uma expresso de sua felicidade. Ela 
meneou, cheia de entusiasmo, a cabea, dizendo que entendia. S que da ela deu um salto quantitativo que se achava praticamente alm da capacidade de compreenso 
de Creb.
     - E depois disso, as mos de uma outra pessoa, e depois ainda as de uma outra pessoa, no  assim? - perguntou ela.
     O impacto foi forte demais. A cabea dele dava voltas. Com dificuldade conseguia contar at 20. Alm dessa quantidade, os nmeros se confundiam numa imensido 
indistinta chamada muito. Em poucas oportunidades, depois de profunda meditao, pde captar uma vaga idia do conceito que Ayla entendia com a maior facilidade. 
O Mog-ur custou a fazer um gesto afir mativo. Subitamente, havia percebido o enorme abismo entre a mente da menina e a dele. Bastante abalado, esforava-se para 
recuperar a calma.
     - Diga-me, qual o nome disso? - perguntou ele, querendo mudar de assunto e suspendendo o galho que tinha usado para fazer as marcas. Ayla ficou olhando por 
um instante, lembrando-se.
     - Salgueiro... acho que  - disse ela.
     - Est certo - respondeu Creb. Colocou a mo sobre o ombro dela e a olhou diretamente nos olhos. - Ayla, seria melhor que voc no mencionasse essas coisas 
para ningum - disse, mostrando os talhos feitos no galho.
     - Est bem, Creb - respondeu, percebendo o quanto isso era importante para ele. A menina aprendera a conhecer seus movimentos e expresses melhor do que qualquer 
um,  exceo de Iza.
     - J  tempo de voltarmos. - Ele desejava ficar sozinho para pensar.
     - Temos mesmo de ir embora? - perguntou Ayla, com voz suplicante.
     - Est to bom aqui fora.
     - Sim, ns temos - respondeu Creb, botando-se de p com a ajuda do seu bordo. - E no  direito, Ayla, questionar um homem depois que ele tomou uma deciso 
- ralhou, com brandura.
     - Est bem, Creb - falou a menina, inclinando a cabea em sinal de submisso tal como lhe haviam ensinado. Havia comeado a caminhar silenciosa ao lado dele, 
mas logo sua exuberncia tomou conta, e Ayla passou a correr na frente. De vez em quando voltava trazendo galhos e pedras, dizendo os seus nomes para Creb e perguntando 
sobre aqueles que esquecera. Ele lhe respondia, vago, com dificuldade de prestar ateno, tamanho era o tumulto em sua mente.
     As primeiras luzes do alvorecer dissipavam a escurido envolvendo a caverna e o ar picante e frio cheirava a neve que estava a caminho. Iza, deitada na pele, 
observava os contornos do teto irem gradualmente defimindo-se e tomando forma  medida que a luz aumentava. Naquele dia, sua filha iria receber um nome e ser aceita 
integralmente como membro do cl, o dia em que ela seria reconhecida como um ser vivo e capaz de viver. Iza esperava, ansiosa, ver relaxado o seu perodo obrigatrio 
de confinamento, apesar de que, enquanto sangrasse, o convvio com as pessoas do cl estaria restrito s mulheres.
     Logo que aparecesse a primeira menstruao, exigia-se das meninas que elas passassem o perodo inteiro das regras longe do cl. Se fosse durante o inverno, 
a garota era posta numa rea separada, no fundo da caverna, mas, na primavera, estaria obrigada a passar o primeiro perodo menstrual sozinha. E viver sozinha, era 
algo de assustador e muito perigoso, tratando-se de uma menina, sem armas e acostumada a ter sempre a companhia dos outros e a proteo de todo o cl. Essa era a 
prova que marcava a entrada da menina na vida da mulher, tal como para o rapaz, era o seu primeiro animal abatido. S que, no caso da mulher, No havia cerimnia 
celebrando-lhe a volta a casa. No eram to fora do comum os casos de moas No voltarem, mesmo dispondo elas de uma fogueira acesa para espantar os animais ferozes. 
Seus restos eram, em geral, encontrados por algum caador ou algum grupo de mulheres colhendo plantas. A me tinha licena para visitar a filha uma vez por dia. 
Ela lhe levava comida e consolo. Se a moa, no entanto, desaparecesse ou morresse, a me estava impedida de mencionar o fato, enquanto No houvesse decorrido um 
certo nmero de dias.
     As batalhas travadas pelos espritos no interior do corpo da mulher na luta natural pela produo da vida eram vistas pelos homens como profundos mistrios. 
Enquanto a mulher sangrasse, a essncia do totem dela estava forte, estava em luta e derrotando algum elemento primordial masculino, expulsando-lhe a essncia fecundadora. 
Se uma mulher olhasse, nesse perodo, para um homem, o esprito dele estaria sendo atrado para uma batalha perdida. Da, os totem das mulheres precisarem ser menos 
poderosos do que os dos homens, pois mesmo um totem fraco recebia energias da fora da vida que habitava as mulheres. Elas atraam para si a fora da vida, elas 
eram quem produziam novas vidas.No mundo fsico, o homem podia ser maior, mais forte e poderoso do que a mulher, mas, no temvel mundo das foras invisveis, as 
mulheres estavam potencialmente dotadas de maior fora. Os homens acreditavam que a forma fsica - menor e mais frgil - da mulher, que lhes permitia domin-la, 
era o que equilibrava a balana, mas as mulheres jamais poderiam conhecer todo o seu potencial, seNo a balana iria pender mais para um lado. Por isso mesmo estavam 
impedidas de ter uma participao plena na vida espiritual do cl, para se conservar ignorantes da energia que lhes dava a fora da vida.
     Os rapazes, j na sua cerimnia de passagem, eram avisados das funestas consequncias que poderiam advir se alguma mulher presenciasse, ainda que por instantes, 
os seus ritos esotricos, e muitas lendas existiam falando do tempo em que as mulheres detinham o controle da magia que possibilitava o contato com o mundo dos espritos. 
Muitos rapazes, aps tomar conhecimento desses fatos, passavam a olhar as mulheres sob outro prisma. Eles assumiam suas responsabilidades de homem com grande seriedade. 
A mulher tinha de ser protegida, sustentada e inteiramente dominada. Do contrrio, a sensvel balana que equilibrava as foras fsicas e espirituais seria desestabilizada, 
ocasionando a destruio dos cls.
     Pelo fato de as foras espirituais estarem muito mais revigoradas durante a menstruao  que a mulher tinha de ser mantida isolada. Seu contato s podia ser 
com outras mulheres, No lhe era permitido tocar em alimentos que fossem consumidos por homens e ela passava o tempo fazendo tarefas sem importncia, como catar 
lenha ou curtir couros que seriam usados exclusivamente por elas. homens No reconheciam sua existncia, ignoravam-na completamente, nem mesmo repreend-la chegavam. 
Se, por acaso, seus olhos dessem distraidamente com ela, olhavam como se atravs de sua pessoa, como se fosse invisvel.
     Parecia um castigo cruel. O banimento da mulher assemelhava-se com a maldio de morte, a punio mxima que era dada aos membros dos cls, quando cometiam 
algum crime grave. Ao chefe, exclusivamente, cabia dar ordens ao mog-ur para que este fizesse baixar os espritos do cl! e deitasse a maldio de morte. O mog-ur 
No podia recusar-se, mesmo que isso fosse perigoso para ele, como feiticeiro e para o cl. Uma vez amaldioado, o criminoso passava a No ser visto por ningum 
e nenhuma pessoa lhe dirigia a palavra. Era ignorado, caa em ostracismo, deixava de existir, exatamente como se estivesse morto. O companheiro ou a companheira 
bem como toda a famlia choravam sua morte. Nenhuma comida era compartilhada com ele. Alguns abandonavam o cl e nunca mais eram vistos. A maioria, simplesmente, 
deixava de comer, beber, consumando a maldio na qual tambm o criminoso acreditava.
     Em certos casos, a maldio de morte podia ser imposta por prazo limitado; ainda assim, ela resultava quase sempre na morte do criminoso que abdicava de viver 
durante o tempo estabelecido para o pagamento de sua pena. Se permanecesse vivo, seria admitido de volta ao cl com todas as suas prerrogativas anteriores, inclusive 
com o status que possua antes. 
     Sua dvida para com o cl fora paga, o seu crime, portanto, estava esquecido. Mas os crimes eram raros e esta forma de punio dificilmente era aplicada. Apesar 
de que o banimento renegasse a mulher parcial e temporariamente da sociedade, quase todas elas bendiziam essa pausa em suas vidas, quando estariam livres das constantes 
exigncias dos homens e fora da linha de seus olhos eternamente vigilantes.
     Iza, no entanto, estava ansiando por um maior contato com a vida, o que teria aps a cerimnia do nome da filha. J estava cansada de ficar dentro dos limites 
da fogueira de Creb e via, saudosa, os raios de sol que escoavam atravs da entrada da caverna, naqueles ltimos dias claros, antes de a neve chegar. Esperava com 
impacincia o sinal de Creb, anunciando que ele estava pronto e o cl j todo reunido. Normalmente, esta era uma cerimnia que se realizava antes da primeira refeio, 
logo depois de o sol aparecer, quando os totens ainda se achavam por perto, aps terem guardado o cl durante a noite. Ao aceno de Creb, Iza se apressou em ir para 
junto dos outros, postando-se na frente do Mog-ur e, com os olhos abaixados, despiu a filha. Segurava-a no alto, enquanto o feiticeiro olhava por cima de sua cabea 
e fazia os gestos de praxe invocando os espritos para assistir aquela cerimnia.
     Em seguida, Creb mergulhou a mo na bacia segurada por Goov e desenhou, com pasta de ocre vermelho, uma listra que saa do ponto onde se juntavam as salincias 
sseas por cima das sobrancelhas e vinha at a ponta do nariz.
     - Uba, o nome da menina  Uba - falou o Mog-ur. Do ensolarado prtico frontal, aoitava um vento gelado que fez a menina nua, morta de frio, soltar um saudvel 
berro, abafando os murmrios de aprovao do cl.
     - Uba - repetiu Iza, ninando seu corpinho tremendo em seus braos.  um nome perfeito, pensou, lamentando No ter conhecido a Uba de quem sua filha o herdara. 
Os membros do cl foram passando em fila por ela, cada um repetindo o nome, de modo que eles e seus totens se fossem familiarizando com a ltima aquisio do cl. 
Iza tinha o cuidado de manter a cabea abaixada, a fim de No olhar sem querer os homens que vinham chegando para reconhecer sua filha. Em seguida, envolveu a criana 
em peles de coelhos e a meteu por dentro da sua roupa, em contato com a pele do corpo. Os berros pararam imediatamente depois que o beb comeou a mamar. Iza voltou, 
ento, a seu lugar, junto das mulheres, deixando o espao para a celebrao dos ritos de acasalamento.
     Nesta cerimnia, apenas nesta, usava-se ocre amarelo na fabricao do unguento. Goov entregou a bacia com a pasta amarela ao Mog-ur que a apoiou firme entre 
seu cotoco de brao e a cintura. Goov No podia servir de aclito numa cerimnia em que era o principal protagonista. Foi tomar posio em frente ao Mog-ur e esperou 
Grod vir com a filha de sua companheira. Ika era um misto de emoes: orgulhosa por sua filha estar fazendo um bom casamento e triste por v-la sair da fogueira 
de seu companheiro. Ovra vestia uma roupa nova, olhava para os ps, enquanto seguia de perto Grod, mas deixando transparecer no rosto, pudicamente abaixado, uma 
luminosa alegria. Visivelmente, sentia-se feliz com a escolha que fizeram por ela. Sentou-se no cho de pernas cruzadas, de frente para Goov, conservando sempre 
os olhos abaixados.
     Com os gestos ritualsticos e em silncio, o Mog-ur se dirigiu novamente aos espritos. Em seguida, mergulhou o dedo mdio na pasta amarelada e desenhou o sinal 
do totem de Ovra sobre a cicatriz do totem de Goov, simbolizando a unio dos dois espritos. Depois, tormou a meter o dedo na pasta, pintou a marca de Goov em cima 
da de Ovra, seguindo o contorno da cicatriz, mas borrando a marca dela, como sinal da supremacia masculina.
     - Esprito do Aruroque, Totem de Goov, o seu sinal venceu o Espri to do Castor, Totem de Ovra - dizia por gestos o Mog-ur. - Possa o Esprito de Ursus permitir 
que assim seja para sempre. Goov, voc aceita esta mulher?
     O rapaz respondeu batendo de leve no ombro de Ovra e fazendo-lhe sinal para que o seguisse a uma rea recentemente delimitada por pedras, onde teriam sua fogueira. 
Ovra pulou sobre seus ps e seguiu atrs do companheiro que lhe fora dado. Ela No tinha escolha, nem mesmo lhe fora perguntado se o aceitava. O casal permaneceria 
isolado por 14 dias, confinado  rea da fogueira e dormindo separados. No fim deste perodo, os homens realizariam uma cerimnia na caverna menor, para sedimentar 
a unio.
     Nos cls, a unio de duas pessoas era um fato exclusivamente de ordem espiritual, comeado com uma declarao diante de todo o cl e consumado por rituais secretos 
destinados s aos homens. Naquela sociedade primitiva, sexo era to natural e irrestrito quanto o ato de dormir ou de comer. As crianas aprendiam a fazer sexo, 
tal como ficavam sabendo dos costumes e a executar suas tarefas, ou seja, observando os adultos. Brincavam de fazer amor do mesmo jeito que imitavam qualquer outra 
actividade dos mais velhos. No era raro um menino chegar  puberdade, ainda sem ter abatido o seu primeiro animal e vivendo uma situao de meio adulto meio criana, 
e penetrar uma menina, antes dela ter passado pela primeira menstruao. Os hmens eram perfurados cedo, apesar de que os rapazes ficassem um pouco amedrontados, 
se vissem algum derramamento de sangue. Se tal acontecesse, rapidamente largavam a garota.
     Todo homem, no momento em que bem entendesse, podia pegar uma mulher para satisfazer os seus desejos,  exceo - e isto fazia parte de velha tradio - da 
germana. Em geral, depois de o casal estar constitudo, guardava-se uma certa fidelidade, apenas por mera cortesia com a propriedade de outro homem. Era muito mais 
malvisto se um homem deixasse de satisfazer-se do que se pegasse a mulher que estivesse mais  mo. Por seu lado, a mulher no se via impedida de fazer sutis gestos 
recatados, incentivando o homem e lhe dando a entender que ele a atraa. Para eles, a formao de uma nova vida se fazia graas  onipresena das essncias dos totens 
e tanto as relaes sexuais como o nascimento de crianas No estavam associados  idia da concepo.
     A segunda cerimnia foi para unir Droog a Aga. O novo casal tambm ficaria em isolamento, mas aqueles que atualmente viviam na fogueira de Droog tinham liberdade 
para l entrar e sair, quando assim o quisessem. Aps a entrada na caverna do segundo casal, as mulheres vieram rodear Iza e o beb.
     - Iza, sua filha  simplesmente um encanto - grunhiu Ebra. - Devo confessar que fiquei um pouquinho preocupada, quando soube que voc depois de tanto tempo 
havia ficado grvida.
     - Os espritos me protegeram - gesticulou Iza. - Um totem forte quando  vencido ajuda a fazer crianas sadias.
     - Tive medo de que o totem da menina pudesse trazer efeitos negativos. Ela tem um jeito to diferente e seu totem  to poderoso que podia at fazer a criana 
nascer com defeito - comentou Aba.
     - Ayla traz sorte. Ela me trouxe sorte - contradisse, imediatamente, Iza, olhando para ver se a menina tinha percebido. Ayla observava Oga segurando o beb, 
andando de l para c, resplandecente de orgulho como se Uba fosse filha dela. Ayla no percebera o comentrio de Aba, mas Iza no gostava de ver pensamentos desse 
tipo ventilados abertamente. - Na verdade, ela trouxe sorte para todos ns, no ?
     - Mas afinal voc no teve tanta sorte assim, pois No nasceu um menino - insistiu Aba, querendo impor sua opinio.
     - Mas eu queria ter menina - respondeu Iza.
     - Iza! Como pode dizer uma coisa dessas!
     As mulheres estavam surpresas, raramente admitiam preferir filhas.
     - Ela tem razo - pulou Ika em defesa de Iza. A gente tem um filho, cuida dele, amamenta, cria e depois, mal ele acabou de crescer, desaparece. Se no morrer 
caando, morre de uma outra coisa qualquer. A metade deles morre ainda rapaz. Pelo menos Ovra ainda pode viver alguns anos mais.
     Todas se sentiram penalizadas com a me que perdera o filho no desabamento da caverna. Sabiam o quanto Ika sofrera. Ebra, diplomaticamente, mudou de assunto.
     - Gostaria de saber quantos invernos ns iremos passar nesta caverna.
     - As caadas tm sido boas e ns j guardamos tanta coisa que temos um mundo de comida armazenada. Os homens vo sair hoje para caar, provavelmente pela ltima 
vez. S espero que haja bastante lugar no depsito, as sim vamos poder congelar as coisas - disse Ika. - Parece que os homens esto ficando impacientes. Acho melhor 
a gente ir fazer qualquer coisa para comer.
     As mulheres, relutantes, deixaram Iza e o beb, e foram preparar a refeio da manh. Ayla sentou-se ao lado de Iza, e a mulher ps um brao em redor dos ombros 
da menina, segurando o beb com o outro. Iza se sentia bem. Achava-se feliz por estar do lado de fora da caverna naquele dia de incio de inverno, ensolarado, frio 
e animado; feliz porque seu beb nasceu com sade e menina, e feliz ainda pela estranha garota loura a seu lado. Olhou para Uba e depois para Ayla. Minhas filhas, 
disse consigo, as duas so minhas filhas. Todo mundo sabe que Uba ser curandeira, mas Ayla tambm vai ser. Vou providenciar para que isso acontea. Quem sabe se 
algum dia no ser uma grande curandeira...
     

***

Captulo 9

     O Esprito da Neve Seca tomou para companheiro o Esprito da Neve Granular, e depois de algum tempo nasceu a Montanha de Gelo, l longe, no norte. O Esprito
do Sol odiava aquela criana que crescia espalhando-se pela terra. Por isso, o Esprito do Sol guardava seu calor para que nenhuma relva desse l. Ele estava resolvido 
a destruir a Montanha de Gelo, mas o Esprito da Nuvem de Tempestade, germana da Neve Granular, descobriu que o Sol queria matar a criana. No vero, quando o Sol 
 mais poderoso, o Esprito da Nuvem de Tempestade entrava em luta com o Sol para salvar a vida da Montanha de Gelo.
     Ayla, sentada com Uba no colo, observava Dorv contar essa velha e muito conhecida lenda de todos eles. Ficava fascinada, apesar de j sab-la de cor. Era a 
sua predileta, nunca se cansava de v-la contada mais uma vez. Mas a irrequieta menininha em seu colo, com um ano e meio e j comeando a andar, estava muito mais 
interessada nos seus longos cabelos louros que agarrava aos punhados. Ayla imediatamente desembaraava-os da munheca de Uba, sem tirar os olhos do velho que, de 
p junto da fogueira, recontava a lenda numa pantomima de grande teatralidade, enquanto todo o cl em suspenso, observava-o.
     - Em alguns dias, o Sol vencia a batalha, castigando o gelo duro, transformava-o em gua e sugava a vida da Montanha de Gelo. Mas, em outros, a Nuvem de Tempestade 
vencia, cobrindo a face do Sol, No deixando seu calor derreter muito a Montanha de Gelo. No vero, a Montanha de Gelo passava fome e ficava toda encolhida, mas, 
no inverno, sua me comendo o alimento trazido por seu companheiro, nutria o filho, devolvendo-lhe a sade. Todos os veres o Sol lutava para destruir a Montanha 
de Gelo, mas a Nuvem de Tempestade no deixava que ele derretesse os alimentos que a me tinha dado ao filho no inverno passado. A cada vez que comeava um novo 
inverno, a Montanha de Gelo aparecia maior, mais espalhada e cobrindo todos os anos uma quantidade mais vasta de terra.
     Um frio muito grande sempre chegava antes dela, que surgia cada vez mais desenvolvida. Os ventos uivavam e a neve amontoava-se mais e mais  sua volta. Ia 
espalhando-se, chegando cada vez mais perto dos lugares onde estavam os cl As pessoas tremiam de frio e amontoavam-se junto das fogueiras, enquanto a neve caa 
sobre suas cabeas.
     O vento, assoviando atravs das rvores desfolhadas, contribua com efeitos de sonoplastia para o clima da histria, fazendo correr pela espinha de Ayla um 
tremor de emoes solidrias.
     - Os cl no sabiam o que fazer - continuou Dorv. - Por que os espritos de nossos totens j no nos protegem mais? O que ser que fizemos para que ficassem 
to zangados conosco? O mog-ur decidiu, ento, ele prprio, partir e ir ao encontro dos espritos para ter uma conversa com eles. Mas o mog-ur custava a voltar. 
As pessoas, inquietas, esperavam sua volta, principalmente os mais jovens.
     Durc era quem estava mais impaciente. O mog-ur nunca ir voltar, dizia ele. Nossos totens no gostam de frio, j devem ter ido embora e ns tambm deveramos 
fazer o mesmo.
     No podemos abandonar nossa casa, dizia o chefe, Este  o lugar onde a gente dos cls sempre viveu.  a morada de nossos antepassados. O lar dos espritos 
de nossos totens. Eles no devem ter ido embora. Eles esto infelizes ao nosso lado, mas ainda estariam muito mais, se estivessem fora da casa que sempre conheceram. 
No podemos partir e remov-los daqui. Depois, para onde a gente iria?
     Nossos totens j foram embora, insistia Durc. Se encontrarmos uma casa melhor, eles voltaro. Podemos ir para o sul, seguindo os pssaros quando fogem do 
frio no outono, ou, ento, em direo ao oriente, para a terra do Sol.
     No Temos de esperar pelo mog-ur. Quando ele voltar, dir o que temos de fazer, ordenou o chefe. Mas Durc no escutou o sbio conselho. Discutia, argumentava, 
e algumas pessoas comearam a vacilar. Por fim, decidiram partir com ele.
     Fiquem, pediam-lhes os outros. Esperem at o mog-ur voltar.
     Mas Durc no lhes prestava ateno O mog-ur nunca ir encontrar os espritos. Ele jamais voltar. Vamos embora agora. Venham conosco encontrar um lugar onde 
a Montanha de Gelo no possa viver.
     No respondiam. Vamos esperar.
     Mes e seus companheiros choravam muito pelos homens e mulheres que partiam, todos certos de que estariam condenados. Esperavam pelo mog ur, mas os dias iam 
passando e nada de ele voltar. J comeavam a achar que teria sido melhor se tambm tivessem partido com Durc.
     Foi ento que, certo dia, viram um estranho animal aproximando-se, sem nenhum medo do fogo. As pessoas, apavoradas, olhavam cheias de admirao Nunca haviam 
visto aquele animal antes. Mas quando ele chegou mais perto, qual no foi a surpresa ao perceberem que aquilo no era nenhum bicho e sim o mog-ur! Ele estava coberto 
com a pele de um urso aa avema. Finalmente, havia voltado. Contou, ento, o que tinha aprendido com Ursus, o esprito do Grande Urso da Caverna.
     Foi com Ursus que as pessoas aprenderam a viver em cavernas, a vestir peles de animais, a caar e coletar plantas no vero e a guardar comida para o inverno. 
As gentes dos cl nunca se esqueceram do que Ursus lhes ensinou, e mesmo a Montanha de Gelo tentando, No conseguiu mais tir-las de suas casas. Pouco importava 
o quanto de frio e neve a Montanha de Gelo mandasse, os cls no se mudariam, no mais deixariam o caminho livre para ela.
     Por fim, a Montanha de Gelo desistiu. J enfadada, parou de lutar contra o Sol. A Nuvem de Tempestade, furiosa porque ela no queria lutar, dei xou de ajud-la. 
A Montanha de Gelo saiu da terra dos cls e voltou para o seu lugar no norte, levando consigo todo o seu frio. O Sol, exultante com a vitria, foi perseguindo-a 
durante todo o caminho, at ela instalar-se no norte. No havia lugar onde a Montanha de Gelo pudesse esconder-se do grande calor do Sol que a acabou derrotando. 
Por muitos e muitos anos no houve inverno, s longos dias de vero.Mas a Neve Granular morria de tristeza pela perda da filha, e este grande pesar a foi enfraquecendo. 
A Neve Seca quis que ela tivesse outro filho e pediu auxlio ao Espirito da Nuvem de Tempestade. Esta ficou com pena de sua germana e ajudou a Neve Seca a trazer 
alimento para fortalec-la. Nova mente passou a cobrir a face do Sol, enquanto a Neve Seca espargia seu esprito para a Neve Granular absorver. Ela deu  luz a uma 
nova Montanha de Gelo, mas as pessoas se lembravam ainda dos ensinamentos de Ursus. A Montanha de Gelo jamais iria arrancar os cls de suas casas.
     E o que aconteceu com Durc e todos os outros que o seguiram? Alguns dizem que eles foram devorados por lobos e lees; outros, que se afogaram nas vastides 
das guas, e ainda h outros que falam que alcanaram a terra do Sol, mas que este teria ficado to zangado por ver Durc e sua gente querendo sua terra, que mandou 
do cu uma bola de fogo para devorar todos. Eles desapareceram e ningum mais tornou a v-los.
     - Voc viu, Vorn? - Era Aga falando com seu filho, como sempre acontecia depois de terminada a histria de Durc. - Por isso  que voc deve sempre atender a 
sua me, Droog, Brun e o Mog-ur. Voc nunca deve desobedecer e deixar o cl, voc pode desaparecer tambm.
     - Creb - disse Ayla, dirigindo-se a ele, sentado a seu lado - voc acha que Durc e seu povo no poderiam ter encontrado um novo lugar para viver? Ele desapareceu, 
mas ningum viu mesmo se ele morreu, No ? Ser que ele no conseguiu viver?
     - Ningum viu quando desapareceu, mas caar  muito difcil, quando se tem s dois ou trs homens. Talvez nover pudessem matar alguns bichos pequenos, mas os 
animais grandes de que iriam precisar para que pudessem ter carne no inverno, esses eram muito mais difceis e perigosos. E muitos invernos iriam passar at que 
chegassem  terra do Sol. Os totens gostam de ter um lugar para viver. Provavelmente,eles abandonam aqueles que ficam rondando por a, sem ter onde morar. Voc no 
gostaria de ser abandonada por seu totem, no ?
     Instintivamente, Ayla pegou no seu amuleto.
     - Mas meu totem no me abandonou, mesmo eu estando sozinha e sem casa.
     - Isso era porque voc estava sendo posta  prova por ele, Ayla. Ele achou um lar para voc, No  verdade? O Leo da Caverna  um totem forte, Ayla. Ele a 
escolheu. Talvez por isso ele tenha resolvido que voc ficasse sempre sob sua proteo , mas todos os totens ficam mais felizes, quando possuem uma moradia. Se voc 
cuidar dele, ter sua ajuda. Ele lhe dir o que  melhor para voc.
     - E como vou saber, Creb? Nunca vi um Esprito de Leo da Caverna. Como a pessoa sabe quando um totem est lhe contando alguma coisa?
     - Voc no pode ver o esprito de seu totem, porque ele  parte de voc, est dentro de voc. Mas mesmo assim, ele fala com voc. Apenas voc tem de aprender 
a entend-lo. Se tiver de tomar uma deciso ele a ajudar. Ele lhe dar um sinal, quando sua escolha for acertada. 
     - Que tipo de sinal?
     -  difcil dizer. Em geral,  alguma coisa muito particular ou fora do comum. Pode ser uma pedra que voc nunca tenha visto antes, ou alguma raz de forma 
especial que faa sentido para voc, coisas assim.  preciso aprender a entend-lo com o corao e a mente, No com os olhos e os ou vidos. S assim voc ficar 
sabendo. E s voc pode entender seu prprio totem, ningum vai ensin-la como. Mas quando chegar o momento e voc encontrar o sinal que seu totem lhe est dando, 
guarde a coisa em seu amuleto. Isso vai lhe trazer sorte.
     - Voc tem guardado no seu amuleto sinais mandados por seu totem, Creb? - perguntou a menina olhando para o recheado saquinho de couro que Creb levava pendurado 
no pescoo. E soltou Uba, que se retorcia em seu colo, querendo sair para caminhar at Iza.
     - Tenho - respondeu ele, meneando a cabea. - Um deles  um dente de urso da caverna que me foi dado, quando fui escolhido para aclito. Ele no estava cravado 
em nenhuma arcada dentria, mas a meus ps, por cima de umas pedras. Quando ia sentando num certo lugar, no vi que o dente estava bem ali. Est perfeito, no est 
nem um pouquinho gasto ou estragado. Foi o sinal usado por Ursus para indicar que minha deciso estava Correta.
     - Meu totem tambm vai me mandar sinais?
     - Ningum sabe. Talvez, quando voc tiver importantes decises a tomar. S vai ficar sabendo quando chegar o momento. Enquanto conservar o amuleto pendurado 
no pescoo, seu totem sabe onde encontr-la. Tome cuidado para nunca perd-lo, Ayla. Foi dado a voc quando seu totem se revelou. Dentro, est parte do seu esprito, 
que  a coisa que ele identifica. Sem isto, ele no pode encontrar o caminho quando estiver viajando. Ele se 
perder e vai procurar sua casa no mundo dos espritos. Tambm se voc perder seu amuleto e no o achar depressa, voc morrer.
     Ayla tremeu, sentindo o saquinho pendurado por um firme cordo de couro em seu pescoo e pensou quando iria ter tambm um sinal de seu totem.
     - Voc acha que o totem de Durc lhe deu algum sinal, quando ele resolveu ir procurar a terra do Sol?
     - No se sabe. Isso no faz parte da histria.
     Acho que Durc foi muito corajoso, querendo buscar uma nova casa para eles.
     - Ele pode ter sido corajoso, mas foi tolo - respondeu Creb. - Abandonou seu cl e a casa dos antepassados dele, correndo um grande risco. E para qu? Para 
achar alguma coisa diferente. No estava satisfeito onde estava. H muitos rapazes que acham ter sido Durc corajoso, mas, quando vo ficando mais velhos e sabidos, 
aprendem que no  bem assim.
     - Acho que gosto de Durc porque ele era diferente - disse Ayla. - Esta  a minha histria preferida.
     Ayla viu as mulheres levantando-se para comear a fazer a comida da noite e, imediatamente, ergueu-se, indo acompanh-las. Depois que a menina saiu, Creb abanou 
a cabea. Todas as vezes em que comeava a acreditar que Ayla j estava aprendendo e aceitando as maneiras de ser das pessoas dos cl ela vinha ou saa com alguma 
coisa que o deixava pensando. No que fizesse nada de mal ou de errado, simplesmente no era o jeito deles. Supunha-se que a lenda fosse para mostrar o erro que 
existe em querer mudar velhos costumes, mas o que Ayla admirava nela era o estouvamento do rapaz  procura de novidades. Ser que algum dia ainda conseguiria pensar 
como todo mundo?, perguntava-se Creb. No entanto, ela aprende rpido, admitiu consigo mesmo.
      idade de sete ou oito anos, esperava-se que as meninas dos cls j estivessem bem versadas nas tarefas de uma mulher adulta. Muitas ficavam menstruadas por 
essa poca e, em breve, j teriam companheiros. Quase dois anos depois de terem encontrado Ayla - sozinha, morta de fome, sem saber procurar comida para alimentar-se 
- ela j havia aprendido no s como encontrar alimentos, mas tambm como os preparar e conserv-los. Alm disso, podia executar muitos outros importantes servios, 
seno de forma competente, como as mulheres mais velhas e experientes, pelo menos to bem quanto as mais jovens.
     Ela podia pelar um animal e preparar o couro para fazer roupas, capas e bolsas a serem usadas de vrias maneiras. Podia cortar, de uma pea de couro, tiras 
em espiral de igual largura. As suas cordas, feitas de crina animal, tendes ou fibras vegetais, eram fortes e grossas ou finas e delicadas, dependendo do uso que 
se lhes quisesse dar. As cestas, esteiras e redes que tecia com gramneas ou com fibras de razes ou ainda com cascas de rvores eram de excepcional qualidade. Podia 
esculpir uma machadinha do ndulo de uma pedra ou fazer uma pea de gume to afiado que at Droog ficava impressionado. Em toras de madeira talhava bacias que aplanava, 
num acabamento bem burlado. Sabia produzir fogo, fazendo girar nas palmas das mos a ponta de um pau contra uma tbua at que, por combusto, o carvo aquecido desprendesse 
fagulhas de fogo, uma tarefa tediosa que ficava bem mais fcil quando executada por duas pessoas se revezando, de modo a manter uma presso firme e constante no 
trabalho de girar o pau. O mais surpreendente, no entanto,  que estava absorvendo os conhecimentos mdicos de Iza, para o que parecia ter inclinao natural Iza 
tinha razo, pensou Creb, ela aprende mesmo sem dispor das memrias.
     Ayla cortava inhames em fatias para pr numa panela de couro que fervia por cima de uma fogueira. Depois de separar os pedaos podres, no sobrara muita coisa 
de cada legume. O fundo da caverna, onde armazenavam os alimentos, era frio e seco, de modo que, quando ia chegando no final da estao, os vegetais j comeavam 
a ficar podres e sem consistncia. A sonhada primavera comeou a dar suas primeiras mostras alguns dias antes, quando Ayla viu um fiapo de gua por cima do bloco 
de gelo formado no riacho. Era uma das primeiras indicaes de que em breve a gua estaria ali escoando livremente. A menina mal aguentava esperar pelos verdes, 
pelos novos rebentos e pelo mel escorrendo das trincas feitas nos troncos de bordo. O caldo era colhido e fervido por muito tempo em enormes recipientes de pele 
at que se tornasse num xarope denso e viscoso ou em acar cristalizado. Depois, seria guardado em vasilhames feitos de madeira de vidoeiro. Do vidoeiro tambm 
escorria uma seiva doce, mas no tanto quanto a do bordo.Ela no era a nica dentro da caverna impaciente e aborrecida com o longo inverno. Cedo, naquele dia, o 
vento havia soprado por algum tempo na direo sul, trazendo o ar quente do mar. A gua derretia e pingava das estalactites suspensas no alto da entrada triangular 
da caverna. A temperatura caindo tornaria a congelar, engrossando os faiscantes pingentes pontudos que, a cada inverno, iam aumentando de volume, quando o vento 
virava, trazendo de novo do leste as rajadas frias. Mas aquele ar quente respirado pela manh fez com que todos realmente voltassem seu pensamento para o fim do 
inverno.
     As mulheres tagarelavam e trabalhavam. Enquanto preparavam a comida, as mos iam conversando com gestos rpidos. No final do inverno, quando os suprimentos 
comeavam a rarear, elas combinavam seus estoques e cozinhavam em conjunto, embora continuassem a comer separadamente, exceto em ocasies especiais. Esta era uma 
temporada de muitas festas, e isso ajudava a quebrar a monotonia, apesar de que, chegando o final da estao a comilana j no podia ser tanta. Contudo, tinham 
bastante comida. A carne fresca de pequenas caas ou de algum velho veado que os caadores davam um jeito de, entre uma nevasca e outra, botar dentro da caverna 
era sempre bem-vinda, apesar de no essencial. Mas contavam ainda com um estoque razovel de alimentos em conserva. As mulheres, ainda envolvidas pelo clima de lendas 
e histrias, ouviam interessadas uma que Aba contava: mas a criana nasceu deformada. A me saiu com ela para a floresta, como o chefe havia ordenado, s que ela 
no teve coragem de deixar o filho morrer. Subiu, ento com o beb numa rvore muito grande e amarrou a criana nos galhos mais altos de todos, de modo que nenhum 
animal pudesse peg-la. Quando foi embora, o beb se ps a chorar e, de noite, tinha tanta fome que uivava como um lobo. Ningum conseguia dormir. Mas, enquanto 
o menino estivesse chorando e soltando uivos, sua me sabia que continuava vivo.
     No dia da cerimnia de dar nome, a me, bem cedo de manh subiu outra vez na rvore. E l estava o filho, No s vivo, como tambm sem nenhum dos defeitos 
de nascena. Ela um menino normal e cheio de sade. O chefe No desejava o garoto no cl, mas, j que estava vivo, o menino teria de ser aceito e teria de ter um 
nome. Mais tarde, depois de j crescido, o menino tornou-se o chefe do cl e nunca deixou de agradecer  me por lhe ter salvo a vida. Mesmo depois que ele teve 
companheira, jamais deixava de trazer para a me parte de suas caas. Tambm nem sequer uma vez bateu ou zangou com ela. Sempre tratou a me com venerao e respeito 
- terminou de contar Aba.
     - Que criana aguentaria passar sete dias sem alimento? - perguntou Oga, olhando para Brac, seu filho, uma criana saudvel que estava ali por perto dormindo. 
- E como o filho dela poderia tornar-se o chefe, se sua me no era companheira do chefe e nem pertencia a algum que poderia chegar a esse posto?
     Oga sentia-se orgulhosa de seu filho, e Broud ainda mais por ter ela dado  luz, pouco tempo depois da cerimnia deles de acasalamento. At mesmo Brun relaxava 
sua postura estica, quando o beb estava por perto e, com os olhos eternecidos, segurava a criana que daria continuidade  sua estirpe, formada por uma longa linhagem 
de chefes de cl.
     - Quem seria o prximo chefe, se voc no tivesse Brac, Oga? - perguntou Ovra. - O que aconteceria se voc No tivesse filhos, mas s filhas? Talvez o companheiro 
da me fosse o segundo em comando, porque alguma coisa aconteceu com o chefe. - Ela estava um pouco invejosa da outra. Ainda no tivera filho, apesar de ter ficado 
moa e se unido a Goov antes que Broud houvesse tomado Oga.
     - Mas, de qualquer modo, como um beb que nasceu deformado de repente fica normal e cheio de sade? - rebateu Oga.
     - Imagino que essa histria foi inventada por uma mulher que desejava ter tanto um filho normal que esse acabou nascendo defeituoso - disse Iza.
     - Mas essa  uma velha lenda, Iza, que h muitas e muitas geraes vem sendo contada. Talvez, em tempos muito distantes, as coisas aconteciam de uma maneira 
que j no  mais possvel. Como a gente pode saber? - falou Aba, defendendo sua histria.
     - Certas coisas podem ter sido diferentes em outros tempos, Aba, mas penso que Oga est certa. Um beb que nasce deformado no pode, de repente, aparecer normal 
e tambm  muito pouco provvel que ele conseguisse viver sem qualquer alimento at o dia de receber seu nome. Bom, mas essa  uma histria antiga, quem sabe, talvez 
haja alguma coisa de verdade nela - condescendeu Iza.
     Quando a comida ficou pronta, Iza levou-a para a fogueira de Creb, enquanto Ayla ia atrs fazendo perguntas  contadora de lorotas. Iza estava mais magra, No 
to forte quanto antes e era Ayla quem, na maioria das vezes, carregava Uba. As duas estavam muito ligadas. Uba seguia Ayla por toda parte e esta, por seu lado, 
jamais parecia aborrecer-se com a garota.
     Depois da comida, Uba procurou a me para mamar, mas logo comeou a ficar agitada. Iza tossia, incomodando a criana. Por fim, entregou Uba, irrequieta e chorosa 
para Ayla.
     - Pegue a menina. Veja se Oga ou Aga pode dar de mamar a ela - disse Iza, irritada, dando uma srie de tossidas secas.
     - Voc est bem, Iza? - perguntou Ayla, com olhar preocupado.
     - No passo de uma mulher velha. Velha demais para ter tido um beb. Meu leite est secando.  s isso. Da ltima vez foi Aga quem deu de mamar a Uba, mas acho 
que agora j deu o peito para Ona e No deve ter sobrado muito leite. Oga diz que tem leite de sobra. Esta noite leve Uba para ela. - Iza percebeu que Creb a observava 
com ateno e olhou na direo em que Ayla ia com Uba.
     Ayla, ao aproximar-se da fogueira de Broud, passou a caminhar com cuidado, mantendo a cabea abaixada, em atitude apropriada.  menor infrao Broud faria despejar 
toda sua clera em cima dela. Tinha certeza de que ele estava sempre procurando motivos para repreend-la e ela no queria que ele lhe ordenasse levar Uba de volta 
por qualquer coisa que pudesse fazer. Oga se sentia feliz por dar de mamar  filha de Iza, mas, com Broud observando, no dava para conversar. Quando Uba ficou satisfeita, 
Ayla levou-a de volta e sentou-se com ela, ninando-a de l para c, cantarolando baixinho. Isso sempre parecia acalmar o beb, enquanto ele no casse no sono. H 
muito Ayla tinha esquecido a lngua que falava quando chegou ao cl mas ainda cantava para ninar Uba.
     - Eu sou apenas uma mulher velha e ranzinza, Ayla - disse Iza, depois que a menina deitou Uba. - J estava muito velha para ter tido essa criana. Meu leite 
est comeando a secar e Uba ainda no est no tempo de ser desmamada. Ainda no passou nem pelo seu ano de aprender a caminhar. Mas pode-se dar um jeito nisso. 
Amanh vou mostrar para voc como se fazem comidas para beb. Se eu puder evitar, no darei a minha filha para uma outra mulher.
     - Dar Uba para outra mulher? Como voc pode dar Uba para outra pessoa, ela pertence  gente!
     - Ayla, tambm no quero dar Uba, mas ela precisa comer e no tenho o que dar. Simplesmente no podemos ficar levando a menina de uma mulher para outra, porque 
no tenho leite bastante. O filho de Oga ainda  beb, por isso  que ela tem tanto leite. Mas quando Brac ficar maior, ela vai ter s para as necessidades dele. 
Do mesmo jeito que acontece com Aga agora. O leite de la no vai sobrar, a no ser que tenha sempre um beb mamando nela - explicou Iza.
     - Gostaria de poder dar de mamar a Uba.
     - Ayla, voc pode ser quase to alta quanto as outras, mas ainda no  mulher. E nem est mostrando sinais de que to cedo ser. S depois que se fica mulher 
 que se pode ser me e s depois de ser me  que se tem leite. Vamos comear a dar comida normal para Uba e ver como ela reage, mas queria que voc soubesse o 
que ter de fazer. Comidas de bebs tm de ser preparadas de maneira especial. Tudo deve ser bastante macio. Os dentes de leite ainda no conseguem mastigar muito 
bem. As sementes tm de ser modas muito finas, antes de ser cozinhadas, a carne-seca tem de ser esmigalhada at virar farinha e cozida com um pouco de gua para 
fazer uma pasta, a carne fresca no pode ser fibrosa, e os legumes tm de ser amassados. Ainda sobraram algumas bolotas de carvalho?
     - At a ltima vez que olhei, havia uma pilha, mas os ratos e os esquilos roubaram uma poro e muitas esto estragadas - respondeu Ayla.
     - Arrume o que voc conseguir. Primeiro a gente tira o amargor delas e depois mi para misturar com a carne. Inhame tambm  bom para ela. Voc sabe onde andam 
aqueles mexilhes pequeninos? So to pequenos que se ajustam com o tamanho da boca de Uba. Ela precisa aprender a com-los na prpria concha. Estou contente por 
o inverno estar acabando, na primavera existe mais variedade de tudo.
     Iza percebeu o rosto de Ayla, preocupado e ansioso. Mais de uma vez, principalmente neste ltimo inverno, ela dera graas por poder contar com a ajuda sempre 
prestimosa da menina. s vezes, imaginava se Ayla no lhe teria sido dada, quando ela estava ainda grvida, para que fosse a segunda me da criana que havia chegado 
to tarde em sua vida. Mas No era apenas a idade avanada que estava exaurindo as foras de Iza. Mesmo no admitindo que se falasse de sua sade e nunca mencionasse 
a dor no peito e o sangue que ocasionalmente cuspia aps acessos de tosse mais fortes, tinha certeza de que Creb estava percebendo seu verdadeiro estado de sade. 
Ele tambm est ficando velho, pensou. Este inverno foi duro tambm para ele. Ficou muito tempo sentado na pequena caverna, s com uma tocha para esquent-lo.
     A cabeleira hirsuta do velho feiticeiro estava cheia de raias prateadas. A artrite, associada ao aleijo da perna, fazia do ato de andar verdadeiro martrio. 
Seus dentes, usados anos seguidos para segurar coisas em substituio  mo que faltava, estavam enfraquecidos e doam. Mas Creb h muito havia aprendido a conviver 
com a dor e o sofrimento. Sua mente continuava to poderosa e perceptiva como sempre o fora, e ele se preocupava com Iza. Viu quando a mulher conversava sobre comida 
de criana com Ayla e tambm reparara como o fsico dela, antes forte e robusto, achava-se agora diminudo. Iza tinha o corpo descarnado e os olhos muito encovados, 
o que ressaltava ainda mais as salincias sseas sobre os superclios. Os braos estavam finos e os cabelos comeavam a ficar grisalhos, mas o que o incomodava mais 
era a tosse persistente. Vou ficar feliz quando este inverno acabar de uma vez, disse consigo. Ela est precisando de calor e sol.
     O inverno, por fim, soltou a terra de suas garras geladas, mas os dias quentes da primavera chegaram com chuvas torrenciais. Muito tempo depois de o gelo e 
a neve terem desaparecido das encostas, massas de gelo ainda continuavam despencando dos altos da montanha sobre o riacho transbordante. L derretiam, e o acmulo 
de gua fazia do terreno saturado em frente da caver na um charco escorregadio de lama sempre renovada. Somente as pedras forrando o cho da entrada mantinham a 
caverna relativamente seca, enquanto a gua brotava de dentro da terra.
     Mas no seria esse sorvedouro de lama que iria prender o cl  caverna. Depois do longo confinamento, as pessoas saam em debandada ao encontro dos primeiros 
raios quentes de sol e das suaves brisas marinhas. Antes que as neves tivessem derretido completamente, elas j estavam descalas, patinhando pela lama ou caminhando 
pesadamente com botas empapadas. O couro dos calados era esfregado com camadas extras de gordura, mas nem assim se mantinha seco. Naqueles dias, Iza esteve mais 
ocupada, tratando de gripes e resfriados, do que durante todo o inverno.
      medida que a estao  avanava e o sol chupava a umidade, a paz foi voltando a reinar na vida do cl. O vagaroso e sossegado inverno, passado emto contando-se 
histrias, fabricando-se utenslios, armas e outras ocupaes sedentrias, mais para matar o tempo, foi substitudo por uma primavera buliosa, cheia de afazeres 
e actividades febris. As mulheres saam para colher os primeiros brotos e rebentos, e os homens se exercitavam, preparando-se para a primeira grande caada da temporada.
     Uba resplandecia com a nova alimentao mamando agora mais por hbito, ou apenas para gozar ainda um pouco do calor materno. Iza tossia menos, embora estivesse 
fraca e sem foras para grandes incurses pelo campo. Creb, com seus passos rastejantes, retomou as caminhadas ao longo do riacho com Ayla. Ela adorava a primavera 
mais do que qualquer outra estao.
     J que Iza quase nunca podia afastar-se da caverna, Ayla criou o hbito de vagar pelas colinas procurando plantas para reabastecer a farmcia de Iza. Isso deixava 
Iza preocupada, pois as outras mulheres estavam catando plantas alimentcias que nem sempre davam no mesmo lugar que as medicinais. De vez em quando, Iza saa com 
Ayla, principalmente para introduzi-la no conhecimento de novas plantas ou para que aprendesse a identificar as j conhecidas no seu estgio de formao e pudesse, 
mais tarde, saber onde procur las. Apesar de Ayla carregar Uba, as poucas sadas de Iza lhe eram muito cansativas e, relutante, viu-se obrigada a permitir que Ayla 
cada vez mais sasse sozinha.Ayla descobriu que adorava suas exploraes solitrias. Estar fora da constante vigilncia do cl dava-lhe uma sensao de imensa liberdade. 
Isso No queria dizer que No sasse com as mulheres, mas, sempre que dava um jeito, corria com seu servio, de modo a lhe sobrar tempo para fazer suas incurses 
sozinha pela mata. Trazia No s plantas j conhecidas, mas outras que desconhecia para que Iza as identificasse.
     Brun No se opunha de forma declarada. Compreendia a necessidade de algum buscar as plantas para Iza preparar suas mgicas curativas. Tambm a ele No passou 
despercebida a doena dela. Mas a pressa de Ayla em ver-se sozinha o desconcertava. Nenhuma mulher do cl sentia prazer em estar s. Iza, por exemplo, todas as vezes 
que saa para procurar alguma coisa mais especial, ela o fazia com certas precaues e um tanto medrosa, sempre voltando o mais rapidamente possvel, se estivesse 
sozinha. Ayla, no entanto, jamais fugia s suas responsabilidades, sempre se comportando de forma adequada, de modo a No haver nada que Brun pudesse apontar como 
errado. Era mais um sentimento - algo na atitude, na maneira de encarar as coisas, no modo de pensar, No que fosse propriamente errado, mas diferente - que fazia 
Brun ficar tenso em relao a ela. Todas as vezes em que saa, voltava sempre com as dobras da roupa e as cestas cheias de plantas e, uma vez que essas coletas eram 
necessrias, o chefe no podia reclamar.
     Vez por outra, ayla trazia mais do que simples plantas. Aquela sua excentricidade inicial, que tanto tinha surpreendido o cl, tornara-se num hbito. Apesar 
de que j se estivessem acostumando, as pessoas ainda se espantavam quando ela chegava com algum animal ferido ou doente para ser tratado na caverna, O coelho que 
encontrara pouco depois do nascimento de Uba foi apenas o primeiro de uma srie de animais. A garota tinha um jeito especial para lidar com bichos. Parecia que eles 
sabiam que ela queria ajud-los. E,j que estava estabelecido o precedente, Brun no se mostrava mais inclinado a modificar tal comportamento. S uma vez no deixaram. 
Foi quando ela chegou com um filhote de lobo. Animais carnvoros, isso j era demais, pois eles competiam com os caadores. J ocorrera diversas ocasies, quando 
estavam no rastro de algum animal, s vezes j ferido e pronto para ser apanhado, no ltimo instante, surgir um carnvoro esperto arrebatando-lhes a presa. Brun 
no poderia permitir que Ayla tratasse de um animal que, talvez algum dia, fosse roubar caas de seu cl.
     Certa vez, quando Ayla, de joelhos, escavava uma raz, um coelho, com uma das patas traseiras ligeiramente torta, saltou do mato e veio farejar-lhe os ps. 
Primeiro, ela ficou muito quieta, em seguida, sem qualquer movimento brusco, estendeu a mo para acarici-lo. Voc  o coelhinho que eu ninei? E agora virou este 
coelho grande e forte? Ser que ainda No aprendeu a tomar cuidado com as pessoas? Olhe que escapou por um triz. Um dia pode acabar em cima de uma fogueira, dizia, 
enquanto lhe alisava os plos macios. Alguma coisa fez assustar o coelho e ele pulou, voando numa determinada direo depois, mudando de opinio saltou para o lado 
de onde viera.
     - Voc anda to rpido, no entendo como as pessoas conseguem peg-lo. Como consegue dar essas viradas to depressa?, disse Ayla, rindo, depois de o coelho 
haver ido embora. De repente, deu-se conta de que era a primeira vez, depois de muito tempo, que ria em voz alta. Raramente o fazia, quando se achava em meio ao 
cl, isso sempre atraa olhares de reprovao. Naquele dia, muitas outras coisas engraadas ela ainda ia encontrar.
     - Ayla, esta casca de cerejeira est velha. J no presta mais - gesticulou Iza, certa manh ainda bem cedo. - Quando voc sair hoje, veja se arruma algumas 
que estejam novas. H uma quantidade de cerejeiras perto da clareira atravessando o riacho. Sabe onde ? Pegue as cascas de dentro. Esta  a melhor poca do ano 
para isso.
     - Sim, me. Sei onde ficam - respondeu a menina.
     Era uma bela manh de primavera. O vermelho e o branco dos ltimos aafres aninhavam-se ao lado dos ps altos e graciosos dos primeiros junquilhos amarelos 
claros. Um tapete ralo de relva, apenas comeando a brotar, era uma leve camada esverdeada de minsculas folhinhas sobre a terra escura e mida das clareiras e montes. 
Pontinhos verdes salpicavam os galhos nus dos arbustos, e as rvores, com os primeiros rebentos, retomavam sua luta pela vida, enquanto outras, de pontas brancas, 
eram os salgueiros botando para fora sua falsa pelcia. Um sol suave encorajava a mais outro renascer.
     Logo que se via fora da vista do cl, o andar rgido e a postura sria de Ayla se relaxavam e ela passava a caminhar com o balano normal de seu corpo. Enquanto 
deslizava por uma pequena encosta e subia por outro lado, levava nos lbios um sorriso inconsciente, refletindo-lhe a liberdade dos movimentos espontneos. Vasculhava 
a vegetao enquanto ia passando com aparente indiferena, mas na verdade com a cabea trabalhando ativamente na classificao e memorizao das plantas, para futuras 
referncias.
     L esto as ervas-do-cancro crescendo, disse consigo, enquanto passava por um vale pantanoso, onde colhera as frutinhas vermelhas desta planta no ltimo outono. 
Na volta, pego suas razes. Iza diz que so boas para o reumatismo de Creb. Tomara que as cascas de cerejeira faam bem para a tosse dela. Acho que Iza j est melhorando, 
mas ainda est muito magra. Uba est ficando grande e pesada, Iza no deve mais carreg-la. Se puder, talvez eu traga Uba na prxima vez. Estou muito contente porque 
no tivemos de dar Uba para Oga. Ela realmente est comeando a falar agora. Vai ser divertido quando crescer um pouco mais e ns duas pudermos sair juntas. Olhe 
aqueles salgueiros! Engraado como as folhas novas parecem com uma penugem de ver dade, mas depois ficam verdes, O cu est to azul hoje! Posso sentir o cheiro 
do mar no vento. Gostaria de saber quando a gente ir pescar. Dentro de pouco tempo, a gua j vai estar bastante quente para isso. Por que ser que ningum mais 
gosta de nadar? O mar tem gosto salgado,  diferente do riacho e nas guas do mar eu me sinto to leve... estou doida para ir pescar. Acho que gosto mais dos peixes 
de gua salgada, mas tambm gosto muito dos ovos. E adoro subir nos penhascos para peg-los. O vento  to gostoso l no alto. Olhe um esquilo! Como sobe rpido 
numa rvore. Queria subir igual a ele.
     Durante toda a metade da manh, Ayla ficou rondando os bosques das encostas. De repente, dando.se conta de que estava ficando tarde, tomou a direo da clareira 
para buscar as cascas de cerejeiras pedidas por Iza. Ao aproximar-se, ouviu barulho de movimentos e, vez por outra, o som de alguma voz. Eram os homens que se encontravam 
na clareira e ela deu uma rpida olhada neles. Comeava a voltar, mas se lembrou das cascas de cerejeiras, ficando por um momento indecisa. Os homens no vo gostar 
de me ver por aqui, pensou consigo. Brun pode ficar zangado e nunca mais me deixar sair sozinha. Mas Iza precisa das cascas de cerejeira. Talvez, eles vo logo embora. 
Mas oque ser que esto fazendo? Pisando muito de leve, ela se aproximou mais e se escondeu atrs de uma grande rvore, pondo-se a espiar por entre o emaranhado 
da galhada sem folhas.
     Os homens achavam-se ali praticando com as armas, preparando-se para uma caada. Lembrou-se de t-los visto fazendo suas novas lanas. Eles cortavam rvores 
novas, de troncos delgados, flexveis e retos. Retiravam-lhes os galhos, faziam pontas numa das extremidades, queimando-as no fogo e, de pois, com um resistente 
raspador de pedra, davam o acabamento final. O calor endurecia a madeira, impedindo as pontas de partirem ou lascarem facilmente. Ela ainda se encolhia toda  lembrana 
da confuso que arrumara por ter tocado numa daquelas lanas.
     Mulheres no tocam em armas, disseram-lhe ento. Nem mesmo nos instrumentos usados para fabricar as armas. Se bem que ela no via a menor diferena na faca 
que cortava tiras num pedao de couro para fazer fundas e a que cortava uma capa. A lana em que ela encostara a mo foi queimada, sob os olhares irritadssimos 
do caador que a tinha feito. Creb e Iza submeteram- na a uma longa preleo gesticulada, de modo que ficasse bem gravado em sua mente o ato abominvel que praticara. 
As mulheres ficaram horrorizadas de ela ter pensado em fazer tal coisa e o brilho no olhar de Brun no deixava dvida sobre o que estava pensando a respeito. Mais 
do que tudo, porm, odiou o prazer que viu estampado no rosto de Broud, enquanto as recriminaes iam chovendo sobre ela. O rapaz simplesmente exultava.
     Meio assustada, de trs da cortina de galhos, ficou observando-os no campo de treinamento. Alm das lanas, havia outros tipos de armas. Num ponto mais afastado, 
Dorv, Grod e Crug discutiam os mritos das lanas versus as maas. Os outros estavam quase todos treinando com fundas e bolea deiras. Vorn achava-se com eles. Brun 
resolveu que j era tempo de lhe ensinar os primeiros manejos da funda e Zoug explicava ao garoto.
     Desde os cinco anos que os homens, vez ou outra, comearam a trazer Vorn com eles para o campo de treinamento. O garoto passava a maior parte do tempo se exercitando 
com uma miniatura de lana que fincava na terra fofa ou em algum toco podre de madeira, s para ir comeando a pegar o jeito da arma. Aquela era a primeira vez que 
iam ensinar-lhe a difcil arte da funda. Um poste fora cravado no cho e, no muito longe, achava-se uma pilha de pedras arredondadas, apanhadas ao longo das margens 
do riacho.
     Zoug mostrava a Vom como segurar juntas as duas pontas da tira de couro e como colocar a pedra na pequena bolsa no centro da correia. Era uma funda j bastante 
gasta que Zoug ia botar fora, quando Brun lhe pediu para comear a treinar o garoto. O velho achou que ela ainda podia servir, se ele a encurtasse um pouco para 
adapt-la ao tamanho de Vom.
     Ayla observava e se viu interessada na lio. Estava to concentrada nas explicaes e demonstraes de Zoug quanto o menino. Em sua primeira tentativa, Vom 
emaranhou a funda e a pedra lhe caiu aos ps. Era difcil para ele pegar o jeito de fazer girar a arma at que esta desenvolvesse a fora centrfuga necessria para 
arremessar a pedra. O menino sempre deixava cair a pedra antes de ter conseguido imprimir velocidade suficiente para mant-la segura no bojo da correia.
     Broud achava-se perto, observando. Vorn era o seu protegido, e Broud, por sua vez, era objeto de admirao do menino. Fora o jovem quem fizera a pequena lana 
que Vom carregava por toda parte, at mesmo para a cama, e fora tambm o rapaz quem lhe mostrara como segurar a arma, discutindo com ele o equilbrio e as estocadas, 
como se Vorn fosse um igual. E agora o menino dirigia toda sua admirao para o velho caador, fazendo Broud sentir- se afastado de suas atenes. Queria ser ele 
sozinho a ensinar tudo a Vorn e ficara furioso quando Brun pedira a Zoug para instruir o menino no uso da funda. Depois de diversas tentativas malsucedidas de Vom, 
Broud interrompeu a lio.
     - Olhe, deixe eu mostrar como se faz isso - gesticulou Broud, pondo o velho caador de lado.
     Zoug deu um passo para trs, lanando um olhar penetrante ao rapaz. Todo mundo parou para ver. Brun fuzilava com os olhos. No gostava nem um pouco do tratamento 
arrogante que Broud estava dando ao melhor atirador do cl. Havia pedido a Zoug, no a Broud, para treinar o menino. Uma coisa  mostrar interesse por Vom e, outra, 
 levar o assunto to longe assim. O menino devia aprender com o melhor, e Broud sabia perfeitamente que esta no era sua arma por excelncia. Precisava entender 
que um bom chefe tem de saber reconhecer a competncia de cada um. E nisso, Zoug  o que tem mais capacidade, alm do que ter tempo de ensinar ao menino, enquanto 
estivermos caando. Broud est ficando muito dominador, orgulhoso demais. Como vou poder promov-lo de posto, se no pode mostrar bom senso? Tem de aprender que 
no  to importante s porque chegar a ser chefe, e no o ser, se for s por isso.
     Broud pegou a funda de Vom e apanhou uma pedra. Inseriu-a no bojo da tira e a atirou na direo do marco. A pedra caiu a uma pequena distncia do poste. Este 
era o problema mais comum que os homens do cl tinham com a funda. Precisavam aprender a compensar suas limitaes fsicas que lhes impediam de fazer um arco completo 
com os braos. Broud estava furioso por ter perdido o tiro e se sentia um pouco tolo. Pegou outra pedra, lanando-a apressadamente, querendo provar que poderia fazer 
a coisa. Sabia que estava sendo observado por todos. A funda era mais curta do que as outras com que estava acostumado e a pedra saiu, desviando-se  esquerda, ainda 
sem atingir o poste.
     - Voc est querendo ensinar Vom ou est pretendendo ter algumas aulas, Broud? - gesticulou Zoug, com ar de troa. - Se quiser, ponho o poste mais perto.Broud 
se esforava por dominar seu gnio. No gostava de se ver objeto das zombarias de Zoug e estava furioso de perder os tiros, depois de toda a discusso que armara. 
Atirou outra pedra e, desta vez, para compensar a pequena distncia das outras anteriores, botou fora demais, lanando-a para alm do marco.
     - Se esperar at terminar a aula do garoto, tenho, o maior prazer em lhe dar uma lio, Broud - gesticulou Zoug, numa postura que expressava um sarcasmo dos 
mais ferinos. - Parece que est precisando. - O orgulhoso velho se sentia vingado.
     - Como Vorn pode aprender com uma funda velha e estragada como essa? - esbravejou Broud, defendendo-se e atirando com desprezo ao cho a tira de couro. - Ningum 
conseguiria atirar uma pedra com esse trapo velho. Vorn, vou fazer uma funda nova para voc. No pense que vai aprender atirando com este lixo velho. Ele j nem 
mais caar pode.
     Desta vez, Zoug zangou-se de verdade. Sair das fileiras dos caadores na ativa era como uma punhalada no orgulho de todo homem, e Zoug, para guar dar uma certa 
medida dos feitos passados, dera duro, aperfeioando-se no tiro com funda. Ele j fora o segundo em comando, tal como o filho de sua companheira, e seu orgulho era 
particularmente melindroso.
     -  melhor ser um homem velho do que um garoto que se julga homem - replicou Zoug, pegando a funda nos ps de Broud.
     A aluso pondo em dvida sua virilidade era demais para o rapaz. Foi a gota dgua. Ele no se aguentou mais e deu um soco no velho. Zoug, surpre endido em 
sua guarda, desequilibrou-se e caiu pesadamente no cho. Ficou sentado no mesmo lugar em que caiu, com as pernas estendidas, olhando, espantado, para cima. Era a 
ltima coisa que esperava.
     Os caadores dos cls nunca agrediam fisicamente uns aos outros. Este era um castigo reservado s mulheres que no tinham inteligncia para com preender reprimendas 
mais sutis. As energias dos jovens eram canalizadas para lutas corporais arbitradas, competies de corridas com estocadas de lanas ou disputas de caadores com 
fundas e boleadeiras, o que lhes servia tambm para aperfeioar o manejo das armas de caa. A competncia na caada e a autodisciplina eram a medida de virilidade 
dos cls, que dependiam da cooperao para sua sobrevivncia. Broud se viu quase to surpreso quanto Zoug com a impulsividade do gesto e, logo que compreendeu o 
que fizera, seu rosto ficou rubro de vergonha.
     - Broud! - A palavra havia sado da boca do chefe, num som parecido a um ronco tirado do fundo do peito. Broud olhou para cima e se encolheu.Nunca tinha visto 
Brun to furioso. O chefe se aproximou, pisando duro, com gestos rlgorosamente controlados e se expressando de forma abreviada.
     - Esta demonstrao infantil de falta de controle  indesculpvel Se seu posto como caador j no fosse o mais baixo de todos, era para onde voc iria agora. 
Em primeiro lugar, quem lhe disse para interferir na aula do garoto? Por acaso, eu ou Zoug lhe dissemos para treinar Vorn? - Os olhos de Brun flamejavam de clera. 
- Voc se diz caador? Nem homem pode dizer que ! Vorn sabe controlar-se melhor do que voc. At uma mulher tem mais autodisciplina. Voc  um futuro chefe,  assim 
que ir conduzir os homens? Espera controlar um cl, quando nem se controlar pode? No esteja to seguro de seu futuro, Broud. Zoug tem razo. Voc  uma criana 
que pensa que  homem.
     Broud estava mortificado. Nunca fora humilhado de modo to arrasador e, ainda por cima,  vista dos caadores e de Vom. Sua vontade era correr e sumir. Jamais 
iria recuperar-se dessa humilhao. Antes enfrentar um leo da caverna do que a fria de Brun. Sobretudo de Brun, que dificilmente, deixava transparecer sua raiva 
e poucas vezes tinha necessidade de faz-lo. Um s olhar penetrante do chefe, o digno e capaz comandante, aquele que era senhor de uma autodisciplina inquebrantvel, 
bastava para que todos - homens e mulheres - imediatamente se pusessem s suas ordens. Broud, submisso, curvou a cabea.
     Brun olhou na direo do sol e fez o sinal para partir. Os caadores, que se sentiam pouco  vontade testemunhando aquele sermo durssimo, deram graas por 
poder ir embora. Puseram-se atrs do chefe que, com passadas largas, voltou  caverna. Broud foi para a retaguarda com o rosto ainda pegando fogo.
     Ayla agachou-se, completamente imvel, presa ao cho, quase sem respirar. O medo de ser vista paralisava-a. Sabia ter presenciado uma cena a que nenhuma mulher 
poderia assistir. Broud jamais teria sido castigado daquela maneira na frente de uma mulher. Os homens, seja l por que motivo fosse, mantinham sua confraria e estavam 
sempre solidrios quando elas se achavam por perto. O episdio, no entanto, mostrou a Ayla um lado que nunca imaginou existir. Os homens, afinal, no eram os agentes 
supremos e livres que reinavam impunemente sobre tudo, como ela pensara. Tambm eles tinham de seguir regras e podiam ser repreendidos. Somente Brun parecia ser 
uma figura onipotente, pairando acima de todas as coisas. Ela no entendeu que Brun, mais do que qualquer outro, achava-se submetido a uma srie de obrigaes: s 
tradies e aos costumes, a seu senso de responsabilidade e aos insondveis vaticnios dos espritos que controlavam as foras da natureza.
     Por muito tempo depois de os homens terem partido, Ayla ainda permaneceu em seu esconderijo, com medo de que eles voltassem. E foi apreensiva, quando, por fim, 
ousou sair de detrs da rvore. Apesar de no ter entendido perfeitamente aquela nova faceta que surpreendera nos homens do cl, uma coisa pelo menos compreendeu: 
vira Broud to submisso quanto qualquer mulher e isso a enchia de prazer. Havia aprendido a odiar aquele arrogante rapaz que, impiedosamente, a agredia, ralhando 
por pequenos nadas, pudesse ela ter razo ou no, e que a fazia com frequncia ostentar no corpo as marcas de seu gnio explosivo. Por mais que tentasse, jamais 
conseguia satisfaz-lo.
     Pensando no incidente, Ayla se ps a caminhar pela clareira, quando viu prximo ao marco de tiro a funda que Broud no seu rompante de fria atirara ao cho. 
Ningum se lembrara de lev-la. Olhou-a com receio de toc-la. Era uma arma, e o medo de Brun f-la tremer diante do pensamento de praticar qualquer coisa que o 
pusesse to furioso com ela quanto ficara com Broud. Sua mente ia repassando a srie de incidentes que acabara de presenciar e a viso da tira de couro trazia-lhe 
 lembrana as instrues de Zoug a Vorn e da dificuldade do garoto para pegar o manejo da arma. Seria to difcil assim? Ser que, se Zoug me ensinasse, eu Conseguiria?
     S em pensar nisso ficou apavorada e olhou em derredor para se certificar de que estava realmente sozinha e de que no havia ningum ali vendo-a e lendo seus 
pensamentos. Nem Broud tinha conseguido, recordava-se.  lembrana de Broud tentando atingir o poste e dos gestos depreciativos de Zoug, a menina deu um leve sorriso.
     Ele no ficaria furioso se eu fizesse uma coisa que ele no consegue? Agradava-lhe o pensamento de poder superar Broud em algo. Passou mais uma vista de olhos 
 sua volta, olhou receosa para a funda, depois agachou-se e a pegou. Sentiu nas mos a maciez do couro muito manuseado e, de repente, pensou no castigo que receberia, 
se algum a visse com uma funda na mo. Quase a largou outra vez, quando deu uma rpida olhada pela clareira, na direo em que os homens haviam sado. Seus olhos 
deram com a pilha de pedras.
     Ser que consigo? Brun ficaria enlouquecido se me visse. Nem sei o que faria. E Creb diria que sou muito m. S por tocar nesta funda eu j sou m. Mas que 
mal pode haver em tocar num pedao de couro? S porque  usada para atirar pedras? Ser que Brun me bateria? Broud, tenho certeza que sim. Ficaria feliz em me ver 
pegar nessa coisa, teria assim uma desculpa para me bater. Mas tambm ficaria louco da vida, se soubesse que eu vi o que aconteceu aqui. Todos eles ficariam furiosos. 
Ser que poderiam ficar com mais raiva ainda, se eu tentasse atirar? O mal  um s, no ? Ser que eu conseguiria atingir o poste com uma pedra?
     Ela se dividia entre a vontade de experimentar sua pontaria e a certeza de que estava fazendo algo proibido. Ela estava errada, disso sabia. A vontade, porm, 
era grande. Mais uma ou menos uma Coisa m, que diferena faz?
     Ningum vai ficar sabendo, aqui no existe outra pessoa s eu. Outra vez, com os olhos culposos, deu uma olhada  sua volta. Em seguida, dirigiu-se para o monte 
de pedras.
     Pegou uma, tentando lembrar-se das instrues de Zoug. Com cuidado, juntou as duas extremidades da correia, segurando-as firmemente. O couro fazia uma ala 
bamba, pendurada. Sentia-se desajeitada e sem muita certeza de como colocar a pedra no meio da velha tira de couro. Por diversas vezes, a pedra caiu no momento em 
que a menina comeava a rodar a funda. Concentrava-se, procurando visualizar as demonstraes de Zoug. Tentou novamente, quase conseguindo dar partida, mas a funda 
tornou a ficar pendurada e a pedra voltou a cair.
     Na vez seguinte, Ayla conseguiu dar algum impulso e a pedra foi lanada a uma certa distncia. Animada, pegou outra. Depois de mais algumas partidas erradas, 
conseguiu lanar uma segunda pedra. As trs tentativas seguintes fracassaram, mas ento uma voou, caindo afastada, e j no to longe do poste. Comeava a pegar 
o jeito.
     Quando a pilha de pedras terminou, ela tornou a junt-las e, depois, por mais uma terceira vez. Na quarta pilha, j era capaz de atirar a maioria das pedras, 
deixando cair muito poucas. Olhou para o cho, havia trs pedras. Pegou uma, colocou-a na funda, girou a arma sobre a cabea e a pedra partiu como uma bala. Ouviu, 
ento, um tilintar no poste, a pedra sendo ricocheteada, e um salto no ar extravasou as emoo da vitria.
     Consegui! Acertei no poste! Foi por pura sorte, um feliz acaso, mas isso no diminua sua alegria. A pedra seguinte voou longe, passando muito alm do marco 
e a ltima caiu pouco adIante dela. Mas no importava, havia conseguido uma vez, e tinha certeza de que poderia repetir o feito.
     Estava catando as pedras para empilhar novamente, quando reparou no sol j perto do horizonte. De repente, lembrou-se de que deveria estar pegando cascas de 
cerejeira para iza. Como pde o tempo passar to depressa? Ser que fiquei a tarde inteira aqui? Iza e Creb devem estar preocupados. Rapidamente, meteu a funda numa 
dobra da roupa e correu para os ps de cerejeira. Com a faca, retirou as cascas de cima dos troncos e raspou as camadas mais internas, at conseguir soltar umas 
lascas finas e compridas. Voltou para a caverna o mais depressa que pde, s diminuindo o passo perto do riacho, quando reassumiu a postura circunspecta, prpria 
das mulheres. Tinha medo de que fossem arrumar confuso com ela por ter passado tanto tempo fora. No desejava dar motivos para que as pessoas se pusessem ainda 
mais raivosas.
     - Ayla, onde voc andou? Estava morrendo de preocupao. Pensei at que voc tivesse sido atacada por um bicho. J ia pedir a Creb para mandar Brun procur-la 
- era Iza ralhando com ela, logo que a viu chegando.
     - Estava dando uma olhada por a, para ver se havia alguma coisa nova, l perto da clareira - respondeu Ayla, sentindo-se culpada. - No percebi que j estava 
to tarde. - Isso era verdade, mas s pela metade. - Aqui esto as cascas de cerejeira... as ervas-do-cancro esto nascendo no lugar onde deram no ano passado. Voc 
no me disse que as razes dessa planta so boas tambm para o reumatismo de Creb?
     - Disse. Mas voc tem de pr a raiz de molho e fazer compressas para aliviar a dor. Com as frutas se faz ch, e o suco que se espreme delas  bom para tumores 
e inchaes - estava Iza respondendo automaticamente, quando de repente interrompeu. - Ayla, voc est querendo me distrair com essas perguntas sobre remdios? Sabe 
perfeitamente que no deve ficar fora tanto tempo e me deixar preocupada dessa maneira. - Sua raiva, depois de ter visto a menina, tinha passado, mas queria ter 
certeza de que ela no iria mais ficar tanto tempo fora sozinha. Nunca deixava de ficar preocupada quando Ayla saa.
     - No vou tornar a fazer isso outra vez, sem avisar antes, Iza.  que ficou tarde e eu no percebi.
     Ao entrarem na caverna, Uba, que passara o dia procurando por Ayla, estava l vigiando a entrada. Com suas perninhas rechonchudas e curvas, foi correndo na 
direo dela, mas tropeou no momento em que ia alcan-la. Ayla conseguiu ainda peg-la antes que casse, suspendendo-a e rodando com a menininha no ar.
     - Ser que um dia desses vou poder levar Uba comigo, Iza? Eu no ficaria muito tempo fora. J posso ir comeando a mostrar algumas coisas para ela.
     - Uba  ainda muito pequena para entender. S agora  que est comeando a falar - disse Iza. Mas, vendo como as duas ficavam felizes juntas, acrescentou: - 
Se voc no for longe, acho que de vez em quando pode levar Uba com voc.
     - Ah, que bom! - falou Ayla, dando um abrao em Iza, com a menina ainda no colo. 
Suspendeu a garotinha, rindo em voz alta. Uba olhava-a com olhos brilhantes, cheios de adorao. - No vai ser divertido, Uba? - disse, depois de bot-la no cho. 
- Mame deixou que voc viesse comigo.
     O que deu nessa menina?, pensou Iza. H muito tempo que no a vejo to excitada. Hoje, parece que o ar est cheio de estranhos espritos. Primeiro, os homens 
voltam cedo e no fazem a roda de conversa como de costume. Cada um vai para sua fogueira e nem presta ateno nas mulheres. No vi nenhuma recebendo pito, hoje. 
At Broud chegou quase a ser delicado comigo. Agora  Ayla. Passa o dia inteiro fora e volta, excitada, abraando todo mundo. Positivamente, no estou entendendo.
     
     

***

Captulo 10
     
     - Ah, voc? O que deseja? - gesticulou Zoug, com impacincia. Fazia
- um calor fora do comum, pois o vero apenas estava comeando.
     Zoug tinha sede, sentia-se desconfortvel, suava debaixo do sol quente, e o raspador com que trabalhava um enorme couro de veado estava cego. Cheio de azedume, 
no queria ser interrompido, sobretudo por aquela garota feia de cara achatada que se sentava de cabea baixa, ali perto,  espera de que ele tomasse conhecimento 
de sua presena.
     - Zoug gostaria de beber um pouco dgua? - gesticulou Ayla, depois de respeitosamente reparar na pancadinha dada em seu ombro. - Esta menina estava junto da 
fonte e viu o caador trabalhando debaixo do sol. Esta menina achou que o caador talvez estivesse com sede. Ela no desejava interromper - continuou Ayla, usando 
o tratamento cerimonioso devido a um caador. Estendeu-lhe uma caia feita de vidoeiro, enquanto segurava um odre gotejando gua fresca, o qual era feito do estmago 
de um cabrito-monts.
     Zoug grunhiu afirmativamente, escondendo sua surpresa diante de tanta solicitude, enquanto Ayla despejava gua na cuia para lhe dar. Ele no havia conseguido 
captar o olhar de nenhuma mulher e no estava querendo largar o servio no ponto em que este se encontrava. O couro achava-se quase seco. Para que o material ficasse 
flexvel e macio, como ele desejava, era mportante que No interrompesse o trabalho naquele instante. Seu olhar se guiu a menina, enquanto ela foi botar o cantil 
com gua sob uma sombra e, em seguida, voltando com um feixe de palhas e algumas razes embebidas em gua para tecer um cesto.
     Apesar de que Ika sempre se mostrasse respeitosa e respondesse a seus chamados prontamente, desde que ele havia mudado para a fogueira do filho de sua companheira, 
poucas vezes ela procurava adivinhar-lhe os desejos como o fazia sua companheira quando ainda vivia. A primeira ateno de Ika era sempre para Grod, e Zoug sentia 
falta dos pequenos cuidados que s uma devotada companheira sabe dar. Vez por outra, Zoug lanava um olhar  garota sentada perto dele. Estava silenciosa, concentrada 
no trabalho. O Mog ur educou-a bem, pensou ele. No reparava que ela o vigiava com o canto dos olhos, enquanto ele ia puxando, esticando e raspando o couro umedecido.Mais 
tarde naquele dia, Zoug foi sentar-se sozinho em frente da caverna, com os olhos parados, perdidos na distancia. Os caadores haviam sado. Ika e mais duas outras 
mulheres tinham ido com eles. Zoug comera na fogueira de Goov e Ovra. Vendo Ovra, mulher feita e com companheiro, quando h bem pouco tempo no passava de uma garotinha 
nos braos de Ika, ele ficou pensando na passagem dos anos que havia levado suas foras, impedindo-o de acompanhar os caadores. Sara quase imediatamente depois 
de ter comido e estava l em meio s suas divagaes, quando reparou na menina encaminhando-se para ele, trazendo na mo uma cesta de vime.
     - Esta menina apanhou mais framboesas do que podemos comer - falou, depois de ele ter indicado que a estava vendo. - Gostaria o caador de com-las para que 
no sejam desperdiadas?
     Zoug aceitou a cesta oferecida com um prazer que mal conseguia disfar ar. Ayla foi sentar-se em silncio, a uma distncia respeitosa, esperando Zoug saborear 
as doces e suculentas framboesas. Depois que terminou, ele lhe devolveu a cesta, e Ayla rapidamente se retirou. No sei por que Broud diz que ela  insolente, pensou, 
observando-a ir embora. No vejo nada de errado nela, fora o fato de ser extraordinariamente feia.
     No dia seguinte, ela trouxe novamente gua fresca da fonte, enquanto Zoug trabalhava e arrumou perto dele o material da cesta que estava fazendo.
     Mais tarde, quando Zoug estava acabando de esfregar gordura no couro, o Mog-ur veio caminhando em sua direo.
     -  um servio duro esse de curtir couro no sol - gesticulou o Mog-ur.
     - Estou fazendo novas fundas para os homens e prometi dar uma nova para Vorn. O couro para fabricar fundas tem de ficar flexvel, por isso no se pode parar 
com o trabalho enquanto ele est secando, e a gordura tambm precisa ser completamente absorvida.  melhor fazer isso no sol.
     - Tenho certeza de que os caadores vo ficar satisfeitos em ter novas fundas - observou o Mog-ur. - Todos sabem que em matria de funda voc  um grande especialista. 
Tenho observado Vorn e voc juntos. Ele tem sorte de poder contar com um professor como voc.  uma tcnica difcil de dominar e deve ser tambm uma arte fazer fundas.
     Zoug curvou a cabea, agradecendo os elogios do feiticeiro.
     - Amanh, vou cort-las, O tamanho dos homens, eu sei qual , agora o de Vom tem de ser ajustado para ele. Para se obter melhor pontaria e mais fora no tiro, 
a funda precisa ser feita de acordo com o tamanho do brao.
     - Iza e Ayla esto preparando a codorna que voc nos trouxe outro dia, como a parte devida ao Mog-ur. Iza est ensinando a menina a fazer do jeito que eu gosto. 
Gostaria de comer esta noite na fogueira do Mog-ur? Ayla me pediu para convid-lo e eu teria grande prazer com sua companhia. s vezes, um homem gosta de falar com 
outro, e na minha fogueira s h mulheres.
     - Zoug comer com o Mog-ur - respondeu o velho, visivelmente feliz.
     Embora festas em comum fossem frequentes e muitas vezes duas famlias se reunissem para comer juntas, principalmente no caso de parentes, era difcil o Mog-ur 
convidar algum para sua fogueira. Ainda era um tanto novidade para ele ter um lugar que de fato lhe pertencia e, por outro lado, sentia prazer em poder ficar  
vontade na companhia das mulheres de sua fogueira. Mas ele conhecia Zoug desde os tempos de menino e sempre o havia respeitado e gostado dele. O prazer que vira 
no seu rosto f-lo pensar que j deveria ter feito isso h mais tempo. Estava contente por Ayla haver lembrado. E afinal de contas, foi Zoug quem tinha dado a codorna.
     Iza no estava acostumada a companhias. Ficava preocupada, aflita, ir ritando-se por nada. Seus conhecimentos de ervas eram aplicados tanto a remdios como 
a temperos. Sabia como combin-las apropriadamente e como dar um toque sutil de modo a realar o sabor dos alimentos. A refeio ficou deliciosa e Ayla mostrava-se 
especialmente atenciosa, mas de forma discreta, e o Mog-ur se sentia satisfeito com as duas. Depois de os dois homens estarem bem fartos, Ayla serviu-lhes um suave 
ch de camomila e menta, que Iza disse ser bom para ajudar a digesto Com duas mulheres sempre prontas para adivinhar-lhes os desejos e um beb rechonchudo e alegre 
que se arrastava para os seus colos, puxando-lhes as barbas, os dois se sentiram jovens outra vez, muito  vontade, conversando sobre os velhos tempos. Zoug estava 
reconhecido pelo convite e tambm um pouco invejoso daquele lar feliz do velho feiticeiro, e este, por sua vez, sentia que sua vida No poderia ser mais agradvel.
     No dia seguinte, Ayla observou como Zoug mediu uma tira de couro para Vorn, prestando muita ateno enquanto ele explicava por que as extremidades tinham de 
ser mais estreitas e por que uma funda no podia ser nem muito curta nem muito comprida. Em seguida, viu-o meter, na correia dobrada pelo meio, uma pedra molhada, 
fazendo o couro esticar, formando uma espcie de bolsa no centro. Depois de ter cortado diversas outras fundas, ele estava ajuntando os retalhos, quando a menina 
chegou trazendo-lhe gua para beber.
     - Teria Zoug outros usos para estes pedaos que sobraram? O couro parece to macio! - gesticulou Ayla.
     Zoug viu-se expansivo com aquela sua admiradora to prestativa.
     - No me vo servir para nada. Voc gostaria de ficar com eles?
     - Esta menina muito agradeceria. Acho que alguns pedaos esto bastante largos e podem ser aproveitados - falou, mantendo a cabea sempre abaixada.
     No outro dia, Zoug quase sentiu falta de Ayla trabalhando a seu lado e lhe trazendo gua. Mas sua tarefa j se achava terminada, as armas estavam prontas. Ele 
a viu dirigir para os bosques, com a nova cesta de colher presa s costas e o pau de cavar na mo Deve ter ido pegar plantas para Iza, pensou. No entendo Broud. 
Ele no gostava muito do rapaz, e ainda no se esquecera da agresso sofrida no princpio do vero. Por que est sempre ralhando com ela?  uma garota que trabalha 
bem, respeitadora, e que  uma honra para o Mog-ur. Ele  um homem feliz por ter Iza e Ayla. Lembrava-se da agradvel noite passada com o grande feiticeiro e, embora 
sem mencionar, no se esquecera de que tinha sido Ayla quem havia pedido para convid-lo a comer com eles. Ficou observando a garota, alta, de pernas retas, ir se 
afastando. Pena que seja to feia, poderia dar algum dia uma boa companheira para qualquer homem.
     Depois de ter feito uma funda com os retalhos de Zoug, para substituir a velha que por fim acabara de vez, Ayla resolveu procurar um lugar longe da caverna, 
onde pudesse praticar  vontade. Estava sempre com medo de algum surpreend-la. Ps-se a acompanhar o curso do riacho que corria perto da caverna e depois comeou 
a subir a montanha, seguindo um afluente do riacho, forando a passagem atravs de um denso matagal.
     Foi interrompida no caminho por uma ngreme parede de rocha onde as guas do riacho tributrio despencavam numa nuvem de cascatas. Os rochedos salientes - cujos 
contornos extremamente acidentados eram suavizados por grosso e vioso colch de musgo - dividiam as guas da cachoeira, saltando de rocha em rocha e criando diversos 
crregos, longos e estreitos que esparrinhavam para o alto vus de neblina. A gua era coletada num lago espumoso, formado na depresso rochosa existente no p do 
paredo antes de prosseguir seu caminho para encontrar o curso maior. O paredo se mostrava como uma barreira que seguia paralelamente ao riacho, mas,  medida que
Ayla avanava, acompanhando-lhe a base, o rochedo, quase a prumo, inclinava-se, fazendo uma subida que, embora ngreme, era possvel de ser escalada. No topo, o
terreno se nivelava e ela foi dar com o curso das guas do riacho tributrio, passando a segui-lo novamente rio acima.
     O lqueno orvalhado punha um tom verde-acinzentado nos pinheiros e abetos que dominavam a rea. Esquilos subiam velozes as altas rvores, e o musgo variegado, 
revestindo a camada de turfa, atapetava terra, pedras e troncos cados, como uma coberta contnua que ia desde o amarelo ao verde-escuro. Mais adiante, a garota 
pde ver os raios de sol filtrando-se atravs das rvores perenes. Enquanto acompanhava o curso dgua, foi vendo as rvores rareando-se, entremeadas de algumas 
outras, velhas, reduzidas ao tamanho de arbustos, quando, ento o terreno abria-se numa clareira. Era um pequeno campo, cujo fundo chocava-se contra a rocha cinza-escura 
da montanha, adornada nas partes mais elevadas por algumas plantas trepadeiras.
     O riacho que serpenteava num lado da clareira tinha sua nascente numa grande fonte jorrando do paredo de rocha perto de um grupo de grandes avelaneiras. A 
cadeia de montanhas era perfurada em suas camadas internas com muitas fendas e escoadouros filtrando as guas das geleiras que brotavam como nascentes claras e espumosas.
     Ayla atravessou a clareira e foi tomar um grande gole de gua fresca. Em seguida, passou a examinar os cachos de avels que davam aos pares ou em trincas. Encerradas 
dentro das carapaas verdes e espinhosas, ainda estavam por amadurecer. Ela pegou um dos cachos, tirou a parte externa e partiu com os dentes a casca dura de dentro, 
fazendo aparecer a frutinha branca, apenas meio desenvolvida. Sempre gostou de avels verdes, mais do que quando estavam maduras, cadas no cho. O gosto atiou-lhe 
o apetite e ela se ps a colher os cachos e jog-los dentro da cesta. Nisso, atrs da folhagem espessa, percebeu um buraco escuro.
     Com cuidado, afastou os galhos e deu com uma pequena caverna disfarada pela folhagem das avelaneiras. Forou os ramos para o lado, olhando com ateno para 
dentro. Depois entrou, deixando a ramagem voltar ao lugar. O sol fazia um desenho de luzes e sombras na parede, iluminando fracamente o interior. Era uma gruta com 
uns trs metros de comprimento e a metade disso de largura. Com os braos esticados, dava quase para que ela alcanasse o teto da entrada que depois ficava numa 
altura correspondente mais ou menos  metade do comprimento, quando se inclinava abruptamente para encontrar o cho de terra seca no fundo.
     Era apenas um pequeno buraco no paredo da montanha, mas bastante grande para que ela se locomovesse com facilidade dentro dele. L, achava-se escondido um 
punhado de avels estragadas e, na entrada, viu algumas titicas de esquilos, concluindo que o lugar jamais fora usado por qualquer coisa maior do que esses bichinhos. 
Ayla, encantada, bailava dando voltas, feliz com seu achado. A gruta parecia feita sob medida para ela.
     Saiu da gruta e deu uma olhada pela clareira. Dirigiu-se, ento a um pequeno caminho que subia pela rocha nua e se ps a avanar por uma estreita passagem, 
serpenteando pelo aforamento na montanha. Ao longe, avistou entre a fenda formada por duas colinas as guas cintilantes do mar interno. Em baixo, pde distinguir 
nitidamente uma minscula silhueta perto da estreita faixa prateada de um riacho. Achava-se praticamente em cima da caverna do cl Descendo de volta, ela contornou 
o permetro da clareira.
      perfeita, disse consigo. D para treinar, existe gua perto para beber e, se chover, entro na gruta. E posso esconder nela minha funda. No preciso ficar 
mais com medo de Iza e Creb ach-la. At avels h; mais tarde posso, inclusive, colher algumas para o inverno. Os homens nunca caam em lugares to altos assim. 
Isso aqui ser s meu. Correu, ento, at o riacho e comeou a procurar por pedras lisas e arredondadas para experimentar sua nova funda.
     Sempre que podia, Ayla subia a seu esconderijo. Depois, encontrou um caminho mais ngreme, porm mais curto. Quase sempre surpreendia carneiros e cabritos monteses, 
ou alguma cora arredia pastando por l. Mas logo os bichos se acostumaram com sua presena e, quando ela aparecia, dignavam-se apenas a afastar-se para os cantos 
da clareira.
     Quando atingir o poste com uma pedra deixou de ser desafio e passou a dominar melhor a funda, a garota foi estabelecendo metas mais difceis de ser alcanadas. 
Observava Zoug ensinando Vorn e aplicava depois os seus conselhos e tcnicas, quando ia treinar sozinha. Era como um jogo, alguma coisa divertida e, para aumentar 
o interesse, comeou a comparar seus progressos com os de Vorn. A funda no era a arma predileta do garoto. Cheirava a alguma inveno s para uso de gente velha. 
Estava mais interessado em lanas, a primitiva arma dos caadores, e j conseguira matar alguns bichos pequenos:cobras e porcos-espinhos. Na verdade, ele no punha 
tanto empenho como Ayla, alm de que sua dificuldade fosse muito maior do que a dela. Ao verificar que estava melhor do que Vom, ela ficou orgulhosa de si, com uma 
sensao de superioridade que provocou uma ligeira mudana em sua atitude, mudana que no passou despercebida por Broud.
     Das mulheres, esperava-se que fossem dceis, subservientes, desprentensiosas e humildes. O fato de ela no demonstrar medo quando ele se achava por perto foi 
tomado como afronta pessoal. Era uma ameaa  sua masculinidade. Ele a observava, tentando descobrir o que havia nela de diferente, e prontamente acertava-lhe socos 
s para surpreender-lhe alguma expresso de medo, ou faz-la encolher-se.
     Ayla procurava servi-lo com correo, executando tudo que ele ordenasse o mais rapidamente possvel. Ela no sabia que seu andar exalava liberdade, uma desenvoltura 
que, inconscientemente, trazia de suas andanas pelos campos e florestas; e o orgulho, advindo do fato de ter aprendido algo difcil e poder faz-lo melhor do que 
ningum, que estava no seu porte e a autoconfiana cada vez mais transparecendo no rosto. Ignorava os motivos que o levavam a implicar mais com ela do que com as 
outras. Ele prprio no sabia por que Ayla o incomodava tanto. Era alguma coisa de indefinvel, e a garota tinha tanta possibilidade de alterar a situao quanto 
a de modificar a cor de seus olhos.Uma das razes era certamente porque ainda se lembrava de Ayla haver usurpado os seus momentos de glria nos rituais de passagem, 
mas a causa verdadeira estava no fato de ela no ser da raa dos cl. Em Ayla, No havia a subservincia criada atravs de incontveis geraes. Ela vinha dos Outros. 
Uma raa mais jovem, original, onde tudo se fazia de forma mais dinmica, vital e no controlada por rgidas tradies de crebros praticamente constitudos s de 
memrias. O dela seguia rumos diferentes. Sua testa alta, bem desenvolvida, abrigando lbulos frontais com capacidade de projeo dava-lhe uma compreenso inteiramente 
diversa. Podia aceitar o novo, model-lo  sua vontade, forj-lo em idias nem de leve suspeitadas pelos cl e pelos desgnios da natureza, a sua espcie estava 
destinada a suplantar a velha e agonizante raa.
     Ao nvel do inconsciente, Broud sentia os destinos opostos dos dois. Ayla no ameaava s sua masculinidade. Ela representava uma ameaa  prpria existncia 
dele. O dio por ela era o dio que o velho tem pelo novo, que a tradio devota ao inovador, e o que est agonizando nutre pelo que est nascendo. A raa de Broud 
era demasiado esttica, de uma imutabilidade sem esperana. J havia alcanado o auge do desenvolvimento, no tinha mais como expandir-se. Ayla no, ela fazia parte 
de um novo experimento da natureza. Apesar de tentar moldar-se s mulheres do cl isso era apenas uma tintura, uma atitude astuta assumida em nome de sua sobrevivncia. 
Ela j comeava a encontrar sadas em resposta a uma profunda necessidade que buscava um meio de expresso Mesmo procurando agradar Broud em sua tirania, fazendo 
tudo o que podia, ela internamente comeava a rebelar-se.
     Em certa manh particularmente penosa, Ayla se dirigiu ao lago para beber. Os homens achavam-se reunidos do lado oposto da entrada da caverna, fazendo planos 
para a prxima caada. Ela se sentia feliz, isso significava que Broud estaria fora por algum tempo. Sentou-se junto da gua com a cunja na mo, perdida em seus 
pensamentos. Por que ser que ele  to mesquinho comigo? Por que est sempre me criticando? Trabalho tanto quanto qualquer outra. Fao tudo o que ele quer. De que 
adianta pelejar tanto? Nenhum dos outros homens implica assim comigo. A nica coisa que queria  que ele me deixasse em paz.
     - Aiii! - gritou ela, sem querer, com o pesado soco que Broud lhe deu de surpresa.
     Todos pararam e olharam na direo dela, para imediatamente depois desviar os olhos. no era prprio de uma menina j quase moa gritar em voz alta s porque 
levou o soco de um homem. Ela se virou para seu torturador com o rosto vermelho de vergonha.
     - Voc fica a olhando para o ar, sentada  toa sem fazer nada, garota preguiosa! - gesticulou Broud. - Eu lhe disse para trazer ch e voc n fez caso. Ser 
que sempre preciso falar com voc duas vezes?
     Uma onda de raiva fez o rosto dela ficar ainda mais vermelho. Sentia-se humilhada com o grito em voz alta, com muita vergonha do cl, todo presente ali, e furiosa 
com Broud, o causador de tudo. Levantou-se para obedecer-lhe, mas sem a devida pressa. Devagar, com insolncia, ps-se de p e lanou a Broud um olhar de frio desprezo, 
antes de ir buscar o ch. As pessoas observando pararam de respirar. Que ousadia. Como pode ser to atrevida!
     Broud explodiu. Lanou-se sobre ela, girando-lhe o corpo e dando um soco em sua cara com a mo fechada. Ela caiu no cho a seus ps e ele prosseguiu com outro 
soco violento. Ayla se encolhia, tentando proteger-se com os braos, enquanto ele continuava a lhe bater sem parar. Ela lutava para No gritar, embora no se esperasse 
silncio diante de tamanha agresso. A raiva de Broud crescia junto com sua violncia. Queria ouvi-la gritar e, na fria incontrolada, ia despejando um murro atrs 
do Outro. Ela apertava os dentes, resis tindo  dor, firme na recusa de no lhe dar tal satisfao Depois de certo tempo, j no estava em condies de gritar.
     Difusamente, vendo tudo atravs de uma neblina vermelha, sentiu que os socos tinham parado. Percebeu que Iza a levantava e, com o corpo apoiado nela, foi cambaleando 
para a caverna, quase inconsciente. No seu meio torpor, sentia pontadas terrveis de dores. Tinha apenas a vaga conscincia dos curativos frios que estavam sendo 
postos sobre sua pele, e de Iza apoiando-lhe a cabea para que pudesse tomar um ch de gosto amargo. Depois disso, mergulhou no sono  custa da droga.
     Ao acordar, os primeiros raios do amanhecer, ajudados pela luz melanclica das ltimas brasas na fogueira, deixavam entrever o contorno dos objetos familiares 
da caverna. Ela tentou levantar-se. Todos os ossos e msculos do corpo recusavam-se a obedec-la. Um gemido escapou-lhe dos lbios, e logo depois Iza estava a seu 
lado. Os olhos da mulher falavam por ela, cheios de preocupao e pena. Nunca havia visto ningum apanhar to brutalmente. Nem mesmo seu companheiro nos piores momentos 
lhe havia batido de modo to duro. Tinha certeza de que Broud a teria matado, se no tivesse sido obrigado a parar. Uma cena que pensou jamais presenciar e esperava 
nunca tornar a ver.
     Quando pde recordar-se do acontecido, Ayla foi tomada de dio e medo ao mesmo tempo. Sabia que no deveria ter sido to insolente, mas no podia esperar uma 
reao to violenta. O que ser que tinha para arrast-lo a ataques de tamanha fria?
     Brun estava furioso. Era uma raiva fria e contida que fazia com que todo o cl caminhasse nas pontas dos ps, evitando-o tanto quanto possvel. Ele desaprovava 
o atrevimento de Ayla, mas a reao de Broud o havia chocado.  certo que a menina poderia ser castigada, s que Broud no poderia exceder-se daquela maneira. Nem 
mesmo quando Brun ordenara que parasse, Broud obedeceu. Foi preciso que ele, o chefe, o arrastasse para o lado. E o pior, perder o controle por causa de uma mulher. 
Broud se deixara levar pela provocao de uma menina, descontrolando-se e dando um espetculo de histeria verdadeiramente feminina.
     Depois do acesso de raiva que Broud teve no campo de treinamento, Brun estava certo de que o rapaz nunca mais iria deixar-se levar por seu gnio.
     No entanto, ele agora tinha sido dominado por outro acesso de clera, pior at do que o de uma criana. Sim, porque Broud j tinha a fora e o corpo de um homem 
adulto. Pela primeira vez, Brun comeou a ter srias dvidas sobre a prudncia de fazer de Broud o chefe do cl, e isso o feria mais do que gostaria de admitir. 
Broud era mais do que o filho de sua companheira e o filho de seu corao. Brun no duvidava de que tinha sido seu esprito que o criara e amava Broud mais do que 
a prpria vida. O fracasso do rapaz era como uma punhalada nele. O erro deveria ser seu. Em alguma coisa falhara, provavelmente no o tinha educado direito, nem 
ensinado devidamente. Havia sido condescendente demais.
     Brun esperou vrios dias antes de falar com Broud. Queria dar-se tempo para pensar com mais clareza. Broud, ansioso, sempre sobressaltado, pouco saa de sua 
fogueira e foi quase com alvio que, por fim, viu Brun acenar-lhe, apesar de o corao bater forte, enquanto seguia atrs do chefe. No havia na da no mundo que 
temesse tanto quanto a raiva de Brun, mas foi justamente a ausncia de raiva que tocou sua razo.
     Com gestos simples e postura comedida, Brun falou exatamente o que Broud vinha pensando. Brun se culpou pelos erros de Broud, fazendo-o sentir- se mais envergonhado 
do que nunca. O rapaz pde compreender todo o amor de Brun e sua angstia, de uma maneira como nunca supusera. Ali, no se achava o orgulhoso chefe a quem sempre 
temera, mas um homem que o amava e que se via muito desapontado por sua causa. Broud era s remorsos.
     Percebeu, ento, uma expresso dura e resoluta no olhar de Brun. Era algo que devia partir-lhe o corao, mas os interesses do cl vinham em primeiro lugar.
     - Mais um desses rompantes, Broud, s mais um, por menor que seja, e voc j no ser mais o filho de minha companheira.  direito seu me substi tuir como chefe, 
mas antes de confiar a direo do cl a um homem que no tem autodomnio, prefiro reneg-lo e lanar sobre ele a maldio de morte. - Brun falava mantendo o rosto 
impassvel. - Enquanto no vir um sinal que me faa crer que de fato voc se tornou um homem, sua capacidade para chefiar o cl est sendo posta em dvida. Eu o 
estarei observando, Broud. Mas estarei observando tambm os outros caadores. E no so apenas demonstraes pblicas de descontrole que estarei vendo; tenho de 
ter certeza de que voc  realmente um homem em todos os sentidos. Se tiver de escolher algum outro para chefe, voc pode ficar sabendo que seu status ser para 
sempre o mais baixo de todos na hierarquia do cl. Ser que me fiz entender?
     Broud no conseguia acreditar. Renegado? Amaldioado  morte? Um outro escolhido para chefe? Para sempre ocupando a posio mais baixa entre os homens? No. 
Brun no podia estar falando srio. Mas as mandbulas fortemente cerradas do chefe no deixavam margens a dvidas.
     - Sim, Brun - falou Broud com a cabea. Ele estava da cor de um cadver.
     - Os outros no precisam ficar sabendo de nada disso. Uma mudana dessas ser difcil para eles aceitarem e no quero causar nenhuma preo cupao desnecessria. 
Mas no tenha a menor dvida de que farei o que estou dizendo. Um chefe tem de pr os interesses do cl sempre diante dos dele. Esta  a primeira coisa que voc 
tem de aprender. Por isso, ter o auto- controle das aes  to essencial a um chefe. A sobrevivncia do cl  da responsabilidade dele. Um chefe tem menos liberdade 
do que uma mulher, Broud. s vezes, ele  obrigado a fazer muitas coisas que no quer. Se necessrio, at mesmo renegar o filho de sua companheira. Entendeu?
     - Sim, Brun - respondeu Broud, no muito certo de que realmente tinha compreendido. Como um chefe tem menos liberdade do que uma mulher? Era a nica pessoa 
que podia fazer tudo que quisesse. Que mandava em todo mundo, tanto nos homens como nas mulheres.
     - Agora v, Broud. Quero ficar sozinho.
     Muitos dias se passaram antes de Ayla poder levantar-se, e muitos outros mais, at que as marcas arroxeadas em seu corpo passassem para um tom amarelado e por 
fim sumissem. No princpio, estava to apreensiva e com tanto medo de Broud que, cada vez que o via, dava um pulo, assustada. Mas depois que sarou por completo, 
comeou a perceber a mudana na atitude dele. Broud tinha deixado de implicar com ela e censur-la por tudo e, sem dvida alguma, a evitava. Depois que ela se esqueceu 
da dor, chegou quase a acreditar que a surra tinha valido a pena. Desde ento, Broud resolvera deix-la em paz e isso claramente ela percebia.
     Livre das hostilidades constantes do rapaz, a vida ficou bem mais fcil para Ayla. S ento  que percebeu o estado de tenso em que vinha vivendo. Comparativamente, 
sentia como se dispusesse de enorme liberdade, embora sua vida continuasse to limitada quanto a de qualquer outra mulher do cl. Caminhava cheia de entusiasmo, 
s vezes disparando em correrias e saltos alegres. A cabea ia erguida e os braos balanavam livremente. At risadas em voz alta ela dava. Seu sentimento de liberdade 
traduzia-se em movimentos. Iza sabia que ela estava feliz, mas era um comportamento incomum e despertava olhares reprovadores. Exuberncia demais era algo imprprio.
     Tambm para o cl ficou evidente que Broud a evitava, o que dava muito assunto para especulaes e conjeturas. Ayla, juntando alguns gestos e pedaos surpreendidos 
de conversas, chegou  concluso de que Brun ameaara Broud de consequncias terrveis, caso ele tomasse a bater nela, e disso ficou convencida depois que viu o 
rapaz ignor-la, mesmo quando provocado. A princpio, mostrou-se apenas um tanto descuidada, dando largas a seu temperamento naturalmente expansivo, mas depois passou 
a fazer uma campanha sistemtica, baseada em sutis gestos de insolncia. No o desrespeito atrevido que motivara a surra, mas coisinhas insignificantes, pequenas 
artimanhas expressamente calculadas para aborrec-lo. Ela o odiava, queria vingar-se dele e se sentia protegida por Brun.
     Era um cl pequeno, e por mais que o rapaz tentasse evit-la, na vida diria, sempre surgiam ocasies em que ele se via forado a dirigir-se a ela. Mas Ayla 
tomou como norma de conduta nunca atend-lo prontamente. Se sou besse que ningum estava vendo, levantava os olhos e, com um tipo de careta de que s ela era capaz, 
encarava-o, deliciando-se com o esforo que o via fazer para controlar-Se. Se houvesse gente por perto, principalmente Brun, ela tratava de ser mais cuidadosa. No 
tinha nenhum desejo de provocar a clera do chefe, mas passou a desdenhar a raiva de Broud e,  medida que o vero avanava, foi cada vez se opondo a ele mais abertamente.
     Somente quando ela surpreendia o olhar dele carregado de dio e peonha  que se punha a duvidar se realmente estaria agindo com prudncia. Os olhares estavam 
de tal maneira impregnados de maldade que valiam quase como uma bofetada fsica. Broud a culpava inteiramente por aquela sua posio insustentvel. Se Ayla no tivesse 
sido to insolente, pensava consigo, ele no se teria posto com tanta raiva. E agora, por causa dela, tinha at uma maldio de morte pesando sobre sua vida. Mesmo 
se controlando, a felicidade exuberante de Ayla o irritava. Era mais do que evidente que a garota tinha um comportamento escandalosamente indecoroso. Por que os 
outros homens no enxergavam isso? Por que deixavam que ela passasse impune? Seu dio era ainda maior do que antes,mas tinha cuidado para no demonstr-lo, se Brun 
estivesse por perto.
     A batalha entre eles se fazia nos bastidores, e cada vez disputada com mais ardor, s que a menina no era to sutil quanto o imaginava. O cl inteiro no compreendia 
por que Brun permitia a coisa ir avante. Mas, seguindo o exemplo do chefe, eles tambm no interferiam e at permitiam  garota um certo tipo de liberdade que normalmente 
no admitiriam. No entanto, isso os deixava constrangidos, homens e mulheres.Brun tampouco aprovava o comportamento de Ayla. Nenhum daqueles estratagemas que ela 
considerava como altamente sutis lhe passava despercebido e muito menos estava gostando de ver Broud deixando a garota passar sem castigo. Insolncia e insubordinao 
eram duas coisas inadmissveis, sobretudo tratando-se de mulheres. Ficava chocado de ver uma menina opondo sua vontade  de um homem. Nenhuma mulher do cl chegaria 
a cogitar de tal coisa. Estavam todas satisfeitas em seus lugares, pois a maneira de pensar delas no era uma tintura cultural, fazia parte de sua prpria condio 
de mulher. Por instinto, sabiam da importncia que tinham para a existncia doscls. Nem os homens estariam habilitados a fazer seus servios como tambm elas No 
tinham a menor possibilidade de aprender a caar. Suas memrias No lhes permitiam isso. Por que iria uma mulher esforar-se e lutar para mudar uma condio que 
era nela natural? Seria o mesmo que tentar lutar para No comer ou respirar. Se Brun No estivesse absolutamente certo de Ayla ser mulher, pensaria, pelo modo de 
ela agir, que era homem. No obstante, Ayla aprendera os afazeres femininos, chegando, inclusive, a mostrar vocao para curandeira.
     Por mais que isso o perturbasse, Brun se impedia de interferir, pois que estava vendo o esforo que Broud vinha fazendo para aprender a controlar- se. A atitude 
desafiadora de Ayla ajudava Broud a dominar seu gnio, coisa essencial num futuro chefe. Apesar disso, tinha pensado seriamente em procurar um outro sucessor para 
ele; por outro lado, porm, Brun se mostrava indulgente no que tocava ao filho de sua companheira Broud era um caador destemido e o chefe sentia orgulho de sua 
coragem. Se conseguir vencer essa sua falha, a nica que se nota, dar um bom chefe, dizia consigo.
     Ayla No tinha muita conscincia da atmosfera de tenso em torno dela. No se lembrava de poca mais feliz em sua vida do que aquele vero. Aproveitava de sua 
maior liberdade para dar seus passeios solitrios, colher ervas e treinar com a funda. No se furtava de fazer nenhuma das tarefas que lhe eram exigidas - disso 
No podia eximir-se - e uma dessas era trazer plantas para Iza, o que lhe dava boa desculpa para ausentar-se. Iza nunca mais havia recuperado a sade integralmente, 
embora, com o calor do vero, sua tosse houvesse diminudo. Tanto ela quanto Creb estavam preocupados com Ayla. Iza principalmente tinha certeza de que as coisas 
No podiam continuar como estavam e resolveu, numa das sadas para coleta de plantas, ir com Ayla e aproveitar a oportunidade para ter uma conversa com a garota.
     - Uba, venha, a me j est pronta - disse Ayla, pegando na garotinha e firmando-a sobre seu quadril com a capa.
     Elas desceram a encosta, atravessaram o riacho e foram pela mata por uma trilha de animais que se alargara um pouco depois que as pessoas passaram a us-la 
como caminho. Ao baterem numa clareira, Iza olhou a seu redor e se dirigiu para um grupo de rvores altas, de flores amarelas, lembrando steres.
     - Isso aqui so nulas, Ayla - disse ela. - Normalmente s do nos campos e em lugares abertos. As folhas so grandes, ovais e pontudas na extremidade. Por 
cima, tm a cor verde-escura e, embaixo, so peludas. Est vendo? - Iza estava ajoelhada, segurando uma folha enquanto explicava. - Os veios no meio so grossos 
e carnudos. - E partiu uma para mostrar.
     - Estou vendo, me.
     - Mas o que se usa desta planta so as razes. Elas brotam uma vez por ano, mas  melhor colher no segundo ano, quando a raz est firme e macia. Corte em pedaos 
e ferva um punhado numa pequena cuja de osso, uma quantidade que d para encher um pouco mais da metade da cuia. Espera-se esfriar e tomam duas cuias por dia. Serve 
para acalmar e  muito bom para doenas do pulmo que fazem cuspir sangue. 
     Tambm ajuda a suar e urinar. - Iza estava sentada no cho escavando a raiz com um pau,as mos movendo-se rpidas, enquanto ia falando. - Pode-se tambm botar 
as razes para secar e depois esmigalh-las fazendo um p. - Retirou da terra uma certa quantidade das plantas, metendo-as dentro de sua cesta.
     Foram, ento andando por um pequeno elevado no terreno, quando Iza tomou a parar. Uba adormecera, sentindo-se confortavelmente segura junto do corpo de Ayla.
     - Est vendo aquela plantinha de flores amarelas com o centro vermelho, parecendo um funil? - disse Iza, apontando numa direo.
     - Esta? - perguntou Ayla, tocando a ptala da flor.
     - Sim. isso se chama mamendro negro.  uma planta muito boa, mas s as curandeiras podem usar. No serve como alimento. Possui um veneno muito perigoso.
     - Qual a parte que se usa? A raz?
     - Quase tudo. Raz, folhas e sementes. As folhas so maiores do que as flores. Nascem alternadas no caule. Preste bem ateno Ayla. As folhas so verdes-claras 
e dentadas nas beiradas. Voc est vendo estes plos que passam pelo meio? - Iza encostou o dedo na penugem fina e Ayla veio olhar de perto. Ela pegou, ento, uma 
folha e deu para a menina cheirar. - Cheire.
     Era um odor extremamente narcotizante.
     - Esse cheiro se conserva mesmo depois das folhas secas - continuou a explicar Iza. - Daqui a algum tempo vo estar dando uma poro de sementinhas marrons. 
- Cavou a terra e botou para fora uma raiz de cor castanha, grossa e enrugada, parecendo inhame. No ponto em que foi partida, surgiu seu interior branco. - Cada 
parte da planta tem um uso diferente. Mas todas servem para fazer remdios contra dor. Podem ser usadas para fazer ch. Mas  muito forte, no se deve abusar. Podem 
ser usadas tambm como loo para aplicar diretamente sobre a pele. Acaba com espasmos musculares, acainia, relaxa e faz dormir.
     Iza colheu uma boa quantidade e se encaminhou para um lugar perto, onde cresciam malvas. Apanhou um monte de flores brotando de caules lisos. Eram rosa, vermelhas, 
brancas e amarelas.
     - As malvas servem para aliviar irritaes de pele, machucados, feridas e inflamaes de garganta. As flores tiram dores, mas fazem dormir. As razes so boas 
para pr em feridas. Na sua perna, eu usei raz de malva, Ayla.
     A menina passou a mo pela coxa, sentindo a cicatriz, pensando de repente no que teria sido dela, se no fosse Iza. Ficaram, ento andando por algum tempo em 
silncio, gozando o calor do sol e o prazer da companhia. Mas os olhos de Iza no paravam de vasculhar o terreno. A pastagem, batendo  altura do peito, estava dourada 
e cheia de espigas. Iza olhou para o campo com as plantas vergando-se ao peso das espigas maduras e ondulando suavemente com a brisa quente. Vendo algo que lhe interessava, 
foi caminhando direto, entre os caules, at chegar a uma rea de centeio, cujas espigas estavam numa cor roxa, quase preta.
     - Ay - disse, apontando para um dos ps - normalmente o centeio no  assim. As espigas esto doentes, mas tivemos sorte de ach-las. Quando esto dessa maneira, 
a gente diz que esto com cravagem. Cheire para sentir.
     Que cheiro horrvel, parece peixe podre.
     - Mas nessas espigas doentes existe uma mgica especial para mulher grvida. Quando o parto est custando muito, o remdio feito delas faz o beb nascer mais 
depressa. Provoca contraes e serve para dar incio ao trabalho de parto. Alm disso, tm poder para fazer abortar. O que  muito importante, no caso de mulheres 
que j tiveram problemas com gravidez ou que ainda esto amamentando. A mulher No deve ter um filho atrs do outro.  muito duro para ela. Principalmente, se acabar 
o leite, quem vai dar de mamar ao filho dela? Uma quantidade de crianas morre ao nascer ou no primeiro ano de vida. A me tem de cuidar mais daqueles que j esto 
vivos e com maior chance de ser criados. Existem plantas que fazem a me perder o beb, se ela precisar. A cravagem ou o azevm espigado  apenas uma delas. Serve 
tambm para depois do parto. Ajuda a expulsar o sangue velho e a voltar os rgos para o lugar. Tem gosto ruim mas no to ruim quanto o cheiro e pode ser muito 
til, quando usado com prudncia. Em quantidade, pode provocar dores de barriga muito fortes, vmitos e at a morte.
     -  como o meimendro. Tanto pode fazer mal como bem - comentou Ayla.
     - Isso quase sempre  verdade. s vezes, as plantas mais venenosas so as que produzem os remdios mais fortes e melhores, se voc souber us-las.
     No caminho de volta ao riacho, Ayla parou e apontou para uma plantinha de flores num tom vermelho-azulado, mais ou menos de 30 centmetros de altura.
     - Ali esto alguns hissopos. O ch deles  bom para tosse quando se est gripado, no ?
     - Sim. E serve tambm para dar um sabor muito perfumado a outros chs... Por que no pega um pouco?
     Ayla pegou um punhado, arrancando pelas razes, e foi retirando as folhas midas enquanto caminhava.
     - Ayla - falou Iza - essas plantas tornam a brotar todos os anos. Se voc tirar com as razes, no prximo vero no haver mais delas nesse lugar. Quando no 
se precisa das razes, o melhor  apanhar s as folhas.
     - No tinha pensado nisso disse Ayla, arrependida. - Daqui por diante no vou fazer mais.
     - Mesmo quando se precisa das razes, no se deve apanhar todas num nico lugar. Sempre devem sobrar algumas para brotar novamente.
     Elas seguiram por um outro caminho que levava tambm ao riacho, mas, ao chegarem numa rea pantanosa, Iza apontou para mais uma variedade de plantas.
     - Aquelas l so juncos doces. Parecem um pouco com ris, mas no tm nada a ver. A loo feita com suas razes serve para aliviar dor de queimaduras, e mastig-las, 
s vezes, tambm ajuda na dor de dente. Mas voc tem de ter muito cuidado quando for dar para uma mulher grvida. Sei de casos de mulheres que perderam filhos porque 
engoliram o caldo dessa planta. Se bem que uma vez eu dei de propsito e no adiantou nada. Podem tambm ajudar em problemas intestinais, principalmente de priso 
de ventre.  fcil voc ver a diferena entre uma e outra. Veja a batata que ela tem, parecendo um bulbo - disse Iza, apontando. - O cheiro dela tambm  muito mais 
for te do que o da ris.
     As duas pararam e descansaram  sombra de um bordo. Ayla pegou uma das enormes folhas da rvore, enrolou-a no feitio de uma cornucpia, em brulhando a parte 
de baixo no polegar e tomando nela um gole de gua fresca do riacho. Antes de botar fora o seu arremedo de copo, trouxe um gole para Iza.
     - Ayla - comeou Iza a falar, depois que acabou de beber. - Bem, voc sabe, Broud  homem. Ele tem direito de mandar em voc e voc devia fazer tudo o que ele 
ordenar.
     - Mas eu fao tudo que ele manda - respondeu, defendendo-se.
     Iza fez que no com a cabea.
     - Mas voc no faz do jeito que deveria. Voc provoca, desafia. Chegar o tempo em que vai arrepender-se, Ayla. Um dia, ele ser o chefe do cl Voc  obrigada 
a fazer o que os homens mandam. Todos eles. Voc  mulher, no tem escolha.
     - Por que os homens tm direito de mandar nas mulheres? O que eles tm de melhor? Nem bebs podem ter! - gesticulou ela, com amargura e esprito de rebeldia.
     - Porque  assim que . Sempre foi assim nos cl e voc agora faz parte de um, Ayla. Voc  minha filha. Deve comportar-se como uma menina do cl.
     Ayla baixou a cabea, sentindo-se culpada. Iza tinha razo. Ela provocava Broud. O que teria acontecido, se Iza no a tivesse encontrado? Se Brun no tivesse 
permitido que ela ficasse? Se Creb no fizesse dela um membro do cl. Olhava para Iza, a nica me de quem se lembrava. A mulher tinha envelhecido. Estava magra 
e cansada. A carne de seus braos, outrora musculosos, pendia dos ossos, e os cabelos, antes castanhos, estavam praticamente brancos. Creb que, no princpio, parecia 
to mais velho do que ela, na verdade, pouco mudara. Era Iza quem parecia velha, mais ainda do que Creb. Ayla se preocupava com ela. Mas sempre que falava qualquer 
coisa neste sentido, Iza desconversava.
     - Voc tem razo. No tenho tratado Broud como devia. Vou fazer tudo para agrad-lo.
     Nesse instante, Uba, que se achava no colo de Ayla, comeou a contorcer-se.
     - Uba tem fome - falou com gestos, metendo a munheca rechonchuda na boca.
     Iza olhou para o cu. 
     - Est ficando tarde e Uba precisa comer.  melhor comearmos a voltar.
     Seria bom se Iza estivesse bem de sade para sair comigo mais vezes, pensou Ayla, enquanto caminhavam, apressadas, de volta  caverna. S assim poderamos passar 
mais tempo uma com a outra, e quando ela vem eu aprendo muito mais.
     Embora Ayla tivesse vontade de manter seu propsito de agradar Broud, isso se mostrou difcil de ser cumprido. Ela j se habituara a no lhe prestar ateno, 
sabendo que, se no corresse prontamente para servi-lo, ele mesmo faria o que queria ou ento procuraria por outra mulher. Seus olhares rancorosos no lhe metiam 
medo, sentia-se a salvo de sua clera. J no o provocava mais de propsito, mas a impertinncia tornara-se nela um hbito. H muito que o olhava diretamente, ao 
invs de baixar a cabea; que o ignorava, ao invs de correr para comprir suas ordens. O comportamento j fora automatizado. Seu desdm por ele o irritava mais do 
que as investidas provocativas. O rapaz percebia que ela no o respeitava mais. No entanto, no era o respeito que Ayla havia perdido, mas sim o medo.
     A poca em que os ventos frios e as pesadas nevascas foravam o cl a ficar dentro da caverna estava de novo por chegar. Ayla detestava ver as folhas comeando 
a mudar de cor, mas o brilhante espetculo do Outono sempre a deixava fascinada, com suas belas colheitas de frutas e de nozes que mantinham as mulheres constantemente 
ocupadas. Na correria para armazenar as colheitas do final do outono, ela no teve muito tempo para subir a seu esconderijo. O tempo passara to rapidamente que 
s foi perceber quando j estava prximo do fim da estao.
     Por fim, a tranquilidade foi voltando, a garota, certo dia, atou sua cesta s costas, passou a mo no pau de cavar e subiu novamente at sua clareira secreta, 
pensando em colher aveias. Logo que chegou, encolheu os ombros, dei xando a cesta escorregar, e foi buscar a funda guardada na gruta. Havia aparelhado sua casa de 
brinquedo com alguns instrumentos que fabricara e l botou tambm uma velha pele de dormir. Pegou uma cuia de vidoeiro que estava sobre uma tbua tosca apoiada sobre 
duas grandes pedras, onde tambm havia algumas conchas servindo de pratos, uma faca de pedra e umas pedras menores que usava para quebrar nozes. Em seguida, retirou 
a funda de uma cesta de vime tampada. Depois de tomar um gole de gua na nascente, foi caminhando ao longo do riacho,  procura de pedras arredondadas.
     Fez alguns arremessos treinando a pontaria. Vorn no acerta tanto no alvo quanto eu, pensou, satisfeita, ao ver as pedras atingirem os lugares mirados. Depois 
de certo tempo, cansou-se do esporte, botou a funda e as pedras para o lado e se ps a catar as avels espalhadas pelo cho, sob os espessos arbustos, velhos e nododos. 
Pensava no quanto a vida podia ser maravilhosa. Uba crescia, forte e saudvel. Iza parecia bem melhor. O sofrimento e as dores de Creb diminuram bastante, e ela 
adorava os seus passeios com ele, capengando a seu lado, ao longo do riacho. A funda era outra coisa que adorava e se tinha tornado uma exmia atiradora. Acertar 
o poste, ou as pedras e galhos que mirava como alvo, ficara quase fcil demais; no entanto, o fato de a arma ser proibida ainda continuava fazendo dela um esporte 
excitante. E o melhor de tudo, Broud nunca mais voltara a incomod-la. Enquanto enchia a cesta de aveias, achava que nada no mundo poderia vir estragar sua felicidade.
     As folhas secas e marrons, apanhadas pelos ventos, se soltavam das rvores e volteavam no ar com seus parceiros invisveis para depois cair suavemente no cho. 
Cobriam as nozes ainda espalhadas sob as rvores de onde haviam despencado maduras. As frutas que No eram apanhadas para ir encher os estoques de inverno pendiam 
pesadas e polpudas nos galhos nus. As estepes a leste eram um mar dourado de espigas ondulando ao vento numa imitao das ondas espumosas das guas cinzentas ao 
sul. E as ltimas ameixas e uvas, regurgitando de caldo, pediam para ser colhidas.
     Os homens se achavam numa de suas reunies usuais, planejando uma das ltimas caadas da estao. Discutiam os tipos de jornadas possveis desde manh cedo, 
e Broud, em certo momento, foi mandado para dar ordem a alguma mulher de lhes trazer gua. Ele viu Ayla sentada perto da entrada da caverna, com paus e pedaos de 
couro espalhados a seu redor. Ela construa engradados para pendurar cachos de uva que ficariam secando at se transformarem em passas.
     - Ayla! Traga gua - ordenou Broud, por meio de sinais e pronto para voltar.
     Ela estava num momento crtico da amarrao, apoiando o engradado no colo. Se se mexesse naquele instante, o trabalho desmontaria e seria obrigada a comear 
tudo de novo. Ela hesitou, olhando para ver se havia alguma outra mulher por perto. Em seguida, com um suspiro, relutante, levantou-se devagar e foi procurar um 
odre.
     O rapaz lutava contra a raiva que logo se apossara dele, vendo-a visivelmente relutante em obedec-lo. Tentava dominar a fria, enquanto olhava  procura de 
alguma outra mulher que lhe atendesse o pedido com a presteza exigida. De repente, mudou de idia. Estreitando os olhos, encarou Ayla que acabava de sair. Quem lhe 
deu o direito de ser insolente? Ser que No sou um homem? No  dever dela obedecer-me? Brun nunca me disse que eu tinha de aguentar falta de respeito. Ele No 
me pode lanar a maldio de morte, s por obrigar esta menina a fazer o que se espera dela. Que espce de chefe  esse que deixa uma mulher desafi-lo? Alguma coisa 
estalava dentro dele. Ela fora longe demais no seu descaramento! Dessa vez, No vai passar impunemente. Ter de obedecer de qualquer jeito!
     Todos esses pensamentos passaram em sua cabea na frao de segundo que ele levou para alcan-la. No momento em que ela se ergueu, a sua pesada munheca pegou-a 
de surpresa, batendo-lhe em cheio. O olhar dela, atnito, imediatamente encheu-se de dio. Ela olhou ao redor, viu que Brun observava, mas algo em seu rosto impassvel 
lhe dizia para No contar com qualquer assistncia da parte dele. A clera nos olhos de Broud ransformara a raiva dela em medo, mas ele tambm lhe havia surpreendido 
aquele instante de raiva que fez ressurgir seu dio desmedido por ela. Como ousava desafi-lo!
     Rapidamente, Ayla arrastou-se para o lado, fugindo do prximo soco e correndo  caverna para buscar o odre. Broud, com as maos fechadas, seguiu-a com os olhos, 
lutando para manter a fria dentro de limites controlveis. Olhou na direo dos homens, vendo Brun impassvel. Nele, No havia encorajamento, mas tambm No se 
percebia reprovao. Ayla correu ao lago, encheu a sacola de gua e a suspendeu s costas, enquanto Broud a observava, sem deixar de notar-lhe a presteza e a expresso 
medrosa, temendo receber novo soco. Com isso, pde controlar melhor a raiva. Tenho sido muito mole com ela, pensou o rapaz.
     Ao passar por ele, curvada com o peso da sacola, recebeu outro murro que por pouco No a derrubou novamente. O rosto dela ficou rubro de raiva. Ela endireitou 
o corpo, lanou-lhe um rpido olhar carregado de dio e diminuiu o passo. Ele foi atrs dela. Um murro no ombro obrigou-a a encolher o corpo. O cl agora observava. 
Ayla olhou na direo dos homens. A expresso dura de Brun preocupava-a mais do que os punhos cerrados de Broud.
     - Mas fao tudo o que ele quer. Nunca deixo de cumprir as ordens
     Ela correu, cobrindo o pequeno espao que a separava deles. Ajoelhou-se e comeou a despejar gua numa cuja, conservando sempre a cabea abaixada. Broud vinha 
atrs, sem pressa, receoso da reao de Brun.
     - Crug dizia que viu uma manada indo para o norte, Broud - mencionou Brun com ar negligente, depois de o rapaz se ter juntado ao grupo.
     Tudo certo, Brun no estava zangado com ele! Claro, por que iria estar? Tinha feito o que devia. No tinha por que falar, era apenas o caso de um homem disciplinando 
uma mulher que estava precisando de uma lio. Seu suspiro de alvio quase chegou a ser ouvido.
     Depois de os homens terem acabado de beber, Ayla voltou  caverna. A maioria das pessoas havia voltado para o que estavam fazendo, menos Creb que, de p na 
entrada, observava-a.
     - Creb! Broud quase me surrou outra vez - gesticulou ela, correndo em sua direo Mas o sorriso que tinha no rosto desapareceu ao levantar os olhos e v-lo 
com uma expresso que nunca vira antes.
     - Voc recebeu apenas o que merecia - disse ele, com a cara sombria e franzida. O olhar era durssimo. Depois, deu-lhe as costas e se encaminhou para sua fogueira.Por 
que Creb est furioso comigo?, perguntou-se Ayla.
     Mais tarde naquele dia, timidamente Ayla aproximou-se do velho feiticeiro com os braos estendidos, prontos para abra-lo. Um gesto que at ento nunca deixara 
de toc-lo no corao S que desta vez No houve a me nor correspondncia. Nem mesmo um encolher de ombros ele se deu o trabalho de fazer. Apenas ficou olhando a 
distncia, frio, inteiramente arredio. Ela, ento, retraiu-se.
     - No me aborrea. V procurar alguma coisa para fazer, menina. O Mog-ur est meditando. Ele no tem tempo para perder com mulheres insolentes - disse ele, 
com gestos rspidos e impacientes.
     Os olhos dela encheram-se de lgrimas. Ela estava magoada e, de repente, sentiu medo do feiticeiro. Aquele No era o velho Creb que conhecia e amava. Ali estava 
o Mog-ur. 
     Pela primeira vez, desde que fora viver com o cl, entendeu por que todos se mantinham a distncia, num medo reverente ao grande Mog-ur. Ele se afastou dela. 
Bastou um s olhar e uns tantos gestos para lhe dar a entender o quanto a reprovava, fazendo-a sentir rejeitada de uma maneira como nunca pudera imaginar. Ele No 
gostava mais dela e tudo o que queria era abra-lo e lhe dizer que o amava, mas tinha medo. Foi ento arrastando-se na direo de Iza.
     - Por que Creb est to zangado comigo?
     - Voc foi avisada, Ayla, eu lhe disse que fizesse tudo o que Broud mandasse. Ele  homem. Tem direito de mandar em voc - respondeu Iza, com brandura dele.
     - Mas voc reage. Voc o desafia. Bem sabe que est sendo insolente com ele. No se comporta com uma menina bem-educada. E isto reflete sobre mim e Creb. Ele 
se sente como se no a tivesse educado direito, achando que por ter dado a voc muita liberdade e deix-la agir com ele de uma determinada maneira, voc acabou pensando 
que tinha o direito de fazer o mesmo com as outras pessoas. Brun tambm no est nada satisfeito com voc, e Creb sabe disso. Voc corre o tempo todo. S crianas 
 que correm, no meninas do tamanho de uma mulher. Voc faz esses barulhos na garganta. Voc no se mexe rpido quando lhe mandam fazer uma coisa. Todo mundo est 
reprovando seu comportamento, Ayla. Voc envergonhou Creb.
     - Eu no sabia que era to m assim, Iza - gesticulou Ayla. - No estava querendo ser m, simplesmente no tinha pensado nessas coisas.
     - Mas deveria. Est muito grande para se portar como criana.
     -  que Broud se mostra sempre to mesquinho comigo e ele me bateu com muita fora daquela vez.
     - Pouco importa se ele  ou no mesquinho. Ele pode ser mesquinho o quanto quiser. Est no seu direito.  homem. Pode bater em voc quando quiser e do jeito 
que bem entender. Algum dia ser o chefe do cl, e voc deve obedec-lo, tem de fazer exatamente o que ele diz e no momento em que ele mandar. No h outro jeito, 
voc no tem escolha - explicou Iza. A garota olhou para Ayla que tinha o rosto arrasado. Por que ser to difcil para ela?, perguntava-se. Sentia pena e ao mesmo 
tempo simpatia pela menina, com toda aquela dificuldade para aceitar simples fatos da vida. - J est ficando tarde, ayla. V para a cama.
     A menina foi para o seu lugar de dormir, mas levou muito tempo at conseguir pegar no sono. Mexia-se e se virava de um lado para outro, dormindo mal, at que 
por fim acabou vencida por um sono profundo. Acordou cedo, pegou a cesta e o pau de cavar, saindo antes da primeira refeio. Queria ficar sozinha para pensar. Subiu 
ao esconderijo na clareira e pegou a funda, mas no estava com muito esprito para treinar.
     Tudo  culpa de Broud, pensou. Por que tem ele de ficar sempre implicando comigo? O que foi que lhe fiz? Nunca gostou de mim. E da em ser homem, que importncia 
h? Por que os homens so melhores? Pouco estou ligando se vai ser ou no chefe do cl. Nem to superior ele . No chega nem a ser to bom na funda quanto Zoug. 
Posso ser to boa quanto ele. J sou at melhor do que Vorn que perde muito mais tiros do que eu, e Broud, prova velmente, tambm deve perder de mim. Errou todos 
os arremessos quando foi exibir-se para Vorn.
     Furiosa, ps-se a atirar pedras com a funda. Uma foi bater numa moita, obrigando um sonolento porco-espinho a sair de seu buraco. Esse pequeno animal noturno 
raramente era apanhado. Todo mundo havia feito o maior espalhafato quando Vorn matou um, lembrou-se Ayla. Se eu quisesse tambm poderia fazer a mesma coisa. O animal 
subia por uma colina arenosa perto do riacho com os seus espinhos todos eriados. Ayla ajustou uma pedra na funda, fez a pontaria e atirou. O porco-espinho no seu 
passo vagaroso era um alvo fcil e tombou no cho.
     Ela, satisfeita consigo, correu em sua direo. Entretanto, ao toc-lo, viu que o animal No estava morto, apenas tonto. Sentiu-lhe o corao ainda batendo 
e o sangue escorrendo do ferimento na cabea. Seu primeiro impulso foi o de lev-lo para a caverna, como fizera com tantos outros bichos. J No estava sentindo 
nenhuma satisfao, ao contrrio, sentia-se horrvel. Por que fui feri-lo? Eu No queria fazer isso. No posso lev-lo para a caverna, Iza iria logo perceber que 
foi alvejado com uma pedra. J cansou de ver animais mortos por pedras atiradas com fundas.
     Ficou com os olhos parados no animal. Nunca vou poder caar, concluiu. Mesmo que matasse um animal, jamais vou poder lev-lo para casa. De que adiantou treinar 
tanto? Se Creb j est furioso comigo, quanto mais ento se soubesse disso. E Brun, o que faria? Se No posso nem tocar numa arma, pior ainda seria us-la. Ser 
que Brun me expulsar? 
     Ayla se via inteiramente vencida pela culpa e o medo. Para onde eu iria? Nunca vou conseguir deixar Iza, Creb e Uba. E quem tomaria conta de mim? No quero 
ir embora, pensou, rompendo em lgrimas.
     - Tenho sido uma menina m. Muito m mesmo, e Creb est com muita raiva de mim. Mas eu gosto dele, No quero que fique me odiando. Oh, por que est to furioso 
assim? Lgrimas rolavam por seu rostinho infeliz. Deitou-se no cho chorando todas as suas mgoas. Depois de chorar tudo que tinha para lamentar, sentou-se, enxugou 
o nariz com as costas da mo, enquanto os ombros se sacudiam com os soluos que de vez em quando voltavam. Nunca mais vou ser m. Quero ser boa. Vou fazer tudo que 
Broud quiser, seja l o que for. E nunca mais vou tocar numa funda. Para reforar o propsito, atirou a arma para o meio de uns arbustos e correu a pegar a cesta, 
descendo de volta  caverna. Iza que, andava procurando por ela, imediatamente viu sua chegada.
     - Onde voc esteve? Passou a manh inteira fora e volta com a cesta vazia?
     - Estive pensando, me - respondeu, olhando para Iza, sria, com ar convicto. - Voc tem razo. Tenho sido uma menina muito m, mas daqui por diante No serei 
mais. Vou fazer tudo que Broud quiser. E tambm vou comportar-me direito. No correr mais e aquelas outras coisas que voc falou. Acha que Creb vai voltar a gostar 
de mim, se eu ficar muito, muito boa mesmo?
     - Tenho certeza de que vai - respondeu Iza, fazendo um carinho nela. Pobrezinha, todas as vezes que acha que Creb no gosta mais dela, fica com aquela doena 
que faz os olhos aguarem, pensava Iza, olhando para Ayla, ainda com o rosto riscado de lgrimas e os olhos vermelhos e inchados. Seu corao sofria pela menina. 
Deve ser muito difcil para Ayla, sua espcie  diferente; mas, talvez daqui para a frente, ela v melhorar.
     

***

Captulo 11

     Inacreditvel a mudana processada em Ayla. Era outra pessoa. Estava arrependida, dcil e pronta no atendimento das ordens de Broud. Os homens estavam convencidos
de que a transformao se devia a uma boa disciplina. Com ar de quem sabia o que diziam, punham-se a acenar com as cabeas afirmativamente. Ali se achava a prova 
viva do que sempre afirmaram: tolerancia demais s serve para fazer as mulheres preguiosas e insolentes. A mulher precisa de um pulso forte para gui-la com firmeza. 
So seres fracos, voluntariosos, sem o autodomnio dos homens. Por isso, necessitavam deles para comand-las e mant-las sob controle, de modo a ser membros produtivos 
do cl e contribuir para sua sobrevivncia.
     Pouco importava o fato de Ayla No passar de uma menina e nem ser genuinamente do cl. J tinha praticamente idade para ser mulher, era mais alta do que qualquer 
um, e ainda por cima fmea. Quando os homens levavam muito a srio suas idias, eram as mulheres que sofriam as consequncias. Os homens do cl No desejavam ser 
culpados de negligncia.
     Broud, entretanto, por vingana, adotou em cheio a filosofia masculina. Embora o controle exercido sobre Oga fosse extremamente rgido, esse No era nada em 
comparao com as agresses sofridas por Ayla. Se j era duro antes, agora tornara-se duas vezes mais duro. Sempre a estava castigando, perseguindo, importunando-a 
com todo tipo de servios insignificantes que a obrigavam a largar imediatamente o que estivesse fazendo para atender suas exigncias. O menor - ou nenhum - deslize 
era punido com murros, e ele sentia prazer nisso. A garota havia ameaado a virilidade dele e agora pagava por seu delito. Foram tantas as vezes que ela lhe resistira, 
desafiara-o, e tantas as que ele se viu obrigado a conter-se para No lhe bater. Agora chegara sua vez. Ele conseguira dobr-la  sua vontade e iria mant-la sempre 
assim.
     Ayla fazia o possvel para agrad-lo. Tentava at mesmo adivinhar-lhe os desejos, mas o tiro saa pela culatra, e era castigada por querer supor coisas que 
ele desejava. No momento em que a menina punha os ps para fora das fronteiras de Creb, ele j estava esperando e ela No podia, sem uma boa razo, permanecer encerrada 
nos domnios privados do feiticeiro. Estavam na ltima arrancada dos preparativos para o inverno. Havia muita coisa ainda aser feita para pr o cl a salvo do frio 
que rapidamente vinha se aproximando. O estoque medicinal de Iza estava basicamente formado, de modo que No havia muita desculpa para Ayla afastar-se dos arredores 
da caverna. Broud cansava-a o dia inteiro e ela, de noite, caa exausta na cama.
     Iza estava certa de que a mudana tinha muito menos a ver com Broud do que esse imaginava. Na verdade, achava-se ligada ao amor que Ayla devotava a Creb e No 
ao medo que sentia por Broud. Iza contara a seu germano que Ayla voltara a sofrer daquela sua particularssima doena que lhe vinha quando imaginava que ele No 
gostava mais dela.
     - Bom, Iza, voc sabe, ela foi longe demais. Era preciso fazer com que sentisse isso. Se Broud No tivesse voltado a lhe impor disciplina, Brun o teria feito. 
E poderia ser muito pior. A nica coisa que Broud pode fazer  tornar a vida dela infeliz, j Brun pode expuls-la - respondeu Creb. Mas a conversa fez com que ele 
se pusesse a especular sobre a fora do amor, um poder mais forte do que o medo, e esse foi tema de suas meditaes por vrios dias. Quase imediatamente, abrandou 
sua atitude em relao  garota. Era tudo o que podia fazer para preservar um pouco daquele comportamento distante e indiferente que vinha mantendo at ento.
     As primeiras neves a cair eram desfeitas por aguaceiros que, nas frias temperaturas do entardecer, transformavam-se em chuvas geladas, s vezes misturadas com 
um pouco de neve. A luz da manh encontrava as poas de gua espelhadas com estilhaos de gelo - prenunciando um frio ainda mais intenso- que s iriam derreter, 
se os caprichos do vento o levassem a soprar do sul e o sol decidisse impor sua autoridade. Durante todo esse indeciso perodo de transio, dos ltimos dias de 
Outono aos primeiros do inverno, Ayla nunca faltou com a devida obedincia feminina. Condescendia em fazer qualquer dos absurdos que desse na veneta de Broud, corria 
a seu primeiro chamado, baixava a cabea submissamente, No ria, nem mesmo chegava a sorrir, mostrando-se de uma passividade total, mas isso No lhe era fcil. Apesar 
de resistir, tentava convencer-se de que estava errada e forava-se, inclusive, a ser mais dcil, s que comeou a desabar sob o peso de tamanha submisso.
     Emagreceu, perdeu o apetite, sempre silenciosa e submissa at mesmo quando se achava na fogueira de Creb. Nem Uba conseguia alegr-la, em bora quase nunca deixasse 
de pegar a garotinha nos braos, quando  noite voltava a casa, ficando com ela, at que as duas cassem no sono. Iza estava preocupada e, numa manh de sol brilhante, 
aps uma vspera chuvosa e fria, ela resolveu que j era tempo de proporcionar a Ayla uma folga antes que o inverno fechasse totalmente seu cerco.
     - Ayla - disse Iza em voz alta, logo que puseram os ps do lado de fora da caverna, antes de Broud ter oportunidade de aparecer com algumas de suas exigncias 
- estava fazendo uma vistoria nos meus medicamentos e vi que No existe nenhum galho de amora branca que  muito bom para dor de barriga. No vai ser difcil de 
voc reconhecer a planta. Ela  do tipo arbusto e os galhos esto sem folhas e cobertos por amoras brancas.
     O que Iza No disse  que tinha muitos outros remdios armazenados que tambm serviam para dor de barriga. Broud franziu a cara ao ver Ayla entrar na caverna 
e pegar sua cesta de colher. Mas ele nada podia fazer, apanhar plantas para iza era bem mais importante do que botar Ayla trazendo-lhe gua, ch, pedaos de carne, 
as pemeiras de pele que propositadamente esquecla de enrolar nas pernas, o capuz para a cabea, alguma fruta e at pedras do riacho para quebrar nozes, pois No 
simpatizava com as que estavam  mo. Enfim, qualquer bobagem inconsequente que lhe ocorresse mand-la fazer. O rapaz se afastou num passo muito empertigado ao ver 
Ayla saindo da caverna com a cesta e o pau de cavar.
     Ayla imediatamente foi para a floresta, agradecendo a Iza aquela chance de poder ficar sozinha. la mirando ao redor, enquanto caminhava, com a cabea longe 
das amoras brancas. No prestava a mnima ateno no caminho e nem percebeu que seus passos a levavam ao longo do pequeno riacho, subindo para os altiplanos musgosos, 
onde as guas despencavam em meio a um vu de neblina. Sem se dar conta, subia a encosta ngreme at que se encontrou na clareira no alto da montanha, por cima da 
caverna. Nunca voltara l, desde que ferira o porco-espinho.
     Perdida em pensamento, sentou-se na margem do riacho, atirando pedrinhas na gua. Fazia frio. Nos lugares mais elevados, a chuva do dia anterior veio na forma 
de neve. Um espesso tapete branco cobria o terreno da clareira e das passagens entre as rvores, manchadas de neve. A atmosfera parada resplandecia na claridade 
que conjugava o brilho da neve com milhares de minsculos cristais refletindo o sol luminoso num cu to azul que quase parecia vermelho. Mas Ayla No tinha olhos 
para a serena beleza da paisagem invernal nos seus primeiros esplendores. Essa s fazia lembr-la de que, em breve, o cl estaria confinado  caverna e de que, at 
a primavera, ela no teria jeito de escapar de Broud.  medida que o sol subia no cu, blocos de neve iam des pencando inesperada e ruidosamente no chao sob as rvores.
     O longo e frio inverno assomava lugubremente  frente, com Broud caando-a dia aps dia. Simplesmente nunca vou satisfaz-lo, pensou. Pouco importa o que eu 
fizer ou quanto eu tentar, nada vai adiantar. O que posso fazer mais do que j fao? Seus olhos casualmente bateram num caminho limpo de neve, l estava uma couraa 
meio esfarrapada e alguns espinhos espalhados, era tudo o que restara do porco-espinho. Uma hiena deve t-lo encontrado, disse consigo- Ou ento um carcaju. Com 
uma pontada de remorso, lembrou- se do dia em que o acertara. Nunca devia ter aprendido a atirar com funda. Foi errado. Creb ficaria furioso e Broud... bem, Broud 
No ficaria furioso e sim alegre se soubesse. Esta seria uma boa desculpa para me bater. Iria adorar se soubesse. S que No sabe e nunca ir descobrir. O pensamento 
lhe deu algum prazer. Era algo que ela fizera escondido de Broud e que lhe daria bons motivos para castig-la. Sentiu vontade de fazer alguma coisa, como atirar 
com a funda, algo que concretizasse seu frustrado sonho de rebeldia.
     Lembrou-se de ter jogado a funda debaixo de uma moita de plantas e foi procur-la. Encontrou-a sob uns arbustos. Estava mida, mas mesmo exposta ao tempo No 
ficou estragada. Acariciava-a, gostando da sensao do couro macio e liso. Pensou na primeira vez em que havia segurado numa, sorrindo  lembrana de Broud todo 
encolhido diante da raiva de Brun por ele ter metido a mo em Zoug. Ela No era a nica a provocar a fria de Broud.
     Mas s comigo pode fazer o que quer, pensou, com amargura. Simplesmente porque sou mulher. Brun ficou com raiva quando ele acertou Zoug, mas em mim Broud pode 
bater quando e como quiser que ele pouco est ligando. No, isso No  de todo verdade, admitiu. Iza disse que foi Brun quem arrastou Broud para o lado para que 
ele parasse de me espancar. E quando Brun est por perto, ele No me bate muito. Se ele s batesse, mas me deixasse em paz de vez em quando, eu nem me importava.
     Ela continuava atirando pedrinhas  gua e viu, sem perceber, que tinha posto uma na funda. Sorriu, olhando para uma folha murcha e sozinha, pendurando-se na 
ponta de um pequeno galho. Fez a pontaria e atirou. Satisfeita e orgulhosa, viu que a pedra arrancara a folha da rvore. Apanhou, ento, mais pedras, levantou-se 
e se dirigiu para o meio da clareira e deu alguns tiros. Ainda posso acertar no que quero, mas e da? Nunca cheguei nem a atirar em alguma coisa movendo-se. O porco-espinho 
No conta. Estava quase parado. No sei nem se conseguiria e nem se sou capaz de aprender a caar... caar de verdade. Mas de que adiantaria? No poderia mesmo levar 
nada para a caverna. Tudo o que fao  facilitar o servio para hienas, lobos e carcajus, logo para esses que roubam tanta comida nossa.
     A caa e qualquer bicho que matavam eram to importantes para o cl que as pessoas estavam sempre em guarda contra os animais predadores. No apenas contra 
os grandes felinos, mas tambm contra manadas de lobos e de hienas que, s vezes, arrebatavam repentinamente o animal das mos dos caa dores. Alm disso, existiam 
tipos de hienas sorrateiras ou traioeiros carcajus que estavam sempre rondando por perto das carnes postas para secar, ou tentando penetrar nos depsitos de comida. 
Ayla No podia aceitar a idia de contribuir para a sobrevivncia de seus competidores.
     Nem mesmo ferido, Brun deixou que eu levasse para a caverna um filhote de lobo e os caadores esto sempre matando os comedores de carne, mesmo que a gente 
No tenha necessidade de suas peles. Esses bichos esto sempre nos dando trabalho. O pensamento ficou gravado nela, enquanto outra idia comeava a ganhar forma. 
Com exceo daqueles que so muito grandes, todos os comedores de carne podem ser mortos com funda. Lembro de que Zoug disse a Vorn que era melhor usar a funda em 
certas ocasies do que chegar perto do animal.
     Ayla se lembrava bem do dia em que viu Zoug exaltando as virtudes da arma, na qual era exmio atirador.  verdade que com uma funda, o caador no precisa chegar 
perto de garras e presas afiadas, s que Zoug se esqueceu de dizer que, quando o caador perde o tiro, ele, s vezes, est frente a frente com um lobo ou com um 
lince, sem nenhuma outra arma para apoi-lo. Mas Zoug tambm deixou bem claro que seria uma imprudncia aventurar- se com animais grandes.
     E se eu caasse s comedores de carne? Nunca comemos esses animais, assim no seria desperdcio, mesmo que depois a carnia ficasse para os abutres. Os caadores 
esto cansados de fazer isso.
     Mas o que estou pensando? Ela balanou a cabea, como para espantar um pensamento vergonhoso. Sou mulher, no me  permitido caar. Se nem mesmo encostar amo 
numa arma eu posso, quanto mais isso! Mas j usei uma funda, apesar de no ser permitido, pensou, cheia de ousadia. Se matasse um carcaju, uma raposa ou qualquer 
outra coisa para que nunca mais venha nos roubar, estaria fazendo um benefcio ao cl. Essas hienas horrorosas...  bem possvel que eu mate uma delas qualquer dia 
desses. Imagine s o que iria acontecer. Ayla j se via caando todos aqueles predadores cheios de ardis e manhas.
     Havia treinado o tiro com funda durante todo o vero. Apesar de que fosse, ento, s um esporte para ela, compreendia e respeitava qualquer arma para saber 
que seu verdadeiro propsito estava no em exerccios de tiro ao alvo, mas na caa em si mesma. Sentia que, se no houvesse maiores desafios, bem depressa deixaria 
de existir graa em atingir postes, galhos ou pedras. Ademais, o sentido da competio pela competio s apareceu no mundo depois que a Terra j estava dominada 
por civilizaes que h muito no precisavam mais da caa como meio de subsistncia. A competio no pensamento dos cls tinha o propsito exclusivo de aprimorar 
um tipo de destreza ligado  sobrevivncia.Embora sem se dar conta, parte de sua amargura era devida ao fato de ser obrigada a abandonar uma coisa que conseguira 
com o prprio esforo e que estava no ponto de desenvolver-se muito mais. Havia sentido prazer em aperfeioar sua tcnica, em exercitar a coordenao dos olhos com 
as mos e estava orgulhosa de ter aprendido tudo sozinha. Agora, pedia por maiores de safios, o desafio da caada, mas precisava justificar-se.
     Desde o comeo, quando tudo era apenas brincadeira, imaginava-se caando e depois entrando na caverna carregada de caa, sob os olhares admirados e contentes 
das pessoas. O porco-espinho trouxe-lhe a razo. Um sonho impossvel de realizar-se. Era mulher e, como tal, proibida de caar. A idia de exterminar os animais 
que competiam com o cl deu-lhe o vago sentimento de que, se suas caas no fossem apreciadas, pelo menos lhe ficariam reconhecidos. Era uma boa justificativa para 
caar.
     Quanto mais pensava, mais se via convencida de que caar carnvoros, ainda que s escondidas, seria sua soluo, embora no conseguisse sobrepujar inteiramente 
o sentimento de culpa.
     Lutava contra sua conscincia. Creb e Iza lhe haviam falado muito de que era errado mulheres botarem a mo em armas, mas j fui muito mais longe do que simplesmente 
tocar numa arma, dizia consigo. Seria ainda pior se caasse com uma? A menina olhou para a funda na mo e, de repente, decidiu-se, esforando-se para vencer seu 
sentimento de estar fazendo uma coisa errada.
     - Est decidido! Aprenderei a caar! Mas s vou matar comedores de carne, dizia consigo, fazendo gestos enfatizando sua determinao. Cheia de entusiasmo, correu 
ao riacho para buscar mais pedras.
     Enquanto procurava por pedras de bom tamanho, seus olhos bateram num objeto de forma bastante particular. Parecia uma pedra, mas parecia tambm a concha de 
algum molusco, possvel de ser encontrada  beira-mar. Ela pegou e examinou com ateno. Era uma pedra, mas uma pedra com for mato de concha.
     - Que pedra estranha, falou. Nunca vi uma assim antes. Lembrou-se, ento, de algo que Creb lhe dissera e, sbito, deu o estalo em sua cabea. A idia era to 
perturbadora que sentiu o sangue correndo e um frio perpassar-lhe pela espinha. Os joelhos se dobravam e ela tremia tanto que teve de se sentar. Empalmando a pedra 
que era apenas o fssil de um gastrpode, ficou com os olhos fixos nela, inteiramente absorta.
     Creb tinha dito, lembrava-se ela, que, quando uma deciso importante est para ser tomada, o totem da pessoa a ajuda. Se a deciso estiver certa, o totem manda 
um aviso qualquer. Ele disse tambm que sempre  uma coisa muito fora do comum e que ningum sabe dizer se aquilo  de fato ou no um aviso. S a pessoa, com sua 
mente e seu corao, entende o que o totem, dentro dela, est-lhe dizendo.
      Poderoso Leo da Caverna, isso  um aviso mandado por voc? Ela se expressava em silncio, na forma da linguagem ritualstica usada para se diri gir aos totens. 
Est voc me revelando que tomei a deciso certa? Que mesmo que eu seja uma menina, no  errado caar?
     Sentou-se quieta, com os olhos sempre presos na pedra, tentando as sumir a postura meditativa que via em Creb. No ignorava que ela prpria era considerada 
fora do comum por ter como totem o leo da caverna, mas nunca dera muita importncia ao fato. Enfiou a mo por baixo da roupa, sentindo na coxa os quatro riscos 
paralelos de sua cicatriz. Mas, por que fui escolhida pelo leo da Caverna?  um totem forte demais, um totem de homem. Por que teria escolhido uma menina? Deve 
haver um motivo por trs disso tudo Pensou, ento, na funda e como aprendera a us-la. que ser que fui apanhar a velha funda que Broud tinha jogado fora? Nenhuma 
mulher tocaria naquilo. O que foi que me fez fazer isso? Ser que fui guiada por meu totem? Que ele estava querendo que eu aprendesse a caar? S os homens caam 
e meu totem  de homem. Claro! Deve ser isso! Tenho um totem masculino, por isso ele quer que eu cace.
      Poderoso leo da Caverna. os caminhos usados pelos espritos so desconhecidos para mim. No sei por que voc quer que eu cace, mas estou feliz por me ter 
enviado este aviso.
     Ayla revirava a pedra na mo, at que pegou o amuleto do pescoo, desatou o n que fechava o saquinho e ps o fssil dentro, junto do torro de ocre vermelho. 
Amarrou novamente bem apertado e tornou a pass-lo pela cabea, sentindo agora a diferena do peso pendurado em seu pescoo. Era como se seu totem desse sua aprovao, 
emprestando peso  sua deciso.
     Todo o sentimento de culpa desapareceu. Estava subentendido que ela deveria caar, o seu totem assim o desejava. No importava o fato de ser mulher. Sou como 
Durc, pensou, ele abandonou seu cl, apesar de todos dizerem que estava errado. Acho que ele encontrou um bom lugar, onde a Montanha de Gelo nunca chegou e que ele 
formou um novo cl. Durc tambm deve ter tido um totem poderoso. Creb diz que a vida  muito difcil para aqueles que tm totens fortes e que estes testam antes 
a pessoa para saber se ela  digna de receber o que eles vo dar. Foi por isso, disse ele tambm, que quase morri, antes de Iza me achar. Gostaria de saber se Durc 
foi posto  prova por seu totem. Ser que meu leo da Caverna ainda vai me testar outra vez?
     Mas, s vezes, um teste pode ser muito difcil. E se eu no for digna? Como vou ficar sabendo se estou sendo testada? Qual ser a coisa difcil que meu totem 
vai querer que eu faa? Pensou, ento, naquilo que era mais difcil em sua vida, e a resposta foi quase instantnea.
     Broud! Broud  o meu teste, disse, gesticulando. Que coisa poderia ser mais difcil do que ter Broud pela frente um inverno inteiro? Mas se eu for digna, vou 
conseguir, e meu totem me deixar caar.
     Ao entrar na caverna, havia qualquer coisa diferente no andar de Ayla que logo foi observado por Iza, embora a curandeira no soubesse definir exatamente o 
que fosse. Nada de imprprio apenas Ayla parecia mais  vontade, menos tensa e com um ar de aceitao que viu no seu rosto, quando Broud se aproximou. No era de 
resignao, ela parecia, antes, cordata. Foi Creb, no entanto, que reparou no maior volume do amuleto da garota.
     Quando o inverno chegou de fato, ele e Iza ficaram felizes por v-la voltar ao normal, a despeito de todas as exigncias de Broud. Ayla estava quase sempre 
cansada, mas brincava com Uba, e os sorrisos e at mesmo os risos haviam voltado. Creb imaginava que ela tivesse tomado alguma deciso e que encontrara um aviso 
do seu totem. Foi com alvio que ele a viu aceitando melhor sua vida no cl. Estava a par da luta que Ayla travava dentro de si, mas achava necessrio Broud dobr-la 
 vontade dele. Era preciso que a garota deixasse de resistir. Tambm ela tinha de aprender a controlar-se.Durante o inverno que marcou seu oitavo aniversrio, Ayla 
se transformou em mulher. No fisicamente. Seu corpo ainda continuava reto, com as formas prprias de uma menina e ainda sem aparentar nenhum vestgio das mudanas 
que estavam por vir. Mas foi durante essa ocasio que Ayla abandonou definitivamente sua fase infantil.
     Algumas vezes, a vida lhe parecia to insuportvel que pensava se no seria melhor interromp-la. Certas manhs, quando abria os olhos, dando com os contornos 
familiares da rocha nua sobre sua cabea, desejava voltar a dormir e nunca mais acordar. Quando, porm, achava que no iria aguentar mais, apertava o amuleto e a 
sensao do volume da pedra dava-lhe, de certo modo, pacincia para enfrentar mais outro dia. E cada dia vivido trazia-a para mais perto do tempo em que as neves 
altas no cho e as rajadas geladas seriam trocadas por relvados verdes e brisas marinhas, quando ela, novamente em liberdade,poderia vagar pelos campos e florestas.
     Tal como o rinoceronte lanoso, cujo esprito era o seu totem, Broud podia ser to teimoso quanto de uma maldade imprevisvel. A teimosia, por sinal, era um 
trao da raa; uma vez estabelecido determinado curso de ao, persistia-se neste da forma mais obstinada possvel e Broud estava inteiramente dedicado a manter 
Ayla na linha. A provao diria dela - cascudos, imprecaes, socos e constantes hostilidades - era claramente sentida por todos no cl. Muitos eram de opinio 
de que ela realmente estava precisando ser disciplinada e merecendo levar alguns castigos, mas poucos estavam de acordo com os extremos a que o rapaz chegara.
     Brun continuava ainda preocupado com o fato de Broud ter permitido Ayla provoc-lo demasiadamente, mas j que o rapaz vinha conseguindo controlar seus ataques 
de fria, considerava isso como j sendo um bom indicio de progresso. Esperava s que ele moderasse mais a maneira de tratar do assunto e, nesse meio tempo, achou 
que o melhor seria dar livre curso  situao.  medida que o inverno avanava, mesmo contra a vontade,viu-se respeitando cada vez mais a estranha menina; era o 
mesmo tipo de respeito que sentia por sua germana, ao tempo que Iza se sujeitava com resignao s surras que o companheiro lhe dava.
     Tal como Iza, Ayla estava dando um belo exemplo de comportamento feminino. Aguentava tudo sem queixas, como uma mulher devia sempre fazer. Quando, s vezes, 
ela parava por instantes para segurar em seu amuleto, Brun e os outros viam nisso um gesto reverente s foras espirituais, to importantes s suas vidas. Isso s 
fazia engrandec-la como mulher.
     O amuleto deu-lhe alguma coisa em que acreditar. Ela reverenciava as foras espirituais  maneira como as entendia. Seu totem a estava testando. Se provasse 
ser digna, poderia caar. Quanto mais Broud a atormentava, maior era sua determinao de aprender a caar quando chegasse a primavera. Seria melhor do que Broud, 
melhor ainda do que Zoug. O melhor caador com funda de todo o cl, mesmo que ningum ficasse sabendo a no ser ela. Este era o pensamento a que se agarrava e que 
se petrificara em sua mente, tal como as imensas agulhas de gelo que se formavam ao alto da entrada da caverna, onde o ar quente das fogueiras subia para encontrar 
as temperaturas geladas do exterior, e ali permanecendo como uma pesada cortina transideida durante todo o inverno.
     Sem o saber, j estava se exercitando. Apesar de que isso a pusesse em maior contato com Broud, seu interesse por caadas a arrastava para junto dos homens, 
quando os via sentados passando longas horas revivendo antigas caadas ou fazendo planos para futuras. Sempre dava um jeito de ficar por perto trabalhando, principalmente 
quando percebia ser Dorv ou Zoug que estavam contando histrias de seus feitos com fundas. Ressuscitou seu antigo interesse por Zoug e procurava satisfazer seus 
desejos, acabando por criar uma sincera afeio pelo velho caador. De certo modo, ele lhe lembrava Creb: orgulhoso, srio, sentindo-se feliz com aquela ateno 
e carinho, ainda que viesse da parte de uma estranha e feia menina.
     Zoug no deixava de perceber o interesse dela por suas passadas glrias, ao tempo em que era o segundo em comando, tal como Grod agora. Tinha nela uma ouvinte 
atenta, silenciosa, sempre mantendo uma atitude de respeito, e discreta. Muitas vezes, Zoug catava Vorn para explicar-lhe alguma tcnica de pegar os rastros de animais 
ou expor seus conhecimentos de caa, sabendo que, podendo, a menina viria sentar-se por perto, mas ele fingia no perceb-la. Se Ayla tinha prazer com suas histrias, 
que mal poderia haver nisso?
     Se fosse mais jovem, pensava Zoug, e ainda pudesse sustentar algum, eu tomaria a menina como companheira, quando ela ficasse mulher. Algum dia vai precisar 
de um homem e, feia como , vai ter certa dificuldade para arranjar algum. Mas  jovem, forte e respeitadora. Tenho parentes em outros cls e, se ainda tiver foras 
para comparecer  prxima reunio, vou falar por ela. No deve querer ficar aqui, quando Broud for o chefe, 
     No que tenha importncia o fato de ela querer ou No, mas nisso eu lhe dou razo. S espero j ter ido para o outro mundo, quando tal suceder. Ele nunca se 
esquecera da agresso de Broud e No gostava nada do filho da companheira de Brun. Achava que o rapaz era estpido com a menina por quem criara bastante amizade. 
 certo que ela precisava ser disciplinada, mas tudo tem limites, e Broud fora muito alm destes. Com Zoug, a garota jamais faltara com o respeito e era obrigao 
de um homem, mais velho e experimentado, saber como lidar com mulheres. Sim, vou falar por ela. Se na puder ir, envio uma mensagem. Mas, se ao menos ela No fosse 
to feia.
     Por mais difcil que fosse para Ayla, nem tudo se mostrava to ruim. A lida diria transcorria com mais calma, sem muitos servios domsticos. At mesmo Broud, 
depois de tudo arrumado, No encontrava muita coisa para poder dar suas ordens. Com o tempo, ele foi se cansando, j No havia o menor desafio nela, de modo que 
suas hostilidades diminuram um pouco. Uma outra coisa tambm veio contribuir para que a vida de Ayla, naquele inverno, no fosse to insuportvel.
     No princpio, tentando achar razes vlidas para conservar Ayla dentro dos limites da fogueira de Creb, Iza resolveu trein-la no preparo e uso das ervas e 
plantas que tinham sido colhidas. Ayla estava fascinada com a arte de curar. Com tanto interesse demonstrado, Iza passou a dar-lhe aulas regularmente, inclusive 
achando - depois que percebeu o quanto era diferente a maneira da cabea de sua filha adotiva funcionar - que deveria ter comeado h mais tempo as lies.
     Se Ayla fosse sua filha de verdade, iza teria apenas de faz-la recordar daquilo que estava armazenado em seu crebro, de modo a acostum-la a fazer uso de 
um conhecimento que j possua. Como No era, Ayla tinha de esforar-se para memorizar coisas que, em Uba, eram inatas. Iza precisava exercitar Ayla, repassar muitas 
vezes a mesma matria e estar constantemente pondo-a  prova para ver se havia realmente aprendido direito. Iza extraa informaes tanto da memria com que nascera, 
como de sua experincia, e ela prpria se via surpreendida com o volume de conhecimentos que possua. Nunca pensara sobre isso antes, simplesmente o conhecimento 
estava ali, pronto para quando ela precisasse. Havia momentos em que Iza se desesperava, achando que jamais iria conseguir ensinar Ayla o que sabia ou fazer dela 
uma boa curandeira. A garota, no entanto, nunca esmorecia, e Iza estava firme no seu intento de assegurar uma posio no cl para sua filha adotiva. As lies prosseguiam 
diariamente.
     - O que  bom para queimaduras, Ayla?
     - Deixe-me pensar. Flores de hissopos misturadas com flores de virga ureas e pinhas. Pe-se para secar e se mistura o p em partes iguais. Faz-se ento um 
curativo com o p umedecido. Quando estiver seco, torna-se a jogar gua fria por cima do cataplasma - respondeu sem pestanejar. Em seguida, fez uma pausa, pensando. 
- Tambm  bom, folhas e flores de hortel-da gua. Molham-se as duas e se pe diariamente sobre a queimadura. A loo feita de capim tambm serve para queimaduras.
     - Muito bem, tem mais alguma coisa para dizer?
     Ayla procurava lembrar-se.
     - Hissopos gigantes tambm. Esmigalham-Se as folhas e os talos frescos para fazer cataplasmas ou ento as folhas secas umedecidas. E... ah sim, as flores amarelas 
do cardo. Elas so fervidas, deixa-se esfriar e se usa como loo.
     - Isso  bom tambm para feridas na pele, Ayla. E no se esquea de que cinzas de cavalinha misturadas com gordura da um bom unguento para queimaduras.
     Tambm sob a direo de Iza, Ayla comeou a aprender a cozinhar. Logo assumiu o encargo do preparo de quase todos os alimentos de Creb. A garota tinha o maior 
trabalho em moer bem fino tudo que fosse semente antes de botar para cozinhar para que ele, com seus dentes estragados, No tivesse muita dificuldade de engolir. 
At as nozes lhe eram servidas esmigalhadas. Iza ensinou-lhe tambm como preparar seus remdios de tirar dor e os cataplasmas para aliviar o reumatismo. Ayla tornou-se 
especialista nos medicamentos desse mal que atacava as pessoas mais velhas do cl, cujo sofrimento sempre aumentava muito quando eles se viam confinados entre as 
frias paredes de pedra da caverna. Naquele inverno, a garota se tornou a assistente da curandeira e seu primeiro paciente foi Creb.O inverno ia pela metade. A neve 
subia alguns metros de altura  entrada da caverna, fazendo uma barreira isolante que ajudava a manter o calor provindo das fogueiras no interior, mas as ventanias 
continuavam assoviando atravs do espao deixado entre o teto e o monte de neve. Creb estava de uma rabugice fora do comum, ora silencioso, ora resmungando mal-humorado, 
de pois arrependido novamente, pedindo desculpas e pondo-se de novo em silncio. Seu humor desconcertava Ayla, mas Iza imaginava saber a causa. Era uma dor de dente 
particularmente dolorosa.
     - Creb, voc No quer que eu d s uma olhada em seu dente? - perguntava Iza.
     - No  nada. Apenas uma dor de dente incomodando um pouco. Voc acha que No consigo aguentar uma dorzinha? Pensa que nunca senti dor antes, mulher? - respondeu 
ele, com impertinncia.
     - Sim, Creb - falou Iza, de cabea baixa.
     Imediatamente, ele se mostrou arrependido.
     - Iza, sei que voc est s querendo ajudar.
     - Se voc me deixasse dar uma olhada, talvez eu lhe pudesse dar alguma coisa. Como posso saber o que receitar, se voc No me deixa olhar?
     - O que h a para olhar? - gesticulou ele. - Um dente doente  igual a todos os outros. A nica coisa que quero  que me faa um ch de casca de salgueiro 
- rosnou o feiticeiro, indo em seguida sentar-se em sua pele de dormir, ficando a olhar para o vazio.
     Iza abanou a cabea e foi preparar o ch.
     - Mulher! - gritou Creb, poucos instantes depois. - Onde est esse ch? Por que est demorando tanto? Como posso meditar? No consigo me concentrar - falou, 
com impacincia.
     Iza apressava-se com uma cuia de osso, fazendo sinal a Ayla para que a acompanhasse.
     - J estou indo, Creb, mas No acredito que ch de salgueiro v adiantar muito. Deixe pelo menos que eu d uma olhada.
     - Est bom, est bom, Iza. D essa olhada de uma vez. - Abriu a boca, apontando para o dente que doa.
     - Voc v, Ayla, como esse buraco preto no dente vai l no fundo? A gengiva est inchada, o dente est completamente estragado. Acho que vai ter de ser arrancado, 
Creb.
     - Arrancado! Voc me disse que queria s dar uma olhada para poder receitar alguma coisa. Voc No tinha falado de tirar dente. Bom, me d qualquer coisa para 
melhorar isso, mulher!
     - Sim, Creb, aqui est seu ch de salgueiro.
     Ayla observava, surpresa, a mudana.
     - Pensei que voc disse que ch de salgueiro No ia adiantar muito.
     - Nada vai adiantar muito. Posso dar um pedao de raz de capim-limo para ele mastigar, talvez melhore um pouco, mas duvido.
     - Ah, curandeiras, que nem curar uma dor de dente sabem! - resmungou Creb.
     - Posso tentar extrair a dor - falou Iza, com toda a naturalidade.
     - Vou mastigar as razes - disse Creb, retraindo o corpo.
     No dia seguinte, aquela cara com uma horrvel cicatriz e um olho vazado amanheceu inchada, conseguindo ter um aspecto ainda mais pavoroso. Ele no dormira e 
o olho estava vermelho.
     - Iza - gemeu - faa algo para parar essa dor.
     - Se voc tivesse deixado eu extrair o dente ontem, hoje j estaria sem dor - respondeu ela, voltando logo a mexer as sementes que torrava numa panela, observando 
o espoucar fazendo os caractersticos rudos de poc, poc.
     - Mulher! Ser que voc no tem corao? No dormi a noite inteira!
     - Eu sei, Creb, voc me deixou acordada o tempo todo.
     - Bem, faa alguma coisa! - explodiu.
     - Vou fazer, Creb. Mas agora s vou poder extrair depois que desaparecer a inchao.
     - Ser que s sabe pensar nisso? Extrair dente?
     - Posso experimentar outra coisa, mas No acredito que v salvar o dente - gesticulou ela, com ar compreensivo. - Ayla, traga aquele pacote com as lascas chamuscadas 
da rvore que foi apanhada por um raio no vero passado. Vamos ter de furar a gengiva para diminuir a inchao antes de arrancar o dente. E vamos ver tambm se acabamos 
com essa dor de uma vez.
     Creb tremia ouvindo as instrues dadas a Ayla. Depois, encolheu os ombros, afinal no podia ser muito pior do que a dor que estava sentindo, pensou ele.
     Iza separou as lascas e escolheu duas.
     - Ayla, quero que voc esquente a ponta dessa aqui, at que fique como carvo mas no muito. Tem de ficar dura o suficiente para no partir. Pegue uma brasa 
na fogueira e segure a lasca junto do fogo at a madeira comear a soltar fumaa. Mas antes quero que voc veja como se fura a gengiva. Se gure para mim os lbios 
dele para trs.
     Ayla fazia como Iza lhe mandava, olhando dentro da boca escancarada de Creb as duas fileiras de dento podres.
     - Com a ponta bem fina de uma lasca, ns furamos a gengiva embaixo do dente, at comear a sangrar - disse, antes de demonstrar praticamente.
     Creb tinha sua mo fechada com fora, mas No emitia nenhum som.
     - Agora, enquanto o sangue fica saindo, pegue a outra lasca quente.
     Ayla correu  fogueira, voltando imediatamente com uma brasa viva encostada na ponta carbonizada da lasca. Iza pegou, examinando-a com ateno Fez que sim com 
a cabea e gesticulou dando ordens a Ayla para que tornasse a segurar os lbios dele para trs. Inseriu, ento a ponta quente na cavidade do dente. Ayla sentiu Creb 
dar uma sacudidela, ouvindo um leve chiado, ao mesmo tempo em que saa um filete de fumaa do enorme buraco no dente.
     - Pronto. Agora vamos esperar para ver se a dor vai passar. Se no, o dente vai ter de ser arrancado - disse Iza, depois de esfregar na gengiva de Creb uma 
mistura de p de gernio com p de nardo. - Pena que eu no tenha nenhum daqueles cogumelos to bons para dor de dente. O nervo fica adormecido e quase sempre  
posto para fora. Nesse caso, eu no iria precisar arrancar o dente. Frescos so melhores, mas seco tambm funcionam. Devem ser colhidos no fim do vero. Se encontrar 
algum no ano que vem, vou mostrar para voc, Ayla.
     No dia seguinte, iza perguntou:
     - Seu dente ainda est doendo, Creb?
     - Est melhor, Iza - respondeu ele, esperanoso.
     - Mas ainda di? Se a dor no passou completamente vai inchar outra vez - insistiu Iza.
     - Bem... sim, ainda di - admitiu. - Mas no muito. Realmente no  muito mesmo. Por que no esperar mais um ou dois dias? Estou usando uma frmula mgica poderosssima. 
Tenho pedido a Ursus para destruir o mau esprito que est provocando a dor.
     - Mas voc j no pediu muitas vezes a Ursus para livr-lo dessa dor? Acho que Ursus quer que voc sacrifique seu dente, para depois ele fazer parar a dor, 
Mog-ur - falou Iza.
     - O que voc entende do Grande Ursus, mulher? - disse Creb, irritado.
     - Esta mulher foi presunosa. Esta mulher nada sabe dos caminhos usados pelos espritos - respondeu Iza, com a cabea baixa. Depois, olhando para o germano, 
falou: - Mas uma curandeira entende a dor de dente. A dor no vai sumir enquanto o dente no for extrado disse com firmeza, gesticulando.
     Creb deu as costas e saiu capengando. Sentou-se na pele de dormir com os olhos cerrados.
     - Iza? - chamou ele, depois de alguns minutos.
     - O que , Creb?
     - Voc tem razo Ursus quer que eu me livre do dente. V em frente, acabe logo com isso.
     - Pegue isso, Creb. Beba - disse Iza, encaminhando-se para ele. - Faz com que no doa tanto. Ayla, h um pequeno pino perto do pacote de lascas e um rolo comprido 
de barbante. Traga aqui.
     - Como  que voc sabia que j devia ter a bebida preparada? - perguntou Creb.
     - Eu sei, Mog-ur, que  muito difcil sacrificar um dente, mas se Ursus assim o deseja, sei que o Mog-ur o atender. Esse no  o sacrifcio mais difcil que 
o Mog-ur j fez em inteno de Ursus. Sei que  muito duro viver com um totem poderoso, mas Ursus No o teria escolhido, se voc no fosse digno dele.
     Creb fez que sim com a cabea e tomou a bebida.  feito da mesma planta que uso para incentivar as memrias nos homens, pensou. Mas acho que vi Iza botando 
gua para ferver, ela cozinha as plantas ao invs de fazer uma infuso. Fica mais forte, quando so apenas maceradas. A datura tem muitos usos, deve ser uma planta 
dada por Ursus. J comeava a sentir os efeitos do narctico.
     Iza disse a Ayla para manter a boca do feiticeiro aberta, enquanto, cui dadosamente, com o pino abalava os alicerces do dente dolorido. Creb teve um sobressalto, 
mas no doeu tanto quanto havia imaginado. Em seguida, Iza amarrou em volta do dente amolecido o barbante e mandou que Ayla atasse a outra ponta num pau fincado 
no cho o qual pertencia ao engradado onde se penduravam plantas para secar.
     - Ayla, ponha a cabea dele para trs, at que o cordo fique bem esticado. - Com um s movimento rpido e brusco, ela puxou o barbante. - Aqui est - disse, 
retirando o cordo com um enorme molar pendurado. Borrifou, ento, o buraco sangrando com raiz de gernio, passando depois um blsamo, preparado com cascas de eucalipto 
e outras variedades de folhas secas. Por fim, enrolou o rosto dele com uma faixa de couro mida.
     - Tome o seu dente, Mog-ur - falou Iza, botando o molar cariado na mo de Creb. Este ainda estava inteiramente aturdido. - Terminou.
     Ele pegou o dente, mas, ao se deitar, deixou-o cair.
     -  para ser dado a Ursus - murmurou, embriagado.
     O cl depois de Ayla ter ajudado a curandeira na cirurgia dentria de Creb, ps-se de vigia para saber como ele ia passando. Quando viram que melhorava, sem 
qualquer complicao, passaram a convencer-se de que a menina no afugentava os bons espritos. Isso veio predisp-los a favor de Ayla, quando esta aparecia com 
Iza para ajud-los em suas doenas.  medida que o inverno progredia, Ayla foi aprendendo a tratar de queimaduras, machucados, feridas, gripes, infeces de garganta, 
problemas de estmago, dores de ouvido e diversos outros tipos de molstias e machucados sem gravidade, que surgiam no curso normal da vida.Com o tempo, para pequenos 
problemas de sade, passaram a recorrer a Ayla com a mesma facilidade que buscavam Iza. Sabiam que a menina coletava plantas e viam Iza ensinando-a.        Afinal, 
Iza estava envelhecendo, no se achava bem de sade e Uba ainda era muito criana. O cl comeava a acostumar-se com a presena daquela estranha menina em seu meio 
e a aceitar a idia de que algum dos Outros pudesse algum dia tornar-se a curandeira do cl.
     Foi durante a poca mais fria do ano, depois do solstcio de inverno e antes das primeiras chuvas da primavera que Ovra entrou em trabalho de parto.
     - Ainda est muito cedo - falou Iza para Ayla. - O beb s deveria nascer na primavera. De uns tempos para c, ela no sente nenhum movimento na barriga. Estou 
com medo de que o parto no corra bem e de que o beb tenha morrido.
     - Ovra queria tanto esse filho, Iza. Ficou to feliz quando soube que estava grvida. Ser que voc No pode fazer nada? - perguntou Ayla.
     - Bem, a gente vai fazer o que puder, mas h coisas que esto fora do nosso alcance.
     O cl inteiro estava preocupado com o trabalho de parto prematuro da companheira de Goov. As mulheres tentavam levar seu apoio moral, enquanto os homens, nervosos, 
esperavam rondando por perto. O cl havia perdido muitos de seus membros durante o terremoto, de modo que todo nascimento era aguardado com ansiedade. Crianas significavam 
mais bocas para os caadores de Brun e mais trabalho para as mulheres; por outro lado, depois de crescidas, seriam elas quem os sustentariam em suas velhices. A 
continuao e sobrevivncia do cl estava na dependncia da sobrevivncia individual. Eles precisavam uns dos outros e estavam realmente tristes com o fato de que 
o beb de Ovra pudesse nascer morto.
     Goov estava mais preocupado com sua companheira do que com a criana e desejava poder fazer alguma coisa. No gostava de v-la sofrendo, especialmente quando 
eram poucas as chances de um desenlace feliz. Ovra desejava muito aquele beb, sentia-se inferiorizada em ser a nica mulher no cl sem filhos. At mesmo a curandeira, 
com toda a sua idade, dera  luz. Ovra ficara exultante quando soube estar grvida e Goov gostaria de poder pensar em alguma coisa que a consolasse de sua possvel 
perda.
     Droog parecia compreender o rapaz melhor do que ningum. Ele tambm j se sentira de forma parecida em relao  me de Goov, se bem que essa teve a felicidade 
de ter tido um filho. No entanto, era obrigado a admitir que, depois que se acostumou, estava tendo grande prazer com a sua nova familia. Esperava, inclusive, que 
Vorn passasse a se interessar por ferramentas, e quanto a Ona, era a alegria de sua vida, sobretudo agora que deixara de mamar e comeava, ao jeito das crianas, 
a imitar os adultos. Droog nunca tivera uma menina em sua fogueira e Ona era to beb, quando ele tomou Aga para companheira, que a garotinha era como se tivesse 
nascido em sua casa.
     Ebra e Ika, solidrias, achavam-se sentadas ao lado de Ovra, enquanto iza preparava os medicamentos. Ika tambm queria muito aquele beb e se gurava, ansiosa, 
a mo da filha, sofrendo com as contraes. Oga sara para preparar a refeio da noite que iria servir a Brun, Grod e Broud. Goov foi convidado; e lka se ofereceu 
para ajudar, mas, como Goov no aceitou, Oga disse no haver necessidade. Faria tudo sozinha. Goov estava sem fome e foi fazer uma visita  fogueira de Droog, onde 
Aba o convenceu a engolir algo.Oga estava distrada, preocupada com Ovra, e lamentando no ter acei to o oferecimento de Ika. Ela no soube como aconteceu, s viu 
que tropeara enquanto servia sopa quente aos homens e que deixara o caldo fervendo cair no ombro e no brao de Brun.
     - Aiii! - gritou Brun ao sentir o lquido escaldando escorrer sobre ele. Ps-se a dar saltos ao redor, cerrando firme a boca para no gritar de dor. Com a respirao 
suspensa, todas as cabeas se viraram em sua direo O si lncio foi quebrado por Broud.- Oga! Sua estpida desajeitada! - disse gesticulando muito, tentando disfarar 
seu embarao por ter sido sua companheira a responsvel pelo acidente.
     - Ayla, v atender. No posso sair agora - disse Iza, por meio de sinais.
     Broud avanou para Oga com os punhos cerrados, prontos para bater.
     - No Broud - falou Brun estendendo o brao, impedindo-o. Agordura da sopa ainda se colava em sua pele e ele se esforava para No demonstrar dor. - Foi sem 
querer. Bater no vai adiantar nada.
     Oga encolhia-se enroscada aos ps de Broud, tremendo de medo e vergonha.
     Ayla estava apreensiva. Nunca tratara do chefe do cl e tinha um medo dele fora do comum. Correu  fogueira de Creb para pegar uma bacia de madeira. De l, 
dirigiu-se  entrada da caverna, onde apanhou uma poro de neve, indo depois para a fogueira de Brun e se pondo de joelhos na frente dele.
     - Iza me mandou. Ela no pode largar Ovra agora. Permitiria o chefe que esta menina cuidasse dele? - perguntou, depois de Brun ter tomado conhecimento de sua 
presena.
     Brun acedeu com a cabea. Ayla, como curandeira do cl, era algo que ele ainda no acreditava muito, mas, dadas as circunstncias, no lhe restava senso aceitar. 
Nervosa, ela ps a neve sobre o local queimado. Estava vermelho e inflamado. A neve aliviou a dor e ela sentiu que os nervos tensos de Brun comearam a relaxar um 
pouco. Voltou  fogueira de Creb onde despejou gua fervendo sobre folhas secas de hortel-dgua. 
     Depois de bem embebidas, jogou na vasilha um pouco de neve para esfriar rpido e retornou a seu paciente. Com a mo aplicou-lhe a loo calmante, enquanto percebia 
a tenso ir deixando aquele musculoso corpo, que parecia talhado em pedra. Brun j respirava com mais facilidade. A queimadura ainda doa, mas j estava mais suportvel. 
Ele fez um sinal aprovando e a menina se ps um pouco mais  vontade.
     Parece que est aprendendo as mgicas de Iza, pensou Brun. E tambm est aprendendo a se comportar como uma mulher deve faz-lo. Talvez o que lhe estivesse 
faltando era s um pouco de maturidade. Se acontecesse qualquer coisa a Iza antes de Uba crescer, ns estaramos sem curandeira. Acho que Iza acertou em querer treinar 
a garota.
     No muito depois, Ebra chegou para anunciar a seu companheiro que o filho de Ovra havia nascido morto. Brun olhou na sua direo dando a entender que compreendera 
e depois abanou, pesaroso, a cabea. Logo um menino, pensou. Ela deve estar com o corao partido, todos sabem o quanto desejava este filho. Tomara que no tenha 
muita dificuldade para engravidar outra vez. Quem diria que um totem de castor fosse lutar tanto? Apesar de estar com muita pena de Ovra, Brun nada comentou, pois 
ningum deveria mencionar a tragdia. Ovra, porm, entendeu o motivo que levou Brun  fogueira de Goov, alguns dias depois, para dizer-lhe que tirasse o tempo que 
quisesse para se recuperar de sua doena. Embora Brun fosse muito visitado em sua fogueira pelos homens, ele quase nunca aparecia na dos outros e, se fosse, dificilmente 
se dirigia s mulheres. Ovra ficou-lhe agradecida pela demonstrao de apreo, mas no havia nada que pudesse aliviar sua dor.
     Iza insistiu para que Ayla continuasse a tratar de Brun e, depois que a queimadura sarou, o cl passou a aceitar Ayla ainda mais. Ela, por sua vez, comeou 
a sentir-se mais  vontade na presena do chefe. Afinal, ele era um homem como qualquer outro.
     

***

Captulo 12

     Quando o longo inverno terminou, o ritmo de vida do cl se acelerou, de modo a se pr de acordo com a velocidade do despertar da vida naquele mundo de terra
generosa. O tempo frio no s forava uma verdadeira hibernao como tambm alterava o regime metablico das pessoas devido  reduo de actividades. No inverno,
ficavam mais preguiosas, dormiam e comiam mais, criando uma camada protetora de gordura subcutnea para que pudessem resistir melhor ao frio. Com a subida da temperatura 
a tendncia se invertia: o cl se mostrava irrequieto, ansioso para estar ao ar livre, em grande actividade.A mudana nos hbitos exigia os cuidados mdicos de Iza 
que ministrava a todos - desde as crianas aos velhos - seu tnico de primavera um composto de folhas secas de sprula, p de labaa (uma raz rica em ferro) e outra 
raz que colhia logo no incio da primavera, parecida com a do centeio. Com o vigor renovado. o cl irrompia para fora da caverna, pronto para dar partida a um novo 
ciclo de estaes.
     O terceiro inverno na caverna no chegou a ser muito penoso. A nica morte ocorrida foi a do filho de Ovra e, assim mesmo, esta no contava, pois a criana 
no chegou a receber nome e nem foi reconhecida oficialmente. Iza, ento livre da obrigao de amamentar um beb guloso, igualmente resistiu bem ao inverno. Creb 
no passou pior do que o costume. 
     Tanto Aga como Uka estavam novamente grvidas e, pelo fato de as duas terem sido bem-sucedidas em seus partos anteriores, o cl via esperanoso esse aumento 
no nmero de seus membros. Os primeiros legumes, rebentos e brotos estavam sendo colhidos, e se projetava a primeira grande caada da estao, aquela que os abasteceria 
de carne fresca para a festa da primavera em honra aos espritos que despertavam a vida na natureza e tambm para dar graas a seus totens protetores por t-los 
amparado em mais um inverno.
     Ayla se sentia como se tivesse motivos especiais para agradecer a seu totem. O inverno fora penoso, mas emocionante. Seu dio por Broud era ainda at maior, 
mas havia aprendido a lidar com o rapaz. Ainda que ele fizesse o pior, ela suportava tudo com calma e resignao. Havia um limite que nem mesmo Broud conseguia transpor. 
Para isso, contribuiu tambm o interesse da menina pela medicina de lia. A garota adorava suas lies. Quanto mais aprendia, maior era sua vontade de saber. Estava 
ansiosa para sair em busca de plantas medicinais, agora que tinha uma melhor compreenso de seus usos e tambm porque esse era um meio de poder escapar e estar sozinha. 
Enquanto sopravam os ventos cortantes e caam as pesadas nevascas, Ayla esperou pacientemente, mas, aos primeiros indcios de mudana, ela comeou a se sentir inquieta, 
em estado de expectativa. Aguardava aquela primavera como nunca at ento esperara por uma outra. Estava na ocasio de aprender a caar.
     To logo o tempo permitiu, a garota comeou a escapar para os campos e florestas. J no mantinha mais a funda escondida na pequena gruta, perto do seu campo 
de treinamento. Trazia-a com ela, metida numa dobra de roupa, ou em sua cesta de colher, debaixo das camadas de folhas. Aprender a caar por si, sem ningum para 
orient-la, no foi tarefa fcil. Os animais eram esquivos e velozes e os alvos em movimento muito mais difceis de ser atingidos. Quando colhiam, as mulheres sempre 
faziam barulho para espantar bichos que poderiam estar  espreita e esse era um hbito difcil de romper. Muitas vezes, Ayla, ao dar com uma corrida rpida que se 
ia camuflar numa moita, via-se furiosa consigo, pois alertara o animal de sua presena. Mas estava no firme propsito de aprender, e a prtica iria ensin-la.
     Atravs de tentativas e erros foi comeando a aprender a pegar o rastro de animais e tambm a entender e aplicar tcnicas de caar que conseguira filtrar dos 
bocados das conversas ouvidas dos homens. Seus olhos j estavam treinados em plantas, aguados na percepo de pequenos detalhes que diferenciavam um vegetal do 
outro. Agora, era s uma questo de estender esse conhecimento aos animais, de saber como interpretar o excremento denunciador de um bicho, uma leve marca deixada 
no terreno, alguma haste tombada mais para um lado ou um pequeno galho partido. Ayla aprendeu a diferenciar os diversos rastros de animais, tornando-se uma boa conhecedora 
de seus hbitos e habitats. Apesar de no desprezar as espcies herbvoras, seu interesse estava principalmente concentrado nos carnvoros, e estes se constituam 
na sua caa por excelncia.
     Observava sempre que direo os homens tomavam quando saam para caar. No entanto, no era Brun com os seus caadores que a preocupava. Quase sempre estes 
escolhiam as estepes como o terreno de suas caadas e ela nem de longe pensava em querer caar nas plancies, onde estaria a descoberto. Era dos dois velhos do cl 
que tinha mais medo. J havia acontecido algumas vezes de dar com Zoug e Dorv, durante as suas coletas de plantas para Iza, e seriam eles os que mais probabilidade 
a garota tinha de encontrar caando em seu terreno. Precisava estar alerta para poder evit-los. Mesmo tomando direo oposta  deles no significava estar a salvo, 
haveria sempre a possibilidade de os dois mudarem de rumo e surpreend-la com a funda na mo.
     Depois que pde locomover-Se silenciosamente, ela algumas vezes os se guia para observar e aprender. Nessas ocasies, usava de extrema cautela. Era mais perigoso 
ir no rastro deles do que seguir a trilha dos bichos que caavam. Mas era um bom treino e, nessas perseguies - fosse perseguindo o rastro de homem, fosse o de 
animal - ela acabou aprendendo a mover-se sem fazer rudo e a fundir-Se com a sombra, quando acontecia de os dois olharem em sua direo.
     Quando se tornou perita em pegar rastros. aprendeu a mover-se fortuita mente e a ter os olhos educados, capazes de distinguir uma forma dentro de um bem camuflado 
esconderijo; houve muitas ocasies em que tinha certeza de que poderia atingir um pequeno animal. Sentia-se tentada, mas como no era carnvoro, deixava passar. 
Sua deciso de caar referia-Se apenas aos predadores e somente para estes tinha permisso de seu totem. Os botes se transformaram em flores, as folhagens brotaram, 
as flores caram e vieram os frutos, pendurando-se verdes, ainda pequenos nas rvores, mas Ayla ainda no havia matado seu primeiro animal.
     - Sai X, x! Passa!
     Ayla veio para fora da caverna, querendo saber o porqu do rebulio. Um bando de mulheres agitava os braos tocando para fora um animal pelu do, baixote e atarracado. 
O carcaju ia dirigir-se para a caverna, mas, ao dar com Ayla, soltou um rosnado, mudando de direo. Esquivando por entre as pernas das mulheres, o animal conseguiu 
escapar com um pedao de carne entre os dentes.
     - Miservel de bicho esganado! Eu tinha acabado de botar a carne para secar - gesticulou Oga desolada e furiosa. - Mal tinha virado as costas e l estava ele. 
Este bicho tem rondado por aqui desde o princpio do vero e cada dia que passa est mais bravo. S queria que Zoug acertasse nele! Foi bom que voc tivesse aparecido, 
Ayla, ele estava em tempo de entrar na caverna. Pense s no fedor que ia deixar, se tivesse conseguido meter-se em algum canto l dentro!
     - Acho que ele  ela, Oga, e os filhotes no devem andar muito longe daqui. A esta altura j devem ser uns bichinhoS famintos e bem grandes.
     - S faltava esta! Um bando deles. - Oga falava intercalando os gestos com expresses de raiva. - Zoug e Dorv pegaram Vorn para sair com eles bem cedo esta 
manh. 
     Preferia que, ao invs de trazerem codorna e hamsters para casa, eles pegassem esse carcaju. Esses esganados no servem para nada.
     - Para uma coisa servem, Oga. As peles no deixam que seu bafo congele no inverno. Elas do bons capuzes e gorros para a cabea.
     - Era melhor que esse danado j fosse uma pele.
     Ayla tornou a entrar. No havia nada que pudesse fazer e Iza tinha dito que comeavam a faltar algumas coisas em seu estoque de remdios. A garota estava decidida 
a procurar a toca do carcaju. Sorriu consigo, apressou o passo e pouco depois j estava saindo da caverna com sua cesta e se encaminhando para a floresta, na direo 
em que o animal desaparecera.
     Vasculhando o cho, percebeu a marca de uma pata com garras compridas e afiladas e, um pouco mais adiante, uma planta com o caule vergado. Estava no rastro 
do animal. Passados alguns segundos, ouviu o som de algo cor rendo apressado. Era surpreendentemente perto da caverna. Foi avanando, maciamente, quase sem tirar 
uma folha do lugar e surpreendeu o carcaju e quatro filhotes, j meio crescidos, disputando com muitos rosnados o pedao da carne roubada. Com cuidado, tirou a funda 
de dentro da roupa e ajustou uma pedra na salincia da correia.
     Esperou, aguardando o momento certo para o tiro. Uma mudana na direo do vento levou seu cheiro at o animal que levantou a cabea farejando o ar, j alertado 
para possveis perigos. Era o momento por que Ayla esperava. Rpida, antes que o bicho tivesse tempo de fazer qualquer movimento, ela arremessou a pedra. O carcaju 
tombou no cho, enquanto os filhotes pulavam, assustados pelo ricochete da pedra.
     Ela saiu de trs do arbusto que a encobria e foi examinar o animal de perto. Parecia um urso. Tinha mais ou menos um metro de comprimento, contando do focinho 
 ponta de sua cauda cabeluda e era coberto por um plo duro, longo, de tom marrom escuro. Os carcajus eram animais necrfagos, ousados e agressivos, bastante ferozes 
para afugentar outros predadores maiores do que eles, suficientemente audaciosos para roubar as carnes-secas ou qualquer coisa que desse para carregar com os dentes 
e to matreiros que eram capazes de se meter nos depsitos de comida do cl. Possuam glndulas almiscaradas que deixavam atrs de si um odor parecido com o das 
fuinhas, e para o cl representavam uma praga ainda pior do que as hienas que, embora necrfagas e predadoras, no dependiam das caas dos outros.
     A pedra da funda de Ayla pegou justo acima do olho, no ponto e onde mirara. A est um carcaju que nunca mais nos vai roubar, disse ela consigo, cheia de satisfao, 
quase exultando. Era o primeiro animal que podia considerar como sua primeira caa. Acho que vou dar a pele para Oga, pensou, j pegando a faca para retirar a pele 
do bicho. Ela vai ficar feliz por saber que este nunca mais vai incomodar. De repente, parou.
     Mas o que estou fazendo? Impossvel dar a pele para Oga. No posso d-la para ningum, e nem mesmo guard-la comigo. No sou permitida de caar. Se algum descobrir 
que matei este carcaju, no sei o que podero fazer. Ayla sentou-se ao lado do animal, com os dedos enfiados por dentro da juba espessa e alta. A alegria desaparecera.
     Havia conseguido sua primeira caa, que podia no ser um biso mortopela ponta de uma pesada lana, mas era bem mais do que o porco-espinho de Vorn. Mas no 
haveria nenhuma solenidade para ela, comemoratido sua entrada nas fileiras dos caadores, nenhuma festa em sua honra, nem mesmo os olhares elogiosos e as congratulaes 
que Vorn recebeu, quando orgulhosamente exibiu sua insignificante caa. Se fosse para a caverna levando o carca ju, tudo o que poderia esperar seriam olhares escandalizados 
e um bom castigo. Pouco importava o fato de ela querer ajudar o cl, de ela ter dado provas de ser capaz e de que ali estivesse uma promissora caadora. Mulheres 
No caavam. No matavam animais. S os homens o faziam.Eu sabia, sempre soube durante todo esse tempo, pensou, soltando um suspiro. J sabia antes de comear a 
caar, antes at de ter pegado uma funda. Estava farta de saber que no tinha perniisso para fazer tal coisa. Nisso, o mais valente dos filhotes da carcaju morta 
saiu de seu esconderijo e veio, curioso, farejar o cadver. Todos esses a vo nos dar tanto trabalho quanto a me disse consigo. J esto bem crescidos, pelo menos 
uns dois vo sobreviver.  melhor que eu d um fim a esta carcaa. Se arrast-la para longe, talvez os filhos sigam o faro. Ayla se levantou e comeou a puxar pelo 
rabo o corpo para dentro da mata. Isso feito, ps-se a procurar plantas para colher.
     O carcaju foi apenas o primeiro de uma longa srie de predadores e necrfagos a tombar com as pedras de sua funda. Martas, fures, minks, lontras, doninhas, 
arminhos, texugos, raposas e os pequenos felinos de pele malhada com riscas pretas e cinzentas tornaram-se belos alvos de suas fulminantes pedradas. A deciso de 
apanhar apenas predadores teve, sem que ela o soubesse, consequncias da maior importncia, pois, com isso, ela apressou seu processo de aprendizagem e pde muito 
mais aprimorar sua tcnica do que se tivesse caando animais herbvoros, sempre bem mais dceis e fceis de ser apanhados. Os carnvoros, ao contrrio, eram dotados 
de maior inteligncia, astcia, velocidade, alm de ser ainda muito mais perigosos.
     Rapidamente superou Vorn na funda, a arma que escolhera para ser a sua. No se tratava apenas do fato de o rapaz encarar a funda como coisa prpria de velho 
e de no se empenhar muito para chegar a ter um bom domnio da arma;  que a dificuldade de Vorn era muito maior. Faltava-lhe a constituio fsica de Ayla, cujos 
braos com maior liberdade de movimentos eram mais adaptados a arremessos. A energia de seus impulsos e o aprimoramento da coordenao motora com a viso acabaram 
por lhe dar velocidade, fora e preciso. H muito, j deixara de comparar-se a Vorn. Em seu pensamento, agora era Zoug que desafiava e, rapidamente, aproximava-Se 
da mestria do velho caador, alis, rapidamente, estava ficando extremamente confiante.
     O vero ia chegando ao fim com toda a sua carga de calor e uma super abundncia de colheitas castigadas pelas tempestades. Era um dia de extremo calor, insuportavelmente 
quente. Nem uma leve brisa ventilava a atmosferaparada. A tempestade da noite anterior, com uma fantstica exibio de raios caindo sobre as cristas das montanhas 
e granizos que eram verdadeiras pedras, havia feito o cl correr para dentro da caverna. A floresta, normalmente fria e enevoada, estava mida e abafada. Moscas 
e mosquitos zuniam sem parar junto ao lamaal viscoso dos regatos pelo abaixamento do nvel das guas e transformados em poas estagnadas e charcos cobertos de algas.
     Ayla seguia a pista de uma raposa vermelha. Caminhava silenciosa pela mata, prxima a uma pequena clareira. Tinha calor e suava. No se mostrava particularmente 
interessada na raposa e j pensava em desistir e voltar para tomar um banho no riacho perto da caverna. Depois de cruzar um crrego com seu leito pedregoso  mostra, 
a garota parou para tomar um gole num lugar onde as guas ainda corriam livres entre duas enormes rochas que obrigavam o curso a se desviar para uma poa com gua 
 altura do tornozelo.
     Ao erguer-se e olhar para a frente, sua respirao ficou em suspenso. Acocorado sobre a pedra, bem perto dela, estava um lince. Ela, apreensiva, olhava para 
aquela cabea de forma nica, com suas inconfundveis orelhas projetando-se com dois tufos de plos. O animal, por sua vez, olhava-a desconfiado, batendo o cotoco 
de rabo de l para c.
     Menor do que a maioria dos felinos, o Lynce pardinus, de corpo com prido e pernas curtas, tal como os seus primos que surgiram posteriormente em latitudes mais 
ao norte, eram capazes de saltar distncias superiores a quatro metros. Alimentava-se principalmente de lebres, coelhos, esquilos de porte grande e outras espcies 
de roedores. Se quisesse, porm, podia abater pequenos veados, e uma menina de oito anos estava perfeitamente dentro de seu alcance. Contudo, aquele era um dia quente 
e os humanos no faziam muito o seu gosto. Provavelmente, teria deixado a menina passar, sem opor qualquer resistncia.
     Enquanto encarava o bicho imvel, tambm olhando fixo para ela, a pontada inicial de medo foi-se transformando em alegria e excitao Zoug no dissera a Vorn 
que se podia matar um lince com funda? O caador disse que no se devia pensar em animais grandes, mas falou que uma pedra atirada com funda podia perfeitamente 
matar hienas, lobos e linces. Lembro-me bem que ele falou em lince, dizia consigo. At ento ela ainda no tinha caado nenhum predador de porte mdio, mas sua pretenso 
era a de ser a melhor caadora com funda do cl Se Zoug podia matar um lince, ela tambm podia repetir a mesma faanha, e ali, bem  sua frente, havia um se constituindo 
num perfeito alvo. Num impulso, resolveu que j era tempo de pegar caas maiores.
     Devagar, sem tirar os olhos do animal, meteu a mo dentro da dobra de seu traje de vero, procurando pela maior pedra. As palmas das mos estavam molhadas de 
suor. Ayla pegou nas duas extremidades da correia, juntou-as bem apertadas, ao mesmo tempo que punha a pedra na bolsa. Ento rpido, antes que perdesse a calma, 
mirou entre os olhos e atirou. Mas, ao levantar o brao, o lince percebeu-lhe o movimento e mexeu a cabea no momento preciso em que ela fazia o arremesso. A pedra 
pegou raspando a cabea do animal num dos lados, provocando apenas uma pontada de dor no alvo pretendido.
     Antes que tivesse tempo de pegar outra pedra, viu que os msculos do animal se retesavam. Foi por puro reflexo que se atirou para o lado, no mo mento em que 
o lince, irritado, saltou para dar o bote. Ela foi aterrar na lama perto do crrego, dando com a mo num pesado galho encharcado de gua, que de to batido pelas 
enxurradas ficara limpo das folhas e ramos. Agarrou o pau e o ajeitou na mo no instante mesmo em que o lince, com as presas  mostra, saltava novamente. Brandindo 
o pau s cegas, com toda a fora que o medo lhe dava, acertou o golpe em cheio, pondo o animal meio grogue. Es tonteado, o lince deu umas voltas, agachou-se por 
um momento e sacudiu a cabea. Em seguida, sem fazer rudo, dirigiu-se para a floresta. J tinha tido uma boa dose de pancadas na cabea naquele dia.
     Ayla, ofegante, sentou-se tremendo. Quando se levantou para ir buscar a funda era como se seus joelhos fossem de gua e ela teve de sentar-se outra vez. Zoug 
nunca havia imaginado que algum fosse querer caar um perigoso animal com uma simples funda, sem nenhum outro caador ou arma para garantir. Mas a muito que Ayla 
praticamente acertava todos os seus tiros, e ficara confiante demais, no se dando ao trabalho de pensar no que poderia acontecer, no caso de errar. Estava em tal 
estado de choque que, enquanto caminhava de volta  caverna, quase se esqueceu de apanhar a cesta de colher no lugar em que a escondera, antes de comear a seguir 
o rastro da raposa.
     - Ayla! O que aconteceu com voc? Est toda enlameada! - falou Iza, logo que a viu chegar, notando a palidez mortal do rosto da garota. Alguma coisa deve ter 
assustado essa menina, pensou a mulher.
     Ayla no respondeu. Simplesmente abanou a cabea e entrou na caverna. Iza sentiu que havia algo que a garota No lhe queria dizer. Pensou em pression-la mas 
depois mudou de idia, esperando que Ayla voluntariamente viesse contar. Ela, por seu lado, no estava bem certa se gostaria de saber.
     Incomodava-lhe o fato de Ayla sair sozinha, mas algum tinha de colher suas plantas. Isso era absolutamente necessrio. Ela no podia ir. Uba ainda estava muito 
pequena e nenhuma das outras mulheres sabia o que procurar e nem tinha vontade de aprender. Ela se via forada a deixar Ayla ir, mas, se a menina viesse contar-lhe 
algum incidente ruim, iria ainda ficar mais preocupada.
     Naquela noite, Ayla mostrou-se submssa e foi para cama cedo, mas no conseguiu dormir. Ficou deitada de olhos abertos, pensando no incidente com o lince e, 
na imaginao a cena lhe parecia ainda mais assustadora. S quando j estava para amanhecer  que pde pegar no sono.
     Acordou aos gritos.
     - Ayla, Ayla - ouviu Iza chamando e sacudindo seu corpo com brandura para traz-la de volta  realidade. - O que est acontecendo?
     - Sonhei que estava dentro de uma pequena caverna e que um enorme leo queria me pegar. Mas j est tudo bem, Iza.
     - H muito tempo que voc no tinha desses sonhos ruins. Por que iriam voltar agora? Alguma coisa hoje botou medo em voc?
     Ayla respondeu que sim, baixando a cabea, sem dar outras explicaes. A escurido da caverna iluminada apenas pelo plido brilho das brasas no deixava ver 
sua expresso de culpa. Desde que encontrara o aviso enviado por seu totem que nunca mais se sentira culpada por caar. E agora estava pensando se realmente aquilo 
havia sido um aviso. Talvez ela pensasse que fosse e no era. Talvez no devesse, de forma alguma, caar. Sobretudo, animais perigosos. O que deu nela para achar 
que uma menina poderia caar linces?
     - Nunca gostei da idia de voc sair sozinha, Ayla. Voc sempre fica muito tempo fora. Sei que gosta s vezes de sair sozinha, mas isso me preocupa. No  natural 
que meninas queiram tanto ficar sozinhas. A floresta pode ser um lugar muito perigoso.
     - Voc tem razo iza. A floresta pode ser perigosa -. gesticulou Ayla.
     - Talvez da prxima vez eu leve Uba comigo ou ento  capaz de Ika gostar de ir.
     Iza ficou aliviada, vendo que Ayla parecia levar seus conselhos a srio. Agora, estava sempre por perto da caverna e, quando saa para buscar plantas medicinais, 
algum tempo depois j estava de volta. E se no arrumasse algum para acompanh-la, ficava nervosa. Ayla estava sempre na expectativa de dar com algum animal escondido, 
pronto para saltar. Comeou a compreender por que as mulheres no gostavam de sair sozinhas para colher alimentos e por que a sua nsia de sair desacompanhada causava 
tanto espanto. Quando era menor, no tinha conscincia dos perigos. A maioria das mulheres, pelo menos uma vez, j se tinha sentido ameaada, e apenas um ataque 
foi o sufi ciente para fazer a garota olhar o meio ambiente que a cercava com mais respeito. Mesmo os animais no predadores podiam ser perigosos. Javalis de afiados 
caninos, cavalos de cascos duros, veados de galhadas colossais, bodes e carneiros selvagens com suas chifradas mortais, todos, se provocados, eram capazes de fazer 
srios estragos. Ayla no sabia como ousara pensar em querer caar. Estava com medo de faz-lo novamente.
     No havia ningum com quem pudesse conversar, ningum para lhe dizer que um pouco de medo faz aguar os sentidos, sobretudo quando se est  espreita de caas 
perigosas, e ningum para encoraj-la a sair outra vez, antes que o medo acabasse por inibi-la. Os homens compreendiam o medo. no falavam disso, mas todos, diversas 
vezes em suas vidas, j o haviam conhecido de perto, a comear com a primeira grande caada que os elevara  condio de homens. Animais pequenos eram apenas para 
exerccios, para ganhar destreza com as armas, mas o status de adulto s lhes vinha depois de ter conhecido e superado o medo.
     Para a mulher, o tempo que passava sozinha, sem contar com a proteo do cl, no deixava igualmente de ser uma prova de coragem, embora mais sutil. Sob certos 
aspectos, exigia-se at mais coragem para enfrentar aqueles dias e noites, quando ela se via sozinha, sabendo que, acontecesse o que acontecesse, s contava consigo. 
Desde que nascia, a menina sempre estava rodeada de pessoas protegendo-a. E ela no tinha nem armas para se defender e nem machos bem armados para salv-la durante 
seus ritos de passagem. Tanto meminos como meninas no se transformavam em adultos enquanto no houvessem enfrentado e vencido o medo.
     Durante os primeiros dias, Ayla no tinha a menor vontade de afastar-se das redondezas da caverna, mas, depois de algum tempo, comeou a ficar irrequieta. No 
inverno, no havia outra alternativa, era obrigada, como todos os outros, a aceitar o confinamento, mas, fazendo tempo bom, sentia falta de suas caminhadas em liberdade. 
A ambivalncia a atormentava. Se estivesse sozinha na floresta, longe da segurana do cl, ficava inquieta, apreensiva, e se perto, sentia saudade da solido e do 
sentimento de liberdade que a floresta lhe dava.
     Certa vez em que se achava sozinha, sua coleta de plantas levou-a na direo de seu retiro secreto e ela resolveu subir at a clareira no alto da montanha. 
O lugar tinha o poder de acalm-la. Era o seu mundo particular, com sua caverna e seu prado, e at o pequeno rebanho de cabritos monteses que frequentemente pastava 
por l, sentia-o como seu. Os bichos haviam ficado to dceis que ela quase chegava a tocar neles, antes que, aos pinotes, eles se pusessem fora do alcance. Aquele 
espao aberto lhe dava a sensao de segurana que, agora, faltava  floresta, com os animais perigosamente emboscados. Havia passado o vero inteiro sem voltar 
l e as lembranas tomaram conta de seu pensamento. Fora naquele lugar que aprendera por ela mesma a usar a funda, onde havia alvejado o porco-espinho e onde encontrara 
o aviso de seu totem.
     A funda estava com ela, no ousava deix-la na caverna, onde Iza poderia encontr-la. Depois de algum tempo, catou algumas pedras e deu uns tan tos tiros para 
exercitar-se. Mas isso havia ficado demasiadamente inspido para prender sua ateno por mais tempo. Seu pensamento voltou para o incidente com o lince.
     Se, naquele momento, eu tivesse uma outra pedra, dizia consigo, eu poderia ter acertado nele, logo depois que errei o primeiro tiro. Poderia t-lo apanhado 
antes que ele tivesse chance de saltar. Olhou para as duas pedras que tinha na mo. Se houvesse um jeito de atirar uma depois da outra. - . Mas Zoug no falou qualquer 
coisa assim para Vorn? Ela remexia nas lembranas. Bem, se falou, deve ter sido quando eu no estava perto. Ficou a considerar a idia. Se eu no parasse depois 
do primeiro tiro, talvez pudesse meter uma outra pedra na bolsa durante o movimento de descida e, logo em seguida, voltaria a pegar o impulso para dar o segundo 
tiro. Ser que daria certo?
     Ps-se a fazer algumas tentativas, sentindo-se to desajeitada como no tempo de seus primeiros arremessos. Depois, comeou a desenvolver o ritmo: atirava a 
primeira pedra, fazendo subir rapidamente a funda quando essa abai xava, j com a outra pedra pronta, metida na bolsa com a arma ainda em movimento e dava o segundo 
tiro. As pedras estavam sempre caindo e mesmo de pois que conseguiu lan-las perdera um pouco da pontaria, tanto no primeiro como no segundo tiro. Mas sentiu-se 
satisfeita, vendo que a coisa era possvel. Depois disso, passou a treinar diariamente. Ainda se sentia apreensiva com o fato de caar, mas a nova tcnica representava 
outro desafio que veio renovar seu interesse pela arma.
     Na virada da estao, quando as encostas das montanhas pareciam pegar fogo, sua pontaria era to boa com duas pedras como antes o havia sido com uma. De p, 
no meio do campo, atirando pedras num outro poste que fincara no cho sentia a grata sensao detarefa cumprida, sempre que ouvia o duplo tilintar das duas pedras 
atingindo o maro. Jamais ningum lhe dissera que era impossvel o metralhar de duas pedras com funda, simplesmente porque nunca a coisa fora feita antes, e j que 
ningum lhe tinha contado, ela no podia sab-lo, por isso o fez.
     Num belo dia de final de outono, quase um ano depois de haver tomado sua deciso de caar, Ayla resolveu subir  clareira para colher as avels maduras que 
se espalhavam pelo cho. Enquanto se aproximava do topo, ouvia o cacarejar e os berros fanhosos de uma hiena. Chegando ao terreno da clareira, deu com o hediondo 
animal, meio enterrado nas entranhas sangrando de um velho veado.
     A cena deixou-a louca de raiva. Como ousava aquele bicho infecto em porcalhar sua clareira, atacar seu veado? Ia comear a correr na direo do animal para 
espant-lo, mas pensou melhor. Tambm as hienas eram animais predadores, possuam mandbulas to fortes que eram capazes de partir com os dentes os ossos duros da 
perna de muitos animais de cascos. Alm disso, no largavam muito facilmente suas presas. Ela, rpido, retirou a cesta das costas, pegando a funda ali escondida. 
Enquanto ia na direo de um afloramento perto da pared de pedra, procurava no cho por pedras. O velho veado j estava meio devorado e o movimento dela despertou 
a ateno do bicho com os seus plos desgrenhados e sujos de sangue. Era quase do tamanho do lince. O animal levantou a cabea, farejando o ar, e se virou na direo 
da garota.
     Ayla estava pronta. Depressa, saiu de detrs da rocha e arremessou a pedra, seguida logo de outra. Ela no sabia que a segunda era desnecessria, bastava uma 
para fazer o servio. Em todo caso, era sempre bom estar prevenida. Aprendera bem a lio. J tinha uma terceira pedra ajustada na funda e uma quarta na mo, preparada 
para outra srie de tiros, se fosse necessrio. A enor me hiena caiu no lugar mesmo em que se achava, sem fazer qualquer outro movimento. Ayla olhou em derredor, 
certificando-se de que no havia nenhuma mais por ali. Com cuidado, sempre com a funda na mo, encaminhou-se para o animal. No caminho, pegou a tbia de uma perna 
dianteira, ainda com farrapos de carne sangrando colados ao osso. Segurou-a firme e deu uma pancada para arrebentar o crnio da hiena. Aquela ali nunca mais iria 
levantar.
     Olhou o animal morto a seus ps e deixou cair no cho o porrete. A conscincia do que havia feito foi chegando aos poucos. Matei uma hiena, disse consigo, ainda 
sob o impacto do acontecido. Matei uma hiena com a minha funda, no um animalzinho qualquer, mas uma hiena, um animal que me poderia ter matado. Isso no significa 
que j sou uma caadora? Uma caadora de verdade? No era alegria o que sentia, nem as emoes de uma primeira caada ou a satisfao por ter vencido um animal ferocssimo, 
dotado de grande fora. Era qualquer coisa de mais profundo e humilde. Era a conscincia de que havia triunfado sobre si mesma. Chegou-lhe como uma revelao espiri 
tual, como uma compreenso mstica do seu eu mais profundo e, muito comovida, com toda a reverncia devida, dirigiu-se ao esprito de seu totem, expressando-se na 
velha linguagem formal do cl.
     Sou apenas uma menina,  Grande Leo da Caverna, e os caminhos dos espritos so estranhos para mim. Mas acho que agora j compreendo um pouco mais. O lince 
foi um teste para mim, at mais difcil do que o de Broud. Creb sempre diz que  difcil viver com totens fortes, mas nunca disse que as melhores ddivas que estes 
nos proporcionam, ns as achamos dentro de ns. Jamais me falou daquilo que sentimos quando finalmente conseguimos com preender. Sou agradecida por me ter escolhido, 
Grande Leo da Caverna. Espero continuar sempre digna de voc.
     Foi somente quando a luminosa policromia outonal perdeu seu fulgor, j com as folhas murchas caindo dos galhos  mostra,  que Ayla voltou  floresta Ela pegava 
a trilha dos animais que escolhia para caar, estudando-lhes os hbitos, mas, agora, tratando-os com mais respeito, como seres vivos e tambm como temveis adversrios. 
Muitas vezes, avanando de rastos, chegando perto de sua presa e j pronta para atirar, ela se refreava, limitando-se apenas a observar. Passara a ter profundo amor 
pela vida, percebendo a inutilidade da morte de um animal que no representava ameaa ao cl e cuja pele no poderia usar. Mantinha-se, entretanto, em sua firme 
deciso de tornar-se no melhor caador do cl Ela no sabia que j o era. A nica maneira de aperfeioar sua tcnica seria caando. E ela o fazia.
     Os resultados comearam a se fazer notados, deixando os homens bastante inquietos.
     - Encontrei outro carcaju, ou melhor, o que sobrou deste. no muito longe do campo de treinamento - falou Crug.
     - E havia uns pedaos de pele que pareciam ser as de um lobo. Estavam a meio caminho, depois que se comea a subida da colina - informou Goov, por sua vez.
     - So sempre comedores de carne e animais ferozes. Nunca totem de mulheres - disse Broud. - Grod acha que devemos falar com o Mog-ur.
     - E sempre tambm de tamanho pequeno ou mdio, no gatos grandes. Veados, cavalos, carneiros, cabras, at mesmo javalis costumam ser apanhados pelas hienas, 
lobos e onas, mas que coisa  essa que est matando esses come- dores de carne? Nunca vi tantos deles mortos - observou Crug.
     - Isso  o que eu gostaria de saber. Por que ser que esto morrendo? no que eu me importe de ter menos alguns lobos e hienas rondando por aqui, mas  que 
se no somos ns... Grod, vai falar com o Mog-ur, no ? Vocs acham que pode ser algum esprito? - falou Broud, reprimindo um tremor no corpo.
     - E se for um esprito, ser um bom esprito que est querendo ajudar- nos ou algum esprito furioso com nossos totens? - perguntou Goov.
     - Isso  com voc, Goov. Voc  quem levantou a questo. Como aclito do Mog-ur, o que voc acha? - respondeu Crug, com outra pergunta.
     - Acho que a pergunta s pode ser respondida depois de muita meditao e depois de haver uma consulta aos espritos.
     - Voc at parece o Mog-ur falando, Goov. Nunca d uma resposta direta - disse Broud, ironizando.
     - Bem, Broud, qual seria a sua resposta? - contraps Goov. - Ser que consegue dar uma mu direta? O que est matando os animais?
     - No sou o Mog-ur e nem estou sendo educado para tal funo. Por isso no me pergunte.
     Ayla, que se achava trabalhando nas proximidades, reprimiu um sorriso. Com que ento agora virei um esprito, s que no conseguem chegar a uma Concluso se 
sou um bom ou mau esprito.
     O Mog-ur aproximou-se sem que eles o percebessem. Ele havia acompanhado a discusso.
     - Ainda no tenho a resposta, Broud - disse o feiticeiro. - Isso precisa ser meditado. O que posso dizer  que este no  um caminho normal usado pelos espritos, 
quando eles desejam comunicar-se.
     Espritos, ps-se a pensar o Mog-ur, podem tornar o tempo muito quen te ou muito frio, mandar nevar ou chover em grande quantidade espantar os rebanhos, enviar 
doenas e ordenar raios, troves ou terremotos, mas normalmente no so responsveis pela morte de determinados animais. Nesse mistrio, deve haver algum dedo humano. 
Nesse momento, Ayla se levantou e foi para a caverna. O feiticeiro, pensativo, ficou observando-a. H qualquer coisa diferente nela, est mudada. Reparou que Broud 
tambm a acompanhou com os olhos- Era um olhar frustrado, carregado de rancor. Broud tambm percebe a diferena, pensou Creb. Talvez seja porque Ayla no  genuinamente 
dos cl e este andar seja pelo fato de estar crescendo. Alguma coisa, entretanto, o incomodava por dentro, fazendo-o sentir que aquela no era bem a resposta.
     Ayla havia mudado. Quanto mais se aprimorava como caadora, mais emanava de sua pessoa um ar de confiana e uma graa imponente, inexistente nas mulheres do 
cl. A garota tinha o andar silencioso de um experiente caador, o rgido controle dos msculos de seu jovem corpo, a plena confiana em seus reflexos e uma expresso 
sagaz nos olhos que iniperceptivelmente se toldavam sempre que Broud vinha importun-la. Era como se no o estivesse vendo. Obedecia-o prontamente mas no havia 
medo nela, ainda que o rapaz a cobrisse de pancadas.
     Sua serenidade, essa confiana em si mesma eram muito mais intangveis do que a declarada rebelio de outros tempos, mas, nem por isso, menos percebida por 
Broud. Era como se ela condescendesse em obedec-lo, como se soubesse de algo que ele ignorava. Broud a observava, tentando captar algum desvio sutil, alguma coisa 
por que pudesse castig-la, mas aquilo lhe escapava.
     Ele no podia entender como ela o conseguia, mas o fato era que todas as vezes em que tentava fazer valer sua superioridade, Ayla o fazia sentir-se por baixo 
e inferior a ela. Isso o dejxava frustrado, furioso, e quanto mais ele a perseguia, maior era sua sensao de no poder domin-la. Odiava-a por isso. Mas, com o 
tempo, foi aos poucos deixando de importun-la, inclusive procurando certo distanciamento dela, e fazendo-se lembrar s ocasionalmente para impor suas prerrogativas. 
Quando o outono terminou, seu dio por ela fora redobrado. Algum dia iria demoli-la. Faria com que pagasse por todo o mal que causara a seu orgulho de homem. Ah 
sim, algum dia ela ainda iria arrepender-se.
     

***

Captulo 13
     
     O inverno chegou e com ele o decrscimo de actividades que ligavam o cl a todas as coisas vivas que acompanhavam o ciclo das estaes. A vida ainda pulsava, 
mas em ritmo vagaroso. Pela primeira vez, Ay la se viu esperando com impacincia a entrada do inverno. A actividade intensa e a correria com os trabalhos prprios 
das outras estaes deixavam pouco tempo para que Iza prosseguisse com suas aulas.  chegada das primeiras neves, as lies foram retomadas. O padro de vida no 
interior da caverna se repetia com o mnimo de variaes e, aos poucos, o inverno foi-se extinguindo novamente.
     A primavera chegou atrasada e chuvosa, O degelo nas montanhas, secundado por chuvas torrenciais, encheu o riacho que, em ondas turbulentas, extravasava pelas 
margens e arrastava, no seu percurso para o mar, rvores e arbustos inteiros. As correntezas bloqueadas desviaram a rota normal das guas e engoliram parte do caminho 
feito pelo cl ao longo do riacho. Ao final da primavera, uma breve pausa de calor, suficiente apenas para um tmido desabrochar de flores nas rvores frutferas, 
foi abortada pelas chuvas de granizo que saquearam os delicados botes das rvores, pondo fim s esperanas de uma boa colheita. Ento, como se a natureza, arrependida, 
quisesse reparar pela perda dos frutos negados, as primeiras safras do vero foram fartas e generosas em verduras, razes, abboras e legumes.
     O cl achava-se saudoso de suas idas na primavera  orla martima, e foi com grande alegria que viram Brun anunciar que estavam de sada para a pesca do esturjo 
e do bacalhau. Apesar de eles estarem frequentemente fazendo o percurso de 16 quilmetros at o mar para pegar moluscos e ovos da infinidade de pssaros que se aninhava 
nos penhascos, a pescaria dos peixes grandes era das poucas actividades que exigia o esforo conjunto de homens e mulheres.
     Droog tinha razes especiais para querer ir. As pesadas enxurradas da primavera haviam arrastado os ndulos de pedras dos depsitos de greda nas ele vaes 
do terreno, levando-os para as partes planas alagadas, onde ficaram encalhados. Ele j havia feito uma inspeo antes e vira diversos depsitos de aluvino. A pescaria 
lhe daria boa oportunidade para se reabastecer de novas ferramentas, feitas com pedra de altssima qualidade. Era mais fcil britar a rocha no local do que transportar 
os pesados blocos para a caverna. J fazia algum tempo que Droog no abastecia o cl, e as pessoas tinham de se arranjar com instrumentos grosseiros pois os bons 
de que gostavam eram feitos com pedras frgeis que se partiam facilmente. Todos eram capazes de fabricar ferramentas, mas poucas destas podiam ser comparadas com 
as feitas por Droog.
     Havia um alegre clima de feriado, enquanto se faziam os preparativos. No era sempre que o cl inteiro largava de uma s vez a caverna, e a novidade de poder 
acampar na praia era algo de extremamente excitante, sobretudo para as crianas. Brun havia estabelecido que um ou dois homens diariamente viriam  caverna certificar-se 
de que nada na ausncia deles sara do lugar. At Creb esperava ansioso pela mudana de cenrio. Raramente os seus passeios o levavam para longe da caverna.
     As mulheres trabalhavam na rede, reforando os fios que estavam enfraquecidos e fazendo uma parte nova onde utilizavam cordas feitas de fibras de trepadeiras 
e de cascas de rvores, gramneas resistentes e compridas crinas de animal para dar elasticidade ao tecido. Embora fosse material firme e resistente, nervos e tendes 
aqui no eram usados. Tal como o couro, depois de molhados, ficavam duros e tesos, alm de que tambm no absorviam a gordura usada para amaciar a trama.
     O esturjo, um macio peixe, atingindo muitas vezes trs metros e meio de comprimento e pesando cerca de uma tonelada, emigrava do mar, onde passava a maior 
parte do ano, para as guas frescas dos rios e canais, quando desovava no princpio do vero. Os tentculos carnosos, sob as laterais de sua boca desdentada, davam 
a esse velho peixe, parecido ao tubaro, uma aparncia assustadora, embora sua alimentao  consistisse de invertebrados e pequenos peixes, apanhados nas profundidades 
dos oceanos. O bacalhau, um peixe de menor tamanho, em geral nunca pesando mais de 12 quilos, mas, em casos extremos, chegando a mais de 90, fazia sua migrao sazonal 
no vero para guas de menor profundidade. Normalmente, ia buscar seus alimentos no fun do dos mares. Contudo, costumava, s vezes, nadar perto da superfcie e nos 
canais de guas limpas, quando emigravam ou estavam  busca de comida.
     Durante os 14 dias de vero em que os esturjes faziam sua desova, as desembocaduras dos rios e canais estavam sempre cheias. Apesar de que os peixes que escolhessem 
os cursos dgua menores nunca chegassem a ter ota manho dos esturjes gigantes que subiam pelos grandes rios, aqueles que iam cair nas malhas da rede do cl j 
eram bastante pesados na hora de traz-los para a praia. Quando comeava a se aproximar o tempo de migraes, Brun enviava todos os dias algum at a costa. O primeiro 
dos esturjes brancos havia justa mente acabado de aflorar nas guas do rio, quando ele anunciou a prxima excurso. Partiram na manh seguinte.
     Ayla acordou excitada. J antes de fazer a primeira refeio tinha sua pele de dormir enrolada, a comida e os utenslios de cozinha embalados dentro de sua 
cesta de colher e, por cima de tudo, um grande pano de couro que seria usado para armar uma espcie de barraca. Iza nunca saa da caverna sem sua sacola de medicamentos 
e ainda a arrumava, quando Ayla foi para fora, querendo ver se j estavam todos prontos para partir.
     - Depressa - disse Ayla correndo de volta, incentivando Iza a andar rpido.
     - Calma, menina. O mar no vai desaparecer -respondeu Iza, depois de puxar o cordo e amarrar, apertada, a sacola.
     Ayla botou sua cesta s costas e pegou Uba. Iza seguiu atrs, mas, antes de sair, ainda se virou para dar uma ltima olhada, tentando lembrar-se se no se esquecera 
de nada. Todas as vezes que ia a algum lugar, sentia como se ti vesse esquecido de alguma coisa. Bom, se for importante, Ayla pode vir apa nhar, pensou. O cl j 
estava quase todo do lado de fora e pouco depois que Iza tomou seu lugar, Brun deu o sinal de partida. Mal se tinham posto em caminho, Uba comeou a contorcer-se 
querendo descer.
     - Uba no  beb! Quer andar tambm - gesticulou, tocada nos seus brios de criana. Com trs anos e meio, Uba comeava a imitar os adultos e as crianas mais
velhas, j rejeitando os mimos dispensados aos bebs. Estava crescendo. Dentro de quatro anos, provavelmente, seria mulher, tinha, por tanto, muito o que aprender 
num curtssimo perodo, e, atravs de um processo interno de sua maturao j comeava a preparar-se para outras responsabilidades com que muito brevemente teria 
de arcar.
     - Est bem, Uba - disse Ayla, pondo-a no cho. - Mas, fique perto de mim.
     Seguiam pelo lado da montanha que margeava o riacho - desviado de seu rumo - ao longo do novo caminho que j se formara, prximo ao ponto onde as guas foram 
bloqueadas em seu curso. Era uma caminhada fcil e, antes do entardecer, j tinham chegado a um trecho da praia. A volta iria exigir-lhes maiores esforos. Usando 
pedaos de madeira e paus lanados  praia pelas ondas, armaram as cabanas, provisoriamente, num stio fora do alcance da mar cheia. As fogueiras comearam a ser 
acesas e a rede mais uma vez foi vistoriada. Comeariam a pescaria na manh seguinte. Depois de estarem acampados, Ayla se dirigiu ao mar.
     - Vou at a gua, me - disse ela.
     - Por que essa sua mania de ir para gua, Ayla?  perigoso e voc sempre vai muito l para fora.
     -  delicioso, Iza. Vou ter cuidado.
     Isso acontecia sempre. Todas as vezes que Ayla ia nadar, Iza se preocupava. Ayla era a nica no cl que gostava de nadar e tambm a nica que podia faz-lo. 
Para as pessoas dos cls, com seu pesado arcabouo sseo, nadar era difcil. no boiavam com facilidade e tinham pavor de entrar em lugares onde no dava p. Iam 
na gua para apanhar peixes, mas no gostavam de passar alm do nvel da altura do peito. Sentiam-se intranquilos. O gosto de Ayla pela gua era visto como mais 
uma de suas peculiaridades. Havia outras.
     Aos nove anos, Ayla estava mais alta do que qualquer mulher e j do tamanho de alguns dos homens, contudo no mostrava ainda qualquer sinal de estar-se aproximando 
da fase adulta. Iza, s vezes, perguntava-Se se ela algum dia iria parar de crescer. Sua altura e o atraso na menstruaO eram motivos de especulao em certos meios, 
j se aventando, inclusive, a possibilidade de que o forte totem dela no iria deix-la sangrar. Muitos achavam que talvez ela fosse passar pela vida como um tipo 
neutro, nem homem nem totalmente mulher.
     Creb aproximou-se de Iza,enquanto ela observava Ayla caminhando na direo do mar. O corpo rijo e magro, uma musculatura flexvel, sem relevos na pele e as 
pernas longas e lpidas faziam dela uma figura desajeitada e deselegante, mas seus movimentos geis desmentiam a aparente falta de graa e jeito. Embora tentasse 
imitar a postura subserviente das mulheres do cl, faltava- lhe as pernas curtas e tortas. Por mais que tentasse andar com passos midos, suas pernas compridas a 
levavam longe, em passadas quase masculinas.
     Mas no eram apenas as pernas longas que a tornavam diferente. Ayla irradiava uma confiana em si que jamais alguma mulher dos cls possuiu.  que era uma caadora. 
Nenhum homem podia comparar-se a ela em sua arma, e agora ela j sabia disso. no podia fingir submisso a uma maior superiori dade masculina que no sentia. Carecia 
do compromisso de uma f cega que se constitua num dos atrativos das mulheres dos cls. Aos olhos dos homens - com seu corpo alto e liso, desprovido de todo atributo 
feminino e uma atitude inconsciente de segurana, diminuindo ainda mais sua j duvidosa beleza - Ayla, alm de feia, no era feminina.
     - Creb - gesticulou Iza.
     - Aba e Aga dizem que ela nunca vai ficar mulher. Acham que o totem de Ayla  forte demais.
     - Claro que ela vai ficar mulher, Iza. Por acaso voc acha que os Outros no tm filhos? S por ter sido aceite no cl, isso no muda sua natureza. Provavelmente, 
 normal nas mulheres da raa dela amadurecerem mais tarde. At mesmo algumas meninas dos cls s se tornam mulheres depois dos 10 anos. Voc no acha que as pessoas 
deveriam dar pelo menos esse prazo a ela antes de comear a imaginar anormalidades dessa ordem? Isso  ridculo! - falou ele, bufando e aborrecido.
     Iza ficou mais tranquila, mas mesmo assim preferia que sua filha adotiva j estivesse dando os primeiros sinais de feminilidade. Ela via Ayla caminhan do com 
a gua pela cintura e depois comeando a bater os ps, dirigindo-Se com braadas seguras para fora.
     Ayla adorava boiar na gua salgada e adorava tambm a sensao de liberdade que o mar lhe dava. no se lembrava de como aprendera a nadar, parecia que era uma 
coisa que sempre soube fazer. O banco de areia sob a gua, aps uns tantos metros, caa de repente, mas a cor mais escura e a temperatura mais fria da gua lhe davam 
a indicao desse ponto. Virou-se de costas e ps-se a boiar preguiosamente, embalada pelo movimento das ondas. Depois, cuspindo um bocado de gua que lhe bateu 
no rosto, virou o corpo, voltando para a praia. A mar estava baixando e ela fora arrastada para a desembocadura do riacho. A fora das diferentes correntes a obrigava 
a nadar com mais energia. Com esforo, alcanou o lugar em que dava p e caminhou de volta  praia. Antes, lavou-se na gua doce do rio, sentindo a correnteza pux-la 
pelas pernas e a areia do fundo escorregando-lhe sob os ps. Cansada mas refrescada, deixou-se cair perto da fogueira do lado de fora da barraca.
     Depois de todos alimentados, ayla, numa expresso sonhadora, olhava a distncia, pensando no que poderia haver para alm das guas. Acima da arrebentao, os 
pssaros, grasnando e gritando, revoavam em roda, ou fazendo vertiginosos mergulhos. As carcaas descoloridas daquilo que uma vez se constituiu em viosas rvores 
quebravam, com os seus contornos retorcidos, a uniformidade da praia, enquanto a vastido azul-acinzentada cintilava sob os raios do entardecer. A cena lhe deixava 
um sentimento vago e irreal de algo de outro mundo. Aos poucos, o madeirame contorcido foi-se transformando em grotescas silhuetas, para por fim desaparecer na escurido 
da noite sem lua.
     Iza levou Uba para dentro da barraca e depois veio sentar-se perto de Ayla e Creb, junto da fogueira botando volutas de fumaa no cu estrelado.
     - O que elas so, Creb? - perguntou Ayla, com voz calma, apontan do para o alto.
     - Fogueiras no cu. Cada uma  a casa do esprito de algum no outro mundo.
     - Existe tanta gente assim?
     - So as fogueiras de todos aqueles que foram para o mundo dos espritos e de todos os que ainda no nasceram. So as fogueiras tambm dos espritos, mas a 
maioria dos totens possui mais de uma. V aquelas ali? - disse Creb, apontando. -  a casa do Grande Ursus. E aquelas l? - Apon tou em outra direo. -  a casa 
de seu totem, Ayla. O Leo da Caverna.
     - Gostaria de dormir do lado de fora para ficar olhando as fogueiras no cu - disse Ayla.
     - Mas no  uma boa coisa, quando est ventando e a neve caindo - interps Iza.
     - Uba gosta tambm das fogueiras pequeninas - gesticulava a menina, aparecendo junto deles, no crculo de luz feito pela fogueira.
     - Pensei que estivesse dormindo, Uba - falou Creb.
     - no Uba quer tambm ficar olhando para as pequeninas fogueiras. Igual Creb e Ayla.
     - Chegou o momento de todos irem dormir - gesticulou Iza. - Amanh vai ser um dia cheio.
     Bem cedo no dia seguinte, o cl estendeu a rede atravs do canal. Bexigas nadatrias guardadas de outras pescarias de esturjo, cuidadosamente lavadas e secas 
at se tornarem resistentes bales de gelatina, serviam de bias para a rede, e pedras amarradas no centro funcionavam como pesos. Brun e Droog pegaram uma das extremidades 
e foram para a margem oposta. Em seguida, ao sinal do chefe, adultos e crianas comearam a entrar na gua. Uba os seguiu.
     - no Uba - gesticulou Iza. - Voc fica. Ainda no tem idade para isso.
     - Mas Ona est ajudando disse, implorando.
     - S que Ona  mais velha. Depois, voc ajuda quando tivermos trazido os peixes. Por enquanto  muito perigoso para voc. At Creb ficou na praia. Fique aqui.
     - Sim, me - respondeu a menina, visivelmente desapontada.
     Vagarosamente, de modo a agitar o menos possvel a gua, eles foram andando, abrindo-se em leque, at formar um semicrculo. Depois pararam, esperando que a 
areia levantada com os movimentos voltasse a assentar. Ayla tinha os ps separados, firmando o corpo contra a forte correnteza que ondeava ao redor de suas pernas 
e, com os olhos presos em Brun, aguardava o sinal. Estava no meio do canal, equidistante das duas margens e no ponto mais prximo do mar. Viu quando uma mancha 
escura passou deslizando a uma pequena distncia dela. Os esturjes vinham a caminho. Brun levantou o brao. As respiraes estavam todas suspensas. Sbito, ele 
o abaixou e o cl se ps a gritar e a bater na gua fazendo salpic-la espumosamente. O que parecia ser um caos desordenado de barulhos e levantar de espumas logo 
se mostrou com propsito definido. O cl ia fechando o crculo e, simultaneamente, arreba nhando os peixes para a rede. Da outra margem, saram Brun e Droog seguran 
do uma das pontas da rede, enquanto a barafunda armada na gua impedia os peixes de voltarem ao mar. A rede ia fechando e se juntando cada vez num menor espao, 
com uma massa prateada de peixes lutando desesperadamente. Alguns tentavam fazer presso sobre as malhas, ameaando passar pelos buracos, mas um nmero de mos cada 
vez maior de pessoas ia segurando na rede empurrando-a para a margem, onde estavam tambm outras puxando, todas empenhadas na luta para encalhar na praia dezenas 
de peixes contorcendo-se convulsivamente.
     Ayla levantou os olhos e viu Uba enterrada at os joelhos em meio aos peixes saltitantes, tentando alcan-la do outro lado da rede.
     - Uba! Afaste-se! - disse a garota por sinais.
     - Ayla, Ayla! - gritou a menina, apontando para o mar. - Veja! Ona!
     Ayla se virou e pde ainda ver de relance uma cabea negra sendo levantada pelas guas e depois desaparecer. A menina, um ano e pouco mais velha do que Uba, 
havia perdido o p e estava sendo arrastada para o mar. Na confuso de puxar a rede, ela fora esquecida. Apenas Uba, da praia, cheia de admirao por sua companheira 
de brincadeiras, percebeu a situao de apuro em que Ona se achava e tentava desesperadamente chamar a ateno dos outros.
     Ayla mergulhou de volta nas guas turvas e revolvidas do riacho. Nunca nadara to depressa na vida. A correnteza puxando para o mar ajudava-a, mas ao mesmo 
tempo arrastava com a mesma fora a menina na direo do lugar onde o banco de areia desaparecia repentinamente. Ayla viu-lhe mais uma vez a cabea despontando na 
superfcie e redobrou o esforo. Estava-se aproximando, mas tinha medo de que no desse tempo. Se Ona chegasse no ponto onde havia o desnivelamento do fundo das 
guas, antes que ela pudesse alcan-la, a ressaca ali a enviaria para o alto-mar.
     A gua j comeava a ficar salgada. Ayla podia sentir seu gosto. A cabecinha preta mais uma vez levantou-se a uns poucos metros e depois tornou a sumir de vista. 
Numa arremetida desesperada, Ayla mergulhou para agarrar a cabea desaparecendo, sentindo que a temperatura da gua esfriara. Percebeu ento os cabelos flutuando 
da menina e os apertou firmemente na mo.
     Ayla tinha a impresso de que seus pulmes iam estourar - no tivera tempo de pegar flego para dar o mergulho - e quando conseguiu chegar  superfcie, trazendo 
sua preciosa carga, estava meio tonta. A menina achava-se inconsciente, mas ela deu um jeito para que a cabea de Ona ficasse por cima da gua. Ayla nunca experimentara 
nadar carregando outra pessoa, mas tinha de levar Ona  praia o quanto antes, mantendo sempre sua cabea na super fcie. Com um dos braos, Ayla apertou a menina 
contra o corpo, enquanto com o outro acertou a batida para nadar.
     Quando chegou num ponto em que dava p, viu que o cl inteiro se me tera na gua para esper-la. Ela suspendeu o corpo de Ona, desfalecida, e o entregou a Droog, 
s ento percebendo o quanto estava exausta. Creb achava- se a seu lado e com surpresa viu que do outro se encontrava Brun, ajudando-a a chegar  praia. Droog ia 
 frente e quando ela, por fim, caiu na areia, Iza j havia espichado sobre a areia o corpinho de Ona e bombeava a gua de seus pulmes.
     No era a primeira vez que algum do cl esteve em tempo de morrer afogado. Iza sabia, portanto, o que fazer. E houve tambm aqueles que ficaram para sempre 
perdidos nas geladas profundezas das guas, s que, desta vez, o mar sara logrado, ficando sem sua vtima. Ona comeou a tossir e a balbuciar, enquanto a gua lhe 
flua da boca. As plpebras tremeram.
     - Minha filinha! Minha filhinha! - gritou Aga, atirando-Se ao cho. Inteiramente desvairada, segurou-a. - Pensei que estivesse morta. Estava certa de que tivesse 
ido embora. Oh, meu beb, minha nica filhinha!
     Droog tirou Ona do colo da me e a segurou bem junto a seu corpo, levando-a para o acampamento. Contrariando Os costumes, Aga seguia a seu lado, acariciando 
a filha que pensava ter perdido.
     Quando Ayla se levantou e caminhou, as pessoas a olhavam, admiradas, apontando em sua direo. Jamais algum arrastado pelas guas havia sido, at ento, salvo. 
Era um milagre Ona estar viva. E nunca mais tambm um membro do cl de Brun olharia para Ayla zombeteiramente, quando ela se deixasse levar por alguma de suas idiossincrasias. 
 a sorte dela., diziam. Ela sempre nos trouxe sorte. no foi ela quem encontrou a caverna?
     Os peixes continuavam ainda contorcendo-se espasmodiCamente na margem. Alguns deram jeito de voltar s guas do canal, quando o cl, percebendo o que estava 
acontecendo, largou tudo para ir ao encontro de Ayla e Ona semimorta. A maioria, entretanto, continuava emaranhada na rede. O cl voltou ao servio de pux-los para 
a praia e, em seguida, mat-los com pauladas para que as mulheres pudessem comear a limp-los.
     - Uma fmea! - gritou Ebra, depois de abrir a barriga de um belo espcine de esturjo. Todos correram para o enorme peixe.
     - Veja s isto! - gesticulou Vorn estendendo a mo, querendo pegar um punhado das ovinhas negras. Caviar fresco era sempre uma festa. Quando aparecia a primeira 
fmea, cada um corria para agarrar uma boa poro das ovas e depois ir sabore-las sozinho. As outras encontradas seriam salgadas e postas em conserva para usos 
futuros, mas nunca eram to gostosas quando na hora, saindo frescas do mar. Ebra barrou o garoto e fez sinal para Ayla.
     Esta olhou em derredor, embaraada por se ver como centro das atenes.
     - Sim, Ayla, voc pega primeiro - gesticulou Ebra.
     Ayla levantou os olhos para Brun. Ele fez que sim com a cabea. Timi damente, ela deu uns passos  frente e pegou um punhado do caviar reluzin do em seu negrume. 
Depois, endireitou o corpo e deu uma provada. Ebra fez, ento, um gesto e cada um foi buscar sua poro, ficando, ali, felizes, ao redor do peixe. Haviam sido poupados 
de uma tragdia e o alvio que sentiam dava um clima de festa  ocasio.
     Devagar, Ayla se encaminhou para sua cabana. Sabia que fora homena geada e, com pequenas mordidas, ia saboreando o rico caviar e a boa sensao de se ver aceita. 
Um sentimento de que ela para sempre iria lembrar-se.
     Depois de ter trazido  terra e matado os peixes, os homens se puseram de la do para mais uma de suas inevitveis reunies de bate-papo, deixando a limpeza 
e o trabalho de conserva para as mulheres. Alm das afiadas facas de pedra para abrir os peixes e cortar em fil a carne dos maiores, elas dispunham de um instrumento 
especial para o servio de escamao. Era uma faca cega para poder ser empunhada com mais facilidade e com um entalhe na ponta, onde se colocava o indicador, de 
modo a controlar a presso e permitir raspar as escamas sem danificar a pele do peixe.
     Alm de esturjes, a rede do cl colheu bacalhaus, carpas, algumas belas trutas e mesmo uma certa quantidade de crustceos vinha como parte do arrasto. Os 
pssaros, atrados pelo cheiro dos peixes, rondavam por perto, esperando regalar-se com as entranhas e, se possvel, roubar alguns fils. Depois de os pescados serem 
postos para secar ao ar livre ou sobre a fumaa das fogueiras, a rede era esticada por cima destas. Com isso, no s ela secava, como punha  mostra os pontos onde 
precisava de consertos. Alm, ainda, de impedir os pssaros de roubarem aquilo que havia sido duramente ganho.
     Antes de o tempo da pescaria terminar, j estariam fartos do gosto e do cheiro de peixe, mas a primeira noite era sempre um acontecimento bem- vindo que festejavam 
juntos. Os peixes reservados  comemorao - sobre tudo bacalhaus de cuja carne branca e delicada particularmente gostavam de comer ainda fresca - eram arrumados 
em ninhos de ervas e depois de enrolados em grandes folhas verdes, eram postos sobre as brasas. Embora nada fosse explicitamente dito, Ayla sabia que a festa daquela 
noite era em sua honra. Via-se como destinatria dos melhores pedaos e partes das carnes que as mulheres lhe ofereciam insistentes, e um fil inteiro lhe tinha 
sido preparado com especiais cuidados por Aga.
     O sol j desaparecera e as pessoas se dispersaram, cada qual buscando sua barraca. Iza e Aba conversavam perto da grande fogueira com as brasas extinguindo-se 
sob as cinzas, enquanto Ayla e Aga, sentadas em silncio, observavam Ona e Uba brincarem. Groob, o filho de um ano de Aga, dormia em paz nos seus braos, satisfeito 
com o leite generoso da me.
     - Ayla - comeou Aga a dizer, hesitando. - Queria que voc soubesse uma coisa. Nem sempre tenho sido boa com voc.
     - Aga, que bobagem, voc sempre se mostrou atencosa comigo - interrompeu Ayla.
     - Isso no  a mesma coisa que boa - disse Aga. - J falei com Droog voc sabe, ele passou a gostar muito de minha filha, apesar de ela ter nas cido quando 
eu estava com o meu primeiro companheiro. Droog nunca tinha tido na fogueira dele uma menina. Ele diz que agora voc ir carregar para sempre uma parte do esprito 
de Ona. no entendo a maneira de os espritos agirem, mas Droog diz que, quando um caador salva a vida de outro, ele fica com um pedao do esprito do homem que 
salvou. Os dois ficam algo assim como germanos, como se fossem irmos. Fico feliz por voc compartilhar do esprito de Ona, Ayla. Estou contente de ela estar aqui 
e dividir uma parte do seu esprito com voc. Se eu tiver bastante sorte para ter outro filho e se nascer menina, Droog prometeu que daria a ela o seu nome.
     Ayla estava espantada. No sabia o que responder.
     - Aga, isso  uma grande honra. Mas Ayla no  nome de pessoas dos cls. - Daqui por diante, ficar sendo. - Ela se levantou, fez sinal para Ona e j ia sair, 
quando se voltou para dizer: - J estou indo embora.
     Os gestos expressando a frase eram os que mais se aproximavam do sentido de at logo. Quase nunca eram usados. As pessoas simplesmente saam sem nada dizer. 
A lngua igualmente no possua nenhum termo para expressar obrigado. Entendiam o que fosse a gratido, mas com diferente conotao geralmente no sentido do dever 
que algum de status inferior tinha para com um outro de posio social mais elevada. Ajudavam-se uns aos outros, porque este era o modo de viver, uma obrigao 
de todos, necessria  sobrevivncia e nenhum agradecimento era esperado ou devido. Favores especiais e recompensas comportavam o nus da obrigao de retribuir 
algo de igual valor. Isso estava implcito e nenhum agradecimento se fazia necessrio. Enquanto Ona vivesse, ela ou a me - at que a filha se tornasse maior - estaria 
em dvida com Ayla, a no ser que surgisse alguma ocasio, quando uma ou outra pudesse retribuir com um favor igual, de modo a guardar, por sua vez, uma parte do 
esprito de Ayla. O oferecimento de Aga no tinha, pois, o sentido de retribuio significava ainda mais do que isso e era a sua maneira de dizer obrigado.
     Aba se levantou para sair pouco depois de a filha ter ido.
     - Iza sempre diz que voc traz sorte - gesticulou a velha ao passar por Ayla. - Agora, eu acredito.
     Ayla veio sentar-se junto de Iza, depois de Aba ter ido embora.
     - Iza,Aga me disse que vou carregar para sempre comigo uma parte do esprito de Ona, mas a nica coisa que fiz foi traz-la para a praia. E se ela respirou 
outra vez foi por sua causa. Voc salvou a vida dela tanto quanto eu. Voc tambm no carrega uma parte do esprito de Ona? Voc deve carregar um pouco dos espritos 
de todas as pessoas que j salvou, no  as sim?
     - Por que voc acha que uma curandeira tem um status que ningum mais tem?  justamente porque ela carrega uma parte dos espritos de todas as pessoas de seu 
cl. Dos homens e das mulheres. E atravs do cl dela, de todos os outros cl  a curandeira quem ajuda a botar as pessoas no mundo e quem cuida delas pela vida 
afora. Quando uma mulher se torna curandeira, recebe uma parte do esprito de cada um, mesmo daqueles cuja vida ainda no salvou, porque nunca se sabe quando isto 
vai acontecer.
     Quando uma pessoa morre - prosseguiu Iza - passando para o mundo dos espritos, a curandeira perde uma parte de seu esprito. H gente que acre dita que isto 
obriga a curandeira a botar mais empenho no seu trabalho, mas, seja como for, a maioria de ns procura sempre fazer o melhor que pode. Nem toda mulher pode ser curandeira 
e nem toda filha de curandeira tambm pode. Precisa haver uma coisa dentro da pessoa que faz com que ela queira ajudar os outros. Voc tem isso, Ayla. Foi por essa 
razo que eu quis trein-la. Percebi quando voc quis ajudar o coelho... foi pouco depois de Uba nascer. E agora quando voc foi atrs de Ona, a nica coisa em que 
pensou foi em salvar a vida dela, sem se importar com o perigo que voc mesma estava correndo. As curandeiras de minha linha so as que possuem status mais alto. 
Quando for curandeira, Ayla, voc ser da minha linha.
     - Mas no sou sua filha de verdade, Iza. Voc  apenas a nica me que me lembro de ter tdo. Mas no nasci de voc. Como vou poder ser de sua linha? no tenho 
as suas memrias. Nem sei direito o que quer dizer essa coisa de memrias.
     - As curandeiras de minha linha possuem o mais alto status, porque sempre foram as melhores. Minha me, a me de minha me e todas as outras de quem me posso 
lembrar sempre foram as melhores. Cada uma foi passando para a outra o que j sabiam e o que iam aprendendo. Voc pertence aos cls, Ayla.  a minha filha treinada 
por mim. Voc saber tudo o que eu conseguir ensin-la. Talvez, no tudo que eu saiba, mas nem mesmo eu sei o quanto de conhecimentos tenho em minha cabea. Mas 
essa quantidade que voc tiver j basta, porque existe uma coisa a mais.  o dom que voc tem, Ayla. Acho que voc tambm deve vir de uma linha de curandeiras. Algum 
dia voc tambm ser muito boa.
     Voc no tem as memrias, mas possui uma maneira de pensar e de compreender o que est fazendo os outros sofrerem. Quando se sabe o que est machucando uma 
pessoa,  possvel ajud-la, e sempre se encontra um meio de saber como ajudar. Nunca lhe ensinei botar neve no brao de Brun quando Oga o queimou. Talvez eu tivesse 
feito a mesma coisa, mas no fui eu quem lhe disse isso.  o dom que voc tem, o seu talento, o que talvez valha tanto quanto as memrias... talvez, at mais.  
isso que  importante. Voc pertencer  minha linha, porque ser uma boa curandeira. Ser digna do status que ter. Ser uma das melhores.
     O cl entrou numa rotina regular. Pescavam s uma vez por dia, mas j era o bastante para manter as mulheres ocupadas at o entardecer. Nada pior tornou a acontecer. 
Ona, no entanto, no voltou mais a ajudar no trabalho de atrair os peixes para a rede. Droog achou que ela ainda estava muito pequena, que podia esperar pelo ano 
seguinte. Mais para o fim do perodo das desovas,a quantidade de peixes diminuiu, deixando algum tempo livre para as mulheres no fim da tarde. J havia mais do que 
o suficiente. Ainda ia levar algum tempo para que as carnes dos peixes secassem e, cada dia que passava, as fileiras de engradados na praia ficavam maiores.
     Droog havia esquadrinhado as terras inundadas pelo riacho, buscando os ndulos de pedras arrastados das montanhas e conseguira arranjar uma certa quantidade 
que levou para o acampamento na praia. Durante muitas tardes, ele podia ser visto britando pedras. Certa vez, antes de estar programada a volta, Ayla viu quando 
Droog carregava uma trouxa da barraca para um tronco nas imediaes, que ele usava como mesa de trabalho. A garota gostava de observ-lo e seguiu-o. Sentou-se de 
cabea baixa na sua frente, esperando. 
     - Esta menina gostaria de ficar observando, se o ferramenteiro no se importar - gesticulou, depois de Droog tomar conhecimento de sua presena.
     Ele grunhiu qualquer coisa, enquanto assentia com a cabea.
     A garota arrumou um lugar no tronco para acomodar-se e ficou ali em silncio, apenas vendo.
     A menina j o havia observado antes. Droog sabia que Ayla tinha realmente interesse por seu trabalho e que no atrapalhava sua concentrao. Quem dera que Vom 
mostrasse o mesmo interesse, pensou consigo. Nenhum do jovens do cl tinha realmente talento para aquele tipo de artesanato, e Droog, como todo bom profissional 
gostava de participar com algum de seus conhecimentos e pass-los adiante.
     Talvez Groob venha interessar-se, pensou ele. Estava feliz por sua com panheira ter tido um filho logo aps Ona ter sido desmamada. Nunca havia ti do uma fogueira 
to cheia, mas no se arrependia de ter assumido Aga e as duas crianas. Inclusive a velha. no era de todo mal ter Aba por perto. Ela sempre o atendia, quando Aga 
estava ocupada com o beb. 
     Aga no tinha a mesma compreenso que a me de Goov e, no comeo, ele teve algum trabalho para bot-la em seu lugar. Mas Aga era jovem, tinha sade e produzira 
um filho, um garoto no qual Droog depositava grandes esperanas, pensando torn-lo ainda um bom ferramenteiro. Droog aprendera a cortar pedra com o companheiro de 
sua me e compreendia, agora, o prazer que deve ter dado ao velho, quando, ainda menino, mostrouvontade de aperfeioar-Se naquela arte.
     Ayla, desde que viera para o cl, frequentemente ficava observando-o e ele j vira algumas ferramentas feitas por ela. Possua mos jeitosas e boa tcnica. 
As mulheres tinham direito de fazer instrumentos, desde que no fossem usados como armas ou para fabric-las. no valia muito a pena ensinar uma menina, ela nunca 
seria perita, no verdadeiro sentido da palavra. Mas, em todo caso, Ayla levava certo jeito, fazia algumas ferramentas teis e era melhor ter uma aprendiz mulher 
do que nenhum. Droog j lhe dera antes algumas explicaes sobre a tcnica.
     O arteso abriu a trouxa, estendendo o lenol de couro que embrulhava os seus instrumentos de trabalho. Olhou para Ayla, resolvendo que ela poderia ter naquele 
dia algum conhecimento sobre pedras. Pegou uma pea que pusera fora na vspera. Atravs de longos anos de tentativas e erros, os antepassados de Droog o haviam ensinado 
que uma pedra d bons instrumentos quando ela possui uma combinao certa de determinadas propriedades.
     Ayla o observava com viva ateno, enquanto ele ia explicando. Em primeiro lugar, a pedra precisava ser suficientemente dura, de modo a servir para cortar, 
raspar e rasgar, tanto matria vegetal como animal. Muitos dos silcios da famlia dos quartzos possuam a dureza necessria, mas o slex tinha uma qualidade que 
a maioria dos outros - e tambm uma quantidade de pedras compostas de minrios mais moles - no tinha. O slex era frgil e se quebrava com a presso ou se se chocasse 
contra alguma coisa. Ayla deu um salto para trs assustada, quando Droog, para demonstrar, bateu a pedra jaada contra uma outra, quebrando-a em dois pedaos e pondo 
 mostra o interior de diferente natureza, num tom cinza-escuro.
     Droog no sabia direito como explicar a terceira propriedade. Era um conhecimento que estava profundamente entranhado nele e que fora adquiri do ao longo de 
anos de trabalho. A propriedade que tornava possvel seu tipo de artesanato estava na maneira de a pedra partir, cuja diferena era dada pela homogeneidade do slex.
     A maioria dos minerais se partia ao longo das superfcies planas, em linha paralela s estruturas dos cristais, o que significava que fraturavam sempre em determinadas 
direes. O slex, por essa razo, no podia ser modelado para casos especficos. Ao se descobrir isso, o melhor era usar a obsidiana, uma lava vulcnica preta, 
de aspecto vtreo, embora menos resistente do que outros minerais. Por no ter uma estrutura cristalina bem definida, a obsidiana podia ser quebrada facilmente, 
de forma homognea na direo pretendida...
     A estrutura cristalina do slex, apesar de bem definida, era to nfima que praticamente se podia consider-la tambm como homognea. Tudo dependia da habilidade 
daquele que a modelava e para isso no faltava talento a Droog. no obstante, os instrumentos de slex tinham dureza suficiente para cortar grossos panos de couro, 
plantas extremamente fibrosas e, por ou tro lado, eram bastante moles para se fazer neles um fio to afiado quanto o de um caco de vidro. Para demonstrar, Droog 
apanhou um pedao de pedra com defeito e lhe fez um fio. Ayla no precisou tocar para saber que estava afiadssimo. Muitas vezes, ela prpria j usara facas to 
amoladas quanto aquela.
     Ele atirou fora a pea quebrada e estendeu sobre o colo o lenol de couro. Naquele instante, pensava nos anos de prtica que tinha levado para aprimorar os 
conhecimentos recebidos de seus ancestrais. A cincia de um bom cortador de pedras deve comear pela seleo. Era preciso prtica para distinguir as mnimas variaes 
de cor na parte exterior da greda, aquilo que indicava o teor de qualidade e de cristalizao do slex. Levava-Se tempo para aprender que os ndulos das pedras de 
um determinado lugar podiam ser melhores, mais novos e menos sujeitos a ter no seu interior corpos estranhos do que a mesma pedra, tirada de uma localidade diferente. 
Talvez ele algum dia ainda tivesse um aprendiz de verdade que possusse gosto para apreciar esses detalhes de maior sutileza.
     Ayla achava que Droog houvesse esquecido dela, enquanto arranjava seus instrumentos e examinava com ateno as pedras. Depois, sentou-se em si lncio, de olhos 
fechados, segurando o amuleto. Ela chegou a surpreender-se, quando ele voltou a falar por meio de gestos mudos.
     - Os instrumentos que vou fabricar so muito importantes. Brun resolveu que faremos uma caada de mamute. No outono, depois que as folhas ti verem cado, faremos 
uma viagem longa, em direo ao norte para encontrar as manadas de mamute. Vamos precisar de muita sorte nesta caada. Os espritos precisam estar do nosso lado. 
Vou fazer facas que sero usadas como ar mas e tambm ferramentas para serem utilizadas s na fabricao das armas da caada. O Mog-ur usar uma poderosa mgica 
para dar sorte  caada, mas primeiro as armas tm de ser feitas. Se elas ficarem boas, j  bom sinal.
     Ayla no tinha certeza se Droog falava com ela ou se estava apenas expondo certos fatos, de modo a ter tudo bem claro em sua mente antes de comear o trabalho. 
Isso lembrou-a de que deveria ficar muito quieta, sem fazer nada que pudesse perturbar Droog, enquanto trabalhasse. J estava quase achando que ele a mandaria embora, 
agora que ela sabia da importncia dos instrumentos que seriam fabricados.
     O que Ayla ignorava era que, desde a ocasio em que ela mostrara a Brun a caverna, Droog acreditava que a garota dava sorte e o fato de salvar Ona veio reforar 
mais ainda tal convico. Ele via a estranha menina como um tipo de pedra rara ou como um daqueles dentes que as pessoas recebem de seus totens e pem dentro dos 
amuletos para trazer sorte. Ele no tinha muita certeza se ela prpria seria algum de sorte, sabia apenas que Ayla dava sorte. E agora, o pedido para observ-lo 
justamente nesta ocasio, ele considerava como algo de extremamente promissor. Droog viu com o canto dos olhos que ela tambm pegara no seu amuleto, no momento em 
que ele apanhou o primeiro ndulo. Apesar de no saber precisar direito o seu pensamento sentia que a menina estava chamando a sorte de seu poderoso totem para assisti-lo 
em seu trabalho e a agradecia por isso.
     Droog achava-se sentado no cho, com um pano de couro estendido sobre o colo e segurando um ndulo de slex com a mo esquerda. Ele pegouuma pedra de forma 
ovalada e a remexeu na mo at encontrar o jeito certo de segur-la. Por muito tempo, havia procurado por um martelo de pedra que tivesse exatamente o toque e a 
resistncia daquele e fazia anos que j o pussua. Suas inmeras ranhuras atestavam o muito que j fora usado. Com o martelo, Droog foi quebrando a parte exterior 
cinza da greda, deixando exposta a camada mais escura do slex. Parou para examinar a qualidade do ndulo. A cristalizao e a cor eram boas, tambm no havia jaas. 
Comeou, ento, a delinear a forma bsica de uma machadinha. As lascas grossas que iam saindo tinham gumes afiados e muitas seriam aproveitadas como instrumentos 
de corte, do jeito mesmo como saam. A extremidade de cada lasca fazia, no ponto onde o martelo acercava o ndulo, uma forma abaulada que se estreitava com um corte 
transversal na outra extremidade e marcando a parte interna do sflex com uma cicatriz spera e funda.
     Droog botou de lado o martelo de pedra e pegou um instrumento de osso. Mirando com cuidado, ele batia no centro do slex, bem junto da beirada aguada e spera. 
O martelo de isso, bastante delicado e malevel, tirava lascas mais finas, no to abauladas e com as beiradas mais retas, alm ainda de no encrespar tanto a pedra 
nos gumes finos e afiados.
     Em poucos minutos, Droog estava com o novo instrumento pronto. Tinha uns 12 centmetros, com uma extremidade pontuda, gumes retos e cortantes, e era trabalhado 
em corte transversal, relativamente fino e com faces lisas, s um pouco marchetadas nos pontos de onde haviam sado as lascas. Um instrumento para ser empunhado 
e usado no corte de madeiras, tal como um machado ou como uma enx para escavar gamelas em troncos, podendo ainda ser utilizado para cortar marfim de mamutes, partir 
ossos e tudo quanto fosse uso que se pudesse dar a um instrumento afiado e bom para martelar.
     Era uma antiqussima ferramenta. Machadinhas semelhantes quela vinham sendo produzidas j h sculos pelos ancestrais de Droog. Uma forma das mais simples, 
das primeiras a ser imaginadas, e que continuava sempre til. Ele revirava a pilha de lascas, separando aquelas com gumes largos e retos. Poderiam ser usadas como 
cutelos para destrinchar animais e cortar peas de couro duro. A machadinha fora apenas um exerccio inicial de aquecimento. A ateno de Droog dirigia-se agora 
para outro ndulo de slex, um que fora selecionado por sua cristalizao particularmente boa. Este merecia uma tcnica mais elaborada e difcil.
     O ferramenteiro estava mais  vontade, no to nervoso e pronto a enfrentar o prximo trabalho. Ele ps entre as pernas um osso de p de ele fante para usar 
como bigorna. Sobre a parte plana deste, ele assentou o n dulo de pedra, segurando-o firmemente. Em seguida, pegou o martelo de pedra. Desta vez, enquanto lascava 
a parte externa da greda, ele, com muita aten o, ia modelando a pedra de modo a dar ao ncleo remanescente do slex uma forma toscamente ovalada e chata. Depois, 
virando uma das bandas e trocando para o martelo de osso, desbastou o topo, trabalhando na direo da beirada para o centro, fazendo toda a volta. Quando terminou, 
a pedra tinha um segundo oval esculpido sobre a base do primeiro.
     Droog, ento, parou por um instante. Envolveu o amuleto na mo, ficando de olhos fechados. Sorte e destreza eram necessrias aos decisivos passos seguintes. 
Espichou os braos, flexionou os dedos e pegou o martelo de osso. Ayla tinha a respirao suspensa. Ele queria remover uma pequena lmina de uma das extremidades 
do topo ovalado e chato, de modo a deixar um dente com superfcie perpendicular  lasca que ele queria remover. Uma plataforma de talhamento era necessria para 
isso, a fim de que a lasca sasse sem falhas e com os gumes afiados. Observou as duas extremidades da superfcie oval, escolheu a que usaria, mirou bem e vibrou 
um golpe certeiro, respirando aliviado ao ver desprender-se a pequena lmina. Droog segurou firme o ncleo em forma de disco sobre a bigorna e, avaliando com precis 
a distncia e o ponto de impacto, usou o martelo de osso para golpear o pequeno dente ali feito. Saiu do ncleo uma lasca perfeita. Tinha uma longa forma oval, bordos 
afiados, com uma das faces um tanto achatada e a outra, lisa, bulbide; era ligeiramente mais grossa na extremidade martelada, afinando-se em direo  extremidade 
oposta.
     Droog tornou a olhar o ncleo, girou-o e dele extraiu mais uma pequena lmina para formar uma plataforma, voltada para a extremidade da plataforma de talhamento 
anterior, e em seguida removeu uma segunda lasca pr- formada. Em poucos minutos, Droog havia talhado seis lascas e jogara fora o que sobrara do ncleo do silex. 
Todas tinham uma forma oval alongada com tendncia a estreitar-se na extremidade mais fina at tornar-se uma ponta. Examinou as lascas cuidadosamente e as disps 
em fila, prontas para receber o acabamento final que faria delas as ferramentas pretendidas. De uma pedra, quase do mesmo tamanho que aquela usada para fazer uma 
nica machadinha, ele conseguira com a nova tcnica, seis instrumentos de corte, podendo variar seu formato para atender s finalidades mais diversas.
     Com um pequeno instrumento de pedra redondo, ligeiramente achatado, Droog cortou, num dos lados, o gume afiado da primeira lasca, no s para definir as pontas,
mas sobretudo para tirar-lhe o fio, de modo a - um cabo que no cortasse a pessoa que fosse segur-la. Era um acabamento, no para afiar o j fino e bem amolado 
gume; ao contrrio, visava cegar a lasca, para que a pea pudesse ser manuseada com segurana. Ele fez uma avaliao crtica do trabalho, aparou algumas lasqunhas 
mais e, satisfeito, botou a faca de lado para pegar outra das lascas. Pelo mesmo processo, - uma segunda faca.
     A lasca seguinte escolhida por Droog era a maior e aquela provinda da parte mais prxima ao ncleo de forma ovalada. Um dos gumes era quase reto. Firmando a 
lasca contra a bigorna e fazendo presso com um pequeno osso, Droog foi extraindo diversos pedacinhos da borda da lmina, deixando nela uma srie de incises na 
forma de V. Cegou o lado oposto ao dentado, deu uma olhada final ao seu minisserrote, meneou a cabea em sinal de aprovao e o botou tambm de lado.
     Usando a mesma pea de osso, Droog retocou todo o lado cego de uma lasca menor e mais arredondada, a que deu uma forma acentuadamente convexa. Era um instrumento 
forte, quase cego para no quebrar facilmente com a presso feita na raspagem de madeiras ou cantos, alm de no danificar tambm as peles. Em outra lasca, ele fez 
uma profunda inciso em forma de V, no lado do fio. Esta seria especialmente til para moldar pontas de lanas de madeira. Por fim, na ltima lasca - que apresentava 
uma ponta aguda na extremidade fina, mas com os bordos um tanto cegos e ondulados - apenas tirou-lhe todo o corte e lhe deixou a ponta. O instrumento poderia ser 
utilizado como sovela para furar couros ou como verruma; nesse caso, para fazer furos em madeira ou osso. Todos os instrumentos de Droog eram fabricados de modo 
a ser empunhados com segurana.
     O arteso deu mais uma olhada na direo das ferramentas que acabara de fazer e, depois, fez um sinal a Ayla, que observava atentamente, mal ousando respirar. 
Ele lhe deu o raspador e uma das largas lascas afiadas que sobraram da fabricao da machadinha.
     - Voc pode ficar com essas. Elas podem ter alguma utilidade, se voc vier conosco na caada do mamute - gesticulou Droog.
     Os olhos de Ayla brilharam. Ela pegou as ferramentas, como se fossem os presentes mais preciosos desse mundo. E eram. Ser que vou ser escolhida para ir com 
os caadores nessa caada?, perguntou-se, sonhando. Ayla ainda no era mulher e, em geral, somente mulheres e crianas ainda mamando acompanhavam os caadores. Mas 
Ayla tinha o tamanho de uma mulher feita e j fora em algumas pequenas caadas no vero passado. Talvez eles me escolham, tomara que isso acontea, disse consigo.
     - Esta menina vai guardar as ferramentas at a caada do mamute. Se ela for escolhida para acompanhar os caadores, ir ento us-las pela primeira vez no mamute 
que mataro - falou Ayla.
     Droog fez um grunhido e, depois, sacudiu os pedacinhos e escamas de pedra que ficaram agarrados no couro que lhe cobria o colo. Sobre este, disps o martelo 
de pedra e o de osso, a bigorna de p de elefante, o osso e todas as ferramentas de pedra que usava para burilar. Enrolou o couro e o amarrou apertado com uma corda. 
Finalmente, reuniu os novos instrumentos e encaminhou-se para a cabana que dividia com as pessoas que habitavam sua fogueira. Por aquele dia chegava, embora a tarde 
ainda estivesse pelo meio. Em pouco tempo, produzira ferramentas de excelente qualidade e seria melhor no tentar muito a sorte.
     - Iza, iza! Olhe o que Droog me deu. E ele at me deixou ficar observando, enquanto trabalhava - disse Ayla correndo na direo da curandeira, carregando numa 
das mos as ferramentas e com a outra fazendo os gestos que Creb empregava para poder exprimir-se com um brao s. - Ele disse que os caadores vo caar um mamute 
no outono, por isso est fabricando as ferramentas que servem para fazer as armas especiais que vo ser usadas nessa caada. Voc acha que vou ser escolhida para 
ir com eles?
     - Talvez, Ayla. Mas no sei por que voc est to excitada. Isso s significa muito trabalho.  uma quantidade de gordura que se tem de botar para derreter 
e quase toda a carne  aproveitada e posta para secar. E voc no faz idia do quanto de gordura e carne existe num mamute. Voc vai ter de andar uma distncia enorne 
e na volta carregar todas essas coisas.
     - Oh, no me importo com o trabalho. Nunca vi um mamute, a no ser de longe, uma vez que estava no alto do morro. Eu tenho vontade de ir. Oh, Iza, tomara que 
eu v.
     - Os mamutes nunca andam muito para o sul. Eles gostam de frio. O vero aqui  quente demais e, no inverno, no podem pastar porque h muita neve. Mas h muito 
tempo que no como uma boa e suculenta carne de mamute. no existe nada melhor. Alm disso, a gordura serve para ser usada em muitas coisas.
     - Voc acha que vo me levar, me? - gesticulou Ayla, animada.
     - Brun no me falou de seus planos. Eu nem sabia que eles estavam indo. Voc sabe mais do que eu, Ayla - disse Iza. - Mas se Droog falou  porque deve existir 
alguma possibilidade. Acho que ele est agradecido por voc no ter deixado Ona morrer afogada, e a notcia e as ferramentas que lhe deu so uma maneira de dizer 
isso. Droog  tima pessoa. Voc tem sorte, Ayla. Ele acha que voc merece seus presentes.
     - Vou guardar as ferramentas at a caada. Eu disse a ele que s iria us-las nessa ocasio.- Boa idia, e voc disse a coisa que devia.


***

Captulo 14
     
     A caada do mamute planejada para o princpio do outono, quando os colossais animais de pele lanosa emigravam para o sul, mantinha o cl inteiro excitado. Todo 
mundo que fosse forte e robusto seria includo na expedio ao norte, no extremo da pennsula, prximo ao ponto em que esta se ligava ao continente. Durante o tempo 
em que estivessem fora, estariam excludas todas as actividades correlacionadas com caas que no fossem o trabalho de esquartejar o animal e lhe preparar a carne
e a gordura para serem trazidas  caverna. No havia a menor segurana de que, chegando ao local, fossem encontrar mamutes e, no caso de achar, de que eles fossem
ser bem-sucedidos. Apenas o fato de que, se tivessem sucesso, contariam com um gigantesco animal que lhes daria uma quantidade de carne suficiente para sustent-los 
por meses e uma bela proviso de gordura, to essencial  existncia, fazia com que considerassem vantajosa a idia.
     No princpio do vero, os caadores conseguiram uma proviso de caas muito maior do que a usual, de modo que havia carne suficiente para alimentar o cl por 
todo o inverno, isto , se fossem parcimoniosos. no poderiam dar-se o luxo de uma caada de mamute, se no estivessem bem abastecidos para a prxima estao de 
frio. No entanto, a reunio de cls se realizaria dentro de dois anos e, naquele vero, praticamente no se caava. Estariam viajando durante toda a estao. Primeiro, 
para a caverna do cl hospedeiro, onde se daria o importante acontecimento, l permanecendo por algum tempo, participando do grande festival e, depois, a viagem 
de volta. A longa histria desses encontros lembrou Brun de que ele devia botar por antecipao o cl armazenando os alimentos e fazendo os suprimentos que os manteriam 
no inverno seguinte  reunio. Foi essa a razo que o levou a decidir favoravelmente sobre a caada do mamute. Um bom estoque para o prximo inverno, somado a uma 
bem-sucedida caada os poriam na dianteira. Carne- seca, legumes, frutas e cereais, quando estocados de forma correta, poderiam facilmente aguentar dois anos.
     O clima de excitao no era apenas pela caada, havia tambm pairando no ar o sentimento latente, quase palpvel, do medo ao sobrenatural. O sucesso da caada 
dependia muito do fator sorte, e sinais de bom ou mau agouro eram vistos nas ocorrncias mais banais. Todos se mostravam extremamente cuidadosos em seus atos e, 
sobretudo, srios em relao a tudo que dizia respeito, ainda que muito remotamente, aos espritos. Ningum queria ser responsvel pelo azar provocado por algum 
esprito zangado. As mulheres chegavam ainda a ser mais cuidadosas do que os homens. Se uma comida queimasse, isso era certamente sinal de mau agouro.
     Cada fase do planejamento era acompanhada por cerimnias religiosas, com os homens em ardorosas splicas para conquistar as boas graas das foras invisveis 
que os rodeavam, e o Mog-ur andava ocupadssimo, decifrando a sorte e fazendo poderosos feitios. Tudo que sasse bem era tomado como bom sinal, e qualquer obstculo 
com que se deparassem era motivo para preocupao. O cl inteiro estava com os nervos  flor da pele, e Brun, desde a sua deciso, podia-se dizer que nunca mais 
tivera uma boa noite de sono, chegando algumas vezes quase a desejar jamais ter pensado nessa caada.
     Brun convocou uma reunio dos homens para discutir quem iria e quem ficaria. A proteo da caverna era outra importante questo a resolver.
     - Estive pensando na idia de deixar aqui um dos caadores - comeou o chefe a dizer. - Ficaremos fora pelo menos durante todo um ciclo da lua, talvez at dois. 
Isso  muito tempo para deixar a caverna desprotegida.
     Os caadores evitavam olhar para ele. Ningum queria ser excludo da caada. Todos tinham receio de dar de encontro com o olhar do chefe e, com isso, ser a 
pessoa escolhida para ficar.
     - Brun, voc vai precisar de todos os seus caadores - gesticulou Zoug. Minhas pernas podem j no ser bastante rpidas para caar um mamute, mas meus braos 
ainda tm fora para empunhar uma lana. A funda no  a nica arma que posso usar. A viso de Dorv est falhando, mas seus msculos no esto fracos e ele ainda 
no est cego. S para proteger a caverna, a maa e a lana dele ainda servem. Enquanto nossa fogueira estiver ardendo, nenhum animal vai chegar muito perto. Voc 
no precisa preocupar-se com a caverna. Ns podemos guard-la perfeitamente. Voc j tem muito em que pensar s com a caada do mamute. A deciso  claro, no pode 
ser minha, mas acho que voc deveria levar todos os caadores.
     - Concordo, Brun - acrescentou Dorv, inclinando-se para a frente e apertando um pouco os olhos. - Zoug e eu podemos proteger a caverna, enquanto vocs estiverem 
fora.
     Brun olhou primeiro para Zoug e depois para Dorv e, em seguida, para Zoug novamente. Ele no queria deixar nenhum dos caadores. no gostaria que nada pusesse 
em risco o sucesso da caada.
     - Voc tem razo Zoug - gesticulou Brun, por fim. - O fato de voc e Dorv no poderem caar mamutes no significa que no tenham fora bastante para proteger 
a caverna. O cl tem sorte de que os dois sejam ainda homens muito capazes e eu tambm tenho sorte, Zoug, que o segundo em comando do chefe que me antecedeu ainda 
esteja conosco para que eu aproveite de seus bons conselhos. - No fazia mal que de vez em quando o velho sentisse que ainda era til e apreciado.
     A tenso foi relaxada. Ningum seria deixado de fora. Sentiam pena de Zoug e Dorv que no poderiam compartilhar com eles da grande honra, mas, ao mesmo tempo, 
agradecidos aos dois velhos por ficarem guardando a caverna. Estava subentendido que o Mog-ur tambm no iria na excurso. Ele no era caador, mas Brun certa vez 
j vira o velho aleijado brandindo com fora seu pesado bordo para defender-se e, mentalmente, acrescentou o feiticeiro na lista dos guardies da caverna. Sem dvida, 
os trs podiam fazer to bem o servio quanto um nico caador.
     - Bem, agora sobre as mulheres. - Quais levaremos conosco? - perguntou Brun. - Ebra ir - acrescentou logo em seguida.
     - Ika tambm - falou Grod. - Ela  forte, tem prtica e no h crianas pequenas para cuidar.
     - , Ika  uma boa escolha - aprovou Brun. - E quanto a Obra - perguntou, olhando para Goov.
     O aclito concordou com a cabea.
     - Que tal Oga? - indagou, por sua vez, Broud. - Brac j anda e, daqui a pouco tempo, estar desmamado. Ele no vai tomar muito o tempo dela.
     Brun pensou por um momento.
     - No vejo por que no. As outras mulheres podem olhar o garoto, e Oga  boa de servio. Ns podemos us-la.
     Broud mostrava-se feliz. Ele gostava de saber que o chefe tinha sua com panheira em boa conta. Isso era um elogio  educao que ele dava  mulher.
     - Algumas mulheres tm de ficar para cuidar das crianas - gesticulou Brun. - Que tal Aga e Ika? Groob e Igra ainda so muito pequenos para fazer uma viagem 
to longe.
     - Aba e Iza podem ficar cuidando deles - opinou Crug. - Igra no d muito trabalho para Uka.
     A maioria dos homens queria ter as companheiras por perto, nas caadas que se prolongavam por muito tempo; assim, no precisavam depender da companheira dos 
outros para serv-los.
     - Sobre Ika, eu no sei dizer - comentou Droog. - Mas quanto a Aga, acho que ela gostaria de ficar desta vez. Ela tem trs crianas e mesmo que leve Groob, 
eu sei que Ona vai sentir sua falta. Mas Vorn gostaria de vir conosco.
     - Acho que ga e Ika devem ficar - resolveu Brun. - E Vom tambm. Ele no vai ter nada para fazer. Ainda no tem idade para caar e, por outro lado, no vai 
querer ajudar as mulheres, principalmente sem a me por perto para ralhar com ele. Ainda haver outras caadas de mamute para Vorn.
     O Mog-ur, que at ento se tinha conservado calado, achou que chegara sua vez de falar.
     - Iza est muito fraca para ir. Alm disso, precisa ficar para cuidar de Uba, mas no h razo para Ayla no ir.
     - Ela nem mulher ainda  - interps Broud. - E depois os espritos podem no gostar de uma estranha nos acompanhando.
     - Ela  forte e maior do que qualquer mulher - contraps Droog. - E tambm  boa para trabalhar, jeitosa com as mos e os espritos esto do lado dela. E a 
caverna? E Ona? 
     Acho que ela traz sorte para ns.
     - Droog tem razo Ayla  rpida no servio e tem tanta fora quanto qualquer mulher. Ela no tem criana para se preocupar e j possui uma certa prtica como 
curandeira. Isso pode nos ser til. Se bem que, se Iza estivesse mais forte, eu iria preferi-la. Mas Ayla vem conosco - gesticulou Brun, dando a questo por encerrada.
     Quando soube que tambm iria, Ayla ficou to excitada que no conseguia parar quieta. Enchia Iza de perguntas sobre o que deveria ou no levar, e nos ltimos 
dias antes de marcarem a data da partida, por diversas vezes fez e refez sua cesta.
     - Voc no precisa levar muita coisa, Ayla. Se a caada sair bem, voc vai ter muito mais peso para carregar na volta. Mas tenho aqui uma coisa para voc que 
eu acho que vai gostar de levar. Acabei de fazer.
     Lgrimas de alegria subiram aos olhos de Ayla, quando viu Iza estendendo a mo para lhe entregar uma sacola. Era feita com a pele inteira de uma lontra curtida 
com os seus plos e na qual haviam sido deixados intatos os ps, o rabo e a cabea. Iza tinha pedido a Zoug para arranjar-lhe uma e ela a havia mantido escondida 
na fogueira de Droog, inclusive na ignorncia de Aga e Aba.
     - Iza, uma sacola de medicamentos s para mim! - exclamou Ayla, abraando-a. 
     Imediatamente, sentou-se para arrumar em fila todos os pequenos saquinhos e embrulhos, tal como vira Iza fazer muitas vezes. Ela abria cada um, cheirava seu 
contedo e voltava a amarr-lo com o mesmo tipo de n que tinha antes.
     Era difcil diferenciar as muitas qualidades de ervas e razes secas s pelo cheiro, por isso aquelas particularmente perigosas vinham, em geral, misturadas 
com uma erva incua, mas de cheiro bem forte, a fim de evitar acidentes por distrao. O verdadeiro sistema de classificao se fazia atravs do tipo de cordo ou 
tira de couro que amarrava os pequenos sacos, e por uma intrincada combinao de ns. Certas classes de medicamentos eram amarradas com cordas feitas de crina de 
cavalo, outras com as de biso, ou ento cordes tecidos com plos de diferentes cores e texturas. Havia tambm os que eram amarrados com nervos, cordas vegetais 
e tiras de couro. Fazia parte da memorizao dos usos de uma determinada planta saber reconhecer o tipo de cordo e o sistema de ns empregado na amarrao do saco 
ou embrulho que a guardava.
     Ayla meteu os saquinhos na sacola grande e a amarrou na sua cintura, pondo-se a admir-la. Depois, tirou-a e a botou ao lado de sua cesta de colher, junto com 
as sacas que seriam usadas para trazer a carne do mamute. Estava tudo pronto. O nico problema preocupando era o que fazer com a funda. Ela no tinha por que lev-la 
e, por outro lado, deixando-a, estaria correndo o risco de Iza ou Creb encontr-la. Pensou em esconder na floresta, mas, ficando exposta ao tempo, poderia estragar-se 
ou ser apanhada por algum animal. Por fim, resolveu lev-la, bem escondida numa dobra da roupa.
     Na data da partida, o cl se levantou com o dia ainda escuro e se ps em marcha quando o cu comeava a clarear, mostrando as cores das folhas nas rvores. 
Mas j passando o morro a leste da caverna, os clares do sol nascendo tingiam de vermelho o horizonte, pondo um forte brilho dourado no feno crescido da extensa 
plancie embaixo, O grupo alcanou as estepes ainda com o sol baixo no cu. Brun ia a passos largos, quase to rapidamente como quando saa s com homens. As cargas 
das mulheres estavam leves, mas ainda desacostumadas com os rigores da jornada, elas tinham de apressar seus passos para poder acompanhar o ritmo da marcha.
     Caminhavam do nascer ao pr-do-sol, cobrindo uma distncia muito maior do que aquela que faziam quando todo o cl estava  procura da caverna. no cozinhavam, 
afora ferver gua para ch e, com isso, no se exigia muito das mulheres. Nenhum animal foi abatido durante o caminho. Ingeriam uma comida preparada para a viagem, 
a mesma que os homens costumavam levar em suas caadas: um pequeno bolo feito de carne-seca (moda como uma farinha grossa) misturada com gordura derretida e frutas 
secas. Era uma comida altamente concentrada, mais do que suficiente para suprir suas necessidades alimentcias.
     Fazia frio nos campos abertos e desprotegidos dos ventos, e mais frio foi ficando,  medida que caminhavam rumo ao norte. Contudo, pouco de pois de terem sado 
pela manh, comeavam a tirar algumas camadas de suas vestimentas. A marcha logo os esquentava, e s quando paravam, para pequenos descansos, sentiam a temperatura 
fria. Os msculos doloridos dos primeiros dias, sobretudo os das mulheres, deixaram de incomodar aps elas acertarem o passo e educarem as pernas, segundo o ritmo 
da viagem.
     O terreno da parte norte da pennsula era bastante acidentado. Vastos plats subitamente desapareciam em ngremes despenhadeiros ou iam limitar-se com penhascos 
quase perpendiculares, formados pelos retumbantes cataclismos na violenta terra dos primeiros tempos, sacudindo sua amarrao calcria. Estreitas gargantas eram 
paredes rochosos de superfcies dentadas: alguns, morrendo no ponto de convergncia dos penhascos e outros, dando em reas cheias de pedregulhos sados dos pontudos 
blocos de pedra no cho, que se haviam partido das muralhas nos arredores. De vez em quando, surgia um curso dgua, variando desde os riachos pequeninos e sazonais 
at os rios de guas caudalosas. Somente perto destes, quebrando a monotonia das estepes, cresciam alguns pinheiros retorcidos pelos ventos e uns tantos lanos e 
abetos, sufocados pelos salgueiros e vidoeiros que mais pareciam arbustos. Nos raros exemplos de gargantas que iam dar em vales frteis de guas, abrigados das constantes 
ventanias e supridos com bastante umidade,  que as conferas e as velhas rvores de pequenas folhagens se aproximavam de suas verdadeiras dimenses.
     A jornada transcorria rotineiramente calma. Por 10 dias haviam continuado com passo rpido e firme, quando ento Brun comeou a despachar seus homens para explorar 
as redondezas, e o grupo, por alguns dias, passou a progredir mais lentamente em sua marcha. Eles estavam prximos do istmo da pennsula. Se tivessem de encontrar 
mamutes, dentro de pouco tempo j deveriam comear a v-los.
     Pararam junto a um pequeno rio. Brun tinha enviado Broud e Goov no princpio da tarde, e o chefe, um pouco afastado dos outros, olhava na direo em que os 
dois haviam partido. Teria de decidir se acampariam ali, ao la do do rio, ou se seguiriam avante, s parando quando fosse hora de dormir. As sombras da tarde j 
comeavam a estender-se e, se os dois rapazes no voltassem logo, a deciso seria tomada por ele. Com os olhos estreitados, encarava diretamente O vento cortante 
que aoitava sua longa capa de couro, enro lando-a entre suas pernas e achatando no rosto a barba forte e cerrada.
     Pensou ver muito a distncia um movimento e, enquanto esperava, as figuras dos dois homens correndo foram aparecendo mais distintamente. Sentiu uma pontada 
de emoo Talvez fosse s intuio ou talvez o sentimento de estar bem afinado com a maneira de as pessoas de seu cl se locomoverem. Eles tambm viram sua figura 
solitria e se apressaram ainda mais na corrida, agitando os braos. Brun j sabia o que lhe diziam.
     - Mamute, mamute! - gritavam enquanto corriam nadireo do grupo.
     Todos se amontoaram em torno dos dois rapazes exultantes de alegria.
     - Uma imensa manada, seguindo para leste - gesticulou Broud, excitado.
     - A que distncia? - perguntou Brun.
     Goov apontou o brao reto para cima e depois fez com ele um meio ar co. A umas poucas horas era o que o gesto queria dizer.
     - Mostrem o caminho - gesticulou Brun, fazendo depois sinal para que os outros o seguissem.
     Ainda havia algumas horas de dia claro e eles poderiam aproveit-las para aproximar-se mais.
     O sol j descia no horizonte, quando viram a distncia uma mancha indistinta em movimento.  uma manada das grandes, pensou Brun, ordenando, ento alto. Tinham 
de arranjar-se com a gua que trouxeram da ltima parada; estava muito escuro para procurar por algum crrego ou riacho. No dia seguinte, arrumariam um lugar melhor 
para acampar. O mais importante  que os mamutes foram encontrados. Agora a coisa era com os caadores.
     Depois que o grupo se mudou para o novo acampamento junto de um riacho delimitado por uma dupla fileira de arbustos de tamanhos diversos ao longo das duas margens, 
Brun pegou os caadores e foram examinar de perto as possibilidades. Um mamute no era nenhum bisao ou animal que casse com pedras de boleadeiras. Para sua caa, 
tinha-se de imaginar outras tticas. Brun e seus homens foram fazer uma inspeo nas gargantas e desfiladeiros existentes na rea. O chefe procurava por um certo 
tipo especial de formao uma garganta com uma s sada, tendo o outro extremo obstrudo por rochas do mesmo tipo das que formavam as paredes laterais e no muito 
distante da manada que se locomovia vagarosamente.
     Cedo, na manh do dia seguinte, Oga, nervosa, sentou-se de cabea baixa na frente de Brun, enquanto Ovra e Ayla esperavam, ansiosas, atrs dela.
     - O que voc quer, Oga? - perguntou Brun, dando-lhe um tapinha no ombro.
     - Esta mulher quer fazer um pedido - comeou ela, hesitando.
     - E qual?
     - Esta mulher nunca viu um mamute. Nem Ovra, nem Ayla tambm. Nosso chefe permitiria que nos aproximssemos um pouco para ver melhor os bichos?
     - E Ebra e Ika tambm querem ver os mamutes?
     - Antes que vissemos aqui pedir, elas falaram que j viram muitos mamutes em suas vidas e que no tinham vontade de ir - respondeu Oga.
     - Elas so mulheres de juzo. Mas, enfim, as duas j viram muitos mamutes antes. Bom, como estamos a favor do vento, se vocs no perturbarem os animais e no 
chegarem muito perto e no andarem em volta deles...
     - Ns na vamos chegar muito perto - prometeu Oga.
     - , acho que no vo mesmo. Depois que botarem os olhos neles no vo querer chegar muito perto. Bem, podem ir - decidiu Brun.
     No fazia mal que as mulheres dessem um passeio, pensou ele. Por en quanto no h muito o que fazer e vo estar muito ocupadas dentro em pouco... se os espritos 
nos ajudarem.
     As trs ficaram excitadas com a perspectiva da aventura. Foi Ayla quem tinha conseguido convencer Oga a pedir, embora todas tivessem conversado longamente sobre 
o assunto. A viagem fez com que ficassem mais ntimas, dan do-lhes oportunidade para se conhecerem melhor. Ovra que, por natureza, era uma moa tranquila e reservada, 
havia sempre considerado Ayla como fazendo parte do grupo das crianas e no procurava sua companhia. Oga, por sua vez, no encorajava maiores aproximaes, sabendo 
como Broud se sentia em relao a Ayla e, para concluir, nem Oga nem Ovra achavam que tinham muita coisa em comum com a estranha garota. Elas eram mulheres, vivendo 
com seus companheiros, adultas e donas das fogueiras de seus homens. Ayla no passava de uma criana e no tinha as mesmas responsabilidades delas.
     Foi somente naquele vero, quando Ayla assumiu a condio de quase- adulta e que comeou a ser levada nas excurses de caa,  que as mulheres passaram a consider-la 
como alguma coisa mais do que criana e, sobretudo, na caada agora do mamute. Ayla era mais alta do que qualquer mulher, o que lhe dava uma aparncia adulta e,
sob muitos aspectos, era tratada como mulher pelos caadores. Principalmente Droog e Crug estavam sempre utilizando os seus servios. Suas companheiras haviam ficado
na caverna e Ayla era sozinha, desse modo os seus pedidos eram dirigidos diretamente a ela, sem precisar da permisso de um outro homem, o que, embora informalmente, 
costumava-se fazer. Com o interesse comum da caada, uma relao  de maior camaradagem comeou a formar-se entre as trs. At ento foram Iza, Creb e Uba as pessoas 
com quem Ayla sempre havia mantido contato mais ntimo, e agora estava tendo grande prazer com suas novas amizades.
     Pouco depois de os homens haverem sado pela manh, Oga deixou Brac com Ebra e Ika, e as trs saram para o passeio. Era uma caminhada agradvel. Logo estavam 
conversando animadamente, fazendo rpidos movimentos com as mos misturados com sons para enfatizar os gestos. Quando comearam a se aproximar dos mamutes, a conversa 
foi decaindo, at que ficaram completamente mudas. Pararam olhando de boca aberta os animais, cada um deles com um corpanzil colossal.
     O mamute, com sua pele coberta de l estava bem adaptado ao duro clima periglacial de seu meio ambiente. Tinha um couro grosso revestido por uma camada de plos 
densos e macios,  qual se sobrepunha uma cabeleira la nuda, num tom marrom-avermelhado, de mais de 50 centmetros de comprimento. Para maior proteo, possua ainda 
uma camada subcutnea de gordura com cerca de oito centmetros de espessura. O frio havia provocado tambm modificaes em sua estrutura fsica. Era um animal compacto 
em relao aos outros de sua espcie e media em mdia trs metros de altura, a contar da cemelha. Possua volumosa cabea, proporcionalnente grande em relao  
altura global - chegando a ter mais da metade do comprimento da tromba - e que se erguia dos ombros numa curvatura extremamente pronunciada. Tinha orelhas pequenas, 
rabo curto e uma tromba relativamente tambm pequena, com dois dedos na extremidade, um deles pouco mais acima do que o outro. De perfil, mostrava uma profunda reentrncia 
na nuca de forma abaulada e a corcova de gordura sobre a cemelha. As costas formavam uma descida forte at a pelve e as pernas traseiras, mais curtas do que as dianteiras. 
Mas o que tinha de realmente impressionante eram as presas longas e recurvas.
     - Olhe aquele ali! - disse Oga, apontando para um velho macho. As presas de marfim, nascendo uma junto da outra, desciam abrindo-se numa grande curva para subir 
outra vez, cruzando-se na frente dele, medindo em total uns Cinco metros.
     O mamute ceifava com sua tromba um monto de ervas e capim, uma forragem dura e seca que metia de uma s vez na boca e quebrava como se ele possusse uma possante 
grosa para triturar. Um outro, mais jovem, cujas presas no eram to longas, por isso ainda teis, arrancou um p de lano e se ps a desmantelar os pequenos galhos 
e a casca.
     - So muito grandes - gesticulou Ovra, tendo um estremecimento - Nunca pensei que um animal pudesse ser desse tamanho. Como vo conseguir matar um deles? no 
podem nem mesmo atingi-los com uma lana.
     - No sei - respondeu Oga, igualmente apreensiva.
     - Chego quase a desejar que a gente no tivesse vindo - falou Ovra. - Vai ser uma caada perigosa. Algum pode sair ferido. O que vou fazer, se alguma coisa 
acontecer a Goov?
     - Brun deve ter algum plano - disse Ayla. - Imagino que ele nunca iria tentar uma coisa dessas, se no achasse que os homens pudessem fazer. Gostaria de poder 
ficar vendo - acrescentou ela, com ar pensativo.
     - Eu no - falou Oga. - Nem perto quero estar. Simplesmente vou ficar feliz quando tudo isso acabar. - Lembrou-se de que o companheiro de sua me morrera num 
acidente de caa, pouco antes de o terremoto levar- lhe a me. Por melhor que fossem os planejamentos, ela estava bem consciente dos perigos.
     - Acho que deveramos voltar - disse Ovra. - Brun no queria que agente chegasse to perto. Estamos bem mais perto do que eu pretendia.
     As trs se viraram para ir embora. Ayla ainda deu algumas olhadas por Cima do ombro enquanto se afastavam. No caminho de volta, estavam mais si lenciosas, cada 
uma perdida em seu pensamento, sem muito nimo para conversas.
     Quando os homens voltaram, Brun deu ordem s mulheres que levantassem o acampamento e se mudassem aps os caadores haverem sado na manh do dia seguinte. 
Elas teriam de ir para algum ponto, fora do campo de ao deles. Na vspera, ele vira o desfiladeiro que procurava. Era o lugar ideal,embora longe dos mamutes. A 
manada, no entanto, caminhava vagarosamente na direo sudoeste e ele viu nisso um sinal de bom pressgio, pois, ao fim do segundo dia, os animais estariam suficientemente 
perto do lugar, tornando-o exequvel para o que tinha em vista.
     Uma neve fina e seca aoitada pelas rajadas de ventos do leste saudou o bando de caadores quando eles, sados de suas aconchegantes peles, meteram os narizes 
do lado de fora das pequeninas tendas. O cu cinza e melanclico no conseguiu arrefecer os nimos excitados pela expectativa. Naquele dia, iriam  caa do mamute. 
As mulheres se apressavam em fazer o ch. Como todo bom atleta se preparando para o embate final, eles tambm no comeriam nada. Exercitavam-se caminhando em crculo 
com passadas firmes e fortes, e davam estocadas no ar com suas lanas, para esticar e relaxar os msculos. A tenso que exalavam era sentida na atmosfera.
     Grod pegou uma brasa acesa da fogueira e meteu-a dentro do chifre do auroque atado  sua cintura. Goov pegou outra. As peles estavam enroladas bem seguras em 
seus corpos. no as pesadas mantas costumeiras, mas uma vestimenta mais leve que no lhes restringisse os movimentos. Ningum sentia frio. Estavam superexcitados. 
Brun, pela ltima vez, passou rapidamente em revista o plano.
     Cada um fechava os olhos, segurava no amuleto, pegava uma tocha apagada, preparada na vspera, e depois saa. Ayla observava com vontade de ter coragem bastante 
para segui-los. Depois, foi juntar-se s outras mulheres que, antes de levantar o acampamento, foram catar capim seco, esterco e madeira para as fogueiras.
     Os homens logo alcanaram a manada. Os mamutes, aps o descanso da noite, j haviam comeado sua lenta marcha. Os caadores se puseram agachados em meio  relva 
crescida, enquanto Brun fazia uma estimativa dos animais passando. Ele reparou no velho macho com suas imensas presas recurvas. Este seria um belo animal, disse 
consigo, mas depois abandonou a idia. Eles tinham um longo caminho de volta e os marfins iriam pesar desnecessariamente. Um que fosse mais jovem, alm de ter a 
carne mais tenra, possua tambm presas mais fceis de ser transportadas. Isso era mais impor tante do que a glria de ostentar presas colossais.
     No entanto, os jovens machos eram mais perigosos. Suas presas no s serviam para escavar rvores, como tambm se constituam em poderosas armas. Brun esperava 
pacientemente. no havia feito todos aqueles preparativos e uma longa viagem para, no ltimo momento, precipitar-se idiotamente. Sabia exatamente o que procurava, 
e antes voltar no dia seguinte do que pr em risco suas chances de sucesso. Os outros caadores tambm esperavam, nem todos com a mesma pacincia.
     O sol surgiu, espalhando as nuvens e pondo um pouco de vida no cu, antes sombrio e melanclico. A neve havia parado, deixando ver a luz brilhante nos espaos 
abertos.
     - Quando Brun vai dar o sinal? - gesticulou Broud para Goov. - Veja como o sol j vai alto. De que adiantou sair to cedo para ficar aqui parado? O que ele 
est esperando?
     Grod viu os gestos de Broud.
     - Brum est esperando pelo momento certo. O que voc prefere, voltar de mos vazias ou esperar um pouco mais? Seja mais paciente e aprenda, Broud. Algum dia 
ser sua vez de decidir sobre o momento de dar o sinal. Brun  bom chefe e bom caador. Voc tem sorte de ter um homem como ele para ensin-lo. Coragem s no basta 
para ser chefe.
     Broud no gostou muito do sermo de Grod. Este, quando eu for o chefe, pensou o rapaz, nunca ir ser o meu segundo em comando. Alm do mais, est ficando muito 
velho. Broud mudou de posio teve um arrepio sentindo o vento frio e se ajeitou para esperar.
     O sol j estava alto no cu, quando Brun finalmente fez o sinal: Preparem-se! Todos os caadores sentiram uma pontada por dentro. Uma fmea, pesada e com uma 
cria na barriga, estava na periferia da manada e se afastando do bolo. Era bastante nova, mas pelo comprimento das presas aquela no deveria ser sua primeira gravidez. 
J estava muito adiantada nos meses e por isso muito pesada. Iria faltar-lhe agilidade e rapidez, alm de que a carne do feto seria tambm um belo prmio extra.
     A fmea buscava uma grande moita de capim que os outros animais ainda no tinham visto. Por um instante, ficou sozinha, longe da proteo da manada. Era um 
momento por que Brun esperava. Deu o sinal.
     Grod j estava com a brasa do lado de fora e a tocha a postos. No momento em que viu o sinal de Brun, segurou a tocha junto da brasa e se ps a soprar at formar 
as labaredas. Droog acendeu nesta primeira duas outras, dando uma a Brun. Os trs caadores mais jovens, no instante do sinal, haviam corrido na direo do desfiladeiro. 
Seriam postos em jogo mais tarde. Logo que as tochas se acenderam, Brun e Grod correram atrs da fmea e tocaram fogo no capim seco.
     Os mamutes, depois de adultos - fora o homem - no tinham inimigos naturais. S os muito pequenos e muito velhos podiam cair nas garras de algum predador. Mas 
tinham medo do fogo. Os incndios nos campos, devi dos a causas naturais, s vezes alastravam-se de forma incontrolvel, fazendo durante dias estragos incomensurveis. 
E aqueles provocados pelo homem no eram menos desvastadores. No instante que percebeu o perigo, a manada instntivamente se juntou. O fogo teria de alastrar-se rpido 
para que a fmea no pudesse juntar-se aos demais. Brun e Grod achavam-se entre ela e a manada.
     Poderiam correr numa ou noutra direo, ou ser apanhados por um monstruoso estouro.O cheiro da fumaa transformou aqueles animais sempre mansos e por excelncia 
herbvoros numa massa infernal de barrito enlouquecidos. A fmea se virou na direo da manada, mas era tarde demais. Tinha uma parede de fogo a separ-la. Ela clamava 
por socorro, mas o vento do leste havia aberto um leque de chamas convergindo sobre os pobres animais. J iam em debandada, rumo a oeste, tentando deixar para trs 
as chamas que rapidamente tomavam conta do terreno. Os incndios nas pradarias eram incontrolvel mas isso, para os homens, no se constitua motivo de grandes preocupaes. 
Os ventos se encarregariam de levar as chamas para bem longe do lugar que pretendiam ir.
     A elefanta, berrando de medo, ia aos trambolhes na direo leste. Droog esperou que as chamas se espalhassem para ento agir. Quando percebeu que o animal 
se dispunha a investir, ele correu em sua direo, aos gritos e agitando a tocha, fazendo-o virar-se para sudoeste.
     Crug, Broud e Goov, mais jovens e rpidos, iam em disparada na frente. Tinham medo de que, mesmo com a dianteira que levavam, a elefanta, em sua fria, pudesse 
ultrapass-los. Brun, Grod e Droog corriam atrs, tentando manter a distncia que os separava e esperando que ela no mudasse de rumo. Mas, uma vez dada a partida, 
o animal correu sempre em frente, inteiramente s cegas.
     Os rapazes chegaram  garganta que iria servir de alapo. Crug entrou nela. Broud e Groov pararam junto ao paredo sul. Nervosos e sem flego, Goov pegou o 
chifre de amoque, fazendo uma prece muda para que o carvo estivesse aceso. Estava. Mas nenhum dos dois tinha bastante flego para soprar a brasa na tocha. O vento 
ajudou. Acenderam duas tochas e cada um pegou uma, dirigindo-se em seguida para o paredo, tentando antecipar-Se ao mamute. no tiveram de esperar muito. Rezando 
a seus totens, partiram, agitando as tochas, para cercar pela frente o gigantesco animal que, berrando aterrorizado, vinha para cima deles. Era uma tarefa difcil 
e perigosa a de dirigi-lo para o interior da garganta.
     A elefanta, que em pnico j vinha fugindo do fogo numa corrida alucinada, ao sentir o cheiro de fumaa na sua frente, desviou-se, avanando pesadamente na 
direo da garganta, com Broud e Goov em seu encalo. Soltando berros de medo, ela foi atravessando o terreno-que se estreitava adiante dela, at que teve seu caminho 
barrado. Sem poder avanar ou girar o enorme corpanzil no reduzido espao, ela urrou toda a sua frustrao.
     Broud e Good corriam a todo flego. Na mo, Broud levava uma faca, daquelas cuidadosamente esculpidas por Droog e enfeitiada pelo Mog-Ur e, com presteza e 
coragem, apanhou a pata esquerda traseira, cortando-lhe os tendes. Um estridente grito de dor varou o ar. O animal no podia ir para a frente, no podia fazer a 
volta e, agora, tambm no podia mais andar para trs. Goov seguiu Broud, aleijando a outra pata. O enorme mamute caiu sobre os joelhos.
     Crug saltou, ento, de trs de um bloco de pedra e enfiou diretamente sua comprida lana pela boca do animal que urrava de dor com o corpo oscilando. Vomitando 
sangue sobre Crug, agora desarmado, instintivamente, a elefanta ainda tentou esboar um ataque. Mas Crug no ficou por muito tempo desprotegido. Outras lanas haviam 
sido escondidas atrs das rochas e, quando Crug pegou uma delas, Brun, Grod e Droog j haviam alcanado a garganta em sua extremidade bloqueada. Pulando sobre as 
pedras, os trs foram ladeando o animal ferido e lanando quase simultaneamente suas lanas sobre ele. A de Brun penetrou num dos olhos, provocando um esguicho de 
sangue rubro e quente. O animal cambaleava. Num ltimo assomo de vida, soltou um berro desafiador e depois tombou definitivamente.
     A compreenso se fez aos poucos. De repente, abateu-se um silncio. Os homens, exaustos, limitavam-se a olhar uns para os outros. Os coraes batiam apressados, 
mas agora por outras emoes. Uma fora indistinta, primitiva, sada das profundezas de seus seres, foi em crescendo at explodir na forma do grito de vitria. Eles 
o haviam conseguido! Tinham matado o todo-poderoso mamute!
     Seis homens, comparativamente fracos e insignificantes, valendo-se de destreza, inteligncia, coragem e esprito de cooperao haviam matado um gigantesco animal, 
fora do alcance de qualquer outro predador. Pouco importava o quanto fossem mais velozes, fortes ou manhosos, nenhum caador de quatro patas jamais conseguiria igualar-se 
a eles. Broud pulou para cima da pedra onde se achava Brun, saltando em seguida sobre o animal. Num instante, Brun veio ficar a seu lado, dando-lhe calorosas palmadas 
sobre o ombro. Depois, arrancou sua lana do olho do mamute, segurando-a bem para o alto. Os outros quatro vieram, rpidos, juntar-se a eles e, ao ritmo das batidas 
de seus coraes pulavam de alegria, danando em cima do dorso colossal do mamute vencido.
     Brun, por fim, saltou e andou em roda do animal, que praticamente ocupava todo o espao. Nenhum homem ferido. Nem sequer um arranho. Uma caada realmente de 
sorte. Os totens deveriam estar contentes com eles.
     - Devemos deixar que os espritos saibam que estamos agradecidos - falou. - Quando voltarmos, o Mog-ur vai celebrar uma cerimnia especial. Bem, agora vamos 
tirar o fgado e cada homem ter o seu pedao e levaremos tambm um pedao para Zoug, Dorv e o Mog-ur. O resto ser dado ao esprito do mamute. Foi o que o Mog-ur 
me disse para fazer. Vamos enterrar aqui, no lugar onde ela caiu, e tambm o fgado do filho que est em sua barriga. OMog-ur disse para no tocarmos no crebro, 
que deve ser deixado onde se encontra a fim de que seu esprito possa guard-lo. Quem acertou o primeiro golpe, Broud ou Goov?
     - Broud - respondeu Goov.
     - Ento cabe a ele o primeiro pedao do fgado. Mas a caa  mrito de todos.
     Broud e Goov foram enviados para buscar as mulheres. Dando uma virada final, os homens terminaram sua tarefa. Daqui por diante, seria com as mulheres. A elas, 
caberia o tedioso servio de esquartejar o animal e trabalhar as carnes para serem conservadas. Enquanto esperavam, eles retiraram as vsceras e o feto, quase totalmente 
formado. Quando as mulheres chegaram, eles ainda as ajudaram a remover a pele. O animal era grande demais, exigindo o esforo de todos. As partes principais e preferidas 
seriam guardadas nos esconderijos sob as pedras para a congelarem. O resto das carnes seria colocado ao redor das fogueiras, no s para impedir que se congelasse, 
como tambm para afastar os animais que poderiam vir atrados pelo cheiro do sangue e da carne crua.
     Cansados, mas felizes, foram dormir aquela noite sobre suas aconchegantes peles, satisfeitos de comer carne fresca pela primeira vez, desde que haviam sado 
da caverna. Pela manh, enquanto as mulheres trabalhavam, os homens se reuniram para reviver as emoes da caada e admirar cada um a coragem do outro. Havia um 
riacho perto, mas a uma certa distncia da garganta, o que dificultava o trabalho. Entretanto, uma vez que os quartos do animal estivessem separados, eles se mudariam, 
deixando somente alguns ossos com uns poucos pedaos de carne agarrados para os predadores que rondavam tanto no cu como nas reas prximas.
     O cl aproveitava quase todas as partes do animal. Do couro, poderiam fazer-se calados, muito mais resistentes e duradouros do que aqueles feitos da pele de 
outros animais; cortina para quebrar o vento na entrada da caverna, vasilhames de cozinha, tiras fortes para amarrar e barracas. A macia camada lanosa podia ser 
transformada numa espcie de feltro, usado para enchimento de travesseiros, colches e at mesmo como absorventes, forrando os cueiros dos bebs. Da crina comprida, 
dos tendes e dos msculos faziam-se resistentes cordas. A bexiga, o estmago e os intestinos poderiam ser usados como recipientes de gua, vasilhas para sopa, sacos 
para armazenar comida e at mesmo como um impermevel para ser usado nos dias de chuva. Pouca coisa se perdia.Mas alm da carne e das outras partes, a gordura era 
particularmente fundamental  vida deles. A gordura reconstitua o equilbrio das calorias necessrias para alimentar suas exigncias energticas, tanto para mant-los 
aquecidos no inverno, como para sustentar suas intensas actividades do vero Alm disso, era usada na curtio de couros, j que vrios animais que caavam - cavalos, 
veados, coelhos, pssaros e auroques ou bises, todos animais herbvoros - eram essencialmente magros; servia de combustvel para lamparinas de pedra que iluminavam 
e aqueciam os ambientes; tinha emprego nas impermeabilizaes; funcionava como veculo para pomadas, unguentos e emolientes; ajudava a lenha molhada a pegar fogo 
e a manter as tochas acesas, servindo como combustvel na ausncia de outros materiais incandescentes. Os usos da gordura eram, portanto, diversos.
     Todos os dias, enquanto as mulheres trabalhavam, os homens ficavam observando o cu. Se o tempo se mantivesse claro, a carne dentro de uns sete dias estaria 
seca, para o que concorriam tambm os ventos soprando ininterruptamente. no havia necessidade da fumaa das fogueiras, fazia frio e as varejeiras no viriam estragar 
a carne. Como estava, ia tudo muito bem. O combustvel l era muito mais difcil do que nas encostas, cobertas de mata ou mesmo nas plancies ao sul, mais quentes 
e com maior quantidade de rvores. Se o cu estivesse sombrio, com nuvens intermitentes e chuvas, as finas tiras de carne levariam trs vezes mais tempo para secar. 
Uma ligeira neve pulvurenta batida pelas rajadas de vento no se constitua em grande problema. O ruim seria tempo mido com um calor extemporneo; ento sim, o 
trabalho praticamente parava. Precisavam de tempo seco, claro e frio. A nica maneira de transportar a montanha de carne que possuam era com ela seca.
     A pesada e cabeluda pele era limpa de sua grossa camada de gordura e dos vasos sanguneos, nervos e folculos. Grossas placas de gordura endurecida eram postas 
sobre as fogueiras em grandes vasilhames de couro e a se derretiam para ser despejadas dentro das tripas j limpas, que depois de amarradas ficavam como gordas 
salchichas. O couro ainda com o plo era dividido em pedaos com os quais se faziam rolos portteis, deixados ao tempo para endurecer. Mais tarde, durante o inverno, 
depois de retirados os plos, seria posto para curtir. As presas foram partidas e orgulhosamente exibidas pelo acampamento. Tambm seriam levadas com eles.
     Durante o dia, enquanto as mulheres trabalhavam, os homens, ou saam para trazer pequenas caas, ou se deixavam ficar por ali, observando vagamente. A mudana 
para a vizinhana do rio se, por um lado, lhes foi conveniente, por outro, trouxe um problema mais difcil de ser remediado. Os animais, atrados pela carne fresca, 
os haviam seguido at o novo local. As tiras de carnes penduradas nas cordas e correias de couro precisavam de vigilncia constante, principalmente contra uma enorme 
hiena sarapintada que era de uma persistncia fora do comum. Diversas vezes fora escorraada, mas teimava em ficar rondando pela periferia do acampamento e escapando 
das tentativas para mat-la, levadas sem grande empenho. Era astuto bastante para conseguir abocanhar muitas vezes por dia bons nacos de carne. Representava um constante 
prejuzo.
     Ebra e Oga, atarefadas, cortavam em tiras os ltimos pedaos de carne que iriam ser postos a secar. Ika e Ovra despejavam gordura dentro das tripas e Ayla estava 
no riacho lavando outras tantas. Uma crosta de gelo j se havia formado nas margens, mas a gua continuava correndo. Os homens, num grupo, discutiam se iriam ou 
no sair com suas fundas para caar alguns pequenos roedores.
     Brac achava-se sentado perto da me e de Ebra, brincando com algumas pedrinhas; depois, cansado, levantou-Se procurando algo mais interessante para fazer. As 
mulheres, inteiramente concentradas no trabalho, no viram quando ele se afastou, mas outros olhos o estavam vigiando.
     De repente, todas az cabeas se voltaram na direo do grito agudo e aterrorizado do menino.
     - Meu filho! - gritou Oga. - A hiena pegou o meu filho!
     Aquela repulsiva criatura, sempre pronta a atacar jovens incautos e velhos indefesos, havia apanhado Brac pelo brao e rapidamente batia em retirada arrastando 
consigo a pequenina criana.
     - Brac! Brac! - gritou Broud correndo atrs, seguido dos outros homens. Estava longe demais para usar a lana. O rapaz pegou sua funda e se agachou procurando 
s pressas uma pedra, antes que o animal sasse do alcance.
     - Oh, no no - gritou desesperado, quando viu a pedra cair a uma pequena distncia do alvo pretendido e a hiena ir-se afastando. - Brac! Braaac!
     Subitamente, partido de outra direo o barulho de duas pedras atiradas uma atrs da outra. Os projteis pegaram em cheio a cabea do animal que tombou no cho.
     Broud, que estava estupefato, de boca aberta, mais ainda ficou ao ver Ayla sair correndo na direo de Brac, que gemia de dor. A garota tinha a funda na mo 
e mais duas pedras prontas para ser atiradas. A hiena era, por excelncia, a sua presa. Ela havia estudado esses animais, conhecia-lhes os hbitos e seus pontos 
fracos, e tanto se esmerara na sua caa que esta se convertera numa segunda natureza para ela. Quando ouviu o grito de Brac, no mediu as consequncias, muito naturalmente 
pegou na funda e em duas pedras para atirar. A mica coisa que pensou foi em impedir a hiena de arrastar Brac para longe.S depois que retirou a criana das garras 
do animal morto e que virou o rosto, vendo os olhares de assombro,  que ela sentiu o impacto do gesto. O segredo fora revelado. Ela mesma se entregara. Agora, sabiam 
que a garota podia caar. Uma onda de medo correu-lhe pelo corpo. O que ser que vo fazer comigo?, perguntou-se.
     Ayla ps o menino no colo e, evitando os olhares que pareciam no acreditar no que viam, dirigiu-se ao acampamento. Oga foi a primeira a se recuperar do choque. 
Saiu correndo com os braos estendidos e, agradecida, pegou o filho do colo da garota que o salvara. Logo que chegaram ao acampamento, Ayla ps-se a examinar a criana, 
no s para no ter de enfrentar os olhares das pessoas, como tambm para ver a extenso do ferimento. O ombro e a parte superior de um dos braos ficaram muito 
machucados, mas parecia ser uma fratura simples.
     Ela nunca havia posto um brao no lugar, mas j vira Iza faz-lo, e esta lhe tinha explicado como agir em casos de emergncia. Iza, entro, pensava estar-se 
referindo aos caadores, jamais poderia ocorrer-lhe que alguma coisa pudesse acontecer com o menino. Ayla atiou o fogo, comeou a botar gua para ferver e foi buscar 
sua sacola de medicamentos.
     Os homens continuavam em silncio, ainda atnitos, sem poder ou querer aceitar o que haviam presenciado. Pela primeira vez na vida, Broud sentiu- se grato a 
Ayla. Seu pensamento, entretanto, no ia alm da sensao de alvio pelo fato de o filho de sua companheira ter sido salvo de uma morte certa e pavorosa. Mas o de 
Brun enxergava mais longe.
     Ele cedo percebeu as implicaes do ato de Ayla, vendo-se de repente diante de uma deciso impossvel. Pela tradio - que na prtica tinha o valor de lei - 
o castigo para qualquer mulher que usasse armas seria nada menos do que sua condenao  morte. Isso estava bem explcito. no havia qualquer atenuante para atender 
circunstncias extraordinrias. Um costume to antigo e to aceito que, pelo que se podia lembrar, h muitas geraes no era aplicado. s lendas a que se referiam 
essa tradio estavam associadas quelas do tempo em que as mulheres detinham o controle de acesso ao mundo dos espritos, antes de os homens assumirem o poder.
     O costume era uma das foras que marcava bem a diferena entre os homens e as mulheres dos cl j que uma mulher com gosto pela caa, coisa essencialmente masculina, 
no poderia viver. H sculos que somente as mulheres com atitudes e comportamento nitidamente femininos  que tinham direito a viver. Em consequncia, a faculdade 
de adaptao - aquilo de que verdadeiramente dependia a sobrevivncia - se viu diminuda. Mas tal era o costume ou lei vigorando nos cl apesar de que nunca mais 
tivesse existido um comportamento feminino desviante. S que Ayla no era genuinamente filha dos cl.
     Brun adorava o filho da companheira de Broud. Apenas junto de Brac, abria um pouco sua rgida guarda. O beb podia fazer o que quisesse; puxava- lhe a barba, 
metia os dedos curiosos em seus olhos, s vezes at chegava a vomitar sobre ele. Nada tinha importncia. Jamais Brun se mostrava to complacente como quando o garotinho 
adormecia em paz, confiante na segurana dos braos do orgulhoso chefe. Ele no tinha dvida de que Brac no estaria vivo, se no fosse por Ayla. Como poderia condenar 
 morte a menina que tinha salvo a vida de Brac? Eo salvou com a arma que agora era a causa de sua condenao  morte.
     Como teria ela conseguido? perguntava-se, curioso. O animal estava fora do alcance e ela ainda se achava mais distante do bicho do que os homens. Ele foi at 
onde a hiena jazia morta e tocou no sangue que corria dos ferimentos. Mas, o que  isso? Dois ferimentos? Ento os seus olhos no o haviam enganado? Ele realmente 
no momento achara ter visto duas pedras sendo disparadas. Como teria ela conseguido aprender a manejar a funda com aquela mestria? Nem Zoug ou ningum de quem soubesse 
era capaz de atirar duas pedras com tanta rapidez e com tanta pontaria e fora. Uma fora capaz de matar uma hiena daquela distncia!
     Alm disso, ningum jamais usara funda para matar hienas. Logo que viu a tentativa de Broud, sabia que seria um gesto intil. Zoug sempre afirmara que aquilo 
poderia ser feito, mas Brun particularmente tinha suas dvidas. Ele nunca contradizia Zoug que continuava sendo um bem muito precioso para o cl e nem por sombra 
seria o caso de desacredit-lo. Bem, Zoug provou agora que estava certo. E ser que uma funda podia tambm matar um lobo ou um lince como Zoug atestava com tanta 
convico Brun fazia suas conjeturas. De repente, arregalou os olhos e os estreitou em seguida. Um lobo? Um lince? Ou um carcaju, um texugo, um furo, uma ona ou 
uma hiena? A cabea de Brun trabalhava depressa. Ou todos aqueles predadores que ultimamente eram encontrados mortos?
     Claro! Ele fazia gestos enfatizando o pensamento. Foi ela quem fez aquilo tudo! Ayla j vem caando h muito tempo. Se no como teria arrumado uma pontaria 
destas? No entanto, ela aprendeu todos os servios que uma mulher faz com muita facilidade, como ento conseguiu aprender a caar? E por que predadores? E por que 
logo os perigosos? E por que tudo isso?
     Se ela fosse homem, seria a inveja de todo caador. S que no  homem.  mulher, usou uma arma e por isso deve morrer; do contrrio, os espritos ficaro furiosos. 
Mas se ela est caando h tanto tempo, por que ainda no ficaram furiosos? Justamente o que eles no tm no momento  raiva. Acabamos de matar um mamute numa caada 
to perfeita que nem um s homem saiu ferido. Os espiritos esto contentes conosco e no furiosos.
     Brun, confuso, balanou a cabea sem compreender. Espritos! Nunca vou entend-los. S desejava que o Mog-ur estivesse aqui. Droog diz que ela nos traz sorte. 
Quase chego a acreditar que ele tem razo As coisas nunca andaram to bem para ns como desde que a menina foi encontrada. Mas, se eles esto de seu lado, ser que 
no ficariam desgostosos, se ela fosse condenada  morte? Ele se desesperava. Por que tinha ela de ser achada logo pelo meu cl? Ayla pode significar sorte, mas 
j me deu mais dores de cabea do que todo mundo junto. no posso tomar qualquer deciso antes de falar com o Mog-ur. No tenho nada a fazer, sem esperar at a volta 
 caverna.
     Brun retornou ao acampamento. ayla dera ao garoto um remdio contra a dor que o fez dormir. Em seguida, limpou os machucados, botou o brao no lugar e fez uma 
tala com cascas midas de vidoeiro. Quando secassem, ficariam duras e tesas, firmando os ossos no lugar. Mas teria de ficar sob observao para o caso de o brao 
inchar demais. Viu quando Brun voltou, depois de examinar a hiena, e tremeu de medo. Mas o chefe passou por ela sem fazer o menor sinal, ignorando-a completamente. 
A garota percebeu que no ficaria sabendo de seu destino, enquanto no voltassem  caverna.
     

***

Captulo 15
     
     Enquanto o bando de caadores caminhava para o sul, parecia que as estaes do ano estavam andando de trs para a frente. Nuvens ameaadoras e o cheiro de neve 
haviam apressado a partida. Eles no tinham o menor desejo de ser apanhados pela primeira nevasca de inverno no norte da pennsula. O tempo mais quente na extremidade 
sul dava a falsa sensao de primavera se aproximando, trazendo uma certa distoro mental. S que ao invs de rebentos e flores silvestres desabrochando, as plancies 
revolviam-se em ondas douradas, e as rvores da floresta temperada ao lado das conferas faziam um mosaico vermelho, mbar e verde. No entanto, a vista a distncia 
era enganadora. A maioria das velhas rvores j havia perdido suas folhas, e o inverno, em toda a sua fria, estava s costas.
     Levou muito mais tempo na volta do que na ida at atingirem o local da caada. As passadas largas que rapidamente devoravam distncias eram agora impossveis 
com o volume da carga trazida. Mas Ayla no se curvava apenas ao peso da carga que transportava. Culpa, ansiedade e depresso eram fardos ainda mais pesados. Ningum 
falava do incidente, mas ele no fora esquecido. Diversas vezes seu olhar cruzava com o de outra pessoa que, surpreendida, rapidamente desviava os olhos. Ningum 
falava com ela a no  ser o necessrio. Sentia-se isolada, desamparada e com medo. Pelo pouco das conversas que lhe chegaram, ficou sabendo qual era a pena para 
seu crime.
     Na caverna, as pessoas vigiavam o retorno dos caadores. Desde que chegou a ocasio prevista para a volta, algum ficava de vigia, junto do pequeno morro, de 
onde se tinha uma boa viso da plancie. Quase sempre era uma das crianas.
     Quando Vorn assumia o posto pela manh ele comeava sempre pondo ateno no panorama a distncia, mas depois se aborrecia. no gostava de ficar sozinho ali, 
onde nem mesmo a companhia de Borg tinha para brincar. Punha-se, ento a fantasiar caadas, e tantas foram as estocadas dadas no cho com a sua pequena lana que 
a ponta, apesar de endurecida no fogo, desgastara-se. Foi por puro acaso que ele viu o bando de caadores aparecendo ao longe.
     - Presas! Presas! - gritava correndo em direo  caverna.
     - Presas? - perguntou Aga. - O que voc quer dizer com isso?
     - Eles esto de volta - gesticulou Vorn, excitado. - Brun e Droog e todo o resto. Eles esto trazendo as presas!
     Todos desceram at a plancie para saudar os caadores. Ao encontr-los, porm, era visvel que alguma coisa sara errada. A caada havia sido um sucesso, no 
havia por que no estarem felicssimos. Ao contrrio, caminhavam pesadamente, de uma maneira contida. 
     Brun estava soturno, e Iza, com um nico olhar para Ayla, percebeu que alguma coisa de terrvel relacionado com sua filha deveria ter ocorrido.
     Enquanto os componentes da caada passavam um pouco da carga para aqueles que haviam ficado, a razo do sombrio silncio foi aparecendo. Ayla, abatida, subia 
de cabea baixa a colina, inteiramente distrada dos olhares que lhe eram lanados. Iza estava estarrecida. Se sempre se preocupara com as atitudes pouco ortodoxas 
de sua filha adotiva, isso no era nada era comparao com o medo paralisante que agora sentia por ela.
     Ao chegarem  caverna, Oga e Ebra trouxeram a criana ferida para Iza. Ela retirou a tala e examinou a leso.
     - O brao vai ficar do jeito que era antes. Ficar com uma cicatriz, mas os ferimentos j esto sarando e o brao est bem encanado. Mas  melhor continuar 
com a tala. Vou botar uma nova.
     Oga e Ebra respiraram aliviadas. Sabiam que Ayla no possua prtica, mas no tiveram outro remdio sem deix-la tratar de Brac. Estavam as duas muito preocupadas. 
Um caador precisava ter dois bons braos fortes. Se Brac perdesse um deles, jamais poderia almejar a se tornar o chefe do cl, para o que estava predestinado. E 
sem poder caar, nem mesmo homem ele se tornaria, levaria a vida naquela espcie de limbo em que viviam os meninos j crescidos, mas que ainda no passaram pela 
primeira caada consagradora do status adulto.
     Brun e Broud tambm se sentiram aliviados. No entanto, no caso de Brun, a notcia foi recebida com um misto de emoo. Sua deciso ficara ainda mais difcil. 
Ayla no tinha apenas salvo a vida de Brac, ela lhe assegurara uma existncia til e normal. O assunto j estava sendo protelado demais. O chefe chamou o Mog-ur, 
e os dois se puseram a caminhar juntos.
     A histria, como Brun a explicou, deixou Creb profundamente perturbado. A responsabilidade de educar e ensinar Ayla era sua e, sem dvida, ele falhara. Havia, 
no entanto, uma coisa ainda que o deixava mais inquieto. Quando soube dos animais achados mortos, sentiu na ocasio que aquilo no tinha nada a ver com espritos. 
Chegou at a imaginar se Zoug ou um dos outros no estaria fazendo algum tipo de brincadeira com o cl. Isso parecia improvvel, mas sua intuio lhe dizia que naquelas 
mortes deveria haver o dedo de algum, e bem humano. Alm disso, no lhe passaram despercebidas as mudanas em Ayla, que ele, agora, pensando melhor, podia perfeitamente 
identificar. As mulheres nunca caminham com aquele andar silencioso e furtivo dos caadores. Esto sempre fazendo barulho, e com boa razo para isso. Mais de uma 
vez, Ayla o havia surpreendido. Aproximava to silenciosamente que Creb nem percebeu sua chegada. Havia tambm outras coisas, certos pequeninos detalhes que poderiam 
ter levantado suas suspeitas.
     Mas, estava cego por seu amor por ela. Nem de leve podia imaginar que Ayla estivesse caando, as consequncias disso eram conhecidas demais. O velho feiticeiro 
se questionava sobre sua prpria integridades sobre sua capacidade de exercer sua funo Ele pusera os seus sentimentos pela menina na frente da guarda espiritual 
do cl. Ser que ainda merecia a confiana dos outros? Poderia, com justia, continuar como mog-ur?
     Creb assumiu toda a culpa das aes de Ayla. Ele deveria ter indagado dela; no podia t-la deixado rondar pelas matas com tanta liberdade; sua disciplina tambm 
no fora suficientemente severa. Mas, toda a angstia que sentia pelo que deveria ter feito e no fez no alterava em nada o que ainda teria de fazer. A deciso 
era de Brun, mas cabia ao Mog-ur p-la em execuo:o dever de matar a menina que ele adorava.
     - Por enquanto  s uma conjeturas mas parece que foi ela quem andou matando os animais - disse Brun. - Ns precisamos interrog-la. Agora, o fato  que a menina 
tinha uma funda na mo, com a qual matou uma hiena. E para fazer isso, deve ter treinado antes em alguma coisa, do contrrio no se explicaria a tcnica incrvel 
que possui. Ela chega a ser melhor do que Zoug, Mog-ur, e  mulher! Como teria aprendido? J pensei at que talvez exista uma parte masculina nela, e no sou o nico 
a imaginar tal coisa. Ela  alta como um homem, e nem mulher ainda . Voc acha que pode haver alguma verdade no que andam dizendo... que ela nunca ser mulher?
     - Ayla  uma menina, Brun, e algum dia ficar mulher, igual a qualquer outra garota... ou ficaria. Trata-Se apenas de uma mulher com uma arma na mo. - Havia 
em Creb um ar de determinao, no iria deixar-se levar por falsas iluses.
     - Bem, eu ainda gostaria de saber h quanto tempo ela vem caando. Mas isso pode esperar at amanh. Hoje, estamos todos muito cansados, a viagem foi muito 
comprida. Diga a Ayla que amanh vamos interrog-la.
     Creb voltou  caverna e parou na sua fogueira s para dizer a Iza que avisasse a Ayla de que ela seria interrogada no dia seguinte. Depois, foi para sua pequena 
gruta e l passou toda a noite.
     As mulheres, em silncio, seguiram com os olhos os homens se dirigindo para a mata e Ayla caminhando atrs. Estavam todos perplexos e os sentimentos eram os 
mais variados. A prpria ayla sentia-se confusa. Ela podia desconhecer a gravidade de seu crime, mas sempre soube que caar era errado. Ser que faria alguma diferena 
se eu soubesse? perguntou-se naquele instante. No. Eu queria caar e teria caado do mesmo jeito. Mas no queria que os maus espritos me perseguissem at o outro 
mundo. O pensamento f-la estremecer.
     Tinha tanto medo das invisveis foras malignas quanto acreditava no poder dos totens protetores. Agora, nem mesmo o Esprito do Leo da Caverna poderia proteg-la 
contra eles, ou ser que podia? Devo ter me equivocado, pensou. Meu totem no iria mandar um aviso para que eu caasse, sabendo que isso me levaria  morte. Talvez 
ele me tenha abandonado, quando peguei na funda pela primeira vez. A menina no gostava de pensar sobre isso.
     Os homens foram para uma clareira e l se ajeitaram sobre troncos e pedras, ladeando Brun. Ayla deixou-se cair aos ps do chefe. Este bateu-lhe no ombro, permitindo 
que ela o olhasse e imediatamente abordou o assunto sem qualquer prembulo.
     - Foi voc, Ayla, quem matou os comedores de carne que os caadores encontraram?
     - Foi - respondeu com a cabea. no era o caso de esconder mais nada. Seu segredo estava descoberto e eles perceberiam, se procurasse desviar-se das perguntas. 
Tal como todas as pessoas do cl, ela tambm no podia mentir.
     - Como aprendeu a usar uma funda?
     - Aprendi com Zoug.
     - Com Zoug? - repetiu Brun. Todas as cabeas se viraram, indignadas, para o velho.
     - Nunca ensinei a menina a atirar com funda - gesticulou Zoug, defendendo-se.
     - Zoug no sabia que eu estava aprendendo com ele - falou a menina, correndo depressa em defesa do velho caador. - Eu apenas ficava observando quando ele ensinava 
Vom.
     - H quanto tempo voc caa - foi a prxima pergunta de Brun.
     - Agora, faz dois verdes. Mas, no primeiro vero, eu no cacei, s treinei.
     -  o tempo que Vom vem treinando - comentou Zoug.
     - Eu sei - disse Ayla. - Foi no mesmo dia em que ele comeou.
     - Como voc sabe exatamente quando Vorn comeou, Ayla? - perguntou Brun, curioso com o fato de ela estar to certa.
     - Eu estava l observando.
     - O que voc quer dizer com l? La  onde?
     No campo de treinamento. Iza havia me mandado buscar algumas cascas de cerejeira, mas, quando cheguei, vocs j estavam na clareira - explicou ela. - Iza precisava 
das cascas e eu no sabia quanto tempo iriam demorar. Ento fui ficando. Zoug dava a Vorn sua primeira lio.
     - Voc assistiu a Zoug dando a primeira lio a Vorn? - interps Broud. - Tem certeza de que era a primeira? - Broud se recordava muito bem daquele dia. Era 
uma lembrana que ainda o fazia corar de vergonha.
     - Tenho, Broud. Estou muito certa disso.
     - E o que mais voc viu? - Seus olhos se estreitaram e o rapaz se exprimia atrapalhando-Se nos gestos.
     Brun tambm de repente se lembrou do que acontecera no campo de treinamento no dia em que Zoug deu incio s aulas de Vorn e no se sentia nem um pouco satisfeito 
com o fato de uma mulher haver testemunhado o incidente.
     Ayla hesitou.
     - Vi tambm outros homens treinando - respondeu, tentando desviar- se da questo. O rosto de Brun, nesse ponto, assumiu uma expresso dura. - E vi tambm Broud 
jogando Zong ao cho, e voc furioso com ele, Brun.
     - Voc viu isso! Voc viu tudo? perguntou Broud. Estava lvido de raiva e era um constrangimento s. Dentre todo mundo, dentre todas as pessoas do cl, tinha 
de ser exatamente ela a presenciar a cena! Quanto mais pensava na coisa, mais acabrunhado se sentia e ao mesmo tempo com mais raiva. Aquele fora o cargo mais duro 
que j recebera de Brun e ela o havia presenciado. Recordou-se, inclusive, de como errara feio os seus tiros e, subitamente lembrou-se tambm de que errara o tiro 
na hiena. A hiena que ela matou. Uma mulher, e justamente aquela mulher  que tinha de expor sua vergonha.
     Qualquer pensamento mais favorvel a ela ou algum laivo de gratido que j tivera desapareceram naquele instante. Vou ficar feliz quando ela morrer, disse o 
rapaz consigo. Ela merece a morte. no podia suportar a idia de Ayla viver, tendo presenciado o supremo momento de vergonha de sua vida.
     Brun o observava e, pelas expresses do seu rosto, quase podia ler-lhe o pensamento. Pena, pensou, justamente agora que havia uma chance de terminar a animosidade 
entre ambos. Bem, mas isto no tem mais importncia. E prosseguiu com o interrogatrio.
     - Voc disse que comeou a treinar no mesmo dia que Vorn. Fale mais sobre isso.
     - Depois que vocs foram embora, atravessei o campo e vi a funda que Broud tinha atirado no cho. Todo mundo se esqueceu dela, quando voc ficou furioso com 
Broud. no sei por que, mas tive curiosidade de saber se conseguiria atirar. Comecei a lembrar da lio de Zoug e passei a tentar. no era fcil, mas fiquei treinando 
toda a tarde. Cheguei at a me esquecer de que o tempo estava passando. Acertei no poste uma vez, acho que por puro acaso, mas isso me fez pensar que eu poderia 
conseguir, se me esforasse. e, assim, guardei a funda.
     - Imagino que aprendeu tambm com Zoug a fazer a arma.
     - Sim, foi com ele.
     - E voc treinou naquele vero?
     - Sim.
     - E, desse modo, resolveu caar. Mas por que comedores de carne? So os mais difceis e perigosos. J encontramos lobos mortos e at linces. Zoug sempre afirmou 
que esses bichos poderiam ser mortos com funda e voc provou que ele tinha razo, mas por que justamente estes?
     - Bem, eu sabia que no podia trazer nada para o cl, sabia que no tinha o direito de tocar numa arma, mas queria caar, ou pelo menos tentar. Os comedores 
de carne esto sempre roubando nossa comida. Achei que, se atirasse neles, estaria ajudando. E tambm no seria um desperdcio, j que no comemos esses animais. 
Foi por isso que resolvi ca-los.
     Isso satisfez a curiosidade de Brun no que dizia respeito s mortes dos predadores, mas ele ainda continuava sem compreender o porqu de ela querer caar. Era 
uma mulher e jamais alguma havia tido vontade de caar.
     - Voc sabe que  muito perigoso tentar matar uma hiena de grande distncia, e se voc tivesse acertado em Brac? - falou Brun, querendo test-la. Ele mesmo 
esteve a ponto de usar as boleadeiras, apesar de que a chance de matar o garoto com uma pedrada fosse muito grande. Mas uma morte instantnea causada por uma fratura 
de crnio era prefervel  que aguardava o menino e, assim pelo menos, eles teriam o corpo para enterrar, dando a Brac a oportunidade de trilhar seu caminho para 
o mundo dos espritos, com todos os rituais devidos. Com sorte, teriam encontrado alguns ossinhos dispersos, se a hiena tivesse levado a melhor.
     - Mas eu nunca acertaria em Brac - respondeu Ayla, com simplicidade.
     Como podia ter tanta certeza? A hiena estava fora do alcance.
     No do meu. J havia acertado em animais daquela distncia. Quase nunca erro.
     - Achei ter visto a marca de duas pedras - gesticulou Brun.
     - Atirei duas pedras - confirmou Ayla. - Aprendi a fazer isso depois que fui atacada por um lince.
     - Voc? Atacada por um lince? - pressionou Brun.
     - Fui - confirmou Ayla, com a cabea. Em seguida, contou o aperto de que se livrara.
     - De que distncia voc consegue acertar? - perguntou Brun. no me precisa dizer. Mostre. Sua funda est com voc?
     Ayla balanou a cabea afirmativamente e se levantou. Todos se encaminharam para o ponto extremo da clareira, onde havia um pequeno riacho correndo sobre um 
leito pedregoso. A garota escolheu algumas pedras de for mato e tamanho convenientes. As redondas eram as que davam melhor pontaria, maior distanciamento, mas pedras 
dentadas e pontiagudas tambm serviam.
     - Vou acertar naquela pequena pedra branca, junto da grandona, l do outro lado - falou ela.
     Brun fez que sim com a cabea. Era bem mais de uma distncia e meia que qualquer um deles poderia atirar. Ayla mirou cuidadosamente, meteu uma pedra na funda 
e, no instante seguinte, uma outra j estava na funda e varan do o ar. Zoug saiu correndo para confirmar a pontaria.
     - Duas lascas foram arrancadas da pedra branca. Ela acertou no alvo duas vezes seguidas - anunciou ele, voltando um tanto assombrado e com uma pontinha de orgulho.
     Ela era mulher, nunca deveria ter encostado a mo numa funda. A tradio a respeito era muito clara, mas... a menina era boa. Com ou sem o seu conhecimento, 
cabia a ele o mrito de t-la ensinado, ela mesma o dissera. E essa tcnica de duas pedradas, pensou, era um truque que ele gostaria de aprender. O orgulho de Zoug 
era aquele de um bom professor pelo aluno que depois o ultrapassa; um bom aluno atento que aprendeu bem as lies e superou o mestre. E a menina provou que ele estava 
certo no que dizia.
     O olho de Brun percebeu algo se movendo na clareira.
     - Ayla! - gritou. - Um coelho, pegue!
     Ela olhou na direo em que ele apontava, viu o animalzinho atravessando o campo aos saltos e o derrubou. No foi preciso averiguar a pontaria. Brun olhava-a 
com admirao.
     Ela  rpida, disse consigo. A idia de uma mulher caando ofendia-lhe o sentido de propriedade. Para ele, em primeiro lugar vinha sempre o cl ou seja, a segurana 
e prosperidade deste acima de tudo. No entanto, l no fundo, sentia que grande vantagem seria para o cl, se pudesse contar com Ayla. no Isso  impossvel, falou 
consigo. contra toda a tradio Algo que foge completamente a nossos costumes.
     Creb j no via os talentos de Ayla com a mesma admirao Se ainda subsistia alguma dvida em seu esprito, a demonstrao dela acabou por convenc-lo. Ayla 
realmente vinha caando.
     - Antes de mais nada, por que voc teve de pegar na funda? - gesticulou o Mog-ur, com expresso fria e soturna.
     - No sei - disse ela, baixando a cabea e olhando para o cho Mais do que tudo, odiava causar desgostos a Creb.
     - Voc fez mais do que simplesmente tocar numa arma. Voc caou e matou com ela, quando sabia que esta era uma coisa proibida.
     - Recebi um aviso de meu totem, Creb. Pelo menos achei que era um aviso. - Desatou o lao de seu amuleto. - Resolvi caar depois que encontrei isso - falou, 
estendendo o fssil na direo do Mog-ur.
     Um aviso? Seu totem lhe mandou um aviso? Agora, eles se sentiam consternados por ela. A revelao deu uma reviravolta na situao Mas por que resolveu ela caar? 
Este era o ponto.
     O feiticeiro examinou o fssil com ateno. Era uma pedra de fato fora do comum. Tinha a forma de um bicho do mar mas, sem dvida alguma, era pedra. Podia ser 
um sinal ou aviso, mas no provava nada. Os sinais eram uma coisa que existia s entre a pessoa e seu totem. Ningum podia entender o aviso dado a um outro. O Mog-ur 
devolveu-o  menina.
     - Creb - implorou ela. - Achei que meu totem estava me botando  prova. Achei que a maneira como Broud me tratava era um teste e que, se eu aprendesse a aceitar 
isso, meu totem me permitiria caar. - Os olhares cheios de ironia convergiram na direo de Broud para ver a reao dele. Ser que ela pensava mesmo que Broud estava 
sendo usado pelo totem para p-la  prova? O rapaz parecia embaraado. - Achei tambm que, quando o lince me atacou, isso era outro teste. Ento, quase que deixei 
de caar, estava com medo. Foi a que tive a idia de experimentar com duas pedras. Cheguei mesmo a pensar que foi o totem que me deu tal idia.
     - Estou entendendo - disse o feiticeiro. - Gostaria de ter algum tempo para meditar sobre isso tudo, Brun.
     - Talvez todos ns precisemos de tempo para pensar sobre isso. Vamos nos reunir amanh de manh - anunciou ele. - Sem a menina.
     - O que h mais para pensar? - objetou Broud. - Todos sabemos qual o castigo que ela merece.
     - Seu castigo poder ser perigoso para o cl inteiro, Broud. Antes de condenar, tenho de ter absoluta certeza de que nada foi deixado de lado. Voltaremos a 
nos reunir amanh.
     Enquanto voltavam  caverna, iam conversando entre eles.
     - Nunca soube de uma mulher que quisesse caar - dizia Droog. - Ser que isso tem alguma coisa a ver com o totem dela? Afinal,  totem de homem.
     - Jamais quis botar em dvida o juzo do Mog-ur na ocasio - falou Zoug. - Mas sempre fiquei intrigado, com esse seu Leo da Caverna, mesmo com a marca na perna 
dela. Agora, no h mais dvida. Ele estava certo, alis, sempre est.
     - Ela  meio homem? - perguntou Crug. - Comenta-se isso por a.
     - E explicaria esse seu jeito pouco feminino - acrescentou Dorv.
     - no ela  mulher mesmo, no resta a menor dvida e por isso deve morrer. Todo mundo sabe disso - cortou Broud.
     - Talvez voc esteja certo, Broud - disse Crug.
     - Mesmo que ela seja meio homem, no gosto da idia de uma mulher caando - comentou Dorv, com dureza. - no gosto nem mesmo da idia de ela fazer parte do 
nosso cl. Ela  diferente demais da gente.
     - Voc sabe que esta sempre foi a minha opinio Dorv - concordou Broud. - no sei por que Brun insiste ainda em falar sobre o assunto. Se eu fosse o chefe, 
a coisa j estaria feita e acabada.
     - No  uma deciso que se possa tomar correndo, Broud - falou Grod.
     - Por que tanta pressa? Um dia a mais no faz a menor diferena.
     Broud apressou o passo sem se dar o trabalho de responder. Este velho tem sempre de vir com seus discursos defendendo Brun, pensou. Por que Brun no pode tomar 
a deciso de uma vez? J tomei a minha. Para que tanta falao Talvez ele j esteja ficando velho, velho demais para continuar sen do chefe.
     Ayla, confusa, seguiu atrs dos homens. Foi direto para a fogueira de Creb na caverna, l ficando sentada sobre sua pele de dormir, com os olhos perdidos no 
ar. Iza tentou faz-la comer, mas a garota simplesmente abanou a cabea recusando. Uba no entendia direito o que se passava, mas via que algo no ia bem com a garota 
alta e maravilhosa, a sua muito especial amiga por quem tinha verdadeira adorao Dirigiu-se a Ayla, aconchegando-se em seu colo. A jovem, em silncio, ps-se a 
embal-la. De certa maneira, Uba sentia ser um consolo para ela. no se contorceu nem uma vez pedindo para descer, deixando-se ficar quieta e ser ninada. Por fim, 
adormeceu. Iza veio pegar a filha e a levou para a cama. Depois, a curandeira tambm foi para a dela, mas no dormiu. Seu corao estava demasiadamente amargurado 
pela estranha garota a que chamava de filha, ali sentada, olhando fixamente para as brasas j quase extintas da fogueira.
     O dia amanheceu claro e frio. O gelo formava-se nas beiradas do riacho e uma pelcula fina de gua cristalizava-se no lago, alimentado pelo crrego junto da 
entrada da caverna. Mais tarde, quando o sol estivesse alto no cu, normalmente se derretia. Dentro de muito pouco tempo, o cl estaria confinado  caverna para 
mais outro de seus invernos.
     Iza no sabia se Ayla havia dormido. Quando acordou, a menina ainda se achava sentada sobre a pele, silenciosa, perdida em seu mundo, mal se dando conta do 
que ia por sua cabea. Ela simplesmente esperava. Creb, pela segunda noite, no fora para sua fogueira. Iza o vira, arrastando os ps na direo da fenda escura 
que levava a seu santurio. S saiu de l pela manh Depois de os homens haverem partido, Iza levou um pouco de ch para Ayla, fazendo-lhe algumas perguntas solcitas, 
mas nenhuma resposta obteve da menina. Quando voltou mais tarde, o ch ainda estava no mesmo lugar, intocado e frio. como se j estivesse morta, pensou Iza. Sua 
respirao ficou presa na garganta, sentindo como se garras de ferro lhe comprimissem o corao Era mais do que podia aguentar.
     Brun levou os homens para um lugar que ficava sob uma enorme rocha, protegido contra as frias rajadas de vento. Ali, mandou que se acendesse uma fogueira, antes 
de dar incio  sesso. O desconforto de estarem sentados ao ar livre poderia lev-los a tomar decises precipitadas e ele queria avaliar o assunto em toda sua dimenso, 
sabendo dos sentimentos e opinies de seus comandados. Quando comeou, foi por meio dos smbolos silenciosos empregados para dirigir-se aos espritos, dizendo, ento 
que no se tratava de uma reunio ordinria, mas de uma sesso oficial.
     - A menina Ayla, membro de nosso cl usou uma funda para matar a hiena que atacou Brac. H trs anos j vem usando essa arma. Ayla  mulher e, pela tradio 
que rege os cl a mulher que fizer uso de armas deve morrer. Algum tem alguma coisa a dizer?
     - Droog gostaria de falar, Brun.
     - Que fale, Droog.
     - Quando a curandeira encontrou a garota, ns estvamos procurando uma caverna. Os espritos haviam ficado zangados conosco e enviado um ter remoto para destruir 
nossa moradia. Talvez at no estivessem to zangados e quisessem apenas um lugar melhor para viver. Ou talvez, quem sabe, que ns encontrssemos a menina. Ela  
estranha, fora do comum, como se fosse um sinal enviado por algum totem. Desde que foi encontrada, ns s tivemos sorte. Acho que ela traz sorte e que esta vem de 
seu totem.J faz parte de sua estranheza o fato de ser escolhida pelo grande Leo da Caverna. Achvamos que ela era diferente por gostar de entrar na gua do mar, 
mas, se no fosse por essa sua particularidade, Ona estaria agora caminhando no mundo dos espritos. Ona  apenas uma menina e nem mesmo nasceu na minha fogueira, 
mas passei a am-la. Teria sentido muito se tivesse desaparecido, sou grato por no ter morrido afogada.
     Para ns, ela  estranha, mas sabemos muito pouco sobre os Outros. Agora, ela faz parte do cl, mas no nasceu de nossa gente. no entendo por que quis caar 
nas mulheres do cl isso  errado. S que talvez, nas mulheres da raa dela, no seja assim. Bom, pouco importa, continua sendo errado do mesmo jeito. Entretanto, 
se ela no tivesse aprendido a atirar com funda, Brac estaria morto tambm. E no  nada agradvel pensar na morte que teria. Um caador morto por um comedor de 
carne  uma coisa, mas Brac  um beb.
     A morte dele seria uma perda para todo o cl, Brun. No s para voc e Broud. Se ele tivesse morrido, ns no estaramos aqui sentados nesse momento, tentando 
decidir o que fazer com a garota que salvou sua vida. Estaramos de luto pelo menino que algum dia ser o chefe desse cl. Acho que a menina tem de ser castigada, 
mas como conden-la  morte? Bom, eu tenho dito.
     - Zoug gostaria de falar, Brun.
     - Que fale, Zoug.
     - O que Droog diz  verdade. Como pode voc condenar a menina que salvou a vida de Brac? Ela  diferente, no nasceu de gente de nossa raa e talvez no pense 
como deveria uma mulher, mas fora essa questo da funda, ela se comporta como uma boa mulher do cl. Tem sido um modelo de mulher. Obediente, respeitosa.
     - Isso no  verdade. Ela  rebelde e insolente - interps Broud.
     - Sou eu quem estou falando agora, Broud - retrucou Zoug, com raiva.
     Brun lanou a Broud um olhar reprovador, e o rapaz teve de conter-se.
     -  verdade - prosseguiu Zoug - que, quando a menina era menor, foi insolente com voc, Broud. Mas a culpa foi sua que se deixou levar. no seria de estranhar 
que voc, agindo como criana, no fosse tratado como homem, no  verdade? Comigo, ela sempre se mostrou obediente e respeitosa. E tambm com os outros homens nunca 
foi insolente.
     Broud fuzilou o velho caador com os olhos, mas refreou-se.
     - Ainda que fosse verdade - continuou Zoug - nunca vi ningum atirar to bem quanto ela. A menina diz que aprendeu comigo. Nunca soube disso, mas digo francamente 
a vocs: teria o maior prazer em ter um aluno to bem-dotado assim, e confesso que hoje s tenho a aprender com ela. A memina quis caar para ajudar o cl e, como 
no pde, procurou um outro modo de nos ajudar. Ela pode ter nascido dos Outros, mas o seu corao est no cl. Sempre ps os nossos interesses acima dos seus. Ela 
no pensou no risco que corria, quando foi atrs de Ona.  verdade que consegue movimentar-se dentro dgua, mas eu vi como estava cansada, quando chegou com Ona 
na margem. O mar poderia t-la levado tambm. Ela sabia que era errado caar e guardou este segredo durante trs anos, mas no hesitou um instante quando a vida 
de Brac estava em perigo.
     Ela tem um bom manejo da arma.  melhor do que qualquer atirador que j conheci em minha vida. Seria uma pena no aproveitarmos esse seu dom. Eu diria que 
ela se constitui num bem para o cl, que se deveria deix-la caar e...
     - No! No! No! - exclamou Broud, furioso. - Ela  mulher e no se permite que mulheres cacem.
     - Broud - disse o velho e orgulhoso caador. - Ainda no terminei. Voc poder falar, quando eu tiver acabado.
     Deixe que Zoug termine, Broud - advertiu Brun. - Se voc no sou ber se comportar numa sesso de carter oficial, que se retire!
     Broud sentou-se, fazendo fora para controlar-se.
     - A funda no  uma arma importante. S comecei a desenvolver minha tcnica depois que fiquei velho demais para caar com lana. As verdadeiras armas do homem 
so outras. E digo que lhe seja permitido caar, mas que use somente a funda. Que a funda seja daqui por diante a arma dos velhos e das mulheres, ou que pelo menos 
seja a desta menina. Pronto, eu tenho dito.
     - Zoug, voc sabe tanto quanto eu que  mais difcil usar uma funda do que uma lana e que, muitas vezes,  voc quem nos abastece de carne, quando uma caada 
fracassa. no se subestime para favorecer a menina. Para caar com lanas, basta ter fora nos braos - falou Brun.
     - E fora nas pernas e no corao. Bons pulnes e um bocado de coragem - replicou Zoug.
     - O que me pergunto  o quanto de coragem se precisa para enfrentar um lince depois de j ter sofrido o ataque de uma fera dessas... e sozinha, s com uma funda 
- comentou Droog. - no tenho nada a objetar  sugesto de Zoug, se ela continuar sempre caando s com funda. Os espritos tambm parecem no ter nada contra isso. 
Ayla continua a nos trazer sorte como sempre trouxe. E a caada do mamute, vocs esto esquecidos?
     - No tenho muita certeza se  esta a deciso que devemos tomar - disse Brun. - Se j no consigo ver nenhuma sada para deix-la continuar vivendo, caar ento 
muito menos. Voc conhece nossas tradies Zoug.  uma coisa que nunca se fez antes. Ser que realmente os espritos esto de acordo? Afinal, como uma coisa dessas 
pode passar por sua cabea? As mulheres dos cl no caam.
     -  verdade. As mulheres dos cls no caam, mas essa mulher sim. Isso nunca teria passado por minha cabea, se eu no tivesse visto que ela consegue caar. 
Tudo o que digo  que deixem a garota fazer o que j vinha fazendo.
     - O que voc diz, Mog-ur? - perguntou Brun.
     - O que voc espera que ele diga? Ela vive na fogueira dele! - aparteou Broud, cheio de amargor.
     - Broud! - explodiu Brun. - Voc est acusando o Mog-ur de botar seus sentimentos e interesses acima dos do cl? no  ele Mog-ur? O Mog-ur? Voc por acaso 
acha que ele no sabe o que  direito e o que  certo?
     - No, Brun. Broud disse algo sensato. Todo mundo conhece bem os meus sentimentos em relao a Ayla. no  fcil esquecer que gosto muito dela. Acho que vocs 
deviam saber que, apesar disso, tenho procurado botar meus sentimentos de lado. no sei se vou conseguir. Desde que vocs voltaram que venho meditando e estou de 
jejum. Na noite passada, encontrei um caminho nas memrias que ainda no havia explorado. Talvez porque nunca tivesse procurado por ele.
     H muito tempo atrs, muito antes de vivermos em cls, as mulheres ajudavam os homens a caar. - As expresses se mostravam incrdulas. -  verdade. Ns faremos 
uma cerimnia, e vou conduzi-los at l. Quando estvamos aprendendo a fazer armas e ferramentas e que ainda nascamos com um tipo de conhecimento no propriamente 
como as memrias, tanto os homens como as mulheres matavam animais para comer. Nem sempre, nessa poca, eram os homens que sustentavam as mulheres. Tal como a me 
ursa, a mulher caava para ela e os filhos.
     Foi muito mais tarde que o homem comeou a caar para a companheira e os filhos dela. E s muito depois que as mulheres com os filhos eram deixados em casa. 
Quando os homens comearam a cuidar das crianas e a sustent-las, foi no incio da formao dos cl e isto os ajudou a desenvolver-se. Se a me morresse durante 
uma caada, seu filho tambm morreria. Mas somente quando as pessoas pararam de lutar entre si, quando aprenderam a cooperar umas com as outras e que os homens passaram 
a caar em bando  que os cls realmente se formaram. At nessa ocasio algumas mulheres caavam, no tempo em que eram elas as que detinham o privilgio de comunicar-se 
com os espritos.
     Brun, voc disse que isso nunca tinha sido feito antes mas, como v, estava enganado. As mulheres dos cl j caaram. Os espritos, ento no tinham nada contra, 
mas aqueles eram velhos espritos, diferentes dos de hoje, no os dos nossos totens. Espritos poderosos que h muito tempo esto descansando desse mundo. no tenho 
muita certeza se eles poderiam legitimamente ser considerados como espritos dos cl. No porque no fossem honrados e venerados. Eram mais do que isso, temidos 
principalmente. Contudo, no eram espritos maus, diria antes, poderosos.
     Estavam todos abismados. O Mog-ur falava de pocas to remotas, to pouco lembradas que lhes chegavam a parecer quase como uma novidade. Mas a simples meno 
desses tempos j foi bastante para lhes evocar o medo na lembrana e alguns ento deixaram de estremecer naquele instante.
     - Duvido que as mulheres dos cl atualmente mostrem desejo de caar- prosseguiu o Mog-ur. - Nem sei se conseguiriam. Isso foi h muitssimo tempo, e tanto as 
mulheres como os homens mudaram muito desde ento Mas Ayla  diferente e os Outros tambm. Muito mais diferentes do que supomos. No acredito que o fato de deix-la 
caar v afetar nossas mulheres. A caada dela e o seu desejo de caar foram uma surpresa to grande para elas quanto para ns. Bem, era s o que tinha a dizer.
     - Algum mais tem o que falar? - perguntou Brun. Se bem que no sabia se teria flego para muito mais. Sentia-se confuso, era novidade demais para um dia s.
     - Goov gostaria de falar, Brun.
     - Que fale, Goov.
     - Eu sou apenas um aclito e no sei tanto quanto o Mog-ur, mas acho que ele deixou passar um fato importante. Talvez por querer tanto que os seus sentimentos 
por Ayla no interferissem em seu julgamento, talvez por medo de que o seu amor por ela falasse mais alto do que sua razo, ele se esqueceu do totem dela.
     Algum aqui j pensou por que razo iria um poderoso totem masculino escolher uma menina? - Ele mesmo respondeu  sua pergunta de efeito apenas retrico. - 
Tirando Ursus, o Leo da Caverna  o mais poderoso dos totens. Mais poderoso ainda do que o do mamute. Ele caa o mamute. Mesmo que sejam s os filhotes ou os velhos, 
ele caa. O Leo da Caverna j no caa mamutes.
     - Voc no est fazendo sentido, Goov. Primeiro, diz que o Leo da Caverna caa mamute e depois diz que no caa, como  isso? - gesticulou Brun.
     - Ele No, mas ela caa. Ns nos esquecemos disso quando examinamos a questo dos totens protetores; inclusive, o leo da caverna, o macho  o protetor. Mas 
quem caa? O mais forte dos carnvoros, o mais forte dos caadores  a leoa! A fmea! No  verdade que  ela quem leva a caa para seu companheiro? Ele pode matar, 
mas sua funo propriamente  a de proteger, enquanto ela estiver caando.
     No  estranho que um Leo da Caverna tenha escolhido uma menina? Algum aqui j pensou que talvez o seu totem no seja o leo, mas a leoa? A fmea? A caadora? 
no poderia isso explicar a razo de a menina querer caar? Por que foi dado a ela um sinal? 
     Talvez tivesse sido a leoa quem lhe enviou o aviso. Talvez por isso sua marca esteja na perna esquerda. Para ela, caar seria mais extraordinrio do que possuir 
um totem deste? No sei se o que estou dizendo  verdade, mas temos de admitir que existe uma lgica muito grande nisso. Que seja o seu totem o leo ou a leoa da 
caverna, o fato  que no podemos negar que estava predestinada a caar. Ou ser que podemos negar seu poderoso totem? E seria possvel que nos atrevssemos a conden-la 
por fazer o que o seu totem deseja? Bom, eu tenho dito.
     A cabea de Brun dava voltas. As idias lhe chegavam aos supetes. Precisava de tempo para pensar, para ordenar tudo o que fora dito. Claro que  a leoa quem 
caa, mas quando j se ouviu falar de um totem feminino? Os espritos, as suas essncias protetoras, foram sempre masculinos, ou no Somente aqueles que passam dias 
em elucubraes a respeito dos desgnios dos espritos poderiam chegar  concluso de que o totem da menina era o caador da espcie incorporado no seu totem. Brun, 
entretanto, preferia que Goov no tivesse levantado a idia de que eles estariam deixando de atender os desejos de um totem to poderoso.
     Todo o conceito de uma mulher caadora era to mpar, to perturbador em sua concepo, que muitos ali se sentiram abalados, a ponto de dar um pequeno passo 
alargando as fronteiras de seu mundo seguro, confortvel e bem definido. Cada homem falara de seu ponto de vista daquilo que lhe dizia respeito ou segundo sua rea 
de interesse, e cada um alargara apenas sua fronteira, aquela de seu pequenino e restrito campo de conhecimento. Brun, porm, teria de abarcar todos os domnios 
e isso era demais, quase impossvel. Sentia-se obrigado a examinar cada um dos aspectos, antes de emitir oseu juzo, e gostaria de dispor de tempo para poder mastigar 
bem as questes. Mas a deciso j no podia ser postergada por muito mais tempo.
     - Algum ainda deseja expressar sua opmio?
     - Broud gostaria de falar.
     - Que fale Broud.
     - Todas essas idias so interessantes e podem nos fornecer assunto para discutirmos durante os dias frios de inverno, mas as tradies a respeito so muito 
claras. Nascida ou no dos Outros, a menina pertence aos cl e as nossas mulheres no caam. no se lhes permite nem tocar em armas e nem tambm nas ferramentas 
usadas para fabric-las. Todos sabemos qual  o castigo. A menina deve morrer. Pouco importa se em pocas passadas mulheres caavam. O fato de uma ursa ou uma leoa 
caar no significa que uma mulher possa fazer o mesmo. no somos nem ursos nem lees. no faz a menor diferena tambm, se ela tem ou no um totem poderoso ou se 
ela traz ou no sorte para ns. Igualmente no faz diferena que ela seja uma exmia atiradora e que tenha salvado a vida do filho de minha companheira. Claro que 
lhe sou grato por isso... todos viram que, no caminho de volta, tive ocasio de me externar muitas vezes neste sentido, mas continuo dizendo que tudo isso no faz 
a menor diferena. As tradies dos cl no permitem concesses. Uma mulher que usa arma deve morrer. No podemos alterar o fato. Assim rezam os nossos costumes. 
Toda essa reunio  uma perda de tempo. No existe qualquer outra deciso a tomar, Brun. E tenho dito.
     - Broud tem razo - disse Dorv. - no compete a ns mudar as tradies dos cl Uma exceo leva a outra. Em breve, no teremos mais nada em que nos apoiar. 
O castigo  a morte, logo a menina deve morrer.
     Algumas cabeas acenaram em assentimento. Brun no respondeu imediatamente. Broud est certo, pensou. Qual outra deciso posso tomar? Ela salvou a vida de Brac, 
mas, para fazer isso, usou uma arma. Brun estava to capaz de tomar uma deciso agora como no dia em que Ayla passou a mo numa funda e matou a hiena.
     - Antes de tomar minha deciso, levarei em considerao a opinio de todos aqui. Mas quero que cada um neste instante expresse sua resposta de forma objetiva 
- disse, por fim, o chefe.
     Os homens sentavam-se em crculo ao redor da fogueira. Todos mantinham os punhos cerrados em frente do peito. Um movimento para cima e para baixo significava 
resposta afirmativa e, para o lado, valia como no.
     - Grod - falou Brun, iniciando com o segundo em comando - voc acha que a menina Ayla deve morrer?
     Grod hesitava, estava solidrio com seu chefe, vivendo o mesmo dilema. H anos era o segundo em comando de Brun e quase podia ler os pensamentos de seu chefe 
e, com o passar dos anos, foi aprendendo a respeit-lo cada vez mais. Ele no via qualquer outra sada. Levantou a mo fechada para cima e depois para baixo.
     - Que outra coisa poderia fazer, Brun - acrescentou.
     - Grod diz sim. E voc, Droog? - indagou Brun, virando-se na direo do ferramenteiro.
     Droog no hesitou, seu punho cerrado fez um movimento atravessan do o peito.
     - Droog diz no. Crug, e voc?
     Crug olhou para Brun, depois para o Mog-ur e finalmente para Broud. Ele foi com a mo para cima.
     - Crug diz sim. Que a menina deve morrer - confirmou Brun. - Goov?
     O jovem aclito respondeu imediatamente cruzando o peito com sua mo cerrada.
     - Goov  da opinio que no deve. Broud?
     Broud, antes mesmo de Brun dizer o seu nome, j tinha o punho suspenso para cima. Brun passou logo adiante, era uma resposta mais do que sabida.
     - Sim, Zoug?
     O velho mestre atirador, cheio de altivez, endireitou o corpo e riscou o peito com seu punho nos dois sentidos, enfaticamente, de modo a no deixar a mais leve 
sombra de dvida.
     - Zoug  da opinio de que a menina no deve morrer. E voc, Dorv, o que acha?
     O velho suspendeu sua mo fechada e, antes mesmo que a tivesse abaixado, todos j se haviam voltado na direo do Mog-ur.
     - Dorv diz que sim. Mog-ur, qual  a sua opinio? - Perguntou Brun. A respeito dos outros, ele sabia por antecipao o que diriam, mas com relao ao velho 
feiticeiro no estava muito certo.
     Creb se via na maior agonia. Sabia o que rezava a tradio. Culpava-se pelo crime de Ayla, por lhe ter dado demasiada liberdade. Sentia-se tambm culpado por 
gostar tanto dela, temendo que isso obscurecesse seu raciocnio, que pudesse pensar primeiro nela, botando seus deveres para com o cl em segundo plano. Pela lgica, 
decidira que ela devia morrer. Mas antes que se pusesse a fazer o movimento, sua mo foi empurrada para o lado, como se algum a tivesse agarrado e a movesse por 
ele. Era-lhe impossvel conden-la, se bem que, uma vez a deciso tomada, faria aquilo que era de sua competncia. Ele no tinha escolha, isso agora era exclusivamente 
com Brun e com mais ningum.
     - As opinies esto igualmente divididas - anunciou o chefe. - De qualquer o modo, a deciso seria mesmo minha. Eu apenas quis saber o que pensavam. Vou precisar 
de algum tempo para ver com mais clareza o que foi dito aqui hoje. O Mog-ur anunciou uma cerimnia para esta noite. Isso  bom. Estou precisando da ajuda dos espiritos, 
e todos ns temos necessidade da proteo deles. Vocs sabero da minha deciso amanh pela manh. Ayla tambm saber. Agora, vocs podem ir e se preparem para a 
cerimnia.
     Brun, sozinho, permaneceu junto da fogueira. As nuvens, trazidas pelos ventos gelados, corriam pelo cu fazendo cair pesados e intermitentes aguaceiros. Brun, 
entretando, estava alheio  chuva, do mesmo jeito que tambm no percebia as ltimas brasas faiscando na fogueira. J era quase noite, quando a custo se levantou 
e foi-se arrastando para a caverna. Viu Ayla ainda sentada no mesmo lugar em que a deixara ao sair pela manh. Ela espera o pior, disse consigo. Mas que outra coisa 
poderia esperar?
     

***

Captulo 16

     O cl, cedo, reuniu-se do lado de fora da caverna. Do leste vinha um vento frio, prenunciando rajadas mais geladas ainda, mas o cu estava claro com o sol da
manh brilhando por cima do morro, contrastando com os nimos sombrios das pessoas. Elas evitavam olhar umas para as outras. Na falta de conversa, vinham com os
braos cados arrastando-se at os seus lugares. Naquela manh, saberiam do destino da estranha menina que haviam adotado em seu meio.
     Uba sentia sua me tremendo e lhe apertando a mo com tanta fora que chegava a doer. A menina percebia que o tremor no era pelo vento frio. Havia algo mais. 
Creb estava de p, parado  entrada da caverna. Nunca sua figura esteve to intimidadora, com seu rosto disforme parecendo esculpido em granito e o nico olho mostrando-se 
impenetrvel como uma pedra opaca. A um sinal de Brun, foi coxeando para o interior da caverna, lenta e cansadamente, sucumbido pelo peso de um fardo monstruoso. 
Ele se dirigiu  sua fogueira e olhou para a menina sentada sobre a pele de dormir. Fazendo um supremo esforo sobre si, obrigou-se a ir para junto dela.
     - Ayla, Ayla - disse, com brandura. A menina levantou os olhos. - Chegou o momento. Voc deve vir agora. - Ayla tinha o olhar mortio, parecendo no compreender. 
- Voc precisa vir, Ayla. Brun espera - repetiu Creb.
     Ayla acenou com a cabea, dizendo que compreendera e se levantou com esforo de seu lugar. As pernas estavam duras de tanto tempo ficar sentada, mas ela mal 
notou. Em silncio, seguiu Creb, olhando para a terra no cho, marcada por aqueles que haviam passado ali antes: marcas de calcanhar, impresses de dedos, contornos 
imprecisos de ps envolvidos por couro, a ponta redonda do cajado de Creb e os sulcos deixados por suas passadas trpegas. Parou, ao dar com uns calados cobertos 
de poeira. Eram os de Brun. Ela se deixou, ento, cair por terra. A uma pequena pancadinha em seu ombro, procurou foras dentro de si para poder levantar os olhos 
e olhar a face do chefe do cl.
     O impacto lhe devolveu a conscincia, despertando um medo indefinido. Era a figura de sempre - fronte baixa, deslizando para trs, sobrancelhas cerradas, nariz 
adunco e a barba grisalha - mas o olhar orgulhoso, duro e severo desaparecera, substitudo por uma franca expresso de pesar e compaixo.
     - Ayla - disse alto, para depois prosseguir por meio de gestos formais, usados s em ocasies solenes - menina dos cl so antigas as nossas tradies. Vivemos 
conforme estas, praticamente desde que os cls existem. Voc no nasceu de nossa gente, mas  uma de ns e deve viver ou morrer segundo os nossos costumes. Quando 
estvamos no norte, caando o mamute, voc foi vista usando uma arma e, antes disso, tambm j a havia usado. Nossas mulheres no podem usar armas, essa  uma de 
nossas tradies. O castigo tambm faz parte das tradies. Tais so os nossos costumes e estes no devem ser alterados.
     Brun se inclinou para a frente e olhou para Ayla, dentro de seus olhos azuis amedrontados, e ento prosseguiu:
     - Eu sei por que voc usou a funda, Ayla, se bem que at agora no entendo os motivos que a levaram a querer usar uma arma. Brac no estaria vivo, se no fosse 
voc. - Ele endireitou a postura e, com gestos extremamente medidos para que todos pudessem ver, acrescentou: - O chefe deste cl agradece a esta menina por ter 
salvo a vida do filho da companheira do filho da minha companheira.
     Algumas pessoas se entreolharam. Raramente se fazia um reconhecimento como aquele publicamente e mais raro ainda era um chefe admitir sua gratido uma simples 
menina.
     - Entretanto, as nossas tradies no admitem excees. - Nesse ponto, ele fez um sinal para o Mog-ur que se dirigiu para a caverna. - E eu no posso agir de 
outra maneira, Ayla. O Mog-ur neste instante est armando os ossos e dizendo em voz alta os nomes daqueles que no se podem pronunciar, nomes que apenas os mog-urs 
conhecem. Depois que ele terminar, voc morrer. Ayla, menina dos cl voc est amaldioada com a maldio de morte.
     Ayla sentiu que o sangue lhe fugia do rosto. Iza soltou um grito, prolongado num som agudo e lamentoso, pranteando a morte de sua filha. Ela foi interrompida 
por Brun, que tinha a sua mo suspensa.
     - Ainda no terminei - gesticulou o chefe.
     Fez-se sbito silncio. Os olhares se entrecruzaram rapidamente, todos, curiosos, aguardando o que estava por acontecer. O que mais teria Brun a dizer?
     - As tradies dos cl so claras e, como chefe, sou obrigado a seguir nossos costumes. Uma mulher que usa arma deve ter pesando sobre ela a maldio de morte. 
Entretanto, nenhum costume estabelece por quanto tempo deve durar o castigo. Ayla, sua maldio de morte deve ser por todo o perodo de uma lua. Se os espritos 
concederem a voc a graa de voltar do outro mundo, aps a lua haver feito todo o seu ciclo, quando novamente estiver na fase em que se encontra agora, voc poder 
tornar a viver conosco.
     Houve um rebulio geral. Era totalmente inesperado.
     -  verdade - gesticulou Zoug. - no existe nada dizendo que a maldio tenha de ser para sempre.
     - Mas que diferena faz? Como algum que ficou morto por tanto tempo pode voltar a viver? Alguns dias ainda vai, mas durante toda uma fase de lua? - perguntou 
Droog.
     - Se a maldio fosse s por alguns dias, no sei se satisfaria as condies do castigo - disse Goov. - Alguns mog-urs acreditam que o esprito no atinge o 
outro mundo, se a maldio for por prazo curto. Ele fica simplesmente pairando por a, esperando o tempo passar para regressar, caso consiga faz-lo. Se o esprito 
ficar por perto, os malignos tambm ficaro. Essa  uma maldio  de morte limitada, mas  to prolongada que chega quase a valer como uma definitiva. Ela satisfaz 
perfeitamente as exigncias de nossos costumes.
     - Ento, por que simplesmente ele no lanou a maldio e deu a coisa por encerrada - gesticulou Broud, com raiva. - Nada em nossas tradies fala de maldio 
de morte temporria para esse tipo de crime. Ela deveria morrer, e a maldio de morte era para ser o seu fim.
     - E voc acha que no ser, Broud? Acredita realmente que ela possa voltar? - perguntou Goov.
     - No acho nada. S queria saber por que Brun no lanou simplesmente a maldio Ser que j no consegue mais tomar uma simples decizo. Broud se sentiu confuso 
com o sentido subentendido na pergunta de Goov. Ela punha a descoberto aquilo que todos no seu ntimo estavam pensando. Teria Brun imposto uma maldio de morte 
temporria, se no soubesse que haveria alguma chance, ainda que muito remotamente, de a menina voltar da morte?
     Brun passara a noite toda lutando com seu dilema. Ayla salvara a vida do beb. no era justo que ela morresse por isso. Ele amava a criana e se sentia profundamente 
grato  moa, mas a questo ultrapassava seus sentimentos pessoais. As tradies exigiam que a menina morresse. Por outro lado, havia outros costumes: o costume 
da obrigao aquele que rezava que uma vida se paga com outra vida. Ayla trazia consigo uma parte do esprito de Brac. Ela merecia e lhe era devida uma coisa de 
igual valor. A ela, estava-se devendo a vida.
     Somente quando comeou a clarear o dia, conseguira encontrar uma soluo. Algumas almas mais fortes haviam voltado depois de uma maldio de morte temporria. 
Era uma chance longnqua, praticamente nenhuma, apenas uma levssima esperana. Em troca da vida do beb, ele lhe dava a nica coisa que estava dentro de seu alcance 
oferecer: uma nfima possibilidade de viver. No era o suficiente; mais, entretanto, no lhe era possvel, e isso era melhor do que nada.
     Subitamente, abateu-se um silncio mortal. O Mog-ur, de p n entrada da caverna, era a prpria personificao da morte: velho e encarquilhado. no foi preciso 
que ele anunciasse que estava tudo acabado. O Mog-ur havia cumprido o seu dever. Ayla estava morta.
     Os lamentos de Iza vaiavam o ar. Em seguida, vieram os de Oga e Ebra. Depois, todas as mulheres juntaram suas vozes  de Iza, em pranto solidrio. Ao ver a 
mulher que amava sucumbida pela dor, Ayla correu para consol-la- Mas no momento em que ia envolv-la nos braos, Iza, a nica me de quem se lembrava, afastou-se, 
evitando o abrao. Era como se Iza no a visse. A menina se achou confusa. Olhou para Ebra inquirindo, mas Ebra olhava como se atravs dela. Foi para Aga, depois 
para Ovra, ningum a via. Quando ela se aproximava, ou se viravam, ou se punham de lado. No propositadamente para lhe dar caminho, mas como se todos houvessem planejado 
sair antes que ela pudesse chegar. Ayla correu na direo de Oga.
     - Sou eu! Ayla! Estou aqui na sua frente. Voc no me v?
     Os olhos de Oga estavam vidrados. Ela deu as costas, afastando-se sem responder, sem fazer qualquer sinal de reconhec-la; era como se Ayla fosse invisvel.
     Ayla viu Creb caminhando na direo de Iza. Ela correu para ele.
     - Creb! Sou Ayla! Estou aqui - gesticulou, inteiramente fora de si. O velho feiticeiro seguiu seu caminho, afastando-se apenas o suficiente para evitar Ayla, 
jogada a seus ps, como se ela fosse uma pedra em seu caminho. - Creb - dissera, gemendo. - Por que voc no me pode ver? - Levantou-se e correu outra vez para Iza.
     - Me! me Olhe para mim! OLHE PARA MIM! - gesticulou com as mos na frente dos olhos de Iza, que novamente comeou no seu agudo lamento.
     - Minha filha, minha filhinha. A minha Ayla est morta. Ela foi embora. Minha pobrezinha. Pobre Ayla. Ela no est mais viva.
     Ayla viu Uba, cheia de medo e confusa, abraada na perna da me. Ajoelhou-se na frente da garotinha.
     - Voc me v, no , Uba? Eu estou bem aqui. - Ayla percebeu nos olhos da menina um sinal de reconhecimento, mas, no mesmo momento, Ebra chegou e carregou-a 
dali.
     - Eu quero Ayla - gesticulou Uba, contorcendo-se para descer do colo.
     - Ayla est morta, Uba. Ela foi embora. Essa no  Ayla.  s o esprito dela querendo encontrar seu caminho para o outro mundo. Se voc tentar falar com ele, 
se voc enxerg-lo, o esprito vai tentar lev-la junto. No olhe para ele. D azar enxergar o esprito. Voc no quer ter azar, no , Uba?
     Ayla se deixou abater no cho Ela no sabia o que significava a maldio de morte e imaginara todas as espcies de horrores, mas a realidade era muito pior.
     Para o cl, ela deixara de existir. O que faziam no era uma farsa ou encenao para assust-la. Ayla simplesmente passou a no mais existir. Ela era um esprito 
que, por alguma razo qualquer, estava visvel, continuando a dar uma aparncia de vida a seu corpo, mas ela mesma estava morta. Segundo a crena do cl a morte 
era uma mudana de estado, uma jornada para um outro plano da existncia. A fora vital se fazia atravs de um esprito invisvel, isso era evidente. Algum poderia 
num momento estar vivo e, no outro, morto, sem qualquer mudana visvel, fora o fato de que o movimento, a respirao e o que causava a vida tinham desaparecido. 
A essncia da verdadeira Ayla j no fazia mais parte do mundo deles; ela se vira obri gada a passar ao outro. O fato de a parte fsica que ficara neste mundo estar 
fria e sem movimento, ou ao contrrio, quente e animada, no tinha a menor importncia.
     Este era apenas um passo a ser dado na expulso da essncia da vida. Se o corpo de Ayla ainda no sabia, muito brevemente compreenderia. Ningum, na verdade, 
acreditava que ela voltasse, nem mesmo Brun. Seu corpo, uma concha vazia, jamais poderia ser novamente vivel, a no ser que seu esprito fosse autorizado a voltar. 
Sem o esprito vital, o corpo, no podendo comer nem beber, logo estaria deteriorado. Uma vez acreditando firmemente nesta teoria e os entes queridos no reconhecendo 
a existncia, no havia mais existncia e, portanto, nenhuma razo para comer, beber ou viver.
     No entanto, enquanto permanecesse o esprito perto da caverna, animando o corpo do qual j no fazia mais parte, as foras que o haviam expulsado continuavam 
tambm pairando nas vizinhanas. Essas podiam fazer mal aos vivos e tentar levar consigo alguma vida. Sabia-se de pessoas que receberam a maldio de morte que tiveram 
companheiros ou familiares mortos pouco tempo depois de haverem sido amaldioadas. Ao cl no importava se o esprito levasse consigo o corpo ou se a concha vazia 
permanecesse no mundo, o que desejavam  que o esprito desaparecesse o mais rapidamente possvel.
     Ayla observava  sua volta todas aquelas pessoas que lhe eram to familiares. Elas se afastavam para retomar seus afazeres dirios, embora a atmosfera estivesse 
tensa. Creb e Iza entraram na caverna. Ayla se levantou e os seguiu. Ningum tentou impedi-la, apenas Uba foi mantida afastada. Acreditava-se que as crianas tivessem 
proteo especial, mas era melhor no tentar demasiadamente a sorte. Iza reuniu todos os pertences de Ayla, inclusive as peles e as palhas secas que haviam forrado 
seu lugar de dormir, e levou tudo para fora da caverna. Creb foi com ela e pegou uma brasa da fogueira na entrada da caverna. Depois de depositar as coisas ao lado 
de uma fogueira apagada que Ayla ainda no havia percebido, Iza voltou para dentro, enquanto Creb tocava fogo na lenha. Em seguida, silenciosamente, ele fez por 
cima dos objetos e da fogueira uma srie de gestos que eram desconhecidos de Ayla.
     Com horror cada vez maior, ela via Creb lanando s chamas cada uma de suas coisas. Para Ayla, no haveria cerimnia fnebre, isto tambm fazia parte do castigo 
e da maldio. Mas todo vestgio de sua pessoa tinha de ser destrudo, nada que pudesse prend-la ali deveria restar. A garota viu o seu pau de cavar pegando fogo, 
depois a cesta de colher, o acolchoado de palhas secas, as roupas, tudo ia sendo atirado ao fogo. Percebeu que as mos de Creb tremeram, quando pegou sua capa de 
pele. Por um instante, ele a apertou contra o peito, depois a atirou tambm ao fogo. Os olhos dela transbordavam de lgrimas.
     - Oh, Creb eu gosto tanto de voc - disse, gesticulando.
     Mas os olhos dele pareciam no ver. Com profundo terror, viu-o pegar sua sacola de remdios, a que Iza fizera pouco antes da malfadada caada de mamute, e atir-la 
tambm ao fogo.
     - No Creb, no Minha sacola de remdios, no - implorou. Tarde demais, j comeara a pegar fogo.
     A garota no pde suportar mais. Chorando sua angstia e solido ps- se a correr s tontas, descendo a colina e entrando na mata. no via por onde ia e nem 
se importava. Os galhos lhe atravessavam o caminho, mas passava por eles sem ver os arranhes que iam ficando nos braos e nas pernas e, patinan do pela gua gelada, 
no se dava conta dos ps empapados e j dormentes. Por fim, tropeou num tronco, esborrachando-se no cho. Deixou-se ficar estendida sobre a terra fria e molhada, 
desejando que a morte chegasse depressa, livrando-a daquele sofrimento atroz. no tinha nada: famlia, cl, motivo para viver. Estava morta. Eles mesmos o haviam 
dito.
     Seu desejo no estava muito longe de tornar-se realidade. Desde o regresso da caada, h dois dias que, perdida no seu mundo de mgoas e medos, no comia nem 
bebia. Seus trajes eram leves e os ps doam com o frio. Fraca e desidratada, era candidata certa a morrer de frio. Havia, entretanto, dentro dela algo que era mais 
forte do que o desejo da morte, a mesma coisa que j a havia sustentado antes, quando um terremoto devastador deixou uma menina de cinco anos sem amor, famlia e 
proteo. Uma inquebrantvel vontade de viver, um obstinado instinto de sobrevivncia no a deixavam entregar-se, enquanto respirasse e houvesse vida pela frente.
     A parada deixou-a mais calma e ela se sentou, tremendo de frio, com os ferimentos sangrando. Quando cara batera com o rosto contra algumas folhas molhadas 
e agora lambia os lbios, procurando umedec-los. Estava sedenta. no se lembrava de ter tido tanta sede na vida. O barulho de uma gua prxima colocou-a sobre os 
ps. Depois de um longo e prolongado gole, j saciada, ps-se a caminho. O tremor era tanto que ouvia o barulho dos dentes batendo, e os ps gelados e dodos faziam 
do seu caminhar um penoso sacrifcio. Sentia-se enjoada e tonta. O movimento a aqueceu um pouco, mas a baixa temperatura do corpo estava produzindo seus efeitos.
     No sabia direito onde se encontrava, no tinha nenhum destino em mente, mas os ps seguiam um trajeto que de tantas vezes feito e repetido lhe ficara gravado 
no crebro. O tempo perdera o significado, ignorava desde quando estava caminhando. Subia margeando a base de um ngreme paredo que ia para alm de uma nebulosa 
cachoeira. Foi ento que lhe veio o sentimento de um terreno j conhecido. Saindo de um pequeno bosque de conferas entremeadas por alguns ps atarracados de vidoeiros 
e salgueiros, viu-se em sua solitria clareira no alto da montanha.H quanto tempo, perguntava-se ela, no aparecia por ali. Depois que comeara a caar, a no ser 
na poca em que treinava a tcnica dos dois arremessos, raramente fora l. Sempre havia sido um lugar para treinar, nunca para caar. Ser que durante o vero no 
cheguei a vir nem uma vez? no se lembrava. Pondo para o lado o denso emaranhado de galhos que, mesmo sem folhas, ocultava a entrada, Ayla entrou na pequena caverna.
     Pareceu-lhe menor do que imaginava. L est a velha pele de dormir, disse consigo, lembrando-se da poca em que a trouxera. Havia sido h muito tempo. Alguns 
esquilos tinham feito ninhos dela, mas quando ela a trouxe para fora e a sacudiu, reparou que no estava muito estragada. Ficara s um pouco dura com o tempo. O 
interior seco da caverna ajudara a conserv-la. Ayla se enrolou na pele, dando graas por t-la e tornou a entrar no pequeno abrigo.
     Havia uma pea de couro, uma velha capa que trouxera para botar por cima de palhas e fazer um acolchoado. Gostaria de saber se ainda existe aquela faca, pensou 
consigo. A prateleira improvisada caiu, mas ela deve estar por perto... ah, aqui est, disse retirando do meio da terra uma faca que, de pois de limpa, usou para 
cortar a velha capa de couro. Tirou ento dos ps os calados molhados e enfiou uma tira pelos buracos que fez em cada um dos dois crculos cortados do couro. Envolveu 
os ps no novo calado, forrando-o antes com palhas secas achadas sob a pea de couro. Estendeu os outros calados para secar e, em seguida, ps-se a fazer o inventrio 
da caverna.
     Preciso de uma fogueira. A palha seca servir para ajudar o fogo a pegar. Empurrou-a, fazendo um monte junto da parede. A prateleira est seca, posso tambm 
tirar umas lascas nela para fazer fogo e vai servir como base para girar o pau. Agora, preciso encontrar um... ah, ali est a minha cuja devidoeiro, tambm poderia 
queim-la. No vou precisar dela para guardar gua. Esta cesta est toda roda. O que  isso dentro? A minha velha funda. no sabia que tinha ficado aqui. Devo ter 
feito uma outra. Ela a suspendeu examinando.  muito pequena e os ratos deram nela. Vou precisar de uma nova. Ela parou olhando para a tira de couro que tinha na 
mo.
     Fui amaldioada por causa disso. Agora, estou morta. Mas como posso estar aqui pensando em fogueiras e fundas? Eu estou morta. S que no me sinto morta... 
O que estou sentindo  muito frio e fome. Pode uma pessoa morta ter fome e frio? O que um morto sente? Ser que sou o meu esprito no outro mundo? Mas nem sei o 
que  o meu esprito. Nunca vi um em toda a minha vida. Creb diz que no se pode ver espritos, mas ele conversa com eles. Por que no me pde ver? E por que ningum 
mais pde? Devo estar morta. Ento por que penso em fogueiras e fundas? Ora, por que tenho fome!
     Ser que posso usar uma funda para arranjar comida? Por que no? J estou amaldioada mesmo, eles no podem me fazer mais nada. Mas essa aqui no est boa. 
O que eu poderia usar para fazer uma outra? A capa? no O couro est muito duro, ficou muito tempo aqui dentro. Preciso achar um couro macio. Ela passou os olhos 
pela caverna. Sem uma funda para matar um animal, no posso fabricar outra. Onde ser que posso encontrar um couro macio? Ela dava voltas na cabea, procurando por 
uma soluo e acabou sentando-se no cho desesperada.
     Ali ficou olhando para as mos cadas sobre o colo. De repente, viu onde elas estavam apoiadas. Claro, a minha roupa! Posso tirar um pedao dela. Criou ento 
alma nova, pondo-se outra vez a olhar a caverna, cheia de entusiasmo. Ah, aqui est o meu velho pau de cavar. no me lembrava de o ter deixado aqui. E tambm alguns 
pratos. Isso sim, me lembro de quando trouxe essas conchas para c. Estou morta de fome. Queria que existisse alguma coisa para comer por aqui. Mas espere! H sim. 
Este ano, no catei as avels, elas devem estar espalhadas pelo cho l fora.
     Ayla ainda no se dera conta, mas comeara a viver outra vez. Colheu as avels trouxe-as para dentro da caverna e comeu tantas quanto permitiu o seu estmago 
encolhido pela falta de comida. Em seguida, retirou a roupa e cortou dela um pedao para fazer a funda. A correia no tinha a bolsa para ajustar as pedras, mas achava 
que dava para funcionar.
     At ento, nunca havia caado animais para comer, e o coelho era rpido, mas no o bastante para ela. Lembrou-se de haver passado pela casa de um castor na 
beira da gua. Conseguiu pegar o bicho no momento exato em que ele ia esconder-se sob as guas. No caminho de volta, viu uma pequena pedra cinza perto do riacho. 
Isso  slex. Tenho certeza de que . Pegou o ndulo e levou consigo. Meteu o castor e o coelho dentro da caverna e voltou para catar madeira e uma pedra para martelar.
     Preciso de um pau para fazer fogo. Ele tem que estar perfeito e seco. Essa madeira est muito molhada. Reparou no pau de cavar. Isso deve servir. Era difcil 
fazer fogo sem a ajuda de outra pessoa. Estava acostumada a revezar com outra mulher no trabalho de girar o pau sem parar, comprimindo-o contra uma superfcie. Depois 
de muito esforo e concentrao uma fasca saiu da combusto da superfcie, passando para o monte de acendalhas. Com muito cuidado, foi soprando at que por fim 
se viu recompensada com pequenas lnguas de fogo. Comeou, ento, a jogar, uma por uma, as lascas de madeira seca para depois botar pedaos maiores tirados da prateleira. 
Quando o fogo pegou de vez, botou por cima a madeira que havia apanhado do lado de fora e uma alegre fogueira se fez dentro da pequenina caverna.
     Vou ter de arrumar uma panela para cozinhar, pensou, enquanto fazia um espeto com o coelho j sem a pele e punha por cima o rabo do castor para enriquecer com 
sua gordura a carne magra do coelho. Vou precisar tambm de um novo pau de cavar e de outra cesta. Creb queimou a minha. Queimou tudo, at mesmo a minha sacola de 
remdios. Por que ele teve de fazer isso? Os olhos se encheram de lgrimas que rolavam pelo rosto. Iza disse que estou morta. Por que ela no conseguia ver que eu 
estava ali? Ali, bem na frente dela. Por alguns momentos, ficou chorando, depois se sentou endireitando o corpo e enxugou as lgrimas. Se vou ter de fazer um outro 
pau de cavar, precisarei de uma machadinha, disse, cheia de resolues.
     Enquanto o coelho assava, fabricou o machado  maneira como viu Droog fazendo e com ele cortou um galho verde para servir de pau de cavar. Em seguida, foi apanhar 
mais lenha que empilhou dentro da caverna. Mal aguentava esperar a carne ficar pronta. O cheiro lhe enchia a boca de gua e seu estmago vazio no parava de roncar. 
A primeira mordida lhe deu a sensao de nunca ter comido nada to gostoso na vida.
     Quando terminou, j estava escuro e ela se sentia feliz com sua fogueira. Botou, ento mais lenha por cima, abafando um pouco o fogo para ter certeza de que 
no apagaria at o dia seguinte e, enrolando-se na velha pele, deitou-se, mas o sono no veio. Olhava as chamas enquanto lhe iam desfilando pela cabea, numa monstruosa 
sequncia, os horrveis acontecimentos do dia. Nem notava as lgrimas escorrendo pelo rosto. Tinha medo e, ainda por cima, via-se s. Nunca mais passara uma noite 
sozinha, desde que Iza a encontrara. Por fim, exausta, os olhos se fecharam, mas foi um sono perturbado por pesadelos. Gritava chamando Iza e chamando tambm, numa 
lngua inteiramente esquecida, por uma outra mulher. Mas ningum se achava l para consolar a menina perdida em sua dolorosa solido.
     Os dias de Ayla transcorriam ativos, com ela ocupada nas coisas que lhe garantiriam a sobrevivncia. H muito deixara de ser a garotinha de cinco anos,inexperiente 
e ignorante. Os anos passados na companhia do cl foram de trabalho duro, mas tinha aprendido bastante durante esse tempo. Teceu cestas impermeveis, uma outra para 
colher plantas, curtiu o couro dos animais que caava, fez forros de pele de coelho para botar dentro dos calados, arrumou perneiras que amarrava com cordas e luvas 
que cortava num feitio semelhante aos calados: pedaos redondos de pele que atava ao redor do pulso, tal como uma bolsa, s que nesta fazia uma fenda para deixar 
o polegar passar. Fabricou ainda ferramentas de slex e catou capim para tornar mais macio o seu lugar de dormir.
     A clareira tambm lhe supria com alimentos. O pasto l estava alto, carregado de sementes e cereais. E num terreno prximo havia nozes, arandos, uvas-de-urso, 
mazinhas verdes, tubrculos e samambaias comestveis. Ficou feliz por encontrar astrgalos, em sua variedade no venenosa, cujas vagens verdes encerravam fileiras 
de pequenas sementes arredondadas que muito apreciava. Chegou, inclusive, a moer as duras sementes dos quenopdios secos para juntar com os cereais que cozinhava 
fazendo uma espcie de mingau. Os terrenos na vizinhana davam, portanto, para satisfazer perfeitamente suas necessidades.
     Pouco tempo depois de estar l, resolveu que precisava de uma nova vestimenta de pele. O inverno ainda no havia mostrado sua verdadeira face, mas j estava 
bem frio e ela sabia que a neve no tardaria a chegar. O primeiro pensamento foi para uma pele de lince, um animal que tinha especial significado para ela. Mas a 
carne era incomvel, pelo menos para seu gosto. A comida tinha a mesma importncia que a pele. Enquanto pudesse caar, no lhe custava muito satisfazer suas necessidades 
imediatas, mas precisava armazenar para o futuro, quando a neve iria confin-la na caverna. A comida, naquele momento, era uma razo para caar.
     Odiava a idia de ter de matar um daqueles animais to mansos que por tanto tempo havia dividido com ela o refgio nas montanhas; alm disso, no tinha muita 
certeza se conseguiria abater um veado com a funda. Ficou surpresa de ver um pequeno bando ainda usando os pastos l em cima e resolveu que seria melhor aproveitar 
logo a oportunidade, antes que os animais fossem para terrenos mais baixos. Uma pedra lanada com fora a pequena distncia pegou numa cora e uma forte paulada 
na cabea fez o servio final.
     A pele era grossa e macia - a natureza preparara bem o animal para os rigores do inverno - e o assado, em fogo lento, constituiu-se numa bela ceia. Um carcaju 
de maus bofes, atrado pelo cheiro de carne crua aproximou-se, mas foi recebido por uma pedrada certeira que a fez lembrar-se do primeiro animal que abatera na vida, 
o outro carcaju que rondava a caverna do cl para roubar-lhe a comida. Os carcajus para alguma coisa servem disse ela ento a Oga. Os bafos frios de nossa respirao 
no congelam nas peles do carcaju e so essas as que do melhores capuzes. Desta vez vou fazer um para mim, disse consigo, arrastando o corpo do animal para a caverna.
     Armou fogueiras em volta das cordas em que pendurou as carnes para secar, com isso mantendo os carnvoros a distncia e apressando o processo de secagem e, 
alm disso, a carne defumada tinha um sabor de que particularmente gostava. No fundo da caverna cavou um buraco raso - era pequena a camada de terra naquele ponto 
onde se formara a fenda na montanha - forrou-o com pedras trazidas do riacho e armazenou ali os alimentos que cobriu com pedras maiores.
     Sua nova pele curtida junto com a carne tinha cheiro de fumo, mas ela a esquentava e a velha serviu para tornar seu lugar de dormir mais aconchegante. Da cora, 
ainda aproveitou o estmago que, depois de bem lavado, usou como cantil de gua, os tendes, que foram usados como cordas, e da corcova sobre o rabo, onde o animal 
armazenava suas reservas para o inverno, Ayla retirou gordura. Sua preocupao de todos os dias, enquanto a carne secava, era com a neve, e ela dormia do lado de 
fora, dentro do crculo de fogueiras para poder mant-las acesas durante a noite. Por fim, ao ver tudo guardado e em segurana, pde sentir-se mais aliviada e tranquila.
     Quando o cu se cobriu com pesadas nuvens escondendo a lua, sua preocupao passou a ser com a contagem do tempo. Lembrava-se exatamente do que Brun dissera: 
Se os espritos concederem a voc a graa de voltar do outro mundo, aps a lua haver feito todo o seu ciclo, quando novamente estiver na fase em que se encontra 
agora, voc poder tornar a viver conosco. Ela no sabia se estava ou no no outro mundo, s sabia que mais do que tudo desejava voltar. Tambm no tinha muita 
certeza se poderia, ou se voltasse, as pessoas iriam enxerg-la. Brun, no entanto, dissera que ela podia e eram a estas palavras que se apegava. Mas, como saber 
quando voltar, se as nuvens cobrissem a lua?
     Recordou-se que, h muitos anos, Creb lhe mostrara um processo de fazer marcas sobre um pau. Supunha que uma poro de varas com ranhuras que ele guardava num 
canto da fogueira deles na caverna fosse para contar a quantidade de tempo entre um e outro acontecimento significativo. Certa vez, por curiosidade, ela resolveu 
tambm informar-se sobre determinada coisa  maneira como ele fazia, e j que a lua passava sempre por ciclos repetitivos, interessou-se em ver quantas marcas seriam 
necessrias para se ter um ciclo completo da lua. Creb descobriu e lhe passou um bom cargo. A repreenso serviu para que Ayla guardasse bem na memria que aquela 
era uma coisa que jamais deveria voltar a fazer, mas, por isso mesmo, nunca se esqueceu da ocasio. Passou um dia inteiro preocupada, sem saber como calcular a poca 
em que deveria estar de volta, at que se lembrou desse fato de tempos atrs e teve a idia de fazer, todas as noites, uma marca sobre um pau.
     Por mais que se esforasse, as lgrimas lhe vinham sempre aos olhos ao final do dia, quando mais uma marca era acrescentada.
     As lgrimas estavam constantemente subindo a seus olhos. Pequeninas coisas traziam-lhe  lembrana detalhes envolvendo momentos de amor e ternura. Um coelho 
assustado atravessando o caminho fazia-a recordar de suas longas caminhadas com Creb. Adorava seu velho rosto, rude, com um s olho e cheio de cicatrizes. A lembrana 
dele inundava os seus olhos de lgrimas. Alguma planta medicinal que via punha a garota chorando, cheia de lembranas de Iza, explicando-lhe como us-la, e a viso 
de Creb queimando a sacola de remdios provocava outro derramamento de lgrimas. De noite, ainda era pior.
     Acostumara-se a ficar sozinha durante o dia em suas andanas pelas matas, colhendo plantas ou caando, mas,  noite, sempre teve pessoas por perto. Sentada 
na solido de sua pequena caverna, com os olhos parados nas chamas refletindo suas sombras danantes na parede, chorava com saudade daqueles que amava. Sob certos 
aspectos, era Uba que mais lhe fazia falta. Muitas vezes, abraada com as peles, punha-se a nin-las e cantar baixinho, tal como fazia com a menina. A natureza satisfazia 
as exigncias de seu corpo, mas no as da alma.
     A primeira nevada chegou silenciosamente durante a noite. Ao sair da caverna pela manh, Ayla exclamou cheia de alegria. Uma brancura ancestral suavizava os 
contornos da paisagem familiar, criando formas fantsticas e plantas mticas numa terra de sonhos e magia. Os arbustos viam-se enchapelados pela neve macia, as conferas 
engalanavam-se com novos trajes brancos e os galhos desfolhados cobriam-se com roupagens brilhantes que desenhavam cada um dos seus ramos contra o azul forte do 
cu. A garota olhou para as marcas deixadas por seus ps quebrando a uniformidade daquele macio manto luminosamente branco e se ps a correr cruzando as suas passadas 
umas sobre as outras, querendo formar um desenho complicado, cujo plano original se perdeu na execuo. Comeou, ento, a seguir a trilha deixada por um pequeno 
animal, mas de repente mudou de idia e subiu pelo estreito afloramento na rocha, onde o vento havia varrido a neve.
     Por trs dela, a cadeia de montanhas subia formando uma srie de majestosos picos cobertos por um branco anilado que faiscava ao sol tal como gigantesca jia 
brilhante. A vista, estendendo-se  frente, mostrava at onde alcanara a nevada. O mar verde puxando para o azul, visto por entre as fendas das colinas brancas, 
revolvia-se em ondas espumosas, mas o terreno na plancie do lado leste continuava ainda limpo de neve. Ayla viu diminutas figuras movendo-se pela vastido branca 
a seus ps. Havia tambm nevado na caverna do cl. Uma das silhuetas, l embaixo, pareceu-lhe arrastar-se num passo coxo e lento. Subitamente, o clima de magia se 
desvaneceu e ela tornou a descer.
     A segunda nevada chegou sem qualquer encantamento. A temperatura baixou bruscamente. Sempre que saa da caverna, os ventos cortantes penetravam-lhe na pele 
do rosto como afiadas farpas. A tempestade durou quatro dias, amontoando tal quantidade de neve junto  parede da caverna que a entrada praticamente ficou bloqueada. 
Ela, com as mos e, s vezes, com o osso do quadril da cora, cavou um tnel e passou todo um dia catando lenha. A secagem da carne consumira inteiramente a madeira 
que existia cada nos arredores e o andar pesado na neve alta deixou-a exausta. Quanto  comida, no tinha dvida de que possua o bastante para mant-la, mas j 
no fora to precavida no que se referia  madeira. no tinha certeza se haveria o suficiente e, se a neve continuasse por muito mais tempo, sua caverna seria soterrada, 
tornando-lhe impossvel a sada.
     Pela primeira vez, desde que se encontrava ali, a jovem temeu pela vida. A clareira estava num ponto muito elevado da montanha. Se ficasse prisioneira, no 
conseguiria sobreviver ao inverno. no tivera tempo de preparar-se para a estao inteira. Voltou aquela tarde  caverna, prometendo-se que pegaria mais madeira 
no dia seguinte.
     A manh surgiu com outra tempestade que uivava toda sua fora, deixando a entrada completamente bloqueada. Sentia-se enclausurada, como se presa numa armadilha 
e com muito medo. Ficava a imaginar debaixo de quanta neve estaria enterrada. Conseguindo uma vara comprida, meteu-a atravs dos galhos dos ps de avel esboroando 
a neve para dentro da caverna. Sentiu uma certa aragem e olhou, pelo buraco, a neve que caa horizontalmente, aoitada pela fora do vento. Deixou a vara mantendo 
o buraco e veio para junto da fogueira.
     Foi uma sorte ter tido a idia de medir a altura da neve. O furo mantido aberto pela vara permitia o ar entrar no seu diminuto espao, pois tanto ela como o 
fogo precisavam de oxignio. Sem tal providncia, poderia ter adormecido e cado num sono do qual nunca mais teria acordado. O perigo era muito maior do que poderia 
imaginar.
     A garota descobriu que no precisava de uma fogueira muito grande para manter a caverna aquecida. A neve, encerrando diminutas partculas de ar entre os seus 
cristais gelados, era bom isolante. O calor de seu prprio corpo j era quase suficiente para esquentar o ambiente. Mas precisava de gua, e o fogo passou a ser 
mais importante para derreter gelo do que para aquecer.
     Sozinha na caverna, iluminada por uma pequena fogueira, diferenava o dia da noite apenas pela fraca luz filtrada atravs do buraco de ar, e todas as tardes, 
quando a luz comeava a diminuir, tinha o cuidado de fazer a ranhura no pau.
     Sem ter o que fazer, a no ser pensar, passava o tempo contemplando o fogo. Ele era quente, tinha movimento e, fechado naquele mundo mais parecido a um tmulo, 
foi ganhando vida prpria. Via-o devorando cada pedao de lenha at que restasse apenas o resduo das cinzas. Ser que o fogo tambm tinha esprito?, perguntava-se. 
Para onde ir o seu esprito depois da morte? Creb diz que quando uma pessoa morre, seu esprito vai para o outro mundo. E eu j no estaria no outro mundo? No 
sinto nada diferente. S me sinto sozinha e nada mais. Seria possvel meu esprito estar em outro lugar? Mas como saber? no me d a impresso que esteja. Bem, pode 
ser. Acho que meu esprito est com Creb, Iza e Uba. Mas se estou amaldioada, devo estar morta.
     Por que teria o meu totem me enviado um aviso, sabendo que eu seria amaldioada? Por que imaginei que ele me mandou o aviso, se no foi isto o que aconteceu? 
Achei que ele estava me testando. Talvez este seja outro teste. Ou ser que ele me abandonou? Mas, ento, por que fui escolhida para depois ser abandonada? Pode 
ser que no tenha me abandonado. Talvez ele tenha ido para o mundo dos espritos no meu lugar. Pode at ser que esteja lutando contra os maus espritos. Ele faria
isto melhor do que eu. Talvez me tenha enviado para c, s para esperar. Ser que ele ainda est me protegendo? Mas, se no estou morta, como estou? Sozinha,  como 
estou, e queria no estar me sentindo to sozinha.
     O fogo est com fome outra vez, est querendo comer mais. Acho que tambm vou comer alguma coisa. Pegou um pedao de lenha de sua minguada reserva e alimentou 
a fogueira. Em seguida, foi checar a passagem de ar. J est escurecendo,  melhor botar outra marca no pau. Ser que essa tempestade vai durar todo o inverno? Pegou 
o pau, botou a marca e, em seguida cobriu as ranhuras com os dedos. Primeiro, com uma das mos, depois com os dedos da outra, novamente com os dedos da primeira 
mo e assim foi fazendo at cobrir todas as marcas. Ontem, seria o ltimo dia. Agora, j posso voltar. Mas como, com essa tempestade? Foi outra vez verificar a passagem 
de ar. Dava apenas para ver, na escurido cada vez maior, a neve caindo ainda horizontalmente. Abanou a cabea e voltou para junto do fogo.
     Ao acordar no dia seguinte, a primeira coisa que fez foi ir checar o buraco de ar. A ventania continuava soprando com toda a fria. Ser que nunca vai parar? 
no pode continuar assim a vida toda. Quero voltar. E se Brun tornar a minha maldio para sempre? E se eu no puder voltar, mesmo que a tempestade pare? Se ainda 
no estou morta, certamente vou morrer. no houve tempo, s pude abastecer-me para durar uma lua. Jamais iria aguentar o inverno inteiro. no sei por que Brun deu 
uma maldio de morte limitada. Eu no esperava isso. Ser que, ao invs do meu totem, tivesse sido eu quem fosse para o mundo dos espritos, teria eu voltado? Como 
posso saber que meu esprito no foi? Talvez meu totem esteja aqui protegendo meu corpo, enquanto meu esprito est em outro lugar. no sei. Simplesmente no tenho 
noo. A nica coisa que sei  que, se Brun no tivesse feito uma maldio temporria, eu nunca teria uma chance.
     Uma chance? Ser que Brun pensou em me dar uma chance? De repente, tudo se encaixava numa nova e profunda compreenso que revelava sua maior maturidade. Acho 
que realmente Brun quis dizer isto, quando falou estar agradecido por eu ter salvo a vida de Brac. Ele era, ainda que no quisesse, obrigado a me amaldioar por 
ser esse o costume dos cl Sim, ele quis me dar uma chance. no sei se estou morta. Ser que as pessoas mortas comem, dormem e respiram? Ela estremeceu, mas no 
de frio. Acho que a maioria das pessoas simplesmente no deseja morrer e agora eu sei por qu.
     O que me fez, ento, escolher viver? Teria sido to fcil morrer. Bastava ter ficado no lugar onde ca, depois que deixei a caverna. Se Brun no me ti vesse 
dito que eu poderia voltar, ser que me teria levantado? Se no soubesse que havia alguma chance, teria feito tanto esforo? Brun disse que: Se os espritos concederem 
a voc a graa... Mas que espritos? Alguma coisa me fez querer continuar vivendo. Talvez fosse o meu totem protegendo-me ou, quem sabe, talvez porque eu soubesse 
que tinha uma chance... ou as duas coisas. Acho que as duas coisas.
     Levou algum tempo at que Ayla compreendesse que estava acordada e mesmo assim teve que tocar nos olhos para perceber que estavam abertos. Ela abafou um grito 
sufocante na escurido da caverna. Estou morta! Brun me amaldioou e eu agora estou morta! Jamais sairei daqui. Nunca voltarei  caverna,  tarde demais. Os maus 
espritos me tapearam. Eles me fizeram pensar que estava viva e salva, quando estou morta. Ficaram com raiva por no ter seguido com eles e agora esto me castigando. 
Eles me levaram a acreditar que estava viva e, na realidade, tenho estado morta durante todo esse tempo. Ela tremia apavorada, encolhida sob a pele, com medo at 
de mexer-se.
     Dormira mal. Acordando a cada instante com sonhos monstruosos, povoados de horrendos espritos malignos, em meio a terremotos, linces que a atacavam e se transformavam 
em lees da caverna, e uma neve que caa infindavelmente. A caverna tinha um peculiar cheiro de umidade, mas esse odor foi a primeira coisa que a fez compreender 
que seus sentidos, alm da viso, estavam funcionando. A segunda foi quando, em pnico, deu um salto e bateu com a cabea contra a parede de pedra.
     Onde est o pau?, perguntava, por gestos, na escurido. J est de noite e tenho de botar a marca. Ela ia de gatinhas pelo escuro procurando pelo pau como se 
este fosse a coisa mais importante do mundo. Deveria marc-lo todas as noites, mas como vou poder fazer isso, se no posso encontr-lo? Ser que eu j pus a marca? 
Sem o pau, como vou saber quando ir para casa? No. no  bem isso. Ela abanou a cabea, querendo clarear as idias. Eu j posso voltar, o tempo est esgotado. S 
que estou morta e a neve no quer parar. Vai continuar sempre nevando, nevando e nevando. Ah, outro pau, onde est o outro pau? Preciso ver a neve. Como vou ver 
a neve na escurido?
     Arrastando-se s cegas pela caverna, trombando com as coisas, chegou at  entrada e viu um brilho, fraco, emaciado no alto. O pau tem de estar ali em cima. 
Ela subiu pelos galhos que entravam um pouco para o interior da caverna, sentiu a extremidade de um mais comprido e o puxou. Quando conseguiu arranc-lo, a neve 
caiu por cima dela, abrindo a passagem de ar. Ela foi saudada por um bafo de ar fresco e um pedao de cu azul forte. Finalmente, a tempestade tinha cedido e o vento 
parara de soprar, mas as ltimas neves haviam tampado o buraco.
     O ar fresco serviu para clarear suas idias. Acabou! Parou de nevar! At que enfim! Agora posso voltar para casa. Mas como vou sair daqui? Com o galho, ela 
passou a remexer a neve dando cutucadas, querendo alargar a passagem. Um grande torro da abertura se desprendeu e despencou dentro da caverna, cobrindo-a de neve. 
Preciso ter cuidado, do contrrio acabo enterrada. Tenho de pensar direito como fazer a coisa. Tornou a subir nos galhos e sorriu na direo da luz escoando pelo 
buraco j mais largo. Estava excitada, louca para sair, mas se forou a ficar calma e a pensar com mais calma.
     Que bom seria se o fogo no se tivesse apagado, gostaria de tomar um pouco de ch. Mas ainda tenho gua na sacola. Isso  bom, disse consigo, enquanto tomava 
um bom gole. No vou poder cozinhar nada para comer, mas no  por uma refeio a menos que vou morrer. De qualquer maneira, sempre posso comer um pedao de carne-seca. 
Isso no precisa ser cozinhado. Deu uma corrida outra vez at a entrada da caverna para se certificar de que o cu continuava azul. Bem, agora o que devo levar comigo? 
Com comida, no tenho que me preocupar, h uma boa quantidade estocada, principalmente depois da caada do mamute.
     De repente, todos os acontecimentos passaram num timo por sua cabea: a caada de mamute, a hiena, a maldio de morte. Ser que eles vo mesmo me aceitar 
de volta? E se no quiserem? Para onde eu vou? Mas Brun disse que eu poderia voltar. Ele falou isso. Ayla aferrava-se a essa idia.
     Bem, a funda,  claro que no vou levar. E a minha cesta de colher? Creb queimou a outra. No S vou precisar dela quando chegar o vero e at l posso fazer 
uma. As minhas roupas, vou carregar todas. Vou ter que us-las e talvez leve tambm algumas ferramentas. Reuniu tudo quanto tinha que levar e comeou a vestir-se. 
Ps os dois calados forrados de pele de coelho, vestindo um sobre o outro, botou as perneiras de couro, meteu as ferramentas nas dobras da roupa que amarrou bem 
segura, enfiou na cabea o capuz de carcaju, calou as luvas forradas de pele e se dirigiu para o buraco. Voltou-se para dar uma ltima olhada no lugar que fora 
sua casa por todo um ciclo da lua, mas, ento retirou as luvas e voltou.
     No sabia por que, mas era importante para ela deixar a caverna em ordem, isso lhe dava um sentimento de concluso como se fossem coisas que se guardam depois 
de usadas. Ayla, por ela mesma, j tinha um sentido muito grande de ordem que Iza veio fortalecer ainda mais com as arrumaes sistemticas de seus depsitos de 
medicamentos. Rapidamente, ps tudo em ordem, calou de novo as luvas e se dirigiu com ar resoluto para a entrada bloqueada. Ia sair, ainda no sabia como, mas estava 
de volta  caverna do cl.
      melhor tentar passar por cima, nunca vou conseguir abrir um tnel, pensou consigo. Subiu no p de avel usando o galho que servira para manter aberta a passagem 
de ar. Pondo-se nos galhos mais altos que, devido  neve, pouco vergavam com o peso de seu corpo, ela meteu a cabea para fora do buraco, levando um susto com o 
que viu. Sua clareira na montanha estava irreconhecvel. Do lugar onde se achava via a neve descendo numa suave rampa que se perdia a distncia. no conseguia identificar 
nenhum ponto de referncia. Tudo era neve. Como vou poder atravessar isto? Est muito alta. Estava quase se dando por vencida.
     Olhando em derredor, comeou a determinar sua posio Aqueles vidoeiros perto do pinheiro alto no so muito maiores do que eu. Por ali, a camada no deve ser 
muito profunda, mas como chegar at l? Procurou passar de gatinhas pelo buraco, enquanto ia socando a neve para formar uma base mais firme. Ao subir numa salincia, 
caiu de bruos sobre uma superfcie maior, mas o peso se distribuiu por igual, impedindo-a de afundar.
     Com muito cuidado, ps-se primeiro de joelhos e depois de p, percebendo que o nvel da neve nos arredores no era muito profundo. Deu algumas passadas curtas, 
calcando sempre bem os ps. Seus calados eram circunferncias de couro franzido no muito apertado ao redor dos tornozelos e o segundo que levava por cima fazia 
o efeito de uma bola de ar, dando-lhe um andar extremamente desajeitado. Embora no fossem exatamente o que conhecemos como sapatos prprios para neve, eles distribuam 
o peso sobre uma rea maior, impedindo que ela chafurdasse muito na neve fofa.
     A marcha, entretanto, era difcil. Sempre socando a neve com os ps, dando passadas pequenas, de vez em quando se afundando at a altura dos quadris, ela foi 
na direo do lugar onde existira o riacho. A neve que cobria a gua gelada no era muito profunda. O vento havia acumulado uma grande quantidade contra a parede 
da caverna, mas a varrera de outras reas que pra ticamente estavam limpas. Deteve-se ali, tentando resolver se seguiria o riacho at seu encontro com o outro de 
que era afluente e, da, fazendo um longo percurso para chegar  caverna, ou se pegaria o caminho mais difcil, porm mais curto. Estava aflita, mal aguentando esperar 
pela volta. Decidiu-se pelo mais curto. S que no imaginava o quanto este era mais perigoso.
     Com muita cautela, ps-se a andar, mas o caminho da descida era difcil. O sol j ia alto no cu e ela praticamente ainda se achava na metade do trecho, coisa 
que no vero fazia no tempo transcorrido entre as primeiras sombras do crepsculo e a noite. Estava frio, mas o sol de meio-dia aquecia a neve e a garota comeava 
a ficar cansada e um pouco descuidada.
     Estava indo pela crista de um morro inteiramente desguarnecido que dava para uma encosta ngreme e coberta de neve, quando escorregou num determinado trecho. 
O cascalho solto desprendeu umas pedras maiores que se balanaram em seus lugares, fazendo vibrar, enquanto Ayla achava-se cada, a base instvel de um monte de 
neve. Num segundo, ela se viu rolando pela encosta, despencando-se em meio a uma cascata de neve e ouvindo o rugir trovejante da avalanche.
     Creb estava deitado de olho aberto quando Iza, silenciosanente, chegou trazendo-lhe uma conja de ch quente.
     - Sabia que estava acordado, Creb. Achei que gostaria de tomar alguma coisa quente, antes de se levantar. A tempestade parou durante essa noite.
     - Eu sei, daqui posso ver um pedao do cu azul.
     Os dois se sentaram para tomar ch. Ultimamente ficavam muitas vezes sentados juntos, sem nada dizer. A fogueira parecia vazia sem Ayla. Era difcil de acreditar 
que uma menina pudesse deixar um vazio to grande. Creb e Iza tentavam preench-lo, procurando a companhia um do outro, querendo consolar-se mutuamente, mas o consolo 
era pequeno. Uba estava tristonha e rabugenta. Ningum conseguia convenc-la de que Ayla estava morta. Continuava sempre perguntando por ela. Remexia a comida que 
desperdiava quase toda, atirando ou cuspindo no cho. Depois, emburrada, pedia por outra, levando Iza  loucura, at que acabava perdendo a pacincia e ralhava, 
para no momento seguinte estar arrependida. A tosse de Iza havia voltado, mantendo-a acordada boa parte da noite.
     Parecia impossvel que Creb tivesse envelhecido tanto em to pouco tempo. Ele nunca mais voltara  sua pequenina caverna, desde que l arrumara os ossos do 
urso da caverna em duas fileiras paralelas, com a da esquerda penetrando pela base da caveira e saindo pela cavidade do olho esquerdo. Nessa ocasio, balbuciou alto 
com sua voz spera as slabas dos nomes dos espritos maus, naqueles instantes reconhecidos e recebendo plenos poderes. Ele no teve coragem de voltar l para olhar 
aqueles ossos e nem tinha vontade de comungar com os bons espritos, atravs de seus belos e fluidos gestos. Havia pensado seriamente em renunciar e passar suas 
funes a Goov. Brun, ao tomar conhecimento, tentou convenc-lo a reconsiderar sua deciso.
     - O que voc ir fazer, Mog-ur?
     - E o que faz um homem depois que se aposenta? Estou ficando muito velho para ficar sentado naquela caverna fria. Meu reumatismo est pior.
     - No se precipite, Creb - gesticulara Brun, pedindo calma. - Pense mais um pouco.
     Creb pensara e j estava quase decidido a dar a notcia naquele mesmo dia.
     - Acho que vou deixar Goov ser o mog-ur, Iza - gesticulou ele para Iza, sentada a seu lado.
     - Esta  uma deciso que s pode ser sua, Creb. - Ela no pensava em dissuadi-lo. Sabia que Creb, desde que amaldioara Ayla, perdera o gosto para a funo 
apesar de que isso representasse toda a sua vida. - J passou do prazo, no , Creb?
     - Sim, j passou, Iza.
     - E como ela vai saber que j est esgotado? Com aquela tempestade, ningum podia ver a lua.
     Creb se lembrou de quando mostrou para uma garotinha a maneira como ela poderia saber quantos anos levariam ainda para que ela pudesse ter um beb e tambm 
de quando, j mais velha, por ela mesma, contava a durao do ciclo da lua.
     - Se estiver viva saber, Iza.
     - Mas a tempestade estava muito forte, Creb. Ningum iria conseguir sair com um tempo daqueles.
     - No pense mais nisso, Iza. Ayla est morta.
     - Eu sei, Creb - falou Iza, com gestos desesperanados.
     Creb olhou para sua germana pensando na dor dela, desejando poder fazer alguma coisa, pelo menos um gesto de consolo.
     - No devia dizer isso, Iza, mas tanto o esprito dela, como os dos outros, que so maus, j foram embora deste mundo. O perigo deixou de existir. O esprito 
dela falou comigo antes de partir. Ele disse que me amava. Era to real que eu quase me deixei levar naquele instante. O esprito mais perigoso  o do amaldioado. 
Ele procura enganar a pessoa, fazendo com que ela acredite na sua existncia para lev-la consigo. Chego quase a desejar ter ido com ela.
     - Eu sei, Creb. Quando o esprito dela me chamou di me, eu... eu... Iza levantou as mos no conseguindo continuar.
     - O esprito dela implorou para que eu no queimasse a sacola de remdios, Iza. Seus olhos se encheram de gua, igual como acontecia com ela viva. Foi o pior 
momento. Acho que, se j no tivesse atirado a sacola no fogo, eu a teria entregue a ela. Esse foi o ltimo truque; depois disso, o esprito desapareceu.
     Creb se levantou, enrolou-se em sua capa e pegou o cajado. Iza o observava. Raramente ele saa da fogueira. O Mog-ur caminhou para a entrada da caverna e l 
ficou de p, olhando, durante muito tempo, o brilho branco da neve. Voltou quando Iza mandou Uba avis-lo para vir comer. Em seguida, foi para seu posto habitual. 
Mais tarde, Iza foi juntar-se a ele.
     - Est frio aqui, Creb. Voc no deve ficar to exposto assim ao vento
     - gesticulou ela.
     -  a primeira vez depois de muitos dias que faz cu claro.  um alvio ver uma coisa diferente da tempestade, com seus eternos uivos.
     - Pode ser, mas de vez em quando v para junto do fogo se esquentar um pouco.
     Creb ficou indo e vindo da fogueira para a entrada, onde ficava longo tempo contemplando a paisagem de inverno. Mas,  medida que o dia foi avanando, passou 
a sair cada vez menos da fogueira. Enquanto jantavam, com o dia j quase escuro, ele gesticulou na direo de Iza, dizendo:
     - Depois de comermos, darei uma passada na fogueira de Brun. Vou lhe dizer que Goov daqui por diante ser o mog-ur.
     - Sim, Creb - falou Iza, com a cabea baixa. J no havia mais esperana. Agora ela tinha certeza disso.
     Creb se levantou, enquanto Iza retirava a comida. De repente, um grito aterrorizado saiu da fogueira de Brun. Iza levantou os olhos. Na entrada da caverna estava 
uma estranha apario inteiramente coberta de neve e batendo com os ps no cho para esquent-los.
     - Creb - gritou Iza. - O que  aquilo?
     Creb ficou por um instante olhando, j se pondo em guarda contra algum esprito desconhecido dele. Mas, ento, seu olho se arregalou.
     -  Ayla - gritou, correndo na direo dela, esquecendo cajado, dignidade e o bom-tom proibindo demonstraes pblicas de sentimentos, para envolv-la nos braos 
e apert-la contra o peito.
     

***

Captulo 17
     
     - Ayla?  realmente Ayla, Creb? no  o seu esprito? - perguntou Iza, -        enquanto o velho conduzia a garota  fogueira. A mulher tinha medo de acreditar, 
medo de que aquele corpo to real pudesse transformar-
     se em miragem.
     - Ayla - gesticulou Creb. - O prazo terminou. Ela venceu os maus espritos e voltou para ns.
     - Ayla! - exclamou Iza, correndo de braos abertos e envolvendo-a com neve e tudo o mais num forte abrao cheio de amor. Estava molhada, mas no s de neve. 
Ayla derramava abundantes lgrimas de alegria por todos. Enquanto isso, Uba dava puxes nas vestes de Ayla.
     - Ayla, Ayla voltou! Uba sabia que ela no tinha morrido - afirmou a garotinha, com a convico de quem sabe que, desde o princpio, estava com a razo.
     Ayla pegou-a, segurando-a to apertada que a menina se contorceu, querendo soltar-se para poder respirar.
     - Voc est molhada! - gesticulou Uba, quando pde ter os braos livres.
     - Ayla, tire essas roupas molhadas! - falou Iza, apressando-se em botar mais lenha na fogueira e achando alguma coisa para a menina vestir. Com isso, dissimulando 
suas emoes, ao mesmo tempo em que expressava seus cuidados maternais. - Vai acabar morrendo de frio.
     Iza, embaraada, olhou para ela. Subitamente, dera-se conta do que tinha dito. A menina deu um sorriso.
     - Tem razo, me. Vou acabar pegando uma gripe. - Retirou o capuz e a roupa. Em seguida, sentou-se, lutando para desatar os cordes empapados dos calados. 
- Estou morta de fome. H alguma coisa para comer? no comi o dia inteiro - disse a garota, depois de se ter metido nas velhas roupas de Iza. Estavam muito curtas 
e um pouco apertadas. - Era para ter chegado mais cedo, mas fui apanhada por uma avalanche enquanto descia a montanha. Tive sorte de no ficar enterrada debaixo 
de um monto de neve, mas gastei um bocado de tempo at conseguir cavar uma sada.
     O espanto de Iza durou s um minuto. Se Ayla dissesse que havia caminhando por entre labaredas, teria acreditado do mesmo jeito. A volta em si j era prova 
bastante de sua invencibilidade. O que significava uma simples avalanche para ela? Iza comeou a estender as mos para pegar as roupas de Ayla e pendur-las para 
secar, mas, de repente, suspendeu o gesto no ar, olhando para o couro de veado que no conhecia.
     - Onde voc conseguiu essa roupa, Ayla?
     - Fui eu quem fiz.
     - Ela ...  desse mundo? - indagou, apreensiva.
     Ayla tornou a sorrir.
     - . Ela  bem desse mundo. Voc se esqueceu? Eu sei caar.
     - no diga isso, Ayla! - exclamou Iza, nervosa. Virou-se de costas para que o cl, que ela sabia estar observando, no a visse, passando ento a gesticular 
muito discretamente. 
     - Voc no tem nenhuma funda, no ?
     - no Ela no veio comigo. Mas isso no faz qualquer diferena agora. Todo mundo j sabe, Iza. Eu precisava fazer qualquer coisa depois que Creb queimou tudo 
que era meu. O nico jeito de conseguir uma roupa seria caando. Peles no crescem em salgueiros ou em cima de pinheiros.
     Creb observava em silncio, sem querer acreditar que ela estava realmente de volta. Havia casos de pessoas que voltavam depois de uma maldio de morte, mas 
at ento ele no achava que fosse possvel. H alguma coisa diferente nela. Est mudada. Parece mais adulta, mais confiante. No  de admirar, depois de tudo o 
que passou. E ela se lembra tambm do que aconteceu. Sabe que queimei as suas coisas. Tinha curiosidade de saber do que mais ela se recorda. Como ser no mundo dos 
espritos?
     - Espritos! - gesticulou ele, subitamente, lembrando-se de que os ossos ainda estavam armados. Tenho de desmanchar a maldio.Correu, ento, para desfazer 
a figura feita com os ossos de urso, ainda colocados na posio da maldio de morte. Pegou a tocha que ardia do lado de fora da abertura na parede e entrou pela 
estreita passagem. Chegando ao pequenino recinto, mal pde respirar, tamanho o seu assombro. A caveira do urso se havia mexido, tirando do lugar o osso comprido 
que antes saa pela cavidade ocular. A figura estava desmanchada.
     Uma quantidade de pequenos roedores, atrados pelo calor e a comida, dividiam a caverna com o cl. Um desses, possivelmente, havia passado por ali, tirando 
a caveira de sua posio original. Creb sentiu um calafrio e, fazendo um sinal para se proteger contra os maus espritos, levou os ossos para uma pilha junto da 
parede do fundo. Quando saiu, deu com Brun, esperando por ele.
     - Brun - gesticulou o Mog-ur - no posso acreditar. Voc sabe que nunca mais estive aqui desde que pronunciei a maldio E ningum mais tambm esteve. Eu ia 
desmanchar a maldio mas, quando cheguei, ela j estava desfeita. - Sua expresso era tanto de assombro como de terror.
     - O que voc acha que aconteceu?
     - Deve ter sido o totem dela. Como acabou o prazo, talvez ele tenha desfeito a maldio para que ela pudesse voltar - respondeu o Mog-ur.
     - Voc deve ter razo. - Brun ia fazer um gesto para prosseguir, mas hesitava.
     - Estava querendo falar comigo, Brun?
     - Queria falar com voc em particular. - O chefe continuava hesitante.
     - Desculpe minha intruso mas no pude deixar de olhar para sua fogueira. A volta da menina foi uma surpresa.
     No era s ele. Todos haviam desrespeitado o costume de no se olhar para a fogueira do vizinho. Era impossvel no faz-lo. Nunca tinham visto ningum que 
houvesse voltado do mundo dos mortos.
     - Em tais circunstncias, isso  muito compreensvel. no se preocupe- respondeu o Mog-ur, j pronto para ir embora.
     - no foi por isso que vim procur-lo - disse Brun, detendo Creb. - Queria perguntar a voc algumas coisas sobre cerimnias. - O feiticeiro esperava, olhando 
para Brun, enquanto este procurava pelas palavras. -  sobre uma cerimnia... agora que ela est de volta.
     - Nenhuma cerimnia ser necessria. O perigo no existe mais. Os maus espritos foram embora. No h necessidade de pedir por proteo.
     - No estou me referindo a este tipo de cerimnia.
     De que tipo ento?
     Brun continuava hesitando. Resolveu ento abordar o assunto por outro lado.
     - Observei a menina enquanto ela conversava com voc e Iza. Voc notou alguma diferena nela, Mog-ur?
     - O que voc quer dizer com alguma diferena? - gesticulou o Mog-ur, cauteloso, sem atinar com o que Brun estava pretendendo.
     - Ela tem um forte totem. Droog sempre diz que a menina traz sorte e que seu totem tambm traz sorte para ns. Pode ser que ele tenha razo. Ela nunca teria 
voltado, se no tivesse sorte e tambm uma forte proteo. Acho que agora ela sabe disso.  nesse sentido que estou falando de diferena.
     - Acho que tambm notei esse tipo de diferena. Mas ainda estou sem entender o que isso tem a ver com cerimnias.
     - Lembra-se da reunio que tivemos depois da caada do mamute?
     - Quando voc lhe fez as perguntas?
     - Na da outra. Quando ela no estava presente. Desde aquela poca que venho pensando nessa reunio. Acreditava que a menina no fosse voltar, mas que, isso 
acontecendo, seria por causa da fora de seu totem, uma fora muito mais poderosa do que a que imaginamos. 
     Pensei muito no que deveramos fazer, caso ela voltasse.
     - Mas por qu? no temos necessidade de fazer nada. Os maus espritos foram embora, Brun. Ela est de volta, igual ao que sempre foi.  a mesma menina, nada 
mudou nela.
     - E se eu quiser promover alguma mudana? H alguma cerimnia para isso?
     O Mog-ur estava inteiramente aturdido.
     - Uma cerimnia para qu? Voc no precisa de cerimnias para modificar sua maneira de agir em relao a ela. Mas, de que mudana est falando? no posso discutir 
sobre cerimnias com voc, se no sei com que inteno elas vo ser realizadas.
     - O totem dela  tambm um totem do cl no ? no  nossa obrigao fazer com que todos os totens estejam felizes? Eu queria que voc celebrasse uma cerimnia, 
Mog-ur. 
     Mas queria saber antes se essa cerimnia seria possvel.
     - Brun, voc no est fazendo sentido.
     Brun atirou as mos para cima, desistindo de fazer-se entender. Enquanto ayla estava fora, Brun tivera tempo para ruminar muitas das idias que foram expostas 
pelos homens durante a reumio, da resultando uma srie de preocupaes que agora ficava remoendo em sua cabea.
     - Se a coisa toda no faz sentido, como vou poder explicar? Afinal, quem esperava que ela fosse voltar? no entendo e nunca entendi de espritos. no sei o 
que eles querem e  para isso que voc est aqui. S que no est ajudando muito! Bem, de qualquer modo, era uma idia ridcula.  melhor eu pensar um pouco mais 
na coisa.
     Girou sobre os calcanhares, deixando Creb parado no lugar, inteiramente sem saber o que pensar. Mas, depois de dar alguns passos, o chefe voltou.
     - Diga  garota que quero v-la. - E dizendo isso, Brun se dirigiu para sua fogueira.
     Creb, muito confuso, voltou meneando a cabea.
     - Brun quer ver Ayla - falou, ao chegar na sua fogueira.
     - Ele disse que quer v-la imediatamente? - perguntou Iza, botando mais comida na frente de Ayla. - Ou ela, primeiro, pode acabar de comer?
     -J acabei, me. no aguento mais nada. Eu vou agora.
     Ayla foi para a fogueira vizinha e se sentou de cabea baixa aos ps do chefe do cl. Ele estava com os calados que ela j conhecia, empoeirados e gastos nos 
mesmos lugares. A ltima vez que vira aqueles ps, a garota estava aterrorizada. H muito deixara de sentir-se assim. Para sua surpresa, no se via nem um pouco 
com medo de Brun, mas seu respeito por ele crescera. Ela aguardava. A espera para seu reconhecimento parecia interminvel. 
     Por fim, ela sentiu a batidinha no ombro e levantou os olhos.
     - Vejo que est de volta, Ayla - comeou ele, claudicante.
     - Sim, Brun.
     - Estou surpreso de v-la. No esperava.
     - Esta menina tambm no esperava estar de volta.
     Brun se via inteiramente perdido. Queria conversar com ela, mas no sabia o que dizer e nem como terminar com aquela entrevista que ele prprio solicitara. 
Ayla esperava. 
     Finalmente, fez um gesto pedindo a palavra.
     - Esta menina queria falar, Brun.
     - Pode falar.
     Tambm ela hesitava, tentando encontrar palavras que exprimissem exatamente o que gostaria de dizer.
     - Esta menina se sente feliz por estar de volta. Mais de uma vez, ela teve medo e mais de uma vez chegou a estar certa de que nunca voltaria.
     Brun grunhiu qualquer coisa. Disso, eu no duvido, pensou ele.
     - Foi difcil, mas acho que meu totem me protegeu. No princpio, havia muito trabalho e eu no tinha muito tempo para pensar. Mas depois fiquei presa sem ter 
o que fazer.
     Hem? Trabalho? Presa? Que espcie de mundo de espritos  esse? Ele ia perguntar, mas depois mudou de idia. Na verdade, ele no estava querendo saber.
     - Acho que ento comecei a entender uma coisa.
     Ela se interrompeu, buscando ainda pelas palavras certas. Queria transmitir-lhe uma espcie de sentimento prximo ao da gratido, mas no aquele normalmente 
sentido, o da gratido ligada a uma obrigao ou aquele que toda mulher deve ao homem. Ela queria apenas dizer muito obrigada. Obrigada por me dar uma chance, s 
que no sabia como.
     - Brun... esta menina se sente agradecida. Voc j disse isso para mim. Disse que estava agradecido pela vida de Brac e estou agradecida a voc pela minha.
     Brun inclinou-se para trs, estudando a menina. Alta, cara chata, olhos azuis. A ltima coisa que esperava dela era gratido. Ele a havia amaldioado. Mas ela 
no disse que estava agradecida por isso, e sim por sua vida. Ser que compreendera que ele no tinha outra alternativa? Que entendera que aquela oportunidade para 
viver era a nica coisa que estava a seu alcance oferecer? Teria esta estranha menina entendido isto melhor do que os seus caadores? Melhor at do que o Mog-ur? 
Sim, concluiu consigo, ela entendera. Sentiu por Ayla algo que nenhuma mulher j havia despertado nele. Por um momento, desejou que ela fosse homem. No tinha mais 
necessidade de pensar no que queria perguntar ao Mog-ur. J o sabia.

***

     Captulo 18
     - no sei o que eles esto tramando e nem sei se o resto dos caadores sabe - falou Ebra. - Tudo que posso dizer  que nunca vi Brun to nervoso.  As mulheres
estavam todas sentadas juntas, preparando a comida para uma festa.
     Ignoravam o que iriam comemorar. Brun apenas lhes dissera para preparar um banquete para aquela noite, e elas agora crivavam Iza e Ebra de perguntas, querendo
descobrir alguma pista.
     - O Mog-ur passou o dia inteiro e a metade da noite na gruta dos espritos. Deve ser alguma cerimnia. Enquanto Ayla esteve fora, ele nem perto passava daquele 
lugar e agora no sai de l - comentou Iza. - Quando est metido com essas coisas, fica to distrado que no se lembra nem de comer. s vezes, durante as refeies, 
se esquece at de botar a comida na boca.
     - Mas se eles vo fazer uma cerimnia, por que Brun passou a metade do dia limpando o fundo da caverna? - falou Ebra. - Quando me ofereci para fazer o servio, 
ele me expulsou. Se existe um lugar deles para cerimnias, por que iria Brun fazer trabalho de limpeza igual a uma mulher?
     - Mas que outra coisa poderia ser? - perguntou Iza. - Quando olho para Brun e o Mog-ur, parece que os dois tm a cabea na mesma coisa. E se me percebem por 
perto, param de falar e ficam com ar de culpa. O que ser que poderiam estar planejando? E por que a festa desta noite? O Mog-ur passa o tempo todo indo no lugar 
que Brun est limpando e s vezes entra na gruta dos espritos para sair logo depois. Acho que ele est carregando alguma coisa, mas  to escuro l no fundo que 
no d para ver.
     Ayla se limitava simplesmente a gozar a companhia das outras. J passara cinco dias, desde que voltara, e ainda quase no acreditava que estivesse novamente 
na caverna do cl, sentada junto das mulheres e preparando comida, como se nunca tivesse sado de l. Mas alguma coisa mudara. As mulheres no se sentiam muito  
vontade perto dela. Achavam que estivera morta. Seu retorno  vida era visto como um milagre. Elas no sabiam o que conversar com algum que fora e voltara do mundo 
dos espritos. Ayla no se importava, tudo que sabia  que se sentia feliz em estar de volta e isso lhe bastava. Naquele momento, observava Brac querendo subir na 
me para mamar.
     - Como est o brao de Brac? - perguntou Ayla a Oga, sentada junto dela.
     - Veja por voc mesma, Ayla. - E abriu a roupa de Brac, mostrando- lhe o brao e o ombro. - Iza retirou a tala um dia antes de voc chegar. O brao est muito 
bem, a no ser um pouco mais fino do que o outro. Segundo Iza,  medida que o menino for fazendo mais movimentos, o brao vai se fortalecendo.
     Ayla examinou as feridas j curadas e apalpou delicadamente o osso, enquanto o menino, com seus olhos muito grandes e uma expresso sria, a olhava. As mulheres 
tinham o cuidado de evitar qualquer assunto relacionado, ainda que remotamente, com a maldio dela. Muitas vezes, alguma comeava uma conversa e depois baixava 
as mos no meio da frase, percebendo para onde o assunto se estava encaminhando. Isso retirava a espontaneidade que marcava a prosa delas, quando reunidas para trabalhar.
     - As cicatrizes ainda esto vermelhas, mas com o tempo vo esbranquiando - disse Ayla. - Voc  um garoto forte, Brac? - perguntou, olhando para o menino.
     Ele fez que sim com a cabea.
     - Mostre o quanto. Ser que consegue abaixar meu brao? - disse ela, esticando o brao para a frente. - no com essa mo. Com a outra - corrigiu, ao ver que 
o menino ia usar o brao bom. Brac trocou de mo e puxou o brao de Ayla para baixo. Ela resistiu s o necessrio para sentir qual era a fora dele; depois, deixou 
o brao cair. - Voc  um garoto muito forte, Brac. Algum dia vai ser um caador to corajoso quanto Broud.
     Ela estendeu as mos na direo dele, querendo ver se o menino viria em seu colo. A primeira reao foi a de afastar-se, mas depois ele mudou de idia e deixou 
que Ayla o segurasse. A garota suspendeu-o no ar, colocando-o em seguida no colo.
     - Brac  um menino muito grande...  forte e pesado.
     Ele ficou quieto por uns momentos, mas, ao descobrir que ela no tinha nada para dar-lhe, contorceu-se, pedindo para voltar ao colo da me, onde buscou o seio 
e se ps a mamar 
     com os olhos arregalados para Ayla.
     - Voc tem muita sorte, Oga. Ele  um lindo beb.
     - no teria essa sorte, se no fosse voc, Ayla. - Oga finalmente tocara no assunto que as outras faziam o possvel para evitar. - Eu nunca disse o quanto lhe 
sou agradecida. No princpio, eu estava to preocupada com ele que nem sabia o que dizer. Voc tambm parecia no querer falar muito e.ento voc j no estava mais 
aqui. Ainda no sei o que dizer. Nunca esperei que fosse v-la novamente.  difcil acreditar que esteja de volta. Voc fez mal em usar uma arma e nem entendo por
que desejou caar, mas estou feliz por ter feito isso. no tenho palavras para dizer o quanto. Eu me senti to mal quando... quando voc teve de partir, mas estou
contente por estar de volta.
     - Eu tambm - acrescentou Ebra.
     E todas as outras mulheres balanaram a cabea confirmando.
     Ayla, extremamente comovida por se ver integralmente aceita, esforava-se por conter as lgrimas que gostavam de correr com a maior facilidade. Tinha receio 
de que as mulheres ficassem constrangidas, se seus olhos aguassem.
     - Estou feliz por estar de volta - gesticulou, com as lgrimas escapando a seu controle. 
     Iza, por esse tempo, j sabia que os olhos dela aguavam sempre que alguma coisa lhe tocava muito profundamente e no por se achar doente. As outras mulheres 
tambm j estavam acostumadas com essa particularidadee conheciam o significado de suas lgrimas; por isso, simplesmente menearam a cabea em sinal de compreenso.
     - Como foi, Ayla? - perguntou Oga, com expresso embaraada e ao mesmo tempo sentindo pena.
     Ayla pensou por um instante.
     - Triste. Uma grande solido. Tinha saudades de todos. - Os olhos das mulheres estavam cheios de piedade e ela sentiu que precisava dizer algo para levantar 
o nimo delas. - Cheguei at a sentir saudade de Broud - acrescentou.
     - Huumm - fez Aga. - Devia ser muito triste mesmo. - Olhou, ento um pouco 
     embaraada para Oga.
     - Eu sei que ele s vezes  bem difcil - admitiu Oga. - Mas Broud  meu companheiro. Para mim, ele no  muito mau.
     - Oga, no precisa desculp-lo - falou Ayla, delicadamente. - Todos sabemos que Broud gosta de voc. Deve ter orgulho de ser sua companheira. Um dia, ele ser 
o chefe. 
     Broud  um caador corajoso e foi, inclusive, quem feriu o mamute em primeiro lugar. Voc no tem culpa se ele no gosta de mim. Em parte, sou um pouco culpada 
disso. Nem sempre me comportei com Broud como devia. no sei como tudo comeou e nem sei como vai terminar. Se eu pudesse, faria alguma coisa, mas voc no tem de
se preocupar, Oga.
     - Ele sempre teve um gnio ruim - comentou Ebra. - no se parece com Brun. Sabia que o Mog-ur estava certo ao anunciar que o totem de Broud era o rinoceronte
lanoso.
     Acho que, de certo modo, Ayla, voc ensinou Broud a controlar um pouco mais seu gnio.
     Isso o ajudar a ser um bom chefe.
     - no sei - falou Ayla, abanando a cabea. - Acho que quando no estou por perto, ele se controla melhor. Sou eu que fao aparecer seu lado ruim.
     Seguiu-se, ento, um silncio constrangedor. Em geral, as mulheres no expunham to abertamente os defeitos de seus homens, mas a conversa servira para aliviar
a atmosfera de tenso que cercava Ayla. Iza, muito sabiamente, viu que era o momento para mudar de assunto.
     - Ser que algum sabe onde esto os inhames?
     - Acho que estavam no lugar que Brun limpou - respondeu Ebra. - Enquanto o vero no chegar, no vamos conseguir encontrar nenhum inhame.
     Broud vira Ayla sentada junto das mulheres e franzira o cenho quando ela ps Brac no colo. Isso o lembrou de que Ayla salvara a vida do menino, mas tambm o
fez recordar de que ela havia presenciado seu grande momento de humilhao Como todo mundo, ele tambm estava abismado com o retorno, O primeiro dia, olhava-a com
pavor e certa apreenso. A mudana que Creb interpretou como maior maturidade e que Brun viu como uma tomada de conscincia da sorte que possua, Broud, nisso, s
enxergou ostensiva insolncia. Durante seu perodo de provao na neve, Ayla no s passara a ter confiana em sua capacidade de sobrevivncia, como tambm aprendera
a aceitar com serenidade os fatos desagradveis da vida. Vencido esse perodo, quando sua luta foi de vida ou morte, nada to insignificante como reprimendas, que
de to usadas acabaram por no surtir mais efeito, seria capaz de arranhar sua plcida quietude.
     Ayla sentira falta de Broud. Naquele seu completo isolamento, at mesmo a Implicncia dele era prefervel ao perfeito vazio que se formou com a total ausncia
das pessoas que amava. Nos dois primeiros dias, ela inegavelmente se comprazia com sua vigilncia cerrada, inclusive ostensiva. Ele no se contentava apenas em olh-la,
via cada um dos movimentos que Ayla fazia.
     No terceiro dia depois da volta, os velhos padres de comportamento se restabeleceram por si mesmos, mas com uma diferena. Ayla j no precisava lutar consigo
para curvar-se  vontade dele, em suas respostas, j no havia nem mesmo aquele sentido latente de condescendncia com que outrora o tratava. Ela realmente no se
abalava. Nada que ele pudesse fazer a atingia. Podia bater, praguejar e se deixar levar at o ponto de explodir toda sua violncia. Nada surtia efeito. Com pacincia,
ela condescendia em satisfazer as suas mais absurdas exigncias. Embora no intencionalmente e guardando as devidas propores, relegava Broud ao ostracismo que
lhe haviam imposto. O rapaz no conseguia provocar-lhe qualquer reao A mais violenta de suas frias, controladas a custo de enorme desgaste, causava menos impacto
do que uma picada de mosquito, essa pelo menos ainda coava. Isso era o pior que ela podia fazer-lhe, deixando-o fora de si.
     Ver-se centro de atenes era tudo que Broud almejava, isso o revigorava, sendo uma verdadeira necessidade nele. Nada o frustrava mais do que sentir indiferena
no outro.
     Pouco lhe importava se a reao das pessoas fosse boa ou m, contanto que houvesse. Estava certo de que a falta de respeito por sua autoridade e a indiferena
de Ayla se deviam ao fato de ela o ter visto num momento de vergonha e fracasso. Em parte, ele tinha razo. Ela conhecia os limites do controle que ele podia ter
sobre sua pessoa, e tambm havia posto  prova o valor e a fora de seu esprito. Achara as duas coisas insuficientes para merecer-lhe o respeito. Entretanto, no
era s o fato de ela no o respei tar ou lhe ser indiferente; Ayla roubava a ateno que ele gostaria de ter.
     J pela prpria aparncia, ela chamava ateno e tudo nela atraa ateno tinha um poderoso totem, vivia na fogueira do maior dos feiticeiros, que lhe dedicava
enorme afeio, estava sendo educada para curandeira, havia salvo a vida de Ona, era exmia na funda, fora ela quem matara a hiena, salvando a vida de Brac e, agora,
esse seu retorno do mundo
     dos espritos. Sempre que ele dava mostras de sua grande coragem e que se via justo merecedor da admirao, respeito e ateno do cl ela surgia, relegando-o 
a segundo plano.
     Broud, a distncia, fuzilava Ayla com os olhos. Por que teve de voltar? Todo mundo s fala dela, no param um instante de comentar. Quando matei minha primeira 
caa e me fiz homem, todos falavam desse totem idiota que ela tem. Foi por acaso ela quem enfrentou o ataque do mamute? Quem cor tou os tendes do gigantesco animal? 
Quem quase morreu esmagado debaixo de uma pata? no Tudo que fez foi atirar duas pedrinhas com uma funda e s por isso no param de pensar nela. Brun com essas suas 
reunies, tudo por sua causa. E nem direito ele soube fazer a coisa. Agora, est ela a de volta e todo mundo outra vez s falando nela. Por que ser que Ayla tem 
sempre de estragar tudo?
     - Creb, por que voc est to agitado assim? Nunca o vi to nervoso. Parece um rapazola indo ao encontro da primeira companheira. Quer que eu faa um ch para 
acalmar seus nervos? - indagou Iza, depois de v-lo pela terceira vez correndo para sair e mudando de idia para voltar a sentar-se novamente.
     - Por que voc acha que estou nervoso? Apenas estou tentando lembrar-me das coisas e meditando um pouco - respondeu ele, encabulado.
     - O que voc est precisando lembrar? H anos que voc  Mog-ur, Creb. Pode celebrar de olhos fechados qualquer cerimnia e nunca vi ningum que meditasse sentando 
e levantando sem parar. Por que no me deixa fazer um ch?
     - No estou precisando de nenhum ch. Onde est Ayla?
     - Est l adiante, depois da ltima fogueira, vendo se encontra alguns inhames. Por qu?
     - S queria saber - respondeu Creb, recostando-se no assento.
     Pouco depois, apareceu Brun fazendo-lhe sinal. O Mog-ur se levantou e foram os dois se encaminhando para o fundo da caverna. O que ser que est acontecendo 
com eles?, 
     perguntou-se Iza, espantada e balanando a cabea sem compreender.
     - J est quase chegando o momento, no ? - indagou Brun, quando chegaram ao lugar que ele havia limpado. - Est tudo arranjado?
     - Os preparativos esto prontos, mas acho que o sol tem de estar mais baixo no cu.
     - Voc acha! Ser que no sabe? Pensei ter visto algum dizer que sabia fazer tudo. Voc no disse que havia meditado e encontrado a cerimnia?  necessrio 
que tudo saia absolutamente certo. Como pode falar que acha? - disse Brun, num tom brusco.
     - Mas eu meditei - replicou o Mog-ur, defendendo-se. - S que tudo se passou num lugar diferente e h muito tempo. No havia nem sinal de neve. Acho que nem 
mesmo no inverno nevava.  difcil de determinar exatamente qual o momento certo. S sei dizer que o sol j estava baixo.
     - Voc no me disse isto! Como  que vai ter certeza de que  o momento certo? Talvez seja melhor esquecermos isso tudo. De qualquer forma, a idia parece ridcula.
     - J falei com os espritos. As pedras j esto assentadas. Eles esto nos esperando.
     - no gosto tambm dessa idia de mexer nas pedras. Talvez fosse melhor que a cerimnia se realizasse na caverna dos espritos. Tem certeza de que eles no 
esto aborrecidos por terem sido tirados de seu lugar, Mog-ur?
     - Ns j conversamos sobre isso, Brun. Ficou resolvido que seria me lhor mudar as pedras do que levar os velhos espritos  caverna dos totens. Os mais velhos 
depois de verem o lugar poderiam no querer mais sair de l.
     - Se eles esto acordados, como voc vai saber que foram embora outra vez.  muito perigoso, Mog-ur. Talvez seja melhor cancelarmos.
     - Eles podem ficar por algum tempo - reconheceu o feiticeiro. - Mas, depois que tudo estiver arranjado, como era antes, vo ver que no h lugar para eles e 
ir embora. Mas voc  quem resolve; se quiser mudar de idia, posso tentar apazigu-los. Pelo fato de que esto esperando a cerimnia, isso no quer dizer que somos 
obrigados a realiz-la.
     - No Voc est certo.  melhor levarmos a coisa adiante, eles j esto esperando. Mas talvez sejam os homens que no vo gostar muito dessa histria.
     - Quem  o chefe, Brun? Uma vez que entendam, vai dar tudo certo, iro acostumando-se com o fato.
     - Voc acha, Mog-ur? Ser mesmo? Foi h tanto tempo. no estou me referindo agora aos homens. Ser que nossos totens aceitariam? Temos tido tanta sorte que 
chega quase a ser sorte demais. No consigo deixar de pensar que alguma coisa terrvel est por acontecer. No quero fazer nada que possa deix-los aborrecidos. 
Quero fazer s o que desejam. Minha inteno  conserv-los sempre felizes.
     - Isso  o que estamos fazendo, Brun - disse o Mog-ur, calmamente. - Tentar fazer o que eles desejam. Satisfazer o desejo de todos eles.
     - Mas voc acha que os outros vo entender Se alguns foram agradados, os outros no poderio sentir-se menosprezados?
     - No Brun. Tenho certeza de que entendero. - O feiticeiro sentia a aflio e o estado de tenso por que o chefe estava passando. Sabia como de via ser difcil 
para ele. - Bom, certeza absoluta, ningum pode ter. Somos apenas humanos. Mesmo o Mog-ur no passa de um simples homem. O que podemos fazer  tentar. Mas foi voc 
mesmo quem disse que temos tido sorte. Isso deve significar que os espritos de todos os totens esto felizes. Se estivessem lutando uns contra os outros, voc acha 
que estaramos tendo toda essa sorte? 
     Quantas caadas de mamute j aconteceram, sem que ningum
     sasse ferido? Alguma coisa poderia ter dado errado. Como, por exemplo, ter feito essa longa viagem para nada e estaria perdida uma das melhores pocaspara 
caar. Voc arriscou e ganhou, Brun.
     O chefe olhou o rosto grave do feiticeiro. Ento se ps de p com o corpo ereto, e um ar resoluto substituiu a expresso indecisa de antes.
     - Vou reunir os homens - gesticulou Brun.
     As mulheres haviam recebido ordem para se manter afastadas do fundo da caverna e nem mesmo olhar para l. Iza reparou que Brun convocou os homens, mas ela ignorava 
o motivo. Seja l o que estivessem fazendo, isso era com eles. Alguma coisa, entretanto, f-la levantar os olhos no momento em que dois deles, com as caras pintadas 
de ocre vermelho, passavam apressados na direo de Ayla. Iza tremeu. O que poderiam estar querendo com ela?
     Ayla no havia nem mesmo percebido que os homens se achavam todos com Brun. Ela procurava inhame, revistando um monte de cestas e recipientes de couro cru empilhados 
desordenadamente atrs da fogueira que ficava mais ao fundo da caverna. Ao ver a cara pintada de vermelho do chefe aparecer subitamente na sua frente, o susto foi 
tanto que perdeu a respirao.
     - no reaja. no faa qualquer barulho - gesticulou Brun.
     No princpio, ela no teve medo; s depois, quando lhe puseram uma venda nos olhos e que se sentiu arrastada, meio suspensa no ar.
     Quando viram Brun e Goov chegando com Ayla, os homens ficaram apreensivos. 
     Sabiam tanto quanto as mulheres sobre a cerimnia que Brun e o Mog-ur andavam planejando, s que, no caso deles, a curiosidade no fim acabava sendo satisfeita. 
O Mog-ur apenas os advertira, depois de j sentados em crculo atrs das pedras trazidas da pequena caverna, para que no fizessem qualquer gesto ou som. Mas a advertncia 
passou a ter 
     especial significao quando o feiticeiro deu a cada um deles para segurar, na forma de X, dois ossos sados do esqueleto do urso da caverna. Se eles precisavam 
de proteo to extrema, era porque o perigo deveria ser grande. E, ao verem Ayla, passaram a ter uma vaga idia de qual poderia ser o perigo.
     Brun forou a menina a sentar-se no meio do crculo, de frente para o Mog-ur, e depois foi sentar-se atrs dela. A um sinal do feiticeiro, o chefe retirou a 
venda. Ayla piscou, querendo clarear a viso.  luz das tochas, viu o Mog-ur sentado atrs de uma caveira de urso, enquanto cada um dos homens tinha nas mos dois 
ossos cruzados. Ela se encolheu de medo, com vontade de afundar-se no cho.
     O que ser que eu fiz? no usei nenhuma funda, pensou, tentando lembrar se cometera algum crime que justificasse sua presena ali. no conseguiu recordar de 
nenhuma coisa errada nos ltimos tempos.
     - No fo qualquer movimento ou som - tornou a avisar o Mog-ur.
     Mesmo que quisesse, ela no conseguiria faz-lo. Com os olhos arregalados, viu o Mog-ur se levantar, deixando o cajado no cho, e comear certos movimentos 
ritualsticos suplicando a Ursus e aos espritos totmicos para assist-los. Muitos dos gestos eram desconhecidos para Ayla, o que no impediu que ela observasse 
extasiada tudo aquilo, no tanto pelo significado da simbologia contida nos gestos, mas principalmente pela figura do velho feiticeiro.
     Ela conhecia Creb demasiadamente bem. Um velho aleijado que coxeava, desajeitado, apoiando-se pesadamente sobre um cajado. Era a caricatura assimtrica de um 
homem: um dos lados ananicados, com atrofia dos mscu los por falta de uso; o outro, superdesenvolvido, para compensar a paralisia que o obrigava a uma dependncia 
extrema de sua metade boa. Ayla j havia reparado, em outras cerimnias pblicas, na graa dos seus movimentos, quando usados na linguagem ritualstica, abreviada 
devido  falta do brao, mas plena de sutilezas e complexidades, e carregada de significados. Contudo, os movimentos do homem ali de p, postado atrs da caveira, 
revelavam uma face do feiticeiro que ela nunca soube que existisse.

     Nem de leve percebiam-se aquelas maneiras desengonadas, to absorvidos estavam numa gesticulao de comovedor ritmo hipntico que flua com facilidade e obrigava 
todos os olhares a se concentrarem na pessoa dele. Apesar de que pudessem ser tomados como tais, os movimentos de mo e os sutis efeitos de posturas nada tinham 
que lembrasse alguma dana de carter gracioso. O Mog-ur era antes de tudo um orador dotado de uma fora persuasiva que Ayla ainda no conhecia, e ele nunca se mostrava 
to expressivo como quando se dirigia a seu auditrio invisvel, s vezes mais real do que os homens sentados  frente dele. E mais de si ainda deu, quando comeou 
a dirigir sua ateno para os venerabilissimos espritos que desejava convocar para aquela cerimnia, nica na vida do cl.
      espritos mais velhos dentre os mais velhos, 6 espritos no invocados desde os nossos nebulosos primrdios, venham neste momento assistir-nos. Ns os conclamamos. 
     Queremos render-lhes nossas homenagens e pedir ajuda e proteo  grandes espritos cujos nomes to venerados so uma sombra em nossas memrias, acordem de 
seu sono profundo e permitam que os honremos. Temos para vocs uma oferenda, um sacrifcio para abrandar seus velhos coraes Precisamos que nos dem sua sano. 
Ouam os seus nomes aqui pronunciados.
     - Espritos dos Ventos, Oooha!
     Ayla sentiu um frio na espinha ao ouvir o nome dito em voz alta.
     - Esprito das Chuvas, Zheena! Esprito das Neblinas, Eeesha! Atendam os nossos chamados. Vejam-nos com benevolncia. Algum de vocs est conosco. Algum que 
caminhou entre as suas sombras e voltou. Voltou pela vontade do Grande Leo da Caverna!
     Ele est falando de mim, pensou Ayla, subitamente compreendendo. Isso  uma cerimnia. 
     E o que estou fazendo no meio de uma cerimnia? Quem so esses espritos? Nunca ouvi seus nomes sendo mencionados antes. E todos nomes de mulheres. Pensei que 
os espritos protetores fossem Sempre masculinos. Ela tremia de medo, mas estava curiosa. Os outros que se achavam l, todos sentados duros como pedras, tambm ouviam 
os nomes pela primeira vez, se bem que a eles no parecessem de todo desconhecidos. Ao escut-los, qualquer coisa acendeu-se l no fundo de suas mentes, onde armazenavam 
uma memria to antiga como aqueles nomes.
     - Venerveis dentre os mais venerveis! Os caminhos dos espritos so mistrios para ns. 
     Somos simples mortais, ignoramos o motivo que fez essa mulher ser escolhida por esprito to poderoso, como tambm no sabemos a razo por que ele a fez trilhar 
por caminhos to antigos, mas no podemos ir contra sua vontade. Por ela, ele lutou no mundo das trevas, derrotando os espritos do mal e enviando-a de volta para 
que seus desejos fossem conhecidos e para que soubssemos que no nos podemos opor a ele. O Poderosos Espritos do Passado, suas vias j foram as mesmas que as dos 
cl hoje no o so mais. No entanto, devem tornar a s-lo em nome desta que aqui se acha sentada conosco. Rogamo-lhes, antigos espritos, que a faam digna dos seus 
caninhos. Aceitem-na. Protejam-na e dem tambm sua proteo ao cl a que ela pertence. - O Mog-ur se virou na direo de Ayla - 
     Traga a mulher  frente- ordenou.
     Ayla se sentiu suspensa do cho pelos braos fortes de Brun e sendo posta de p na frente do Mog-ur. Com a respirao suspensa, viu que Brun pegava um punhado 
de seus longos cabelos louros, ao mesmo tempo que lhe em purrava a cabea para trs. Olhando debaixo para cima, enxergou o Mog-ur tirar uma faca afiada de sua sacola 
e levant-la bem ao alto, por cima da cabeadele. Aterrorizada, olhou para o rosto que se avultava para perto do seu e para a faca empunhada para cima, quando ele, 
com um sbito movimento, trouxe a faca para junto de sua garganta descoberta.
     A garota sentiu uma dor aguda, mas o medo era tanto que no a deixou gritar. O Mog-ur fizera apenas um leve talho na parte inferior da garganta dela.
     O fio de sangue que escorreu foi rapidamente chupado por um chumao de pele de coelho. O feiticeiro esperou primeiro que se empapasse completamente o chumao, 
para depois pegar, de uma bacia segurada por Goov, um lquido que ela sentiu arder, mas que enxugou o corte. Brun, ento soltou-a.
     Fascinada, Ayla viu o Mog-ur botar o chumao sujo de sangue numa vasilha rasa de pedra, parcialmente cheia de leo. O aclito entregou uma pequena tocha ao 
feiticeiro que a usou para tocar fogo no leo. Ficou, em seguida, em silncio, observando a pele de coelho queimar, at virar um torro escuro e quebradio, cheirando 
fortemente a azedo. Depois que o fogo se extinguiu, Brun afastou para o lado a roupa dela, deixando-lhe descoberta a coxa esquerda. O Mog-ur mergulhou o dedo no 
resduo que ficara na vasilha de pedra e riscou de preto as quatro linhas de sua cicatriz. Ela olhava espantada. Era como a marca de um totem feita durante os ritos 
de passagem de um rapaz. Sentiu que a levavam para trs. O Mog-ur agora voltara a se dirigir aos espritos e ela ficou observando-o.
     - Aceitem este sacrifcio de sangue, Venerablissinios Espritos. Saibam que foi o seu totem, o Esprito do Leo da Caverna quem a escolheu para trilhar os 
seus antigos caminhos. 
     Saibam que desejamos honr-los e lhes render homenagens. Concedam-nos sua graa e voltem ao profundo sono do qual foram acordados, certos de que seus caminhos 
no foram esquecidos.
     Terminou, disse Ayla consigo, soltando um suspiro de alvio ao ver o Mog-ur se sentando novamente. Ainda ignorava por que a fizeram participar de uma cerimnia 
fora dos padres usuais. Mas eles ainda no haviam terminado com ela. Brun foi para frente e lhe fez sinal para que se levantasse. Rpido, ela se ps de p. Ele 
meteu a mo dentro de uma dobra da roupa e retirou um pequeno objeto ovalado, tingido de vermelho. Era um pedao de marfim serrado pouco acima da ponta da presa 
de um mamute.
     - Ayla, por esta nica vez, enquanto nos achamos sob a proteo de antiqussimos espritos, voc est em p de igualdade com os homens. - Ela no estava muito 
certa se entendera direito. - Mas to logo sair deste lugar, nunca mais dever pensar em voc como uma igual a ns. Voc  e sempre ser uma mulher.
     Ayla acenou com a cabea concordando. Claro que sabia que era mulher, achava-se espantadssima com tudo.
     - Este marfim saiu da presa do mamute que matamos. Foi uma caada muito feliz. Conseguimos derrubar aquele imenso animal sem que nenhum homem ficasse ferido. 
Este pedao aqui est santificado por Ursus e tingido pelo Mog-ur na sagrada cor vermelha.  o poderoso talism de um caador. Todos os homens do cl carregam um 
idntico dentro de seu amuleto e todo caador deve traz-lo consigo.
     Ayla, nenhum menino fica adulto enquanto no mata seu primeiro animal, mas uma vez que tenha matado, j no pode mais voltar  condio de criana. Em pocas 
muito distantes, nos tempos dos espritos que hoje nos atenderam, as mulheres dos cl caavam. No sabemos por que seu totem a conduziu por caminhos to distantes 
no tempo, mas no podemos deixar de reconhecer a vontade do Esprito do Leo da Caverna. Temos, portanto, que permiti-lo. Ayla, voc j matou seu primeiro animal, 
por isso agora deve assumir as responsabilidades de um adulto. Entretanto, voc  mulher e no homem e, em todos os sentidos, menos um, continuar como tal. A nica 
arma que poder usar  a funda, Ayla, mas, doravante, ser a Mulher Caadora.
     Ayla sentiu uma onda de sangue subindo-lhe pelo rosto. Seria verdade? Teria realmente entendido as palavras de Brun? Justamente por usar uma funda fora obrigada 
a passar por uma prova da qual no esperava sair com vida e, agora, permitiam-lhe usar essa arma? 
     Poderia mesmo caar? E tudo aberta mente? Mal conseguia acreditar.
     - Este talism  para voc. Ponha-o dentro de seu amuleto.
     A garota retirou do pescoo o saquinho e, atabalhoadamente, procurou desatar os ns. Em seguida, pegou da mo de Brun o objeto ovalado de cor vermelha, meteu-o 
junto do torro de ocre e do fssil e tornou a fechar a bolsinha de couro, pendurando-a novamente no pescoo.
     - Por enquanto no diga nada a ningum. Darei a notcia antes da festa de hoje  noite. 
     Esta ser em sua honra, Ayla. Em honra do primeiro animal que voc matou - falou Brun. 
     - Espero que o prximo seja mais saboroso do que uma hiena - acrescentou, com uma piscadela bem-humorada. - Agora, vire-se de costas.
     Ela fez o que ele lhe mandava e sentiu os olhos novamente sendo vendados. Dois homens a conduziram de volta e, depois, retiraram-lhe a venda. Viu que Brun e 
Goov retornavam ao crculo dos homens. Ser que estou sonhando? Passou a mo na garganta sentindo arder a ferida feita pelo Mog-ur. Depois, pegou o amuleto tateando 
os trs objetos l dentro. Afastou a roupa para o lado e olhou as linhas de sua cicatriz besuntadas de graxa preta. Uma caadora! Sou ento uma caadora! Uma caadora 
para o cl. Disseram que foi meu totem quem assim desejou e que no podiam negar a vontade dele. Apertou o amuleto entre os dedos, passando a fazer os gestos prprios 
da linguagem ritualstica.
     -  Grande Leo da Caverna, por que fui duvidar de voc? A maldio de morte foi uma dura prova, a pior de todas at agora, mas, para to grande graa, assim 
teria de ser. Sou imensamente agradecida por me achar digna. Sei que Creb est certo. Minha vida nunca ser fcil, tendo o Grande Leo da Caverna como totem, mas 
sempre ser digna de ser vivida.
     A cerimnia fora suficientemente impressionante para convencer os homens de que se deveria deixar Ayla caar, isto , impressionante para todos menos um. Broud 
estava furioso. Se no houvesse ficado to assustado com a advertncia do Mog-ur, teria se levantado e ido embora. no desejava participar de qualquer coisa que 
concedesse favores especiais quela mulher. Olhava sombriamente para o Mog-ur, mas sua maior raiva era dirigida a Brun, um dio que no conseguia passar-lhe pela 
garganta.
      ele o culpado, pensou Broud consigo. Est sempre protegendo a garota, sempre lhe concedendo privilgios. Imagine que me ameaou com a maldio de morte, porque 
eu a castiguei por sua insolncia. Logo eu, o filho de sua companheira, e ela merecia o castigo. 
     O que ele deveria ter feito era puni-la corretamente com uma maldio para sempre. E agora essa: deix-la caar. Caar como se fosse um homem. Como pde ele 
fazer uma coisa dessas? Brun est ficando velho. no ir ser chefe para sempre. Algum dia desses, quem vai ser chefe sou eu, e ento veremos. 
     Nessa altura, ela no vai ter ningum para proteg-la. Vamos ver como vai conseguir seus privilgios. Que trate ento de engolir suas insolncias.
     

***

Captulo 18
     
     No inverno que marcou seu dcimo aniversrio, a Mulher Caadora entrou em plena posse de seu ttulo. Iza sentia-se intimamente satisfeita e aliviada por ver 
Ayla passando pelas transformaes que prenunciavam sua prxima menstruao O alargamento das cadeiras e o maior volume dos seios, mudando os contornos do corpo 
reto e infantil de Ayla, deram a Iza a certeza de que, afinal, aquela sua muito particular filha no estava destinada a viver eternamente na infncia. Aos mamilos 
inchados e uma ligeira penugem na regio pbica e sob os braos, seguiu o fluxo menstrual de Ayla. Era, ento, a primeira luta que seu totem travava com o esprito 
de um outro.
     Ayla, a estas alturas, j compreendera que seria muito pouco provvel que algum dia tivesse filho. Seu totem era forte demais. Ela desejava ter um beb. Desde 
o nascimento de Uba que tinha vontade de ter um filho para amar e cuidar, mas aceitava as penas e restries impostas pelo poderoso Leo da Caverna. Sempre gostara 
de cuidar das crianas do cl, quando as mes estavam ocupadas, e ficava sentida ao v-las sarem de seu colo para mamar em uma outra. Mas pelo menos agora, ela 
deixara de ser aquela enorme criana, mais alta do que qualquer mulher do cl.
     Ela, por empatia, identificava-se com Ovra que, depois do primeiro aborto, tivera diversos outros, embora estes ocorridos no princpio da gravidez e sem maiores 
complicaes O totem de Ovra, o Castor, era, por sua vez, um pouco feroz demais. Parecia que ela estava fadada a uma existncia sem filhos. Desde a caada do mamute 
e, sobretudo, agora que Ayla ficara adulta, as duas frequentemente eram vistas juntas. Ovra era uma mulher tranquila que no falava muito, naturalmente reservada 
e o oposto de Ika, de temperamento franco e expansivo. Entretanto, entre Ayla e Ovra foi-se fazendo aos poucos um bom entendimento, que se transformou numa amizade 
ntima que passou tambm a incluir Goov. A afeio que ligava o aclito  sua companheira era um fato sabido de todos, e isso fazia com que Ovra fosse objeto de 
piedade ainda maior. Sabiam que, por ter um companheiro generoso e compreensivo com a incapacidade dela de produzir filhos, Ovra por isso mesmo ainda desejava mais 
sua maternidade.
     Oga estava novamente esperando, para o grande prazer de Broud. Ficara grvida logo depois de Brac ter sido desmamado aos trs anos. Tudo levava a crer que ela 
seria to frtil quanto Aga e fica. Droog, depois que viu certo dia o filho de dois anos de Aga martelando uma pedra, estava seguro de que a criana seria o ferramenteiro 
por que ele tanto esperara. 
     Arrumou um pequeno martelo de pedra de acordo com as mos rechonchudas de Groob e o deixava por perto enquanto trabalhava, e o menino brincava com uns pedaos 
de slex, imitando-lhe os gestos. Igra, a filha de dois anos de Ika, era uma garotinha gorducha, muito dada e alegre, que fazia o encanto de todos no cl e prometia 
ter o mesmo bom gnio da me. 
     O cl de Brun estava crescendo.
     No princpio da primavera, Ayla recebeu a maldio devida  sua condio de mulher e passou alguns dias afastada do cl em seu refgio no alto da montanha. 
Depois da maldio de morte, de longe muito mais traumatizante, esta agora parecia quase umas frias. 
     Aproveitou o tempo para botar as idias em ordem e para aperfeioar seus lanamentos com a funda, depois de haver passado um longo inverno sem atirar, embora 
a todo instante ainda precisasse lembrar-se de que j no era mais necessrio fazer isto em segredo. Seria faclimo para ela arrumar comida. Contudo, aguardava, 
ansiosa, as visitas dirias de Iza num lugar previamente combinado, perto da caverna do cl. Iza lhe levava mais comida do que ela aguentava comer, mas sua companhia 
 que era o principal. Ainda era difcil para Ayla passar as noites sozinha, mas o fato de saber que aquele seria um isolamento limitado, apenas de poucos dias, 
tornava a coisa mais suportvel.
     Quase sempre as duas ficavam juntas at anoitecer e Ayla precisava valer-se de uma tocha para iluminar o caminho de volta. Iza nunca venceu sua desconfiana 
quanto  pele de veado que Ayla curtira para usar enquanto estava morta, de modo que resolveu guard-la na pequena caverna. Como toda moa, Ayla tambm aprendeu 
com sua me tudo aquilo que era necessrio uma mulher saber. Iza lhe deu faixas absorventes para serem presas numa correia amarrada na cintura e lhe explicou os 
smbolos apropriados que deveriam ser feitos quando fosse enterrar na terra os absorventes sujos de sangue. Falou- lhe das posies adequadas que deveria assumir 
caso algum homem desejasse aliviar suas necessidades nela, dos movimentos que deveriam ser feitos e como depois fazer sua higiene. Ayla era agora uma mulher. Poderia 
ser solicitada para desempenhar qualquer funo  exigida de toda mulher adulta do cl. As duas conversaram sobre muitas coisas de interesse feminino, 
     embora algumas, devi do  educao para curandeira, j fossem do conhecimento de Ayla. 
     Trocaram idias sobre gravidez, amamentao e remdios para clicas. Iza deu-lhe instrues sobre as posies e movimentos que eram considerados como sedutores 
e a maneira como uma mulher poderia encorajar o homem e excit-lo para que ele tivesse vontade de aliviar suas necessidades. Falaram ainda das responsabilidades 
que competiam a uma companheira. Iza lhe disse tudo quanto sua me lhe contara, mas, no ntimo, perguntava-se se Ayla, to pouco atraente como era, iria precisar 
de todas essas informaes.

     Apenas um assunto Iza deixou de abordar. A maioria das meninas, quando estavam prximas de se tornar mulheres, em geral, mostrava interesse por algum rapaz 
em particular. Apesar de que nem me nem filha pudessem opinar sobre a matria, a me se tivesse bom relacionamento com o compa nheiro, poderia transmitir-lhe as 
preferncias da filha. O companheiro, por sua vez, querendo, poderia fazer chegar o desejo da garota ao chefe que 
     tinha a deciso final. no havendo nenhuma outra considerao e, sobretudo, se o rapaz em questo mostrasse tambm interesse pela menina, o chefe poderia fazer 
prevalecer a vontade da mulher.
     Nem sempre tal acontecia e certamente esse no foi o caso de Iza. De qualquer forma, o assunto no surgiu nas conversas entre as duas, embora fosse, na maioria 
das vezes, aquele que suscitava maior interesse. No momento, todos os rapazes no cl tinham companheiras, e Iza estava certa de que, mesmo que existissem homens 
disponveis, haveria tanta possibilidade de quererem Ayla como a de algum mostrar-se interessado nela, Iza, para segunda mulher. Ayla, por seu turno, no estava 
interessada em nenhum deles, inclusive se Iza no tivesse abordado o assunto sobre as responsabifidades da mulher, a jovem nem teria pensado nisso. Mas depois pensou.
     Numa manh ensolarada de primavera, algum tempo depois de haver voltado, Ayla foi encher o cantil no lago alimentado pelo riacho, perto da caverna. Ningum 
ainda havia sado. Ela se ajoelhou, curvou o corpo, pronta para mergulhar o cantil dentro, quando subitamente parou. Os raios do sol batiam inclinados sobre a gua 
parada fazendo da superfcie um espelho. Ayla ficou com os olhos parados no estranho rosto que a olhava de dentro do lago. Nunca at ento vira sua imagem refletida. 
Quase toda a gua existente perto da caverna era a de rios e canais sempre em movimento e, em geral, ela s olhava para dentro do lago depois de j ter mergulhado 
o recipiente que queria encher, quando a superfcie j estava remexida.
     Estudou seu rosto. Era algo quadrado, com mandbulas bem definidas, mas suavizadas por bochechas de adolescente, pmulos altos e pescoo fino e comprido. O 
queixo se mostrava ligeiramente partido, lbios carnudos e nariz reto, perfeitamente esculpido. Olhos claros, azuis-acinzentados e contornados por pestanas mais 
escuras do que os cabelos dourados que caam bem para baixo dos ombros em ondas fartas e suaves, brilhando com os reflexos do sol. Sobrancelhas no mesmo tom que 
os clios, arqueadas por cima dos olhos e assentadas sobre uma fronte acetinada, alta e reta, sem qualquer salincia na altura dos superclios. Ayla se ergueu e 
foi correndo para a caverna.
     - Ayla, o que aconteceu? - gesticulou Iza. Era visvel que havia algo perturbando a moa.
     - Me, acabei de me ver no lago. Eu sou feia! Oh, me, por que sou to feia? - perguntou, exaltada, caindo aos prantos nos braos de Iza. Tanto quanto podia 
lembrar-se, somente conhecia pessoas da raa dos cl no tinha qualquer termo de comparao O cl se acostumara com ela, mas ela mesma na Via-se diferente de todos, 
anormalmente diferente.
     - Ayla, Ayla - falou Iza abraando-a, acalmando-a no seu choro.
     - Eu no sabia que era to feia, me. Eu no sabia. Que homem vai me querer? Nunca vou ter um companheiro. Nunca vou ter um beb. Nunca vou ter ningum. Por 
que eu tinha de ser to feia?
     - No sei se voc  realmente feia, Ayla. Voc  diferente.
     - No Eu sou feia. Feia! - falou, abanando a cabea e recusando qualquer consolo. - 
     Olhe para mim! Sou grande demais. Sou mais alta do que Broud ou Goov. Sou quase to alta quanto Brun! E sou feia. Sou grande, feia e nunca vou ter um companheiro 
- gesticulou, comeando outra vez a chorar.
     - Ayla! Pare com isso! - ordenou Iza, sacudindo-a pelos ombros. - Voc no tem culpa por parecer como . Voc no nasceu de gente dos cl e sim de gente dos 
Outros. Seu aspecto  o deles.  uma coisa que voc no pode mudar. Tem de se conformar.  verdade que talvez nunca venha a ter com panheiro e, quanto a isso, no 
podemos fazer nada. Voc tem de aprender a aceitar o fato. Mas no  certo, nada  sem esperana. Em breve voc ser 
     uma curandeira. Uma curandeira da minha linhagem. Mesmo que no tenha com panheiro, nunca ser uma mulher sem status ou insignificante.
     No prximo vero, haver a reunio de cl. Muitos cl estarA l. O nosso no  o nico que existe. Voc poder encontrar um companheiro que venha de outro 
cl Talvez no seja um rapazinho ou algum de status elevado, mas de qualquer forma ser um companheiro. 
     Zoug a tem em alta conta. Pode-se considerar feliz por ele ter to boa opinio sobre voc. 
     Ele j deu a Creb uma mensagem para levar  reunio. Zoug tem parentes em outro cl. Disse a Creb para falar l da estima que ele tem por voc. Acha que voc 
dar uma boa companheira e deseja que eles pensem em seu caso. Inclusive chegou a dizer que ele a tomaria como companheira, se fosse mais jovem. Lembre-se disso. 
Este no  o nico cl e os homens daqui no so os nicos sobre a ter.
     - Zoug disse isso? Mesmo eu sendo feia desse jeito? - gesticulou Ayla, com um brilho de esperana no olhar.
     - Disse. Foi exatamente o que Zoug falou. Com a recomendao dele e o meu status, tenho certeza de que algum homem ir querer tom-la, mesmo com esse seu jeito 
diferente.
     O sorriso que Ayla timidamente esboava desapareceu.
     - Mas isso quer dizer que vou ter de ir embora, no ? De ii para algum outro lugar, no  assim? no quero deixar Creb, voc e Uba.
     - Ayla, estou velha e Creb tambm j no  nenhum rapazinho. Dentro de poucos anos, Uba ser mulher e vai ter o seu companheiro. E o que voc far ento - gesticulou 
Iza. - 
     Qualquer dia desses Brun vai passar o comando do cl para Broud, e acho que voc no deveria viver mais aqui depois que ele for o chefe. Em minha opinio o 
melhor seria se voc se mudasse e a reunio dos cl poder ser boa oportunidade para isso.
     - Sim, voc deve ter razo. Acho que no vou querer viver aqui quando Broud for o chefe, mas  horrvel ter de deix-la - disse, com o rosto franzido. Depois, 
animou-se. - Mas at o vero que vem, ainda h um ano inteiro pela frente. At l no preciso preocupar-me.
     Um ano inteiro, disse Iza consigo, ah, minha filha, minha filha, voc vai precisar ficar mais velha para saber como passa rpido um ano. Voc no me quer deixar? 
no sabe quanta falta vou sentir de voc. Se ao menos houvesse um homem neste cl para tomar conta de voc. E se ao menos no fosse Broud o futuro chefe.
     Seus pensamentos, entretanto, no chegavam nem de leve a transparecer enquanto Ayla enxugava os olhos e voltava para buscar gua. Desta vez, evitando olhar 
para dentro do lago parado.
     Durante a tarde naquele dia, Ayla, saindo da mata, ficou por algum tempo olhando atravs das folhagens para a caverna do cl. Diversas pessoas estavam do lado 
de fora trabalhando ou apenas conversando. Ajeitou os dois coelhos que pendurara no ombro, olhou para sua funda enfiada na correia da cintura e a camuflou numa dobra 
da roupa. Depois, mudou de idia e voltou a enfiar a funda na correia, deixando-a  mostra. Tornou a olhar para a caverna e foi caminhando, nervosa, para l.
     Brun disse que eu podia, falava consigo. Fizeram uma cerimnia para isso. Sou uma caadora... a Mulher Caadora. Botou, ento, o queixo para cima e saiu de 
detrs da cortina de folhagens que a escondia.
     Houve um enorme silncio gelado, com todos parados, olhando para a garota que vinha na direo deles, trazendo dois coelhos pendurados no om bro. Logo que se 
recuperaram do choque e que perceberam estar em atitudes inconvenientes, desviaram os olhos para outro lado. Ayla tinha o rosto queimando, mas caminhava em frente, 
com ar decidido, ignorando 
     os olhares com o rabo dos olhos para ela. Sentiu-se aliviada ao entrar na caverna, depois de passar pelo meio de uma fila dupla de olhares escandalizados, dando 
graas por a caverna ter seu interior fresco e escuro. L dentro, era mais fcil ignorar os olhares das pessoas.
     Os olhos de Iza tambm se arregalaram quando Ayla chegou  fogueira de Creb, mas ela rapidamente se refez do choque e olhou em outra direo sem fazer qualquer 
meno aos coelhos. Ela no sabia o que dizer. Creb, sentado em sua pele de urso, aparentemente meditava, parecendo nada perceber. Ele vira quando Ayla entrara na 
caverna e tratou de disfarar a expresso do rosto no momento em que ela chegou. 
     Ningum disse uma palavra, quando Ayla botou os bichos perto do lugar onde estava acesa a fogueira. Instantes depois, entrou Uba correndo e dizendo:
     - Voc caou mesmo esses dois coelhos, Ayla?
     - Sim - fez Ayla com a cabea.
     - Esto muito bonitos e gordos.  o que vamos comer hoje  noite,
     - Bem... acho que sim - respondeu Iza, ainda embaraada e incerta.
     - Vou tirar a pele deles - falou depressa Ayla, pegando sua faca. Por um momento, Iza ficou observando, depois veio e retirou a faca da mo dela.
     - No, Ayla. Voc caou e eu preparo.
     Ayla afastou-se para dar lugar a Iza que, rapidamente, tirou as peles dos coelhos e os atravessou com espeto, botando-os para assar sobre o fogo. Ayla se via 
to encabulada quanto Iza.
     - A comida estava muito boa, Iza - disse mais tarde Creb, ainda evitando qualquer comentrio direto sobre os dois coelhos. Uba, entretanto, no teve os mesmos 
escrpulos.
     - Os coelhos estavam bons, Ayla. Mas da prxima vez por que no v se pega umas perdizes? - Ela, como Creb, tinha a mesma predileo por essas aves de patas 
cobertas de penas.
     Na vez seguinte em que Ayla trouxe caa para a caverna, j no houve tanto escndalo e, dentro de pouco tempo, suas caadas passaram a ser encaradas com a maior 
naturalidade. 
     Agora, com um caador na sua fogueira, Creb pde reduzir a quota que apanhava com os outros caadores, a no ser quando fossem animais grandes, caados s por 
homens.
     Ayla esteve ocupadssima naquela primavera. O fato de caar no diminuiu seu trabalho junto das mulheres, alm de que havia a coleta de plantas para Iza. Mas 
adorava tudo. Estava cheia de energia, mais feliz do que nunca. Feliz por poder caar abertamente, feliz por estar vivendo outra vez com o cl, feliz por ter finalmente 
ficado mulher e tambm porque agora estava mantendo uma relao de amizade muito mais estreita com as outras mulheres.
     Ebra e Ika, as duas mais velhas do grupo, embora no esquecendo de todo as peculiaridades de Ayla, a aceitavam. Ika sempre se mostrara amiga, e Aga, sua me, 
havia mudado completamente de atitude, desde que Ayla salvara Ona de morrer afogada. Ovra se tornara uma confidente, e Oga se afeioara a ela apesar de Broud. Sua 
paixo adolescente por Broud acabou transformando-se ao longo dos anos em hbito e indiferena, esfriada pelas imprevisveis exploses de temperamento do companheiro. 
Em compensao o dio vigativo de Broud por Ayla tornou-se ainda maior depois de ela ter sido aceita como caadora. Continuava sempre procurando meios para inferniz-la 
e faz-la reagir s suas provocaes. No entanto, as implicncias dele passaram a fazer parte de um cotidiano com o qual ela aprendera a conviver e nada a tirava 
de sua tranquilidade.
     A primavera ia em plena florao quando Ayla resolveu caar algumas perdi zes para que fosse preparado o prato favorito de Creb. Pensou que, enquanto andasse 
pelos campos, poderia ao mesmo tempo ir dando uma olhada nas plantas crescendo para comear a refazer a farmcia de Iza. Passou a manh explorando os terrenos prximos 
e depois se dirigiu para uma extensa campina j nas proximidades das estepes. Ali, fez dois pssaros alarem vo para abat-los no ar com suas pedradas. Em seguida, 
saiu  procura dos ninhos em meio  relva crescida, na esperana de encontrar os ovos. Creb adorava comer as aves com recheios feitos de seus prprios ovos misturados 
com ervas e legumes. Soltando uma exclamao de alegria, a moa conseguiu achar o ninho e, com muito cuidado, enrolou os ovos numa camada macia de musgo, metendo- 
os dentro de uma dobra profunda da roupa. Estava feliz consigo mesma. Por pura alegria, disparou a correr pelo campo, s parando quando chegou, j sem flego, no 
topo de um morro coberto de relva recm-brotada.
     Deixou-se cair no cho, deu uma olhada nos ovos para ver se estavam inteiros e depois pegou um pedao de carne-seca para almoar. Ps-se a observar uma cotovia 
que lanava gloriosamente seu canto do alto de um galho, para depois bater as asas e ir com seu canto pelos ares. Dois pardais de cucurutos dourados, revoando por 
entre os galhos das amoreiras na fronteira da plance e, gorjeavam uma cano sombria de notas descendentes. Outro casal de passarinhos com penachos pretos e mantos 
cinzas, reconhecidos pelo seu piado caracterstico (tic-a-di-di), entrava e saa como flechas dos buracos de seus ninhos num pinheiro perto do riacho, que serpenteava 
pela densa vegetao no p do morro. Pequeninas e vivazes cambaxirras marrons espantavam os outros pssaros, enquanto carregavam ramos e musgos secos para um ninho 
feito na cavidade do tronco retorcido de uma velha macieira que ainda provava sua fecundidade com flocos de flores rosadas.
     Ayla adorava esses momentos de solido. Aquecendo-se ao sol, feliz e relaxada, no pensava nada em particular, exceto na beleza do dia e de quanto feliz se
achava. 
     Encontrava-se inteiramente inconsciente de que algum pudesse estar por perto, at que viu uma sombra cruzando o cho  sua frente. Assustada, levantou os olhos, 
dando com a cara amarrada de Broud.
     Como nenhuma caada fora programada para aquele dia, ele resolvera caar sozinho. Mas no estava muito empenhado na coisa, fora mais um pretexto para poder 
dar um passeio num dia quente de primavera do que propriamente visando buscar uma carne de que realmente no estava precisando. Vira Ayla descansando no alto do 
morro e no iria deixar passar aquela oportunidade de ralhar com ela por causa de sua preguia, surpreendida ali, absolutamente  toa, sem fazer nada.
     Ayla logo que o enxergou pulou sobre os ps, mas isso o aborreceu. Ela era mais alta e ele no gostava de suspender a cabea para olhar para uma mulher. Fez 
sinal para que ela se sentasse novamente, j preparado para passar uma boa descompustura. Submissa, com uma expresso de indiferena vidrando-lhe os olhos, ela se 
abaixou e isso o deixou ainda mais irritado. Ele queria pensar em alguma coisa que arrancasse uma reao dela. Se estivesse na caverna, poderia mand-la fazer qualquer 
coisa e a veria saltando, apressada, para atender sua ordem.
     Broud olhou ao redor e depois para a mulher sentada a seus ps, esperando imperturbvel que ele passasse logo o cargo que tinha de passar e seguis se seu caminho. 
Depois de ter ficado mulher, est pior do que nunca, pensou ele. Bali, Mulher Caadora... como Brun pde fazer uma coisa dessas? Viu as perdizes e lembrou que suas 
mos estavam vazias. At o olhar nessa sua cara feia  insolente. Est tripudiando de mim, porque conseguiu pegar alguma coisa e eu No. O que poderia fazer com 
ela? no existe nada por aqui que eu possa mand-la buscar? Espere. . - agora ela  mulher, no ? H uma coisa que posso mandar que ela faa.
     Broud fez-lhe um sinal e os olhos de Ayla se arregalaram. Aquilo era inesperado. Iza lhe dissera que os homens s queriam essa coisa com mulheres que consideravam 
atraentes. 
     Sabia que Broud a achava feia. Ele percebeu que ela ficara surpresa e escandalizada. A reao o animou. Fez novamente o mesmo sinal, categonicamente, para que 
ela assumisse a postura prpria s relaes sexuais e ele pudesse aliviar suas necessidades.
     ayla sabia o que se esperava dela. no s porque Iza lhe explicara, como tambm por j ter visto muitas vezes os membros adultos do cl entregues a essa actividade, 
inclusive todas as crianas tambm viam. no existia qualquer restrio ou artificialismo na prtica do sexo. As crianas aprendiam o comportamento adulto copiando 
os pais, e o sexo era apenas uma dentre as muitas actividades que imitavam. Isso sempre intrigara Ayla e ela se perguntava qual seria a razo daquela prtica, mas 
no se perturbava quando via algum garoto se remexendo inocentemente por cima de uma menina, numa imitao consciente dos adultos.
     s vezes, no era s imitao Muitas meninas eram defloradas por garotos que, enquanto aguardavam sua primeira caada, ficavam arrastando suas existncias naquela 
fase de quase-homem e no raro tambm algum homem se deixava levar pela coqueteria de uma quase-mulher. A maioria dos rapazes, porm, considerava indigno fazer 
sexo com suas antigas companheiras de folguedos.
      exceo de Vom, Ayla no tinha companheiros que fossem mais ou menos de sua idade. 
     Alm disso, nunca houve maior aproximao entre eles, desde os tempos em que Aga desencorajava a amizade dos dois. Por seu lado, Ayla no tinha qualquer estima 
particular por Vorn, que imitava Broud na maneira de trat-la. Mesmo depois do incidente ocorrido no campo de treinamento, o garoto prosseguiu com sua idolatria 
por Broud. E Vorn, por sua vez, no tinha a menor vontade de brincar de companheiro com Ayla. Como no restasse mais ningum, ela nunca se empenhou naquele comportamento 
imitativo. Assim, dentro de uma sociedade que encarava o sexo com a mesma naturalidade que o ato de respirar, Ayla havia conseguido sobreviver virgem at aquela 
data.
     Sentia-se desajeitada, sabendo que era obrigada a consentir, e Broud se comprazia com sua perturbao Estava feliz por haver lembrado da coisa. Finalmente, 
conseguira romper-lhe as defesas. A confuso e o embarao dela excitavam os seus desejos. Aproximou-se ao v-la 
levantar-se. Depois, ela se ps de joelhos. Ayla no estava acostumada a ter homens to perto dela. A respirao pesada de Broud a assustava. Ela hesitava.
     Ele ficou impaciente, empurrou-a ao cho e ps para o lado a roupa, deixando seu rgo grosso, latejante,  mostra. O que ela est esperando?  to feia! Deveria 
sentir-se honrada, nenhum outro homem iria quer-la, pensou com raiva, agarrando-lhe a vestimenta e removendo-a, sentindo-se cada vez mais excitado.
     Mas quando ele estava pronto para desfechar o ataque, alguma coisa se passou nela. no podia fazer aquilo! Simplesmente era impossvel. No enxergava mais nada. 
Pouco importava se tinha ou no de obedec-lo. Conseguiu pr-se de p e comeou a correr. 
     Broud era mais rpido do que ela. Ele a agarrou, derrubou-a, dando um soco com a mo fechada que lhe partiu os lbios. Estava comeando a ter prazer com a coisa. 
Quantas vezes 
     ele havia ti do vontade de bater nela e fora obrigado a conter-se e, agora, no existia ningum ali para impedi-lo. Alm disso, havia uma boa razo para faz-lo. 
Ela o estava desobedecendo, e de uma forma concreta.
     Ayla estava enlouquecida. Tentou levantar-se e ele tornou a bater nela. Conseguira uma reao da parte dela que nunca esperara, e isso lhe acendia ainda mais 
o desejo. Iria dobrar aquela fmea insolente. Foi dando-lhe socos um atrs do outro, feliz ao ver que a cada vez que suspendia a mo ela encolhia o corpo.
     Ayla sentia a cabea zumbindo, com o sangue escorrendo pelo nariz e de um canto da boca. Tentava levantar-se, mas ele a mantinha presa nocho. Ela lutava, dando-lhe 
murros no peito que pareciam no produzir nenhum efeito sobre seu corpo musculoso. A resistncia dela, no entanto, levava-o ao auge da excitao Nunca se sentira 
to estimulado. A violncia aumentava sua paixo e o desejo punha fora nos seus socos. Comprazendo-se com aquela resistncia, prosseguia sem parar com os murros.
     Ela estava quase inconsciente, quando ele a soltou. Sofregamente, arrancou-lhe a roupa e abriu as pernas dela. Numa investida brutal penetrou-a profundamente. 
O grito de dor que ouviu aumentou seu prazer e ele fez nova arremetida, arrancando-lhe outro doloroso grito, e depois, mais outro, e mais outro e outro... O grau 
de excitao o instigava, levando-o rapidamente ao ponto de saturao . Na ltima estocada que arrancou o derradeiro grito de agonia, ele expulsou todo o calor que 
acumulara.
     Por um momento, ficou estendido sobre ela, desprovido de toda energia. Em seguida, ainda ofegante, afastou-se. Ayla soluava incoerentemente. O sal das lgrimas 
ardia nas feridas abertas em seu rosto lambuzado de sangue. Um dos olhos estava inchado e j ficando preto. 
     As coxas estavam manchadas de sangue e ela se sentia toda machucada por dentro. Broud se levantou e a olhou do alto. Sentia-se timo. Nunca gostara tanto de 
nenetrar uma mulher. 
     Pegou suas armas e se dirigiu  caverna.
     Depois de ter parado de soluar, Ayla permaneceu ainda muito tempo deitada com a cara voltada para a terra. Por fim, levantou-se. Tocou na boca sentindo-lhe 
a inchao e olhou para o sangue nos dedos. Todo o corpo doa. Por dentro e por fora. V o sangue entre as coxas e algumas manchas na relva. Ser que meu totem est 
novamente lutando?, 
     perguntou-se. Acho que no Ainda no est na poca. Broud deve ter me ferido. no sabia que ele me podia bater tambm por dentro. Mas, as outras mulheres no 
ficam machucadas, por que o rgo de Broud me deixou to ferida? Ser que h alguma coisa errada comigo?
     Vagarosamente, levantou-se e foi at o riacho, sofrendo com cada passo que dava. Lavou-se, mas no adiantou muito, a dor era fortssima e a cabea se achava 
num turbilho Por que Broud quis que eu fizesse isso? Iza me falou que os homens s querem aliviar suas necessidades com as mulheres que acham atraentes. Eu sou 
feia. Por que um homem iria ferir uma mulher de quem ele gosta? Mas as mulheres tambm gostam de fazer isso, sen por que iriam fazer gestos para excitar os homens? 
Como podem gostar disso? Oga no se importa quando Broud faz com ela e ele faz todos os dias. s vezes, at mais.
     De repente, ela ficou em pnico. Oh, No! E se Broud me quiser para uma segunda vez? Eu No vou voltar para o cl. no posso voltar. Mas para onde iria? Minha 
pequena 
     caverna? no L  muito perto e no posso passar um inverno inteiro presa nela. Vou ter de voltar de qualquer maneira. Noposso viver sozinha. Para que outro 
lugar poderia ir? E alm disso, no posso deixar Iza, Creb e Uba. O que vou fazer? Se Broud quiser, eu no vou poder recusar. As outras mulheres no ousariam nem 
tentar. O que h de errado co migo? Ele nunca quis isto quando eu era menina. Por que tive de ficar mulher? Estava to feliz por causa disso e agora no me importaria 
se ficasse menina para o resto da vida. De qualquer jeito, nunca vou ter um beb. Para que serve ser mulher, se ela no ter um beb? Principalmente se um homem 
pode obrigar a gente a fazer coisas desse tipo. De que adianta? Para qu?
     O sol j estava baixo no cu, quando Ayla foi a custo descendo pelo morro para procurar por suas perdizes. Os ovos acondicionados to cuidadosamente haviam 
quebrado e sujado sua roupa na frente. Olhou na direo do riacho lembrando-se de como se sentia feliz quando observava os passarinhos cantando. Parecia ter sido 
h sculos. Um outro tempo, um outro lugar. Foi- se arrastando de volta  caverna, com medo de cada passo que dava.
     Quando Iza viu o sol desaparecer atrs das rvores do lado oeste, sua ansiedade aumentou. Ela foi por tudo quanto era caminho que existia nas matas por perto 
e subiu no morro para vasculhar o lado da encosta que descia at a plancie. Uma mulher no deve ficar sozinha. 
     No gosto de ver Ayla saindo para caar, pensava consigo. E se ela foi atacada por algum animal? Ser que est ferida? Creb tambm estava preocupado, embora 
tentasse no o demonstrar. At mesmo Brun passou a ficar incomodado, quando comeou a escurecer. 
     Foi Iza quem do alto do morro, viu primeiro Ayla. J estava pronta para comear a ralhar com a moa, mas parou no seu gesto.
     - Ayla! Voc est ferida! O que aconteceu?
     - Broud me bateu - respondeu com a cara sombria.
     - Mas por qu?
     - Porque eu o desobedeci - gesticulou, enquanto caminhava para a caverna seguindo direto para a fogueira de Creb.
     O que ser que aconteceu?, perguntou-se Iza. H anos que Ayla no desobedece Broud. Por que iria rebelar-se contra ele agora? E por que ele no me disse que 
a tinha visto? Ele sabia que eu estava preocupada. Ao meio-dia, ele j estava aqui e por que Ayla s chegou agora? 
     Iza lanou um rpido olhar na direo da fogueira do rapaz e viu que ele estava olhando para Ayla por cima do cercado de pedras. Havia nele uma expresso de 
superioridade e prazer.
     Nada passara despercebido a Creb: o rosto ferido e inchado de Ayla, sua extrema desolao, e Broud, com expresso arrogante e escamecedora, observando-a desde 
o momento em que ela entrara. Ele sabia que o dio de Broud crescera com o passar dos anos e que a obedincia passiva de Ayla o atingia mais do que a rebelio dos 
tempos de criana. mas alguma coisa havia acontecido que estava dando a Broud uma sensao de poder sobre ela. Por mais perceptivo que Creb fosse, ele no atinou 
com a causa.
     No dia seguinte, Ayla estava com medo de ultrapassar os limites da fogueira e prolongou tanto quanto podia a refeio da manh. Broud estava esperando por ela. 
S em pensar na sua excitao da vspera deixou-o estimulado e ele j estava pronto. Quando ele lhe fez o sinal, por pouco ela no saiu correndo, mas se forou a 
fazer a posio. Tentava reprimir os gritos, mas a dor sentida arrancava-os de seus lbios, provocando olhares curiosos daqueles que estavam por perto. no podiam 
entender aqueles gritos de dor nem as razes do sbito interesse de Broud por ela.
     Broud comprazia-se ao mximo com a nova maneira que descobriu para do min-la e usava Ayla frequentemente, embora as pessoas se perguntassem o que o fazia preferir 
uma mulher feia, de quem tinha dio, a Oga, sua graciosa companheira. Passado algum tempo, j no doa mais. Ayla, no entanto, continuava detestando o ato. E era 
justamente seu dio que dava prazer a Broud. Ele a havia posto no seu lugar, granjeara a to almejada superioridade sobre ela e acabou por fim fazendo com que Ayla
lhe reagisse. Pouco importava se aquela era uma reao negativa, preferia at que o fosse. Queria v-la acovardada, sentindo medo e obrigando-se a esta submisso 
que lhe era odiosa. S o pensamento disto j era bastante para excit-lo. Seus impulsos sexuais sempre foram fortes e, agora, estava mais sexualmente ativo do que 
nunca. Todas as manhs em que no saa para caar, ficava esperando por ela. Geralmente, forava-a outra vez na parte da tarde e s vezes tambm no meio do dia. 
At mesmo de noite, surpreendia-se tendo uma ereo e, neste caso, usava a companheira para aliviar-se. Ele era jovem e saudvel, no auge das proezas sexuais, e 
quanto mais intenso era o dio de Ayla, mais prazer ele obtinha.
     Ayla perdeu o brilho. Estava desanimada, mal-humorada, nada parecia afet-la. A nica coisa que sentia era um dio mortal por Broud e aquele estupro dirio. 
Tal como uma geleira que se apodera de toda a umidade da terra ao redor, o dio e a frustrao de Ayla anulavam os outros sentimentos.
     Ela sempre se conservara limpa, tomando banho e lavando os cabelos no riacho, de modo a evitar piolhos, chegando at a trazer imensas bacias cheias de neve 
que punha para derreter ao lado da fogueira para poder ter gua durante o inverno. Agora, seus cabelos caam sem vida, cheios de ns gordurentos e dia aps dia estava 
com a mesma roupa, sem se incomodar de lavar os lugares sujos ou bot-la para arejar. Estava relaxada nos servios domsticos a ponto de que homens que nunca antes 
haviam ralhado com ela passassem agora a lhe chamar a ateno. Perdera o interesse pela medicina de Iza, nunca falava, a no ser para responder alguma coisa que 
lhe perguntassem diretamente, quase nunca saa para caar, e quando o fazia voltava quase sem perguntas e de mos vazias. Seu desalento contaminava todos que compartilhavam 
com ela da fogueira de Creb.
     A preocupao de Iza deixava-a inteiramente fora de si. No conseguia entender aquela drstica mudana de Ayla. Sabia que tinha a ver com o inexplicvel interesse 
de Broud por ela, mas por que, realmente, no conseguia compreender. Ela estava sempre rondando Ayla, observando-a e, quando a moa comeou a ter enjos pela manh, 
ficou com medo de que o esprito maligno que havia entrado na menina j estivesse firmemente estabelecido dentro dela.
     Iza, no entanto, era uma curandeira experiente. Foi a primeira a notar que Ayla no guardava o isolamento exigido s mulheres nos dias em que seus totens entravam
em luta e, a partir da, passou a vigi-la ainda mais de perto. Era-lhe difcil acreditar no que pensava. Mas quando viu que mais uma lua havia passado e que o vero
estava expandindo todo o seu calor, j no teve mais dvida. Certa tarde em que Creb no se encontrava na fogueira, ela acenou para Ayla.
     - Quero falar com voc.
     - Sim, Iza - respondeu Ayla, levantando-se com esforo de sua pele e se deixando cair no cho perto de Iza.
     - Qual foi a ltima vez que seu totem lutou, Ayla?
     - no sei.
- Ayla, quero que voc pense direito sobre isso. Os espritos lutaram dentro de voc, depois de ter havido a primeira batalha?
     Ayla procurava lembrar-se.
     - no tenho muita certeza. Talvez uma vez.
     - Foi o que pensei. Voc est tendo enjos todas as manhs, no ?
     - Estou - respondeu Ayla, com a cabea. Achava que a causa de seus enjos fosse Broud que, quando no saa para caar, estava firme esperando-a, e ela, por
odiar tanto a coisa, vomitava a primeira refeio e algumas vezes tambm a da noite.
     - Seus seios esto doloridos?
     - Um pouco.
     - E tambm esto aumentando de tamanho, no ?
     - Acho que sim. Por que est querendo saber? Para que todas essas perguntas? Iza, sria, olhou para ela.
     - Ayla, no sei como aconteceu. Quase no consigo acreditar, mas tenho certeza de que s pode ser uma coisa.
     - Que coisa?
     - O seu totem foi derrotado. Voc vai ter um beb.
     Um beb? Eu? Meu totem  forte demais, no pode ser - protestou
     - Eu sei. Por isso no entendo, mas voc vai ter um beb - repetiu iza.
     Nos olhos indiferentes de Ayla apareceu uma expresso de surpresa.
     - Ser possvel? Ser que pode ser verdade? Verdade mesmo? Eu, ter um beb? Oh, me, que maravilha!
     - Ayla, voc no tem companheiro. no creio que haja um s homem neste cl para tom-la, nem mesmo como segunda mulher. Voc na pode ter um filho sem companheiro,
isso poderia trazer infelicidade - gesticulou Iza, aflita. - Seria melhor se voc tomasse alguma coisa para perder a criana. Acho que um bom remdio seria ch de
visco. Voc conhece,  aquela planta com frutinhas brancas que cresce no alto dos ps de carvalho.  um remdio que sempre d resultado, e se for preparado direito
no  muito perigoso. Vou fazer para voc um ch com as folhas, usando s umas poucas frutinhas. Vai ajudar seu totem a expulsar essa vida nova que se est formando
dentro de voc. O remdio d um pouco de enjo, mas...
     - no no! - balanou Ayla a cabea com firmeza. - Iza, No! no quero tomar ch de visco. no quero tomar nenhum remdio que faa perder o beb. Eu quero o
meu filho, me. Desde que Uba nasceu, sempre quis ter um beb. Nunca pensei que isso um dia pudesse acontecer.
     - Mas, Ayla, e se o beb for infeliz? Pode at nascer deformado.
     - Ele no vai ser infeliz. no vou deixar. Prometo que vou cuidar de mim para que ele seja sadio. no foi voc mesma quem disse que os totens fortes ajudam
a fazer bebs sadios, depois que so vencidos? E vou tambm cuidar muito do beb, quando tiver nascido.
     No quero que nada acontea, Iza. Preciso ter esse filho, voc no compreende? Talvez meu totem nunca mais venha a ser derrotado. Pode ser que essa seja minha
nica chance.
     Iza olhava os olhos suplicantes de Ayla. Era a primeira vez que via um brilho de vida nela, desde o dia em que Broud lhe batera quando estavam fora, caando.
Sabia que devia insistir com Ayla para que tomasse o remdio. No seria bom deixar uma mulher sem companheiro ter filho, quando se podia fazer algo a respeito. Mas
Ayla queria a criana desesperadamente, e seu estado de depresso poderia agravar-se ainda mais, se fosse induzida a desistir do beb. Sim, talvez Ayla tivesse razo
talvez essa fosse sua nica chance.
     - Est bem, Ayla - concordou Iza. - Se voc quer tanto assim. Mas seria melhor por enquanto que no se falasse disso para ningum. Daqui a pouco, todo mundo
ficar sabendo.
     - Que bom, Iza - disse Ayla, abraando-a.  medida que ia conscientizando o milagre daquela impossvel gravidez, um leve sorriso comeou a esboar em seu rosto.
A moa deu um salto, cheia de energia. no aguentava ficar sentada ali parada, tinha de fazer qualquer coisa.
     - Me, o que voc vai cozinhar para hoje  noite? Deixe que eu ajude.
     - Ensopado de auroque - respondeu Iza, espantada com aquela sbita transformao. - Se quiser, pode ir cortando a carne.
     Enquanto trabalhavam, Iza ia pensando na alegria que era Ayla, e ela quase j havia esquecido de como poderia ser sua filha. As mos circulavam pelo ar, conversando 
e trabalhando ao mesmo tempo. O interesse de Ayla pela medicina voltara.
     - Eu no sabia dessa qualidade do visco, me - observou Ayla. - Conhecia os espores de centeio e o capim-cheiroso, mas o visco, eu no sabia que era uma planta 
que servia para abortar.
     - Sempre haver coisas que eu ainda no falei, Ayla, mas voc vai acabar sabendo o suficiente. Alm disso, voc sabe como fazer o teste, poder ir aprendendo 
por sua prpria conta. O tanaceto tambm serve para isso, mas  mais perigoso do que o visco. No caso dessa planta, usa-se tudo. Pe- se para ferver as flores, folhas 
e razes. Se voc encher de gua at aqui - Iza apontou para uma marca feita numa de suas cuias de remdio - e deixar ferver at que fique na quantidade desta outra 
cuja - ela pegou numa vasilha de osso e mostrou - estar mais ou menos na dose certa. Quase sempre uma cuia  o suficiente. Algumas vezes, as flores de crisntemos 
tambm do resultado. No so to perigosas quanto o visco e o tanaceto, mas nem sempre funcionam.
     - Eu sei. Elas seriam melhor para mulheres que tm tendncia para perder os bebs com facilidade. Quando do certo, sempre se devem usar coisas mais suaves 
e menos perigosas.
     - Isso mesmo. Ayla... h uma outra coisa que eu tambm queria que voc soubesse. - Iza deu uma olhada  sua volta para ver se Creb estava por perto. - Veja 
bem, nenhum homem pode saber disso. Este  um segredo conhecido s pelas curandeiras e, mesmo assim, nem por todas. no se deve contar nem mesmo para uma outra mulher, 
porque, se o companheiro perguntar, ela est na obrigao de lhe responder. Para a curandeira, ningum faz perguntas. Se um homem descobrir, ele probe. Entende 
o que estou dizendo?
     - Sim, me - respondeu Ayla balanando a cabea, surpresa e curiosa com o segredo de Iza.
     - Acho que no ir precisar saber disso para voc mesma, mas como curandeira no pode ignorar. s vezes, nos casos de mulheres que tm partos muito difceis, 
 melhor que elas nunca mais voltem a esperar filhos. A curandeira pode dar um remdio para uma mulher, sem que ela saiba para que serve. E h outros motivos que 
fazem com que uma mulher possa no querer um filho. Algumas plantas tm poderes especiais, Ayla. Elas fortalecem o totem da mulher. Fortalecem tanto que impedem 
at de a vida comear.
     - Voc conhece alguma mgica para impedir a gravidez, Iza? Ser que o totem fraco de uma mulher pode tornar-se forte? Qualquer totem? Mesmo que o Mog-ur faa 
um feitio para fortalecer o totem do homem?
     - Conheo. Mas um homem jamais deve saber disso. Quando eu tinha
     companheiro, usei a mgica em mim. Queria que ele me desse para um outro homem. 
     Achava que, se eu no tivesse filho, ele no iria querer me conservar- confessou Iza.
     - Mas voc teve. E Uba?
     - Acho que depois de muito tempo de uso, a mgica foi perdendo a fora. Talvez meu totem no quisesse mais lutar, ou talvez ele quisesse que eu tivesse um beb. 
No sei. Nada funciona por toda a vida. Existem foras que so mais fortes do que as mgicas, mas, comigo, funcionou por muitos anos. Ningum entende os espritos 
completamente, nem mesmo o Mog-ur. Quem iria achar que seu totem fosse ser vencido, Ayla? - A curandeira passou rapidamente os olhos em derredor. - Escute aqui, 
antes que Creb volte. Voc conhece aquela trepadeira de folhinhas minsculas e flores amarelas, no ?
     - Est falando do cip-chumbo?
     - Isso mesmo. s vezes,  conhecido tambm como Cip-estrangulador porque essa planta mata a outra onde ela cresce. Voc, primeiro, pe a planta para secar, 
depois esmigalha uma certa quantidade na palma da mo e leva ento para ferver com uma cuia de osso de gua at que o cozimento fique numa cor de palha. Tome dois 
goles nos dias em que seu totem no est lutando.
     - Essa planta tambm serve para pr nos curativos usados em mordidas e picadas de bichos, no ?
     - Tambm. Isso lhe d um bom motivo para ter a planta por perto. S que os curativos, voc pe sobre a pele, do lado de fora do corpo, e no outro caso, para 
o fortalecimento do totem, voc bebe. H outra coisa que voc deve tambm tomar nos dias em que seu totem est lutando.  raz de absinto. Pode ser usada seca ou 
fresca. Ferva e tome uma cuja nos dias em que voc estiver em isolamento.
     - no  aquela planta de folhas dentadas que serve para a artrite de Creb?
     - Essa mesma. Conheo ainda outra, mas eu mesma nunca fiz uso dela.  mgica de outra curandeira. Ela me deu quando estvamos trocando algumas idias. Existe 
um certo tipo de inhame que no d por aqui. Mas vou lhe mostrar as diferenas dele em relao aos outros. 
     Corte em pedaos, ferva e esmigalhe para fazer uma pasta. Em seguida, deixe secar e soque at virar p.  preciso uma boa quantidade, uma meia cuia de p misturado 
com gua para fazer novamente uma pasta, nos dias em que voc no estiver isolada, quando os espritos no estejam em luta.
     Creb entrou na caverna e viu as duas envolvidas numa longa conversa. Imediatamente percebeu a diferena em Ayla. Estava animada, prestando ateno e sorridente. 
Parece que a garota conseguiu reagir, pensou ele, enquanto se dirigia para sua fogueira.
     - Iza! - disse em voz alta para chamar a ateno das duas. - Ser que um homem precisa passar fome na sua prpria casa?
     Iza deu um salto, com ar meio culposo, mas Creb no percebeu. Estava to contente de ver Ayla trabalhando com entusiasmo e novamente conversando que nem olhou 
para Iza.
     - Agora mesmo fica pronto, Creb - gesticulou Ayla, sorrindo e correndo para abra-lo. Ele sentiu uma alegria que h muito tempo no tinha. Depois que estava 
sentado em sua esteira, Uba entrou correndo na caverna.
     - Estou com fome - gesticulou a garotinha.
     - Voc est sempre com fome, Uba - falou Ayla rindo, ao mesmo tempo em que a suspendia para dar um volteio com ela pelo ar. Uba estava encantada. Naquele vero, 
era a primeira vez que Ayla se achava com esprito para brincadeiras.
     Mais tarde, depois da comida, Uba foi aboletar-se no colo de Creb, enquanto Ayla, cantarolando, ajudava Iza na limpeza. Creb suspirou feliz. Sentia-se verdadeiramente 
em casa. Os meninos so importantes, pensou consigo, mas as meninas so melhores. Elas no precisam ser fortes e corajosas o tempo todo e no tm preconceitos de 
ser ninadas no colo. 
     Quase chego a desejar que Ayla no tivesse crescido.
     No dia seguinte, Ayla acordou envolvida por um clima de radiosa expectativa. Vou ter um beb, disse consigo. Ela se abraou, deitada entre as cobertas de sua 
pele de dormir. De repente, ficou com vontade de se levantar rpido. Acho que vou descer at o riacho esta manh. Meus cabelos esto precisando de uma boa lavada. 
Pulou para fora das cobertas, mas foi atingida por uma onda de nusea. Talvez seja melhor que eu coma alguma coisa slida, para ver se a comida fica no meu estmago. 
Se eu quiser um beb sadio, tenho de comer. A comida, porm, voltou. Depois de algum tempo, tornou a comer e ento j se sentiu melhor. Ainda pensando no milagre 
de sua gravidez, veio para fora da caverna, dirigindo-se para os lados do riacho.
     - Ayla! - Era Broud que, com ar escarnecedor, vinha caminhando com toda a arrogncia. 
     Ele lhe fez o sinal.
     A moa se assustou. Havia se esquecido completamente de Broud. Tinha coisas mais importantes para pensar como no aconchego dos bebs amamentando, no beb que 
daqui a uns meses estaria aninhado junto a seu seio. Ele bem que podia acabar logo com isso, pensou j fazendo a posio para que Broud aliviasse suas necessidades. 
Tomara que faa depressa, tenho de ir ao riacho lavar meus cabelos.
     Broud ficou murcho. Estava faltando alguma coisa. no havia qualquer reao nela. A excitao estava em for-la contra sua vontade e ele sentia a falta disso. 
O dio transbordante e a amarga frustrao que ela nunca conseguira dissimular haviam desaparecido. J no lutava mais. Agia como se eleno estivesse l, como se 
nada sentisse. E realmente ela no sentia. Sua cabea estava em outras esferas. Percebia tanto aquela penetrao como as suas reprimendas ou a violncia de seus 
socos. Aquilo era apenas uma coisa que a jovem tinha de aceitar e se resignar. A calma e o autodomnio haviam voltado.
     O prazer de Broud estava em domin-la e no propriamente no ato sexual. Percebeu que j no havia mais estmulo nela. Estava sendo difcil para ele manter a 
ereo. Depois de algum tempo sem atingir nenhum clmax, ele se retraiu e por fim desistiu completamente. Era humilhante demais. Entre ela e uma pedra d tudo no 
mesmo, pensou ele. Tambm  to feia que tanto faz, j gastei muito tempo com ela. no soube nem perceber que honra era ter o interesse do futuro chefe do cl.
     Oga, prazerosa, recebeu-o de volta. Sentia-se aliviada, parecia que a inexplicvel atrao por Ayla fora superada. Ela no ficara com cimes, no havia motivos 
para isso. Broud era o seu companheiro, e ele no dera a menor indicao de que estava disposto a abandon-la. 
     Qualquer homem podia aliviar-se com a mulher que bem entendesse, no havia nada de extraordinrio no fato. S no podia entender por que ele dava tanta ateno 
a Ayla, quando, por alguma estranha razo, a jovem visivelmente no tinha o menor prazer na coisa.
     Por mais que quisesse convencer-se do contrrio, Broud estava morto de raiva com a sbita indiferena de Ayla. Havia acreditado que por fim encontrara o jeito 
de romper de uma vez por todas as defesas dela e descobrira que tinha grande prazer nisso. Agora, mais do que nunca, estava na firme determinao de achar novamente 
outra maneira de atingi-la.
     

***

Captulo 19
     
     A gravidez de Ayla deixou o cl inteiro boquiaberto. Parecia impossvel que uma mulher com um totem to poderoso como o dela pudesse conceber vida. Havia conjeturas 
de toda ordem sobre a qual dos homens pertenceria o esprito do totem que lograra vencer o todo-poderoso Leo da Caverna, e todos eles gostariam de reivindicar a 
glria para si. Era algo que reforava o prestgio. Alguns pensavam que deveria ser uma combinao das diversas essncias totmicas, talvez de toda a populao masculina, 
mas a maioria das opinies estava dividida em dois campos que se formaram de acordo com a idade das pessoas.
     A convivncia de perto com a mulher era o fator predominante, aquele que levava praticamente todos os homens a acreditarem que os filhos de suas companheiras 
resultassem do esprito de seus totens. Inevitavelmente, o homem com quem a mulher passava mais tempo era o dono da fogueira onde ela vivia. A oportunidade de engolir 
o esprito deste, portanto, era muito maior. Apesar de que o totem de um homem pudesse pedir ajuda ao de outro duran te a batalha que se travaria ou mesmo receber 
auxlio de algum esprito que casualmente estivesse por perto na ocasio, a fora vital do primeiro totem era a que tinha a primazia na reivindicao. Ao esprito 
auxiliar poderia caber a honra de iniciar a nova vida, mas essa se fizera por vontade do totem que pedira ajuda. Os dois homens que tiveram maior contato com Ayla 
desde que ela ficara mulher foram o Mog-ur e Broud.
     - Eu digo que  o do Mog-ur - afirmou Zoug. - Ele  o nico com um totem mais forte do que o Leo da Caverna. E afinal de quem  a fogueira onde ela vive?
     - Ursus nunca iria permitir que uma mulher engolisse a essncia dele - contraps Crug. 
     O Urso da Caverna escolhe aqueles que protege, tal como fez com o Mog-ur. Voc acha que um Cabrito poderia derrotar um Leao da Caverna?
     - Com a ajuda de Ursus, sim. no se esquo de que o Mog-ur tem dois totens. O Cabrito no precisaria ir muito longe para buscar ajuda. Ningum est dizendo 
que o Urso deixou nela o esprito dele. Estou apenas dizendo que ele ajudou - respondeu Zoug, acalorado.
     - Ento por que ela no engravidou no ltimo inverno? Ela j vivia nessa poca na fogueira dele. Foi s quando Broud passou a ter esse capricho por ela e no 
me pergunte o que ele viu na garota. Reparem bem que a vida nova comeou depois que ele passou a ficar muito perto dela. O Rinoceronte Lanoso tambm  um poderoso 
totem. Com a ajuda de um Outro, poderia vencer o Leo da Caverna - argumentava Crug.
     - Acho que  o totem de todos - interps Dorv. - Mas a questo principal  quem quer tom-la para companheira. Todo mundo quer ter a glria, mas quem quer a 
mulher? Brun j perguntou se algum vai quer-la? Se ela no tiver companheiro, seu filho ser infeliz. 
     Estou velho demais, embora, neste caso, no lamente muito minha velhice.
     - Bem, eu ficaria com ela, se ainda tivesse uma fogueira s minha - gesticulou Zoug. - Ela  feia, mas  boa de servio e muito respeitadora. Sabe como cuidar 
de um homem. Isso, no final das contas,  mais importante do que carinha bonita.
     - Para mim no - disse Crug, abanando a cabea. - Na minha fogueira, no quero uma Mulher Caadora. Isso est bom para o Mog-ur que no caa e tambm no se 
importa. Mas imagine voltar de uma caada de mos abanando e comer carne trazida pela companheira. Alm disso, na minha fogueira j existe gente demais. J basta 
Ika, Borg e Igra, o novo beb. J me dou por feliz s com Dorv que ainda pode contribuir. E quem 
     sabe? Ika ainda  muito jovem,  bem capaz de ainda ter mais filhos.
     - J pensei sobre isso - falou Droog. - S que a minha fogueira est muito cheia. J esto vivendo l Aga e Aba, Vorn, Ona e Groob. O que eu iria fazer com 
mais uma mulher e outra criana? E voc, Grod, o que diz?
     - No. A no ser que Brun ordene - respondeu Grod, laconicamente. O segundo em comando nunca conseguiu vencer um certo mal-estar quando se achava perto de ayla, 
uma mulher nascida fora do cl. no tinha nada contra, apenas ela o deixava pouco  vontade.
     - E quanto ao prprio Brun? - indagou Crug. - Foi ele o primeiro a aceit-la no cl.
     - Algumas vezes a prudncia manda que se leve em considerao a primeira mulher, antes que se tome uma segunda - comentou Goov. - Vocs sabem como Ebra se sente 
em relao ao status da curandeira. Iza vem treinando Ayla e se ela se transformar numa curandeira de sua linha, vocs acham que Ebra gostaria de dividir a fogueira 
com uma mulher mais moa, uma segunda companheira que tem mais status do que ela? Eu por mim tomaria ayla. Quando for o mog-ur, no vou poder caar muito. no me 
importo se ela chegar em casa trazendo alguns coelhos ou uns hamsters, afinal so bichinhos pequenos. E tambm Ovra no se importaria de ter uma se gunda mulher 
na fogueira com mais status do que ela. As duas se do muito bem. O nico problema  que Ovra quer um filho e deve ser difcil para ela estar dividindo a casa com 
uma mulher e um beb recm-nascido. Sobretudo, porque ningum esperava que Ayla fosse ser me. Acho que foi o esprito de Broud que comeou a vida.  pena ele No 
gostar dela, seria a pessoa indicada para tom-la.
     - No tenho tanta certeza se foi o de Broud - disse Droog. - E o Mog-ur? no poderia tom-la para companheira?
     O velho feiticeiro observava em silncio a discusso, como frequentemente o fazia.
     - Eu venho pensando no assunto. No creio que haja sido Ursus ou o Cabrito que tenham comeado o beb de Ayla. E nem tenho muita certeza se foi o totem de Broud 
tambm. O totem dela sempre foi um enigma. Ningum pode dizer ao certo o que ocorreu. Mas ela precisa de um companheiro. No s porque o beb poder ser infeliz, 
mas porque algum tem de responsabilizar-se por Ayla e mant-la. J estou muito velho e se nascer um menino No vou poder ensin-lo a caar. E nem Ayla, ela s caa 
com funda. Alm do mais, no posso ser o seu companheiro. Seria como se Grod tomasse Ovra para companheira, com Ika na qualidade de primeira mulher na fogueira. 
Para mim, Ayla  como a filha da companheira de algum, uma criana de outra fogueira, no uma mulher que eu possa ter como minha.
     - Mas isso j tem acontecido - disse Dorv. - A nica mulher que um homem no pode tomar  a germana dele.
     - no  proibido, mas no  uma coisa bem vista. Alm do que, a maioria dos homens no gosta. E depois, nunca tive companheira, j estou muito velho para comear 
agora. Iza cuida de mim e isso  mais do que suficiente. Eu me sinto confortvel com ela. Espera-se que, de vez em quando, os homens aliviem suas necessidades com 
suas companheiras e h 
     muitos anos que no tenho mais esse tipo de necessidade. Faz tempo que aprendi a control-la. no daria um bom companheiro para uma mulher jovem. Mas talvez 
Ayla no v precisar de ningum. Iza disse que ela pode ter uma gravidez difcil, inclusive j est tendo problemas e talvez no chegue ao trmino da gestao. Sei 
que Ayla quer o beb, mas seria melhor para todo mundo, se ela perdesse a criana.
     Tal como foi relatado aos homens pelo Mog-ur, a gravidez de Ayla no a bem. Iza tinha medo de que as coisas estivessem correndo erradas com o beb. Muitos 
abortos se deviam a fetos malformados e, na opinio da curandeira, era melhor perder a criana do que deix-la nascer e depois a me ser obrigada a dispor do filho. 
O enjo matinal de Ayla ultrapassou o primeiro trimestre e at mesmo no final do outono, quando j tinha o ventre abaulado, cntinuva tendo problemas para reter 
os alimentos. Ela, ento comeou a sangrar, expelindo cogulos, e Iza teve de pedir permisso a Brun para dispens-la das actividades normais, de modo que pudesse 
ficar repousando na cama. Os problemas de gravidez de Ayla foram cada vez se tornando mais difceis e com mais medo Iza foi ficando. Estava convencida de que Ayla 
deveria desistir da criana e no tinha dvida de que a expulsb seria fcil, apesar de que o tamanho da barriga demonstrasse que o beb continuava se desenvolvendo. 
Ela temia mais por Ayla. O beb estava exigindo demasiado dela. Os braos e as pernas afinaram, contrastando com o volume do corpo. No tinha apetite e era com esforo 
que engolia os alimentos que Iza lhe preparava especialmente. Dois crculos pretos formaram-se ao redor dos olhos e sua abundante e lustrosa cabeleira perdeu todo 
o vio. Tinha sempre frio, estava sem reservas para manter o calor do corpo e passava grande parte do tempo encolhida, junto da fogueira, enrolada em peles. Quando, 
entretanto, Iza sugeriu-lhe tomar um remdio para pr fim  gravidez, ela recusou.
     - Iza, quero o meu filho. Ajude-me - implorou. - Eu sei que voc pode ajudar, sei que pode. Farei qualquer coisa que voc disser, mas me ajude a ter o beb.
     Iza no pde recusar. J h algum tempo ela dependia de Ayla para trazer-lhe as plantas de que precisava, raramente ela mesmo saindo para colhlas. Exerccios 
mais puxados lhe provocavam acessos violentos de tosse e vinha se mantendo  base de uma medicamentao forte que escondia sua tu berculose, agravada a cada inverno. 
Mas, por ayla, faria qualquer coisa, e sairia para procurar por determinada raz preventiva contra aborto.
     Certa manh, deixou a caverna bem cedo e foi procurar pela raz nas matas no alto da montanha onde havia charnecas escuras e midas. Quando saiu, o sol brilhava 
num cu claro. Iza pensava que seria um daqueles dias quentes que costumava fazer no final do outono, achando que no seria necessrio munir-se de uma quantidade 
extra de roupas. 
     Alm disso, contava estar de volta antes do meio-dia. Pegou, primeiro, o caminho que levava  floresta e depois seguiu por um atalho margeando um crrego, pondo-se, 
ento a subir pela encosta ngreme. Estava mais fraca do que supunha. Com a respirao curta, precisava a todo instante parar para descansar ou esperar que passasse 
um acesso de tosse que a fazia sacudir-se violentamente. Quando a manh ia pela metade, o tempo mudou. Do lado este, trazidas por ventos gelados, foram aparecendo 
pesadas nuvens que, ao atingir o sop da colina, despencaram na forma de forte aguaceiro misturado com neve. Em poucos momentos, Iza ficou empapada.
     A chuva diminura, quando conseguiu encontrar a variedade de pinheiro e as plantas por que procurava. Tremendo de frio, sob a chuvazinha fina, cavou o cho 
para desenterrar as razes da terra molhada. A tosse durante a volta piorara, sacudindo-lhe o corpo a todo instante e trazendo um sangue espumoso aos lbios. O terreno 
por onde passava lhe era desconhecido, diferente daquele da antiga caverna que habitavam. Viu-se desorientada, seguindo o crrego errado e sendo obrigada a retornar 
no caminho para buscar o outro. J estava perto de escurecer quando, inteiramente molhada e morta de frio, conseguiu achar a trilha que levava  caverna.
     - Me onde voc esteve? - perguntou Ayla. - Est empapada e tremendo de frio .Venha para perto do fogo. Deixe que eu pegue umas roupas secas para voc.
     - Achei algumas razes de prenanto, Ayla. Lave e mastigue... - Iza foi obrigada a interromper para tossir, tinha os olhos febris e o rosto vermelho.
     - Mastigue as razes cruas. Isso ajuda a conservar o beb na barriga.
     - Voc no saiu debaixo desta chuva s para pegar razes para mim, no ? Ser que no sabe que prefiro perder o beb do que voc? Iza, voc sabe que est doente, 
no pode sair com um tempo deste.
     Ayla no ignorava que j h alguns anos Iza no vinha muito bem de sade, mas at aquela data no havia percebido o quanto realmente a mulher estava doente. 
A partir da, Ayla deixou de pensar em sua gravidez, j nem ligava se estava ou na sangrando; esquecia-se de comer, recusando-se a sair da cabeceira de Iza e dormindo 
numa pele ao lado dela. Uba 
     tambm mantinha vigilncia constante.
     Era bastante traumatizante para a menininha esse primeiro contato com uma molstia grave e justamente numa pessoa que ela amava. Observava tudo que Ayla fazia, 
ajudava, e com isso foi surgindo a compreenso de seu desti no e do conhecimento que herdara. Uba no era a nica a observar Ayla. Todo o cl estava preocupado com 
a nova curandeira e um pouco desconfiado com sua competncia. Ayla, no entanto, mantinha-se alheia a essa apreenso. Toda a sua ateno estava dirigida para a mulher 
a quem chamava de me.
     Ela rebuscava em sua cabea tudo quanto fosse remdio de que Iza lhe falara, indagava de Uba, procurando informar-se com ela sobre os conhecimentos que a menina 
tinha armazenados em sua memria infantil e aplicava um certo raciocnio lgico que lhe era peculiar. O especial talento que Iza notara nela, a capacidade para descobrir 
e tratar o problema real da doena era o ponto forte de Ayla. Era boa para diagnosticar. Partindo de pequenos sintomas, era capaz de reconstituir o quadro, tal como 
um quebra-cabea, onde preenchia as lacunas com o seu poder de deduo e uma grande intuio. Era uma capacidade  qual somente o seu crebro estava adequado. A 
crise de Iza serviu para estimular e aprimorar esse talento que lhe era Inato.
     Aplicava todos os remdios que Iza lhe ensinara empregando tcnicas novas sugeridas por outros casos, s vezes completamente diferentes. Seja l como for, se 
pela fora de sua dedicao, se pelos medicamentos, ou se pela vontade de viver de Iza - ou talvez tudo isso junto - o fato  que, quando os ventos gelados de inverno 
empilharam a neve contra as barreiras  entrada da caverna, Iza j estava suficientemente forte para ocupar-se outra vez com a gravidez de Ayla.
     O esforo despendido na recuperao de Iza teve suas consequncias. Durante o resto do inverno, Ayla passou perdendo sangue constantemente e com uma dor nas 
costas que no alargava. No meio da noite, acordava sentindo dor  nas pernas e continuava vomitando com frequncia. Iza esperava que a qualquer momento ela perdesse 
a criana. No compreendia como Ayla ainda conseguia ret-la, e como o beb, apesar de toda a fraqueza da me, podia prosseguir em seu desenvolvimento. A barriga 
crescia em propores nunca vistas, e o beb, dentro, dava tantos pontaps e to fortes que Ayla mal conseguia dormir. Iza jamais vira uma mulher sofrer tanto com 
a gravidez.
     Ayla nunca se queixava. Tinha medo de que Iza pudesse pensar que ela se achasse disposta a renunciar ao beb, embora a gravidez j estivesse adiantada demais 
para que a curandeira considerasse tal possibilidade. E nem ela tambm a considerava. Seu sofrimento s lhe aumentava a convico de que, se perdesse esse filho, 
jamais teria outro.
     De sua cama, Ayla via as chuvas de primavera varrerem a neve e a primeira flor de aafro lhe foi trazida por Uba. Iza no a deixava sair da caverna. Os salgueiros 
brancos haviam j perdido suas penugens e comeando a ter os primeiros brotos, anunciando o verde das folhagens, num dia triste e mido de princpio de primavera, 
quando Ayla, aos 11 anos de idade, entrou em trabalho de parto.
     As contraes iniciais foram fceis. Ayla tomava ch de casca de salgueiro, enquanto conversava com Iza e Uba, cheia de animao e feliz por ter finalmente 
chegado o momento. Tinha certeza de que, no dia seguinte, estaria com o beb nos braos. iza tinha as suas dvidas, mas procurava no as deixar transparecer. A conversa 
entre Iza e as filhas, como frequentemente vinha acontecendo nos ltimos tempos, descambou para assuntos ligados a remdios.
     - Me, que raz era aquela que voc me trouxe no dia em que saiu e ficou doente? - gesticulou Ayla.
     - Chama-se prenanto. no  muito usada porque deve ser mastigada crua e s  encontrada no final do outono.  muito boa para impedir abortos. Mas quantas mulheres 
correm o perigo de abortar somente nesta poca? E seca j perde muito de seu valor.
     - Como ela ? - perguntou Uba. A doena de Iza despertara nela o interesse pelas plantas medicinais que algum dia teria de usar com seus pacientes, e tanto 
Iza como Ayla lhe estavam ensinando. Mas treinar Uba no era a mesma coisa que ensinar Ayla. Para conseguir o pleno rendimento de seu crebro, Uba tinha apenas de 
ser lembrada daquilo que j sabia e ver como esses seus conhecimentos poderiam ser postos em prtica.
     - Na verdade, so duas plantas, uma  macho e a outra fmia. Elas tm um caule comprido que sai de uma penca de folhas dando perto do cho e pequeninas flores 
na parte de cima que descem at a metade do caule. As flores lo macho so brancas. As razes provm da planta fmea que tem flores menores e verdes.
     - Voc disse que do nas florestas de pinheiros? - gesticulou Ayla.
     - S naquelas com bastante umidade.  uma planta que gosta de lugares frios. Nos pntanos, em clareiras midas e quase sempre em terrenos altos.
     - Voc nunca deveria ter sado naquele dia, Iza. Fiquei to preocupada... Ei, espere. Est comeando outra contrao!
     A curandeira estudava Ayla. Tentava avaliar a durao das dores. Falta ainda muito, pensou consigo.
     - Mas no estava chovendo quando sa - falou Iza. - Achava que seria um dia quente. Errei. O tempo no outono  sempre imprevisvel. Eu estava mesmo para perguntar 
uma coisa, Ayla. Fiquei delirando durante um bom tempo, mas tive a impresso de que voc fez um cataplasma para botar no meu peito com as plantas que uso no reumatismo 
de Creb.
     -E fiz.
     - Eu no lhe ensinei isso.
     - Eu sei. Voc tossia tanto e cuspia tambm tanto sangue que achei que seria bom lhe dar alguma coisa para acalmar os espasmos e que ao mesmo tem po servisse 
para ajud-la a botar o catarro para fora, sem ter que fazer muita fora. Esse remdio de Creb para reumatismo faz com que o calor penetre profundamente e estimula 
o sangue. Assim, achei que ele poderia servir tambm para soltar o catarro, diminuindo seu esforo para expelir, mas, enquanto isso, eu continuava lhe dando os cozimentos 
para acalmar os espasmos. 
     Parece que deu certo.
     - . Parece que sim.
     Quando Ayla acabou de dar suas explicaes, estas pareciam ter um encaminhamento lgico, mas Iza ficou imaginando se lhe teria ocorrido tal procedimento. Eu 
tinha razo, disse consigo. Ayla  boa curandeira e ainda vai poder melhorar muito mais. Merece o 
     status das curandeiras de minha linha. Preciso falar isso com Creb. Pode ser que eu no fique muito mais tempo neste mundo. Agora Ayla  mulher, poderia j 
ser uma curandeira... se  que vai sobreviver a este parto.
     Depois da refeio da manh, Oga chegou com Grev, o seu segundo fi lho e ficou sentada junto de Ayla, dando de mamar  criana. Ovra, pouco de pois, veio juntar-se 
a elas. As trs, entre uma contrao e outra, tagarelavam animadas, embora no se falasse do parto iminente. Por toda a manh, enquanto Ayla estava no primeiro estgio 
do trabalho, as mulheres vinham visit-la na fogueira de Creb. Algumas ficavam por instantes, s para dar 
     algumapoio moral com suas presenas e outras se sentavam, demorando-se mais. Havia sempre alguma mulher ao redor de Ayla, mas Creb no se achava l. Ele ficava 
entrando e saindo da caverna, parando de vez em quando para trocar alguns gestos com os homens, reunidos na fogueira de Brun, incapaz de permanecer num s lugar 
por mais tempo. A caada planejada para aquele dia fora transferida. Brun dera desculpa de que ainda estava muito mido para sair, mas todos sabiam qual era a verdadeira 
razo.
     Pelo final da tarde, as dores de Ayla ficaram bem mais fortes. Iza deu- lhe um tipo de inhame cozido que era bom para aliviar as dores de parto.  medida que 
escurecia, as contraes foram ficando mais fortes e mais prximas uma da outra. Ayla conservava-se deitada na cama, empapada de suor e agarrada na mo de Iza. Tentava 
sufocar os gritos de dor, mas quando o sol baixou atrs do horizonte, a jovem contorcia-se de dor e gritava a cada contrao que lhe sacudia todo o corpo. As mulheres 
j ento no aguentaram ficar mais por perto e, exceto Ebra, todas voltaram para suas respectivas fogueiras. Acharam algum servio para fazer, levantando os olhos 
na direo de Ayla, sempre que ouviam seus gritos agoniados. A conversa tambm parou na fogueira de Brun. Os homens, com expresso negligente, sentavam-se olhando 
para o cho. Qualquer tentativa de conversa era logo cortada pelos gritos de Ayla.
     - As cadeiras dela so muito estreitas - gesticulou Iza. - Impedem a dilatao do canal que no chega a ter uma abertura suficiente.
     - Ser que, se a bolsa dgua furasse, no adiantaria um pouco o trabalho? s vezes ajuda - sugeriu Ebra.
     - J tinha pensado nisso, mas no quero fazer logo. Seria difcil para ela aguentar um parto seco. Esperava que a bolsa se rompesse sozinha. Talvez seja melhor 
fazer isso agora. 
     Voc quer me passar aquele pauzinho de olmo. Ela est comeando uma contrao, depois eu furo quando terminar.
     Ayla arqueou as costas e agarrou a mo das duas mulheres, enquanto de seus lbios saiu um grito em crescendo.
     - Ayla, vou tentar ajud-la - gesticulou Iza, depois que a contrao passou. - Voc est me ouvindo?
     A parturiente silenciosamente confirmou.
     - Vou romper a bolsa e depois quero que voc fique agachada. Isso aju dar a puxar o beb para baixo. Ser que vai conseguir ficar assim?
     - Vou tentar - gesticulou Ayla sem foras.
     Iza inseriu a vareta fazendo verter a gua da bolsa e provocando nova Contrao.
     - Agora levante, Ayla - gesticulou a curandeira. Ela e Ebra levantaram Ayla, ajudando-a a ficar agachada sobre um pedao de couro, preparado para ser colocado 
embaixo da mulher durante o parto.
     - Agora, Ayla. Faa fora para baixo.
     A moa comprimia os msculos, fazendo fora na contrao seguinte.
     - Ela est muito fraca - observou Ebra. - no consegue fazer bastante fora.
     - Ayla, voc tem de empurrar com mais fora - ordenou Iza.
     - No posso - gesticulou Ayla.
     - Pode. Tem de poder ou seu beb vai morrer - falou Iza, sem dizer que tambm ela poderia morrer. Iza via os msculos se juntando para a prxima contrao.
     - Agora, Ayla! Agora! Empurre! Empurre com toda a fora que puder- dizia, instigando.
     No posso deixar meu beb morrer. No posso. Nunca vou ter outro se este morrer, pensou Ayla, querendo arrebanhar suas ltimas foras em alguma reserva desconhecida 
de seu corpo.  medida que a dor aumentava, respirava fundo, agarrada  mo de Iza para apoiar-se. 
     A fora para expelir a criana punha-lhe gotas de suor na testa. Sentia-se tonta, com a cabea girando. Os ossos pareciam estar partindo, como se estivesse 
expulsando todas as suas entranhas.
     - timo, Ayla! timo! - encorajou Iza. - Acabeaj est comeando a aparecer. Mais um empurro igual a este!
     Ayla inspirou outra golfada de ar e tornou a fazer fora. Sentia a pele e os msculos sendo dilacerados, mas continuou fazendo fora para a expulso. Em meio 
a um jato de sangue encorpado, a cabea do beb forou sua passagem pelo estreito canal de nascimento. Iza segurou-a, retirando-a para fora. O pior havia passado.
     - S um pouquinho mais, Ayla. S um pouquinho para a placenta.
     Ayla fez novamente fora, sentindo sua cabea girar e tudo ficar preto  sua volta, quando perdeu, ento, a conscincia e desmaiou.
     Iza amarrou um pedao de fibra em volta do cordo umbilical e cortou o resto com os dentes. 
     Em seguida, ps-se a dar tapas na sola dos ps da criana at que o choro parecido a um miado se tornasse um berro forte. O beb est vivo, pensou ela com alvio. 
Comeou, ento a limp-lo. Nisso, seu corao parou. Depois de tanto sofrimento, depois de tudo quanto ela aguentou, por que isso? Ela queria tanto esse beb. Iza 
envolveu a criana numa macia pele de coelho e, em seguida, fixou com uma tira de couro uma compressa de razes trituradas em Ayla, fazendo-a abrir os olhos e soltar 
um gemido.
     - O meu beb, Iza,  menino ou menina? - perguntou.
     - Menino - falou Iza. Depois, foi logo dizendo, querendo cortar de uma vez as 
     esperanas de Ayla. - Mas  deformado.
     O sorriso que comeara a esboar-se no rosto de Ayla transformou-se numa expresso de horror.
     - No, no pode ser! Deixe-me v-lo.
     Iza trouxe-lhe a criana.
     - Tinha medo de que isso acontecesse. Frequentemente ocorre quando a mulher tem uma gravidez difcil. Desculpe, Ayla.
     Ayla abriu a coberta, olhando para seu minsculo filho. Os braos e pernas eram mais finos do que os de Uba quando nasceu e tambm mais com pridos, mas possua 
o nmero correto de dedos e situados nos lugares devidos. O seu pequeno pnis e testculos definiam-lhe o sexo. A cabea, entretanto, era, sem sombra de dvida, 
anormal. De um tamanho fora do comum, justamente o que motivara a dificuldade do parto e se achava um tanto deformada evido  sua angustiante entrada nesse mundo. 
Isso por si s, porm, no era razo para alarme. Iza sabia que era decorrncia da presso sofrida no momento do nascimento e que rapidamente se corrigiria. Era 
a forma, na sua configurao bsica - algo inaltervel - que nascera anormal e tambm o pescoo fino, descarnado, sem possibilidade de aguentar com o volume da cabea.
     O beb de Ayla tinha, como as pessoas da raa dos cl os superclios muito acentuados, mas a cabea, ao invs de escorregar diretamente para trs, elevava-se 
alta e reta em cima das sobrancelhas, abaulando-se, tal como Iza a via, at chegar ao alto, para depois escorrer para trs num formato alongado e cheio. A parte 
posterior, entretanto, no era to comprida quanto deveria ser. Parecia que o crnio fora empurrado para a frente, a fim de formar a testa abaulada e o alto da cabea, 
tornando mais curto e arredondado o lado de trs. A protuberncia occipital, a, existia apenas simbolicamente e as feies da criana mostravam-se alteradas de 
forma inusual. Tinha olhos grandes e arredondados, mas o nariz era menor do que o normal. Boca grande, mandbulas no to acentuadas quanto as das pessoas dos cl 
e, na parte inferior, uma protuberncia ssea desfigurando o rosto, vale dizer, um queixo bem desenvolvido, coisa inexistente na raa dos cl Quando Iza segurou-o 
pela primeira vez, a cabea foi para trs e ela automaticamente apoiou.a com a mo. Ela abanou a prpria cabea, que era assentada sobre um pescoo curto e grosso. 
Duvidava de que algum dia aquela criana fosse firmar a dela e conseguir mant-la erguida.
     Enquanto Ayla tinha o beb nos braos, ele procurou seu corpo, buscando-lhe o calor, j parecendo querer mamar, como se no fora bem alimentado antes de nascer. 
A me ajudou-o a encontrar o seio.
     - Voc no devia, Ayla - disse Iza, com brandura. Voc no deve aumentar sua vida, quando logo vo tir-la. Isso s vai tornar as coisas mais difceis para 
voc, no momento em que tiver de livrar-se dele.
     - livrar-me dele? - Ayla olhou aflita. - Como me livrar dele? o meu beb, o meu filho.
     - Voc no tem outra coisa a fazer, Ayla.  esse o regulamento. A me est na obrigao  de se desfazer do filho deformado que ela botou no mundo.  melhor 
voc fazer isso imediatamente, antes que Brun ordene.
     - Mas Creb  deformado e permitiram que ele vivesse - protestou Ayla.
     - A me dele era a companheira do chefe do cl que foi quem permitiu isso. Voc no tem companheiro, nenhum homem vai interceder por seu filho. Desde o comeo 
que eu avisei que seu filho poderia no ter sorte, se nascesse antes de voc ter companheiro. E esse defeito de nascena veio comprovar o que eu j tinha dito, no 
?  melhor terminar de uma vez agora - explicou Iza.
     Com lgrimas escorrendo, relutante, Ayla afastou o filho do seio.
     - Oh, Iza, eu queria tanto um beb. Um beb que fosse s meu, como as outras mulheres tm. Nunca pensei que fosse ter um. Eu me sentia to feliz, nem me importava 
se estava doente, tudo o que eu queria era o meu beb. Foi muito difcil, achava que ele nunca iria nascer, mas quando voc disse que o beb poderia morrer, eu dei 
tudo de mim. E se ele iria ter de morrer de qualquer jeito, por que, ento, teve de ser tudo to difcil? Me, quero o meu filho, no obrigue a me desfazer dele.
     - Eu sei que no  fcil, Ayla, mas isso ter de ser feito. - Iza morria de pena dela. O beb procurava o seio que bruscamente lhe tinha sido arrancado, buscando 
proteger-se e satisfazer sua necessidade de sugar. Ela ainda no tinha leite para lhe dar, isso ainda levaria um ou dois dias, por enquanto s havia o fluido leitoso 
e grosso que passa ao beb as imunidades maternas, protegendo-o contra doenas nos seus primeiros meses de vida. O recm-nascido comeou a choramingar e logo aprontou 
um berreiro, agi tando os braos e dando pontaps na coberta. O choro encheu a caverna com a insistente exigncia de um beb vermelho de raiva. Ayla no aguentou. 
Ela lhe deu o peito novamente.
     - no posso fazer isso - gesticulou - e nem vou fazer! Meu filho est vivo e respirando. Ele pode ser deformado, mas  forte. Escutou seu choro? J ouviu um 
beb chorar assim? 
     Viu os pontaps que ele d? Veja como mama! Quero meu filho, Iza. No vou livrar-me 
     dele. Antes de mat-lo, eu vou embora. Eu posso caar, posso achar comida. Eu mesma cuidarei dele.
     Iza empalideceu.
     - Ayla, voc no pode dizer isso. Onde voc iria? Est muito fraca, perdeu uma grande quantidade de sangue.
     - no sei, me! Para algum lugar, em qualquer parte. Mas no vou abandonar o beb. - Falava obstinada, cheia de determinao. Iza no tinha dvida de que Ayla 
faria o que dizia. Mas estava muito fraca para ir a qualquer parte. Norreria, se tentasse salvar o beb. Iza via-se assombrada com o desdm de Ayla pelos regulamentos 
dos cls e estava certa de que ela cumpriria o que ameaava fazer.
     - Ayla, no fale assim - implorava. - Entregue o beb para mim. Se voc no puder, eu fao por voc. Digo a Brun que est muito fraca. S esse motivo j basta. 
- Estendeu os braos para pegar a criana. - Deixe-me lev-lo. Depois que ele for embora, fica mais fcil esquec-lo.
     - no  no, Iza! - falou Ayla, abanando a cabea cheia de convico e apertando a pequenina trouxa que tinha nos braos. Inclinava-se para a fren te, protegendo 
a criana com o corpo e falando apenas com uma das mos na linguagem abreviada de Creb. - Vou ficar com ele. De alguma maneira e seja l como for. Se para ficar 
com o beb for preciso ir embora, eu vou.
     Uba achava-se ali, ignorada, observando as duas. Havia visto toda a dificuldade do parto de Ayla e tambm j vira outras mulheres tendo filhos. Nenhum segredo 
da vida ou da morte era escondido das crianas. Estas participavam tanto quanto os mais velhos do destino do cl. Uba adorava a menina de cabelos dourados que para 
ela era uma companheira de brinquedos, amiga, me e irm. O parto doloroso e difcil a havia assustado, mas a conversa sobre ir embora deixava a menina ainda com 
mais medo. Isso a fez lembrar-se da outra vez que Ayla tinha partido, quando todos diziam que nunca mais voltaria. Uba agora tinha certeza de que Ayla iria embora 
para nunca mais voltar e ela nunca mais tornaria a v-la.
     - no v, Ayla - disse, com gestos ansiosos e pondo-se de p. - Me, voc no pode deixar Ayla ir embora. no fa isso outra vez, Ayla.
     - no quero ir, Uba. Mas no posso deixar o beb morrer - falou Ayla.
     - Voc no pode bot-lo em cima de uma rvore como fez a me da histria de Aba? Se ele viver sete dias, Brun ter de deixar que voc fique com ele - falou 
Uba.
     - A histria de Aba no passa de uma lenda - explicou Iza. - Nenhum beb consegue viver do lado de fora, no frio e sem ter o que comer.
     Ayla no prestava ateno ao que Iza dizia. A sugesto de Uba lhe dera uma idia.- Me, uma parte da lenda  verdadeira.
     - O que voc quer dizer?
     - Se meu filho estiver vivo daqui a sete dias, Brun ser obrigado a acei t-lo, no ? - perguntou Ayla, ansiosa.
     - O que voc est pensando fazer, Ayla? Voc no pode bot-lo do lado de fora da caverna e esperar encontrar o beb com vida daqui a sete dias. Voc sabe que 
isso  impossvel.
     - no deixar o beb sozinho do lado de fora, mas ir com ele. Sei de um lugar onde posso me esconder, Iza. Posso ir com meu filho para l e voltar no dia em 
que ele ir receber seu nome. Brun seria, ento obrigado a deixar que eu ficasse com ele. Existe uma pequena caverna...
     - No, Ayla! no diga essas coisas. Isso  errado. Seria uma desobedincia. no posso dar minha aprovao Uma coisa inteiramente contrria aos regulamentos 
dos cl .Brun ficaria furioso. Ele iria procurar, e voc seria achada e trazida de volta. Isso no  correto, Ayla - advertiu Iza. Levantou-Se e ia encaminhar-Se 
na direo da fogueira mas voltou depois de dar alguns passos.
     - E se voc for, ele ir me perguntar para onde foi.
     Nunca em sua vida, Iza fizera qualquer coisa contra os costumes dos cls ou contra os desejos de Brun. A idia em si era estarrecedora. At mesmo o segredo 
de seus contraceptivos tinha a sano das geraes passadas de curandeiras e era uma parte de sua herana cultural. Manter este segredo no se constitua numa desobedincia. 
Nenhuma tradio ou costume proibia seu uso. Ela apenas evitava mencion-lo. J o plano de Ayla era simplesmente um ato de rebelio, uma desobedincia que nem em 
sonhos imaginava fazer. no poderia dar sua aprovao.
     Por outro lado, sabia o quanto Ayla queria o filho. Doa-lhe o corao pensar no sofrimento de Ayla durante sua longa e penosa gravidez e, agora, s o medo 
de perder o beb havia bastado para que ela fosse buscar foras que lhe salvaram a prpria vida. Ayla est certa, pensou Iza, olhando para o recm-nascido. Ele  
deformado, mas  uma criana forte e sadia. Creb nasceu tambm deformado e hoje  o Nog-ur. Alm disso, o filho dela  o primognito, se tivesse companheiro, talvez 
fosse deixado viver. No. no iriam deixar, disse consigo, mudando de idia. Ela no conseguia mentir nem para si nem para os outros. 
     Mas, podia calar.
     Pensou em ir falar com Creb ou com Brun, e sabia que era esse o seu dever, mas no conseguiu resolver-se. no podia aprovar o plano de Ayla, mas podia guard-lo 
em segredo. Conscentemente, foi a pior coisa que j fizera em toda a vida.
     Ela ps algumas pedras quentes numa bacia com gua para fazer um ch de espores de centeio. Quando chegou trazendo o remdio, Ayla dormia com o beb nos braos. 
Iza sacudiu-a com brandura.
     - Tome isto, Ayla. J embrulhei a placenta... est ali naquele canto. Esta noite, voc pode descansar, mas a placenta tem de ser enterrada amanh. Brun j sabe. 
Ebra lhe contou e ele preferia no ter de examinar o beb e dar a ordem oficialmente. Brun espera que voc mesma se encarregue de tudo, quando for esconder os vestgios 
desse nascimento. - Com isso, Iza avisava Ayla de quanto tempo ela dispunha para levar adiante seu plano.
     Depois de Iza sair, Ayla ficou deitada de olhos abertos, pensando no que deveria levar consigo. Vou precisar de minha pele de dormir, peles de coelho para o 
beb, plumas de pssaros, umas das mantas extras para trocar. Tiras absorventes para mim, minha funda e algumas facas. Ah, sim, comida tambm.  melhor levar alguma 
e tambm um cantil para gua. Se sair depois que o sol estiver alto no cu, dar tempo para que eu esteja com tudo arrumado.
     Na manh seguinte, Iza cozinhou uma quantidade de comida muito maior do que a necessria para uma refeio matinal de quatro pessoas. Creb voltara tarde para 
a fogueira quando foi dormir. Queria evitar qualquer possibilidade de conversa com Ayla. No sabia o que lhe dizer. O totem dela  forte demais, nunca ser completamente 
vencido, pensou consigo. Foi por isso que sangrou tanto durante a gravidez e tambm porque o beb nasceu deformado. Que tristeza, ela queria tanto esse filho.
     - Iza, aqui tem comida para alimentar todo o cl - observou Creb. - Como voc acha que vamos dar conta disso tudo?
     -  para Ayla - disse, rpido, baixando a cabea.
     Iza devia ter tido um batalho de filhos, pensou ele. Ela fica muito boba s com essas duas. 
     Mas Ayla precisa recuperar suas foras. Vai levar ainda muito tempo at que consiga superar tudo isso. O que me pergunto  se ela algum dia ir ter um filho 
normal.
     Quando se levantou, Ayla sentiu sua cabea rodando e uma quantidade de sangue quente escorrendo. Doa quando caminhava, mesmo dando s alguns passos e para 
se curvar era um verdadeiro sacrifcio. Estava mais fraca do que imaginara e quase entrando em pnico. 
     Como vou subir at a caverna? Mas tenho de conseguir. Se no fizer isso, Iza pega meu filho e d fim nele. O que farei se perder meu beb?
     No vou perd-lo, disse consigo, cheia de determinao fazendo fora para acalmar-se. Subirei l de qualquer jeito, nem que tenha de ir me arras tando por todo 
o caminho.
     Chuviscava, quando ela saiu da caverna. No fundo da cesta de colher, meteu umas tantas coisas que cobriu com um embrulho malcheiroso, contendo a placenta, e 
o resto escondeu sob a capa de pele que usava por cima da roupa. O beb ia seguramente preso contra seu peito por uma manta prpria para carregar criana. Logo que 
se ps a andar pelo interior da mata, a tonteira passou, mas a nusea ainda persistia. Afastou-se do caminho e penetrou na floresta, onde fez uma parada. Era difcil 
fazer um buraco com seu pau de cavar. Ela estava muito fraca, mas assim mesmo enterrou o embrulho bem profundamente, tal como Iza lhe 
     recomendara e, em seguida, fez a gesticulao adequada  ocasio. Olhou, ento para o 
     filho que dormia um sono profundo, na segurana de seu aconchego. Ningum vai bot-lo num buraco desses, falou consigo. Depois, comeou a subir a ngreme encosta, 
alheia de que algum pudesse estar observando-a.
     Pouco depois de Ayla ter sado da caverna, Uba saiu de mansinho atrs dela. O inverno que passou aprendendo com a doena da me deu-lhe conscincia do perigo 
que Ayla corria. Sabia o quanto ela se achava enfraquecida e tinha medo de que a moa pudesse desmaiar e se tornar uma presa fcil para algum carnvoro atrado pelo 
cheiro de seu sangue. Uba quase correu de volta para avisar Iza, mas no queria deixar Ayla sozinha, e assim continuou sempre a segui-la. Quando Ayla deixou o caminho, 
Uba perdeu-a de vista, mas depois voltou a v-la escalando um lado onde a encosta era desmatada.
     Ayla ia subindo, com o corpo pesadamente apoiado sobre seu pau de cavar que lhe servia de cajado. Volta e meia parava para aspirar uma golfada de ar e reprimir 
a nusea, lutando para no se deixar levar pela tonteira que ameaava faz-la perder os sentidos. Sentia o sangue escorrendo pelas pernas, mas no parou para trocar 
a tira absorvente. Lembrou-se do tempo em que subia por aquela encosta sem parar uma nica vez para tomar flego. Agora, mal podia acreditar como ainda estava longe 
da clareira no alto da montanha. As distncias separando os pontos de referncia eram imensas. Fazia o corpo render o mximo e, quando estava no ponto de desmaiar, 
esforava-se para manter-se consciente para, ento, descansar e prosseguir novamente.
     No final da tarde, o beb comeou a chorar e ela o via indistintamente atravs de uma neblina em seus olhos. No parou por causa dele, apenas lutava para continuar 
sempre subindo. Em sua mente, havia s um pensamento:preciso alcanar a clareira, tenho de chegar  caverna. Nem sabia mais exatamente o por qu disso.
     Uba a seguia de longe, no querendo que ela a visse. No sabia que Ay la quase no conseguia enxergar alm do prximo passo. Por fim, quando viu surgir a clareira 
no alto da montanha, a jovem tinha a cabea girando, com a vista toldada por uma nvoa vermelha. 
     Um pouco mais, disse consigo, s um pouquinho mais. Foi-se arrastando pelo campo, mal conseguindo foras para pr de lado os galhos e entrou cambaleando para 
dentro da caverna que, por tantas vezes, j lhe servira de refgio. Caiu sobre a pele de veado, sem se importar com a roupa molhada no corpo ou se lembrar de dar 
o peito para o beb que chorava, sucumbindo finalmente ao peso da exausto.
     Foi uma sorte Uba ter chegado  clareira no momento em que Ayla desaparecia na caverna. Do contrrio, pensaria que ela tinha evaporado no ar. A pesada moita 
de avelaneiras com sua profuso de galhos camuflava completamente o buraco na montanha, mesmo quando estava sem a folhagem do vero. Uba correu de volta. Fora mais 
longe do 
     que esperava. Ayla demorara muito mais para chegar  pequena caverna do que a menina havia suposto. Tinha medo de que Iza estivesse preocupada e fosse ralhar. 
Iza, entretanto, no fez caso de seu atraso. Vira quando a filha saiu s escondidas atrs de Ayla, percebendo-lhe a inteno mas preferiu guardar sua dvida.
     - Ela j no devia estar de volta, Iza? - perguntou Creb. O feiticeiro passara toda a tarde entrando e saindo da caverna.
     Iza, nervosa, disse que sim com a cabea, sem tirar os olhos de um quarto de veado que cortava depois de j cozido e frio.
     - Ai! - gritou de repente, quando a faca fez um talho no seu dedo. Creb levantou os olhos, no s surpreso com o corte como tambm com a espontaneidade do grito. 
Iza usava as facas de pedra com tanta percia que ele no se lembrava de j t-la visto cortando-se. Pobre Iza, ando to preocupado comigo mesmo que me esqueo de 
como ela tambm deve estar-se sentindo, pensou, ralhando consigo. No  de estranhar que esteja nervosa, ela tambm est preocupada.
     - Falei h pouco com Brun, Iza - gesticulou Creb. - Ele ainda acha cedo para ir procur-la. Ningum deve saber onde uma mulher se desfaz.
     bem, onde ela se acha neste momento. Voc sabe quanta desgraa poderia advir para um homem, se ele pusesse os olhos em cima dela. Mas Ayla est to fraca, ela 
talvez esteja por a na chuva, cada no cho Voc poderia ir procur-la, Iza. Voc  uma curandeira. Ela no deve ter ido longe. no se preocupe em cozinhar para 
mim. Eu posso esperar. Por que no sai logo? Daqui a pouco vai ficar escuro.
     - no posso - gesticulou Iza, botando o dedo ferido na boca.
     - O que voc quer dizer com no pode? - Creb estava espantado.
     - No posso encontr-la.
     - Como sabe que no pode encontr-la, se ainda no procurou? - O velho feiticeiro se via completamente atordoado. Por que Iza no quer procurar por Ayla? Alis, 
pensando nisso, por que ela j no teria sado h muito tempo para procurar? A essa altura, Iza deveria estar vasculhando as matas, revirando as pedras para achar 
Ayla. E ao invs disso, deixa-se ficar a nervosssima. Deve estar acontecendo algo errado.
     - Iza, por que voc no quer procurar Ayla? - perguntou ele.
     - no iria adiantar. no poderia encontr-la.
     - Por qu? - pressionou Creb.
     Os olhos de Iza estavam cheios de ansiedade e medo.
     - Ela est se escondendo - confessou.
     - Escondendo! De que ela est se escondendo?
     - De todo mundo. De mim, de Brun, de voc, de todo o cl.
     Creb no sabia o que pensar, e as respostas enigmticas de Iza s pioravam as coisas- Iza, ser que voc pode explicar-se melhor? Por que Ayla est se escondendo 
do cl, de mim ou de voc? Principalmente de voc, de quem neste momento ela deve estar precisando muitssimo.
     - Ela quer ficar com o filho, Creb - gesticulou Iza, passando a explicar rapidamente, com os olhos suplicantes, pedindo que ele compreendesse. - Eu disse a 
ela que toda me tem obrigao de se desfazer de um filho que nasce deformado, mas ela se recusou a fazer isso. 
     Voc sabe o quanto Ayla queria esse beb. Falou que iria lev-lo e ficar escondida com ele 
     at chegar o dia de lhe dar nome, desse modo Brun ser obrigado a aceitar a criana.
     Creb olhava para Iza com uma expresso dura. Num relance, percebeu todas as consequncias que poderiam advir da teimosia de Ayla.
     -  verdade, Iza Brun se ver forado a aceitar o filho dela, mas depois ir amaldio-la por um ato deliberado de desobedincia, e dessa vez ser para sempre. 
Voc no sabe que, quando uma mulher fora um homem contra sua vontade, ele est se rebaixando? Brun No pode permitir isso. Os homens perderiam para sempre o respeito 
por ele. Mesmo que amaldioasse Ayla, ele ficaria desprestigiado e a reunio dos cl  j neste prximo vero. 
     Acha que Brun depois disso poderia enfrentar os outros cls? Todo o nosso cl tambm ser desprestigiado por causa de Ayla - gesticulou Creb, com raiva. - O 
que deu nela para pensar em fazer uma coisa dessas?
     - Foi uma das histrias de Aba sobre a me que ps o filho deformado no alto de uma rvore - respondeu Iza, profundamente perturbada, sem saber o que dizer. 
Por que no pensara mais sobre tudo isso?
     - Ora, histrias de velhotas que no tm o que fazer! - falou Creb, com ar de nojo. - Aba faria melhor se no ficasse enchendo a cabea de uma moa com essas 
bobagens.
     - Mas no foi s Aba, Creb. Voc tambm.
     - Eu? Quando contei histrias desse tipo?
     - Voc no precisou contar nenhuma histria para ela. Voc nasceu deformado e lhe foi permitido viver. Hoje  o Mog-ur.
     As palavras de Iza atingiram Creb em cheio. Ele conhecia toda a srie de acontecimentos fortuitos que haviam possibilitado sua aceitao. S a sorte tinha preservado 
a vida do mais sagrado de todos os homens dentre todos os cls. A me de sua me certa vez lhe dissera que sua existncia simplesmente se devia a um milagre. Ser 
que Ayla est querendo provocar um milagre para seu filho por causa dele? Mas isto nunca dar certo. Jamais 
     conseguir forar
     Brun a aceitar seu filho. Isso teria de partir dele, tinha de ser uma deciso sua, exclusivamente sua e de mais ningum.
     - E voc, Iza? Ser que no disse a ela que era uma coisa errada?
     - Pedi a Ayla que no fosse. Disse que eu me encarregaria de dar fim no beb, se ela no pudesse faz-lo. Mas, depois disso, Ayla no me deixou mais chegar 
perto da criana. Ah, Creb, ela sofreu tanto para ter esse filho.
     - E por isso voc deixou que ela fosse embora, esperando que o plano desse certo. Por que No contou nada para mim ou Brun?
     Iza simplesmente meneou a cabea. Creb tinha razo eu deveria ter contado a ele. Agora no s o beb vai morrer, mas Ayla tambm, pensou consigo.
     - Para onde ela foi, Iza? - Creb tinha um olhar de pedra.
     - no sei. Falou qualquer coisa sobre uma pequena caverna - respondeu Iza, com o corao apertado.
     O feiticeiro deu as costas abruptamente e se dirigiu para a fogueira de Brun.
     

***

Captulo 20
     
     O choro do beb acabou por fim acordando Ayla de seu sono exausto. J havia escurecido e a caverna pequenina, sem a fogueira, estava miida e fria. Ela foi 
at o fundo para aliviar-se. O lquido quente e amoniacado ardia em sua carne dilacerada, fazendo-a estremecer de dor. Na escurido tateou dentro da cesta de colher 
procurando um absorvente limpo e uma manta seca para enrolar o beb molhado e sujo. Depois que bebeu um pouco dgua, enrolou-se junto com a criana em sua pele 
e se recostou para dar de mamar. Quando tornou a acordar, a parede da caverna estava banhada pela luz do sol que se filtrava pelo emaranhado dos galhos das avelaneiras 
escondendo a entrada. Enquanto o beb mamava, foi comendo um pouco de comida fria.
     O repouso e a comida a reanimaram e ela se sentou com o beb no colo, pondo-se a pensar meio distrada. Vou precisar arrumar alguma lenha e a comida que tenho 
no vai durar muito. Tenho de conseguir um pouco mais. A alfafa deve estar brotando, e ela vai ajudar a fortalecer meu sangue. Os trevos novos e os rebentos nos 
ps de afarroba com certeza tambm esto no ponto. A seiva deve estar comeando a vir  tona nas cascas das rvores, principalmente na do bordo. no O bordo no 
cresce nessas alturas, mas h vidoeiros e abetos. Vejamos, por aqui deve dar bardana, tussilagem, folhas novas de dente-de-leo e samambaias comestveis, mas a maioria 
dessas ainda deve estar fechada. Ah, eu tenho tambm a minha funda... h uma quantidade de esquilos, castores e coelhos.
     Ayla sonhava, vendo  sua frente as delcias que o vero lhe iria propor cionar, mas, quando tentou levantar-se, sentiu um jato de sangue escorrendo, acompanhado 
de uma vertigem. As pernas estavam empastadas de sangue seco que lhe manchava tambm os sapatos e a roupa; isso a sacudiu, fazendo-a tomar maior conscincia de sua 
situao desesperadora.
     Passada a tonteira, resolveu ir limpar-se e arranjar um pouco de lenha, mas no sabia o que fazer com o beb. Estava entre lev-lo ou deix-lo conti nuar dormindo 
onde estava. As mulheres do cl nunca deixavam bebs sozinhos, eles sempre ficavam sob as vistas de algum, e Ayla no gostava da idia de largar o seu ali, inteiramente 
abandonado. Mas tinha de limpar-se e arrumar mais gua. Sem o beb, poderia tambm carregar maior quantidade de lenha.
     Antes de sair, espiou por entre os galhos desfolhados, querendo ter certeza de que no havia ningum por l. Botou, ento os galhos de lado e veio para fora 
da caverna, O cho estava encharcado. Nas proximidades do riacho, o terreno era um pntano de lama escorregadia. Nesgas de neve ainda persistiam nos trechos mais 
sombrios. Tiritando de frio com o vento que soprava do leste, trazendo mais nuvens de chuva, ela se despiu e entrou na gua gelada. Depois, esfregou os lugares nas 
roupas onde havia manchas de sangue. O couro molhado e pegajoso no ajudava muito a esquent-la, quando tornou a vesti-lo.
     Dirigiu-se ao bosque que cercava a clareira e deu alguns puxes nos galhos secos da parte de baixo de um abeto. Nisso, sentiu que a vertigem apoderava-se dela, 
os joelhos se dobraram e ela viu-se obrigada a amparar-se numa rvore. A cabea martelava por dentro, e a moa procurava respirar fundo para no vomitar, enquanto 
a fraqueza tomava conta de 
     todo o seu corpo. Todas as idias de caar e colher plantas desapareceram. Uma gravidez depalperante, um parto devastador e aquela subida extenuante fizeram 
considerveis estragos em seu organismo e pouca fora lhe havia sobrado.
     O beb chorava quando a jovem me entrou de volta na caverna. L estava frio e mido e ele sentia falta da proximidade do calor da me. Ayla segurou-o e se 
lembrou de que deixara o cantil junto do riacho. Precisava de gua. Ps a criana no cho e saiu novamente. Estava comeando a chover. Quando voltou, exausta, deixou-se 
cair e puxou a pele mida e pesada, cobrindo-se junto com o filho. O sono venceu-a, estava cansada demais para darse conta de que o medo procurava acert-la com 
suas farpas.
     - Eu no disse que ela era insolente e teimosa? - gesticulou Broud, cheio de si. - Algum ento acreditou em mim? No. Todos tomaram o seu partido, arrumaram 
desculpas, deixaram que ela fizesse o que bem entendesse, at mesmo caar. Pouco estou me importando com o totem forte dela, o que sei  que mulheres no podem caar. 
no foi o Leo da Caverna que a levou a fazer isso, trata-se simplesmente de um ato de desobedincia. Agora esto vendo o que acontece, quando se d muita liberdade 
a uma mulher, no ? Ela est achando que pode forar o cl a aceitar seu filho deformado. Desta vez, ningum pode arrumar desculpas. Ela, deliberadamente, foi contra 
os nossos costumes. Isso  indesculpvel.
     Finalmente, Broud encontrara uma boa justificativa para os seus atos e no perdia a oportunidade de vangloriar-se com um eu no disse?. A insistncia era 
feita com tamanho sentimento de vingana que o chefe acabou franzindo a cara, contrariado. Brun no gostava de se ver desprestigiado e o filho de sua companheira 
no lhe estava facilitando as coisas.
     - Broud, voc j disse o que tinha a dizer - falou Brun. - No h necessidade de ficar repisando sempre a mesma coisa. Quando Ayla voltar, cuidarei dela. Nunca 
uma mulher ir me forar a fazer o que no quero e depois sair impunemente. E nenhuma vai comear com isso agora. Amanh, quando formos procur-la outra vez - prosseguiu 
Brun, explicando os motivos por que convocara aquela reunio. - acho que devemos revistar os lugares onde no vamos muito. Iza disse que Ayla sabe da existncia 
de uma pequena caverna. Algum j viu alguma aqui por perto? no deve ficar muito longe, ela estava fraca demais para andar grandes distncias. Vamos esquecer a 
plancie ou a floresta e procurar cavernas nos lugares mais provveis. Com essa chuva, o rastro dela deve ter desaparecido, mas pode ser que haja algumas marcas 
de p. Custe o que custar, quero ach-la.
     Iza esperava ansiosa pelo fim da reunio. Havia precisado de ganhar coragem para falar com Brun e resolvera que aquela seria a ocasio. Quando viu que os homens 
tinham sado, dirigiu-se de cabea baixa para a fogueira dele, sentando-se a seus ps.
     - O que voc quer, Iza? - perguntou Brun, depois de lhe dar o tapinha no ombro.
     - Esta mulher indigna deseja falar com o chefe - comeou Iza.
     - Pode falar.
     - Esta mulher errou ao deixar de procurar o chefe, quando soube dos planos da jovem mulher. -  medida que as emoes tomavam conta dela, Iza foi deixando de 
usar a linguagem protocolar. - Mas, Brun, ela queria tanto um beb. Ningum acreditava que Ayla fosse conceber e muito menos ela prpria. Como pensar que o esprito 
do Leo da Caverna poderia ser vencido? Ela estava muito feliz com isso. Mesmo que sofresse, no se queixava. Quase morreu durante o parto, Brun. Apenas o pensamento 
de no deixar o beb morrer  que lhe deu foras para chegar at o final. Ela no pde suportar a idia de se desfazer do beb, mesmo ele sendo deformado. Tinha 
certeza de que este seria o nico filho que teria na vida, O choque e a dor fizeram com que perdesse a cabea, ela no estava raciocinando bem. Brun, sei que no 
tenho direito de pedir, mas eu suplico, deixe Ayla viver.
     - Por que voc no me procurou antes, Iza? Se pensou que agora eu poderia atender seu pedido para poupar a vida dela, por que ento no veiologo a mim? Tenho 
sido, por acaso, to mau para ela? Eu estava vendo o seu sofrimento. 
     Pode-se desviar os olhos para no se olhar dentro da fogueira dos outros, mas no se pode fechar os ouvidos. No h ningum neste cl que ignore o sofrimento 
de Ayla, quando estava tendo o filho. Voc me acha to insensvel assim, Iza? Se tivesse me procurado, tivesse dito como ela estava se sentindo e o que planejava 
fazer, voc acha que eu no levaria em considerao a vida do beb? Poderia ter encarado essa ameaa dela de fugir e esconder-se como coisa de uma mulher fora de 
seu juzo. Eu teria examinado a criana. Mesmo sem um companheiro, se a deformidade no fosse muito flagrante, talvez eu tivesse deixado o beb viver. Mas voc no 
me deu a menor oportuni dade, j imaginando por antecipao o que eu faria. Isso no  de seu feitio, Iza.
     Nunca a vi faltar com os seus deveres - continuou Brun. - Sempre foi um exemplo para as outras mulheres. S posso atribuir este seu procedimento  sua doena. 
Sei que est doente, apesar de voc tentar esconder. Em respeito a seus desejos, jamais toquei no assunto, mas, no outono passado, no tinha a menor dvida de que 
voc estava a ponto de passar para o mundo dos espritos. Tambm tinha perfeita conscincia de que Ayla imaginava ser essa a sua nica chance de ter um filho. Imagino 
que ela tenha razo Apesar disso, vi como Ayla se esqueceu inteiramente dela para tratar s de voc, Iza. no sei como conseguiu isso. Talvez at tenha sido o Mog-ur 
que tenha aplacado os espritos que queriam lev-la para junto deles, conseguindo convenc-los a deix-la ficar. Mas isso no foi obra somente do Moog-ur.
     Eu j estava pronto a atender o seu pedido de deixar Ayla como curandeira. Passei a ter tanto respeito por ela quanto j tive por voc, Iza. Ayla, apesar do 
filho de minha companheira, tem sido uma mulher admirvel, um modelo de obedincia e de submisso. Isso mesmo, Iza, estou perfeitamente sabendo o modo cruel de Broud 
trat-la. Inclusive, sei que aquela sua falta no princpio do vero passado foi de certo modo provocada por ele, embora no entenda muito os motivos dessa coisa. 
 uma indignidade essa competio de Broud com ela. Afinal, ele  um caador corajoso e forte e no h nenhuma razo para sentir que sua virilidade esteja sendo 
ameaada por uma mulher. Mas talvez ele tenha percebido alguma coisa que desprezei. Talvez ele esteja certo, e eu, durante esse tempo todo, tenha estado cego. Se 
voc tivesse realmente vindo a mim antes, iza, eu poderia levar em considerao seu pedido... poderia ter deixado que o filho de Ayla vivesse. Agora,  tarde demais. 
Quando ela voltar, no dia de seu filho receber o nome, todos os dois iro morrer, Ayla e o filho.
     No dia seguinte, Ayla tentou fazer uma fogueira. Havia ainda alguns paus secos que sobraram de sua ltima estada. Ajovem pegou um deles e comeou agir-lo entre 
as palmas da mo sobre um pedao de madeira, mas no teve foras suficientes para faz-lo pegar fogo, o que foi uma sorte. Enquanto ela e o beb dormiam, Droog e 
Crug encontraram o seu caminho para a clareira na montanha. Certamente os dois iriam sentir o cheiro da fogueira ou o que sobrara de alguma e a teriam achado. Eles 
chegaram to perto da caverna que, na situao em que estavam, se o beb tivesse choramingado em seu sono, teriam ouvido. Mas a entrada do pequeno buraco na rocha 
estava bem escondida pela pesada moita de avelaneira que eles passaram por ali sem perceber.
     A sorte veio sorrir-lhe ainda mais uma vez. As chuvas de primavera, cain do tristemente de um cu cor de chumbo, transformando a margem do pequeno riacho num 
charco de lama e o cho da clareira num verdadeiro pantanal, podiam deix-la deprimida, mas, por outro lado, apagaram todos os vestgios de sua presena ali. Os 
caadores eram to hbeis em pegar rastros que podiam identificar as marcas dos ps de cada uma das pessoas do cl e tinham os olhos to aguados que facilmente 
veriam, caso ela estivesse colhendo alimentos, os lugares onde tinha sido partido algum broto ou os pontos onde a terra fora remexida para desenterrar alguma raz 
ou bulbo. Graas  sua fraqueza, ela no foi descoberta.
     Ao sair mais tarde e ver as pisadas dos homens na lama perto da nascente do riacho, onde haviam parado para tomar um gole dgua, Ayla teve um choque. A partir 
da, ficou com medo de deixar a caverna. Levava susto cada vez que o vento sacudia as ramagens em frente da entrada e estava sempre apurando os ouvidos esperando 
escutar os sons que imaginava estar ou vindo.
     A comida que trouxera j havia quase terminado. Deu uma busca nas cestas que fizera para armazenar comida durante sua longa e solitria estada na maldio  
de morte. Tudo que achou foi algumas nozes estragadas e alguns excrementos de pequenos roedores, denunciando que seu estoque fora descoberto e h muito j no existia. 
Encontrou tambm os restos secos e tambm estragados da comida que Iza lhe trazia durante a sua maldio de mulher, e estavam inservveis.
     Lembrou-se, ento, do esconderijo no fundo da caverna, o buraco de pedra onde pusera a carne-seca do veado que tinha matado para fazer com a pele uma roupa 
quente. Achou o pequeno monte de pedras e as removeu. A carne em conserva estava intata, mas sua alegria durou pouco. Os galhos no buraco da entrada se moveram fazendo 
seu corao disparar.
     - Uba! - gesticulou, surpresa, quando a garota entrou na caverna. - Como voc me encontrou?
     - Eu a segui de longe no dia em que veio para c. Tinha medo de que alguma coisa lhe pudesse acontecer. Eu trouxe alguma comida e um pouco de ch para fazer 
seu leite correr. 
     Foi a me quem preparou.
     - Iza sabe onde estou?
     - No. Mas ela sabe que eu sei. Acho que a me no quer saber porque sen vai ter de contar a Brun. Ayla, Brun est furioso com voc. Os homens todos os dias 
saem  sua procura.
     - Eu vi as pegadas deles perto da nascente, mas eles no conseguiram achar a caverna.
     - Broud agora est contando vantagem dizendo que ele sempre soube quem era voc. 
     Desde que voc saiu, quase nunca vejo Creb. Ele passa o dia inteiro na gruta dos espritos e a me est muito aflita. Ela quis que eu dissesse a voc para no 
voltar - falou Uba com os olhos arregalados, cheios de medo por Ayla.
     - Se iza no falou de mim com voc, como  que ela est mandando recado? - 
     perguntou Ayla.
     - Ontem de noite e hoje de manh, ela fez mais comida do que era preciso. no muita... acho que ficou com medo de Creb adivinhar que era para voc. E tambm 
no comeu a parte dela. Mais tarde, fez o ch e comeou a gemer, como se falasse sozinha soltando lamentos por sua causa. Ela est sempre se lamentando desde que 
voc foi embora, mas desta vez olhava diretamente para mim, dizendo: se algum pudesse dizer a Ayla para no voltar. Minha pobre menina, pobrezinha da minha filha, 
est to fraca e sem comida. Ela precisa ter leite para dar ao beb. E ficou ainda dizendo outras coisas desse tipo. Depois, saiu da fogueira e eu vi que este saco 
de gua estava bem junto do ch e a comida toda embrulhada.
     Ela deve ter visto quando fui atrs de voc - prosseguiu Uba. - Imaginei isto porque mame no ralhou comigo por eu ter ficado tanto tempo fora. Brun e Creb 
esto furiosos com ela por no lhes ter contado que voc ia esconder-se. Se souberem que ela tem alguma idia de onde voc est e no conta, nem sei o que faro 
com a me. A mim, ningum vai perguntar. Ningum presta muita ateno em crianas, principalmente em meninas. 
     Ayla, sei que devia contar a Creb onde voc est, mas no quero que voc seja amaldioada outra vez por Brun. no quero que voc morra, Ayla.
     Ayla escutava as batidas de seu corao. O que foi que eu fui fazer? Quando ela ameaou deixar o cl, no podia imaginar o quanto se achava enfraquecida e como 
seria difcil sobreviver sozinha com um recm-nascido. Havia contado em poder voltar no dia do seu filho receber o nome. E, agora, o que vou fazer? Tomou o beb 
nos braos, segurando-o muito apertado contra o corpo. Mas eu no podia deixar que voc morresse, no ?
     Uba olhou com pena para Ayla que parecia ter esquecido de sua presena.
     - Ayla - disse, hesitando - posso ver o beb? Ainda no tinha tido oportunidade de dar uma espiada nele.
     - Mas claro, Uba - gesticulou Ayla, envergonhada por haver ignorado a garota tanto tempo, principalmente depois de ela haver feito aquela enorme caminhada para 
lhe trazer o recado de Iza. Se descobrissem que Uba sabia on de ela se encontrava e no contava, seu castigo sera terrvel, poderia at ter a vida arruinada.
     - Voc quer segur-lo?
     - Posso?
     Ayla ps o beb no colo dela. Uba ia comear a desenrolar a coberta, mas levantou antes os olhos pedindo permisso. Ayla fez que sim com a cabea.
     - A aparncia dele no  to ruim assim, Ayla.  menos aleijado do que Creb. Ele est meio descamado. A cabea  que parece um pouco diferente. Mas no muito 
diferente da sua. Voc no se parece com ningum do cl.
     - Isso  porque eu no nasci de gente dos cls. Iza me encontrou, quando eu ainda era pequena. Ela diz que nasci dos Outros. Mas agora eu sou dos cls - disse 
com orgulho; logo, entretanto, sobreveio uma expresso de abatimento. - Mas no por muito tempo.
     - Voc sente falta de sua me? Quero dizer, de sua me verdadeira, no de Iza? - perguntou Uba.
     - No me lembro de outra me que no fosse Iza. no me lembro de nada do que aconteceu antes de vir morar no cl. - De repente, ela ficou plida. - Uba, para 
onde irei, se no puder voltar? Com quem vou viver? Nunca voltarei novamente a ver Iza ou Creb. Esta  a ltima vez que irei v-la. Mas eu no sabia que outra coisa 
poderia fazer, no podia deixar meu beb morrer.
     - no sei, Ayla. Mame diz que Brun se rebaixaria, se aceitasse seu filho. Por isso  que ele est to zangado. Ela diz que quando uma mulher obriga um homem 
a fazer o que ele no quer, o homem nunca mais volta a ter o respeito dos outros. Mesmo que ele venha a amaldio-la, Brun se veria desprestigiado porque foi obrigado 
a fazer uma coisa contra sua vontade. no quero que voc v embora, Ayla, mas se voltar, morrer.
     Ayla olhou para o rosto angustiado de Uba sem saber que o seu, com as lgrimas escorrendo, tinha a mesma expresso. s duas caram ao mesmo tempo uma nos braos 
da outra.
     -  melhor voc ir agora, Uba, antes que as coisas piorem.
     A garota devolveu o beb para a me e se levantou.
     - Uba - chamou Ayla, quando a menina estava na entrada, pondo os galhos de lado - estou contente por ter vindo me ver, pelo menos ainda pude falar com voc 
mais uma vez. 
     Diga a Iza... diga a minha me que eu a amo. - As lgrimas escorriam outra vez. - Diga isso tambm a Creb.
     - Eu vou dizer, Ayla. - Uba se deteve por um instante. - Bom,j vou- falou, saindo rapidamente da caverna.
     Depois de Uba ter ido embora, Ayla desempacotou a comida. no havia muita, mas, somada  carne-seca do veado, duraria alguns dias. Mas, e depois? Estava incapaz 
de pensar, sua cabea era um torvelinho de confuses que a levava para um buraco escuro, sem qualquer esperana. Todo seu plano tinha dado para trs. no s a vida 
do filho, mas tambm a sua estava em risco. Comeu sem sentir o gosto, tomou um pouco do ch e tornou a se deitar com o filho, passando a dormir um sono que lhe apagou 
tudo da mente. Seu corpo tinha exigncias e pedia por descanso.
     Era noite, quando voltou a acordar. Tomou mais um pouco do ch e resolveu buscar gua. 
     Na escurido havia menos chance de ser vista pelos homens que estavam  sua caa. Tateava procurando pelo cantil e, em meio ao completo negrume da caverna, 
perdeu o sentido de direo entrando por instantes em pnico. As ramagens camuflando a entrada, fazendo uma lgubre silhueta contra um fundo menos escuro, tornou 
a orient-la e imediatamente veio engatinhando para fora.
     A lua crescente, brincando de esconde-esconde com as nuvens, esparramava pouca luz, mas o suficiente para que seus olhos muito dilatados pela forte escurido 
do interior da caverna percebessem os contornos fantasmagricos das rvores. O murmrio das guas na nascente, batendo sobre as pedras, fazia uma cachoeira em miniatura, 
refletindo os salpicos brilhantes na plida iridescncia. Ayla ainda se achava fraca, mas j no ficava mais tonta quando se punha de p e caminhava tambm com mais 
facilidade.Nenhum homem do cl viu quando ela, protegida pela noite, abaixou- se perto da nascente, mas outros olhos mais afeitos  luz do luar a espreitavam. Alguns 
predadores noturnos e os bichos que eram as suas presas tomavam gua da mesma fonte que ela. Ayla, desde a ocasio em que uma garotinha nua, de cinco anos de idade, 
ficou perambulando sozinha, nunca estivera to vulnervel como agora. no tanto devido  fraqueza, mas porque j no estava pensando em termos de sobrevivncia. 
Deixara de estar em guarda contra o exterior, passando a ter os pensamentos voltados para dentro de si. Seria fcil presa para qualquer animal que, atrado pelos 
seus odores, lhe ficasse  espreita. Ela, no entanto, havia imposto sua presena naquele ambiente. Suas pedradas rpidas, nem sempre mortais, mas dolorosas, tinham 
deixado marcas. Os carnvoros, cujo territrio inclua a caverna, preferiam manter uma certa distncia. Isso lhe dava uma vantagem, constituindo-se num fator de 
segurana, numa espcie de fundo de reserva do qual ela passara agora a valer-se seguidamente.
     - Deve haver algum sinal dela - gesticulou Brun, furioso. - Mesmo que tivesse levado comida, essa no pode durar para sempre. Logo vai ter de sair do esconderijo 
onde se meteu. Quero que tornem a revistar todos os lugares que j procuraram antes. Se estiver morta, quero saber. Algum animal a encontraria, deixando uma prova 
disso. Quero que ela seja achada antes do dia de seu filho receber nome. S irei  reunio dos cl se ela for encontrada.
     - Agora, ela nos vai impedir de ir  reunio de cls - disse Broud, escarnecendo. - Mas por que, antes de mais nada, ela foi aceita neste cl? Nem mesmo pertence 
 nossa gente. Se e fosse o chefe, nunca a teria aceito. Jamais teria deixado Iza ficar com ela esse tempo todo. Nem mesmo apanh-la no meio do caminho, eu teria 
permitido. Por que ningum 
     conseguiu ver o que ela realmente era? Vocs sabem, esta no  a primeira vez que ela desobedece. Sempre desprezou nossos costumes e sempre saiu impune. Ser 
que algum pensou em impedi-la de trazer animais para dentro da caverna? Ser que algum se preocupou com o fato de ela andar por a sozinha, como nenhuma mulher 
do cl sequer pensaria em fazer? no  de estranhar que nos espionasse, enquanto estvamos treinando. 
     E o que aconteceu quando foi apanhada usando uma funda? Apenas uma maldio de morte temporria. E quando voltou? Imagine, recebeu licena para caar! Sabem 
o que os outros cls iriam pensar disso? no me surpreende se no pudermos ir  reunio.  de admirar ento que ela tenha pensado que nos poderia forar a aceitar 
seu filho?
     - Broud, j ouvimos isso antes - gesticulou Brun, farto. - Sua desobedincia no passar sem castigo desta vez. Prometo.
     A insistncia de Broud, sempre batendo na mesma tecla, no estava apenas cansando os nervos de Brun, estava tambm surtindo efeito. O chefe comeara a questionar 
o seu julgamento, um julgamento que se baseava no apego s tradies e aos costumes de longa data e os quais deixavam pouca mar gem para desvios. No entanto, tal 
como Broud estava lembrando constante mente, Ayla vinha praticando, sempre impunemente, uma srie de transgresses cada vez mais graves, que agora culminava com 
este deliberado e indesculpvel ato de desafio. Tinha sido demasiadamente tolerante com aquela estranha, nascida sem o sentido de retido inerente  raa clnica... 
complacente demais. Aproveitara-se dele. Broud tinha razo, ele devia ter sido mais rgido, deveria t-la obrigado a se submeter s regras, talvez nunca devesse 
ter permitido a Iza traz-la com eles. Mas, por que tinha o filho de sua companheira de ficar sempre repisando a mesma coisa?
     Os constantes sermes de Broud acabaram tambm por surtir efeito sobre os outros homens. Quase todos comearam a convencer-se de que haviam, de certo modo, 
visto Ayla atravs de uma cortina de fumaa e que s Broud a enxergava tal como era. Quando Brun no estava por perto, Broud punha-se a denegri-lo, insinuando que 
ele j estava muito velho para chefi-los. O desprestgio de Brun foi um duro golpe  confiana que ele tinha em si mesmo. Sentia como, aos poucos, os homens lhe 
iam perdendo respeito e no podia suportar a idia de enfrentar uma reunio de cl em tais circunstncias.
     Ayla permanecia dentro da caverna, vivendo s de gua. Enrolada em peles, conseguia manter-se aquecida mesmo sem uma fogueira. A comida trazida por Uba, ajudada 
pela velha carne do veado - que, embora tesa como couro e dura de mastigar, tinha alto valor nutritivo - e mais o tempero de sua fome permitiram que ela pudesse 
sobreviver sem caar ou colher alimentos. Isso lhe proporcionou o tempo de que estava precisando para descansar. no tendo mas que se exaurir para satisfazer as 
exigncias de um feto quase 
     anormal, seu corpo, jovem e saudvel, fortalecido por anos de duros exerccios, comeou a recuperar-se. Ela no precisava dormir tanto, mas, de certo modo, 
o sono ajudava. A confuso de seus pensamentos era um tormento constante. Pelo menos, dormindo, estava livre da ansiedade.
     Sentada perto da entrada da caverna, observava o filho dormindo em seus braos. Um fluido branco e aguado escorrendo do canto da boca do beb e pingando do 
outro seio, estimulado pela amamentao indicava que o leite havia comeado a correr. O sol da tarde, de vez em quando escondido pelas nuvens passando velozes no 
cu, aquecia a terra, botando manchas de luz na entrada. Ayla olhava a respirao regular de seu filho, s vezes interrompida por um crispar de plpebras e pequenos 
sobressaltos que o levavam a fazer movimentos de sugar, para depois voltar a acalmar-se novamente. Ela o observou mais de perto, virando sua cabea para ver o perfil.
     Uba disse que voc no tem uma aparncia muito ruim, disse consigo. Tambm acho.  s um pouco diferente, foi o que Uba falou. Voc parece diferente, mas no 
tanto quanto eu. 
     Subitamente, ela se lembrou de seu rosto refletido no lago de guas tranquilas. Ele no  to diferente quanto eu!
     A moa examinava o rosto do beb, tentando lembrar-se de seu reflexo. Minha testa  igual  sua, pensou, levando a mo ao rosto. E esse osso debaixo da boca, 
eu tambm tenho um. 
     Mas ele tem superclios salientes e eu no. As pessoas dos cl  que tm assim. Se sou diferente, por que meu beb tambm no seria? Ele deveria parecer-se 
comigo, no ? E parece um pouco, mas tambm se assemelha aos bebs do cl. Ele parece dos dois jeitos. 
     No nasci num cl, mas meu filho sim.  como se fosse uma mistura deles comigo.
     Acho que voc no  nem um pouco deformado, meu filho. Se voc nasceu de mim e da gente dos cls, tinha de parecer dos dois modos. Se os espritos se misturaram, 
voc no teria de parecer com essa mistura? E  assim que voc  e como deveria parecer. Mas qual totem teria comeado sua vida? Seja l qual for esse totem, ele 
deve ter tido alguma ajuda. Nenhum homem tem um totem mais forte do que o meu, exceto Creb. Ser que foi o Urso da Caverna que comeou sua vida, meu filhinho Eu 
moro na fogueira de Creb. No! no pode ser. Creb diz que Ursus jamais deixaria que seu esprito fosse engolido por uma mulher. Ursus sempre escolhe. Bom, se no 
foi o de Creb, de quem mais eu me aproximei?
     De repente, surgiu a imagem de Broud esvoaando diante dos olhos dela. no Abanava a cabea, sem querer aceitar a idia. Broud no No foi ele quem comeou 
meu beb. A lembrana do futuro chefe f-la estremecer de nojo, recordando-se de como ele a forava a submeter-se a seus desejos. Tenho dio dele.Odiei todas as 
vezes que ele chegou perto de mim. Estou feliz por ele no poder mais me incomodar. Espero que ele nunca, nunca mais v querer outra vez aliviar suas necessidades 
em mim. Como  que Oga pode suportar isso? E as outras mulheres, como aguentam? Por que ser que os homens tm necessidades desse tipo? Por que gostam de botar seus 
rgo no lugar por onde saem os bebs? Este lugar devia ser s para os bebs nascerem e no para que os rgos dos homens fizessem aquele 
     melado l dentro. Os rgos dos homens nada tm a ver com os bebs, pensou, cheia de indignao.
     A incongruncia daquele ato que lhe parecia sem sentido lhe ficou no pensamento. Em seguida, outra estranha idia foi se infiltrando. Ou ser que tm? Seria 
possvel o rgo de um homem ter alguma relao com os bebs? S mulheres podem ter crianas, mas elas tm filhos e filhas, conjeturava consigo. Fico pensando se, 
quando um homem mete o rgo no lugar por onde saem os bebs, ele no estaria nesse momento comeando a vida de um. 
     E se no for o esprito do totem de um homem e sim o rgo quem comea o beb? Isso significaria que o beb pertenceria a ele tambm? Talvez seja por este motivo 
que os homens tm essa necessidade, porque desejam comear a vida de um beb. Talvez seja por isso tambm que as mulheres gostam. Nunca vi uma mulher engolindo um 
esprito, mas j vi muitas vezes os homens metendo seus rgos nas mulheres. Ningum imaginou que eu fosse ter um filho por causa desse meu totem extremamente forte, 
mas eu tive, e o beb comeou mais ou menos na ocasio em que Broud estava aliviando suas necessidades em mim.
     No No  verdade! Isso significaria que meu beb pertenceria tambm a Broud, pensou ela com horror. Creb est certo. Ele sempre est. Engoli um esprito que 
lutou e derrotou meu totem. Talvez eu tenha engolido mais de um, talvez at de todos eles. Abraou o filho muito apertado, como se quisesse que ele fosse s dela. 
Voc  meu beb e no de Broud. 
     E nem  tambm do esprito do totem de Broud. O beb se assustou com o movimento inesperado e comeou a chorar. Ela se ps a nin-lo ternamente at que, por 
fim, ele voltou a ficar quieto.
     Talvez meu totem soubesse o quanto eu queria um beb e por isso se deixou derrotar. Mas por que meu totem me deixou ter um beb sabendo que ele teria de morrer? 
Um beb que tem uma parte minha e outra da gente dos cls ir sempre parecer diferente. Eles vo sempre dizer que meus filhos so deformados. Mesmo se eu tivesse 
companheiro, meus bebs no iriam ter uma aparncia direita. Nunca vou poder ficar com filho algum. Todos tero de morrer. Mas que diferena faz? De qualquer jeito, 
eu vou morrer. Ns dois vamos morrer, meu filinho.
     Ayla ficou embalando o beb, apertado no seu colo, enquanto cantarolava baixinho e as lgrimas, sem que percebesse, escorriam-lhe pelas faces. O que vou fazer, 
meu filhinho? O que vou fazer? Se voltar no dia de voc receber nome, Brun vai me amaldioar. Iza disse 
     que eu no voltasse, mas para onde poderei ir? Ainda no estou bastante forte para caar e, mesmo que estivesse, o que eu faria com voc? Eu no poderia lev-lo 
comigo. Como iria caar com um beb do lado? Se voc chorasse, espantaria os bichos; e ficar sozinho, tambm no poderia. Talvez eu pudesse ficar sem caar e a comida 
eu encontraria. Mas vamos precisar de outras coisas... roupas, peles, capas e calados.
     E onde vamos encontrar uma caverna para morar? Nessa, no podemos. H muita neve aqui no inverno e ela fica muito perto do cl. Acabariam nos encontrando. Poderia 
ir embora, mas talvez no achasse uma caverna, alm de que os homens poderiam seguir minha pista e me trariam de volta. Mesmo que conseguisse encontrar uma caverna, 
conseguisse guardar 
     bastante comida para o inverno e pudesse caar um pouco, ns iramos ficar muito 
     sozinhos. Voc tem de ter outras companhias alm de mim. Com quem voc iria brincar? Quem o ensinaria a caar? E se acontecesse alguma coisa a mim? Quem tomaria 
conta de voc? Estaria sozinho, como eu, antes de Iza me encontrar.
     No quero que voc fique sozinho e nem eu tambm quero estar sozinha. Quero voltar para casa, soluava, enterrando a cabea na manta que enrolava o beb. Quero 
voltar e ver Uba e Creb. Quero a minha me. Mas no posso voltar. Brun est furioso comigo. Fiz com que ele se desprestigiasse e por isso tem agora de me amaldioar. 
Eu no sabia que ele iria perder o respeito dos outros por causa disso, apenas desejei que voc no morresse. Brun no  m pessoa. Ele me deixou caar. E se eu 
no o tivesse forado? Se tivesse simplesmente lhe pedido que deixasse meu filho viver, como seria? Se eu voltasse agora, ele no ficaria desprestigiado. Ainda h 
tempo. Est faltando ainda dois dedos para chegar o dia de voc receber nome. Talvez assim ele no ficasse to zangado.
     E se ficar? E se disser no? E se o tirar de mim? Se eles me separarem de voc agora, no quero continuar vivendo. Se voc tiver de morrer, eu quero morrer 
junto. Se eu voltar e Brun disser que voc tem de morrer, peo para que ele me amaldioe. Norrerei tambm. 
     No quero que voc volte para o mundo dos espritos sozinho, meu beb. Vou retornar nesse instante e pedir a Brun para me deixar ficar com voc. Que outra coisa 
posso fazer?
     Ayla comeou a atirar suas coisas para dentro da cesta de colher, enrolou o beb na manta de carregar, cobriu ambos com a capa usada por fora e empurrou para 
o lado os ramos que escondiam a pequena caverna. Quando estava saindo, seus olhos bateram numa coisa brilhando ao sol. Uma pedra cinzenta cintilava a seus ps. Ela 
apanhou. no era uma simples pedra, mas trs ndulos de pinta de ferro, colados juntos. Ela a revirou na mo observando o ouro dos trouxas. Durante vrios anos, 
inumeras vezes entrara e sara por aquela abertura e nunca vira uma pedra to fora do comum naquele lugar.
     Ayla fechou-a na mo e cerrou os olhos. Ser que isso  um sinal? Um sinal de meu totem?
     -  Grande Leo da Caverna - gesticulou. - Ser que tomei a deciso certa? Voc est me dizendo que devo voltar agora?  Leo da Caverna, permita que isso seja 
um sinal seu. 
     Permita que seja esta pedra um aviso expressando que voc me achou digna e que esta foi mais uma prova por que tive de passar. Que seja este um sinal de que 
meu beb ir viver.
     Os dedos tremiam enquanto desamarravam os ns do saquinho de couro que usava pendurado no pescoo. E a pedra brilhante, de estranho formato, foi juntar-se ao 
ovo de marfim tingido de vermelho, ao fssil de gastrpode e ao torro de ocre. Cheia de medo, com o corao batendo forte e uma louca esperana, comeou a descer 
para a caverna do cl.
     

***


***

Captulo 21
     
     Uba entrou na caverna, gesticulando tumultuadamente.
     - Me, me! Ayla est de volta! Iza ficou lvida.
     - No! no pode ser. O beb est com ela? Uba, voc foi v-la? Voc disse a ela?
     - Fui me. Eu vi Ayla. Contei como Brun estava zangado e disse para que no voltasse - gesticulou a menina.
     Iza correu para a entrada da caverna e viu Ayla caminhando vagarosamente na direo de Brun. A moa agachou-se a seus ps, com o corpo se curvando sobre o filho 
para proteg-lo.
     - Est adiantada. Deve ter calculado mal o tempo - gesticulou Brun para o feiticeiro, que vinha capengando a toda pressa para fora da caverna.
     - Ela no calculou mal, Brun. Ela sabe que est adiantada. Veio por que quis - falou o Mog-ur.
     Brun olhou para o velho, sem compreender como ele poderia ter tanta certeza. Em seguida, baixou os olhos na direo de Ayla e voltou a olhar um tanto apreensivo 
para o Mog-ur.
     - Tem certeza de que o feitio que fez para nos proteger vai funcionar? Ela devia estar isolada. O tempo de sua maldio de mulher ainda no acabou. Sempre 
custa muito mais depois do parto.
     - Os feitios foram fortes, Brun. Feitos com os ossos de Ursus. Voc est protegido. Pode olhar para ela - respondeu o mog-ur.
     Brun se virou, olhando para a jovem, que, tremendo de medo, curvava-se sobre o filho. 
     Devia amaldio-la nesse instante, pensou ele com raiva. Mas ainda no  o dia de a criana receber nome. Se o Mog-ur tiver razo, por que teria ela voltado 
mais cedo? E com o beb?
     Ele ainda deve estar vivo, do contrrio no estaria com ela. Essa desobedincia  indesculpvel, mas por que teria voltado antes? A curiosidade era grande e 
ele no aguentou. Deu-lhe o tapinha no ombro.
     - Esta indigna mulher tem sido desobediente - gesticulou Ayla, usando a linguagem 
     protocolar silenciosa- Ela sabia que no deveria estar falando com um homem, que deveria estar isolada, mas ele lhe dera licenacom a pancadinha no ombro. - 
Esta mulher gostaria de falar com o chefe, se lhe for permitido.
     - Voc no merece falar, mulher. Mas o Mog-ur invocou proteo para o seu caso. Se eu quiser que voc fale, os espritos permitiro. Voc tem razo. Tem sido 
muito desobediente, o que tem a dizer em seu favor?
     - Esta mulher est agradecida. Esta mulher conhece os costumes que regem os cl Ela deveria desfazer-se da criana, tal como a curandeira falou, mas, ao invs 
disso, fugiu. Esta mulher ia voltar no dia de seu filho receber no me para que o chefe tivesse de aceit-lo no cl.
     - Voc voltou cedo demais - gesticulou Brun, triunfante. - Ainda no chegou o dia de ele receber nome. Posso ordenar  curandeira tir-lo de voc nesse instante. 
- Enquanto falava, percebeu que a tenso que vinha sentindo nas costas desde que Ayla partira havia relaxado, ao mesmo tempo que fazia o apanhado da situao: pelos 
costumes dos cls, s se a criana vivesse sete dias  que ele estaria na obrigao de aceit-la. O prazo ainda no se  extinguira, ele no precisava aceit-la, 
no perdera ainda o prestgio, estava outra vez em pleno comando.
     Ayla, involuntariamente, apertou mais o beb contra o peito, amarrado a seu corpo por uma cinta e, ento, prosseguiu:
     - Esta mulher sabe que ainda no chegou o dia de seu filho receber nome. Esta mulher compreendeu que era errado tentar fazer o chefe aceitar a criana. no 
compete  mulher decidir se seu filho deve morrer ou viver. S o chefe pode ter essa deciso. Foi por isso que esta mulher voltou.
     Brun olhou para o rosto ansioso de Ayla. Pelo menos tomou juzo ainda em tempo, pensou consigo.
     - Se voc conhecia os nossos costumes, por que voltou ento com essa criana deformada? Iza disse que voc no seria capaz de cumprir com o seu dever de me. 
Ser que j est preparada para desistir do filho? Voc quer que a curandeira faa isso por voc?
     Ayla hesitou, imvel, curvada sobre o filho.
     - Esta mulher desistir de seu filho se o chefe ordenar. - Ela gesticulava devagar, dolorosamente, fazendo enorme esforo sobre si, como se uma faca estivesse 
sendo cravada 
     em seu corao. - Mas esta mulher prometeu a seu filho que no o deixaria ir sozinho para o mundo dos espritos. Se o chefe decidir que o beb no poder viver, 
ela pede para ser amaldioada - dizendo isso, abandonou a linguagem protocolar. - Eu imploro, Brun, deixe meu filho viver. Se ele tiver de morrer, eu no quero mais 
viver.
     A splica ardorosa de Ayla surpreendeu Brun. Ele sabia de casos de algumas mulheres que, apesar de os filhos haverem nascido deformados e com defeitos fsicos 
graves, queriam conserv-los, a maioria, entretanto, sentia- se aliviada em se desfazer das crianas o quanto antes e o mais discretamente possvel. Um filho deformado 
estigmatizava a me Apregoava sua incompetncia e a incapacidade para produzir crianas perfeitas. Um fato desses tornava a mulher menos desejvel. Ainda que a deformidade 
fosse pequena e no se constitusse num problema de maior gravidade, havia consideraes de ordem de status e de futuros companheiros. Alm disso, poderia ser difcil 
para as mes, se seus filhos ou os companheiros de suas filhas no fossem capazes de mant-las na velhice. Embora nunca fossem morrer de fome, a vida delas poderia 
ser bem desgraada. O pedido de Ayla no tinha precedentes. Amor de me  forte, mas tanto assim, a ponto de querer seguir junto com o filho para o outro mundo?
     - Voc quer morrer junto com seu filho deformado? Por qu? - perguntou Brun.
     - Meu filho no  deformado - respondeu ayla, sem qualquer tom de desafio. - Ele  apenas diferente. Eu sou diferente. Eu no pareo com as pessoas da raa 
dos cls E meu filho tambm. Todo beb que eu tiver vai parecer com este, caso meu totem seja novamente derrotado. Nunca permitiro um filho meu viver. Se todos 
os meus filhos tero de morrer, eu no quero viver.
     Brun olhou na direo do Mog-ur.
     - Se uma mulher engolir o esprito do totem de um homem, o beb no deveria se parecer com ele?
     - Deveria, mas no se esquea de que ela tambm tem um totem de homem. Talvez seja esse o motivo por que ele tenha lutado tanto. O Leo da Caverna pode ter 
desejado participar da nova vida. Pode ser que exista qualquer coisa assim como ela diz. Eu teria de meditar sobre isso.
     - Mas a criana seria ainda considerada deformada?
     - Isso muitas vezes acontece, quando o totem de uma mulher nega a submeter-se completamente. A gravidez dela torna-se difcil e deforma o beb respondeu o Mog-ur. 
- Nesse caso, o que mais me surpreende  o fato de a criana ter nascido homem. Quando o 
     totem de uma mulher trava uma batalha muito violenta, normalmente nasce uma criana do sexo feminino. Mas ns ainda no vimos o beb, Brun. Talvez devssemos 
examin-lo.
     Deveria me incomodar com isso?, perguntou-se Brun. Por que no amaldio-la de uma vez, e nos desfazermos logo da criana? A volta antes do tempo e a humildade 
de Ayla, cheia de arrependimento, fizeram bem ao orgulho ferido do chefe, mas ele ainda estava longe de amolecer. Estivera a ponto de perder sua autoridade por causa 
dela, e esse no era o primeiro problema que Ayla lhe trazia. Havia voltado, mas o que iria aprontar da prxima vez? Alm disso, havia a reunio dos cls, como Broud 
no se cansava de avis-lo.
     Uma coisa era deixar Iza pegar uma estranha criana e lev-la para o seu cl, e outra bem diferente era a impresso que causaria nos demais cls, ele chegando 
 reunio com uma mulher nascida dos Outros. Agora, olhando retrospectivamente, perguntava-se como tinha podido tomar tantas decises to pouco ortodoxas. Cada uma 
delas, a seu tempo, no parecia to despropositada. Mesmo deixar uma mulher caar teve sua lgica na poca. Mas, todas somadas e encaradas do ponto de vista de algum 
de fora, o efeito era de uma total derrocada dos costumes. Ayla fora desobediente, merecia ser punida, e amaldio-la significava acabar com todos os seus problemas.
     Mas uma maldio de morte representava sria ameaa ao cl e ele, j uma vez por causa dela, os havia deixado expostos aos maus espritos. A volta voluntria 
impedira que ele casse em desgraa... Iza provavelmente tinha razo. Ayla, abalada com o parto e a dor, devia ter perdido a cabea. Ele dissera a Iza que teria 
levado em considerao um pedido para deixar o beb viver, caso isso tivesse sido feito. Bom, agora ela estava pedindo. Tinha voltado perfeitamente consciente da 
falta que cometera, consciente e querendo arcar com a culpa, pedindo pela vida do filho. Brun podia, pelo menos, examinar a criana. Ele no gostava de tomar decises 
apressadas. De repente, fez um gesto para Ayla, indicando a fogueira de Creb, e se afastou.
     Ayla correu para os braos de Iza que a esperava. Se nada mais fosse possvel, teria, quando muito, visto pela ltima vez a mulher que era a nica me que conhecera 
na vida.
     - Vocs todos tiveram oportunidade de examinar a criana - disse Brun. - Em circunstncias normais, no iria incomod-los. Esta seria uma deciso simples. Mas 
desejo conhecer a opinio de vocs. A maldio de morte  uma possibilidade a ser seriamente encarada e eu no quero tornar a deixar o cl exposto aos maus espritos. 
Se acharem que a criana  aceitvel, dificilmente poderei amaldioar a me. Ela no estando aqui, uma outra mulher teria de tomar o menino que ir viver com qualquer 
um de vocs que tenha no momento a companheira amamentando. No caso de se permitir ao beb viver, a punio de Ayla seria menos severa. Amanh ser o dia em que 
a criana deveria receber o nome. Preciso tomar rapidamente uma deciso e o Mog-ur precisa de algum tempo para preparar a maldio se este for o castigo. Tudo isto 
tem de ser feito antes do despontar do sol amanh.
     - no  s a cabea, Brun - comeou Crug a falar. Ika ainda estava amamentando o 
     filho mais novo e Crug no tinha o menor desejo de ter o beb de Ayla em sua fogueira. 
     Coisa improvvel, mas sempre uma possibilidade. - Ela  bastante defeituosa e ele no consegue mant-la erguida, porque tambm est faltando um suporte para 
aguent-la. O que ser dele quando for homem? Como vai caar? Nunca conseguir se sustentar, ser um fardo para todo o cl.
     - Voc acha que existe alguma chance de o pescoo se fortalecer? - perguntou Droog. - 
     Se Ayla morrer, ela levar consigo uma parte do esprito de Ona. Aga deve isto a Ayla... embora eu no creia que realmente ela deseje ter um beb deformado. 
Mas se Aga estiver disposta, acho que eu aceitaria, naturalmente se ele no for um fardo para todo o cl.
     - O pescoo  to comprido e magro e a cabea to grande que me d a impresso de que nunca se fortalecer o suficiente - comentou Crug.
     - Na minha fogueira, eu no quero esse menino por nada. Nem vou dar-me ao trabalho de perguntar a Oga o que ela acha disso. Ele no serve para ser germano dos 
filhos dela. Isso faria do menino irmo de Brac e Grev, coisa que eu jamais permitiria. Brac ir sobreviver ainda que ela carregue um pedacinho de seu esprito. 
Nem sei por que voc est perdendo tempo em discutir este assunto, Brun. Voc j estava pronto para amaldio-la. S porque ela chegou um pouquinho mais cedo, j 
est disposto a receb-la de volta e falando em assumir seu filho deformado - gesticulou Broud, cheio de fel.
     Ela o desafiou quando fugiu, o fato de voltar no diminui sua falta. O que h aqui para ser discutido? O beb  deformado e ela tem de ser amaldioada, fora 
disso no h o que falar. 
     Por que voc est sempre nos fazendo perder tempo com essas reunies discutindo problemas dela? Se eu fosse chefe, essa mulher j estaria amaldioada h muito 
tempo.  desobediente, insolente e m influncia para as outras. Como explicar essa atitude agora de Iza?
     - A raiva de Broud ia aumentando e seus gestos cada vez ficavam mais exaltados. - Ela merece ser amaldioada, Brun. Como consegue pensar em outra coisa, fora 
desta possibilidade? Como no pode ver esse fato? Voc est cego? Ela nunca prestou. Se eu fosse chefe, antes de mais nada, ela no teria sido aceita neste cl. 
Se eu fosse chefe.
     - Mas voc ainda no , Broud - retrucou Brun, com frieza. - E tal vez nunca seja, se no conseguir controlar-se melhor. Ela  apenas uma mulher, Broud, por 
que voc se sente to ameaado por Ayla? O que ela lhe poderia fazer?  obrigada a obedec-lo. no tem outra alternativa sengo esta. Se voc fosse chefe, se voc 
fosse chefe,  tudo quanto sabe dizer? Que chefe  esse que  capaz de pr em risco todo um cl s porque est com pressa de matar uma mulher? - Brun, por sua vez,estava 
a ponto de perder o controle. J aguentara tudo o que podia do filho de sua companheira.
     Os homens se sentiam incomodados e ao mesmo tempo escandalizados. Aquela guerra declarada entre o presente e o futuro chefe era um fato lastimvel. Broud, certamente, 
havia passado dos limites, mas eles j estavam acostumados com os seus rompantes. A aflio era por causa de Brun, nunca haviam visto o chefe naquele estado, a ponto 
de perder o seu controle. E jamais tambm Brun tinha questionado publicamente as qualificaes para chefe do filho de sua companheira.Durante um momento de tenso 
os dois ficaram se olhando numa guerra de nervos. Broud baixou os olhos primeiro. J no tendo mais sua autoridade ameaada, Brun estava novamente firme no comando. 
Ele era o chefe e ainda no estava preparado para aposentar-se. Isso botou Broud de sobreaviso, suas bases no estavam to firmes quanto imaginava. 
     Tratou de dominar o sentimento de impotncia e de amarga frustrao que se avolumava em seu peito. Ele continua favorecendo-a, pensou Broud. Como  que pode? 
Eu sou o filho da companheira dele e ela no passa de uma mulher feia. O rapaz lutava para manter a calma e engolir o ressentimento que lhe envenenava a alma.
     - Este homem lamenta ter dado motivos para que o chefe interpretasse mal suas palavras - falou Broud, por meio de gestos protocolares. - A preocupao deste 
homem  em relao aos caadores que um dia ele ir conduzir, se o chefe atual julgar que este homem tem capacidade para tanto. Mas como algum que tem uma cabea 
que no consegue equilibrar sobre o pescoo poder caar?
     Brun, furioso, encarava Broud com olhar duro. Os gestos da linguagem formal tinham um sentido de inconsistncia que Broud inconscientemente deixava transparecer 
nas suas expresses e posturas. O sarcasmo contido nas respostas extremamente polidas irritava mais o chefe do que se houvesse, entre os dois, uma disputa franca 
e aberta. Broud tentava esconder seus sentimentos, e Brun o percebia. Mas o chefe estava envergonhado consigo por ter perdido a calma. Tinha conscincia de que Broud 
com suas observaes cada vez mais depreciativas fazia com que se pusesse em dvida o seu julgamento. Seu orgulho fora tocado num ponto sensvel, mas isso no era 
suficiente desculpa para faz-lo perder o controle, a ponto de desacreditar na frente de todos o filho de sua companheira.
     - Voc j disse o que tinha a dizer, Broud - gesticulou Brun, secamente. - Posso imaginar que o menino ao crescer se constituir num fardo para o chefe que 
me suceder e para o outro que vir depois desse, mas a deciso ainda continua sendo minha. Farei o que achar melhor. Eu no disse que o beb ser aceito, Broud, 
ou que a mulher no ser amaldioada. Minha preocupao  com o cl no com ela ou com a criana. Uma maldio de morte pode pr todos ns em perigo. H espritos 
malignos que custam a ir embora, depois de soltos, e isto pode nos trazer azar. Acho que a criana  muito deformada para viver, mas Ayla est inteiramente cega. 
Ela no consegue ver a deformidade do filho. Talvez o enorme desejo de ter um beb haja afetado sua cabea. Quando voltou, pediu-me para amaldio-la, se o filho 
no fosse aceito. Pedi a opinio de vocs, porque queria saber se algum mais viu qualquer coisa na criana que eu no percebi. Uma maldio de morte, seja para 
punir ou atender seu desejo, continua sendo uma deciso que no se pode tomar levianamente.
     Broud j no se sentia to frustrado. Afinal, Brun talvez no a estivesse favorecendo, pensou ele.
     - Voc est certo, Brun - disse o rapaz, com ar arrependido. - Um chefe precisa sempre pensar nos riscos que podem advir para o cl. Este homem est agradecido 
por poder contar com um chefe sbio para instru-lo.
     Brun sentiu sua tenso diluir. Nunca pensou seriamente em substituir Broud. Ele continuava sendo o filho de sua companheira, o filho de seu corao. Ter o autodomnio 
nem sempre  coisa fcil, disse Brun consigo, lembrando-se de sua prpria irritao de minutos antes. Broud tem apenas um pouco mais de dificuldade que os outros, 
mas ele est melhorando.
     - Alegra-me ver que compreendeu, Broud. Quando voc for o chefe, ser responsvel pela segurana e o bem-estar do cl. - O comentrio de Brun serviu para Broud 
saber que ainda continuava como herdeiro e tambm para aliviar a tenso dos caadores. Dava-lhes segurana saber que os tradicionais critrios que presidiam a hierarquia 
do cl estavam sendo mantidos. Nada os perturbava mais do que a incerteza em relao ao futuro.
     -  no bem-estar do cl que estou pensando, Brun - gesticulou Broud. - no desejo um homem em meu cl que no possa caar. Para que vai servir o filho de Ayla? 
A desobedincia dela merece um severo castigo e se ela deseja ser amaldioada, estamos satisfazendo seu desejo. Estaremos bem melhor sem esses dois aqui. Ayla deliberadamente 
desafiou nossas tradies portanto, no merece viver, e seu filho  to deformado que tambm no merece.
     Todos se entreolharam concordando com a cabea. Brun notou um qu de insinceridade na argumentao extremamente racionalizada de Broud, mas deixou a coisa passar. 
A animosidade entre os dois desaparecera e ele no queria provocar novamente mais atritos. 
     Travar uma luta aberta contra o filho de sua companheira perturbava tanto Brun como os outros.
     Brun sentiu que devia juntar-se aos outros na concordncia, mas alguma coisa o fazia hesitar.  o que se tem a fazer, pensou. Desde o princpio ela se constituiu 
num problema para todos ns. Naturalmente Iza vai ficar aborrecida, mas no prometi poupar nenhum dos dois. S disse que ia pensar no assunto. Nem mesmo cheguei 
a dizer que olharia o beb, se ela voltasse. E quem, afinal, esperava que fosse voltar? Justamente a  que reside o problema com ela, nunca se pode prever o que 
acontecer. Se a tristeza de Iza deix-la muito abatida, bom, ainda temos Uba. Afinal de contas,  Uba que realmente pertence  linhagem, e a menina poder aprender 
um pouco mais com as outras curandeiras durante a prxima reunio de cls.
     Se uma parte do esprito de Brac morrer com Ayla, ser que ele est perdendo um pedao muito grande do esprito? Mas se Broud no est se importando com isso, 
por que eu me deveria preocupar? Ele tem razo, ela merece o maior dos castigos. E esse amor to grande por um beb no  normal. O que provam essas histrias de 
mulheres velhas? Ela no consegue nem enxergar que o filho  deformado... deve estar mesmo fora de seu juzo. Ser que di tanto para ter um filho? Os homens passam 
por piores coisas. Muitos de ns somos obrigados a caminhar feridos, morrendo de dor depois de uma caada. Claro, ela no passa de uma mulher, no se pode esperar 
que aguente muita dor. Gostaria de saber at onde ela foi. A caverna de que falou no pode estar muito longe daqui, ou pode? Ela quase morreu para ter a criana, 
estava fraca demais para andar uma distncia muito grande, mas por que ser que no encontramos o lugar?
     E depois, se eu deixar que ela viva, vou ter que lev-la  reunio de cl O que iro pensar os outros? Pior ainda seria se eu deixasse o filho viver. O certo 
 fazer isso, todos so dessa opinio e, talvez, j no houvesse tantos problemas com Broud. Pode ser que ela no estando mais aqui, ele aprenda a controlar-se melhor. 
Broud  um caador corajoso e dar um bom chefe. Era s ter um pouqunho mais de senso de responsabilidade e um pouquinho mais de controle sobre si. Para o bem de 
Broud, talvez eu faa isso. Em benefcio do filho de minha companheira, seria melhor que ela fosse embora. Sim. isto que  o certo, realmente .  o que se tem a 
fazer, no ?
     - Cheguei  deciso que tinha de tomar - gesticulou Brun. - Amanh  o dia de a criana receber nome. s primeiras luzes, antes do sol romper...
     - Brun! - interrompeu o Mog-ur.
     Ele se tinha mantido fora da discusso e desde o nascimento do filho de Ayla que as pessoas pouco o viam. Passava a maior parte do tempo na pequena caverna, 
procurando na sua alma uma explicao para o comportamento de Ayla. Sabia como havia sido dura para Ayla sua luta para aceitar os costumes dos cls e achara que 
ela havia conseguido superar suas dificuldades. Estava convencido de que existia alguma coisa mais, alguma coisa que ele no percebeu e que a levou a ato to extremo.
     - Antes que voc se comprometa, o Mog-ur pede a palavra.
     Brun olhou para o feiticeiro. A expresso era enigmtica como sempre. O chefe nunca fora capaz de ler no rosto do Mog-ur. O que ter ele a dizer que eu ainda 
no saiba? J estou resolvido a amaldio-la e ele sabia disso.
     - Que fale o Mog-ur.
     - Ayla no tem companheiro, mas ela sempre foi sustentada por mim. Sou o seu responsvel. Se voc permitir, falarei na qualidade de companheiro dela.
     - Fale, se assim o desejar, Mog-ur. Mas que outra coisa tem a acres centar? J pensei no grande amor que Ayla tem pela criana e na dor e sofrimento por que 
teve de passar para ter o filho. Compreendo como deve ser difcil para Iza. Sei tambm que isso vai abat-la muitssimo. J pensei em todas as razes possveis para 
desculpar as aes de Ayla, mas os fatos permanecem. Ela desafiou os costumes dos cl Seu beb  inaceitvel segundo os homens. Broud j deixou bem claro, nenhum 
dos dois merece viver.
     O Mog-ur se ps de p, jogando o cajado para o lado. Envolvido pela pesada capa de pele de urso era uma figura imponente. S os mais velhos e Brun o conheciam 
como algo que no era o Mog-ur. Ali estava o mais sagrado de todos os homens dentre aqueles que tinham acesso ao mundo dos espritos, o mais poderoso feiticeiro 
de todos os cl Quando se deixava levar pela eloquncia durante uma cerimnia, era um guardio carismtico que inspirava antes de tudo temor. Algum que afrontava 
foras invisveis, muitssimo mais assustadoras do que qualquer ataque de animal e capazes de transformar o mais corajoso dos caadores num miservel covarde tremendo 
de medo. Todos ali sentiam-se seguros por t-lo como o feiticeiro do cl e no havia nenhum que no tivesse, em algum momento da vida, sentido medo de seu poder 
e de seus feitios. Apenas um, Goov, ousava pensar em ocupar seu lugar.
     Somente o Mog-ur se punha entre o humano e o terrvel desconhecido do qual tornara-se parte por sua aliana com este. Isso o imbua de uma aura sutil que o 
acompanhava na vida secular. Mesmo quando dentro dos limites de sua fogueira e cercado por suas mulheres, No se pensava nele como um homem. Era alguma coisa mais, 
algo diferente. Ele era o Mog-ur.
     Enquanto seu olho sinistro percorria um por um dos que se achavam l, todos, inclusive Broud, estremeceram no fundo de seus seres, ao se darem conta de repente 
de que a mulher que estavam condenando  morte vivia em sua fogueira. Raramente, ele fazia valer o peso de sua presena fora de suas funes, mas desta vez usava-a 
a seu favor, O ltimo que encarou foi Brun.
     - O companheiro de uma mulher tem o direito de interceder pela vida de uma criana deformada. Estou-lhes pedindo para poupar a vida do filho de Ayla e, em benefcio 
dele, a vida dela tambm.
     Todas as razes que Brun poucos minutos antes se dera para poupar a vida de Ayla pareceram agora ganhar peso e consistncia, e os argumentos contrrios mostravam-se 
insignificantes. Ele quase concordou, baseando-se exclusivamente na fora do pedido do Mog-ur, mas para poder provar tambm a fora de seu prprio carter no o 
fez. no podia capitular to facilmente na frente de seus homens; assim, a despeito do enorme desejo de entregar-se  magia daquela poderosa figura, manteve-se firme.
     Ao perceber que passara aquele instante de indeciso de Brun e que seu rosto voltara a assumir um ar de firme deciso o Mog-ur se transfigurou diante dos olhos 
do chefe. Seu carter sobrenatural desapareceu. Transformou-se na figura de um pobre velho aleijado que vestia uma capa de pele de urso e tentava firmar-se o melhor 
que podia sobre a perna, sem a ajuda do cajado.
     Quando falou, foi por meio de gestos normais, pontuados por algumas palavras grunhidas da fala cotidiana. No rosto, um ar resoluto, mas curiosamente Vulnervel.
     - Brun, desde que ayla foi encontrada que ela vem vivendo na minha fogueira. Creio que todos concordaro comigo que as mulheres e as crianas vem no homem 
da casa a figura-padro do homem do cl. Ele  o modelo, o exemplo daquilo que o homem deveria ser. Eu sou o exemplo de Ayla e passo aos olhos dela como o padro 
de homem.
     Eu sou deformado, Brun. Voc acha to estranho assim que uma mulher que cresceu tendo como modelo a figura de um homem deformado tivesse tanta dificuldade 
em perceber a deformidade de seu filho? A mim, falta-me um olho e um brao e a metade do meu corpo  ressequida e imprestvel. Sou um homem pela metade, apesar de 
que Ayla, desde o incio, tenha me visto como algum perfeito. O fsico de seu filho se mostra inteiro. 
     Ele tem dois olhos, dois braos e duas pernas. Como esperar que ela encontrasse alguma deformidade nele?
     Coube a mim a responsabilidade de educ-la. Devo assumir a culpa por suas falhas. Passei por cima de seus pequenos desvios em relao aos nossos costumes. 
Cheguei inclusive a convenc-lo, Brun, de aceit-los. Eu sou o Mog-ur. Voc confia em mim para interpretar os desejos dos espritos e passou tambm a confiar no 
meu julgamento para outros aspectos da vida. Acho que no erramos tanto assim. Algumas vezes foi muito difcil para Ayla, mas eu achava que ela se tinha tornado 
uma boa mulher conforme os padres do cl. Imagino agora que fui muito indulgente. no lhe fiz ver claramente suas responsabilidades. Poucas vezes ralhei com ela 
e jamais lhe bati. Quase sempre deixava que seguisse seus impulsos. Agora, ela deve pagar por minhas faltas. Mas, Brun, nunca pude ser mais severo com Ayla.
     Jamais tomei uma companheira. Poderia ter escolhido uma mulher e ela teria de viver comigo, mas no o fiz. Sabe por qu? Seria voc, Brun, capaz de imaginar 
como as mulheres olham para mim? O modo como me evitam? Quando jovem, como qualquer Outro homem, tambm tive a mesma necessidade de aliviar-me, mas aprendi a controlar 
isso depois que percebi que as mulheres viravam de costas, de modo a no ver os meus sinais. Eu no iria impor, forar meu corpo disforme e aleijado a uma mulher 
que fugia de mim, que se virava com nojo de olhar para mim.
     Mas Ayla nunca me deu as costas. Desde o primeiro momento, estendeu a mo querendo tocar-me. no tinha medo, nem repugnncia de meu aleijo. Espontaneamente 
deu-me sua afeio  e me abraou. Como poderia, Brun, eu me zangar com ela?
     Desde que nasci, vivo neste cl, mas nunca aprendi a caar. Como pode um aleijado, com um nico brao caar? Fui um fardo, objeto de troas e j me chamaram 
de maricas. Agora, sou o Mog-ur e ningum me ridiculariza, mas nenhuma cerimnia de passagem foi realizada em minha honra, Brun. Nem homem pela metade eu posso dizer 
que sou. No sou homem nenhum. S Ayla me respeitou e amou, como homem e como um ser integral. E eu a amo como se ela fosse a filha da companheira que no tive.
     Creb encolheu o corpo, deixando escorregar a capa que usava para tapar seu fsico assimtrico, com um dos lados mal formado e imprestvel, e esticou o coto 
de brao que sempre mantinha escondido.
     - Brun, este  o homem que Ayla v como um todo perfeito. Aquele que estabeleceu para ela um padro de homem. Este  o homem que ela ama e compara com seu filho. 
Olhe para mim, meu irmo! Mereo eu viver? O filho de Ayla merece menos a vida do que eu?
     O cl comeou a reunir-se do lado de fora da caverna  meia penumbra, an tes do alvorecer. Uma chuva fina e brumosa, que punha nas pedras e rvores uma luz 
cintilante, amontoava-se em diminutas gotculas nas barbas e cabelos das pessoas. Tnues nesgas da neblina que maciamene cobriam a montanha desciam, coleantes, 
acumulando-se nas reentrncias por onde passavam, enquanto massas mais densas de ruo tudo obscureciam, deixando visvel s os objetos mais prximos. De forma indistinta, 
na meia escurido erguia-se do mar de neblina o morro do lado este, ondulando nos limites da visibilidade.
     Na sombra da caverna, Ayla, deitada sobre suas peles, observava Iza e Uba se movendo silenciosamente, alimentando o fogo e fervendo gua para preparar o ch 
matinal. O beb, a seu lado, fazia em sonhos rudos de estar mamando. Ela no dormira a noite toda. A primeira alegria de rever Iza rapidamente degenerou num clima 
de ansiedade e tristeza. As tentativas iniciais de conversa logo esmoreceram, e as trs mulheres passaram aquele longo dia, depois da chegada de Ayla, confinadas 
dentro da fogueira de Creb, compartilhando seus desesperos atravs de olhares angustiados.
     Creb no havia posto os ps em seus domnios, mas Ayla surpreendeu uma vez seu olhar, quando ele saa da gruta para se juntar aos homens na reunio convocada 
por Brun. 
     Rapidamente, ele desviou os olhos de seu rosto suplicante, mas no antes de ela ver seu olhar lquido e doce cheio de amor e piedade. Quando, outra vez, ele 
entrou apressado na gruta, depois da conversa com Brun realizada num ponto retirado da caverna e os dois falando com gestos comedidos, ela e Iza trocaram olhares 
assustados e comoventes. Brun havia tomado sua deciso e Creb estava indo preparar a parte que lhe competia para sua efetivao. no voltaram, depois disso, a ver 
o feiticeiro.
     Iza trouxe o ch na velha cuja que por muitos anos pertencera a Ayla ese sentou em silncio a seu lado, enquanto a jovem bebia. Uba veio juntar-se s outras, 
mas apenas tinha sua presenapara oferecer como consolo.
     - Quase todos j saram.  melhor irmos tambm - gesticulou Iza, pegando a cuia da mo de Ayla.
     A moa fez que sim com a cabea, levantou e enrolou o filho na manta de carregar. Depois, apanhou a pele da cama e atirou sobre os ombros. Com os olhos brilhando 
e as lgrimas j prontas para correr, olhou primeiro para Iza, e depois para Uba. Soltando um grito de dor, atirou-se nos braos das duas. Por um instante, as trs 
ficaram abraadas. Em seguida, num passo arrastado e com o corao pesado, Ayla saiu da caverna.
     Olhando para o cho, vendo de vez em quando as marcas de um p ou de dedos, ou os contornos indistintos de algum calado, Ayla teve a estranha sensao de estar 
vivendo h dois anos, quando seguia Creb para enfrentar seu outro julgamento. Brun, naquela ocasio, devia me ter amaldioado para sempre, pensou consigo. Devo ter 
nascido para ser amaldioada. Por que teria de passar por tudo isso novamente? Desta vez, vou para o mundo dos espritos. Conheo uma planta que vai fazer eu e meu 
filho dormir e nunca mais acordar, no neste mundo. Faremos rpido a travessia e entraremos juntos no outro mundo.
     Ela foi para onde Brun se encontrava e deixou-se cair no cho, ficando a olhar aqueles ps j conhecidos, envolvidos por calados sujos de lama. J est ficando 
claro, o sol daqui a pouco vai aparecer. Brun precisa apressar- se, dizia consigo, quando sentiu a pancadinha no ombro. Vagarosamente, suspendeu os olhos para o 
rosto barbudo de Brun. 
     Este entrou direto no assunto.
     - Mulher, voc deliberadamente desafiou os costumes dos cls e deve por isso ser punida - disse, com gestos severos.
     Ayla fez sim com a cabea.
     - Ayla, mulher do cl, voc est amaldioada. Ningum ir v-la ou ouvi-la. Voc ficar em total isolamento, segundo reza a maldio feminina. no poder ultrapassar 
os limites da fronteira daquele que  o seu provedor, at que a prxima lua esteja na fase em que se acha agora.
     Ayla, espantada, sem acreditar, olhou para o chefe com uma expresso severa no rosto. A maldio feminina! no a de morte! Nada de ostracismo total e completo, 
um isolamento apenas nominal, trancafiada na fogueira de Creb! Que importncia havia, se ningum no cl reconhecesse sua existncia, ela tinha Iza,Creb e Uba. E 
passado este tempo poderia juntar- se ao cl como qualquer outra mulher. Mas Brun ainda no tinha terminado.
     - Como extenso do castigo, voc est proibida de caar e at mesmo de falar em caar, enquanto no tivermos voltado da reunio dos cls. At que as folhas 
hajam cado das rvores, no tem permisso para ir a nenhuma parte, a no ser que isto seja essencial. 
     Quando for procurar plantas para preparar as mgicas de curar, voc ter de me dizer aonde est indo e ter de voltar prontamente, logo que o servio esteja 
terminado. Jamais poder deixar o terreno da caverna sem me pedir licena. Outra coisa. Voc me mostrar o local onde se escondeu.
     - Claro, claro. Qualquer coisa - disse Ayla, concordando, eufrica, como se pisasse sobre nuvens. As palavras seguintes, entretanto, atingiram-na como uma cutilada 
de gelo, afogando sua alegria num mar de desespero.
     - Resta ainda o problema de seu filho deformado, a causa de sua desobedincia. Nunca mais dever tentar forar um homem a ir contra sua vontade, sobretudo um 
chefe. Nenhuma mulher deve tentar forar um homem a fazer o que ele no quer - falou Brun, fazendo em seguida um aceno.
     Ela apertava o filho olhando na mesma direo que Brun. no podia deixar que o levassem. Isso no. O Mog-ur saa da caverna. Ela, incrdula e com o rosto rubro 
de felicidade, viu o Mog-ur atirar a capa de urso para o lado, deixando  mostra a cesta de vime vermelho que trazia presa entre o cotoco do brao e a cintura. Hesitante, 
ela se voltou na direo de Brun, sem ter muita certeza se o que estava pensando seria verdade.
     - Mas a mulher pode pedir. O Mog-ur est esperando, Ayla. Se seu filho ir ser membro de nosso cl, ele precisa ter um nome - terminou Brun de dizer.
     Ayla se ps de p e correu para o feiticeiro. Caiu a seus ps, retirando o menino de dentro de sua capa e o levantou na direo dele. O berro agudo da criana, 
sada do calor do corpo materno para o exterior, frio e molhado, foi saudado pelos primeiros raios de sol que despontavam por cima do morro, escoando atravs do 
denso nevoeiro.
     Um nome! Ela nem chegara a pensar num nome, nem imaginava que nome poderia Creb ter escolhido para seu filho. Com gestos ritualsticos, o Mog ur invocou os 
espritos dos totens do cl para que assistissem aquela cerimnia. Em seguida, estendeu a mo para a cesta, retirando um pouco de pasta vermelha.
     - Durc - disse o Mog-ur em voz alta, sobrepondo-se ao berreiro fortedo zangado beb, que gritava por causa do frio. - O nome do menino  Durc.
     - Desenhou, ento, uma risca que partia do ponto mdio entre os dois olhos e ia at a ponta do pequeno nariz.
     - Durc - repetiu Ayla, segurando o filho apertado para aquec-lo. Durc, como o Durc da lenda, disse consigo. Creb sabe que sempre foi a minha histria preferida. 
Este no era um nome comum entre eles, e muitos se mostraram surpresos ao ouvi-lo. Mas talvez o nome, buscado l nas profundezas da histria e carregado de conotao 
dbias, fosse apropriado para um menino cujo incio de vida ficara pendente do fiel de uma balana to oscilante.
     - Durc - disse Brun. Ele era o primeiro da fila. Ayla pensou ter visto um brilho de ternura nas feies severas e orgulhosas do chefe, quando ela, agradecida, 
olhou para ele. A maioria dos rostos era vista como uma mancha atravs dos olhos embaados pelas lgrimas. 
     Por mais que tentasse, no conseguia cont-las, e manteve a cabea abaixada, fazendo esforo para esconder os olhos molhados. no consigo acreditar, no consigo, 
pensou. Ser mesmo verdade? Voc tem um nome, meu filhinho? Brun aceitou o meu beb? no estou sonhando? Lembrou-se, ento dos ndulos brilhantes de pinta que tinha 
em seu amuleto. 
     Era um sinal. Este foi um sinal de verdade, Grande Leo da Caverna. De todos os objetos guardados no amuleto, era o que mais prezava.
     - Durc ouviu Iza dizendo. Ayla levantou os olhos. A alegria no rosto da mulher, apesar de seus olhos enxutos, no era menor do que a que havia na face da jovem 
me.
     - Durc - disse Uba, e acrescentou com um gesto rpido: - Estou muito feliz.
     - Durc - ouviu Ayla o nome sendo dito em tom de escrnio. Levantou os olhos a tempo de ainda ver Broud dando as costas. Subitamente, lembrou- se daquela extravagante 
idia que lhe ocorreu quando se achava escondida na pequena caverna, a respeito da possibilidade de a vida dos bebs ser iniciada pelos homens. O pensamento de que 
Broud, de certa forma, pudesse ser responsvel pela concepo de seu filho f-la estremecer. Ela estivera muito ocupada consigo mesma e no tinha percebido a batalha 
muda travada entre Broud e Brun. O rapaz ia recusar-se a reconhecer o mais novo membro do cl e s o fez quando recebeu ordem expressa do chefe. Ayla observou-o 
afastando-se do grupo, com os punhos cerrados e as espduas contradas.
     Como pde fazer isso? dizia Broud consigo, enfiando-se pela mata para poder estar longe da cena odiosa. Como pde? Numa v tentativa de desafogar a frustrao 
ele deu um pontap num pedao de madeira, fazendo-o rolar pela encosta. Como pde? Apanhou, ento um galho grosso, pondo-se a bater com ele numa rvore. Como pde? 
Como pde fazer isso? A frase ficava martelando-lhe a cabea, enquanto dava golpes e mais golpes contra uma pequena subida, esmigalhando o seu revestimento de musgo. 
Como pde permitir que ela vivesse e ainda por cima aceitar seu filho? Como pde fazer isso?
     I za, Iza! Venha depressa! Venha ver Durc! - disse Ayla, agarrando o- brao da curandeira e arrastando-a da entrada para dentro da caverna.
     - O que aconteceu? - gesticulou Iza, apressando o passo para acompanhar Ayla. - Est sufocando outra vez? Machucou?
     - No. No est machucado. Olhe! - falou Ayla, orgulhosa; quando chegaram  fogueira de Creb. - Ele est com a cabea levantada!
     O menino estava deitado de barriga para baixo, olhando para as duas com seus olhos grandes e compenetrados, que comeavam a perder a cor escura e imprecisa 
dos recm-nascidos para ter o tom de marrom quase preto dos olhos das pessoas da raa dos cls. A 
     cabea oscilou com o esforo e depois voltou a cair sobre a manta de pele. Enfiou, ento a munheca na boca, pondo-se a sug-la ruidosamente, alheio ao rebulio 
que seus esforos estavam provocando.
     - Se ele consegue fazer isso ainda to pequeno, vai aguentar firmar a cabea quando crescer, no acha? - argumentou Ayla.
     - no se deixe levar muito pela esperana - respondeu Iza. - Mas j  um bom sinal.
     Creb entrou na caverna com uma expresso vaga, distante, parecendo nada ver. O olhar caracterstico que tinha quando se achava perdido em seus pensamentos.
     - Creb! - chamou Ayla, correndo em sua direo. Sacudido de seu mundo, o feiticeiro ergueu os olhos voltando  realidade. - Durc levantou a cabea, no  verdade, 
Iza?
     Iza confirmou.
     - Hummn! - grunhiu ele. - Se est ficando to forte assim, ento acho que j  tempo.
     - Tempo para qu?
     - Andei pensando e acho que deveria celebrar sua cerimnia de totem. Ele ainda  muito pequeno, mas algumas impresses muito fortes tm chegado a meu esprito. 
O totem dele se tem manifestado a mim. No h razo para esperar. Daqui a pouco todos vo estar muito ocupados, aprontando-se para a viagem, e a cerimnia deve ser 
realizada antes da reunio dos cl; no seria bom para o menino viajar com o seu totem ainda sem ter um lar. - Ao olhar para Iza, ele se lembrou de qualquer coisa. 
- Iza, voc tem quantidade que chegue de razes para a cerimnia? no sei quantos cl vam estar l. Da ltima vez, um dos cl que se mudou para uma caverna mais 
para leste estava pensando em ir  reunio dos cl ao sul das montanhas. A distncia  um pouco maior para eles, mas a viagem mais fcil. O velho Mog-ur estava contra, 
mas seu aclito queria ir. Trate de arrumar uma boa quantidade.- no vou  reunio dos cls Creb. - O desapontamento dela era visvel. - no posso fazer uma viagem 
to longa assim. Vou ter que ficar aqui.
     Claro, que bobagem a minha, pensou ele, olhando a figura magra de Iza, com os cabelos quase todos brancos. Iza no vai poder ir. Por que no pensei nisso antes? 
Ela est muito doente. Achei at que fosse nos deixar no ltimo outono. No sei como Ayla conseguiu bot-la de p. Mas, e a cerimnia? Somente as curandeiras de 
sua linhagem conhecem o segredo da bebida especial. Uba  muito pequena. Tem de ser uma mulher... Ayla! Sim, que tal Ayla? Iza poderia ensin-la antes de partirmos. 
De qualquer modo j  tempo de ela se transformar em curandeira.
     Creb observava Ayla, enquanto a moa se debruava para pegar o beb, vendo-a de repente sob um ngulo crtico como h muitos anos no o fazia. Mas ser que 
vo aceit-la? Tentava enxerg-la tal como os outros cl iriam v-la. Os cabelos dourados caam soltos ao redor de seu rosto chato, enfiados atrs das orelhas e 
partidos mais ou menos ao meio, deixando  mostra sua testa abaulada. O corpo era sem dvida o de uma mulher, porm mais delgado, fora a barriga um pouco flcida. 
As pernas eram longas e retas e, de p, muito mais alta do que ele.
     No se parece com uma mulher dos cl pensou. Vai atrair ateno de mais e tenho medo de que isso no lhe seja muito favorvel. Parece que o melhor a fazer  
esquecer esta cerimnia. Os outros mog-urs podem no aceitar a bebida preparada por Ayla. Bem, mas no custa tentar. Se ao menos Uba fosse um pouquinho mais velha. 
Talvez Iza possa ensinar as duas, se bem que no acredito que eles aceitem tanto uma menina como uma mulher nascida dos Outros. Acho que vou ter uma conversa com 
Brun. Em todo o caso, se vou ter de invocar os espritos para a cerimnia de Durc, podemos aproveitar a ocasio para fazer de Ayla uma curandeira.
     - Preciso ver Brun - gesticulou de repente Creb, indo para a fogueira do chefe, mas antes ainda se virou para Iza, dizendo: - Acho que voc deveria ensinar 
as duas a fazer a bebida. ayla e Uba, s que no sei se vai adiantar muito.
     

***

Captulo 22

     - Iza, no consigo encontrar a bacia que voc me deu para dar  curandeira do cl hospedeiro - gesticulou Ayla, afobada depois de ter revistado pilhas de comidas,
peles e uma srie de utenslios amontoados no cho, perto do seu lugar de dormir.
     - J olhei por tudo quanto  canto.
     - Voc j embrulhou, Ayla. Calma, menina, ainda h tempo. Brun s vai sair depois que acabar de comer. O melhor  voc se sentar e tambm comer. Seu mingau 
est esfriando. 
     Uba, voc tambm. Nunca vi tanta confuso. Passamos todas as coisas em revista ontem de noite. Est tudo pronto.
     Creb estava sentado sobre a esteira com Durc no colo, observando, divertido, o nervosismo dos ltimos momentos.
     - Elas no so diferentes de voc, Iza. Por que voc tambm no se senta e come?
     Iza.
     - Vou ter tempo de sobra depois de vocs terem partido - respondeu
     Creb apoiou Durc contra o ombro que, naquela posio vantajosa, ps- se a observar o ambiente a seu redor.
     - Veja como o pescoo do beb est forte - observou Iza. - Ele j no tem a mnima dificuldade em ficar com a cabea levantada.  incrvel, desde a sua cerimnia 
de totem, dia a dia, vai ficando mais forte. Deixe-me segurlo. no vou poder pegar nele durante todo esse vero.
     - Talvez seja por isso que o Lobo Prateado me apressou para celebrar a cerimnia dele - gesticulou Creb. - Ele estava querendo ajudar o menino.
     Creb se recostou, pondo-se a observar sua pequena prole. Ele estava ali como o patriarca. 
     Embora nunca houvesse falado, sempre almejou ter uma famlia como a dos outros homens. Agora, na idade avanada, tinha duas mulheres adorveis que faziam tudo 
o que podiam por seu conforto, uma menina que ia no mesmo caminho das outras e um garotinho para ninar, tal como j tinha feito com as duas meninas. Ele havia conversado 
com Brun a respeito da educao de Durc. O chefe no podia permitir que um membro varo do seu cl crescesse sem as qualificaes necessrias a um caador. Quando 
aceitou Durc, sabia que a criana iria viver na fogueira de Creb e se sentia responsvel por ela. Ayla ficara muito agradecida a Brun, quando este, durante a cerimnia 
do totem de Durc, anunciou que ele, pessoalmente, se encarregaria do treinamento do menino, no caso de ele se tornar suficientemente forte para caar. E ela no 
podia pensar em ningum melhor para educar seu filho.
     O Lobo Prateado  um bom totem para menino, disse Creb consigo, mas isso me faz pensar. Alguns lobos andam em bandos e outros so solitrios. Qual deles seria 
o totem de Durc?
     Depois de tudo embrulhado e posto em trouxas bem amarradas nas costas de Ayla e Uba, eles vieram todos juntos para fora da caverna. Iza deu um ltimo abrao 
em Durc, com o nariz colado no seu pescoo. Ajudou Ayla a enrol-lo na manta de carregar bebs e tirou alguma coisa de dentro da dobra de sua roupa.
     - Isso  para voc levar, Ayla. Voc  agora a curandeira do cl - falou ela, dando-lhe o saco vermelho que guardava as razes especiais. - Vocs se lembram 
de cada uma das coisas que tm de fazer? Nada pode ser esquecido. Eu queria mostrar como se faz, mas essa mgica no pode ser preparada fora das ocasies especiais. 
Ela  sagrada demais e no pode ser jogada fora ou usada em qualquer cerimnia. S naquelas que so muito importantes. E no se esqueam disso, no so apenas as 
razes que fazem a mgica. Vocs devem se arrumar com o mesmo cuidado com que preparam a bebida.
     Uba e Ayla balanavam a cabea dizendo ter entendido, enquanto Iza apanhava a preciosa relquia e a metia dentro da sacola de remdios. No dia em que Ayla se 
havia tornado curandeira, Iza lhe dera sua bolsa de pele de lontra que a fazia lembrar-se da outra que Creb queimara. Ayla pegou no seu amuleto apalpando o quinto 
objeto que passou a carregar dentro dele: um pedao preto de dixido de mangans, que se foi juntar aos trs ndulos de pirita de ferro ao ovo vermelho de marfim, 
ao fssil de um gastrpode e ao torro de ocre.
     O corpo de Ayla, no dia em que ela se tornou repositrio de uma parte dos espritos de cada membro do cl e, atravs de Ursus, de todos os cls espalhados pelo 
mundo, fora ungido com um unguento feito do p de uma pedra negra misturado com gordura. Somente para os ritos mais sagrados e importantes o corpo da curandeira 
era estampado com desenhos pretos e somente as curandeiras carregavam uma pedra negra em seus amuletos.
     Ayla desejava que Iza pudesse ir com eles e estava preocupada em dei x-la. Frequentemente, acessos de tosse estavam fazendo sacudir o corpo frgil da mulher.
     - Iza, tem certeza de que vai ficar bem? - gesticulou Ayla, depois de lhe dar um abrao rpido. - Sua tosse est pior.
     - Sempre piora no inverno, mas depois melhora no vero. Alm disso, voc e Uba pegaram tantas razes de nula que imagino no ter sobrado mais nenhum p por 
aqui. 
     Provavelmente no vai haver tambm nesta estao framboesas pretas, com todas aquelas razes que vocs duas trouxeram para misturar com as flores de meu ch. 
Vou ficar muito bem. no se preocupem comigo - assegurou Iza.
     Ayla, porm, sabia que o alvio dado pelos remdios, na melhor das ipteses, era temporrio. H anos que Iza vinha se medicando com suas plantas. A tuberculose 
estava avanada demais para que sua medicina pudesse produzir algum efeito.
     - no deixe de sair quando fizer sol e trate de descansar bastante - insistiu Ayla. - no vai haver muito o que fazer por aqui e h muita comidae lenha. Zoug 
e Dorv podem manter a fogueira acesa para espantar os bichos e os maus espritos. A cozinha, voc deixa por conta de Aba.
     - Est bem, est bem - concordou Iza. - V depressa agora. Brun est pronto para partir.
     Ayla tomou o seu lugar de sempre na retaguarda, enquanto todos olhavam para ela esperando.
     - Ayla - gesticulou Iza - ningum vai andar enquanto voc no for para o seu lugar certo.
     Envergonhada, Ayla se dirigiu para a frente do grupo das mulheres. Ela se tinha esquecido de seu novo status. Com o rosto vermelho de embarao, postou-se no 
primeiro lugar da fila,  frente de Ebra. Sentia-se sem jeito, no lhe parecendo justo ocupar a primeira posio Acenou, ento para a companheira do chefe pedindo 
desculpas, mas Ebra j estava acostumada com o seu segundo lugar. No entanto, estranhava ter Ayla na frente e no Iza. 
     Ser que ainda terei mais uma reunio de cl depois desta? perguntou-se.
     Iza e os outros trs que j estavam velhos demais para a viagem acompanharam o cl at o morro e de l s saram quando avistavam apenas um pequeno ponlinho 
na plancie embaixo. Voltaram, ento para a caverna vazia. Aba e Dorv haviam perdido a ltima reunio de cl e estavam quase surpresos por estar perdendo uma outra, 
mas, para Zoug e Iza, aquela era a primeira vez. Apesar de que Zoug, ocasionalmente, ainda sasse com sua funda, cada vez mais estava voltando de mos vazias, e 
quanto a Dorv, ele enxergava muito pouco para poder sair.
     Os quatro, embora estivesse quente o dia, se encolheram ao redor da fogueira na entrada e ali permaneceram sem fazer qualquer tentativa para iniciar alguma 
conversa. Subitamente, Iza foi acometida por um acesso forte de tosse que desprendeu uma massa de catarro sangrento. Foi para sua fogueira descansar e, pouco depois, 
os outros estavam entrando na caverna, cada qual indo para a respectiva fogueira, onde ficaram sentados sem fazer nada. Eles no se viram envolvidos pelo clima de 
excitao de uma longa viagem ou da expectativa dos reencontros com parentes e amigos de outros cl. Sabiam que teriam um vero triste, insuportavelmente solitrio.
     A temperatura fresca de princpio de vero na regio temperada em que se si tuava a caverna se modificava na plancie aberta das estepes continentais do lado 
este. O verde exuberante das folhagens que revestia os arbustos e as velhas rvores desaparecia, revelando-se apenas no nascer sazonal dos pinheiros com seus vrtices 
em tons mais claros. 
     Em compensao razes, brotos novos e pastagem batendo  altura do peito, cujo verdor juvenil perdera-se numa cor indefinida entre o verde e o amarelo, estendiam-se 
at o horizonte. A vegetao densa e emaranhada da estao passada amortecia os passos, enquanto o cl ia seguindo seu caminho atravs da pradaria sem fim, deixando 
atrs de si uma onda denunciadora de sua passagem. Raramente, alguma nuvem manchava o cu a perder de vista, por causa de umas poucas tempestades e, assim mesmo, 
vistas quase sempre ao longe. A gua na superfcie era escassa. Paravam em todos os rios que encontravam para encher os cantis, nunca sabendo se achariam algm 
no lugar em que acampariam para dormir.
     Brun marcou o ritmo de seu passo, levando em considerao os mem bros mais lentos do grupo, mas sem deixar de pression-los a ir sempre em frente. Teriam que 
percorrer um longo caminho at chegar  caverna do cl hospedeiro, no alto das montanhas do territrio continental a leste. Era uma dura jornada, principalmente 
para Creb, mas a expectativa da grande reunio e das cerimnias que iria presidir levantava seu nimo, dando-lhe foras. 
     Apesar de ter o corpo aleijado e atrofiado e, ainda por cima, devastado pela artrite, isso em nada diminua o poder mental do grande feiticeiro. O sol quente 
e as plantas analgsicas de Ayla ajudavam a aliviar as dores em suas juntas e, aps algum tempo, o exerccio fortaleceu-lhe os msculos, mesmo os da perna de que 
ele pouco se servia.
     Os viajantes entraram numa rotina montona, um dia fundindo-se no outro com enfadonha regularidade. O avano na estao se fazia to gradual mente que mal perceberam 
quando o sol se converteu numa bola de fogo abrasadora que torrava a plancie, fazendo dela uma paisagem monocrmica de terra amarelada, relva pardacenta e rochedos
beges contra um cu empoeirado num tom opaco, quase amarelo. Por trs dias tiveram os seus olhos ardendo com a fumaa e cinzas que as correntezas de vento traziam
de um incndio que varrera a plancie.  medida que iam caminhando, passavam por dezenas de milhares de animais alimentados pelas pastagens da plancie: imensas
manadas de bises, cavalos, asnos, onagros e, mais raramente, bandos de antilopes saigas, com os seus cornos crescendo retos na parte superior da cabea e ligeiramente 
curvos na ponta.
     Bem antes de aproximar-se do istmo pantanoso que tanto servia como ponto de unio da pennsula com o continente, como de escoadouro para o mar, a noroeste, 
de guas salgadas e pouco profundas, avultou-se diante deles o macio de montanhas cuja altura era superada apenas por outra no mundo. Mesmo os picos mais baixos
revestiam-se de neves eternas que chegavam at a metade das encostas, glacialmente impassveis diante do calor caustican te na plancie. Quando o nvel da pradaria
comeou a fundir-se com o das colinas pequenas e arredondadas, entremeando capim-do-prado e estipe com o vermelho do minrio de ferro - o ocre na cor sagrada que 
fazia dali um terreno santo - Brun compreendeu que a parte pantanosa e salgada j no devia estar muito distante. Esta era uma ligao secundria e mais estreita, 
pois a conexo principal da pennsula com as terras continentais era a que ficava mais ao norte, formando parte do limite ocidental do mar interno menor.
     Por dois dias, lutaram na travessia do pntano ptrido, infestado de mosquitos, de guas estagnadas, cortado por uns poucos canais, antes de alcanarem o territrio 
continental. 
     Crpeas e carvalhos raquticos foram logo sucedidos pelas sombras frescas e bem-vindas de um bosque de belos carvalhos. Passaram por um outro bosque quase exclusivamente 
composto de faias e umas poucas nogueiras e entraram numa floresta de espcies variadas, onde, alm dos carvalhos em predominncia com os seus troncos ornados de 
heras e clematites, viam-se buxos e teixos. Os cips foram rareando, mas ainda subiam por uma ou outra rvore, quando eles atingiram uma zona com abetos e pinheiros 
misturados com as faias, bordos e crpeas. A parte ocidental da cadeia de montanhas era a mais mida, densamente coberta por florestas e on de a linha de neve se 
encontrava mais baixa.
     Ali, surpreenderam bises da floresta, veados, cabritos monteses e alces. Viram javalis, raposas, texugos, lobos, linces, leopardos, onas e muitos outros animais 
de pequeno porte, mas nenhum esquilo. Ayla sentia estar faltando qualquer coisa na fauna daquelas montanhas, at que deu pela ausncia da quele pequenino bichinho 
familiar, a qual, no entanto, foi amplamente com pensada pela primeira viso do urso da caverna.
     Brun ergueu a mo para cima em sinal de parada, depois apontou para a frente na direo de uma monstruosa massa de plos que esfregava as costas contra uma 
rvore. At mesmo as crianas perceberam o temor com que os adultos encaravam o enorme vegetariano. Sua presena fsica era impressionante. Os ursos marrons, existentes 
tanto nas suas montanhas como naquelas, pesavam em mdia 150 quilos, enquanto o peso do urso macho da caverna, durante o ver quando estava relativamente magro, 
chegava perto de 500 quilos. No final do outono, depois de ter acumulado gordura para enfrentar o inverno, possua volume bem mais avantajado. Era trs vezes mais 
alto do que os homens do cl e, com sua imensa cabea e seu manto de plo alto, parecia ter um volume ainda maior. Ali, preguiosamente coando as costas num velho 
tronco de rvore, mostrava-se alheio s pessoas,  pequena distncia dele, inteiramente paralisadas em suas pernas. Ele no tinha muito por que ter medo, simplesmente 
ignorava presenas estranhas. Sabia-se que os ursos marrons que habitavam os terrenos perto de sua caverna eram capazes de, com um nico murro dado com a pata dianteira, 
quebrar o pescoo de um possan te veado. O que, ento no faria aquele ali? Somente um outro macho, durante a poca do cio, ou a fmea da espcie querendo proteger 
seus filhotes - ousava enfrent-lo. A fmea, por sinal, invariavelmente levava a melhor.
     Entretanto, no era apenas a fantstica estatura do animal que deixavam o cl inteiramente petrificado. Ali, achava-se Ursus, a figura que personificava os 
cl. Era um parente deles, e at mais ainda, incorporava-lhes a prpria essncia. Seus ossos eram to sagrados que tinham fora para desviar o mal. O parentesco 
que sentiam era um elo espiritual, muito mais significativo do que o de sangue. 
     Atravs do esprito de Ursus, todos os cls se uniam num s, e a reunio a que iam agora assistir, depois de uma longa viagem, devia a ele sua significao. 
Era a sua essncia que os tornava a raa dos cls, os Cls do Urso da Caverna.
     O urso cansou de coar-se - ou talvez as comiches tivessem acabado - ergueu-se em posio ereta, deu alguns passos usando s as patas traseiras e, depois, 
apoiando-se sobre as quatro, com o focinho perto do cho, afastou-se num galope desajeitado e pesado. Apesar de seu enorme volume, o urso da caverna era basicamente 
um animal pacfico e raramente atacava, a no ser quando provocado.
     - Era Ursus? - perguntou Uba, maravilhada e em alvoroo.
     - Sim, era Ursus - confirmou Creb. - E voc ver um outro urso da caverna, quando chegarmos ao cl hospedeiro.
     -  verdade que o cl que nos vai hospedar tem um urso da caverna vivo preso numa jaula? - perguntou Ayla. - Este  muito grande. - Ela sabia que era costume 
do cl que sediava a reunio criar enjaulado um filhote de urso da caverna.
     - Provavelmente, ele est nesse momento numa jaula do lado de fora da caverna, mas, quando era pequeno, vivia dentro de casa com as pessoas e era criado como 
uma criana, com todo mundo lhe dando comida na boca. Quase todos os cls afirmam que seus ursos da caverna chegam at a falar alguma coisa. no posso dizer se  
verdade. no me lembro muito disso. Depois de o urso j meio crescido, ele  aprisionado para que no possa ferir ningum, mas as pessoas continuam lhe dando muitos 
petiscos para comer e fazendo festinhas nele para que saiba que  amado. Na nossa reunio, ele ser festejado na cerimnia do urso e levar nossas mensagens para 
o mundo dos espritos - explicou Creb.
     Elas j haviam ouvido falar sobre isso, mas a viso de um urso da caver na vivo dava novo significado  histria, principalmente para aqueles que eram muito 
jovens para se lembrar ou que ainda no tinham comparecido a uma reunio dos cls.
     - Quando teremos uma reunio de cls em nossa caverna, para termos tambm um urso da caverna morando Conosco? - perguntou Uba.
     - Quando chegar a nossa vez, a no ser que na poca do cl designado, este no possa sediar a reunio. Mas quase nunca os cls deixam passar a opor tunidade 
de hospedar os outros, mesmo que os caadores tenham de fazer longas viagens para encontrai um filhote de urso da caverna e que seja muito grande o perigo que representa 
a me do ursinho capturado. O cl que agora est hospedando tem sorte. Ainda existem ursos da caverna vivendo perto deles. Os caadores daqui j ajudaram outros 
cls a pegarem ursos, mas agora chegou a sua vez. Onde moramos no sobrou nenhum, mas eles devem ter existido naquela zona, pois, quando encontramos a nossa caverna, 
os ossos de Ursus estavam l dentro - respondeu Creb.
     - E se alguma coisa acontecer ao cl que vai ser hospedeiro da reunio? O nosso cl, por exemplo, mudou de caverna - indagou Ayla. - Se fosse a nossa vez, como 
iriam saber onde estamos vivendo?
     - Enviaramos mensageiros aos cls mais prximos para espalhar a notcia, ou, ento, para comunicar que cederamos nossa vez para um outro cl.
     Brum acenou e todos se puseram novamente a caminho. Passando pela rvore usada pelo urso para coar-se, Creb a examinou muito detidamente e encontrou alguns 
tufos de plo ainda agarrados na casca do tronco. Ajudando com os dentes, ele os embrulhou numa folha e depois guardou numa dobra da roupa. O plo de um urso da 
caverna vivo era capaz de poderosos feitios.
     As gigantescas conferas nos sops das colinas logo foram sendo substitudas por uma variedade mais robusta e atarracada, enquanto eles ascendiam no terreno,
descortinando a magnfica vista de luminosos cimos montanhosos que viram de longe durante a travessia da plancie. Surgiram, ento, pequenos bosques de vidoeiros
ao lado de zimbros arrastando-se pelo cho e azalias cor-de-rosa abrindo-se em flores e espalhando suas cores brilhantes pelo verde forte das matas. E mais uma
enorme multiplicidade de flores silvestres que acrescentavam outros tons  palheta de cores vibrantes: lrios tigrinos pintados de laranja, aquilgias malvas e rosas, 
alfarrobas azuis e vermelhas, ris azuladas, gencianas azuis, violetas amarelas, prmulas rosas e o branco em todas as formas e intensidades. A cadeia de montanhas 
ao sul, tal como a outra na parte baixa da ponta da pennsula, as duas formadas segundo a mesma orogenia, constitua-se num refgio para a fauna e a flora nesse 
continente da idade glacial.
     Por vezes, surgiam-lhes pela frente alguma camura ou carneiros de grossos e pesados cornos. J estavam quase chegando taiga montanhosa com suas conferas 
ananicadas e raquticas que margeavam os altiplanos cobertos de capim e relva baixa, quando pegaram uma trilha feita pelas pisadas de muitos ps que estavam sempre 
atravessando o ngreme aclive. Os homens do cl hospedeiro eram obrigados a andar muito para poder chegar  plancie aberta que ficava ao norte das montanhas, mas, 
por outro lado, a proximidade dos ursos da caverna fazia daquela uma regio to afortunada que, de bom grado, aceitavam a inconvenincia. Isso os levava tambm a 
ser mais propensos  caa dos esquivos animais que habitavam as florestas.
     Ao ver Brun e Grod aparecerem numa curva da trilha, as pessoas correram para saudar a chegada do novo cl, mas pararam de repente ao avistar ayla. Mesmo com 
a educao de uma vida inteira no conseguiram impedir-se de lanar olhares escandalizados. A posio dela,  frente do grupo de mulheres, enquanto o cl, cansado 
da viagem, desfilava pela rea em frente da caverna, provocava rebulio e especulao de toda ordem. Creb j a havia avisado, mas ayla no esperava que fosse causar 
uma comoo to grande e tampouco estava preparada para enfrentar aquela multido. 
     Mais de 200 pessoas, com as fisiononiias espantadas, amontoavam-se ao redor, querendo ver a estranha mulher. A jovem nunca vira tanta gente reunida num s lugar.
     Brun e seu cl pararam em frente de uma enorme jaula feita com grossas estacas profundamente cravadas no cho e firmemente amarradas uma  outra. Dentro, achava-se 
um exemplar do urso que tinham encontrado no caminho, este at maior. Alimentado por trs anos a fio com constncia e fartura, o gigantesco urso da caverna se tornara 
um plcido e dcil animal que se recostava indolente e preguiosamente em sua jaula, quase gordo demais para se levantar. Manter o imenso animal por tanto tempo 
havia representado para o pequeno cl um trabalho de grande dedicao e amor reverente, no chegando a compensar o esforo e os muitos presentes - comidas, utenslios 
e peles - trazidos pelos cl visitantes. No entanto, no havia uma s pessoa que no invejasse o cl anfitrio, e cada cl aguardava ansioso sua vez de realizar 
a mesma tarefa, colhendo os benefcios espirituais e as honrarias do prestigioso evento.
     O urso da caverna se remexia dentro da jaula querendo ver o que estava causando tanta agitao, e Uba veio para mais perto de Ayla, to abismada com o urso 
como com as pessoas se acotovelando em volta. O chefe e o feiticeiro do cl hospedeiro se aproximaram, fazendo gestos de saudao, logo seguidos por uma pergunta 
pouco amistosa.
     - Por que voc trouxe algum dos Outros para a nossa reumio, Brun? - gesticulou o chefe do cl anfitrio.
     - Ela faz parte de nosso cl, Norg.  uma curandeira da linhagem de Iza - respondeu Brun, aparentando mais calma do que realmente sentia. Ou viram-se murmrios 
ao redor, enquanto as mos, excitadas, agitavam-se no ar.
     - Isso  impossvel! - gesticulou o mog-ur anfitrio - Como pode ser ela uma mulher dos cl. Ela nasceu dos Outros.
     - Ela pertence aos cls - falou o Mog-ur, to inflexvel quanto Brum. E encarou o chefe do cl hospedeiro com o seu olho lgubre. - Est duvidando de mim, Norg?
     O chefe, embaraado, olhou para o seu mog-ur, mas a expresso confusa neste no o ajudava em nada.
     - Norg, fizemos uma longa viagem e estamos cansados - disse Brun. - Este no  o momento apropriado para discutir o assunto. Voc nos nega sua hospitalidade?
     Era um momento de tenso. Se Norg os recusasse, a nica alternativa seria fazer o longo percurso de volta  caverna deles. A descortesia era grande, mas permitir 
a entrada de Ayla importava em aceit-la como uma mulher dos cl e isto, no mnimo, j estava dando uma vantagem a Brun. Norg olhou outra vez para o seu mog-ur e, 
em seguida, para o Mog-ur, o poderoso feiticeiro caolho e por fim novamente para o homem que era o chefe do cl visitante, ocupando a primeira posio  na hierarquia 
dos cl Se o Mog-ur assim o afir mava, que mais lhe restava fazer?
     Norg acenou para sua companheira, dizendo que mostrasse ao cl de Brun o lugar reservado a eles, e se ps a caminhar entre Brun e o Mog-ur. Logo que estivessem 
acomodados, iria descobrir como pde uma mulher visivelmente dos Outros ter-se transformado em algum dos cl
     A boca de entrada da caverna do cl anfitrio era menor do que a entrada da deles, e a caverna em si, ao entrar, parecia menor. Mas, ao invs de um enorme recinto 
com uma pequena gruta anexa para cerimnias religiosas, a caverna se constitua de uma srie de ambientes e tneis que penetravam no interior da montanha, a maioria 
ainda inexplorados. Havia espao mais do que suficiente para alojar os cl em visita, embora no fossem gozar das vantagens da luz vinda da entrada. O cl de Brun 
foi conduzido ao segundo ambiente, a partir da entrada, e ocupou ali todo um lado. Era um lugar privilegiado, correspondente  sua elevada posio na hierarquia 
dos cl Embora j houvesse vrios cl instalados mais para o fundo da caverna, aquele local lhes estaria reservado, enquanto no tivessem chegado para o Festival 
do Urso. Somente depois, quando se tivesse certeza de que no viriam para a reunio,  que o lugar seria dado a outro cl, conforme a ordem de importncia.
     Os cl como um todo no tinham um chefe supremo, mas havia uma hierarquia que os regulava, tal como a que regia os membros dentro de um cl em particular, e 
o chefe do cl de posio  mais elevada se convertia, de fato, no chefe dos cls, simplesmente por ser o membro mais importante de todos. No entanto, no havia nenhuma 
posio de absoluta autoridade. Os cl tinham autonomia suficiente para que isto no acontecesse. Todos eram chefiados por homens independentes e ditatoriais que 
estavam acostumados a ser, eles prprios, a lei, e que se encontravam a cada sete anos. Eles no se rendiam facilmente a uma autoridade superior, exceto quela que 
dizia respeito  tradio e ao mundo dos espritos. O lugar que competia a cada cl dentro da hierarquia e, consequentemente, ao homem que se reconhecia como chefe 
de todos os cls, era decidido nessas reunies.
     Muitos elementos contribuam para dar status a um cl. As cerimnias no eram a nica actividade do festival, as competies tinham igual, se no at maior 
importncia. A necessidade de cooperao dentro de cada cl para a sobrevivncia, que impunha uma srie de restries visando  autodisciplina, encontrava sua vlvula 
de escape nas competies endiredas. Estas, de maneira diferente, eram tambm necessrias  sobrevivncia. As disputas controladas evitavam que lutassem entre si 
e, quando se encontravam, quase tudo se tornava em objeto de competio. As modalidades competitivas dos homens incluam: luta-livre, arremessos com funda e boleadeiras, 
fora no uso da maa, corrida, corrida conjugada com estocadas de lana, fabricao de ferramentas, dana, narrao de histrias, e a combinao desses dois ltimos 
itens na dramatizao de cenas de caadas.
     Embora suas competies no tivessem o mesmo peso que as dos homens, as mulheres tambm davam sua contribuio. O grande banquete era excelente oportunidade 
para demonstraes de dotes culinrios. Os presentes trazidos para o cl hospedeiro eram primeiramente expostos  vista de todos, quando, ento, passavam por um 
julgamento crtico cujo resultado saa do consenso de opinies. Os artesanatos compreendiam: couros macios e flexveis; peles luxuosas; cestas impermeveis; recipientes 
de couro ou cortia; cordas tranadas com tendes, ou ento feitas de fibras vegetais ou de crina ani mal; 
     correias compridas e resistentes; bacias de madeiras bem polidas; pratos de osso ou de 
     madeira tirada das sees finas das toras; cujas, sopeiras, conchas e, mais ainda, 
     capuchos, chapus, calados, luvas, sacolas e at mesmo os bebs eram comparados. Entre as mulheres, a premiao no se fazia de forma concreta. Havia um procedimento 
mais  sutil, traduzido nas expresses, gestos ou posturas que discriminavam com finura - mas nem por isso numa distino perceptiva menos correta do trabalho medocre 
de um outro de boa quali dade - e os aplausos se faziam para aqueles que eram realmente bons.
     As posies referentes s curandeiras e aos mog-urs de cada cl eram tambm um fator na determinao do status deste. O prestgio de Iza e Creb muito contribuiu 
para que o cl de Brun ocupasse a primeira posio. Razes de tradio tambm influram: o fato de j encontrar-se nessa posio desde muitas geraes antes dele. 
Entretanto, ao assumir a liderana, isso represen tou apenas uma ligeira vantagem para Brun. Por mais importantes que fossem todos esses fatores, aquele que realmente 
decidia era a capacidade de liderana do chefe. E se a competio entre as mulheres se fazia de modo sutil, muito mais sutil ainda era o julgamento para se saber 
qual dos chefes seria o mais capaz e valoroso.
     Uma parte do julgamento dependia do desempenho dos homens nas competies, sendo essa uma maneira para avaliar a competncia do chefe em adestr-los e motiv-los. 
Outra dependia do quanto as mulheres se empenhassem em seus trabalhos e de como se comportavam, tambm um modo de demonstrar a mo firme daquele que detinha o poder. 
     Outra ainda baseava-se na devoo do cl s tradies, mas a posio do chefe e consequentemente a de seu cl dependia, sobretudo, da fora de seu carter. 
Brun sabia que estava se arriscando demais, e o fato de ter trazido Ayla j o fazia perder terreno.
     As reunies de cl eram tambm uma oportunidade para o restabelecimento de velhas amizades, rever parentes e contar histrias e fofocas que iriam animar as 
noites frias dos prximos anos. Alm disso, davam ensejo aos jovens, impossibilitados de achar parceiras no seu prprio cl, de rivalizarem- se nos galanteios, apesar 
de que as unies s se fariam se a mulher fosse aceita pelo chefe do cl do rapaz. Era uma honra para a moa ver-se escolhida, especialmente se o rapaz pertencesse 
a um cl com mais status do que o dela, embora a mudana representasse uma violncia e ela tivesse de separar-se das pessoas que lhe eram queridas. Mesmo com a recomendao 
de Zoug e possuindo o status da linhagem de Iza, era duvidoso, na opinio desta, de que Ayla fosse encontrar um companheiro. O fato de possuir um filho poderia facilitar, 
mas, deformado, frustrava todas as esperanas.
     Os pensamentos de Ayla andavam longe de tudo isso. Arrumar coragem para enfrentar aquela multido de curiosos, olhando desconfiadamente, j era um problema 
bastante grande. Ela e Uba haviam desfeito os embrulhos e organizado a rea da fogueira que seria o lar delas, enquanto durasse a visita. A companheira de Norg providenciara 
pilhas de pedras que deixou  mo para que se fizesse a demarcao das respectivas fogueiras, e os cantis estavam cheios de gua, tambm  disposio de quem quisesse. 
Ayla tomara todo o cuidado na arrumao dos presentes que trouxera para o cl, fazendo tal como Iza lhe recomendara, e a qualidade de seus trabalhos j comeava 
a atrair ateno. Ela lavou-se para tirar a sujeira da viagem, trocou a roupa por outra limpa, e depois foi amamentar o filho, enquanto Uba esperava impaciente. 
A menina estava ansiosa para explorar a rea prxima da caverna e ver as pessoas, mas relutava em enfrent-las sozinha.
     - Ayla - gesticulou - todo mundo j est l fora. no pode dar de mamar depois? 
     Prefiro muito mais estar sentada ao sol do que ficar dentro dessa caverna escura. Voc no?
     - No quero que Durc logo de sada comece a chorar. Voc bem sabe como ele berra alto. As pessoas podem pensar que no sou boa me - falou Ayla. - no quero 
que pensem pior de mim do que j esto pensando. Creb disse que iriam ficar surpresos quando me vissem, mas achei que eles no chegassem a ponto de pensar em no 
nos deixar ficar. E tampouco imaginava que fossem ficar me encarando desse jeito.
     - Mas deixaram, e depois que Creb e Brun acabarem de falar com eles, todos vo ficar sabendo que voc  uma mulher dos cl. Ande, Ayla. Voc no pode ficar 
presa nessa caverna para sempre. Mais cedo ou mais tarde vai ter de enfrentar toda essa gente. Depois de algum tempo, vo acostumar-se com voc do mesmo modo que 
ns. Afinal, no vejo tanta diferena assim. Eu realmente preciso pensar nisso para ver.
     -  que eu j estava no cl quando voc nasceu, Uba. E essas pessoas aqui nunca me viram antes. Bem, est certo.  melhor acabar com isso de uma vez. Vamos. 
No se esquea de trazer alguma coisa para o urso da caverna comer.
     Ayla se levantou, apoiou Durc contra o ombro e saiu dando-lhe tapinhas nas costas. 
     Passando pela fogueira de Norg, ela, respeitosamente, cumprimentou a companheira dele. 
     A mulher respondeu o gesto de saudao e logo voltou ao que fazia, de repente se conscientizando de que havia estado encarando algum. Ao aproximar-se da entrada, 
Ayla ergueu um pouco a cabea e respirou fundo. Estava resolvida a ignorar a curiosidade em torno dela. Era uma mulher dos cl e pertencia a estes tanto como qualquer 
um ali.
     Sua resoluo  foi posta a toda prova, quando veio para fora da caverna,  plena luz do sol. 
     Todo mundo havia encontrado alguma razo para ficar por perto da caverna, esperando a sada da estranha mulher. Muitos tentavam ser discretos, mas a maioria 
esqueceu ou ignorou as mais comezinhas regras de boas maneiras e se ps a encar-la, pasma, inteiramente boquiaberta. Ayla podia sentir o rubor no rosto. Mudou a 
posio de Durc no colo e passou a olhar para ele, no precisando enfrentar toda aquela multido de rostos virados em sua direo.
     Foi uma sorte ela olhar para o filho. A ateno passou a focalizar-se nele que, at ento passara meio despercebido, diante do impacto causado por sua apario. 
Gestos e certas expresses, alguns no muito discretos, deixavam bem claro o que pensavam de seu filho. 
     Ele no precisava ser igual a um beb dos cls, inclusive teria sido melhor aceito se fosse apenas parecido com ela. A despeito de tudo quanto Brun e o Mog-ur 
pudessem ter dito, Ayla era da raa dos Outros e o seu beb se ajustava ao mesmo molde. S que Durc tinha muitas caractersticas prprias da raa clnica que faziam 
suas peculiaridades parecerem anomalias. Ele era um beb visivelmente marcado por defeitos de nascena e que no deveria estar vivendo. Isso ento s vinha diminuir 
o prestgio de Ayla como tambm fazia Brun perder ainda mais terreno.
     Ayla deu as costas para todos aqueles rostos de bocas abertas e olhares desconfiados e foi com Uba para a jaula do urso da caverna. O animal ao v- las se aproximarem 
atravessou a jaula, vindo sentar-se com o brao estendido atravs das barras, esperando que lhe dessem alguma coisa gostosa para comer. As duas recuaram diante da 
monstruosa pata de garras grossas e curtas, mais apropriadas para escavar as razes e tubrculos de dentro da terra - o que constitua uma boa parte de sua alimentao 
- do que para levar sua massa enorme para cima das rvores. Ao contrrio dos ursos marrons, s os filhotes de sua raa eram geis e suficientemente pequenos para 
conseguir subir em rvores. Ayla e Uba puseram suas maas no cho da jaula, passando um pouco para dentro das grossas estacas, feitas com troncos de rvore de porte 
razovel.
     O animal, criado como uma criana muito querida que jamais passara fome em toda a vida, estava inteiramente domesticado e muito  vontade diante das pessoas. 
Inteligente, j havia aprendido que certas aes invariavelmente lhe traziam alguns bons petiscos extras. Ele se sentou e pediu mais. Ayla teria rido de seus trejeitos 
desajeitados, mas se conteve a tempo.
     - Agora entendo por que os cls dizem que os ursos da caverna falam - gesticulou para Uba. - Ele est querendo mais. Voc tem outra ma?
     Uba lhe deu uma fruta pequena e arredondada e Ayla desta vez foi at a jaula e lhe entregou na mo. O urso meteu a mao inteira na boca e veio de pois para 
perto das barras esfregar sua enorme cabea coberta de plos contra uma salincia num dos troncos.
     - Acho que est querendo que algum coce por voc, no , seu comedor de mel? - gesticulou Ayla. Ela fora avisada para nunca mencionar em sua presena os nomes 
urso, urso da caverna ou Ursus, pois, se ele fosse chamado por seus verdadeiros nomes, poderia lembrar-se de sua identidade e saber que no era um membro do cl 
que o havia criado. 
     Com isso, tornar-se-ia nova mente selvagem, podendo botar para perder a Cerimnia do Urso e acabando com a razo de ser daquele festival. Ela lhe coou atrs 
da orelha.
     - Voc gosta disso, no , dorminhoco? - gesticulou Ayla, estendendo a mo para coar atrs da outra orelha que ele virou em sua direo. - Se quisesse, voc 
mesmo podia coar suas orelhas. Voc s  preguioso? Ou ser que est querendo festinhas? Hem, seu manhoso?
     Ayla acariciava-o, coando-lhe a imensa cabea, quando Durc estendeu a mo querendo agarrar um punhado de plos e ela deu um passo para trs. J havia feito 
aquele mesmo tipo de carinho nos bichos que levava feridos para dentro da caverna deles e ela compreendeu que o urso era um animal como outro qualquer, s que maior 
e mais manso. Protegida pela forte jaula, imediatamente perdeu o medo, mas, quando se tratava de seu filho, a questo era outra. No instante em que o beb levou 
sua mozinha para pegar um punhado da cabeleira do urso, a imensa boca e as enormes garras se mostraram perigosas.
     - Como consegue chegar to perto dele, Ayla? - perguntou Uba, apa vorada. - Eu teria medo de fazer isso.
     - Ele no passa de um beb grando, mas me esqueci de Durc. O urso poderia machuc-lo, mesmo que fosse para fazer uma carcia amigvel. Ele parece com um beb 
s quando est pedindo comida ou querendo chamar ateno, mas no quero nem pensar no que  capaz de fazer, se ficar com raiva - dizia Ayla, enquanto se afastavam 
da jaula.
     Uba no era a nica admirada com a coragem de Ayla, todos os clalia- viam ficado observando-a. A maioria dos visitantes, principalmente no princpio quando 
chegavam, evitava passar por perto. Tornou-se, inclusive, um jogo entre a rapaziada ver quem punha a mo na jaula ou tocava no urso, como prova de coragem, e quanto 
aos homens, estes eram orgulhosos demais para, sentindo ou No, deixar transparecer algum medo. E no que dizia respeito s mulheres, fora as do cl anfitrio, poucas 
eram as que passavam por perto e nenhuma seria capaz, logo de sada, de meter a mo por entre as grades para acariciar o bicho. Era algo de inteiramente inesperado. 
Isso, no entanto, no os fez mudar de opinio sobre Ayla, mas os deixou curiosos.
     Depois de se haverem fartado bastante de olhar para Ayla, as pessoas foram se afastando, mas ela ainda se sentia olhada sub-repticiamente. Os olhares francos 
da crianada no chegavam a incomod-la. Nelas, era a curiosidade natural que toda criana tem por tudo quanto  fora do comum, sem a carga de reprovao ou desconfiana.
     Ayla e Uba se dirigiram para a sombra formada por uma rocha que ficava  margem do grande terreno em aclive e desmatado defronte da caverna. Dali, podiam observar 
discretamente as pessoas, sem transgredir as regras do bom-tom.
     Sempre houve uma intimidade de natureza muito especial entre as duas. Ayla havia sido irm, me e companheira de brinquedo da menina. Mas desde que a educao 
de Uba comeou a ser levada a srio e, sobretudo, depois que ela seguiu ayla at a pequena caverna, a amizade delas se transformou mais numa relao de igual para 
igual. Eram amigas ntimas. Uba j estava com quase seis anos, chegando  idade em que as meninas comeam a demonstrar interesse pelo sexo oposto.
     Sentaram-se na sombra fresca, enquanto Durc, entre as duas, deitava-se de barriga para baixo sobre a manta de carregar, agitando as pernas e os braos, com 
a cabea erguida para olhar em derredor. Durante a viagem, ele havia comeado a balbuciar, fazendo um tipo de rudo na garganta que jamais algum beb do cl fizera. 
Isso preocupava Ayla, mas, um tanto inexplicavelmente, tambm lhe agradava. Uba fazia comentrios sobre os garotos mais velhos e os rapazes, enquanto Ayla caoava 
com simpatia. Como se houvesse um acordo tcito, o assunto de um possvel companheiro para Ayla no era tocado, se bem que esta se achasse mais em idade para isso 
do que Uba. As duas se sentiam felizes por ter terminado a longa viagem e teciam conjeturas a respeito da Cerimnia do Urso, j que nem uma nem outra haviam estado 
antes numa reunio de cls. Enquanto conversavam, uma moa aproximou-se e, na linguagem formal conhecida por todos, perguntou se podia juntar-se a elas.
     Ayla e Uba a cumprimentaram. Era o primeiro gesto amistoso que recebiam. Um beb estava dormindo, seguro pela manta de carregar, e a moa no fez qualquer meno 
de acord-lo.
     - Esta mulher se chama Oda - gesticulou ela, depois de ter se sentado e indicando, ento, que gostaria tambm de saber o nome delas.
     - Uba. Esta menina se chama Uba e a mulher  Ayla.
     - Aai... Aaigla? Um nome muito diferente. - Oda falava num dialeto que era expressado por gestos um pouco diferentes, mas a essncia de sua conversa era perfeitamente 
compreensvel.
     - Este no  um nome dos cls - respondeu Ayla. Ela compreendia a dificuldade que tinham para pronunciar-lhe o nome e, mesmo no seu cl, havia alguns que no 
conseguiam diz-lo corretamente.
     Oda fez que sim com a cabea e levantou as mos como se fosse falar qualquer coisa, mas depois pareceu mudar de idia. mostrava-se nervosa, pouco  vontade. 
Por fim, fez um gesto na direo de Durc.
     - Esta mulher est vendo que voc tem um filho - falou, hesitante. -  menino ou menina?
     - Menino. Seu nome  Durc, como o garoto da lenda. A mulher conhe ce essa histria?
     Os olhos de Oda tinham uma curiosa expresso de alvio.
     - Sim. Conheo. No  um nome muito comum no cl desta mulher.
     - Nem tambm no nosso. Mas esta no  uma criana comum. Dure  diferente. Seu nome  muito apropriado - gesticulou Ayla, com um leve ar de desafio e orgulho.
     - Esta mulher tem uma criana.  menina. Seu nome  Ura - disse Oda. Ela ainda parecia nervosa e hesitante. Seguiu-se, ento, um silncio parecendo forado.
     - A menina est dormindo? Esta mulher gostaria de ver Ura, se a me permitir - perguntou por fim Ayla, sem saber o que dizer  mulher, cuja cordialidade se 
fazia to reticente.
     Por um instante, Oda pareceu ficar pensando no pedido. Em seguida, como se tivesse tomado uma sbita deciso, retirou o beb da manta e o botou nos braos de 
Ayla, que arregalou os olhos, estupefata. Ura era um bebezinho que no mximo deveria ter nascido h uma lua. Entretanto, no era o que espantava Ayla. Ura parecia 
com Dure! Parecia tanto com Dure que poderia ser tomada como germana deste. O beb de Oda poderia, inclusive, ser sua filha!
     A cabea de Ayla dava voltas. O impacto fora grande demais. Como uma mulher da raa dos cls poderia ter tido um beb que se parecia com ela? Achava que Durc 
fosse diferente porque ele tinha uma parte que era da raa dos cls e outra da dela, mas, neste caso, Brun e Creb  que deveriam estar com a razo durante todo esse 
tempo. Dure no era diferente como ela pensava, mas deformado, tal como o beb de Oda. Ela se via inteiramente confusa. Estava to infeliz que no conseguia pensar 
em nada para dizer. Uba, por fim, quebrou o longo silncio.
     - Seu beb parece com Durc, Oda. - Uba se esqueceu de usar a linguagem cerimoniosa, mas Oda compreendeu.
     A moa confirmou com a cabea.
     - Esta mulher ficou surpresa, quando viu o beb de aigla. Foi por isso que eu... que esta mulher quis conversar. Eu no sabia se o beb dela era me nino ou 
menina, mas estava querendo que fosse menino.
     - Por qu? - perguntou Ayla.
     - Minha filha  deformada - gesticulou Oda, sem olhar para Ayla. - Tenho medo de que ela no v conseguir companheiro quando crescer. Que homem iria aceitar 
uma mulher to deformada? - Ento, olhou para Ayla, com uma expresso suplicante. - Quando eu... - quando esta mulher viu seu filho, desejou que ele fosse homem 
porque... voc sabe, no vai ser fcil tambm para ele encontrar uma companheira.
     Ayla ainda no havia pensado nesse assunto. Oda tinha razo, ele poder ter problema para achar uma companheira. Entendia agora o motivo por que Oda se aproximara 
delas.
     - Sua filha  um beb saudvel? - perguntou. - Ela  forte?
     Oda olhou para as suas mos antes de responder.
     -  uma criana magrinha, mas tem boa sade. O pescoo  que  muito fraco - gesticulou. - Mas j est ficando forte - acrescentou, pondo nfase nos gestos.
     Ayla olhou com mais ateno o beb de Oda e depois pediu permisso para remover a manta. Ura era mais troncuda do que Durc, com uma constituio semelhante 
 dos bebs da raa dos cls, mas sua ossatura era mais delicada. Tinha a mesma testa alta e a mesma forma geral da cabea, s que os superclios se mostravam muito 
menos Salientes. O nariz era quase pequeno e j se podia perceber claramente que iria ter as mandbulas muito desenvolvidas e no possuiria queixo. O pescoo era 
mais curto do que o de Dure, mas sem dvida alguma bem mais comprido do que o de qualquer beb dos cls. Ayla suspendeu a menina, segurando automaticamente a cabea, 
e reparou nos seus esforos iniciais - que ,ela vira em Dure - para poder aguentar sua cabea sobre o pescoo.
     - O pescoo dela vai fortalecer, Oda. O de Durc era at mais fraco, quando ele nasceu, e olhe agora.
     - Voc acha? - respondeu Oda, animada. - Esta mulher pede  curandeira do primeiro cl para considerar esta menina como futura companheira de seu filho - falou, 
muito formalmente.
     - Acho que Ura dar uma boa companheira para Dure, Oda.
     - Ento seria possvel voc pedir a seu companheiro para que ele desse o seu consentimento?
     - No tenho companheiro - respondeu Ayla.
     - Oh, mas ento seu filho  infeliz - gesticulou Oda, desapontada. - Quem vai educ-lo, se voc no tem companheiro?
     - Durc no  infeliz - insistiu Ayla. - Nem todos os bebs nascidos de mulheres sem companheiros so infelizes. Eu vivo na fogueira do Mog-ur. Ele mesmo no 
caa, mas Brun prometeu que iria educar meu filho. Durc ser um bom caador e ir poder manter sua fogueira. Alm disso, o Mog-ur falou que o totem dele  o Lobo 
Prateado e este  um bom totem caador.
     - No tem importncia.  melhor um companheiro infeliz do que nenhum -. falou Oda, resignada. - Espero que voc tenha razo Nosso mog-ur ainda no revelou o 
totem de Ura, mas o Lobo Prateado tem bastante fora para enfrentar qualquer totem de mulher.
     - Menos o de Ayla - interps Uba. - O totem dela  o Leo da Caverna. Ela foi escolhida.
     - Como voc pde ter um beb? - perguntou Oda, espantada. - O meu  o Hamster, s que desta vez ele lutou demais. Com a minha primeira filha eu no tive tanto 
problema.
     - Tambm tive muitos problemas com a gravidez. Mas voc tem outra filha? Ela  normal?
     - Era. Agora, ela est caminhando no outro mundo - gesticulou Oda, com tristeza.
     - Foi por isso que deixaram Ura viver? Estou surpresa por terem permitido que voc ficasse com ela - observou ayla.
     - Eu no queria ficar com Ura, mas meu companheiro me obrigou. Este  o meu castigo - confessou Oda.
     - O seu castigo?
     - Sim - confirmou Oda, com a cabea. - Eu desejava ter uma menina e meu companheiro um menino. Isso porque eu adorava a minha primeira filhinha. Quando ela 
morreu, eu quis ter uma outra igual a ela. Meu companheiro disse que Ura nasceu deformada, porque tive maus pensamentos durante a gravidez. Ele acha que, se eu tivesse 
desejado um menino, meu beb seria normal. Obrigou-me, ento, a ficar com ela para que todos soubessem que no sou uma boa mulher. Mas ele no me passou adiante. 
Talvez porque ningum mais quisesse ficar comigo.
     - No acho que voc seja uma mulher to m assim - falou Ayla, com um olhar de d. 
     - Iza desejou uma menina, quando estava esperando Uba. Ela me disse que todos os dias pedia isso a seu totem. Como foi que sua filha morreu
     - Ela foi morta por um homem - disse Oda, ficando vermelha e se sentindo constrangida. - Ele se parecia com voc, Aaigla. Era um homem dos Outros.
     Um homem dos Outros?, disse consigo Ayla. Um homem que se parece comigo? A jovem sentiu um frio perpassando por sua espinha e os cabelos arrepiando; e percebeu, 
ento, a confuso em que se achava Oda.
     - Iza disse que eu nasci dos Outros, Oda, mas eu mesma no tenho qualquer lembrana deles. Agora perteno aos cls - falou, para anim-la. - Como foi que aconteceu?
     - Ns estvamos numa viagem de caada. Alm de mim, havia mais duas mulheres e os homens. Nosso cl vive ao norte daqui, mas naquela vez caminhamos muito mais 
para o norte. Nunca havamos ido to longe. Os homens saram cedo do acampamento e ns ficamos catando lenha e capim seco. Havia uma quantidade de varejeiras e ns 
tnhamos de conservar a fogueira sempre acesa para secar a carne. Inteiramente de surpresa, esses homens entraram em nosso acampamento. Eles queriam aliviar suas 
necessidades conosco, mas no fizeram nenhum sinal. Se tivessem feito, ns nos poramos em posio, mas no nos deram a menor chance. Simplesmente nos agarraram 
e nos jogaram no cho. Foram muito grosseiros. no deram nem tempo para que eu deitasse meu beb na terra. O que me agarrou, rasgou minha roupa e a manta, deixando 
o beb cair, mas ele no percebeu.
     - Quando terminou - continuou Oda - um outro homem j vinha me pegar. Foi ento que um deles viu o beb. Ele pegou minha filha do cho e me deu, mas ela j 
estava morta. 
     Havia batido com a cabea numa pedra, quando caiu. Depois, o homem que tinha visto minha filha disse uma poro de palavras em voz alta e todos foram embora. 
Quando os caadores voltaram, ns contamos o que tinha acontecido e eles imediatamente nos levaram de volta para a caverna. Meu companheiro foi muito bom para mim, 
depois que tudo isso aconteceu. Ele tambm ficou triste por causa da minha filha. Fiquei to feliz quando descobri que, logo depois de ter perdido minha filhinha, 
meu totem tinha sido outra vez derrotado. no deu nemtempo para que eu recebesse a maldio de mulher. Achei que meu totem tivesse ficado com pena por eu ter perdido 
o beb e por isso havia resolvido me deixar ter um outro para compensar o que eu perdi. Foi por esse motivo que pensei que deveria ter outra menina, s que nunca 
deveria ter desejado uma coisa dessas.
     - Lamento muito - disse Ayla. - Nem sei o que faria, se perdesse Durc. E uma vez quase que isso aconteceu. Vou falar com o Mog-ur sobre Ura. Tenho certeza de 
que ele vai conversar com Brun sobre o assunto e acho que nosso chefe concordar tambm. Um arranjo desses seria muito mais fcil do que tentar achar dentro do nosso 
cl algum para ser companheira de um homem deformado.
     - Esta mulher ficaria agradecida  curandeira e promete educar bem sua filha. Ela ser uma boa mulher, no como a me. O cl de Brun  o mais importante de 
todos, acho que meu companheiro vai concordar. Se souber que h um lugar para Ura no cl de Brun, talvez j no fique to zangado comigo. Ele est sempre me dizendo 
que minha filha ser para o resto da vida um fardo e que nunca conseguir qualquer status. E quando Ura ficar mais velha,vou lhe dizer que ela no tem de se preocupar 
por causa de um companheiro. A vida pode ser muito difcil para uma mulher, se nenhum homem quiser aceit-la.
     - Eu sei - disse Ayla. - Logo que eu possa, falo com o Mog-ur.
     Depois que Oda foi embora, Ayla ficou pensativa e preocupada. Uba percebeu que ela queria ficar em silncio e a deixou em paz. Pobre Oda, era feliz, tinha um 
bom companheiro e uma filha normal. Ento tiveram de aparecer esses homens e estragar tudo. 
     Por que, antes de mais nada, eles no fizeram o sinal? Ser que no podiam ver que Oda carregava um beb? Esses homens dos Outros so to ruins quanto Broud.
Piores at. Pelo menos Broud daria tempo para que ela pusesse seu beb no cho. Bah, os homens e suas necessidades! Homens dos Outros, homens dos cls, tudo a mesma
coisa.
     Perdida em conjeturas, seu pensamento foi-se encaminhando para os Outros. Homens dos Outros, homens que se parecem comigo. Quem so esses Outros? Iza disse
que nasci deles, por que eu no me lembro de nada? Nem sei que jeito eles tm. Onde ser que vivem?
     Tinha curiosidade de saber que aspecto tem um homem dos Outros. Lembrou-se de seu rosto refletido na gua e tentou imaginar um homem com sua cara. Mas quando 
queria pensar num homem, a imagem que lhe vinha  mente era a de Broud e, de repente, como se iluminado por um claro, todo um turbilho de idias confusas que giravam 
em sua cabea foi-se encaixando, fazendo sentido.
     Homens dos Outros! Claro! Oda disse que um deles aliviou suas necessidades nela e que, depois disso, no foi amaldioada nem uma vez. Foi ento que ela teve 
Ura, tal como eu tive Durc, aps Broud aliviar suas necessidades em mim. Aquele homem era dos Outros e eu tambm nasci dessa gente, mas Oda e Broud so ambos da 
raa dos cls. Nem Ura nem Durc so deformados. Durc tem uma parte que  minha e outra que  do cl, e a mesma coisa se d com Ura. Ou seja: uma parte dela  de 
Oda e a outra pertence ao homem que matou seu beb. Isso quer dizer que Broud comeou Durc... com o seu rgo, no com o esprito de seu totem.
     As outras mulheres que estavam com Oda no tiveram bebs deformados, mas se um beb fosse iniciado todas as vezes que os homens e mulheres fizessem isso, s 
haveria bebs nesse mundo- Contudo, talvez Creb tenha razo tambm. O totem da mulher precisa ser derrotado, s que ela no engole a essncia do totem, esta  posta 
por um homem com seu rgo, para depois misturar-se com a essncia do totem da mulher. no  somente a essncia dos homens que produzem bebs, a das mulheres tambm.
     Por que teve de ser Broud? Eu queria um beb, o meu Leo da Caverna sabia o quanto eu estava desejando um filho, mas Broud me odeia. E odeia Durc tambm. Mas 
podia ser algum mais? Nenhum outro homem est interessado em mim, eu sou muito feia. Broud s fez isto porque sabia que eu odiava a coisa. Ser que meu Leo da 
Caverna sabia que Broud iria vencer? A essncia dele deve ser muito forte. Oga j tem dois filhos. Brac e Grev tambm devem ter sido comeados pelo rgo de Broud, 
como Durc.
     Mas isso significaria que eles so germanos? Irmos? Como Brun e Creb? Brun tambm deve ter comeado Broud botando sua essncia dentro de Ebra. A no ser que 
isso tivesse sido feito por outro homem. Pode ser qualquer um. Mas, no  provvel. Em geral, os homens no fazem sinal para a acompanheira do chefe, seria uma descortesia. 
Broud no gosta de dividir Oga com os outros. Na caada do mamute, Crug estava sempre usando Ovra. Todo mundo via quando ele aliviava suas necessidades nela, e Goov 
se mostrava muito obsequioso. At Droog fez uma ou duas vezes a mesma coisa.
     Se foi Brun quem comeou Broud e se foi Broud quem comeou Durc, isso no significaria que Durc tem tambm uma parte de Brun? E ainda de Brac e Grev? Brun e 
Creb so germanos, nasceram da mesma me e provavelmente foram comeados pelo mesmo homem. Esse tambm foi chefe. Ento, isto faz com que Durc tambm tenha uma parte 
de Creb. E de Iza? Ela  germana. Ayla abanou a cabea. Tudo muito confuso, disse consigo.
     No entanto, fi Broud quem comeou Durc. Ser que meu totem induziu Broud a fazer o sinal para mim? Foi horrvel, mas isso pode ter sido um teste e. talvez, 
no houvesse outro jeito. Meu totem devia estar sabendo e planejou tudo. Ele viu o quanto eu queria um beb e me mandou aquele aviso para que eu soubesse que Durc 
iria viver. Se Broud soubesse dessas coisas, certamente ficaria furioso. Ele, que me odeia tanto, acabou me dando a coisa que eu mais queria no mundo.
     - Ayla - falou Uba, interrompendo a linha de pensamentos da outra. - Acabei de ver Creb e Brun entrando na caverna. Est ficando tarde e temos que comear a 
preparar alguma coisa para comer. Creb deve estar morrendo de fome.
     Durc cara no sono. Acordou quando Ayla foi peg-lo, mas logo voltou a dormir, enrolado na manta, sentindo-se bem aconchegado junto do corpo da me. Tenho certeza 
de que Brun vai deixar Ura vir para ser a companheira de Durc, pensou Ayla, enquanto voltavam para a caverna do cl anfitrio. Os dois so muito mais feitos um para 
o outro do que Oda imagina. Mas e eu? Ser que ainda vou encontrar um companheiro que seja tambm feito para mim?
     

***


***

Captulo 23
     
     Quando os dois ltimos cl chegaram, Ayla foi obrigada, embora em menor escala, a passar por uma segunda provao, igual quela que teve a saud-la na sua entrada. 
A mulher alta e loura era uma aberrao entre as quase 250 pessoas dos 10 cls l reunidos. 
     Por onde passava, chamava ateno, e cada um de seus atos era investigado minuciosamente. Entretanto, por mais anormal que parecesse, no se conseguia detectar 
nenhum desvio em seu comportamento e ela, por sua vez, tomava o mximo de cuidado para que tal no acontecesse.
     No deixava transparecer nenhuma daquelas caractersticas que lhe eram to peculiares e que ainda escapavam, quando se via no ambiente mais relaxado de sua 
caverna. No ria e nem mesmo chegava a sorrir. Nenhuma lgrima molhava-lhe os olhos. Nada de passadas desenvoltas ou movimentos livres de braos, balanando, traindo 
suas tendncias pouco femininas. Era o paradigma das virtudes clnicas, um exemplo da jovem matrona... e isso ningum reparava. Jamais algum, fora as pessoas de 
seu cl, tinha visto uma mulher que no agisse desse modo. Mas sua presena estava sendo aceita e, tal como Uba previra, comeavam a acostumar-se com ela. Alm do 
que, numa reunio de cls, havia tanta coisa a fazer que uma mulher sozinha de fora no era novidade suficiente que conseguisse prender a ateno por muito tempo.
     No era fcil manter, por um perodo muito prolongado, uma quantidade to grande de gente dentro dos limites fechados da caverna. Eram necessrias cooperao, 
coordenao e uma boa dose de cortesia. Os chefes dos 10 cls estavam muitssimo mais ocupados do que quando tinham apenas os membros de seus respectivos cls para 
se preocupar. O nmero de pessoas reunidas multiplicava os problemas.
     Alimentar aquela multido significava organizar expedio de caa. Se a hierarquia e as normas estabelecidas dentro de um s cl facilitavam a ordenao dos 
caadores, j dois ou mais cl reunidos geravam problemas. A posio hierrquica do cl determinava qual seria o chefe na combinao do grupo, mas qual dos homens 
ocupando o terceiro posto seria o mais competente? No princpio, tentaram diversos esquemas, sempre com o cuidado na troca de posies, de modo que ningum sasse 
ofendido. Depois de as competieshaverem comeado, j se tornava mais fcil; entretanto, nenhum grupo de caa saa sem antes decidir as posies referentes aos 
homens.
     As expedies das mulheres para colher plantas tambm levantavam problemas. No caso delas, era o fato de que havia muitas mulheres e todas querendo apanhar 
os melhores vegetais. Uma rea podia rapidamente ser devastada, sem que nenhuma voltasse com tudo que lhe era necessrio. A comida em conserva que haviam trazido 
consigo ajudava na alimentao de cada cl em particular, mas os alimentos frescos eram sempre mais apreciados. O cl hospedeiro, j prevendo o perodo de reunio, 
costumava por antecipao fazer suas coletas em terrenos afastados da caverna, mas, mesmo levando em considerao essa cortesia, nunca havia o bastante para satisfazer 
todas as necessidades. 
     Se, por um lado, as pessoas desse cl podiam armazenar comida para o inverno durante o tempo em que os Outros perdiam com a viagem,por outro, tinham de ter 
em estoque uma quantidade extra. Ao trmino da reunio, os terrenos dos arredores do cl hospedeiro estavam completamente desprovidos de plantas comestveis.
     A gua, procedente de um rio perto alimentado por uma geleira, era farta, mas o mesmo j no se podia dizer da lenha. A cozinha, a no ser que chovesse, era 
feita do lado de fora da caverna e de preferncia em conjunto por cl ao invs de cada fogueira ter a sua em separado. Contudo, o consumo de lenha era muito grande, 
e uma boa parte da madeira seca espalhada pelo cho e rvores que levariam vrias estaes para serem repostas foram consumidas. O meio ambiente, nas imediaes 
da caverna do cl hospedeiro, aps uma reunio de cls, jamais voltaria a ser o mesmo.
     O suprimento no era o nico problema a ser solucionado, o lixo era outro de igual importncia. Era preciso que se desse fim s sobras e aos detritos. Fora 
esse havia ainda o problema de espao. Era necessrio que se providenciasse no s espao no sentido de abrigo dentro da caverna, mas tambm espao para cozinhar, 
reunir, realizar as competies, danar, dar festas e, en fim, espao tambm para se locomover. Organizar todas essas actividades no era tarefa fcil. Cada uma 
delas implicava discusses e acordos interminveis, numa atmosfera carregada de espritos altamente competitivos. Os costumes e as tradies nesse momento representavam 
importante papel no amortecimento dos choques existentes, e era ento que a mente administrativa de Brun mais se salientava.
     No era apenas Creb o nico a apreciar as reunies de cls que lhe proporcionavam oportunidades para entrar em contato com os seus pares. Tambm Brun sentia 
grande prazer no desafio de se bater contra homens com igual poder ao seu. Essa era a sua competio: rivalizar-se com os outros chefes no exerccio da autoridade. 
A interpretao das velhas normas requeria comumente um esprito cheio de filigranas, alm de habilidade nas tomadas de decises e de fora de carter para mant-las 
ou saber ceder quando necessrio. No era sem razo que Brun se tornara o primeiro chefe em importncia. Ele sabia quando devia ser enrgico ou conciliador, ou quando 
precisava entrar em acordos ou permanecer isolado em sua posio. Sempre que os clss se reuniam, em geral surgia a figura de um homem forte capaz de fazer daqueles 
chefes, impregnados de autoritarismo, seres racionais e maleveis, pelo menos enquanto durasse a reunio. E Brun era essa figura, um papel que ele representava desde 
que se convertera no chefe de seu cl.
     Tivesse ele perdido seu prestgio, s o fato de duvidar de si mesmo jo levaria a perder vantagem sobre os outros. Sem uma base de segurana funda mentada no 
julgamento de sua prpria pessoa, a falta de confiana tornaria duvidosas as suas decises. Em tais circunstncias, seria impossvel enfrentar a reunio e os outros 
chefes. Foi, entretanto, justamente essa prtica do uso da fora conjugada com a transigncia - sempre dentro das rgidas estruturas da tradio clnica - que lhe 
permitiu fazer as concesses no caso de Ayla. E, uma vez passada a ameaa, ele comeou a v-la sob um novo ngulo.
     Ayla havia tentado forar uma deciso mas no fez uma coisa que estivesse fora dos costumes dos cl tal como ela os interpretava e, alm disso, sua causa no 
era de todo indigna. Certo, ela era mulher e tinha de entender qual o seu lugar, mas conseguira recuperar o juzo a tempo e reconhecer os erros que cometera. Quando 
Ayla lhe mostrou o lugar da pequena caverna, ele ficou espantado de que, nas condies de fraqueza em que se achava, a jovem tivesse conseguido chegar at o local. 
Ele se perguntava se um homem teria conseguido tal xito, nas mesmas cirtunstncias, e a masculinidade se media em funo da capacidade de suportar a dor e a adversidade. 
Brun admirava a tenacidade, a coragem e a capacidade de resistncia, trs virtudes que demonstravam fora de carter. 
     Apesar de Ayla ser mulher, ele lhe admirava a firmeza de esprito.
     - Se Zoug estivesse aqui, teramos ganho no tiro com funda - falou Crug.
     - Ningum iria conseguir bat-lo.
     - A no ser Ayla - comentou Goov, com gestos reservados. - Pena que ela no pudesse competir.
     - No precisamos de mulher para vencer - gesticulou Broud. - E de pois, o tiro com funda no conta tanto assim. Brun vai vencer o lanamento com boleadeiras. 
Ele nunca perdeu nessa modalidade. E temos ainda tambm a corrida com lana para ser disputada.
     - Mas Voord j ganhou a corrida simples, ele leva muita chance de ganhar esta tambm. 
     E Com, por sua vez, se saiu muito bem com a maa - comentou Droog.
     - Espere at chegar o momento de mostrarmos nossa caada de mamute. Nosso cl no pode deixar de vencer - contraps Broud.
     As reencenaes de caadas faziam tambm parte de muitas cerimnias e, s vezes, eram levadas sem qualquer preparao aps alguma caada particularmente emocionante. 
Broud tinha o maior prazer com essas representaes. O rapaz sabia que possua talento para evocar os momentos de dramaticidade e os estados de euforia vividos durante 
as caadas. 
     Alm do mais, adorava ver-se como centro das atenes.
     As reencenaes de caadas, entretanto, tinham um propsito bem mais importante do que a funo nica de espetculo. Eram sobretudo instrutivas. Com uma expressiva 
pantomima e uns poucos acessrios, eles expunham tcnicas e tticas de caa aos mais jovens e aos outros cl. Era um modo de desenvolver e tambm de compartilhar 
experincias. Se lhes perguntassem, responderiam que o grande prmio recebido pelo cl vencedor neste intrincado sistema de competies era status, vale dizer, o 
prestgio entre os seus pares. 
     Mas havia ainda outra recompensa, embora no reconhecida. As competies aprimoravam os requisitos necessrios  sobrevivncia.
     - Se voc comandar a dana, Broud, ns venceremos - disse Vorn, que era agora um garoto de 10 anos, quase chegando  idade viril e continuando com a mesma admirao 
pelo futuro chefe.
     - Pena que sua corrida no conte pontos, Vom. Fiquei observando, voc ia l na frente enquanto os outros vinham muito atrs. Bem, serve de treino para a prxima 
vez - falou Broud. O elogio deixou Vorn vermelho de felicidade.
     - Ns ainda levamos uma boa chance, apesar de que possa dar tudo errado - falou Droog. - Com  forte e, na luta-livre, ele se saiu muito bem contra voc, Broud. 
no tinha muita certeza se voc conseguiria venc-lo, O segundo de Norg deve estar orgulhoso do filho de sua companheira. Ele cresceu muito desde a ltima reunio. 
Tenho impresso de que  o homem de maior fsico por aqui.
     -  verdade que ele tem fora - falou Goov. - Mostrou isso quando venceu a competio de maa, mas Broud  mais ligeiro e quase to forte quanto ele. Com foi 
um segundo lugar quase primeiro.
     - E Nouz  bom com a funda. Ele observou Zoug na vez passada e deve vir treinando desde aquela poca. no estava querendo ser outra vez derrotado por um velho 
- acrescentou Crug. - Se treinou do mesmo jeito com as boleadeiras, pode dar trabalho a Brun. Voord corre rpido, mas acho que d para voc peg-lo, Broud. Este 
tambm foi um segundo lugar muito perto do primeiro. Voc estava s um passo atrs dele.
     - Droog faz as melhores ferramentas - gesticulou Grod, que poucas vezes fazia algum comentrio espontaneamente,
     - Uma coisa, Grod,  fazer uma boa coleo de peas e trazer para c, e outra  fabricar com todo mundo olhando. Vou precisar de sorte. Esse rapaz do cl de 
Norg tem muito talento - respondeu Droog.
     - Essa  a nica competio que o mais velho leva vantagem sobre o mais jovem, Doog. 
     Ele vai estar nervoso e voc j tem experincia de outras competies Consegue concentrar-se melhor - falou Goov, encorajando.
     - Mas sempre se precisa de sorte.
     - Todos vo precisar - disse Crug. - Continuo achando que o velho Dorv sabe contar uma histria melhor do que ningum.
     -  porque voc est acostumado com ele - gesticulou Goov. - Essa  uma competio muito difcil de julgar. Mesmo algumas das mulheres sabem contar uma boa 
histria.
     - Mas nunca conseguem ser to emocionantes como nossas danas sobre caadas. Acho que vi o cl de Norg conversando sobre uma caada de rinoceronte que eles 
fizeram, mas, quando me viram por perto, pararam de falar - gesticulou Crug. -  possvel que a exibio deles seja sobre essa caada.
     Oga se aproximou timidamente e fez sinais dizendo que a comida estava pronta. Eles acenaram, mandando-a retirar-se. Ela esperava que no demorassem muito para 
vir comer. 
     Quanto mais eles se retardassem, mais elas demorariam a ir juntar-se s outras mulheres contando histrias, e Oga no queria perder nenhuma. Em geral, eram 
as velhas que faziam o relato das histrias e lendas dos cl por meio de pantomimas e representaes teatrais. 
     Quase sempre eram histrias de teor educativo, mas que tambm entretinham algumas tristes, dilacerantes; outras, alegres, trazendo encantamento e motivao, 
e ainda as humorsticas que ajudavam a tornar menos ridculos seus prprios momentos embaraosos.
     Oga voltou  fogueira perto da caverna.
     - Tenho a impresso de que ainda no esto com fome.
     - Mas acho que acabaram resolvendo vir - falou Ovra. - S espero que no fiquem demorando muito para comer.
     - Brun tambm est vindo. A reunio dos chefes deve ter acabado, mas no sei onde est o Mog-ur - acrescentou Ebra.
     - Ele entrou cedo na caverna com os outros mog-urs. Devem estar na gruta dos espritos. Ningum pode saber quando vo sair l de dentro. Devemos esperar por 
ele? - perguntou Ika.
     - Eu separo alguma coisa para ele comer depois - falou Ayla. - Ele sempre se esquece de comer, quando est se preparando para alguma cerimnia. Est to acostumado 
a comer comida fria que chego a pensar que at gosta mais assim. Acho que no vai se importar de no esperarmos por ele.
     - Veja, j esto comeando. Vamos perder as primeiras histrias - gesticulou Ona, decepcionada.
     - No posso fazer nada, Ona - disse Aga. - no podemos ir enquanto os homens no terminarem.
     - Mas no vamos perder muitas, Ona - falou Uka, a ttulo de consolo.
     - Essas histrias vo continuar pela noite inteira. E amanh  os homens vo representar as melhores caadas que fizeram e eles nos deixar ver. No vai ser timo?
     - Gosto mais das histrias contadas pelas mulheres - falou Ona.
     - Broud disse que nosso cl vai levar a caada do mamute. Ele tem quase certeza de que vamos vencer. Brun deixou que ele conduzisse a dana - gesticulou Oga, 
com expresso orgulhosa.
     - Isso vai ser formidvel, Ona. Eu me lembro de que Broud, quando ficou homem, conduziu a dana de sua caada. Eu ainda no sabia falar e nem entendia nada, 
mas mesmo assim fiquei emocionada - comentou Ayla.
     Depois da comida servida, as mulheres esperaram impacientes, lanando olhares ansiosos para o grupo de mulheres reunidas num ponto afastado da clareira.
     - Ebra, v ouvir as suas histrias que ns temos certas coisas a tratar- gesticulou Brun.
     As mulheres pegaram os bebs, arrebanharam as crianas e se dirigiram ao grupo sentado em volta de uma velha que estava no momento principiando uma nova histria.
     -... e a me da Grande moontanha de Gelo...
     - Depressa - gesticulava Ayla. - Ela est contando a histria de Durc. No quero perder nem um pedacinho.  a de que eu mais gosto.
     - Todo mundo j conhece essa, Ayla - falou Ebra.
     As mulhers do cl de Brun arrumaram lugares para sentar-se e, instantes depois, j estavam presas  narrativa da velha.
     - Ela conta um pouco diferente - gesticulou Ayla, passado algum tempo.
     - Cada cl tem a sua verso e cada pessoa tem o seu jeito de contar, mas a histria  a mesma.  que voc est acostumada s com o modo de Dorv contar. Ele 
 homem e por isso sabe melhor como os homens pensam. Quando  uma mulher contando, ela fala mais sobre as partes que se referem s mes. No apenas da me da Grande 
moontanha de Gelo, 
     mas de como a me e de Durc e de todos os outros ficaram tristes quando eles deixaram o cl - respondeu Ika.
     Ayla se lembrou de que o filho de Ika morrera durante o terremoto. Ela tambm conhecia a dor da me que perde seu filho. A nova verso trouxe tambm para Ayla 
uma nova vista da histria. Por um momento, ficou com a testa franzida, preocupada. O nome de meu filho  Durc, espero que isso no signifique que algum dia eu v 
perd-lo. Abraou-se com o beb, No, no vai acontecer. Uma vez quase perdi meu filho, mas o perigo agora j passou? no ?
     Enquanto Brun calculava com muita ateno a distncia a separ-lo de um toco de rvore, perto da borda do terreno desmatado em frente da caverna, uma brisa 
isolada levantou alguns fios soltos de seu cabelo, refrescando por momentos sua testa suada. O que sobrara da rvore, os galhos podados, foi usado para construir 
uma parte da jaula do urso da caverna. A aragem apenas acariciava, sem trazer qualquer alvio ao sol da tarde sufocante, 
     incindin do sobre o ptio empoeirado. No entanto, a leve brisa chegava a ter mais movimento do que a multido que observava, tensa, alinhada na periferia.Brun, 
de p com as pernas afastadas, o brao direito pendente e segurando na mo a empunhadura das bolas, achava-se to imvel quanto os outros. As trs pedras arredondadas, 
ajustadas dentro de um envoltrio apertado de couro e ligadas por cordas de diferentes tamanhos, estavam cadas sobre o cho. Brun queria vencer essa competio, 
No s pelo fato de estar competindo - isso tambm era importante - mas porque precisava provar aos outros chefes que continuava mantendo a vantagem de sempre.
     Trazer Ayla  reunio lhe custara um alto preo. Compreendia agora que ele e seu cl estavam muito acostumados com ela. Ayla era algo extremamente anmalo para 
que as pessoas a aceitassem em to pouco tempo. At mesmo o Mog-ur estava tendo trabalho para manter-se em sua posio e ainda no conseguira convencer os outros 
mog-urs de que ela era uma curandeira da linha de Iza. Eles preferiam at passar sem a bebida especial de razes do que dar sua permisso para Ayla fabric-la. A 
perda do status de Iza representou a retirada de mais um dos alicerces que sustentavam a mais certa posio de Brun.
     Nas competies se no chegassem simplesmente em primeiro lugar, ele tinha certeza de que no teriam mais o status de primeiro cl. Embora ainda estivessem
concorrendo, o resultado estava longe de poder ser dado como certo. E ainda que vencesse as competies, nada assegurava que o cl continuaria na primeira posio, 
isso apenas o poria em igualdade com os demais. Havia ainda uma quantidade de outras variveis a considerar. O 
     cl hospedeiro sempre levava uma dianteira e, no caso, era o de Norg, aquele justamente que mais estava empenhado na luta. Se este pegasse um segundo lugar, 
Norg, com isso, j contava com bastante respaldo para ascender  primeira posio. Norg o sabia e era o seu oponente mais implacvel. Graas unicamente  sua grande 
fora de vontade, Brun vinha mantendo-se no seu posto.
     Brun semicerrou as plpebras mirando o toco. Esse movimento mnimo bastou para que metade dos observadores prendessem a respirao. No momento seguinte, a figura 
inteiramente parada converteu-se num movimento alucinante e as trs bolas, girando em torno de seu centro, voaram na direo do toco. No instante mesmo que as boleadeiras 
saram de sua mo, Brun sabia que perdera o tiro. As pedras bateram no alvo e depois saltaram mais adiante sem que as cordas houvessem enroscado nele. 
     Brun foi buscar sua arma, enquanto Nouz veio ocupar seu lugar. Se Nouz no atingisse o alvo de forma alguma, Brun venceria. Se batesse no toco, os dois teriam 
uma segunda chance, mas caso Nouz conseguisse enrolar as boleadeiras no toco, a partida era sua.
     Brun se ps de lado com o rosto impassvel, resistindo  vontade de levar a mo ao amuleto, limitando-se apenas a dirigir uma splica muda a seu totem. Nouz 
no teve os mesmos escrpulos. Segurou no saquinho de couro pendurado no pescoo, fechou os olhos e, em seguida, olhou para o toco. Subitamente, explodiu em movimento 
vertiginoso, fazendo as boleadeiras voarem. Apenas os longos anos de educao impediram Brun de deixar transparecer o desapontamento quando as boleadeiras se enrolaram, 
prendendo-se no toco. Nouz vencera, e Brun sentiu sua posio lhe escapando mais ainda.
     Permaneceu no seu lugar, enquanto trs panos de couro eram trazidos para o ptio. Um foi amarrado no pedao do tronco j apodrecido de uma enorme rvore cujo 
topo escalavrado era pouco mais alto do que os homens. Outro, foi posto por cima de uma tora e preso no cho com pedras. Era um tronco de tamanho regular, coberto 
de musgo, que se achava cado no cho, prximo  orla da mata; e o terceiro pano foi estendido sobre o cho e tambm preso com pedras. Os trs couros formavam um 
tringulo mais ou menos de lados iguais. Cada cl escolheu um homem para essa prova, os quais foram alinhar-se de acordo com a hierarquia clnica, perto do couro 
estendido no cho. Outros homens, carregando lanas - quase todas feitas de madeira de teixo, vidoeiro, faia ou salgueiro, que para isso tambm servia - dirigiram-se 
para os outros alvos.
     Dois rapazes provenientes de cls menos categorizados formaram a primeira parelha. 
     Esperavam lado a lado, tensos, com os olhos presos em Norg e cada um carregando uma lana. Ao sinal do chefe, eles se lanaram na direo do tronco em p, no 
qual enfiaram as lanas atravs do couro, mirando o ponto onde deveria estar o corao, quando a pele cobria o animal ainda vivo. Em seguida, apanharam uma outra 
lana com os seus companheiros de cl que aguardavam do lado do alvo. Correram para a tora cada, enterrando nesta a segunda lana. Quando chegou a vez de pegar 
a terceira, um deles estava nitidamente na dianteira. Esse correu em direo ao ponto de partida, onde se encontrava o couro estendido no cho e a fincou fundo 
a lana, procurando acertar bem no meio da pele, quando, ento, vitoriosamente, ergueu os braos.

     Depois de primeira fase eliminatria, sobraram cinco homens. Trs deles vieram postar-se para a segunda corrida, j agora de cls de maior categoria. quele 
que chegasse por ltimo, dava-se uma outra chance contra os dois restantes. E os dois que chegassem em segundo disputariam entre si, de modo a restar no campo trs 
homens para disputarem a final: os dois primeiros colocados dessas duas ltimas disputas, e o vencedor da primeira corrida. Os finalistas foram Broud, Voord e um 
homem do cl de Norg, chamado Gorn.
     Dos trs, apenas Gorn havia vencido quatro corridas para ter o seu lugar nas finais, enquanto os outros dois tinham disputado s duas e se achavam razoavelmente 
descansados. Gorn vencera o primeiro par nas eliminatrias, mas chegou em terceiro na corrida com os trs cls de status mais elevados. Ele tornou a correr com os 
dois ltimos homens e chegou em segundo. Disputou, ento, com o homem que foi o segundo colocado na corrida em que ele chegara em terceiro lugar, desta vez vencendo-o. 
Foi s por pura perseverana e fora de vontade que Gorn alcanara as finais, ganhando a admirao de todos que se achavam l.
     Quando os trs homens se alinharam para a corrida final, Brun foi para dentro de campo.
     - Norg - falou ele - penso que a corrida final teria resultado mais justo, se fosse atrasada para que Com pudesse descansar um pouco. Acho que o filho da companheira 
de seu segundo em comando merece isso.
     As cabeas balanaram em sinal de aprovao e a cotao de Brun subiu um pouco, embora isso fizesse Broud amarrar a cara. A sugesto punha seu cl numa posio 
mais difcil, fazendo desaparecer a possvel vantagem que Broud levava correndo com um homem j cansado, mas mostrava o senso de justia de Brum, e Norg no tinha 
por que se opor. Brun rapidamente havia pesado as duas alternativas possveis: Broud no vencendo, o cl estaria arriscado a perder sua posio; e ganhando, o seu 
manifesto esprito de justia lhe restituiria o prestgio, ao mesmo tempo que ele dava uma impresso de confiana que estava longe de sentir. Seria, alm disso, 
uma vitria limpa e j no haveria a desculpa de que Broud vencera pelo fato de Corri estar cansado. E, enfim, era o mais justo.
     J estava entardecendo quando todos voltaram a se reunir em volta do campo. A tenso relaxada durante o intervalo voltou a pesar, inclusive com mais fora. 
Os trs rapazes, agora bem descansados, exibiam-Se dando voltas, aquecendo os msculos e suspendendo as lanas para sentir seu ponto de equilbrio. Goov, com mais 
dois homens de outros cls, se dirigiu para o toco de rvore, e Crug, tambm na companhia de outros dois, encaminhou-se para a tora no cho. Broud, Com e Voord alinharam-se 
um ao lado do outro com os olhos fixos em Norg. O chefe do cl anfitrio levantou o brao e o abaixou de uma s vez, dando a partida.Voord saltou  frente com Broud 
em seus calcanhares, enquanto Gorn vinha atrs, dando o mximo que podia. Voord j estava pegando a segunda lana, quando Broud enfiava a sua no tronco de madeira 
podre. Gomn aumentou sua velocidade, pressionando ilroud na corrida em direo  tora no cho, mas Voord mantinha a dianteira. Ele ia cravar sua lana na tora coberta 
de couro, no momento exato em que Broud levantava a sua. Voord, no entanto, bateu num n da madeira e a lana se esborrachou no cho. Quando tornou a peg-la para 
enfi-la novamente, tanto Broud como Gorn j tinham passado  frente. Voord agarrou a terceira lana e os segurou, mas para ele a corrida j estava perdida.
     Broud e Gom, com as pernas bambeando e os coraes batendo forte, partiram para o ltimo obstculo. Gorn comeou  frente de Broud e passava a ganhar terreno, 
mas ao ver a figura daquele gigante espadado, fazendo-o comer a poeira de seus ps, Broud encheu-se de raiva. Tinha a impresso de que os pulmes iam estourar, 
enquanto se lanava adiante, forando cada msculo e nervo do corpo. Gom alcanou o couro estendido um instante antes de Broud e estava levantando o brao quando 
Broud se precipitou por baixo, fazendo a lana atravessar o couro e cravar-se no cho, ao mesmo tempo em que ele passava por cima da pele. A lana de Gom foi espetada 
na batida seguinte do corao, mas tarde demais.
     Quando Broud parou, os caadores do cl de Brum amontoaram-se a seu redor. Brun, com os olhos brilhando de orgulho, observava. Seu corao batia quase to forte 
quanto o de Broud. Ele sofrera junto com o filho de sua companheira cada instante da corrida. Durante alguns momentos de grande tenso, estava certo de que ele perderia, 
mas Broud dera tudo de si e ganhara. Fora uma corrida decisiva, mas, com essa vitria, suas chances melhoraram bastante. Devo estar ficando velho, pensou consigo, 
perdi o lanamento com as boleadeiras, mas Broud No. Ele ganhou. Talvez tenha chegado o momento de passar o controle do cl para ele. Poderia convert-lo no chefe, 
e dar a notcia aqui mesmo. Lutarei pela primeira posio do cl e deixo Broud voltar para casa com todas as honras. Depois dessa corrida, ele merece isso. E  o 
que vou fazer. Falarei com ele neste instante!
     Brun esperou at que os homens acabassem de dar parabns a Broud para ento aproximar-se, j antevendo a alegria do rapaz, quando soubesse da grande homenagem 
que seria prestada a ele. Era uma justa recompensa por aquela magnfica corrida. O maior prmio que poderia dar ao filho de sua companheira.
     - Brun! - Broud havia visto o chefe e falou primeiro. - Por que voc teve de atrasar a corrida? Eu quase perdi. Poderia ter vencido facilmente, se voc no 
tivesse dado tempo a Gorn para descansar. Voc no se importa com a posio do nosso cl? - gesticulou o rapaz, cheio de petulncia. - Ou ser porque voc j est 
velho demais para ser o chefe na prxima reunio? Se vou ser eu o chefe, o mnimo que voc poderia fazer era deixar o cl ocupando a primeira posio, do modo como 
voc o recebeu.
     Brun recuou, surpreso diante de tamanha virulncia. Fazia fora para controlar suas emoes contraditrias. Ser que no entende, ser que algum dia ir entender?, 
perguntava-se Brun. Este cl  o primeiro e dependendo de mim continuar sempre sendo. 
     Mas o que ir acontecer quando voc for o chefe, Broud? Por quanto tempo este cl continuar ocupando o primeiro posto? J no existia mais orgulho nos seus 
olhos e sim uma grande mgoa que procurava no deixar transparecer. Talvez Broud ainda esteja jovem demais, esteja precisando de um pouco mais de tempo, argumentava 
consigo - deve estar precisando ainda de um pouco mais de experincia. Ser que realmente expliquei direito as coisas a ele? Brun no queria lembrar-se de que, para 
ele, ningum havia explicado nada.
     - Broud, se Gom estivesse cansado, sua vitria teria sido a mesma? E se os outros cls achassem que voc s venceu porque o outro estava cansado? Desse modo, 
todos tm certeza de que voc de fato ganhou e isso se aplica tambm a voc. Mas voc se portou muito bem, filho de minha companheira - gesticulou Brun, com gentileza. 
- Fez uma bela corrida.
     Apesar da amargura, Broud continuava respeitando Brun mais do que qualquer outro homem que j conhecera na vida e no pde deixar de reagir com um pouco mais 
de simpatia. Naquele momento, tal como na caada de sua passagem, Broud sentiu que daria qualquer coisa para ter um elogio de Brun.
     - No tinha pensado nisso, Brun. Desse modo, ningum pode duvidar de que eu no tenha vencido. Agora sabem que sou melhor do que Gom.
     - Com essa corrida e Droog vencendo na fabricao de ferramentas e mais a vitria essa noite com a nossa representao da caada do mamute, tenho certeza de 
que chegaremos em primeiro - falou Crug, entusiasmado.
     - E voc ser um dos escolhidos para a Cerimnia do Urso, Broud.
     Enquanto caminhava para a caverna, outros homens foram se aproximando para lhe dar os parabns. Brun ficou observando Broud e depois viu Gorn seguindo atrs, 
cercado pelo cl de Norg. Um velho dava palmadas no ombro do rapaz, num gesto de encorajamento.
     O segundo de Norg tem motivos para estar orgulhoso do filho de sua companheira, pensou Brun. Broud pode ter vencido a corrida, mas tenho certeza de que Gorn, 
como homem,  melhor. Ele tinha conseguido apenas controlar sua mgoa, mas no venc-la. Embora se esforasse por sufocar a tristeza, a dor persistia. Broud continuava 
sendo o filho de sua companheira, o filho de seu corao.
     - Os homens do cl de Norg so caadores de coragem - admitiu Droog. - Foi um bom plano, esse de cavar um buraco no caminho que o rinoceronte usava para beber 
gua e depois cobri-lo de folhas. Talvez a gente possa tentar a mesma coisa algum dia. Foi preciso muita coragem para arrast-lo de volta, quando ele tentou fugir. 
Os rinocerontes so, s vezes, mais bravos do que os mamutes e muito mais imprevisveis. E os caadores de Norg representaram muito bem a caada.
     - Mas no chegou a ser to boa quanto a nossa caada do mamute. Todo mundo concordou - falou Crug. - Apesar de que Gom merecesse tambm ser escolhido. A luta 
quase toda foi entre Broud e Gom. Por um instante, tive medo de que no fssemos vencer a competio deste ano. O cl de Norg vem num segundo lugar muito perto de 
primeiro. O que voc acha do terceiro homem escolhido, Grod?
     - Voord se portou bem, mas eu teria escolhido Nouz - respondeu Grod. - E acho que Brun teria tambm preferido.
     - Foi uma escolha difcil, mas acho que Voord mereceu - comentou Droog.
     - Daqui por diante, enquanto o festival no terminar, no vamos ver muito Goov por aqui - disse Crug. - Agora que as competies acabaram, os aclitos vo ficar 
o tempo todo com os mog-urs. S espero que as mulheres no pensem que pelo fato de Brun e Goov no virem comer essa noite conosco, no tenham que fazer bastante 
comida. Vou tratar de comer bem hoje, at a festa amanh no vai haver, nada.
     - Acho que se estivesse no lugar de Broud, eu no iria ter vontade de comer nada - falou Droog. -  uma grande honra essa de ser escolhido para a Cerimnia 
do Urso, mas, se alguma vez Broud vai precisar ter coragem na vida, ser amanh. E vai precisar de muita.
     Os primeiros clares da manh j encontraram a caverna vazia. As mulheres estavam de p, trabalhando  luz vinda das fogueiras, e o resto das pessoas no conseguiu 
dormir. Os preparativos preliminares para a festa haviam consumido dias, mas isso no era nada em comparao com o trabalho que tinham pela frente. O dia ficara 
claro bem antes que o sol surgisse por cima dos cumes das montanhas, j alto no cu, quando banhava com o calor de seus raios os terrenos da caverna.
     A agitao era palpvel, e a tenso insuportvel. Uma vez terminadas as competies, os homens se achavam irrequietos, sem nada a fazer at que chegasse a hora 
das cerimnias, o estado de nervosismo e inquietao se transmitia aos meninos maiores que, por sua vez, deixavam os menores desassossegados, fazendo as mulheres 
se distrarem do trabalho, com um mundo de homens e crianas esbaforidas atravancando seus caminhos.
     A agitao diminuiu por algum tempo, quando elas distriburam bolinhos de fub com gua, assados sobre pedras quentes. A refeio matinal foi feita numa atmosfera 
de grande circunspeco. Esses bolinhos eram servidos s neste dia, a cada sete anos e, afora as crianas de peito, seria a nica coisa que iriam comer at o momento 
da festa. Era um alimento quase meramente simblico, servindo apenas para aguar o apetite. Quando a manh j ia pela metade, a fome, estimulada pelos deliciosos 
aromas vindos das muitas fogueiras, fazia aumentar a agitao levando,  medida que se aproximava a Cerimnia do Urso, o clima de ansiosa expectativa a um estado 
de extrema tenso.
     Creb no se aproximara de Ayla ou de Uba com qualquer instruo no sentido de elas se prepararem para o ritual a ser celebrado pouco depois naquele dia, e elas 
estavam certas de que os mog-urs no haviam achado nem uma nem outra aceitvel. Elas no eram as nicas a lamentar a doena de Iza que a impediu de fazer a viagem. 
Creb havia usado todo o seu poder de persuaso para convencer os outros feiticeiros a deixarem uma das duas preparar a bebida, mas, apesar de que teriam gostado 
de ter o ritual com as sensaes proporcionadas pela bebida de razes - uma rara oportunidade para eles - consideraram que Ayla era demasiadamente estranha, e Uba 
jovem demais para a prtica do cerimonial. Os mog-urs recusavam-se a aceitar Ayla como uma mulher dos cl e menos ainda como uma curandeira proveniente da linha 
de Iza. A celebrao de Ursus afetava muitssimo os cl presentes. 
     As consequncias - boas ou ms - de qualquer ritual l celebrado recairiam sobre todos eles. Os mog-urs no iriam arriscar-se a invocar foras malficas que 
poderiam trazerdesgraas para toda a populao clnica. Era um risco grande demais.
     Eliminar essa tradicional parte do cerimonial contribuiu muito para o rebaixamento de Brun e seu cl. Por mais que seus homens se tivessem esforado nas competies, 
a aceitao de Ayla por Brun representava mais ameaa a posio do cl do que qualquer coisa que porventura houvesse acontecido. Era algo inteiramente fora dos padres. 
Somente a resistncia frrea de Brun diante da oposio crescente mantinha ainda a questo pendente, e ele no se via nem um pouco seguro de que no final fosse sair 
vitorioso. No muito depois que os bolinhos foram servidos, os chefes vieram postar-se perto da entrada da caverna. Ali esperaram calmamente que os cls, reunidos 
em assemblia, lhes prestassem ateno  medida que se tomava conhecimento da presena deles, o silncio foi-se propagando tal como as ondas feitas por uma pedra 
caindo numa superfcie de gua parada. Os homens rapidamente se arrumaram de acordo com a hierarquia dos cl e a posio social relativa de cada um dentro deste. 
As mulheres pararam o trabalho, fizeram sinais para que as crianas se comportassem e, em silncio, elas lhes seguiram o exemplo. A Cerimnia do Urso estava para 
comear
     A primeira batida num tambor de madeira, parecido a uma gamela que se batia com um pau liso e resistende, ressoou como um trovo em meio ao silncio de expectativa. 
O ritmo lento e solene foi seguido pelas pancadas de lanas no cho, fazendo um fundo em surdina, ao mesmo tempo em que as batidas dadas num instrumento de madeira 
na forma de um tubo comprido e oco construam em contraponto com as batidas fortes e solenes um tema rtmico aparentemente independente do primeiro. Apesar de os 
ritmos em staccato serem tocados em tempos diferentes, estes tinham uma batida forte que coincidia - como se por acaso - com as quintas batidas do ritmo bsico. 
Os sons se combinavam, gerando uma sensao cada vez maior de expectativa, quase de ansiedade, at que, num dado momento, todas as batidas passaram a ser ouvidas 
em unssono. Cada instante de relaxamento dava partida a novo estado de tenso. num clima de hipnotismo criado por sucessivas ondas de sonoridades e sensaes.
     Subitamente, numa atmosfera j saturada, todos os sons pararam com um rufar final. Como se houvessem se materializado do ar, os mog-urs, envoltos em suas capas 
de pele de urso, surgiram, numa fileira de nove, diante da jaula do urso da caverna com o Mog-ur  frente deles. A sensao rtmica ainda repercutia na cabea das 
pessoas num ambiente de silncio opressor. O Mog-ur levava na mo uma placa oval de madeira com uma corda atada numa de suas extremidades. Quando ele comeou a gir-la 
no ar, ouviu-se um zunir fraco que gradativamente foi aumentando com a fora cada vez maior de rotao at tornar-se um rugir alto tomando o clima de silncio. A 
ressonncia obsedante e grave daquele mugir provocava arrepios nas pessoas, tanto por seu significado como pelo timbre sonoro. Era a voz do Esprito do Urso da Caverna 
avisando os outros espritos que se afastassem daquela cerimnia dedicada exclusivamente a ele. Nenhum esprito de totem estaria ali para lhes dar assistncia, achavam-se 
todos sob a proteo do Grande Esprito dos Cl.
     Um som agudo e chilreado penetrava o outro, baixo e gutural. O uivado alto em tom lamentoso fazia com que at os mais corajosos sentissem seus cabelos arrepiando, 
enquanto o mugir grave aos poucos emudecia. O uivo fantasmagrico, sobrenatural, bem prprio de algum esprito desencarnado varava a luminosa atmosfera da manh. 
Ayla, na fileira da frente, viu que o som saa de qualquer coisa presa na boca de um dos mog-urs.
     A flauta feita do osso oco tirado da pata de um pssaro no tinha buracos para os dedos. Controlavam-se os sons tapando e destapando a extremidade aberta. Nas 
mos de um bom tocador, esse instrumento extremamente rudimentar podia tocar uma escala pentatnica completa. Para Ayla, bem como para todos ali, a msica desconhecida 
era fruto de magia, soando como alguma coisa jamais ouvida nesse mundo. Vinha, por ordem dos feiticeiros, a mando dos espritos, exclusivamente para esta cerimnia. 
Tal como o som parecido com um mugido simbolizava o rugir concreto do urso da caverna, a flauta era a voz espiritual de Ursus.
     O prprio feiticeiro que tocava o instrumento sentia, como sagrado, o som sado daquela flauta primitiva, apesar de que fosse ele quem o produzia. Fabricar 
e tocar a flauta mgica era um segredo esotrico dos feiticeiros de seu cl, segredo que sempre lhes garantiu um alto status na hierarquia dos cls. Somente o talento 
inigualvel de Creb teria podido desbancar o mog-ur tocador de flauta para o segundo posto, mas um segundo lugar altamente prestigioso. E era justamente esse feiticeiro 
que mais se opunha  aceitao de Ayla.
     O imenso urso da caverna andava de l para c dentro da jaula. no lhe tinham dado de comer e ele no estava acostumado a ficar sem comida. Nunca passara um 
s dia de fome em toda a sua vida. At mesmo a gua lhe havia sido retirada e ele estava morto de sede. A multido, o cheiro de excitao, a atmosfera tensa, os 
sons nunca ouvidos de tambores, mugido e flauta, tudo se combinava para deix-lo nervoso.
     Quando viu o Mog-ur se encaminhando para a jaula, firmou seu imenso corpanzil sobre as patas traseiras e rugiu queixoso. Creb automaticamente estremeceu, mas 
logo se recobrou do susto, conseguindo disfarar com um trejeito aparentemente normal. Seu rosto, bem como o dos outros mog-urs, estava enegrecido com uma pasta 
de dixido de mangans e sua apreenso no transpareceu no momento em que inclinou a cabea para trs de modo a poder olhar melhor para o pobre animal. Creb carregava 
um recipiente com gua, cuja forma e cor num tom cinza-amarelado no deixavam dvida de que a cuia era a caveira tirada de um esqueleto humano. Ele ps o macabro 
recipiente dentro da jaula e deu alguns passos para trs, enquanto o urso se abaixava para beber.
     Nisso, apareceram 21 caadores jovens que cercaram a jaula, cada um trazendo na mo uma lana recentemente feita. Os chefes dos sete cl que no tiveram a felicidade 
de ter um dos seus homens escolhido para as honrarias especiais haviam selecionado trs dos melhores caadores de suas fileiras para essa cerimnia. Em seguida, 
Broud, Gorn e Voord vieram correndo para fora da caverna e se alinharam do lado da porta bem amarrada da jaula. Vestiam apenas uma pequena tanga e tinham os corpos 
pintados de vermelho e preto.
     A pouca quantidade de gua no deu para matar a sede do animal, mas ele esperava que os homens prximos da jaula lhe dessem mais e se sentou pedindo, fazendo 
gestos que nunca haviam ficado antes sem resposta. Ao perceber que seus esforos eram em vo, encaniminhou-se para o homem que se achava mais perto, metendo na sua 
direo o focinho atravs das grossas barras da jaula.
     A msica da flauta parou numa nota desagradavelmente inconclusiva que elevava a expectativa naquele clima de silncio e ansiedade. Creb retirou a caveira transformada 
em cuja e veio para o seu lugar em frente dos feiticeiros enfileirados na entrada da caverna. A um gesto invisvel, os mog-urs comearam todos ao mesmo tempo a fazer 
os movimentos usados na linguagem ritualstica.
     Aceite essa gua como testemunho de nossa gratido,  Nosso Todo- Poderoso Protetor. Os cls no esqueceram as lies que voc ensinou. A caverna  o nosso 
lar, protegendo-nos contra a neve e o frio do inverno. Nela, tambm descansamos em paz, aquecidos por peles e alimentados com a comida colhida no vero. Voc tem 
sido um de ns, vivido conosco e sabe que guardamos os seus preceitos.
     Com os rostos pintados de preto e vestidos todos iguais com capas de pele de urso, os feiticeiros lembravam um conjunto bem ensaiado de dana movendo-se num 
todo, enquanto falavam com gestos ondulantes e solenes. A eloquncia do Mog-ur, com seu nico brao, casava-se com a dos outros. Embora um pouco diferente, ele a 
pontuava com movimentos elegantes que lhe davam um maior realce.
     - Ns o adoramos, voc que  o primeiro dentre todos os espritos. Pedimos que interceda por ns no mundo dos espritos, que fale da coragem de nossos homens, 
da obedincia de nossas mulheres e que prepare o nosso lugar para quando retornarmos ao outro mundo. 
     Imploramos sua proteo contra os espritos malignos. Ns somos o seu povo,  Grande Ursus, formamos os cls do Urso da Caverna. Honra lhe seja feita,  Esprito 
de Todos os Espritos.
     Enquanto os mog-urs diziam pela primeira vez na presena do animal dos nomes por que era ele conhecido, os 21 caadores passaram as suas lanas atravs dos 
grossos postes de madeira, ferindo a venerada criatura. Nem todos conseguiram lhe arrancar sangue, a jaula era bastante grande para que todas as lanas pudessem 
penetrar fundo no corpanzil do animal, mas a dor o enfureceu, fazendo com que soltasse um rugido de raiva que quebrou a atmosfera de silncio. As pessoas, incontinentemente, 
deram um pulo para trs.Broud, Gorn e Voord se puseram, ento, a escalar a paliada para remover as cordas que amarravam a porta da jaula. Broud foi o primeiro a 
chegar em cima, mas Gorn conseguira agarrar uma tora grossa e curta que havia sido posta l anteriormente. O urso enlouquecido de dor ergueu-se nas patas traseiras 
e, rugindo sua raiva, foi na direo dos trs. Sua colossal cabea chegava quase  altura dos troncos mais altos da jaula. Ele, ento, alcanou a abertura e puxou 
a porteira espatifando-a no cho. A jaula estava aberta e o monstro, louco de dio, solto!
     Os caadores com as suas lanas correram para formar uma falange protetora entre a besta exasperada e a platia tomada de pavor. As mulheres, lutando contra 
a vontade de fugir, apertavam os bebs nos colos, enquanto as crianas mais velhas se colavam a elas, com os olhos arregalados de terror. Os homens haviam pegado 
as lanas, prontos para saltar em defesa. Mas ningum se arredou do lugar.
     Quando o animal ferido passou pelo buraco na jaula de madeira, Broud, Gorn e Voord, que se equilibravam na cumeeira da jaula, pularam de surpresa sobre ele. 
Broud caiu por cima dos ombros e segurou o animal pelos plos da cara, pondo-se a dar puxes que lhe suspendiam a cabea. Nesse meio tempo, Voord, que aterrara nas 
costas, agarrou a cabeleira e a puxava para baixo, usando todo o peso do corpo, fazendo esticar a pele frouxa ao redor do pescoo do urso. A combinao dessas duas 
foras obrigava o animal - sempre se debatendo - a ficar com a goela  mostra, e Gom, que estava montado num dos ombros, rpido, lhe enfiou pela boca o lado grosso 
da tora. O urso parou em seus passos e Broud soltou as mos para dar safanes no pedao de madeira, calcando-o bem entre as mandbulas, impedindo-o de respirar. 
Uma das armas do urso fora invalidada.
     Mas a ttica no o desarmou inteiramente. Furioso, meteu a pata numa das criaturas que se agarravam nele. As afiadas garras se cravaram na coxa do homem sobre 
seu ombro trazendo-o para os seus braos colossais. O grito de agonia de Gor foi subitamente interrompido por um abrao poderosssimo do urso que lhe partiu a espinha. 
Quando o corpo do rapaz caiu sem vida, um longo e doloroso gemido partiu da direo de uma das mulheres na assistncia.
     O urso, cambaleando, avanou para o grupo de homens que tinham as lanas empunhadas ao alto, fazendo seu cerco. Com um violento murro dado com a parte lateral 
da pata dianteira, o animal abriu um claro, derrubando trs e acertando uma violenta cutilada num quarto que teve os msculos da perna rasgados at os ossos. O homem 
dobrava-se de dor, abalado demais para poder gritar. Os outros passavam por cima ou em volta dele, aglutinando-se perto da fera, de modo a poder alcan-la com as 
lanas.
     Ayla, horrorizada, abraava Durc, morta de pavor de o urso chegar at onde estavam. Mas, ao ver o homem cado, com o sangue esparramando pelo cho, no pensou 
duas vezes. 
     Meteu o beb no colo de Uba e se atirou no meio da confuso da luta. Forando a passagem atravs do bolo compacto de homens, meio arrastando, meio carregando, 
conseguiu botar o ferido fora do alcance das pisadas. Com uma das mos ela apertou o ponto de compresso da artria na virilha do homem e, com a outra, pegou a extremidade 
da correia de sua roupa, que botou entre os dentes, partindo um pedao.J havia posto o torniquete e limpava o sangue com a manta de seu beb, quando chegaram duas 
outras curandeiras, seguindo-lhe o exemplo. Elas, apavoradas, procurando passar ao largo do tumulto, tinham vindo ajudar. As trs carregaram o ferido para a caverna 
e, nos seus desesperados esforos para salvar-lhe a vida, nem repararam que o urso, por fim, havia sucumbido sob as lanas dos caadores.
     No momento em que o animal foi abatido, a companheira de Gorn soltou-se dos braos das pessoas que procuravam consol-la e correu para o corpo esparramado no 
cho. Ela se atirou sobre o rapaz, enterrando o rosto no seu peito cabeludo, depois, de joelhos, em gestos desesperados, implorou para que o companheiro se levantasse. 
Sua me e a companheira de Norg tentavam afast-la, quando se aproximaram os mog-urs. O grande feiticeiro abaixou-se e delicadamente lhe levantou a cabea para olh-la.
     - No fique triste por ele - falou o Mog-ur, com expresso terna e compassiva. - Gorn foi agraciado com a maior de todas as honras. Ele foi escolhido por Ursus 
para acompanh-lo ao mundo dos espritos. Seu companheiro ajudar o Grande Esprito a interceder por ns. O Grande Urso da Caverna s escolhe os melhores e os mais 
corajosos para fazerem a viagem com ele. A festa de Ursus ser tambm a festa de Gorn. Sua coragem e seu esprito de luta se transformaro numa lenda a ser contada 
em todas as reunies de cl Tal como Ursus retorna a ns, o esprito de Gorn tambm voltar. Ele estar esperando por voc para que os dois possam regressar juntos, 
quando ento ir tom-la novamente por companheira. Mas voc tem de ser to corajosa quanto ele. Afaste sua tristeza e participe da alegria de seu companheiro na 
viagem ao outro mundo. Nesta noite, os mog-urs lhe prestaro uma homenagem especial para que todos possam compartilhar de sua coragem e para que sua valentia seja 
transmitida a todos os cls.
     A moa visivelmente lutava para controlar a angstia que ia nela e poder mostrar-se to corajosa como lhe dizia o grande feiticeiro. A figura aleijada do Mog-ur, 
com seu medonho rosto caolho e temido de todos, afinal no parecia to assustadora. Com um olhar de agradecimento, a moa se levantou e se encaminhou com o corpo 
ereto de volta a seu lugar. 
     Ela precisava ser corajosa. O Mog-ur no lhe dissera que Gorn estaria esperando por ela? Que os dois algum dia voltariam a ser companheiros novamente? Agarrava-se 
a este pensamento, procurando esquecer o triste vazio que seria daqui por diante sua vida sem ele.
     Quando a companheira de Gorn chegou a seu lugar, as mulheres dos chefes e dos segundos em comando comearam o trabalho de retirar a pele do urso. O sangue foi 
recolhido em bacias e, aps os Mog-urs haverem feito sobre estas alguns gestos de sentido religioso, os aclitos foram passando diante dos membros de seus respectivos 
cl e levando  boca de cada um deles um vasocontendo uma poro do sangue. Todos - homens, mulheres e crianas - provaram do sangue ainda quente, do fluido da vida 
de Ursus. At os bebs tiveram suas bocas abertas pelas me que, com o dedo, lhes molharam a lngua com o sangue fresco. Ayla e as duas curandeiras foram trazidas 
da caverna para receber as suas pores, e o homem ferido que perdera tanto do dele ganhou um bom gole para restaurar-lhe as foras. Todos participaram da comun 
com o Grande Ursus que os unia num s povo.
     As mulheres trabalhavam rapidamente, enquanto os cl ficavam observando. A grossa camada subcutnea de gordura, propositadamente criada no animal, foi com muito 
cuidado raspada da pele. Era uma parte que continha propriedades mgicas, por isso seria derretida e distribuda entre os mog-urs. A cabea foi deixada presa no 
couro e levaram a carne para dentro de covas, j preparadas com uma forrao de pedras, onde ficaria assando durante todo o dia. Os aclitos penduraram a imensa 
pele em postes na frente da caverna, num lugar de onde os olhos do animal poderiam observar as festividades. O urso da caverna seria o hspede de honra numa festa 
cujo banquete era ele prprio. Depois da pele armada, os mog-urs apanharam o corpo de Gorn e, muito dignos e solenes, o carregaram para os recnditos da caverna. 
Feito isso, a multido, a um aceno de Brun, dispersou. O Esprito de Ursus fora posto a caminho, com os dignos rituais.
     

***

Captulo 24
     
     Mas, como pde ela fazer isso? Nenhuma outra teve coragem de chegar perto e ela no mostrou o menor medo - dizia o mog-ur do cl a que pertencia o homem ferido. 
- Era quase como se soubesse que Ursus no iria atac-la. Exatamente como aconteceu no primeiro dia. Acho que o Mog-ur tem razo ela foi aceita por Ursus.  uma 
mulher dos cls. Nossa curandeira disse que foi ela quem salvou a vida dele. Alm de ter sido bem treinada, ela tem um dom natural, como se tivesse nascido para 
isso. Acredito que ela seja realmente da estirpe de Iza.
     Os mog-urs estavam numa gruta situada bem no interior da montanha. Lmpadas de pedra e pratos rasos com gordura de urso empapando pavios feito de musgo traavam 
um crculo de luzes que quebravam um pouco a absoluta escurido ao redor deles. As pequeninas chamas iluminavam as facetas escondidas dos cristais de rocha e se 
refletiam na cintilao das estalactites gotejantes que pendiam do teto, formando pingentes nunca concludos e ansiosos pelos encontros com as suas contrapartidas 
crescendo no cho. Os pingos de calcrio, filtrados pela pedra secular, concretizavam-se em majestosas colunas, adelgaadas no centro, que iam do cho ao teto abobadado. 
Para que uma das estalactites encontrasse sua companheira no beijo substancial estava faltando apenas a espessura de um fio de cabelo, uma ponte, no entanto, que 
levaria sculos a ser construda.
     - J no primeiro dia, ela surpreendeu a todos quando no demonstrou qualquer medo de Ursus - disse outro feiticeiro. - Mas, se eu concordar, ain da d tempo 
para que ela se prepare?
     - Se nos apressarmos, sim - respondeu o Mog-ur.
     - Ela nasceu dos Outros, como pode ser uma mulher nossa? - questionou o mog-ur tocador de flauta. - Os Outros no so cls e nunca sero. Voc disse que ela 
j veio com a marca de um totem dos cls, mas essa no  marca de um totem de mulher. Como pode ter certeza de que  um sinal nosso? O Leo da Caverna nunca foi 
totem de nossas mulheres.
     - Jamais disse que ela nasceu com a marca - falou o Mog-ur, ponderando. - Voc est insinuando que um Leo da Caverna no pode escolher uma mulher? O Leo da 
Caverna escolhe quem ele bem entender. Ela, quando foi encontrada, estava praticamente morta. Iza trouxe-a de volta  vida. Por acaso voc imagina que uma garotinha 
pode escapar de um leo, se no estiver sob a proteo de seu esprito? 
     Ele botou sua marca na menina para que no houvesse a menor dvida de sua inteno. A marca na perna dela  a de um totem nosso e isso ningum pode negar. Por 
que iria receber uma marca de totem dos cls, se no estivesse destinada a se tornar uma de nossas mulheres? no sei por que e nem pretendo entender a razo por 
que os espritos agem dessa ou daquela maneira. Com a ajuda de Ursus, s vezes, posso interpretar o que eles fazem. Ser que algum de vocs pode fazer mais do que 
isso? Apenas digo que ela conhece o ritual. Iza lhe passou o segredo das razes que esto dentro da sacola vermelha e Iza no lhe revelaria isso, se ela no fosse 
sua filha. no h necessidade de desistirmos dessa parte do ritual. Bem, j lhes dei todos os argumentos que eu tinha; agora, decidam. Mas que sejam rpidos.
     - Voc disse que seu cl acredita que ela seja algum de sorte - gesticulou o mog-ur de Norg.
     - no somente algum de sorte, mas tambm que traz sorte. Ns temos sido muito felizes, desde que ela foi encontrada. Droog pensa nela como uma espcie de sinal 
daqueles que os totens costumam enviar, como alguma coisa rara e fora do comum. Talvez,  sua maneira, ela tenha tambm sorte.
     - Bem, no resta dvida de que fora do comum ela . J basta ser dos Outros e, ao mesmo tempo, ser tambm uma mulher dos cl - comentou um dos mog-urs.
     - Hoje, ela trouxe sorte para ns. O nosso caador ir viver - falou omog-ur pertencente ao cl do homem atacado pelo urso. - Estou inclinado aconsentir. Seria 
uma pena nos privarmos da bebida de Iza, quando isso no  necessrio.
     Muitos acenaram com as cabeas concordando.
     - E quanto a voc? - perguntou o Mog-ur, dirigindo-se ao feiticeiro logo abaixo dele na hierarquia. - Ainda julga que Ursus ficar descontente, se Ayla fizer 
a bebida para o ritual?
     Todas as cabeas se viraram para olh-lo. Se o poderoso feiticeiro persistisse na recusa, ele tinha bastante influncia para fazer com que outros feiticeiros 
tambm impedissem a preparao da bebida. Mesmo que ele ficasse sozinho em sua deciso e o resto concordasse, isso j era o suficiente. Tinha de haver unanimidade, 
no havia lugar para cisma em suas fileiras. Ele tinha os olhos abaixados, refletindo sobre o problema; depois, olhou o rosto de cada um.
     - no se trata de agradar ou no Ursus.  que eu ainda no estou convencido. Existe alguma coisa nela que me incomoda. Mas  evidente que ningum deseja eliminar 
essa parte do ritual e parece que ela  a nica pessoa disponvel. Chego quase a preferir lanar mo da filha verdadeira de Iza,apesar de sua pouca idade. Mas enfim, 
se todos estiverem de acordo, retiro minha objeo.No gosto, mas no vou impedir.
     O Mog-ur olhou para cada um, recebendo de todos o consentimento. Disfarando um suspiro de alvio com os esforos que fazia para se pr de p, Creb logo em 
seguida saiu. 
     Guiado pelas lamparinas foi atravessando diversas passagens abrindo-se em pequenos recintos que novamente tornavam a se estreitar em corredores, at que o caminho, 
j chegando perto do alojamento dos cl passou a ser iluminado por tochas espaadas em intervalos regulares.
     Ayla estava sentada junto do homem ferido na caverna da frente. Ela tinha Durc no colo e Uba se sentava do outro lado dela. A companheira do homem tambm se 
achava ali e, cheia de gratido, de vez em quando, lanava um olhar para Ayla.
     - Ayla, rpido, voc tem de se preparar! no h muito tempo - gesticulou o Mog-ur. - Voc tem de andar depressa, mas no se esquea de nenhuma das coisas que 
tem de fazer. 
     Quando estiver pronta, procure-me. Uba, leve Durc para Oga lhe dar de mamar. Ayla no vai ter tempo para fazer isso.
     As duas, surpresas, olharam para o feiticeiro, espantadas com a sbita mudana nos planos. Durante um instante, ficaram sem compreender, mas ento Ayla acenou 
com a cabea afirmativamente e correu  fogueira deles na segunda caverna para pegar uma roupa limpa. 
     O Mog-ur virou-se, em seguida, para a mulher que observava o sono do companheiro.
     - O Mog-ur gostaria de saber como vai passando o rapaz.
     - Aiiga diz que ele vai viver e caminhar outra vez. Mas sua perna nunca mais ser a mesma. - A mulher falava em outro dialeto e a gesticulao de sua linguagem 
coloquial era to diferente que Ayla e Uba tinham dificuldade de entend-la, comunicando-se com ela apenas na linguagem protocolar. O feiti ceiro, entretanto, estava 
mais acostumado com os dialetos falados nos outros cl embora preferisse a linguagem protocolar para se fazer melhor entendido.
     - O Mog-ur gostaria de saber qual o totem deste homem.
     - O Cabrito monts - respondeu a mulher.
     - As pernas de seu companheiro eram to boas como as do cabrito monts? - perguntou o feiticeiro.
     - Assim diziam - comeou ela a falar. - Mas este homem, hoje, no foi muito esperto e agora no sei como ele vai fazer. E se ele nunca mais voltar a andar? 
Como vai caar e me sustentar? O que faz um homem que no caa? - Com os nervos muito abalados, quase histrica, ela passou a usar a linguagem coloquial.
     - O rapaz vai viver e isso no  o mais importante? - falou o Mog-ur, querendo acalm-la.
     - Mas ele  orgulhoso. Se no puder caar, talvez at tivesse preferido morrer. Era um bom caador, poderia, inclusive, chegar um dia a ser o se gundo em comando. 
Agora, nunca vai subir de posto. Pelo contrrio, ser rebaixado.
     - Mulher! - gesticulou o Mog-ur, pondo um ar severo no rosto. - Nenhum homem escolhido por Ursus  rebaixado. Seu companheiro deu provas de grande coragem. 
Quase foi escolhido para acompanhar Ursus em sua viagem ao outro mundo. O Esprito de Ursus no escolhe impunemente. O Grande Urso da Caverna resolveu que ele aqui 
permanecesse, mas carregando consigo sua marca. A esse homem foi dada a honra de poder agora reivindicar Ursus como seu totem. Suas cicatrizes sero as marcas de 
seu novo totem. Ele deve ostent-las com orgulho e nunca lhe faltar meios para mant-la. O Mog-ur falar com seu chefe. Seu companheiro tem o direito de exigir uma 
frao  de cada caa. 
     Ele pode voltar a caminhar, inclusive poder at vir a caar. Talvez, no tenha mais a agilidade do cabrito monts e fique com o caminhar parecido com o dos 
ursos, mas isso no significa que no volte a caar. Voc pode estar orgulhosa dele, mulher. Tenha orgulho de seu companheiro, um homem eleito por Ursus.
     - Ele foi eleito por Ursus? - falou a mulher, com olhar maravilhado. - O Urso da Caverna  agora o seu totem?
     - E tambm o Cabrito monts. Ele tem direito a ter os dois - falou o Mog-ur, que s ento notou um pequeno volume sob a roupa da mulher. no  de admirar que 
esteja to afoita, pensou consigo. - Essa mulher j tem filhos?
     - no Mas a vida j foi iniciada. Estou esperando um filho.
     - Voc  uma boa mulher e uma boa companheira. Fique perto dele. Quando acordar, conte-lhe tudo quanto o Mog-ur disse.
     Ela fez que sim com a cabea e levantou os olhos, quando Ayla passava por ali a toda pressa.
     O pequeno rio prximo  caverna do cl hospedeiro era na primavera uma torrente de guas violentas, arrancando pelas razes gigantescas rvores e desprendendo 
pedras colossais do paredo rochoso, fazendo-as rolar pela montanha abaixo. Mesmo em seus momentos de calma, as fortssimas correntezas - espumando no meio 
da plancie 
inundada e semeada de pedras, muito mais ampla do que o prprio leito - tinham a colorao esverdeada e a nebulosidade dos desaguadouros glaciais. Ayla e Uba haviam
explorado a regio perto da caverna, pouco depois de terem chegado, procurando pelas plantas saponceas necessrias  purificao do corpo, para o caso de que fossem 
convocadas a participar da cerimnia.
     Muito nervosa, Ayla foi colher s pressas as razes de saboeiro, as cava-linhas e os quenopdios de raz vermelha. Seu estmago dava voltas enquanto aguardava 
que a gua fervesse numa fogueira para poder desinfetar as cavalinhas. A notcia de que a haviam deixado realizar o ritual rapidamente se espalhou pelos cls. O 
fato fez com que todos reformulassem a opinio que tinham sobre a mulher dos cl nascida dos Outros e seu prestgio s fez ento aumentar. Isso vinha confirmar que 
Ayla era de fato filha de iza, fazendo dela a mais bem categorizada de todas as curandeiras. O chefe do cl onde Zoug tinha alguns parentes, que havia de incio 
se recusado peremptoriamente a aceit-la, resolveu reconsiderar a deciso. Afinal, a recomendao de Zoug podia no ser de todo to m. Talvez, algum dos homens 
pudesse assumi-la, seno como companheira, pelo menos como segunda mulher. Ela seria uma boa aquisio.
     Mas Ayla estava preocupada demais para reparar nos disse-que-disse  sua volta. Alis, estava mais do que preocupada. Sentia-se aterrorizada. no vou conseguir 
fazer isso, dizia-se, apavorada, enquanto corria na direo do rio. no vai dar temrpo para me arrumar. 
     E se eu esquecer de alguma coisa? E se cometer algum engano? Vou desgraar Creb e Brun. Vou botar o cl inteiro a perder.
     O rio estava gelado, mas a gua fria serviu para acalmar-lhe os nervos que estavam a ponto de estourar. Sentiu-se mais relaxada, quando foi sentar-se sobre 
uma pedra para desembaraar e secar na suave brisa os seus longos cabelos louros, enquanto observava os cimos rosados das montanhas que, aos poucos, iam enegrecendo 
com tonalidades vermelho-azuladas sob a luz do sol poente. Os cabelos ainda estavam midos, quando tornou a enfiar o amuleto pelo pescoo e vestiu a roupa limpa. 
Meteu suas ferramentas nas dobras, apanhou a vestimenta que tinha usado e correu  caverna. Passando por Uba com Durc no colo, acenou com a cabea, confirmando que 
tudo sara direito.
     As mulheres, num trabalho frentico, no tinham a menor colaborao das crianas, inteiramente descontroladas. O sanguinolento ritual do urso da caverna as 
deixara excitadssimas. Isso e mais a fome a que no estavam acostumadas e o apetite estimulado pelo cheiro da comida cozinhando as faziam extremamente irritadias. 
Com as mes muito ocupadas, aproveitavam a rara oportunidade de se comportar mal, coisa que pouqussimas vezes se admitia. Alguns garotos tinham apanhado as correias 
que foram cortadas da jaula do urso e fizeram braadeiras que usavam como distintivo de honra. Os outros, que haviam sido menos rpidos, tratavam de arranc-las 
e todos corriam por entre as fogueiras. Quando se cansavam da brincadeira, iam provocar as meninas, cuja obrigao era a de estar cuidando dos irmos menores que, 
por sua vez, tambm se achavam aos berros. Eles tanto importunavam que elas se punham a correr atrs ou, ento, iam para junto das mes fazer queixas. Era uma confuso, 
uma casa de loucos. Mesmo quando, vez por outra, aparecia ocompanheiro de alguma mulher tentando assumir uma atitude mais severa, sua voz de comando de pouco servia 
para conter a crianada numa rebeldia inteiramente inusitada.
     As crianas no eram as nicas com fome. A comida, preparada em enormes quantidades fazia com que todos estivessem com gua na boca e a expectativa do grande 
banquete e da cerimnia noturna que se seguiria s aumentava a excitao. Montes de mandiocas, inhames e psorlias cozinhavam lentamente nas panelas de couro sobre 
as fogueiras. 
     Aspargos selvagens, razes de lrio, cebolas, legumes, abobrinhas e cogumelos vinham em muitas combinaes e com diferentes temperos. Uma montanha de alface 
silvestre, bardanas, e folhas de dente-de-leo j estava lavada e pronta para ser servida com molho feito de gordura de urso e temperos diversos; o sal se punha 
na hora de servir.
     A especialidade de um dos cls era uma combinao de cebolas com cogumelos e ervilhas verdes temperada com um molho  base de certas ervas - mantidas em segredo 
- e engrossada com p de lquen. Um outro cl trouxe uma variedade especial de pinhes que davam exclusivamente na rea de sua caverna e que, quando assados, soltavam 
um tipo de noz gosda e saborosa.
     O cl de Norg assava as castanhas colhidas aos ps das encostas e as punha para cozinhar em fogo lento, fazendo um caldo grosso ao qual se juntavam frutos de 
faia esmigalhados, diversos cereais triturados e pedacinhos de maazeda. Os terrenos at uma certa distncia da caverna estavam desprovidos de seus mirtilos e, 
nas partes um pouco mais elevadas, tambm j no se encontravam nem amoras pretas nem framboesas.
     As mulheres do cl de Brun passaram dias quebrando e triturando as bolotas de carvalho que trouxeram consigo. A farinha obtida era posta em covas rasas na areia 
perto do no e ali se despejava gua que, por lixiviao, ia retirando o sabor amargo. Com a pasta resultante, faziam-se bolinhos de forma achatada que, depois de 
assados, eram postos em calda de bordo at ficarem bastante empapados, quando ento iam ao sol para secar. O cl hospedeiro, que tambm extraa a seiva do bordo 
no princpio da primavera e a punha para ferver durante diversos dias, logo se mostrou interessado na receita, quando viu o acar de bordo nos costumeiros recipientes 
de casca de salgueiro. Os bolinhos melosos feitos de bolotas eram uma guloseima que as mulheres do cl de Norg pretendiam fazer mais tarde. 
     Uba, que ao mesmo tempo vigiava Durc e ajudava as mulheres, olhava para aquela enorme variedade de comida parecendo no ter fim, imaginando como poderiam dar 
cabo daquilo tudo.
     A fumaa subia desaparecendo na escurido de uma noite calma to apinhada de estrelas que era como se o cu estivesse revestido por uma teia luminosa. A lua 
era nova e sua presena nem de leve se insinuava; tinha dado as costas ao planeta em torno do qual girava e foi refletir suas luzes nas frias profundezas do espao. 
As chamas das fogueiras iluminavam a rea perto da caverna, contrastando com o negrume dos bosques ao redor. A comida j fora tirada de cima do fogo, mas deixada 
perto das fogueiras para que se conservasse quente. Quase todas as mulheres se haviam retirado para a caverna. 
     Foram trocar de roupa e descansar um pouco antes que a festa comeasse.
     Mesmo cansadas como estavam, a excitao era grande demais para que pudessem deixar-se ficar por muito tempo dentro da caverna. O terreno em frente comeava 
a fervilhar com uma multido aguardando, ansiosa, pelo banquete e pelo incio da cerimnia que se seguiria. De repente, fez-se silncio. Os 10 mog-urs com os 10 
aclitos saram em fila da caverna, mas logo em seguida comeou o rebulio com a procura dos lugares. Parecia que os mog-urs se haviam defrontado com uma reunio 
feita ao acaso. O posicionamento das pessoas no era definido nem pela localizao nem pelo relacionamento de uns com os outros. Filas bem ordenadas no eram importantes, 
apenas que cada um estivesse na frente, atrs ou do lado da pessoa certa. E sempre havia a movimentao de ltimo instante, com aqueles tentando encontrar um lugar 
melhor dentro de seus crculos de relaes.
     Com muita solenidade e circunspeco foi acesa a grande fogueira na frente da caverna. Em seguida, removeram-se as pedras cobrindo os foges cavados na terra. 
s companheiras dos chefes de cls mais categorizados e a do chefe do cl anfitrio tiveram a insigne honra de retirar do fogo os tenros quartos do animal e, nesse 
instante, o peito de Brun se estufou cheio de orgulho ao ver Ebra dando um passo  frente.
     A aceitao de Ayla pelos mog-urs havia finalmente decidido a questo. Brun e seu cl continuavam ocupando a primeira posio e estavam mais fortes do que nunca. 
     Contrariamente ao que parecera no incio, a mulher alta e loura era uma mulher dos cls e uma curandeira da prestigiosa linha de Iza. Assim ficou provado, graas 
 obstinada insistncia de Brun e  vontade de Ursus. Tivesse ele vacilado um instante, seu prestgio no seria to grande e sua vitria, menos doce.
     Nuvens de vapores suculentos tiravam rosnados dos estmagos vazios, quando a carne do urso foi retirada com forquilhas de madeira. Esse era o si nal para que 
as outras mulheres comeassem a trazer as travessas de osso e madeira e fossem enchendo grandes cuias com a comida que tanto lhes custara preparar. Broud e Voord, 
carregando cada qual uma bandeja, foram para a frente e pararam diante do Mog-ur.
     - Este banquete em homenagem a Ursus  tambm em honra de Gorn, escolhido pelo Grande Urso da Caverna para acompanh-lo. Durante o tempo em que ele viveu com 
o cl de Norg, Ursus ficou sabendo que seu povo sempre guardou os seus preceitos. Ele aprendeu a conhecer Gorn e o achou digno para acompanh-lo em sua viagem. Broud 
e Voord, vocs, pela coragem, fora e tenacidade, foram escolhidos para mostrar ao Grande Esprito a bravura dos homens de seus cl Ursus, com sua grande fora, 
os ps  prova e est satisfeito com os dois. Vocs se portaram bem e foram agraciados com o privilgio de levar-lhe a ltima refeio que ele vai compartilhar com 
os seus cl at que torne a regressar do mundo dos espritos. Que o Esprito de Ursus esteja sempre conosco.
     Os dois rapazes passaram diante das mulheres postadas ao lado das travessas carregadas de comida e escolheram as melhores partes e guloseimas de cada uma. S 
no pegaram carne. 
     O urso em cativeiro jamais provava carne, embora, nas florestas, vez por outra, ele se permitisse, no caso de encontr-la  mo. As bandejas foram colocadas 
na frente do couro suspenso nos postes.
     - Vocs beberam do seu sangue, agora comam de sua carne e participem do Esprito de Ursus - falou o Mog-ur.
     A bno marcava o incio do banquete. Broud e Voord receberam as primeiras pores da carne do urso, e depois, eles prprios, foram enchendo seus pratos, seguidos 
pelos outros. 
     Dando grunhidos e suspiros de prazer, todos se acomodaram para saborear as finas iguanas. A carne do urso vegetariano que teve as suas raes cuidadosamente 
controladas estava tenra e gorda na medida certa. Os legumes, frutas e cereais preparados com meticulosa ateno eram recebidos prazerosamente. A festa estava digna 
da longa espera.
     - Ayla, voc no est comendo. Voc sabe que toda a carne tem de ser comida esta noite.
     - Eu sei, Ebra, mas no estou com fome.
     - Ayla est nervosa - gesticulou Uba, enquanto comia. - Estou alegre por no ter sido escolhida. A comida est deliciosa e eu no iria conseguir comer, se tambm 
estivesse nervosa.
     - Mas mesmo assim, Ayla, veja se consegue comer um pouco de carne. Voc precisa fazer isso. J deu o caldo para Durc? Ele devia tomar um pouco, isso far com 
que fique sempre unido aos cls.
     - J dei, mas ele no quis tomar muito. Oga acabou de dar-lhe o peito. Oga, Grev ainda est com fome? Meus seios esto to cheios que chegam a doer.
     - Eu devia ter esperado, mas os dois estavam com tanta fome que j dei de mamar, Ayla. 
     Amanh voc d.
     - Vou ter leite para eles e ainda para mais dois se precisar. Esta noite no vo querer mais nada, estaro dormindo. O ch de datura j est pronto. Quando 
eles tiverem fome, faa com que tomem isso primeiro para poderem dormir. Uba dir que quantidade voc tem de dar. Logo depois da comida, eu tenho de ver Creb e s 
estarei de volta depois da cerimnia.
     - no demore muito, nossa dana vai comear logo depois que os homens entrarem na caverna. Algumas curandeiras que esto aqui so timas para bater o ritmo. 
A dana das mulheres nas reunies de cl sempre  mais especial - falou Ebra.
     - no sei tocar muito bem. Iza me ensinou um pouco e a curandeira do cl de Norg tambm me mostrou, mas ainda est me faltando adquirir a necessria prtica.
     -  porque voc tem pouco tempo de curandeira. Iza insistiu para que voc aprendesse principalmente as mgicas de curar, mas os ritmos tambm so mgicos - 
gesticulou Ovra. 
     - As curandeiras so obrigadas a saber tanta coisa...
     - Queria muito que Iza estivesse aqui - falou Ebra. - Estou contente por voc ter sido afinal aceita, Ayla, mas tenho saudades de Iza. Fica to estranho ela 
no estar conosco.
     - Tambm queria que estivesse - disse Ayla. -  horrvel ela no ter podido vir. Iza est muito mais doente do que deixa transparecer. Espero que esteja descansando 
bastante e tomando muito sol.
     - Quando chegar sua vez de ir para o outro mundo, ela ir. Se os espritos chamarem, ningum conseguir impedi-la de no ir com eles - falou Ebra.
     Ayla sentiu um arrepio, embora a noite estivesse quente e, de repente, sentiu algo como um pressgio, uma sensao vaga, incmoda, parecida aos ventos frios 
que prenunciam o fim do vero. O Mog-ur acenou-lhe. A moa rapidamente se levantou, mas o sentimento a acompanhou enquanto caminhava na direo da caverna.
     A bacia de Iza com a ptina esbranquiada do uso de muitas geraes estava sobre sua pele de dormir. Ayla retirou o saco vermelho de dentro da sacola de remdios 
e o esvaziou.  luz das tochas, ps-se a examinar as razes. Apesar de Iza lhe haver explicado muitas vezes como dosar a quantidade exata, ela se sentia insegura 
do quanto necessitaria para dar a 10 mog urs. A dose no dependia apenas do nmero de razes, mas tambm do tamanho dessas e do seu tempo de envelhecimento.
     A moa nunca vira a bebida sendo feita. Iza, por diversas vezes, lhe dissera que era algo sagrado e importante demais para que se pudesse preparar s em carter 
experimental. As mulheres dos cl em geral, aprendiam o que sabiam da observao e das explicaes que suas mes lhes davam, mas o conhecimento se fazia sobretudo 
atravs da memria com que haviam nascido. Ayla, entretanto, no tinha nascido de uma mulher dos cl. Escolheu diversas razes e depois acrescentou mais uma por 
segurana, para ter certeza de que a mgica funcionaria. Em seguida, dirigiu-se para um ponto perto da entrada, onde havia um suprimento de gua fresca, o lugar 
em que Creb lhe mandara esperar. Dali, ficou observando a cerimnia que estava apenas comeando. Os sons dos tambores de niadeira foram seguidos pelas batidas com 
oscabos de lanas para depois se fazerem ouvir os staccatos dados nos tambores altos e ocos em forma de tubos. Os aclitos passavam entre os homens carregando vasos 
com ch de datura e, pouco depois, j estavam todos mexendo seus corpos ao ritmo das batidas. As mulheres se achavam ao fundo, a vez delas chegaria depois. Ayla, 
ansiosa, com a roupa amarrada frouxamente no corpo, aguardava. A dana dos homens cada vez se tornava mais frentica e ela s se perguntava quanto tempo teria ainda 
de ficar esperando.
     Ao sentir um tapinha no ombro, sobressaltou-se. no percebera os mog-urs vindo do fundo da caverna, mas ao reconhecer Creb, tranquilizou se um pouco. Os feiticeiros, 
em silncio, saram e se postaram ao redor da pele do urso. O Mog-ur estava de frente e, do lugar onde ela se encontrava, sua impresso era a de que o bicho - posto 
muito aprumado e com a boca 
     escancarada - estava a ponto de saltar sobre o velho feiticeiro aleijado. Mas era apenas a iluso de fora e ferocidade dada pela figura parecendo flutuar solta 
no ar, pairando sobre o Mog-ur.
     Ela viu quando o feiticeiro-mor acenou aos aclitos que tocavam os tambores. Eles interromperam a cadncia rtmica num tempo forte e os homens suspenderam os 
olhos, surpresos de ver os mog-urs onde um instante antes - ou assim lhes parecia - no havia ningum. A sbita apario dos feiticeiros era outra iluso e agora 
Ayla sabia como a coisa se processava.
     O Mog-ur esperou, criando uma atmosfera de suspense, at ter certeza de que todos estavam com a ateno voltada para a gigantesca figura do urso da caverna, 
iluminada pelas chamas da fogueira principal e ladeada pelas sagradas figuras dos cl. Seu aceno fora imperceptvel, e ele, intencionalmente, ao faz-lo, olhava 
em outra direo. Era o sinal por que Ayla esperava. A moa deixou a roupa cair do corpo, encheu a bacia de gua, apertou as razes na mo e, respirando fundo, foi 
na direo  do feiticeiro caolho.
     As respiraes ficaram todas em suspenso quando Ayla veio para dentro do crculo de luzes. Enrolada na roupa, que era amarrada por uma comprida correia e que 
lhe escondia as formas em meio a dobras e bolsos, e compor tando-se como qualquer mulher, ela comeara a no se distinguir muito das outras. No entanto, sem o disfarce 
de todos aqueles bolos na vestimenta, sua verdadeira forma fazia vivo contraste com a das mulheres dos cl. Ayla era esguia, com uma estrutura diferente daquela 
arredondada, quase um barril, dos homens e mulheres dos cl. Vista de perfil, mostrava-se,  exceo dos selos intumescidos de leite, extremamente descarnada. A 
cintura afundava-se para depois formar as cadeiras rolias, e as pernas e braos eram longos e retos. Nem mesmo os crculos vermelhos e pretos e as outras linhas 
pintadas sobre seu corpo conseguiam disfarar-lhe as formas.
     Seu rosto, sem as mandbulas salientes, com o pequenino nariz e a testa alta, lhes parecia agora mais chato do que nunca. Os cabelos louros espessos, emoldurando-lhe 
as faces com ondas largas e chegando  metade das costas, eram batidos pelos reflexos das chamas e brilhavam como ouro. Uma coroa extravagantemente bela para uma 
mulher to feia e sem dvida alguma alie ngena ao meio deles.
     Contudo, o mais surpreendente era a altura. Quando eles a viam, ou era andando em passos apressados, ou num caminhar curvado e arrastado, ou semi sentada a 
seus ps e, de certo modo, no se tinham dado conta desse detalhe. Mas ali, de p, frente aos mog-urs, ficava visvel demais. Num momento em que ela se inclinou, 
sua viso foi o alto da cabea do Mog-ur. Ay la era de longe mais alta do que qualquer homem dos cls.
     O Mog-ur fez uma srie de gestos invocando a proteo do Grande Esprito que ainda pairava sobre eles. Em seguida, Ayla enfiou na boca as razes secas e duras. 
Era-lhe difcil mastig-las. no possua os mesmos dentes enormes e fortes e as possantes mandbulas da raa clanica. Por mais que Iza a tivesse avisado para no 
engolir nada do suco que se formava na boca, Ayla no conseguiu evit-lo. no sabia ao certo quando as razes estariam realmente no ponto, mas tinha impresso de 
que deveria ficar mastigando, mastigando sem parar. Ao cuspir o ltimo bagao, sentia-se tonta. Comeou, ento, a remexer o liquido dentro da bacia sagrada, at 
que ele se tornou uma gua leitosa que entregou a Goov.
     Os aclitos, cada um carregando um vaso com ch de datura, tinham ficado  espera de que Ayla terminasse com seu servio. Goov entregou ao Mog-ur a bacia com 
a gua esbranquiada que Ayla lhe dera e apanhou um vaso contendo datura para entregar a ela, ao mesmo tempo em que os outros aprendizes de feiticeiros entregavam 
tambm os deles s curandeiras de seus respectivos cl. Uma troca de igual valor e espcie. O Mog-ur tomou um gole.
     - Est forte - disse a Goov, por meio de gestos discretos. - no d muito.
     Goov fez que sim com a cabea e pegou a bacia para levar ao segundo mog-ur na hierarquia clanica.
     Ayla e as outras curandeiras carregaram os vasos com datura para as mulheres que esperam e deram a elas e s meninas mais velhas uma quantidade que iam controlando. 
Por fim, Ayla bebeu as ltimas gotas de seu vaso, mas ela j comeava a ter uma estranha sensao de distanciamento, como se uma parte sua houvesse desprendido e 
a observasse de outro ponto. As curandeiras mais velhas apanharam os tambores de madeira e comearam a bater os ritmos de dana das mulheres. Ayla observava, fascinada, 
o movimento das baquetas. Cada batida produzia um som claro e preciso. A curandeira do cl de Norg ofereceu-lhe um tambor parecido a uma bacia. Primeiro, ela escutou 
o ritmo, s batendo de leve, depois, surpreendeu-Se tocando junto com as outras.
     O tempo perdera todo o significado. Quando suspendeu os olhos, os homens j haviam ido embora e as mulheres rodopiavam freneticamente, numa movimentao selvagem 
e ertica. 
     Teve, ento, vontade de juntar-se a elas. Mas quando foi botar o tambor no cho, o instrumento caiu de mau jeito e ficou por um instante rodando como um pio. 
Ela ficou observando at que o tambor cessasse o movimento. Sua ateno se concentrava na forma do instrumento. Lembrava-lhe a bacia de iza, a preciosa e antiga 
relquia que fora confiada  sua guarda. Viu-se, ento, olhando para o lquido branco e aguado que ficara revolvendo com os dedos durante um tempo que havia parecido 
sem fim. Onde est a bacia de Iza? 
     Perguntava-Se. O que aconteceu com ela? A idia da bacia no lhe saa, ficava remoendo-a, at que se tornou uma obsesso.
     A imagem de Iza lhe veio  mente e seus olhos se encheram de lgrima. A bacia de Iza. Perdi a bacia de Iza. A linda bacia antiga que veio de sua Da me de sua 
me e da me da me de sua me. No pensamento via Iza e uma outra Iza atrs desta e ainda uma outra e outra. 
     Era uma curandeira aps outra, todas atrs de Iza e todas segurando uma sagrada bacia de cor esbranquiada, numa longa fileira penetrando no passado distante 
e nebuloso. As mulheres desapareceram, e diante de seus olhos surgiu a imagem de uma bacia colossal. 
     Subitamente, esta se partiu, quebrando-se ao meio em dois pedaos que aos poucos foram sumindo. no no gritou em pensamento. Ela estava completamente desvairada. 
A bacia de Iza. Tenho de achar a bacia de Iza.
     s tontas, largou as mulheres e foi na direo da caverna cambalean do em seus passos. 
     Pareceu levar uma eternidade. De gatinhas, ia passando por entre travessas de osso e bacias de madeira com restos de comida endurecida, sempre procurando pela 
preciosa vasilha de lza. A entrada da caverna, com os seus contornos fracamente delineados pelas tochas do lado de dentro, a atraa e, aos tropeo encaminhou-Se 
para l. De repente, viu-se bloqueada no caminho. Cara numa armadilha, apanhada nas malhas de alguma coisa cabeluda e asquerosa. Olhou para cima e prendeu a respirao. 
Um rosto monstruoso, com uma imensa boca escancarada a encarava do alto. Ela deu uns passos para trs e correu para dentro da caverna que parecia estar acenando-lhe.
     Ao passar pela entrada, seus olhos deram com qualquer coisa branca, perto do lugar onde ficara aguardando o sinal do Mog-ur. Ajoelhou-se e se gurou com cuidado 
a bacia de lia, aninhando-a nos braos. No fundo havia ainda um pouco da gua leitosa banhando os bagaos de razes. no beberam tudo, disse consigo. Fiz demais 
Devo ter feito muita quantidade. E agora, o que vou fazer com o resto? Iza disse que no se pode jogar fora. Foi por isso que ela no pde me mostrar como se preparava 
e acabei fazendo demais. Preparei a quantidade errada. E se algum descobrir? Vo pensar que no sou uma curandeira de verdade. E nem uma mulher dos cls. Podem 
nos obrigar a ir embora. O que vou fazer? O que vou fazer?
     Beber! Sim,  o que vou fazer. Se eu beber, ningum vai ficar sabendo. Ela levou a bacia aos lbios e a esvaziou. Se j no princpio, a bebida estava forte, 
agora ento muito mais com as razes empapando a pequena quantidade de lquido que tinha restado. Ela comeou a caminhar para a segunda caverna, com a vaga idia 
de deixar a bacia em algum lugar seguro, mas at que pudesse chegar  sua fogueira, os efeitos j se faziam sentir.
     Estava to desorientada que nem reparou quando a bacia caiu no cho logo depois da demarcao de pedras da fogueira. Em sua boca, sentia o gosto das velhas 
florestas em seus primrdios, gosto de terra rica e mida, de folhas molhadas pela chuva, de gigantescos cogumelos carnudos... As paredes da caverna se dilatavam, 
recuando-se cada vez para mais longe. Sentia-se um inseto rastejante. Detalhes mnimos eram percebidos com uma clarividncia agudssima: contornos de pisadas, pequeninas 
pedras, cada gro de pira. Com o canto dos olhos percebeu algo se mexendo e ficou a observar uma aranha subindo por um fio brilhando  luz da tocha.
     A chama era hipnotizadora. Parou os olhos na luz bruxuleante e se ps a olhar os caracis de fumaa no subindo ao teto. Ela se aproximou da tocha e viu, ento 
uma segunda atraindo-a. Mas, ao alcan-la, uma outra adiante j lhe estava acenando. E depois, uma outra e mais outra e outra, sempre arrastando-a cada vez mais 
para o interior da caverna. 
     No reparou quando as tochas comearam a ficar mais espaadas e tampouco notou quando passou por um grande recinto cheio de homens cados em profundo transe 
ou por um outro menor, onde se achavam meninos adolescentes dirigidos pelos aclitos numa cerimnia que lhes fazia sentir um pouco o gosto das experincias vividas 
pelo homem adulto.
     Com um s propsito em mente ia em busca da pequenina chama para, entro, ser atrada pela seguinte. As luzes a conduziam por estreitas passagens que se abriam 
em ambientes maiores, para voltar a se estreitar novamente. Em certo momento, tropeou num desnvel do cho pondo-se a tatear a parede de pedra molhada que girava 
a seu redor. Foi, em seguida, dar num corredor que tinha em sua outra extremidade uma forte luz rosada. Era incrivelmente comprido. Parecia no acabar nunca. De 
vez em quando, era como se estivesse se enxergando de uma grande distncia, cambaleando ao longo do tnel, iluminado pelas fracas luzes de lamparinas. Sentia a mente 
arrastada para longe, para um vazio negro e se encolhia diante da imensido do nada, lutando para fugir-lhe.
     Por fim, alcanou a luz na extremidade do mel e viu diversas figuras sentadas em crculo. 
     Graas a alguma reserva de prudncia que ficara enterrada num ponto qualquer de sua mente, ela se deteve antes de chegar  ltima das chamas e se escondeu atrs 
de um pilar de pedra. Em sua cnira secreta, os dez mog-urs estavam inteiramente entregues  celebrao de um ritual. Eles apenas tinham dado partida  cerimnia 
que inclua os homens dos cls, deixando sua concluso com os aclitos, e se retiraram para seu sacrossanto recinto. L, iriam conduzir rituais secretssimos, at 
mesmo para os seus aprendizes.
     Envolvidos pelas peles de urso, achavam-se sentados cada um com uma caveira de urso em sua frente. Outras caveiras ainda adornavam os nichos nas paredes. No 
centro do crculo, havia um objeto cabeludo que Ayla no identificou de pronto, mas, ao perceber do que se tratava, s no gritou porque era grande seu estado de 
embotamento. Estava ali a cabea decepada de Gom.
     Entre horrorizada e fascinada, viu o mog-ur do cl de Norg pegar a cabea, vir-la e com uma pedra alargar o buraco occipital (a abertura maior na coluna da 
espinha). A massa cinza e gelatinosa do crebro de Gorn ficara exposta. O feiticeiro fez alguns gestos sobre a cabea e, em seguida, enfiou a mo na abertura retirando 
uma poro do tecido. Ele segurava a massa que lhe tremulava na mo, enquanto um segundo mog-ur pegava a 
cabea. Mesmo debaixo de seu estupor, Ayla se sentiu profundamente enojada. Contudo, via-se enfeitiada, olhando os mog-urs, um aps outro, ir enfiando a mo dentro 
da cabea e arrancar um pedao do crebro do homem morto pelo urso.
     Com tudo girando em sua volta, uma vertigem a botou  beira do vazio incomensurvel. 
     Engolia o vmito prestes a sair. Desesperada, agarrava-se  borda do enorme vcuo, mas ao ver as grandes e santas figuras dos cls levarem o crebro de Gorn 
s bocas, no se conteve mais. O ato de canibalismo arrastou-a para dentro do abismo negro.
     Gritava em silncio, sem poder escutar-se. no via, no sentia, estava desprovida de qualquer sensao, mas tinha entendimento. Sua mente no era um branco. 
O vazio era de outra espcie: aterrorizador, essa a qualidade do vazio. E medo. Um medo avassalador que se apoderou dela. Lutava, querendo voltar, gritava mudamente 
clamando por ajuda, mas cada vez se via mais arrastada para as profundezas. Sentia movimento e isso no deveria estar sentindo. Era cada vez mais veloz, aumentando 
 medida que ela mergulhava na negritu de do infinito, no vcuo frio da eternidade.
     Subitamente, a iluso do movimento foi diminuindo. Sentia como se houvesse qualquer coisa formigando em seu crebro, dentro da mente, como uma fora contrria 
que, devagar, puxava-a de volta para fora daquela infinitude abismal. Suas emoes lhe eram estranhas, no eram as dela. A mais for te era a do amor, mas o sentimento 
vinha misturado com uma profunda raiva e tambm um grande medo. Mas, ento, sentiu uma pontinha de curiosidade.
     Com grande surpresa percebeu que o mog ur estava dentro de sua cabea Em sua mente, sentia os pensamentos e os sentimentos dele com as emoes dela 
     Fisicamente, era algo diferente como uma sensao de atravancamento, mas sem desconforto, alguma coisa como um contato mais ntimo do que a proximidade fsica.
     As razes psicotrpicas contidas na sacola vermelha de Iza serviam para
     acentuar uma tendncia natural nas pessoas clanicas. O instinto nelas havia
     evoluido em memoria Noentanto, essa memoria, quando remontava muito
     no tempo, tornava-se idntica em todas, transformada em memria racial. As
     memorias raciais dos cls eram as mesmas e, no caso de as percepes estarem to extremamente aguadas, todos podiam compartilhar de idnticas memrias .
     Os mog-urs haviam desenvolvido essa natural tendncia, atravs da educao e do esforo consciente. Eles, de certa forma, eram capazes de controlar as memorias 
que compartilhavam entre si, mas s o Mog ur nascera com um dom que nenhum dos outros possua.
     No s podia ele compartilhar das memrias e control-las, como tambm tinha a possibilidade de manter a integridade do elo, enquanto os seus pensamentos viajavam 
atravs do tempo, do passado ao presente. Os homens de seu cl mais do que quaisquer dos outros, desfrutavam nas cerimnias de uma interrelao muito mais rica e 
plena. Entretanto, com as mentes bem- educadas dos mog-urs, ele podia, desde o incio, estabelecer ligao teleptica. Atravs dele, todos os mog-urs participavam 
de uma unio mais ntima e satisfatria do que qualquer comunicao fsica, pois o contato era de espritos. O lquido leitoso da bacia de Iza que lhes aguava a 
percepo e abria suas mentes para o Mog-ur havia igualmente permitido a ele, com sua capacidade inigualvel, criar uma simbiose com a mente de Ayla.
     O parto traumtico que lhe prejudicara o crebro tinha danificado apenas uma parte de sua capacidade fsica, no o superdesenvolvimento de sua sensibilidade 
psquica, onde residia seu grande poder. Mas o velho aleijado era o derradeiro produto de sua espcie. S nele, a natureza levara ao extremo o curso que estipulara 
para a raa clnica. No entanto, nessa, j no podia haver mais desenvolvimentos, se no passasse por mudanas essenciais e as suas caractersticas tinham perdido 
a capacidade de adaptao Tal como o gigantesco animal que veneravam e muitos outros daquele meio ambiente, tambm eles se achavam impossibilitados de sobreviver 
s mudanas radicais que ento se processavam.
     Aquela raa de homens que possua uma conscincia social bastante desenvolvida para cuidar e tratar de seus semelhantes quando se achavam doentes ou feridos, 
que j tinha tambm um sentido de espiritualidade suficientemente desenvolvido para enterrar os seus mortos e venerar o seu grande totem,aquela raa de homens de 
enormes crebros, mas sem lobos frontais, que no fizera qualquer avano significativo, que praticamente nenhum progresso mostrara em quase cem mil anos de existncia, 
estava marcada para seguir o caminho do mamute lanoso e do grande urso da caverna. Eles no o sabiam, mas tinham os dias contados, estavam todos condenados  extino. 
Em Creb, encontrava-se o ponto final da linha.
     A sensao de Ayla era como se houvesse uma segunda corrente sangunea sobrepondo-se  dela. A poderosa mente do grande feiticeiro explorava- lhe as convolues 
de natureza diferente da dele, tentando encontrar uma maneira de infiltrar-se. O ajuste era imperfeito, mas ele achava correntes similares e, quando essas no existissem, 
buscava alternativas, fazendo conexes onde s havia predisposies. Com surpreendente clareza, ela subitamente compreendeu que fora ele quem a tirara do vcuo e, 
mais ainda, que era ele quem impedia os outros mog-urs de tambm entrarem em conexo com ela, de tomar conhecimento de sua presena l. Ayla apenas percebia levemente 
a ligao dele com os outros feiticeiros, com os quais ela prpria no estava conectada. Eles, por sua vez, sabiam que o Mog-ur estabelecera uma ligao com algum 
- ou uma coisa qualquer - mas estavam longe de pensar em Ayla.
     E logo que ela compreendeu que fora o Mog-ur quem a salvara e que ele continuava ainda protegendo-a, percebeu tambm, com profundo sentimento de reverncia, 
o ato de canibalismo a que os feiticeiros se haviam entregue e que tanto a enojara. no chegou a apreender seu sentido em toda a extenso e nem tinha como saber 
que aquilo que presenciara era o ato da comunho. O motivo das reunies de cls era uni-los, fazer deles um s povo. No entanto, existiam mais cls do que somente 
os 10 que se achavam l presentes. Eles sabiam da existncia de outros que por viver em zonas muito afastadas no podiam fazer o percurso at o local das reunies. 
Iam apenas quelas que ficavam mais prximas de suas cavernas. Todos os povos clnicos compartilhavam da herana comum armazenada em seus crebros e quaisquer das 
cerimnias celebradas nas reunies tinham o mesmo significado para todos. Os feiticeiros acreditavam que era em benefcio dos cls que absorviam a coragem do rapaz 
que partira com o Esprito de Ursus, pois j que eram eles que guardavam em seus crebros poderes especiais, teria de ser atravs de seu intermdio que a coragem 
se difundiria a toda populao.
     Por tradio de longa data, somente os homens podiam participar de cerimnias religiosas. 
     Tal era a razo da raiva e do medo do Mog-ur. A presena de uma mulher numa cerimnia, mesmo que fosse algum ofcio religioso realizado rotineiramente por um 
cl, significava a condenao deste. E aquela no era uma cerimnia comum, mas um ritual de grande significao para todos os cls. Ayla era uma mulher, a sua presena 
l s podia significar desgraa e calamidade para todos, um fato irredinivel e irreversvel.
     E nem aos  cls ela pertencia. O Mog-ur agora via isto com uma clareza que no lhe era mais possvel negar. No instante em que tomara conscincia da presena 
de Ayla, compreendeu que ela no era uma mulher dos cls. Imediatamente, viu as consequncias que disso resultariam, mas era tarde demais. Seriam implacveis, ele 
o sabia. Mas o crime era de tal ordem que ele no tinha idia do que fazer com ela. Nem mesmo uma maldio de morte era suficiente. Antes de tomar qualquer deciso, 
quis saber mais a seu respeito e, atravs dela, sobre os Outros.
     Ele fora surpreendido ao sentir seu grito pedindo por socorro. Os Outros eram diferentes, mas era possvel que possussem algumas semelhanas com a raa clnica. 
Sentia que para o bem de seu povo ele precisava saber, alm do fato de que se sentisse curioso, um tipo de curiosidade que em geral as outras pessoas no tinham. 
Ela sempre o intrigara. Queria saber 
     o que a tornava diferente - Decidiu tentar a experincia.
     Procurando penetrar nos recessos mais recnditos do pensamento, o poderoso feiticeiro - controlando ao mesmo tempo os nove crebros condizentes com o seu, que 
voluntariamente se submetiam a ele e, em separado, um outro, similar, mas guardando diferenas - conduziu todos de volta s origens.
     Novamente, Ayla experimentou o sabor das florestas primordiais e sentiu quando esta se transformou no gosto das guas quentes. As suas recordaes no eram 
to ntidas quanto a dos outros. Para ela, era novo o sentimento de se ver lembrando o alvorecer da vida e a memria disto era vaga, fazendo-se ao nvel do inconsciente. 
No entanto, as camadas mais profundas relativas aos primeiros tempos casavam com as dele. Os primrdios foram iguais, pensou o Mog-ur. Ela se viu em clulas individualizadas 
e sentiu quando estas se dividiram e se diferenaram no ambiente das guas quentes que lhe forneceram nutrientes. 
     Percebeu as suas clulas crescendo, dividindo, divergindo e se movendo com um propsito definido. Outra vez uma divergncia e as tnues pulsaes da vida fortaleceram, 
ganhando figura e forma.
     Mais uma divergncia e sentiu a dor da primeira exploso do ar respirado pelas criaturas num novo elemento. Uma outra divergncia e a terra era rica e argilosa 
com a vegetao verde e florescente, onde ela cavava tocas para escapar de seres monstruosos, ameaando esmag-la. E mais outra divergncia, viu-se salva ao estender 
um de seus membros por cima de uma fenda aberta na crosta da terra. Mas de repente, s calor e aridez e a sede conduzindo-a de volta  orla do mar. E ainda outra 
divergncia, e sobre ela atuaram os vestgios de um elo perdido, deixado no mar, que lhe aumentaram a forma, a desnudaram de plos e lhe modificaram os contornos. 
Um ltimo desvio fez com que seus primos revertessem a uma forma mais primitiva, alongada, que, no entanto, continuou a absorver ar e a alimentar com leite os seus 
rebentos.
     E agora, achava-se ela ali, caminhando ereta, sobre duas pernas, deixando os membros dianteiros livres para manipular, possuindo dois olhos que enxergavam longe 
e um crebro anterior em princpio de formao. Estava-se desviando do Mog-ur, tomando um caminho diferente, mas no to distancia do que no desse para ele seguir-lhe 
a trilha que ia quase paralela. Ele rompeu o contato com os outros feiticeiros, mas esses j estavam longe demais e poderiam continuar sozinhos. E de qualquer modo 
j estava mesmo chegando o momento de fazer isso.
     Ficaram apenas os dois ligados, o velho feiticeiro dos cl e a mocinha dos Outros. Ele j no estava mais no comando. Continuava prosseguindo na trilha de Ayla, 
mas ela, por sua vez, seguia-lhe tambm os passos. Ela viu a terra passando de quente para fria, revestindo-se de gelo, num frio muitissimo mais intenso do que o 
que conheciam. Era uma terra distante no espao e no tempo, bem longe, para o lado do ocidente e ela sabia que no ficava muito afastada de um mar muito maior do 
que aquele que cercava a pennsula.
     Ela viu uma caverna, o lar de algum ancestral do grande feiticeiro, de algum que se parecia muito com ele. Era um quadro nebuloso, visto atravs da fenda que 
separava as suas raas. A caverna se localizava sob um ngreme paredo, de frente a um rio e a uma larga plancie. No topo do penhasco, uma enorme pedra saa nitidamente 
do alinhamento. 
     Era algo com uma coluna ou um bloco de pedra comprido e achatado, inclinando-se na beirada, como se tivesse sido ali congelado no momento em que ia despencar. 
A pedra vinha de outro lugar, um bloco errtico, de material diferente, trazido pelo caudal das guas e tremores de terra, at se localizar na beira do penhasco 
que abrigava a caverna. A cena era difusa, mas estava guardada em sua lembrana.
     Por um momento, foi tomada por imensa tristeza. Depois, viu-se sozinha. O Mog-ur j no podia mais segui-la. Encontrou por si mesma o caminho de volta, mas 
se havia adiantado um pouco no tempo. Mais uma vez, passou- lhe a viso rpida da caverna seguida por um confuso caleidoscpio de paisagens arranjadas no ao acaso 
na natureza, mas segundo um planejamento regular. Estruturas em forma de caixas erguendo-se da terra, compridas faixas de pedra estendendo-se em diversas direes 
e por onde passavam um mundo de estranhos animais em grande velocidade; enormes pssaros voando sem bater asas. E outras cenas mais, to estranhas que no pde compreend-las. 
Em sua pressa de alcanar o presente, houve uma ligeira ultrapassagem, um pequenino avano no tempo, exatamente at o ponto onde novamente ela deveria divergir. 
E, ento, sua mente se tornou clara, encontrando-se atrs de um pilar e olhando para os 10 mog-urs sentados em crculo.
     O Mog-ur a olhava e ela viu em seus olhos escuros a tristeza que sentira h instantes. Ele forjara no crebro dela novos e indelveis caminhos que lhe permitiram 
ter uma viso futura, mas, consigo mesmo, no podia fazer a mesma coisa. Enquanto a jovem estava tendo uma viso do porvir, ele conseguira um pequeno vislumbre, 
no do futuro, mas de um sentido do futuro. Um futuro que era dela, no dele. 
     Ele no percebia o conceito perfeitamente, mas compreendia o sentido potencial, e isso o deixava aterrado.
     Creb, praticamente, no tinha o menor poder de abstrao Com esforo, conseguia contar at pouco mais de 20. Era-lhe impossvel fazer saltos quantitativos ou, 
por intuio ter algum golpe de gnio. Sua mente - e disso ele sabia - era de longe mais poderosa do que a dela, talvez mais inteligente at. Mas sua capacidade 
intelectual era de natureza diferente. 
     Podia identificar-se com as suas origens e as dela. Suas lembranas eram em maior quantidade e muito mais ntidas do que a de qualquer outro homem de sua raa. 
Podia, inclusive, induzir Ayla a ter lembranas. Entretanto, nela, sentia a juventude, a vitalidade de uma forma mais nova. Ela havia novamente divergido e ele no.
     -Saia!
     Ayla pulou, ao escutar a ordem dada em tom rspido, surpresa de ele ter falado to alto. 
     Mas em seguida, percebeu que ele no falara. Ela havia sentido, no escutado.
     - Saia da caverna! Rpido. Saia, imediatamente.
     Ela pulou do seu esconderijo e saiu correndo pela passagem. Algumas lamparinas j estavam apagadas, outras crepitando j quase no fim. A luz, no entanto, era 
suficiente para gui-la no caminho. Nenhum som saa dos recintos onde os homens e os meninos, naquele instante, dormiam o sono sem sonhos. Ela encontrou as tochas, 
algumas tambm j apagadas, e finalmente correu para fora da caverna.
     Ainda estava escuro, mas j se viam os indcios de um novo dia. Ayla tinha o pensamento claro, sem nenhum vestgio mais de droga no organismo, mas sentia-se 
exausta. Viu as mulheres esparramadas no cho, purgadas e exauridas. Foi deitar-se ao lado de Uba. Tal como as outras, estava tambm nua e tambm sem notar o frio 
da madrugada.
     O Mog-ur, com passos mais lentos, sara logo depois dela e, quando chegou  entrada da caverna, Ayla j estava entregue a um sono profundo e, como o dos outros, 
igualmente desprovido de sonhos. Veio at onde a moa estava e olhou para a cabeleira loura e esparramada, to diferente da das outras mulheres quanto ela prpria 
o era. O Mog-ur 
     sentiu um grande peso abatendo- se sobre sua alma. no devia t-la deixado sair. Deveria 
     imediatamente t-la levado aos homens para que pagasse por seu crime, ali mesmo e naquele instante. Mas de que adiantaria? Isso no iria desfazer a catstrofe 
ocasionada por sua presena na cerimnia e nem impediria os cl de sofrerem a calamidade que estaria por chegar. De que adiantaria mat-la? Ayla era apenas uma em 
sua espcie e, alm do mais, ele a amava.



***

Captulo 25

     Goov saiu da caverna, espreguiando-Se e esfregando os olhos, cego com o sol da manh .Viu o Mog-ur curvado sobre uma tora, olhando fixamente para o cho. H 
tantas lamparinas e tochas apagadas que algum pode virar errado num daqueles corredores e se perder, pensou consigo. Vou perguntar ao Mog-ur se devo reencher as 
lamparinas e trazer outras tochas. O aclito ia na direo do feiticeiro, mas parou ao reparar no seu rosto contrado e seus ombros caindo desalentados. Talvez seja 
melhor no o incomodar.  melhor fazer de uma vez sem perguntar.
     O Mog-ur est ficando velho, continuou Goov falando consigo, enquanto voltava  caverna levando sacolas cheias de gordura, novos pavios e algumas tochas. Nunca 
me lembro de que ele j est velho. A viagem at aqui foi dura e as cerimnias exigiram muito dele. E ainda h a volta. Engraado, ia o aclito conjeturando nunca 
havia pensado antes nele como velho.
     Alguns outros homens saram da caverna tambm esfregando os olhos sonolentos. Ficaram olhando as mulheres estendidas pelo cho e, como sempre, se perguntando 
o que faziam elas que as deixava em tamanho estado de exausto. As primeiras mulheres a acordar correram atrs de suas roupas e voltaram para despertar as outras, 
antes que mais homens aparecessem do lado de fora da caverna.
     - Ayla - chamou Uba, sacudindo-a acorde. Acorde, Ayla.
     - Huumm - murmurou Ayla, rolando para o outro lado.
     - Ayla, Ayla! - chamou Uba outra vez, sacudindo-a com mais fora. - Ebra, no consigo fazer Ayla levantar.
     - Ayla! - disse a mulher com voz mais alta, sacudindo-a fortemente.
     A jovem abriu os olhos e tentou gesticular uma resposta; depois, tornou a fech-los e enroscou o corpo.
     - Ayla! Ayla! - chamou Ebra novamente.
     A moa abriu os olhos mais uma vez.
     - V para a caverna e durma at passar o efeito, Ayla. Voc no pode ficar aqui, os homens esto se levantando - ordenou Ebra.
     Ayla foi cambaleando para a caverna. Momentos depois, veio para fora, j inteiramente acordada. Ela estava branca como cera.
     - O que aconteceu? - gesticulou Uba. - Voc est plida. Parece que viu um esprito.
     - Uba... Uba, a bacia - falou Ayla, deixando-se cair no cho e enterrando o rosto nas mos.
     - A bacia? Que bacia? no estou entendendo.
     - Est quebrada - conseguiu por fim responder Ayla.
     - Quebrada? - disse Ebra. - E por que uma bacia quebrada vai bot-la nesse estado? Voc pode fazer outra.
     - no No posso. no como essa.  a bacia de Iza, aquela que veio da me dela.
     - A bacia da me? A bacia de cerimnias? - perguntou Uba, com o rosto aflito.
     Depois do uso de muitas geraes, a madeira da antiga relquia perdera a resistncia, tornando-se seca e quebradia. Sob a ptina branca, formara-se uma linha 
fina que passara despercebida e, agora, com o choque no cho de pedra, quando caiu da mo de Ayla, a madeira no resistiu e partiu em dois pedaos.
     Ayla no percebeu que Creb havia olhado para cima no momento em que ela saa da caverna. A sagrada bacia quebrada veio dar uma lgubre nota final aos pensamentos 
do feiticeiro. Tudo se casava. Nunca mais a mgica produzida com aquelas razes voltar a ser feita. Nunca mais realizarei uma cerimnia com essa bebida e no vou 
ensinar a Goov o modo de us-la. Os cls vo esquec-la. O velho aleijado apoiou-se pesadamente sobre o cajado e se levantou, sentindo pontadas de dor nas juntas 
tomadas pela artrite. J fiquei muito tempo sentado dentro de cavernas midas, chegou o tempo de Goov assumir. Ele ainda est moo para isso, mas eu estou muito 
velho. Se puxar por ele, pode ser que esteja preparado daqui a um ou dois anos. Bom, tem de estar. Quem sabe quanto tempo ainda vou viver?
     Brun reparou na mudana por que havia passado o velho feiticeiro. Imaginava que a depresso fosse causada pela queda natural que se segue a perodos de actividades 
intensas; principalmente sendo aquela sua ltima reunio de cl. Contudo, Brun preocupava-se. 
     No sabia como Creb iria resistir  volta. Certamente, ele iria atrasar-lhes a marcha. Antes de ir embora, Brun resolveu pegar seus caadores e fazer uma ltima 
incurso pelos terrenos prximos  caverna, para depois trocar carne fresca por determinados tipos deprovises que o cl anfitrio tinha estocado, de modo a aumentar 
o suprimento deles para a viagem de volta.
     Depois de uma caada bem-sucedida, Brun ficou com pressa de partir logo. Alguns cls j haviam ido embora. Uma vez terminadas as festividades, seu pensamento 
se voltou para 
     sua caverna e as pessoas que l ficaram, mas ele estava de moral elevado. Nunca fora to grande a disputa por sua posio o que tornava a vitria ainda mais 
saborosa. Achava-se contente consigo mesmo, contente com seu cl e contente com Ayla. Ela era uma boa curandeira. Ele j tivera prova disso antes. Quando a vida 
de algum se achava ameaada, ela se esquecia de tudo, tal como Iza. 
     Ele sabia que o Mog-ur contribura, procurando convencer os outros feiticeiros, mas fora Ayla por ela mesma quem demonstrara seu valor ao salvar a vida do jovem 
caador. Este e sua companheira iriam permanecer com o cl anfitrio at que ele estivesse suficientemente bem para poder viajar, talvez tivessem de passar o inverno 
todo l.
     O Mog-ur, afora uma nica vez, jamais falou da presena de Ayla na cmara dos feiticeiros. Ela estava fazendo os embrulhos, preparando para a partida na manh 
do dia seguinte, quando Creb entrou na segunda caverna. Ele a estava evitando, e isso a deixava muito sentida. Ao v-la, Creb parou brus camente e se virou para 
ir embora, mas Ayla lhe cortou a frente, jogando-se sentada a seus ps. Ele olhou para sua cabea abaixada e, soltando um suspiro, bateu-lhe no ombro.
     - O que voc quer, Ayla? - gesticulou ele.
     - Mog-ur, eu... eu - comeou ela desajeitada e prosseguindo apressada. - Oh, Creb, No aguento v-lo sofrendo desse jeito. O que posso fazer? Se voc quiser, 
vou procurar Brun. Fao tudo o que voc pedir. Apenas me diga o que tenho de fazer.
     O que voc pode fazer, Ayla? pensou ele. Pode mudar sua natureza? pode reparar o mal que causou? Os cls vo morrer e s restar voc e sua gente. Somos um 
povo antigo, guardamos as nossas tradies, honramos os espritos e veneramos o Grande Ursus, mas para ns terminou, est tudo acabado. Talvez tivesse de ser assim. 
Talvez no fosse voc, mas sua espcie. Ser que foi por isso que voc foi enviada a ns? Para me dizer? A terra em que vivemos  bela e rica. Por muitas e muitas 
geraes, ela nos deu de tudo o que precisvamos. E agora chegou a vez de vocs e veremos como iro dei x-la. O que pode fazer, ayla?
     - H uma coisa que voc pode fazer, Ayla - gesticulou o Mog-ur de vagar, dando nfase a cada movimento. Seu olho tinha uma expresso fria. - Voc pode nunca 
mais voltar a tocar nesse assunto.
     Ele se ps ereto, tanto quanto lhe possibilitava sua perna sadia, tentando no inclinar muito o corpo sobre o cajado. Em seguida, enfeixando nele todo o orgulho 
de seu povo, deu as costas e, com o corpo teso, cheio de dignidade, caminhou para fora da caverna.
     - Broud!
     O rapaz, num passo empertigado, dirigiu-Se ao homem que o cumprimentava. As mulheres do cl de Brun preparavam, apressadas, a refeio da manh. Haviam programado 
partir logo depois que tivessem comido e os homens aproveitavam ainda aqueles ltimos momentos para conversar. Durante sete anos ficariam sem se ver. Alongavam-se 
nas conversas, tevivendo alguns detalhes emocionantes da reunio, de modo a faz-la durar mais um pouco.
     - Voc se saiu muito bem desta vez, Broud, e j na prxima reunio de ver vir como chefe.
     - Na prxima, voc tambm vai se sair muito bem - gesticulou Broud, inflado de orgulho. - Tivemos sorte.
     - Voc  um homem de sorte. Seu cl  o primeiro, o mog-ur de vocs tambm  o primeiro e at a curandeira  a primeira. Sabe, Broud, vocs tm sorte de ter 
Ayla. Nenhuma curandeira iria enfrentar um urso da caverna para salvar a vida de um caador.
     Broud franziu ligeiramente o cenho. Viu, ento, Voord e se dirigiu a ele.
     - Voord! - acenou, cumprimentando. - Fiquei contente por ter sido voc o escolhido e no Nouz. Ele esteve bem, mas sem dvida voc foi melhor.
     - E voc mereceu a primeira escolha, Broud. Voc tambm fez uma bela corrida. Alis, seu cl todo merece o primeiro lugar. At sua curandeira  a melhor, apesar 
de que, no princpio, eu tivesse minhas dvidas. Quando voc for o chefe, ela ser uma boa curandeira para se ter por perto. S espero que no cresa muito mais. 
Aqui entre ns, eu me sentiria meio sem graa tendo que levantar os olhos para fitar uma mulher.
     -  verdade, ela  muito alta - falou Broud, contrafeito.
     - Mas isso no tem importncia. O que interessa  que ela seja boa curandeira, certo?
     Broud mal assentiu com a cabea, desconversou e logo depois se afastou. Ayla, Ayla! J estou comeando a ficar farto de Ayla, disse consigo, encaminhando-se 
para um lugar mais vazio.
     - Broud, eu queria conversar com voc, antes de partirem - disse um homem, vindo a seu encontro. - Voc sabe que tenho no meu cl uma mulher com uma filha deformada 
parecida com o filho de sua curandeira. Falei com Brun e ele concordou em aceit-la, mas Brun quis que eu falasse com voc tambm. Quando chegar a ocasio, muito 
provavelmente voc ser o chefe. A me prometeu educar a filha para ser uma boa mulher, digna do primeiro cl e do filho da primeira curandeira. Voc no tem nada 
a opor, no ? 
     Seria essa uma unio perfeitamente lgica.
     - no - respondeu Broud secamente, rodando nos calcanhares. Se no estivesse com tanta raiva, poderia ter objetado, mas no queria entrar em nenhuma discusso 
sobre Ayla naquele momento.
     - A propsito, foi uma boa corrida, Broud.
     Ele no viu o comentrio, j estava de costas. Enquanto caminhava para a caverna, viu duas mulheres entregues a uma animada conversa. Sabia que devia desviar 
os olhos para no ver o que diziam, mas foi em frente, fingindo no reparar.
     -... simplesmente no acreditava que fosse possvel ela ser uma mulher dos cls e quando vi seu filho ento . . mas o modo como ela foi caminhando direto para 
Ursus, parecia at que fosse algum do cl anfitrio, sem mostrar nenhum medo dele ou de qualquer coisa. Eu no conseguiria fazer isso.
     - Conversei um pouco com ela.  uma pessoa muito agradvel e se comporta como todo mundo. Mas no consigo deixar de ficar pensando... ser que ela vai conseguir 
encontrar um companheiro?  muito alta. Qual o homem que quer uma mulher mais alta do que ele? Mesmo que seja a primeira curandeira.
     - Algum me disse que um dos cls est estudando esse assunto, mas no houve tempo para que se acertassem os detalhes. Em todo caso, querem conversar sobre 
isso. Disseram que enviariam um mensageiro, se resolvessem aceit-la.
     - Disseram-me tambm que esto morando numa nova caverna. Parece que foi ela quem encontrou e dizem que  uma caverna muito grande e que trouxe muita sorte 
para eles.
     - Deve ficar perto do mar e os caminhos que levam at l esto muito visveis. Imagino que um mensageiro esperto possa ach-los com facilidade.
     Broud passou por elas, contendo-se para no dar uns cascudos nas duas tagarelas preguiosas. Mas nem uma nem outra eram de seu cl. Apesar de ser um direito 
seu disciplinar qualquer mulher, no era de boa poltica bater em algum sem ter a permisso do companheiro ou do chefe, a no ser que a Infrao fosse extremamente 
grave. Aquilo podia ser grave para ele e para outro j no ser.
     - Nossa curandeira disse que ela  muito jeitosa - dizia Norg a Brun, enquanto Broud entrava na caverna.
     - Bom, voc sabe, ela  filha de Iza - falou Brun. - E Iza soube prepar-la muito bem.
     - Pena Iza no ter vindo. Soube que est doente.
     -  verdade, e essa  uma das razes que me fazem querer chegar l de pressa. Temos um longo caminho pela frente. Sua hospitalidade foi maravilhosa, Norg, mas 
a caverna da gente  que  a nossa casa. Esta foi uma das melhores reunies de cls a que j assisti. Por muito tempo ser lembrada - disse Brun.
     Broud virou de costas com os punhos cerrados, antes de ver o cumprimento que Norg lhe estava dirigindo. Ayla, Ayla, sempre Ayla. Todo mundo s fala dela. Chega 
a parecer que ningum fez nada nesta reunio a no ser ela. Foi por acaso ela quem teve a honra de ser escolhida em primeiro lugar? Quemestava montado na cabea 
do urso, enquanto ela se achava bem protegida no cho? E da que tivesse salvo a vida daquele caador? Provavelmente ele nunca voltar mais a andar. Ela  feia, 
 alta demais e tem um filho deformado. Essa gente devia saber como sabe ser insolente quando est em casa.
     Precisamente nesse instante, Ayla passou, apressada, carregando diversas trouxas. Havia tanto dio no olhar que Broud lhe dirigiu que ela chegou a encolher 
o corpo. O que ser que fiz agora? perguntou-se ela. Mal pus os olhos em Broud durante todo esse tempo que passamos aqui.
     Broud era agora um homem feito, mais parrudo do que qualquer outro, e a ameaa que ele representava era muito maior do que simplesmente os estragos que podia 
fazer com sua enorme fora fsica. Era o filho da companheira do chefe e destinado a ocupar essa posio algum dia. Ele pensava intensamente nisso enquanto observava 
Ayla botar as trouxas no cho do lado de fora da caverna.
     Depois de todos terem acabado de comer, as mulheres rapidamente ensacaram os poucos utenslios usados na refeio. Brun estava impaciente para partir e tambm 
elas. Ayla despediu-se de algumas curandeiras, da companheira de Norg e de mais algumas outras mulheres. Enfiou o filho na manta de carregar e foi tomar o lugar 
que lhe era destinado durante a marcha. Brun deu o sinal e comeou a atravessar a rea em frente da caverna. 
     Antes de fazer a curva no caminho, ele parou e todos se viraram para olhar uma ltima vez. 
     Norg e todo seu cl estavam de p na entrada.
     - Que Ursus os acompanhe - gesticulou Norg.
     Brun fez que sim com a cabea e se ps outra vez em marcha. Teriam ainda que transcorrer sete anos para tornarem a ver Norg, ou quem sabe, talvez nunca mais. 
S o Esprito do Grande Urso da Caverna saberia diz-lo.
     Tal como Brun imaginara, a viagem estava sendo difcil para Creb. J sem o sentimento de expectativa para anim-lo e muito deprimido com o segredo que ele guardava 
e que no parava de remoer em pensamento, volta e meia seu corpo o traa. A preocupao de Brun aumentava, ele nunca vira o grande feiticeiro to desalentado. Estava 
sempre ficando para trs. Brun frequentemente tinha que enviar um caador atrs dele, enquanto ficavam  sua espera. O chefe diminuiu o passo, esperando com isso 
facilitar a marcha, mas Creb parecia no se importar. As poucas cerimnias noturnas, realizadas por insistncia de Brun, careciam de fora. O Mog-ur mostrava-se 
hesitante, com os gestos contrafeitos, como se o corao no estivesse ali. Brun notou tambm que Creb e Ayla mantinham distncia um do outro e que, embora ela no 
tivesse dificuldade em acompanhar o ritmo da marcha, faltava-lhe vivacidade nos passos. H alguma coisa errada com esses dois, pensou.
     Haviam levado quase toda a manh passando por entre um capim alto e j meio murcho. Brun olhou para trs e Creb no estava  vista. Ele ia fazer sinal a um 
dos homens, depois mudou de idia e caminhou at Ayla.
     - Volte e encontre o Mog-ur - gesticulou.
     Ela pareceu surpresa, depois assentiu com a cabea. Entregou Durc a Uba e correu de volta passando pela trilha feita no capim com as pisadas deles. Achou Creb 
muito atrs, caminhando devagar e se apoiando pesadamente sobre o cajado. Parecia estar sentindo dor. 
     Quando ela o havia procurado, cheia de remorso e afeto, ficara to espantada com a resposta que ele dera, que depois disso no soube mais o que lhe falar. Tinha 
certeza de que ele agora estava padecendo com seu doloroso reumatismo nas juntas. Havia recusado tu do quanto lhe oferecera para aliviar as dores, e ela, depois 
de se ver repelida umas tantas vezes, deixara de insistir, embora morresse de pena dele. Ao vla, ele parou.
     - O que voc est fazendo aqui?
     - Brun me mandou procur-lo.
     Creb rosnou qualquer coisa e comeou a andar. Ayla ia atrs dele. Obser vava suas passadas lentas e dolorosas, at que no aguentou mais. Passou-lhe, ento 
 frente, arrojando-se a seus ps, obrigando-o a parar. Creb ficou olhando-a por muito tempo, at que por fim lhe bateu no ombro.
     - Esta mulher gostaria de saber por que o Mog-ur est zangado.
     - no estou zangado, Ayla.
     - Ento por que voc no me deixa ajud-lo? - perguntou a jovem, suplicando. - Antes, o Mog-ur nunca recusou. - Esforava-se por manter a calma. - Esta mulher 
 uma curandeira, ela est preparada para ajudar aqueles que sofrem.  esse o seu dever e o seu ofcio. Di a esta mulher ver o Mog-ur sofrendo e no poder ajudar 
- ao dizer isso j no conseguiu mais manter a postura formal. - Oh, Creb, deixe-me ajud-lo. Voc no sabe que eu gosto de voc? Que para mim voc  como o companheiro 
de minha me? Voc tem me sustentado, falado por mim, eu lhe devo a minha vida. no sei por que voc deixou de gostar de mim, mas no deixei de gostar de voc. - 
As lgrimas escorriam-lhe pelo rosto, num desespero sem fim.
     Por que ser que sempre surge gua nos seus olhos, quando acha que no gosto dela? E por que ser que essa fraqueza de olhos sempre me leva a fazer alguma coisa 
por ela. Ser que todos os Outros tambm tm o mesmo problema? Ela tem razo. Nunca me importei que ela me ajudasse antes, por que iria agora me incomodar? Ela no 
 uma mulher dos cls. 
     Que pensem o que quiserem, mas no . Nasceu dos Outros e sempre ser deles. Ela mesma no sabe disso. Pensa que  uma mulher dos cls pensa at que  curandeira. 
Curandeira . 
     Pode no ser da linha de Iza, mas  curandeira e tem tentado ser como uma de nossas mulheres, por mais difcil que isso s vezes possa ser para ela. Gostaria 
de saber at que ponto isso lhe custa. Esta no  a primeira
     vez que aparece gua em seus olhos, mas quantas vezes no ter lutado para evitar que isso acontecesse? Sempre surge, quando acha que no gosto dela. Ser que 
 uma coisa que pode mago-la tanto assim? At que ponto eu me sentiria tambm magoado, se achasse que ela no gostava de mim? Creb tentava v-la como uma estranha, 
como uma mulher do Outros, mas ela continuava sempre sendo Ayla, a filha da companheira que no teve.
     -  melhor nos apressarmos, ayla. Brun est esperando. Enxugue seus olhos e, quando fizermos uma parada, voc pode preparar-me um ch de salgueiro, ouviu, curandeira?
     Um sorriso surgiu em meio s lgrimas. Ela levantou e se ps outra vez atrs dele. Depois de alguns passos, foi ficar do seu lado. Ele parou por um momento, 
meneou a cabea e se apoiou nela.
     De imediato, Brun reparou na mudana ocorrida e retomou o passo da marcha, mas sem a presteza que gostaria. Havia um ar de melancolia em Creb. contudo parecia 
que ele se empenhava mais. Eu sabia que devia estar havendo qualquer coisa com esses dois, disse Brun consigo. Mas parece que deram um jeito de resolv-la entre 
eles. Sentia-se satisfeito por ter tido a idia de mandar Ayla atrs do velho feiticeiro.
     Creb deixava que Ayla o ajudasse, mas continuava havendo um distanciamento entre os dois. Fora uma ruptura grande demais para que ele pudesse facilmente dar 
a volta por cima. 
     No conseguia esquecer a diferena de seus destinos, e isso esfriava a relao calorosa de outros tempos.
     Enquanto avanavam em seu caminho de volta  caverna, fazia calor durante o dia, mas as noites comeavam a ficar frias. A primeira viso das montanhas enciniadas 
de neve, vista longinquamente a oeste, trouxe novo alento ao cl mas sentiam as distncias sendo diminudas devagar e, com o passar dos dias, a cadeia de montanhas 
no sul da pennsula acabou se tornando uma parte do cenrio. Estavam fazendo progressos, ainda que de modo imperceptvel. Os dias iam se sucedendo enfadonhamente, 
enquanto prosseguiam rumo oeste, com as geleiras j ento bem caracterizadas por suas profundas rachaduras azuis e os picos avermelhados assumindo as formas das 
serras e afloramentos.
     Eles haviam forado a marcha at comear a escurecer, quando acamparam pela ltima vez na plancie e j estavam todos acordados com as primeiras luzes do dia 
seguinte. Os terrenos das estepes fundiam-se com um par que de rvores altas, e a vista de um rinoceronte comedor de pastagens das regies temperadas, que, sem se 
dignar a tomar conhecimento da presena deles, prosseguiu no seu caminho, trouxe-lhes a sensao de estar em casa. Ao chegar a uma trilha serpenteando o sop das 
colinas, apertaram o passo. Por fim, contornaram o conhecido morro de todos os dias e, com os coraes batendo alto, viram a caverna. Estavam em casa.
     Aba e Zoug correram ao encontro deles. Aba, cheia de alegria, cumprimentou a filha e Droog, abraando, em seguida, as crianas mais velhas e depois botou Groob 
no colo. Zoug fez um cumprimento de cabea na direo de Ayla e correu para Grod e Ika, e logo depois para Ovra e Goov.
     - Onde est Dorv? - gesticulou Ika.
     - Est agora caminhando no mundo dos espritos - respondeu Zoug. - Sua viso ficou to ruim que j no podia ver o que as pessoas estavam lhe dizendo. Acho 
que ele se deu por vencido e no quis esperar pela volta de vocs. Quando os espritos vieram cham-lo, foi junto com eles. Enterramos Dorv e marcamos o lugar para 
que o Mog-ur realizasse mais tarde as cerimnias fnebres.
     Ayla, de repente aflita, olhou em derredor.
     - Onde est Iza?
     - Ela est muito doente, Ayla - respondeu Aba. - Desde a ltima lua nova que no sai da cama.
     - Iza! no Iza! no No - gritou Ayla, correndo para o interior da caverna. Ao chegar  fogueira de Creb, atirou ao cho as trouxas e correu para junto de Iza, 
deitada sobre suas peles.
     - Iza, Iza! - chamou, em voz alta.
     A velha curandeira abriu os olhos.
     - Ayla - falou Iza, com sua voz spera que mal se ouvia. - Os espritos atenderam os meus desejos - gesticulou, debilmente. - Vocs esto de volta. - Estendeu 
os braos e Ayla a abraou, sentindo-lhe o corpo magro e fraco, quase s pele e osso. Os cabelos estavam como a neve, e o rosto enco vado, com os olhos afundados, 
era um pergaminho seco distendido sobre os ossos. Parecia infinitamente mais velha e tinha pouco mais de 26 anos.
     Ayla mal podia enxergar com as lgrimas escorrendo-lhe pelas faces.
     - O que eu tive de ir fazer nesta reunio de cls. Devia ter ficado aqui e tomado conta de voc. Sabia que voc estava doente, por que tive de ir em bora, sabendo 
que voc iria ficar sozinha aqui?
     - No, no, Ayla - gesticulou Iza. - no se culpe. Voc no pode mudar aquilo que tem de acontecer. Eu sabia que estava morrendo quando vocs partiram. Voc 
no ia poder ajudar e ningum iria tambm poder. A nica coisa que desejava era ainda ver vocs todos mais uma vez, antes de istar-nie aos espritos.
     - Voc no pode morrer! no vou deixar que morra, Iza. Cuidarei de voc. Vou fazer com que fique boa - gesticulou Ayla, em desespero.
     Ayla, Ayla. H coisas que nem a melhor das curandeiras  capaz de fazer.
     O esforo para falar trouxe-lhe um acesso de tosse. Ayla apoiou o corpo de Iza at que a tosse se acalmasse e depois enfiou sua capa de pele por baixo da doente 
para levantar-lhe o corpo e facilitar a respirao Em seguida, passou a dar uma busca nos remdios que se achavam por perto da cama
     - no estou vendo nenhuma nula por aqui. Onde est?
     - Acho que acabou - respondeu, fracamente, Iza. O acesso a deixara exausta. - Tive de usar o que tinha e no pude sair para pegar mais. Aba tentou encontrar, 
mas acabou trazendo girassis.
     - Eu no devia ter ido - falou Ayla. Em seguida, saiu correndo para fora da caverna, encontrando na entrada Uba com Durc no colo e Creb.
     - Iza est muito doente - gesticulou Ayla, completamente transtornada. - E nem remdio tem para tomar. Vou buscar alguns ps de nula. Ela tambm est sem fogo, 
Uba. Por que fui para essa reunio de cl Devia ter ficado aqui com ela. Por que tive de sair daqui? 
     - Seu rosto, com uma expresso sombria e sujo da viagem, estava riscado de lgrimas, mas ela no havia reparado e tampouco se importava. Desceu s carreiras 
pela encosta, enquanto Creb e Uba entraram apressados na caverna.
     Ayla atravessou o riacho, correu  clareira onde davam as nulas e com a mo mesmo cavou a terra, arrancando as plantas pelas razes. De volta, parou no riacho, 
apenas o tempo suficiente para lav-las.
     Uba j acendera a fogueira, mas a gua que ps para ferver estava apenas morna. Creb, de p, fazia gestos ritualsticos sobre Iza, fervorosamente, empenhando-se 
de uma maneira como h muitos dias no o fazia. Invocava cada um dos espritos que conhecia, implorando-lhes que fortalecessem a essncia da vida de Iza e que no 
a levassem ainda. 
     Uba havia posto Durc sobre a esteira. O beb comeava a engatinhar, firmando-se sobre as mos e joelhos e escapulira para o lado da me, ocupada cortando as 
razes em pedaos, mas ela o afastou quando viu que o garoto queria mamar. no tinha tempo para o filho. Ele se ps a berrar, enquanto ela despejava as razes dentro 
da gua, impaciente, pondo mais pedras para que fervesse logo.
     - Deixe-me ver Durc - gesticulou Iza. - Ele cresceu tanto!
     Uba levou-o at a me, botando o beb no colo dela. Mas o menino no tinha vontade de ser ninado por uma velha de quem no se lembrava e esperneou pedindo para 
descer.
     - Est forte e sadio - disse Iza. - Parece que j no tem nenhum problema para firmar a cabea sobre o pescoo.
     - J tem at uma companheira - contou Uba. - Um bebezinho que lhe foi prometido.
     - Uma companheira? Que cl  esse que prometeu uma companheira para ele? to pequenino e ainda por cima com este defeito.
     - Havia uma mulher na reunio que teve uma filha deformada. Ela veio conversar conosco no primeiro dia - explicou Uba. - O beb at parece com Durc, pelo menos 
a cabea  parecida. As feies no tanto. A me perguntou se eles no futuro no poderiam ser companheiros. Oda estava preocupada, com medo de que a filha nunca 
fosse encontrar um homem em sua vida. Brun e o chefe do cl dela se puseram de acordo. Acho que ela vem para c, depois da prxima reunio de cls, mesmo que ainda 
no tenha ficado mulher. Ebra disse que a menina podia viver com eles, at que os dois tivessem idade para ter uma fogueira. Oda ficou muito feliz, principalmente 
depois que Ayla fez a bebida para a cerimnia.
     Quer dizer que aceitaram Ayla como uma curandeira de minha linha. Tinha minhas duvidas de que isso pudesse acontecer - gesticulou Iza, cansada; mas s de ver 
as pessoas queridas  sua volta j a animava, pelo menos o esprito. Fez uma pausa e depois perguntou: - Qual o nome da menina?
     - Ura - respondeu Uba.
     - Gosto do nome. Soa bem. - Tornou a fazer outra pausa e, em seguida, indagou: - E Ayla? no encontrou um companheiro na reunio?
     - O cl onde Zoug tem parentes est pensando no caso dela. No princpio, eles recusaram, mas, depois que ela foi aceita como curandeira, disseram que iam pensar 
no assunto. no houve tempo para que as coisas ficassem acertadas. Eles podem aceitar Ayla, mas no acredito que vo querer Durc.
     Iza respondeu s com um sinal afirmativo de cabea e depois fechou os olhos.
     Ayla triturava carne para fazer um caldo para Iza, ao mesmo tempo em que vigiava a gua fervendo com as razes, de modo que a infuso ficasse com a cor e o 
sabor corretos, impaciente para que ficasse logo pronto. Dure, lamuriando-se, engatinhou para junto dela e novamente ela tornou a repeli-lo.
     - Deixe que eu fico com ele, Uba - falou Creb.
     Por um instante, Dure ficou quieto sentado no colo do velho, intrigado com sua barba. Mas logo se cansou e comeou a esfregar os olhos, lutando para se desvencilhar. 
De novo no cho, foi direto para a me. Estava com sono e fome. Ayla, de p junto da fogueira, parecia no reparar no beb choramin gando, querendo subir-lhe pelas 
pernas. Creb se levantou, deixou cair o cajado e fez sinal a Uba para que pusesse o menino no seu brao. Mancando muito, sem ter onde se apoiar, dirigiu-se para 
a fogueira de Broud e botou Durc no colo de Oga.
     - Durc est com fome e Ayla est ocupada preparando remdios para Iza. Ser que voc pode dar leite para ele, Oga?
     A moa disse sim. Pegou Durc e foi logo dando o peito para o beb. Broud franziu a cara, mas bastou um olhar duro do Mog-ur para que imediatamente engolisse 
em seco sua raiva. 
     Seu dio por Ayla no se estendia ao homem que a protegia e sustentava. Broud temia demais o Mog-ur para que pudesse ter-lhe dio. Bem cedo em sua vida, havia 
descoberto que a sagrada figura do feiticeiro raramente interferia na vida secular do cl. Suas actividades restringiam-se ao mundo dos espritos. Nunca o Mog-ur 
impediraBroud de exercer seu poder sobre a jovem que compartilhava de sua fogueira,mas assim mesmo o rapaz no desejava entrar em conflito aberto com o feiticeiro.
     Creb, de volta  sua fogueira, comeou a revirar as trouxas cadas pelo cho, procurando pela bolsa contendo a gordura do urso da caverna, a parteque lhe tocara 
na cerimnia do animal. Uba percebeu e se apressou em ajud-lo. Ele pegou a bolsa contendo a gordura derretida e foi para a gruta dos espritos. Embora sabendo que 
no havia qualquer esperana, iria valer-se de toda a mgica a seu alcance para ajudar Ayla a manter Iza viva.
     s razes por fim ferveram pelo tempo necessrio, e Ayla encheu umacuia com o lquido, agora impaciente, esperando que esfriasse depressa. Iza de certa forma 
havia se reavivado um pouco com o caldo quente que ela lhe dera antes, em pequenos goles e amparando-lhe a cabea, com os mesmos cuidados que ela prpria recebera 
quando tinha cinco anos e estava  beira da morte. Iza, antes de ficar de cama, estava comendo muito pouco e, depois, praticamente no se alimentou mais. A comida 
levada para ela ficava intacta. Aquele fora um vero triste e solitrio. Sem ningum por perto para vigi-la e secertificar de que tinha comido, ela quase sempre 
se esquecia ou simplesmente no se dava ao incmodo. Os outros trs, quando perceberam que ela estava muito cada, tentaram ajudar, mas no sabiam como.
     Quando o fim de Dorv estava prximo, Iza se levantou, mas o membro mais velho do cl teve uma morte rpida e pouca coisa ela pde fazer por ele, afora tentar 
trazer-lhe um pouco de conforto. Essa morte deixou-os profundamente abatidos. Depois que Dorv se foi, a caverna parecia mais vazia ainda, fazendo lembr-los do quanto 
tambm estavam perto de passar para o outro mundo. Aquela foi a primeira morte, desde o terremoto.
     Ayla achava-se sentada perto de Iza, soprando o ch na cuia de osso e,de vez em quando, provando para ver se j estava suficientemente frio. Estava to concentrada 
que no percebeu quando Creb saiu com Durc ou quandoo feiticeiro se retirou para a pequena gruta dos espritos, tampouco via que
     Brun se achava l observando-a. A jovem ouvia o barulho da respirao de Iza e sabia que o fim estava prximo, mas se recusava a acreditar. Procurava lembrar-se 
de tudo quanto fosse formas de tratamentos.
     Um cataplasma de casca de blsamo, pensou. Sim, isso  bom e tambm ch de mileflio. Aspirar o vapor tambm ajuda a melhorar bastante. Amoras e avencas. No, 
isso  para gripes sem gravidade. Razes de bardana? Talvez. Farinha de inhame? Claro, e as razes so melhores justamente no outono. Estava decidida a encher Iza 
de chs, cobri-la de cataplasmas e, se necessrio, afog-la em vapores. Tudo e qualquer coisa que prolongasse a vida de sua me, a nica me que conhecera. no suportava 
a idia de Iza morrer.
     Apesar de Uba estar inteiramente consciente da gravidade da molstia de sua me ela notara a presena de Brun. No era comum homens visitarem fogueiras de um 
outro, na ausncia do dono, e isso a deixava nervosa. A menina se apressou a catar as trouxas espalhadas pela fogueira, olhando, ora para Brun, ora para sua me 
e para Ayla. Sem ningum para orient-la e lhe dizer o que fazer, no sabia como conduzir a visita de Brun. Ningum tomou conhecimento da presena dele e nem o cumprimentou. 
O que se esperava que ela fizesse?
     Brun observava o trio de mulheres. A velha curandeira; a jovem de carter forte e primeira curandeira dos cl apesar de ser inteiramente diferente deles, e 
Uba, destinada tambm ao mesmo ofcio. Ele sempre fora muito apegado  sua germana. Iza tinha sido a menina mimada, querida de todos e tambm muito bem-vinda, uma 
vez que havia nascido um garoto forte e saudvel para dar continuidade  linhagem de chefes de cl. Ele sempre se 
     sentiu tambm como protetor de Iza. Jamais teria escolhido o homem que lhe foi destinado para companheiro. Nunca gostara dele, um fanfarro que ridicularizava 
o seu irmo aleijado. Iza no tinha outra alternativa, mas soube manobrar bem a situao. Contudo, havia conseguido ser um pouco mais feliz depois que o companheiro 
morreu. Ela era uma boa mulher e uma boa curandeira. O cl ir sentir sua falta.
     A filha de Iza est crescendo, pensou, observando-a. Logo Uba estar uma mulher. Devo ir comeando a pensar num companheiro para ela. Ter de ser um bom homem, 
algum com quem combine. O caador ser melhor, se sua companheira lhe for devotada. Mas,  exceo de Vorn, quem mais poder ser? Tenho tambm de pensar em Ona, 
que no pode 
     ser companheira de Vorn, j que os dois so germanos. Ela ter de esperar at Borg tornar-se homem. Se Ona ficar mulher cedo, pode ser que tenha filho antes 
de Borg estar pronto para assumir companheira. Talvez eu tenha de puxar um pouco por ele. Borg  mais velho do que Ona. Logo que ele comear a aliviar suas necessidades, 
ter idade bastante para assumir o status de homem. Ser que Vorn dar um bom companheiro para Uba? Droog tem sido boa influncia para ele. Talvez haja uma atrao 
entre os dois. Vorn gosta de se pavonear diante dela. Brun tomou nota em sua cabea de todos esses pensamentos para futuras referncias.
     O ch de raiz de nula esfriou e Ayla carinhosamente acordou Iza, apoiando-lhe a cabea enquanto lhe dava o remdio. no creio que desta vez voc consiga bot-la 
de p, Ayla, disse Brun consigo, reparando na magreza de Iza. Como ela envelheceu to depressa assim? Era a mais moa de ns trs e agora parece mais velha do que 
Creb! Eu me lembro da ocasio em que ela encanou meu brao, no devia ser muito mais velha do que Ayla quando tratou do de Brac. S que nesse tempo Iza j era mulher 
e tinha companheiro.
     Ela tambm fez um bom trabalho. Nunca me trouxe problemas, a no ser al gumas pontadas ultimamente. Tambm estou ficando velho. Meus dias de caador logo iro 
acabar e vou ter de passar o comando para Broud.
     Ser que ele est preparado para isto? Na reunio de cls, portou-se to bem que quase cheguei a renunciar. Broud  corajoso. Todo mundo me disse que sou um 
homem de sorte. 
     E realmente sou, tinha medo de que ele fosse escolhido para acompanhar Ursus. Seria uma honra, mas prefiro passar sem ela. Gorn era um bom homem. Foi duro para 
o cl de Norg. 
     Sempre  terrvel quando Ursus escolhe. s vezes,  uma sorte no ser agraciado com tal honraria; o filho de minha companheira ainda est caminhando neste mundo. 
E Broud  destemido, talvez at demais. Um pouco de ousadia e imprudncia ficam bem em rapazolas, mas um chefe de cl tem de ser prudente. Precisa pensar em seus 
homens. Precisa planejar e avaliar tudo de modo que as caadas sejam bem-sucedidas, sem que os homens se arrisquem desnecessariamente. Talvez eu devesse deixar Broud 
dirigir algumas caadas, para que ele fosse adquirindo experincia. Precisa aprender que um chefe, mais do que ter coragem, tem de saber conduzir.  necessrio responsabilidade 
e autocontrole.
     E o que dizer de Ayla que faz vir  tona tudo que existe de ruim nele? Ele se rebaixa competindo com ela. Ayla pode ser um pouco diferente, mas no deixa de 
ser mulher. E ela  uma mulher de valor, com muita determina o. Ser que o parente de Zoug vai assumi-la? Agora que estamos acostumados com sua presena, isso 
aqui vai ficar estranho sem ela.  uma boa curandeira tambm. O cl que contar com ela s tem a ganhar. Farei tudo o que puder para que eles saibam dar-lhe o devido 
valor. Veja agora, nem o filho, o filho que ela estava pronta para acompanhar ao outro mundo, consegue desviar sua ateno de Iza. Muito pouca gente enfrentaria 
um urso da caverna para salvar a vida de um homem. 
     Ela tambm  corajosa, mas aprendeu a controlar-se. Comportou-se muito bem na reunio. Em todos os sentidos, portou- se como uma verdadeira mulher, diferente 
de quando era mais criana. Todo mundo s teve elogios para ela, quando chegou no final.
     - Brun - chamou Iza, com voz fraca. - Uba, traga ch para o chefe - gesticulou, tentando sentar-se ereta. Ainda era a perfeita dona-de-casa. -ayla, arrume uma 
pele para Brun se sentar. Esta mulher lamenta no poder ela mesma servir o chefe.
     - Iza, no se incomode. no vim para tomar ch. Estou aqui para v-la- gesticulou Brun, sentando-se ao lado da cama dela.
     - H quanto tempo voc est de p a? - perguntou Iza.
     - Cheguei h pouco. Ayla estava ocupada. Preferi no incomodar e esperar que ela terminasse o que estava fazendo. Sentiram sua falta na reunio, Iza.
     - Tudo correu bem?
     - Este cl continua sendo o primeiro. Os caadores se portaram bem. Broud teve a honra de ter sido o primeiro escolhido para a Cerimnia de Ursus, e Ayla tambm 
se portou muito bem. Recebeu vrios elogios.
     - Elogios! Quem precisa de elogios? Quando so demais, os espritos ficam com cime. Se ela se portou direito e honrou o nome do cl,  o quanto basta.
     - Ela se comportou como uma perfeita mulher e tambm foi aceita pelos mog-urs. Ayla  sua filha, Iza, como esperar menos?
     - Sim, ela  minha filha, tanto quanto Uba. Tive sorte de os espritos me concederem duas filhas e ambas ser boas curandeiras. Ayla poder terminar a educao 
de Uba.
     - no - interrompeu Ayla. - Voc  quem vai terminar de educar Uba. Voc vai ficar boa. Ns estamos de volta e vamos cuidar de voc. Vai sarar, espere e ver 
- gesticulou aflita, em desespero. - Voc tem de ficar boa, me.
     - Ayla, minha filha, os espritos esto prontos para me receber. Logo vou ter de acompanh-los. Eles j atenderam meu ltimo desejo que era o de ver as pessoas 
que amo. Agora, no posso deixar que eles fiquem esperando por muito mais tempo.
     O caldo e o remdio tinham estimulado suas ltimas reservas. A febre subia com o herico esforo de seu corpo lutando contra a doena que exaurira suas energias. 
O brilho febril dos olhos e a cor das faces lhe emprestavam um falso aspecto de sade. Mas havia um fulgor translcido em seu rosto, como se iluminado por uma luz 
vinda de dentro, que no era brilho de vida. Mostrava-se como qualquer coisa de lgubre, uma espcie de incandescncia espiritual que Brun j vira antes. Era o despertar 
da fora vital preparando para partir.
     Oga permaneceu com Durc na fogueira de Broud at tarde, s o trazendo de volta j dormindo, depois de o sol ter desaparecido. Uba estendeu as peles de Ayla 
e deitou o garoto em cima delas. A menina se via confusa e com medo. no tinha ningum para apelar. Estava com receio de interromper Ayla nos seus esforos para 
salvar Iza e tambm com medo de perturbar a me. Creb custou muito a chegar. Ele pintou uns smbolos no corpo de Iza com uma pasta feita de ocre vermelho e gordura 
de urso, ao mesmo tempo em que fazia alguns gestos sobre ela. Imediatamente depois, voltou para sua pequena caverna e de l no saiu mais.
     Uba desfez os embrulhos e trouxas, ps a fogueira em ordem, cozinhou uma comida que ningum tocou e limpou tudo outra vez. Em seguida, silenciosa, foi sentar-se 
junto do beb dormindo, querendo pensar em alguma coisa que a mantivesse ocupada. Isso no ia acabar com o terror que sentia no corao mas pelo menos ela estaria 
fazendo algo. Era melhor do que ficar sentada, vendo a me morrer. Por fim, deitou-se na cama de Ayla, enroscando-se bem junto de Durc, numa triste tentativa de 
buscar algum que lhe desse um pouco de segurana e calor.Enquanto isso, Ayla atacava a molstia de Iza por todos os lados, tentando tudo quanto fosse remdio e 
tratamento que conseguia lembrar. Ficava debruada sobre ela, temendo sair de perto e ela escapulir durante sua ausncia. Ayla no foi a nica a guardar viglia 
naquela noite. S as crianas pequenas dormiam. Em todas as fogueiras, as pessoas estavam com os olhos parados nas brasas ou deitadas sobre as peles sem dormir.
     O cu do lado de fora estava pesado, com as estrelas encobertas e, dentro, a escurido se fazia cada vez mais forte perto da larga entrada, ocultando todo sinal 
de vida para mais alm da fogueira da caverna. No silncio da madrugada, com a noite ainda mergulhada inteiramente nas profundezas de suas sombras, Ayla, assustada, 
levantou a cabea, acordando de um ligeiro cochilo.
     - Ayla - disse Iza, numa voz sussurrada e rouca.
     - O qu?
     Os olhos de Iza refletiam a luz fraca das brasas na fogueira.
     - Quero dizer uma coisa antes de partir - comeou a gesticular, mas deixou as mos carem. 
     Era um esforo conseguir mov-las.
     - no tente falar, me. Descanse. Amanh, voc j vai estar mais forte.
     - no filha, tenho de falar agora. No vou durar at amanh.
     - Vai sim. Voc tem de viver, no pode partir.
     - No, Ayla. Estou morrendo. Voc tem de aceitar esse fato. Deixe que eu termine, no me resta muito tempo.
     Iza fez uma pausa, enquanto Ayla aguardava muda e desesperanada.
     - Ayla, sempre gostei mais de voc. No sei por que, mas  a verdade. Quis que voc ficasse comigo... quis que voc permanecesse no cl Mas breve no estarei 
mais aqui. Creb tambm no vai demorar muito a encontrar seu caminho para o mundo dos espritos e Brun est ficando velho. Broud ento ser o chefe. Ayla, voc no 
pode permanecer aqui quando chegar essa ocasio. Broud ir encontrar uma maneira de fazer mal a voc.
     Tornou a fazer outra pausa, fechou os olhos, lutando para respirar e arrumar foras para poder continuar.
     - Ayla, minha filha, a minha menina to estranha e voluntariosa que tanto tem lutado. Eu quis educ-la para curandeira para que voc, mesmo sem companheiro, 
tivesse algum status e pudesse permanecer no cl. Mas voc  uma mulher e precisa de um homem que seja seu. 
     No pertence  nossa gente, Ayla. Nasceu dos Outros e  a eles que pertence. Voc tem de ir embora, criana, encontrar seu povo.
     - Ir embora? - gesticulou, confusa. - Para onde eu iria, Iza? No conheo ningum dos Outros. Nem sei em que lugar iria procur-los.
     - H muitos deles ao norte daqui. No continente, passando a pennsula. Minha me me disse que o homem que a me dela tratou veio do norte. - Iza tornou a parar, 
depois forou-se a prosseguir. - Voc no pode ficar aqui, Ayla. V embora e encontre os Outros, menina. 
     Encontre sua gente e um companheiro para voc.
     As mos de Iza tombaram de repente e seus olhos fecharam. Respirava apenas superficialmente, mas com esforo tornou a pegar uma golfada de ar e abrir os olhos 
novamente.
     - Diga a Uba que eu a amo, Ayla. Mas voc sempre esteve em primeiro lugar. Voc  a filha de meu corao Sempre amei. - . mais... voc. - . - A respirao de 
Iza foi interrompida por um suspiro entrecortado e no tornou a voltar mais.
     - Iza! Iza! - gritou Ayla. - Me, no v embora, no me deixe! Oh, me, no v embora.
     Uba acordou com o lamento de Ayla e correu para junto dela.
     - me Oh, no Minha me foi embora! Minha me partiu.
     As duas ficaram paradas olhando uma para a outra.
     - Iza me pediu para dizer a voc que ela a amava muito, Uba - falou Ayla. Os olhos estavam secos, o choque ainda no fora inteiramente registrado em seu crebro. 
Creb veio na direo delas. Quando Ayla gritou, ele j se achava fora de sua pequena caverna. Com um soluo vindo do fundo do peito, Ayla se dirigiu aos dois e eles 
se encontraram num abrao doloroso, compartilhando o mesmo desespero. As lgrimas de Ayla molhavam todos. Uba e Creb no choravam, mas a dor deles no era menor.
     

***

Captulo 26
     
     Oga, voc poderia alimentar Durc outra vez?
     -        A gesticulao de Creb usando apenas uma das mos era perfeitamente clara para Oga, apesar de ele ter no colo um beb esperneando.Ayla devia dar de 
mamar ao menino, pensou Oga. no  bom para ela passar muito tempo sem dar o peito. No rosto do Mog-ur, achavam-se estampadas tanto sua dor pela morte de Iza como 
sua perplexidade com a reao de Ayla. Ela no podia recusar-lhe o pedido.
     - Claro que sim - falou Oga, tomando Durc nos braos.
     Creb voltou para sua fogueira, vendo que Ayla ainda no se movera do lugar, apesar de Ebra e Ika j terem levado o corpo de Iza que ia ser preparado para o 
enterro. Os cabelos de Ayla estavam em desalinho e o rosto borrado ainda com a sujeira da viagem e das lgrimas. Usava a mesma roupa suja e manchada com que fizera 
a longa caminhada de volta da reunio. Creb pusera Durc em seu colo quando ele comeou a gritar, mas ela se mostrava cega e surda s necessidades da criana. Uma 
mulher teria entendido que, apesar de a dor ser imensa, o choro do beb acabaria por surtir efeito. Creb, entretanto, tinha pouca experincia de me e bebs. Sabia 
que frequentemente, as mulheres estavam dando de mamar aos filhos de outras e ele no podia deixar uma criana passando fome, quando havia mulheres l que poderiam 
aliment-la. Ele, primeiro, tinha levado Durc para Aga e Uka, mas os filhos destas estavam praticamente sendo desmamados e as duas j no tinham muito leite. J 
Grev estava s com pouco mais de um ano e Oga parecia ter leite em abudncia, por isso Creb passou a recorrer a ela. Ayla no sentia doer os seus seios duros e empedrados, 
a dor no corao era maior.
     O Mog-ur apanhou o cajado e se dirigiu para o fundo da caverna. Tinha sido levada para l, para um canto que no era usado, uma pilha de pedras e, no cho de 
terra, fora aberta uma cova rasa. Iza fora uma curandeira de elevada posio social. Tanto a hierarquia clnica como a intimidade que ela manteve em vida com os 
espritos exigiam um lugar dentro 
     da caverna. Era uma forma de garantir que os espritos protetores que velavam por ela 
     ficassem junto de seu cl e ela prpria, do seu lar no outro mundo, zelaria por eles. Alm de 
     que, isso evitaria que animais dispersassem os seus ossos.
     O feiticeiro espalhou p de ocre vermelho no fundo da cova, fez alguns gestos e, depois de estar bento o lugar em que Iza seria enterrada, ele se dirigiu para 
um vulto coberto por um pano de couro. Afastou a coberta, revelan do o corpo cinzento e nu da curandeira. s pernas e os braos haviam sido do brados na posio 
fetal e amarrados com cordas 
     vermelhas feitas de tendes. O Mog-ur fez um gesto, benzendo-se contra os maus espritos e, em seguida, abaixou-se para passar no corpo j frio o unguento de 
ocre vermelho com gordura de urso. Curvada na posio fetal e pintada de vermelho como se fossem as manchas de sangue de um beb ao nascer, Iza seria enviada ao 
outro mun do da mesma maneira como chegara neste.
     Nunca fora to difcil para Creb executar seu dever. Iza tinha sido mais do que uma simples germana para ele. Ela o conhecia melhor do que ningum. Sabia da 
dor que ele suportava sem se queixar e da humilhao  que sofrera por causa de seus problemas fsicos. Ela entendia sua delicadeza de alma, sua sensibilidade, e 
sentia prazer com a importncia, o poder e o desejo dele de triunfar. Iza havia cozinhado para ele, cuidado de sua pessoa e aliviado seu sofrimento. Com ela, ele 
conhecera as alegrias de uma vida em famlia, quase como se fosse um homem normal. Apesar de nunca lhe haver tocado to intimamente como agora o fazia, ungindo seu 
corpo, ela fora mais companheira para ele do que muitas mulheres tinham sido para os seus homens.
     Quando Creb voltou  sua fogueira, tinha o rosto to cinza quanto o do cadver antes de ser pintado. Ayla ainda se encontrava junto da cama de Iza, com o olhar 
vago, perdido no espao, mas despertou ao perceber Creb remexendo nas coisas de Iza.
     - O que est fazendo? - gesticulou, querendo proteger tudo quanto havia pertencido a Iza.
     - Estou procurando as bacias e as coisas que foram de Iza. Os instrumentos que ela usou nesta vida devem ser enterrados para que ela tenha os espritos dessas 
coisas no outro mundo - explicou Creb.
     - Vou apanh-las - disse Ayla, pondo Creb de lado. A moa reuniu as bacias de madeira, as cuias de osso que Iza usava para preparar e medir as dosagens de seus 
remdios, pegou uma pedra redonda e outra com a base achatada, usadas para triturar e moer, os pratos pessoais de comer, alguns utenslios e a sacola de remdios. 
Depois de botar tudo em cima da cama de Iza, Ayla olhou para a pequena pilha de objetos que representavam toda a vida e o trabalho de Iza neste mundo.
     - Essas coisas no so os instrumentos de Iza - gesticulou Ayla com raiva. Ela deu um salto e foi correndo para fora da caverna. Creb, sem entender, ficou abanando 
a cabea, olhando-a sair. Depois, veio juntar as coisas de
     Iza.
     Ayla cruzou o riacho e correu a uma clareira onde j estivera com Iza.
     L, deteve-se numa moita constituda de flores de talos finos e graciosos e colheu uma braada de malvas de diversas cores. Em seguida, pegou uma quantidade 
de mileflios, uma planta analgsica utilizada em cataplasmas e parecida com a margarida. Corria pelos campos e bosques colhendo as plantas que Iza usava para preparar 
suas magias curativas: eram os cardos com suas folhas brancas e flores num tom amarelo-claro, as alfazemas amarelas, os tanacetos grandes e dourados e muscaris to 
azuis que chegavam quase a ser pretos.
     Cada uma das plantas que colhia tivera, em alguma ocasio, um uso na farmacopia de Iza, mas escolheu apenas as bonitas, com flores coloridas e perfumadas. 
Com os braos cheios de flores, a jovem fez uma parada na borda da clareira, chorando novamente com a 
     lembrana dos tempos em que saa ao lado de Iza para apanhar plantas. Sem a cesta de colher, seus braos estavam to carregados que tinha dificuldade para transportar. 
Algumas flores caram, ela se agachou para peg-las de volta. Viu, ento, os galhos entrelaados com cavalinhas com as suas flores midas e uma idia lhe ocorreu, 
chegan do quase a ter um 
     sorriso nos lbios.
     Retirou da dobra da roupa uma faca e cortou um galho da planta. Sobo sol clido de princpio de outono, ela se sentou e ps-se a tecer, por entre o emaranhado 
do galho, os talos das belas flores. Quando terminou o ramo inteiro era uma esplndida orgia de cores.
     O cl se espantou ao ver Ayla entrar na caverna com seu tranado de flores. A jovem seguiu direto para o fundo e o depositou junto do corpo da curandeira, que 
estava deitado de lado 
     com pedras formando um desenho oval ao redor dele.
     - Esses foram os instrumentos de Iza - gesticulou Ayla, afrontando, pronta para enfrentar qualquer desafio que se opusesse  sua vontade.
     O velho feiticeiro concordou com a cabea. Ela tem razo, pensou, foram esses os instrumentos de Iza. Aquilo com que ela trabalhou durante toda a vida e que 
to bem conhecia. Iza deve ficar feliz de t-los no mundo dos espritos. Ser que l existem plantas com flores?
     As ferramentas, os utenslios e as flores foram postas na sepultura junto com Iza, e o cl, 
     em seguida, comeou a empilhar pedras cobrindo o corpo, enquanto o Mog-ur fazia 
     gestos pedindo ao Esprito do Grande Ursus e o do Antlope Saiga que conduzissem em segurana o esprito de Iza ao outro mundo.
     - Esperem! - interrompeu, subitamente, Ayla. - Esqueci de uma coisa importante.Correu  fogueira de Creb e retirou de dentro de sua sacola de remdios as duas 
metades da velha bacia de cerimnias. Voltou e as depositou na sepultura ao lado do corpo de Iza.
     - Achei que, talvez, ela gostasse de ter isso tambm, agora que nunca mais ser usada.
     O Mog-ur acenou com a cabea em sinal de aprovao e prosseguiu com os gestos ritualsticos. Aps a ltima pedra ter sido colocada, as mulheres comearam a 
juntar madeira ao redor e em cima da pilha de pedras. Uma brasa da fogueira da caverna foi usada para acender o fogo que iria cozinhar o banquete fnebre em memria 
de Iza. A comida seria feita em cima da sepultura e o fogo ficaria ardendo por sete dias. O calor da 
     fogueira tinha no s a finalidade de desidratar o corpo, mumificando-o, como tambm a de impedir o mau cheiro.
     Quando as chamas se desprenderam, o Mog-ur comeou um derradeiro e muito sentido 
     lamento, feito com gestos que tocaram profundamente a alma de todos os membros do cl. 
     Ele se dirigia ao mundo dos espritos, falando do amor que tinham pela curandeira que havia cuidado e tratado deles e os ajudado em suas doenas e enfermidades, 
to misteriosas para eles quanto a prpria morte. Eram gestos ritualsticos, em essncia, os mesmos usados em toda cerimnia fnebre. Alguns, eram reservados principalmente 
aos rituais masculinos e, por isso, desconhecidos pelas mulheres, mas o significado era perfeita mente compreendido. Embora a forma exteriorizada fosse convencional, 
o fervor, a convico e a dor indizvel do feiticeiro davam-lhe aos gestos um significado muito mais profundo do que aqueles contidos meramente na forma.
     Com os olhos secos, Ayla olhava por cima do fogo crepitando os movimentos elegantes e fludicos do velho aleijado, sentindo-lhe a intensidade das emoes como 
se estas fossem suas. O Mog-ur expressava a dor dela, fazendo-a identificar-se com sua pessoa, como se ele estivesse dentro de seu corpo, falando com seu crebro 
e sentindo com seu corao Ela ento era a nica a sentir a dor dele como sua. Ebra tambm comeou a gritar sua dor, e foi logo depois seguida pelas outras mulheres. 
Uba, que se achava com Durc nos braos, sentiu brotar-lhe na garganta um berro no articulado, agudo, que veio juntar-se aos lamentos que extravasavam a mesma dor 
que era a sua. Ayla, com uma expresso vazia, olhava em frente, mergulhada num sofrimento grande demais para ser expressado. Nem mesmo o alvio das lgrimas pde 
encontrar.
     No soube quanto tempo ficou olhando sem ver as chamas que pareciam hipnotiz-la. 
     Ebra teve de sacudi-la, at que a jovem a olhasse com uma expresso totalmente inexpressiva.
     - Ayla, coma alguma coisa. Esta  a ltima festa que vamos compartilhar com Iza.
     Ela, automaticamente, pegou no prato com comida e botou um pedao de carne na boca, mas quase vomitou quando tentou engolir. De repente, deu um salto e foi 
correndo para fora da caverna. s cegas, ia passando aos tropees por entre as pedras e o mato no seu caminho. No princpio, seus ps a levaram pela conhecida trilha 
que ia dar na clareira da montanha, onde havia a pequena caverna que, em outras ocasies, j lhe havia oferecido abrigo e se gurana. Ela, entretanto, desviou se 
Desde que mostrara o lugar a Brun, aqui lo j no parecia mais pertencer-lhe e sua ltima estada ali havia deixado dolorosas recordaes. Subiu, ento, ao alto da 
rocha escarpada que protegia a caverna deles contra os ventos do norte uivando pela montanha abaixo no inverno e que desviava as fortes ventanias de outono.
     Aoitada pelas rajadas de vento, deixou-se cair de joelhos e, sozinha com sua dor, entregou-se ao sofrimento num canto montono e queixoso, enquanto se embalava 
ao ritmo de seu dolorido corao. Creb veio atrs dela e viu sua figura delineada contra os matizes crepusculares das nuvens, escutando-lhe os gemidos fracos e distantes. 
Por maior que fosse a dor dele, Creb no pde compreender por que ela, na aflio rejeitava o consolo da companhia e o motivo dessa retirada para dentro de si mesma. 
A habitual percepo do Mog ur achava-se obscurecida pelo sofrimento. Ele no percebeu que a dor de Ayla ultrapassava o sentimento de perda.
     A culpa torturava-lhe a alma. Ela se culpava pela morte de Iza. Havia deixado em desamparo uma mulher doente para ir a uma reunio de cl. Ayla era uma curandeira 
que abandonara algum num momento de necessidade e, o pior, algum que amava. Culpava-se por haver feito Iza escalar a montanha para procurar a planta que impediria 
o aborto do beb que desesperadamente desejava ter, da resultando a molstia fatal que lhe enfraquecera o organismo. Sentia-se tambm culpada pelo sofrimento que 
causara a Creb, quando, inadvertidamente, ps-se a acompanhar as luzes que levavam  pequena gruta encravada no fundo de uma montanha nas longnquas paragens do 
leste. No entanto, mais do que culpa e dor, ela se achava fraca e com febre. Estava sem alimentos e o leite empedrado lhe deixava os seios doloridos e inchados. 
Sobretudo, Ayla estava deprimida, passando por um estado de desnimo que Iza poderia ter ajudado, se estivesse l. Pois, como curandeira, Ayla tinha por missao salvar 
vidas e aliviar sofrimentos e ela perdera o seu primeiro paciente.
     Contudo, o que Ayla mais estava precisando era do seu filho. Tinha de aliment-lo e ocupar-se dele para voltar  realidade e poder compreender que a vida continuava. 
Ao regressar, entretanto,  caverna, Durc j estava dormindo ao lado de Uba. Creb o havia levado novamente para Oga lhe dar de mamar. Ayla se deitou e ficou se remexendo 
na cama sem conseguir dormir, sem se dar conta de que eram a febre e a dor que a mantinham acordada. Sua mente estava totalmente voltada para dentro, ocupada apenas 
com o profundo pesar e a culpa.
     Quando Creb acordou, ela j havia sado. Ficara, primeiro, rodando um pouco do lado de fora da caverna e depois tornou a subir para o alto da rocha. Creb, ansioso, 
observava-a de longe, mas no dava para que ele visse seu estado de fraqueza ou soubesse que estava com febre.
     - Devo ir atrs dela? - perguntou Brun, to desconcertado com a reao de Ayla quanto Creb.
     - Ela parece que quer ficar sozinha. Talvez seja melhor deix-la - respondeu Creb.
     Quando no pde mais enxerg-la, ficou preocupado. J era noite e Ayla ainda no havia voltado. Pediu, ento, a Brun para procur-la, lamentando no ter feito 
isso antes, ao ver Ayla chegar, carregada no colo de Brun. Depois do mal causado pelo sofrimento e a depresso, a fraqueza e a febre chegaram para completar o servio. 
Uba e Ebra trataram da curandeira do cl. Ayla delirava, s vezes tremendo de frio, s vezes ardendo em febre. O menor toque em seus seios fazia-a gritar de dor.
     Ela vai perder o leite - falou Ebra para a menina. -  tarde demais para que Durc possa fazer alguma coisa. O leite empedrou, o menino no vai conseguir pux-lo 
para fora.
     - Mas Dure  muito pequeno para ser desmamado. O que vai acontecer com ele? E com ela?
     No seria tarde demais se Iza estivesse viva ou se Ayla pudesse raciocinar. A prpria Uba sabia de certos cataplasmas e de remdios que poderiam ajudar, mas 
a garota era muito jovem e insegura; por outro lado, Ebra se mostrava to taxativa que no dava para discutir. 
     Quando a febre cedeu, o leite de Ayla secara. J no poderia mais amamentar o filho.
     - No quero esse monstrengo em minha fogueira, Oga! No quero que ele seja irmo de seus filhos! - Broud estava furioso, brandindo os punhos e Oga se encolhia 
de medo a seus ps.
     - Mas, Broud, ele  apenas um beb. Precisa de leite. Aga e Ika j no tm mais em quantidade, no adiantaria nada se elas dessem o peito para ele. E tenho 
de sobra, sempre tive muito leite. Se ele no se alimentar, morrer, Broud.
     - Pouco estou ligando se ele morrer. Antes de mais nada, este garoto no tinha de viver. Aqui nesta casa  que ele no entra.
     Oga deixou de tremer e encarou o homem que era o seu companheiro. Ela no acreditava que Broud fosse realmente impedi-la de alimentar o filho de Ayla. Achava 
que ele fosse gritar e esbravejar, mas que no fim acabaria cedendo. Ele no podia ser to cruel assim, no podia deixar que um beb morresse de fome, por mais que 
odiasse a me.
     - Broud, Ayla salvou a vida de Brac, como voc pode deixar o filho dela morrer?
     - Ela j foi bem paga por ter salvo a vida dele, no Est a vivendo e autorizada at a caar. Eu no lhe devo nada.
     - no  bem assim. Est vivendo, mas recebeu uma maldio de morte e voltou do mundo dos espritos porque seu totem quis que ela voltasse. Ele protegeu Ayla 
- protestou Oga.
     - Se tivesse sido amaldioada como devia, no teria voltado e jamais teria tido esse pirralho. Se seu totem  to forte, por que, ento ela perdeu o leite? 
Todo mundo disse que o filho dela seria um desgraado. E que maior desgraa existe do que perder o leite da me E agora voc quer trazer esse azar para dentro de 
nossa fogueira. no isso no vou permitir, Oga; assunto encerrado.
     Oga se sentou e olhou para Broud, friamente, com toda a calma.
     - No, Broud - gesticulou ela. - O assunto no est encerrado. - Oga j no estava mais com medo, e Broud se via estupefato. - Voc pode impedir de Dure viver 
em sua fogueira, esse  um direito que tem e nada posso fazer contra isso. Mas voc no me pode impedir de amament-lo. Este  um direito que a mulher tem. Toda 
mulher pode alimentar o beb que ela quiser e nenhum homem pode opor-se a isso. Ayla salvou a vida de meu filho e no vou deixar que o dela morra. Durc ser irmo 
de meus filhos, queira voc ou no.
     Broud estava cheio de espanto. Sua companheira recusar-se a se submeter  vontade dele era algo inteiramente inesperado. Oga jamais fora insolente, faltara-lhe 
com o respeito, ou deixara transparecer o mais leve sinal de desobedincia. No dava para acreditar. A surpresa transformou-se em fria.

     - Como ousa desafiar seu companheiro, mulher? Voc ser posta para fora dessa fogueira!
     - Nesse caso, pego os meus filhos e saio, Broud. Pedirei a um homem que fique comigo. Talvez o Mog-ur me deixe viver com ele, se ningum me quiser. Mas vou 
dar de mamar ao filho de Ayla.
     A nica resposta do rapaz foi um soco de mo fechada que derrubou a companheira direto no cho. Ele estava dominado demais pela raiva para responder de outra 
forma e j se preparava para bater novamente, quando de repente deu as costas e saiu pisando duro na direo da fogueira de Brun. Vou tratar dessa clamorosa falta 
de respeito, disse consigo.
     - Primeiro, ela contagiou Iza e agora essa sua impertinncia passou tambm a atingir a minha companheira! - gesticulou Broud, logo que botou os ps dentro da 
fogueira de Brun. - Falei a Oga que no queria o filho de Ayla em minha fogueira, que no queria aquela criana deformada para irmo dos filhos dela. E sabe o que 
respondeu? Que iria dar leite para ele de qualquer maneira! Disse que eu no poderia impedi-la. Que o garoto seria
     irmo dos filhos dela, quisesse eu ou No!  possvel acreditar? Logo Oga? A minha companheira?
     - Ela est certa, Broud - falou Brun, calculadamente calmo. - O homem no tem nada a ver com o beb que sua companheira alimenta. Isso No  problema dele. 
O homem tem coisas bem mais importantes com que se preocupar.
     Brun no estava nada satisfeito com a violenta recusa de Broud. Era vergonhoso o rapaz envolver-se emocionalmente em assuntos que eram da exclusiva competncia 
da mulher. E depois quem mais, alm de Oga, poderia fazer isso? Durc pertencia ao cl, sobretudo depois do festival do urso. E os cls sempre protegeram os seus 
membros. Mesmo a mulher que viera de um outro cl e que jamais produzira um s filho nunca foi deixada  mngua depois que o companheiro morreu. Ela podia no ter 
posio social, ser um fardo para todo mundo, mas, enquanto o cl tivesse comida, ela teria o bastante para sobreviver.
     Broud podia recusar Durc em sua fogueira. Isso impunha a responsabilidade de sustent-lo e educ-lo junto com os filhos de Oga. Brun estava infeliz com o problema, 
mas no era inesperado. Todo mundo sabia como Broud se sentia em relao a Ayla e a seu filho. Mas por que no deixar sua companheira alimentar o menino? no faziam 
todos eles parte do mesmo cl?
     - Voc est me dizendo que Oga pode ser desobediente o quanto quiser e ainda por cima impor sua vontade? - perguntou Brod, furioso.
     - E o que tem isso a ver com voc, Broud? Por acaso quer que a criana morra? - falou Brun. Broud ficou vermelho, havia um sentido subentendido na pergunta. 
- Durc pertence a este cl, Broud. Por mais que sua cabea seja deformada, ele no parece retardado. Vai crescer e ser um caador. Este  o seu cl. Inclusive uma 
companheira j est prometida para ele e voc concordou. Por que se preocupa tanto com o fato de sua companheira amamentar o beb de outra mulher? Ser ainda que 
 por causa de Ayla? Voc  um homem, Broud. Tudo que ordenar, ela  obrigada a fazer. E ela o obedece. Por que compete com uma mulher? Voc se rebaixa com isso. 
Ou ser que estou errado? Voc  homem, Broud? Bastante para dirigir este cl?
     - Simplesmente no quero que uma criana deformada seja irmo dos filhos de minha companheira - gesticulou Broud, de modo pouco convincente. - Era uma desculpa 
esfarrapada e no lhe passou despercebida a ameaa contida nas palavras de Brun.
     - Broud, qual o caador que nunca salvou a vida de um outro? o homem que no carrega consigo uma parte do esprito de um outro? Existe algum que no seja irmo 
de todos os outros? Tem importncia o fato de Durc ser irmo dos filhos de sua companheira agora, ou mais tarde, quando ele crescer? Por que est contra isso?
     Broud no tinha resposta, pelo menos nenhuma que fosse aceitvel pelo chefe. Ele no podia admitir seu dio de morte por Ayla. Seria o mesmo que admitir que 
no era capaz de controlar suas emoes e que no era bastante homem para ser chefe de um cl. Estava arrependido de ter procurado Brun.
     Devia me lembrar de que ele sempre tomou o partido dela, pensou. Brun estava orgulhoso de mim na reunio e agora, por culpa dela, j est outra vez duvidando 
de mim.
     - Bem, no me incomodo se Oga der de mamar a ele - gesticulou Broud. - Mas no quero essa criana em minha fogueira. - Nesse particular, sabia que estava dentro 
de seus direitos e no iria ceder. - Voc pode pensar que o menino no seja retardado, mas tenho minhas dvidas. no quero me responsabilizar por sua educao. Ainda 
no acredito que ele possa vir a caar.
     - Como quiser, Broud. J assumi a responsabilidade de seu treinamento. Tomei essa deciso antes at de ter aceitado o menino e eu o aceitei. Durc  agora um 
membro deste cl e ser um caador. Eu me encarrego disso.
     Broud ia regressar  sua fogueira, mas viu Creb trazendo Durc para Oga e achou melhor sair da caverna. Seria melhor no explodir sua fria enquanto estivesse 
na mira de Brun. 
     Tudo por culpa desse velho aleijado, disse consigo. Mas tratou logo de desviar o pensamento, com medo de que o feiticeiro, por alguma arte qualquer, pudesse 
adivinhar o que ia na sua cabea.
     Broud temia os espritos, talvez mais do que qualquer outro homem no cl e seu medo se estendia quele que vivia na maior intimidade com essas foras. Afinal, 
o que podia fazer um caador sozinho contra uma legio de seres incorpreos, capazes de trazer desgraa, doenas e mortes? E que podia ele contra o homem que possua 
o poder de invocar toda essa horda no momento em que bem entendesse? Fazia pouco tempo que Broud tinha voltado da reunio de cls e, l, ele passou muitas noites 
com a rapaziada dos outros cls assustan do-se uns aos outros com histrias falando de desgraas causadas pela ira dos mog-urs. Eram lanas que se desviavam no instante 
preciso em que iam atingir o animal, horrveis enfermidades trazendo dores e sofrimento, chifradas, ferimentos e toda uma srie de calamidades por culpa exclusiva 
de feiticeiros irados. No seu cl mesmo, as histrias de horror no eram muito contadas, mas sempre era bom se precaver, j que o Mog-ur deles era o mais poderoso 
de todos os feiticeiros.
     Apesar de que em certa poca Broud o achasse mais digno de troa do que de respeito, o corpo aleijado do Mog-ur com seu rosto terrivelmente mutilado e caolho 
aumentava-lhe o carisma. Para aqueles que no o conheciam, ele parecia inumano, talvez meio demonaco. 
     Broud tinha tirado partido desse medo e, diante das caras incrdulas e admiradas dos outros rapazes, contara vantagem dizendo no temer o Grande Mog-ur. Mas, 
apesar de toda a sua fanfarronada, ele ficara impressionado com as histrias contadas. O respeito dos cls pela figura trpega do velho feiticeiro havia tornado 
Broud mais consciente de seu poder.
     Nos sonhos em que se via como chefe, era Goov que aparecia como o seu mog-ur. Quase de sua idade e companheiro de caada, Goov, no papel de futuro mog-ur, no 
podia ser visto como uma figura distante e temerosa. Broud tinha certeza de que conseguiria lev-lo na lbia e coagi-lo nos momentos de decises, coisa que com o 
Mog-ur no ousava pensar nem mesmo em sonhos.
     Enquanto caminhava pelas matas perto da caverna, Broud tomou uma firme deciso. Jamais tornaria a dar ao chefe motivos para duvidar dele e jamais poria novamente 
em risco seu futuro, agora to prximo de ser alcanado. Mas quando for chefe, pensou consigo, serei eu a decidir. Ayla botou Brun contra mim e conseguiu que at 
mesmo Oga, a minha prpria companheira, ficasse contra mim, mas, quando eu for o chefe, isso vai acabar. 
     Pouco importa se Brun ficar de seu lado, ele j no ter mais como proteg-la. E ele se lembrou, ento, de todas as injustias que sofrera por causa de Ayla, 
de todas as vezes que ela lhe roubara os momentos de glria e de cada uma das pretensas ofensas infligidas a seu ego. Ficava insistindo nos mesmos fatos, repisando-os 
e se comprazendo no pensamento de faz-la pagar por tudo. Ele podia esperar. Algum dia, disse consigo, muito em breve, Ayla vai lamentar ter vindo parar neste cl.
     Broud no era o mico a pr a culpa no velho aleijado, o prprio Creb se sentia culpado por Ayla ter perdido o leite. De qualquer forma, ainda que fosse dele 
a responsabilidade do desastre, agora pouca diferena fazia. Creb, simplesmente, no entendia o modo de o organismo feminino se comportar. Sua experincia com mulheres 
era muito pequena. S depois de velho  que passou a conviver com uma situao de me com filho. No imaginara que, quan do uma mulher amamentava a criana de uma 
outra, o favor que estava fazendo era para seu prprio bem e no com o intuito de aliviar a amiga de uma obrigao Nunca ningum lhe explicara isso e nem tinha por 
que, e quando ele foi saber j era tarde demais.
     Ele se perguntava por que calamidade to terrvel tinha de suceder a Ayla. Seria simplesmente porque seu filho era um desgraado para a vida? Creb buscava razes 
e, na sua introspeco culposa, comeou a duvidar de seus prprios motivos. Estaria ele realmente preocupado, ou s querendo feri la, do mesmo jeito que ela, sem 
querer, havia feito com ele? Seria ele digno de seu grande totem? Teria ele um carter to baixo, a ponto de desejar vingana to mesquinha? Se dentre aqueles tidos 
como os mais santos, era ele a figura exemplar, ento talvez o seu povo merecesse morrer. A convico de que sua raa estava destinada a desaparecer, a morte de 
Iza e o sentimento de culpa pela desgraa acontecida a Ayla o deixavam abatido e profundamente melanclico. O teste mais difcil do Mog-ur havia chegado quando ele 
j estava quase no final de sua vida.
     ayla no punha a culpa em Creb, mas sim nela mesma. Ver uma outra mulher amamentando seu filho era para ela algo de insuportvel. Oga, Aga e Uka, todas elas 
vieram oferecer-se para amamentar Durc, mas quase sempre era Uba quem levava o menino para elas, permanecendo em suas fogueiras at que o beb tivesse terminado. 
Com o desaparecimento do leite, Ayla perdeu uma importante parte da vida de seu filho. Ainda chorava e se culpava pela morte de Iza, e Creb, por sua vez, estava 
to voltado para dentro de si mesmo que ela no conseguia aproximar-se dele, achando-se, inclusive, at com medo de faz-lo. Mas todas as noites, quando levava Durc 
para dormir em sua cama, ela se sentia grata a Broud. A recusa dele em aceit-lo fez com que no perdesse de todo o seu filho.
     No final do outono, Ayla voltou a caar com sua funda, como pretexto para poder ficar sozinha. Caara to pouco no ltimo ano que sua tcnica parecia enferrujada, 
mas, com a prtica, readquiriu a pontaria e a velocidade. Quase todos os dias, saa cedo e voltava tarde, deixando Durc aos cuidados de Uba. S lamentava que o inverno 
estivesse rapidamente se aproximando. O exerccio era bom para ela, mas agora precisava vencer uma nova dificuldade que surgira. Pouco havia caado depois de se 
ter transformado em mulher e os seios balanando, a cada passo, incomodavam-na quando corria ou saltava. Reparando que os homens usavam uma tanga para proteger as 
partes sensveis do corpo, modelou, na forma do seio, uma faixa que amarrava nas costas. Isso a deixava confortvel e pouco 
     estava ligando para os olhares curiosos que lhe eram lanados com o dos olhos.
     Embora o exerccio da caa fortalecesse o corpo e mantivesse, enquanto estava fora, sua mente ocupada, ela continuava carregando sua tristeza e dor. Parecia 
a Uba que a alegria se fora para sempre da fogueira de Creb. Sentia falta da me e tanto Creb como Ayla achavam-se envolvidos por uma aura de perptua tristeza. 
Apenas Durc, na sua inocncia, trazia uma sombra de felicidade com que a garota estava acostumada. O garoto, inclusive, conseguia de vez em quando que Creb sasse 
de sua letargia.
     Ayla sara cedo e Uba se achava no fundo da caverna procurando por qualquer coisa. Oga acabara de trazer Durc, deixando-o aos cuidados de Creb. O beb estava 
cheio e satisfeito, mas ainda sem sono. Ele veio engatinhando e, apoiando-se em Creb, conseguiu firmar-se sobre as pernas trmulas e inseguras.
     - Com que ento rapazinho, voc j est comeando a caminhar - gesticulou Creb. - J vai estar correndo por toda a caverna, antes at desse inverno acabar, 
hem? - Creb falava e lhe cutucava a barriga cheia, de modo a enfatizar os gestos.
     Durc abriu a boca emitindo um som que Creb s ouvira numa pessoa.
     Durc ria. Creb o cutucou outra vez e ele se dobrou numa risadinha que o fez perder o equilbrio e cair sentado sobre seu traseiro pequenino e duro. Creb o ajudou 
a levantar-se e olhou para o menino como se o estivesse vendo pela primeira vez.
     As pernas de Durc eram arqueadas, mas no tanto quanto as dos outros bebs do cl e, apesar de gorduchas, Creb pde perceber que os ossos eram mais compridos 
e finos. Acho que as pernas de Durc, depois de crescer, sero retas, iguais s de Ayla e tambm ser alto como ela. E o pescoo fino e descarnado que no aguentava 
com sua cabea quando nasceu, tambm se parece com o dela. Mas a cabea  diferente. Ou ser que no Essa testa alta  de Ayla. Ele virou a cabea de Durc para olh-lo 
de perfil. Atesta sem dvida , mas as sobrancelhas e os olhos so semelhantes aos da raa dos cls e a parte de trs da cabea tambm  mais parecida com a da nossa 
gente.
     Ayla tinha razo. Durc no  deformado, ele  uma mistura da raa dela com a dos cl O que me pergunto  se seria sempre assim que as coisas se passam. Ser 
que os espritos se misturariam? Talvez seja isso que fo nascer mulheres e no totens masculinos fracos. 
     Ser que a vida comearia com a mistura dos espritos dos totens masculinos com os femininos? Creb abanou a cabea sem saber responder. Mas isso botou a mente 
do velho feiticeiro para trabalhar e, naquele frio e solitrio inverno, frequentemente se encontrava pensando em Durc. Sentia que Durc era importante, mas por qu? 
A resposta lhe escapava.
     

***

Captulo 27
     
     Mas, Ayla, eu no sou como voc. Eu no cao. Quando ficar escuro, para onde eu vou? - dizia Uba, em tom de splica. - Eu tenho medo, Ayla.
     A expresso amedrontada de Uba fazia com que Ayla sentisse vontade de acompanh-la. 
     Uba ainda no tinha oito anos e o pensamento de passar dias sozinha, sem contar com a proteo da caverna deixava-a apavorada. Mas o esprito do totem da garota 
havia, pela primeira vez, travado uma batalha, de modo que ela era obrigada a cumprir a exigncia, no tendo nada a fazer sen s aceitar.
     - Voc se lembra daquela caverna onde me escondi quando Durc nasceu? Voc vai para l, Uba, pelo menos ali  mais seguro do que ficar ao relento. Todas as tardes 
eu subirei para v-la e levar comida para voc.  s por uns dias. No se esquea de levar uma pele para dormir e um carvo aceso para fazer a fogueira. Existe gua 
perto. Vai ser triste, principalmente de noite, mas l voc no corre perigo. E pense que voc agora  uma mulher. Daqui a pouco tempo, j vai estar com um companheiro 
e tambm com um beb s seu - disse Ayla para consol-la.
     - Quem voc acha que Brun vai escolher para mim?
     - E quem voc quer que ele escolha, Uba?
     - Vorn  o nico que no tem companheira, mas Borg daqui a uns tempos tambm j vai ter uma.  claro que Brun se quiser pode me dar como segunda mulher para 
qualquer homem. Acho que gostaria que fosse Borg. Ns dois costumvamos brincar de companheiros, at que um dia ele quis aliviar de verdade suas necessidades em 
mim. No deu certo e ele ficou com vergonha. Agora j est quase homem e no gosta mais de brincar com meninas. Mas Ona tambm j est mulher e Vorn no pode ser 
seu 
     companheiro; assim, s resta Borg para ela, a no ser que Brun resolva dar Ona para um homem que j tenha companheira. Dessa forma, tudo indica que Vorn ser 
o meu companheiro.
     - J faz algum tempo que Vorn  homem, provavelmente ele deve estar louco para ter uma companheira - disse Ayla. Ela tambm havia chegado  mesma concluso 
de Uba. - Voc gostaria de Vorn para companheiro?
     - Ele tenta fingir que no liga para mim, mas, s vezes, fica me olhando. Pode ser que ele no seja to mau assim.
     - Broud gosta dele. Com certeza, algum dia Vorn ser o segundo em comando. Voc no precisa se preocupar com questes de status, mas isso ser bom para os seus 
filhos. Eu no gostava muito de Vorn quando era pequena, mas acho que voc est certa, o rapaz no parece to mau agora. Inclusive, quando Broud no est por perto, 
ele se mostra simptico com Durc.
     - Fora Broud, todo mundo se mostra simptico com Durc, Ayla. no h quem no goste dele.
     - Bom, sem dvida, Durc est  vontade em todas as fogueiras. Ficou to acostumado a ser levado cada dia num lugar para mamar que passou a chamar todas as mulheres 
de me - gesticulou Ayla, franzindo ligeiramente o rosto, mas logo um sorriso apagou a expresso de tristeza. - Voc se lembra daquela vez que Durc entrou na fogueira 
de Grod, como se l fosse a casa dele?
     - Lembro. Tentei no olhar, mas no consegui - falou Uba. - Ele passou por Ika, cumprimentou, chamando-a de me e foi direto se meter no colo de Grod.
     - Foi mesmo. Nunca vi Grod com uma cara de surpresa to grande - falou Ayla. - Depois, Durc desceu e foi mexer nas lanas de Grod. Achei que este fosse ficar 
furioso, mas ele no resistiu vendo o danadinho do garoto querendo arrastar a lana maior de todas para fora. Quando Grod foi tirar a arma de sua mo, ele disse: 
Durc caa igual Grod.
     - Acho que se Grod tivesse deixado, Durc teria arrastado mesmo aquela lana para fora da caverna.
     - Ele leva todas as noites para a cama a lana de brinquedo que Grod lhe deu - disse Ayla, sorrindo. - Voc sabe, Grod no  de falar muito, por isso fiquei 
admirada quando ele apareceu outro dia em nossa fogueira. Ele mal me cumprimentou, foi direto onde estava Durc e ps a lana na mo dele, chegando at a mostrar 
como devia segur-la. Ao sair, tudo que disse foi: se o menino quer tanto caar, ele deve ter a sua lana.
     -  uma pena Ovra nunca ter tido filhos. Acho que Grod iria adorar se a filha de sua companheira tivesse um beb - falou Uba. - Talvez Grod goste de Durc porque 
na verdade ele no  apegado a nenhum homem em particular. Brun tambm gosta dele, disso eu tenho certeza. E at Zoug j comeou a mostrar para ele como se deve 
usar uma funda. Acho que Durc no vai ter nenhum problema para aprender a caar, apesar de na nossa fogueira no existir ningum para ensin-lo. Pelo jeito de os 
homens tratarem Durc, chega-se at a pensar que so todos eles companheiros de sua me. Exceto,  claro, Broud.
     - Uba se interrompeu por um instante. - E talvez sejam, Ayla. Dorv sempre dizia que os totens de todos os homens se aliaram para derrotar o seu Leo da Caverna.
     - Acho melhor voc ir agora, Uba - falou Ayla, mudando de assunto.
     - Andarei com voc uma parte do caminho. Parou de chover e acho que os morangos j esto maduros. H na subida uma rea que est carregada. Mais tarde, vou 
at l para dar uma olhada em voc.
     Goov pintou com pasta de ocre amarelo o smbolo do totem de Vorn sobre o de Uba e borrou o dela, como sinal do domnio do homem sobre a mulher.
     - Voc aceita esta mulher como sua companheira? - gesticulou Creb.
     Vorn bateu de leve no ombro de Uba e ela o acompanhou para dentro da caverna. Em seguida, o mesmo ritual foi feito para Borg e Ona, e eles, por sua vez, se 
dirigiram para a nova fogueira onde iriam comear o perodo de isolamento. As rvores em suas roupagens de vero ainda em tons flo to fortes como aqueles que 
teriam no final da estao 
     balanavam-se com uma suave brisa, enquanto o cl se dispersava. Ayla pegou Durc nos braos para carreg-lo, mas ele esperneou, querendo descer.
     - Est bem, Durc - gesticulou ela. - Voc pode andar, mas venha antes tomar sua sopa e um pouco de mingau.
     Enquanto ela preparava a comida, Durc saiu e comeou a se encaminhar para a nova fogueira ocupada por Vorn e Uba. Ayla correu, trazendo-o de volta.
     - Durc quer ver Uba.
     - Voc no pode, Durk. Por enquanto, ela no pode receber visitas de ningum. Mas se voc ficar bonzinho e tomar o seu mingau, ir caar comigo.
     - Durc vai ficar bonzinho. Por que no pode ver Uba? - perguntou, j mais sossegado com a promessa de acompanhar a me. - Por que ela no vem comer com a gente?
     - Uba no vive mais aqui, Durc. Agora  companheira de Vorn - explicou Ayla.
     Durc no era o nico a notar a ausncia de Uba. Todos sentiam sua falta, e a fogueira parecia vazia, tornando mais visvel o constrangimento de Ayla e Creb. 
Os dois nunca tinham conseguido superar seus remorsos por se haverem reciprocamente ferido. Muitas vezes, vendo o velho feiticeiro prostrado em profunda melancolia, 
Ayla tinha vontade de se aproximar, colocar os braos em volta de sua cabeleira branca e abra-lo, tal como fazia quando era pequena. Mas a moa se continha, hesitando, 
no querendo forar sua presena.
     Creb sentia falta de afeto, no imaginando que sua carncia deixava-o ainda mais deprimido. Por seu lado, muitas vezes tambm tinha vontade de aproximar-se 
dela, quando a via sofrendo, olhando uma outra mulher alimentando seu filho. Se Iza estivesse viva, teria encontrado uma maneira de reuni- los novamente, mas sem 
sua presena catalisadora, cada um ia para o seu lado,os dois desejosos de mostrar seu amor e no sabendo como romper a barreira que os separava. Na primeira refeio 
sem Uba, ambos se sentiam pouco  vontade.
     - Voc quer mais, Creb? - perguntou Ayla.
     - no no Por favor no se incomode. J comi bastante.
     Ele a observava fazendo a limpeza, enquanto Durc se servia pela segunda vez, segurando uma concha com as duas mos Embora estivesse com pouco mais de dois anos, 
Durc praticamente j tinha sido desmamado. Continuava ainda procurando Oga ou Jka - esta novamente com outro beb - mais pelo aconchego e o carinho e tambm porque 
elas consentiam. Em geral, quando nascia um novo beb, cortava-se o leite dos outros maiores que ainda mamavam. Ika, no entanto, abriu uma exceo para Durc. Ele 
parecia compreender e no abusava de seu privilgio. Nunca tomava demais, privando a criana pequena de seu leite. Ficava apenas alguns momentos aninhado junto ao 
seio, como se para fazer valer os seus direitos.
     Oga tambm se mostrava condescendente com ele. Grev, a rigor, j havia passado da poca de mamar, mas se aproveitava da indulgncia da me. Os dois podiam ser 
vistos no seu colo, cada um mamando num seio, at que o interesse pela figura um do outro acabava por prevalecer sobre o desejo de ser mimado e se deixavam levar 
por alguma briga. Durc era 
     to alto quanto Grev, embora menos corpulento. Nas lutas de brincadeira, quase sempre Grev ganhava; em compensao Dure o vencia facilmente nas corridas. Eram 
inseparveis, e toda oportunidade que tinham, l estavam os dois juntos.
     - Voc vai levar o menino com voc? - perguntou Creb, depois de silncio embaraoso.
     - Vou - disse Ayla, limpando as mos e o rosto de Durk. - Prometi lev-lo para caar comigo. Duvido que consiga caar alguma coisa com ele, mas preciso apanhar 
tambm algumas ervas, e o dia est lindo.
     Creb grunhiu qualquer coisa.
     - Voc tambm devia sair, Creb - acrescentou ela. - O sol lhe faria bem.
     - Sim. Mais tarde eu saio.
     Por um momento, Ayla pensou se no deveria insistir e convid-lo para um passeio junto do riacho como costumavam fazer antes. Mas ele parecia j novamente mergulhado 
em seus pensamentos. Deixou-o sentado onde ele se achava, pegou Durc e se apressou a sair. 
     Creb s levantou os olhos quando teve certeza de que ela j tinha ido embora. Pegou o cajado, mas achou que se levantar seria um trabalho grande demais e voltou 
a bot-lo no cho.
     Ayla, ao sair com Dure montado em seu quadril e a cesta de colher amarrada s costas, pensava nele, preocupada. Sentia que as faculdades mentais dele estavam 
diminuindo. 
     Creb parecia mais desatento do que nunca e repetindo perguntas que ela j havia respondido. Dificilmente, ele se mexia para sair da 
     caverna, mesmo que o dia estivesse quente e ensolarado. Ficava constantemente sentado durante um tempo enorme, perdido no que ele chamava meditao e quase 
sempre acabava dormindo nessa posio.
     Logo que a caverna deixou de estar  vista, Ayla alargou suas passadas. A liberdade de poder movimentar-se e o belo dia de vero relegaram suas preocupaes 
para alguma parte mais remota da mente. Ao chegar a uma clareira, botou Durc no cho e fez uma parada para pegar determinadas plantas. O menino ficou observando-a 
e depois arrancou pelas razes um punhado de alfafas de flores vermelhas misturadas com capim que apertava em sua munheca, enquanto trazia para a me.
     - Que boa ajuda voc est dando, Dure - disse Ayla, pegando as plantas e atirando-as dentro da cesta a seu lado.
     - Dure pega mais - gesticulou, afastando-se.
     Ela se sentou sobre os calcanhares e ficou olhando o filho arrancar um punhado ainda maior que, ao se desprender de repente da terra, fez com que o menino casse 
sentado. 
     Franziu o rostinho para chorar, mais pelo inesperado do que pela dor. Ayla correu para apanh-lo e o jogou no ar, pegando-o de volta no colo. Dure riu deliciado. 
Botou-o no cho e fingiu que ia peg-lo.
     - Vou pegar Dure - gesticulou ela.
     O garoto corria nas suas perminhas ainda de beb, dando risadinhas. Ayla deixou que ele tomasse dianteira e depois foi atrs de gatinhas, agarrando-o para bot-lo 
na garupa. Todos os dois riam com a brincadeira e ela lhe fazia ccegas s para v-lo rir de novo.
     Ela s ria com seu filho quando estavam sozinhos, e bem cedo Dure aprendeu que ningum mais precisava ou aprovava os seus sorrisos e risadas. Embora ele tratasse 
todas as mulheres do cl de me, no seu corao sabia que Ayla era especial. Sempre sentia-se mais feliz com ela do que com as outras e adorava sair sozinho em sua 
companhia, sem ter mais mulheres por perto. Adorava tambm as brincadeiras que s ele e sua me sabiam fazer.
     - Ba-ba-na-na-ne-ne - falou Dure.
     - Ba-ba-na-na-ne-ne - repetiu Ayla, imitando-lhe as slabas sem sentido.
     - No-na-ni-ga-gu-la - disse Dure, criando outra srie de sons.
     Ayla tornou a imit-lo e lhe fez ccegas. Ficava encantada quando ele ria, e a brincadeira sempre punha um sorriso nos lbios da me. Ayla formou a srie de 
sons que mais gostava de ouvi-lo dizer. Ela no sabia por que, apenas sabia que aquilo a enchia de ternura, levando-a quase s lgrimas.
     - Ma-ma-ma-ma - disse ela.
     - Ma-ma-ma-ma - repetiu Dure. Ayla o envolveu num abrao apertado, e Dure repetiu outra vez: - Ma-ma.
     Ele se retorceu querendo libertar-se. S gostava de abraos demorados, quando se aninhava junto dela para dormir. Ayla enxugou uma lgrima no canto dos olhos. 
Esta era uma particularidade que ele no possua. Os grandes olhos castanhos de Dure, assentados sob superclios salientes, eram iguais aos das pessoas dos cl.
     - Ma-ma - falou Durc. Quando estavam sozinhos, quase sempre a chamava assim, principalmente depois de lembrado. - Voc vai caar agora? - indagou por gestos.
     As ltimas vezes que havia sado com Durc, ela lhe mostrara como usar a funda. Ia fazer uma para ele, mas Zoug lhe passou  frente. O velho j no saa mais. 
Ayla, no entanto, sentia-se feliz por ver que ele tinha prazer em ensinar Durc. Apesar de muito pequeno, Ayla percebia que o filho sara com seu jeito para manejar 
a arma, e Durc tinha tanto orgulho de sua minifunda quanto da pequena lana dada por Grod.
     Ele gostava da ateno que atraa, quando, muito empertigado, passava com sua lana na mo e a funda pendurada num cordo amarrado em volta da cintura. Alm 
do amuleto, era toda a sua vestimenta de vero. Foi necessrio fazer armas tamanho miniatura tambm para Grev. Aparelha despertava olhares divertidos e comentrios 
sobre as belas figuras de homenzinhos que faziam. O futuro papel dos dois j comeava a definir-se. Ao descobrir que era bem visto ter voz de comando sobre as meninas, 
e que at mesmo sobre as mulheres grandes era uma coisa olhada com indulgncia, Durc nunca hesitava em fazer valer a sua, dentro dos limites permitidos, a nica 
exceo era para a sua me.Ele sabia que Ayla era diferente. Apenas ela ria com ele, apenas ela sabia fazer a brincadeira de sons e apenas ela possua os sedosos 
cabelos dourados que gostava de acariciar. no se lembrava de ter mamado nela, mas no aceitava dormir com mais ningum. Sabia que ela era mulher, porque as suas 
actividades eram as mesmas que as das outras, mas via que era muito mais alta do que qualquer homem e que tambm caava. O menino no sabia exatamente o que fosse 
caar, percebia que era uma coisa que s os homens e sua me faziam. Ela no se ajustava a nenhuma categoria. Era nica. O nome pelo qual ele comeara a cham-la, 
o nome construdo com sons, era o que parecia combinar melhor com ela. Era Ma-ma, a deusa de cabelos louros que ele adorava e que no gostava de v-lo mandando nela.
     Ayla segurava a mo dele na funda, tentando mostrar como se atirava. Zoug j fizera o mesmo, e Dure comeava a pegar a idia de como funcionava a coisa. Ela, 
ento, retirou sua funda da cintura e pegou umas pedras que atirou em alvos prximos. Depois, arrumou uma fileira de pedrinhas sobre algumas rochas grandes e se 
ps a derrub-las. Durc achou divertido e foi arrumar mais pedras para v-la fazendo novamente a coisa. Depois de certo tempo,perdeu o interesse, e ela voltou a 
colher plantas, enquanto o filho a seguia. Encontraram algumas framboesas e pararam para comer.
     - Voc est imundo, meu sujo - falou Ayla, rindo de sua figura com o rosto, mos e barriga manchados de vermelho. Ela o pegou, mantendo-o de baixo do brao 
e foi com ele at um riacho para lav-lo. Em seguida, apanhou uma folha grande e fez um cone que encheu de gua para os dois beberem. Durc bocejava, esfregando os 
olhos. Ela estendeu a capa  sombra de um enor me carvalho e se deitou a seu lado, esperando que ele dormisse.
     Na quietude da tarde de vero, Ayla foi sentar-se contra um tronco e, ouvindo o canto dos pssaros numa sinfonia de gorjeios, ficou a observar o movimento perptuo 
dos insetos zumbindo  sua volta e as borboletas voando e fazendo o seu pouso de asas fechadas. Seu pensamento estava voltado para os acontecimentos da manh daquele 
dia. Espero que Uba seja feliz com Voru. Tomara que seja bom para ela. Mesmo que Uba continue perto da gente, a nossa fogueira ficou muito vazia com sua sada. J 
no  a mesma coisa. Agora, ela vai cozinhar para o companheiro e dormir com ele, quando acabar o tempo de isolamento. Gostaria que tivesse logo um beb. Ela ficaria 
muito feliz com isso.
     - Mas, e eu? Ningum veio daquele cl querendo saber de mim. Talvez seja porque no tenham conseguido encontrar a caverna. Mas talvez seja por que no estavam 
realmente interessados. Fico contente com isso. no quero para companheiro um homem que no conheo... e nem quero tambm um que eu conhea. Tanto faz, porque nenhum 
deles tambm me quer. Sou muito alta. At Droog, o mais alto de todos, mal consegue chegar ao meu queixo. Iza ficava imaginando se algum dia eu iria parar de crescer. 
E comeo a imaginar a mesma coisa. Broud odeia minha altura. No aguenta ver uma mulher mais alta do que ele. Depois que voltamos da reunio de cl ele nunca mais 
me incomodou. Por que ser que tremo todas as vezes que ele olha para mim?
     Brun est ficando velho. Ebra ultimamente vem lhe dando remdios para dores musculares. Dentro de pouco tempo, ele ir botar Broud como chefe. No h a menor 
dvida sobre isso. E Goov ser o mog-ur. Cada vez mais as cerimnias esto ficando por sua conta. no creio que Creb queira continuar como mog-ur, sabendo que vi 
o ritual deles. Por que ser que tive de ir parar naquela noite na caverna deles? no me lembro de como cheguei l. Queria nunca ter ido a essa reunio de cls. 
Se tivesse ficado, talvez eu conseguisse manter Iza viva por mais alguns anos. Sinto muita saudade dela. no encontrei companheiro, mas Dure sim.
     Estranho terem deixado Ura viver, chega quase a parecer que isto s aconteceu para que ela fosse companheira de Dure. Homens dos Outros, foi o que Oda disse. 
Quem so eles? Iza disse que nasci dos Outros. Por que ser que no me lembro? O que ter acontecido com a minha me verdadeira? E a seu companheiro? Ser que eu 
tinha germanos? Ayla sentia o estmago en joado, no propriamente nusea, mas um certo mal-estar. Subitamente, seus cabelos arrepiaram ao lembrar-se do que Iza lhe 
dissera na noite em que morreu. A jovem tinha afastado o pensamento da cabea, pois era muito penoso pensar na morte de Iza.
     Iza me falou para ir embora! Disse que eu no pertencia aos cls e que tinha nascido dos Outros. Mandou que procurasse a minha gente e que encontrasse um companheiro 
como eu. Se eu ficar, disse ela, Broud acabaria achando um jeito de me maltratar. No norte, foi onde ela falou que eles vivem, para l da pennsula, no continente.Mas 
como vou poder ir embora? Aqui  minha casa. no posso abandonar Creb, e Durc precisa de mim. E se eu no encontrar os Outros? E ainda que ache, talvez no me queiram. 
Ningum deseja uma mulher feia. Como vou ter certeza de arrumar um companheiro, mesmo que encontre os Outros?
     Creb est ficando velho. O que vai acontecer comigo, quando ele se for? Quem ir me sustentar? no posso viver s com Durc, algum homem vai ter de ficar comigo. 
Mas qual? Broud? Ele vai ser o chefe e, se ningum me quiser, a obrigao ser sua. O que acontecer se eu for obrigada a viver com Broud? Ele tambm no me quer, 
mas sabe que eu odiaria essa soluo e  o que far porque sabe que abomino a idia. Eu no iria suportar viver com Broud, prefiro at que um homem de outro cl 
me leve para viver com ele. Mas eles tambm no me querem.
     Talvez eu devesse ir embora. Pegaria Durc e iramos os dois. Mas, e se eu no encontrar ningum dos Outros? E se alguma coisa me acontecer? Quem tomaria conta 
dele? Ficaria sozinho, do mesmo jeito que eu fiquei. Tive muita sorte de Iza me encontrar. Talvez Durc j no tenha a mesma felicidade. no posso lev-lo, ele nasceu 
aqui. Ele  dos cls, apesar de uma parte sua ser minha. Ele j tem at uma companheira prometida. Eo que seria de Ura, se eu levasse Durc embora? Oda est educando 
a filha para ser companheira dele. J deve estar lhe dizendo que mesmo que ela seja feia e deformada, h um homem para ser o seu companheiro. Durc tambm vai precisar 
de Ura, ter necessidade de uma companheira depois que crescer, e Ura  perfeita para ele.
     Mas no posso partir deixando Durc. Prefiro viver com Broud, a ser obrigada a abandonar Durc. Vou ter de ficar, no h outro jeito. Ficarei e, se tiver de ser, 
viverei com Broud. 
     Olhou para o menino adormecido e tentou recompor as idias: iria ser uma boa mulher pelos padres dos cls e aceitaria seu destino. Uma mosca pousou no nariz 
de Durc. 
     Dormindo, ele se mexeu, esfregou o nariz, e depois voltou a ficar quieto.
     De qualquer jeito, no saberia mesmo para onde ir. Para que lado fica o norte? O que isto significa para mim? Tudo est ao norte daqui, menos o mar que fica 
ao sul. Podia ficar o resto da minha vida perambulando por a e nunca achar ningum. E os Outros podem ser to maus quanto Broud. Oda disse que eles a foraram, 
que no deram tempo sequer que ela botasse seu beb no cho. Ser melhor ficar aqui com um Broud que eu conheo do que com algum homem que pode ainda ser at pior.
     Est ficando tarde,  melhor ir embora agora. Acordou o filho e, enquanto ia a caminho da caverna, tentou afastar os Outros do pensamento, mas, uma vez despertada 
a curiosidade, j no pde mais esquecer-se dos Outros, a interrogao fora posta e, volta e meia, insinuava-se em seu esprito.

***

     captulo 27
     - Voc est ocupada, Ayla? - perguntou Uba, a expresso da garota ao mesmo tempo alegre e acanhada. Ayla imaginava saber por que, mas resolveu deixar que Uba 
mesma contasse.
     - No, no estou muito ocupada. Estava acabando de fazer uma mistura de hortel com alfafa e queria saber com que gosto ficaria. Vou ferver um pouco de gua 
para tomarmos um ch.
     - Onde est Dure? - perguntou Uba, enquanto Ayla atiava o fogo botando mais lenha e algumas pedras para esquentar.
     - Ele est l fora com Grev. Oga est vigiando. Esses dois no se largam- gesticulou Ayla.
     - Talvez seja porque mamaram juntos. Eles so mais chegados um ao outro do que qualquer irmo.  quase como se fossem gmeos.
     - Mas os gmeos quase sempre se parecem, e entre esses dois no h nenhuma semelhana. Voc se lembra daquela mulher na reunio dos cls que teve gmeos? Eu 
no conseguia saber qual era um e qual era o outro.
     - s vezes,  muito ruim ter dois filhos juntos e, se nascerem trs,  certo que no vo deix-los viver. Afinal, como uma mulher vai poder alimentar trs ao 
mesmo tempo, se ela s tem dois seios, no ? - falou Uba.
     - Ajudada por muitas outras. Para a felicidade de Dure, dou graas por Oga ter tido sempre muito leite.
     - Espero poder ter muito leite, Ayla - gesticulou Uba. - Vou ter um beb.
     - Eu j imaginava. Desde que foi viver com o seu companheiro, voc nunca mais recebeu a maldio de mulher, no ?
     - Sim. Acho que o totem de Vorn estava esperando h muito tempo. Ele deve ser muito forte.
     - Voc j contou para ele?
     - Estava esperando at ter certeza, mas acho que Vorn adivinhou. Ele deve ter notado que eu no fiquei isolada. Ficou muito contente - falou Uba, orgulhosa.
     - Vom  um bom companheiro, Uba? Voc est feliz?
     - Ah, estou. Vom  um bom companheiro. Quando descobriu que eu ia ter um beb, ele me contou que j estava esperando por mim h muito tempo e que se sentia 
feliz por eu no ter demorado a conceber. Disse que j me havia pedido, antes mesmo de eu me haver tornado mulher.
     - Isso  timo, Uba - falou Ayla.

     Deixou de acrescentar que, no cl, no havia ningum mais para companheira de Vorn, a no ser ela prpria. Mas, por que Vorn iria querer uma mulher como eu? 
Por que iria preferir uma mulher grande e feia, quando podia ter algum atraente como Uba e que realmente pertencia  linha de Iza? E que importncia tem isso para 
mim? Nunca quis Vorn para companheiro. Na ver dade, o que me preocupa  o que vai acontecer depois de Creb no estar mais aqui. Vou precisar de cuidar muito dele 
para que viva bastante tempo. 
     Parece que o Mog-ur no tem mais vontade de viver. J quase no pe os ps fora da caverna e, se no fizer exerccios, a mesmo  que ficar para sempre aqui 
dentro.
     - Em que est pensando, Ayla? Voc anda to silenciosa nos ltimos tempos.
     - Estava pensando em Creb. Estou preocupada com ele.
     - Creb est ficando velho. A me era mais moa do que ele e j se foi. Ainda sinto falta dela, Ayla. Vai ser horrvel quando Creb tambm passar para o outro 
mundo. No quero nem pensar nisso.
     - Nem eu, Uba - gesticulou Ayla, com um mau pressentimento.
     Ayla no parava um momento. Se no estivesse caando, estava trabalhando cheia de energia, e incansvel. no suportava ficar parada. Passava em revista seu 
estoque de remdios, punha tudo em ordem, ia esquadrinhar os campos para se reabastecer ou substituir as plantas velhas por novas, voltava e reorganizava a fogueira 
toda novamente. 
     Teceu novas cestas e esteiras, talhou travessas e bacias de madeira, fabricou recipientes de couro e de cortia, fez capas, roupas, pemeiras, chapus, protetores 
para as mos e os ps, j se preparando para o prximo inverno.Impermeabilizou bexigas e estmagos de animais para servirem como odres, construiu uma nova armao 
para apoiar as panelas de couro 
sobre a fogueira, modelou pedras de forma achatada para serem usadas como lamparinas de gordura, fez chumaos com musgo seco, talhou um novo conjunto de facas, raspadores, 
serrotes, furadeiras e machadinhas, e ainda ia  praia para procurar por conchas que serviriam como cuias, pratos ou colheres. Alm disso, quando chegava sua vez, 
saa com os caadores para fazer o trabalho de curtir carnes e ainda encontrava tempo tambm para ir com as mulheres para colher frutas, cereais, sementes e legumes. 
Em casa, limpava e torrava as sementes e cereais, triturando tudo depois muito fino, de modo a ficar mais fcil para Creb e Durc mastigarem.
     Creb se tornou sua grande preocupao. Ela o mimava e cuidava dele como jamais o tinha feito. Preparava-lhe comidas especiais para estimular o apetite, punha-lhe 
cataplasmas, fazia-o tomar um mundo de beberagens, levava-o para repousar ao sol e o persuadia a dar longas caminhadas para fazer exerccio. Ele parecia gostar das 
atenes e da companhia dela, e, de certa forma, recuperou um pouco da antiga fora e entusiasmo. Mas faltava alguma coisa. Aquela intimidade nica que existira 
entre os dois, o afeto caloroso e as longas conversas descontradas haviam desaparecido. Quase sempre caminhavam em silncio. A conversa se fazia forada e sem as 
demonstraes espontneas de carinho.
     No era apenas Creb que envelhecia. O dia em que Brun, do alto do morro, foi ver os seus caadores sarem e l ficou olhando para eles at que fossem pequeninos 
pontos na plancie embaixo, Ayla subitamente se conscientizou do quanto tambm o chefe envelhecera. 
     Sua barba j no estava s com algumas pintas brancas, mas completamente grisalha, tal como o cabelo. Rugas fundas marcavam-lhe o rosto com sulcos fortemente 
cavados na pele junto aos olhos. Seu corpo rgido e musculoso perdera o tono, a pele estava mais flcida, embora ainda continuasse uma figura vigorosa. Com passos 
vagarosos, ele se encaminhou para a caverna e passou o resto do dia dentro dos limites de sua fogueira. Na vez seguinte, ele acompanhou os caadores, mas, j na 
prxima, nem ele nem Grod, o seu leal segundo em comando, foram.
     Certo dia, no final de um vero, Durc entrou correndo na caverna.
     - Mama! Mama! Um homem... um homem est vindo para c.
     ayla e todos os outros correram para a entrada da caverna, querendo ver o estranho que vinha subindo pelo caminho da costa.
     - Ayla, ser que ele veio busc-la? - gesticulou Uba, agitada.
     - No posso saber. Sei tanto quanto voc, Uba.
     Ayla, com os nervos tensos, era um misto de emoes. Tinha esperanas de que o visitante pertencesse ao cl do parente de Zoug e, ao mesmo tempo, tinha medo 
de que ele fosse tal pessoa. O homem parou para falar com Brun e seguiu depois para a fogueira do chefe. 
     Passado algum tempo, ayla viu Ebra encaminhando-se diretamente em sua direo.
     - Brun quer falar com voc - disse Ebra.
     O corao batia disparado, os joelhos pareciam de gua, e a moa achava que no fosse aguentar-se sobre as pernas, enquanto caminhava para a fogueira de Brun. 
Deu graas aos espritos, quando se deixou cair aos ps de Brun. Ele lhe bateu no ombro.
     - Este  Vond, Ayla - falou o chefe, apontando para o visitante. Ele veio de longe s para v-la. Caminhou da caverna de Norg at aqui. Sua me est doente 
e a curandeira deles no tem conseguido melhorar sua sade. Ela achou que talvez voc conhecesse alguma mgica que pudesse ajudar.
     Ayla, na reunio dos cl fizera reputao de curandeira dotada de grande saber e percia. O homem tinha vindo procurar por sua mgica e no por ela. O alvio 
sentido foi maior do que a tristeza. Vond ficaria por alguns dias. Ele trazia novidades de seu cl. O rapaz que fora ferido pelo urso da caverna havia passado o 
inverno com eles e partido no princpio da primavera se guinte, caminhando sobre suas pernas e mal se notando que mancava. A mulher dele deu  luz um beb forte 
e sadio que recebeu o nome de Creb. Ayla fez algumas perguntas a Vond e lhe preparou um embrulho para que ele levasse ao lado de instrues para serem transmitidas 
 curandeira deles. Ela no sabia se seu remdio iria ou no adiantar, mas o homem viera de to longe que no custava pelo menos tentar.
     Quando Vond foi embora, Brun se ps a pensar em Ayla. Ele vinha protelando toda deciso a seu respeito, na esperana de que algum outro cl pudesse julg-la 
aceitvel. Mas se um mensageiro podia encontrar a caverna deles, outros, se o quisessem, tambm poderiam. Aps tanto tempo, no era mais possvel alimentar esperanas. 
Algum arranjo teria de ser feito para ela dentro de seu cl.
     Entretanto, Broud brevemente seria o chefe e a ele caberia assumi-la. Seria melhor que a deciso partisse do prprio Broud e, enquanto vivesse o Mog-ur, no 
havia necessidade de precipitar os acontecimentos. Brun resolveu passar o problema para o filho de sua companheira. Broud parece ter finalmente conseguido superar 
seu dio desmedido por ela, pensou o chefe. Nunca mais voltou a importun-la. Talvez j esteja preparado... at que enfim parece estar pronto. Mas, l no ntimo, 
ainda lhe restava uma pontinha de dvida.
     As cores do vero chegaram ao fim, e o cl se entregou ao ritmo mais vagaroso da estao fria. A gestao de Uba progrediu normalmente at o segundo trimestre, 
quando, ento, foram interrompidos os movimentos de vida. Ela tentava ignorar a dor cada vez mais forte nas costas e o mal-estar provocado por clicas, mas, ao comear 
a perder sangue, correu para Ayla.
     - Desde quando voc deixou de sentir o beb se mexendo, Uba? - perguntou Ayla, com o rosto visivelmente preocupado.
     - J faz alguns dias. O que vou fazer? Vorn ficou to feliz comigo, por que fiquei esperando beb logo depois dele me ter tomado para companheira. no quero 
perder meu filho. O que teria acontecido de errado? J est to perto a primavera agora mesmo est a.
     - no sei, Uba. Voc no se lembra se levou algum tombo? Ser que no fez esforo para levantar alguma coisa muito pesada?
     - Acho que no.
     - V para sua fogueira, Uba, e se deite. Vou pr algumas cascas de vidoerro para ferver e levo o ch para voc. Queria que estivssemos no outono, poderia arrumar 
aquelas razes de prenanto que Iza encontrou para me dar.
     Mas a neve est muito alta, j no se pode ir muito longe daqui. Vou tentar pensar em alguma coisa. E tambm procure pensar, Uba. Voc conhece quase tudo que 
Iza sabia.
     - Tenho pensado, Ayla. Mas no consigo lembrar de nada que faa um beb mexer depois de ele ter parado os seus movimentos.
     Ayla no respondeu. No fundo, sabia tanto quanto Uba que no havia esperana, e estava sentindo a mesma angstia que a jovem.
     Nos dias seguintes, Uba permaneceu deitada, na v esperana de que acontecesse alguma coisa que viesse em sua ajuda, mas sabendo que no havia nada a esperar. 
A dor nas costas tornou-se quase insuportvel, e os nicos remdios que a aliviavam eram aqueles que faziam a moa dormir um sono drogado e intranquilo. As clicas, 
entretanto, no se desenvolvendo em contra es, o trabalho de parto no podia iniciar-se.
     Ovra praticamente vivia na fogueira de Vorn para dar seu apio moral. Ela tantas vezes passara pela mesma provao que mais do que ningum podia entender a 
dor e a tristeza de Uba. A companheira de Goov nunca conseguira levar uma gravidez at o fim e,  medida que os anos passavam e ela sempre sem filhos, foi cada vez 
ficando mais silenciosa e fechada. Ayla sentia-se feliz por saber que Goov era carinhoso com ela. Muitos homens a teriam dispensado ou tomado uma segunda mulher. 
Mas Goov era extremamente ligado  sua companheira. Ele no iria aumentar-lhe ainda mais a tristeza, tomando outra mulher para ter filhos para ele. Ayla passou, 
ento, a dar a Ovra o remdio se creto que Iza lhe ensinara para impedir o totem da mulher ser derrotado. Era muito duro para uma mulher ter uma gravidez atrs da 
outra e no resultar em filhos para ela. Ayla no lhe contou para que o remdio servia, mas, de pois de certo tempo, Ovra parou de engravidar e ela imaginou por 
qu. Era melhor assim.
     Numa fria e triste manh, j no final do inverno, Ayla examinou Uba e tomou uma deciso.
     - Uba - chamou com brandura. A garota tinha os olhos rodeados por crculos escuros que os faziam parecer ainda mais mergulhados sob as salincias das sobrancelhas. 
- Temos de fazer essas contraes comearem. no h nada que possa salvar seu beb. Se ele no sair, voc tambm pode morrer. Voc  muito moa, poder ter outros 
filhos - disse Ayla por gestos.
     Uba olhou para ela, depois para Ovra e, em seguida, para Ayla outra vez.
     Est bem - assentiu com a cabea. - Voc tem razo, no h mais esperanas. Meu beb est morto.
     O trabalho de expulso de Uba foi difcil. s contraes custaram a aparecer, e Ayla hesitava em lhe dar alguma coisa mais forte contra dores, com medo de que 
o trabalho de parto fosse interrompido. As outras mulheres vinham para algumas visitas curtas, querendo encorajar e trazendo sua solidariedade, mas nenhuma tinha 
vontade de se demorar. Todas sabiam que o esforo e a dor seriam em vo. 
     Apenas Ovra permaneceu para ajudar Ayla.
     Quando o feto saiu, Ayla rapidamente o enrolou junto com a placenta numa manta de couro.
     - Era um menino - disse ela a Uba.
     - Posso ver?
     - Acho melhor que no veja, Uba. Isso s vai fazer com que se sinta pior.
     Agora, trate de descansar. Voc est muito fraca, eu me desfao dele por voc.
     Ayla disse a Brun que Uba se encontrava sem foras e que ela mesma se encarregaria de desfazer-se da criana, abstendo-se de dizer qualquer outra coisa. no 
tinha sido s um feto que Uba expulsou, e sim dois que no chegaram durante a gravidez a se separar devidamente. Apenas Ovra viu a pobre coisa repugnante que dificilmente 
se poderia reconhecer como um ser humano, com vrios braos e pernas e um rosto desfigurado numa enorme cabea. Ovra teve de fazer fora para no vomitar e Ayla 
mal tambm conseguiu conter-se.
     Aquelas no eram as modificaes surgidas em Dure, resultantes das transformaes das caractersticas raciais dela e da dos cls, e sim um caso de anomalia. 
Ayla deu graas por aquela coisa grotescamente malformada no ter vivido o suficiente para Uba pari-la com vida. Sabia que Ovra jamais comentaria o fato com algum. 
Para o bem de Uba, seria melhor deixar o cl na crena de que ela tivera uma criana prematura normal.
     Ayla se meteu dentro de agasalhos pesados e saiu abrindo com dificuldade caminho pela neve alta, s parando quando j estava bem afastada da caverna. Desembrulhou 
a manta de couro, deixando o contedo exposto ao tempo.  melhor no deixar qualquer vestgio dessa coisa, pensou consigo. J no momento mesmo em que se virava para 
voltar, percebeu com o rabo dos olhos algo que sorrateiramente se movia, O cheiro do sangue j estava surtindo o efeito desejado.
     

***

Captulo 28
     
     Voc quer dormir com Uba essa noite, Dure? - perguntou Ayla.
     - no disse o menino, balanando veementemente a cabea. - Durc dorme com Mama.
     - Tudo bem, Ayla. Achava mesmo que ele no ia querer, j passou o dia inteiro comigo - falou Uba. - Que nome  esse que ele arrumou para dar a voc?
      um nome qualquer que ele inventou para me chamar - respondeo Ayla, virando a cabea para o lado. A censura ao uso de palavras e sons desnecessrios, que sofreu 
nos primeiros tempos quando chegou, tinha ficado de tal forma entranhada nela que se sentia culpada da brincadeira que fazia com o filho. Uba no insistiu, mas percebeu 
que Ayla se 
     mostrava reticente.
     - s vezes, quando eu e Dure samos sozinhos, ns ficamos brincando de fazer sons com a boca - admitiu ela. - E o menino arrumou estes para me chamar. Durc 
pode tirar uma quantidade grande de sons da garganta.
     - E voc tambm, Ayla. Mame me disse que voc, quando era pequena, principalmente antes de aprender a falar, costumava dizer palavras e fazer tudo quanto era 
tipo de sons. 
     Ainda me lembro do som que voc fazia para me ninar. Eu adorava escutar.
     - Tenho impresso de que fazia, mas no me lembro direito - gesticulou Ayla. - Isso no passa de uma brincadeira entre Dure e eu.
     - Acho que no h nada de mal, e depois Dure no  como algum que faz esses sons porque no aprendeu a falar - disse Uba. - Queria que essas razes no estivessem 
to estragadas - acrescentou, ao jogar fora uma planta que tinha na mao. - A festa amanh no ser grande coisa s com carne seca, peixe e uns legumes j meio passados. 
Se Brun esperasse mais um pouco, pelo menos a gente poderia ter umas verduras e os brotos de algumas plantas.
     - no  s Brun - falou Ayla. - Creb diz que a melhor poca  na primeira lua cheia da primavera.
     - No entendo como ele sabe que j chegou a primavera. Um dia de chuva  sempre igual a outro - observou Uba.
     - Acho que tem qualquer coisa a ver com o desaparecimento do sol no cu. H dias que ele vem observando o pr-do-sol. Mesmo quando chove,  possvel ver o ponto 
em que o sol se esconde para dormir. Alm disso, tem havido muitas noites claras de lua. Creb  quem sabe.
     - No queria que Creb j fosse passar o lugar dele para Goov - falou Uba.
     - Nem eu. Nesses ltimos tempos, ele tem ficado aparentemente sem fazer nada. O que ser dele, quando no tiver nem mesmo as cerimnias para celebrar? Sabia 
que isso teria de acontecer algum dia, mas essa  uma festa que no me deixa nem um pouco alegre.
     - Vai ser estranho. Estou to acostumada a ver Brun como chefe e Creb como Mog-ur, mas Vom acha que j  tempo de os mais moos conduzirem o cl. Ele diz que 
Broud j esperou demais.
     -  possvel que ele tenha razo. Vorn sempre admirou Broud - gesticulou Ayla.
     - Ele  bom para mim, Ayla. no ficou zangado na ocasio em que perdi meu filho. A nica coisa que disse foi que iria pedir ao Mog-ur um feitio para que seu 
totem ficasse com muita fora e eu pudesse conceber novamente. Ele deve gostar de voc tambm, Ayla. Chegou at a falar comigo para lhe pedir se voc no deixaria 
Durc ficar dormindo com a gente. Acho que ele imagina que eu gosto muito de ter Durc por perto - confidenciou Uba. - At mesmo Broud no tem sido muito mau para 
voc ultimamente, no  verdade?
     - . De uns tempos para c, ele no me tem incomodado muito - reconheceu Ayla. 
     No sabia explicar por que sentia medo cada vez que Broud olhava em sua direo .
     Mesmo que no o estivesse vendo, sua nuca se arrepiava, se ele a estivesse observando.
     Naquela noite, Creb ficou com Goov at tarde na gruta dos espritos. Ayla preparou uma refeio ligeira para ela e Durc, e separou qualquer coisa para Creb 
quando chegasse depois, se bem que duvidasse de que ele fosse dar-se o trabalho de comer. Ela acordara de manh sentindo-se ansiosa, e tal sensao s fez aumentar 
com o transcorrer do dia. A caverna parecia querer engo li-la, e sua boca estava seca como se empoeirada. Conseguiu meter alguma coisa dentro do estmago e, de repente, 
correu na direo da entrada. O cu estava cor de chumbo, pesado, e a chuva ininterrupta abria pequenas crateras na terra encharcada. Quando voltou para a fogueira, 
Durc se havia metido na sua cama e dormia. 
     Logo que sentiu a me junto dele, aconchegou-se a ela e, meio inconsciente, fez uns gestos que terminavam com a palavra Mama.
     Ayla passou o brao  sua volta, ficando abraada com ele e sentindo- lhe a batida do corao mas o sono custava a chegar. Deitada, ficou olhando os contornos 
das pedras sombreadas pela luz fraca da fogueira j quase apagada. Estava acordada quando Creb por fim voltou, mas permaneceu quieta escutando-lhe os passos, at 
que acabou dormindo depois que ele se enfiou na cama.
     A moa acordou aos gritos.
     - Ayla, Ayla! - era Creb que a sacudia, chamando-a pelo nome para traz-la  realidade. 
     - O que aconteceu, menina? - perguntou, preocupado.
     - Oh, Creb - disse ela, abraando-o. - Tive aquele sonho. H anos que no sonhava desse jeito.
     Creb a rodeou com o brao, sentindo-a tremer.
     - O que aconteceu com Mama? - perguntou Durc, sentando-se com os olhos muito abertos e cheios de medo. Ele nunca tinha ouvido antes a me gritar. Ayla tomou-o 
nos braos.
     - Qual sonho, Ayla? Aquele com o leo da caverna? - perguntou Creb.
     - no o outro. Aquele que nunca consigo lembrar direito - falou ela, voltando a tremer. 
     - Creb, por que ser que estou tendo esse sonho agora? Pensava que meus pesadelos tivessem terminado.
     Creb tornou a botar o brao ao redor dela, querendo acalm-la. Ayla o abraou novamente. H muito tempo que isso no acontecia, pensaram subitamente os dois, 
e ficaram abraados com Durc entre eles.
     - Oh, Creb, quantas vezes eu tive vontade de abra-lo e no pude. Achava que voc no iria querer. Tinha medo de que me fosse repelir como fazia no tempo em 
que eu era uma menina malcriada. H uma coisa que eu queria dizer-lhe, Creb: eu o amo muito.
     - Ayla, naquela ocasio eu era obrigado a fazer isso. Precisava fazer al guma coisa, pois sen quem faria era Brun. Nunca pude ter raiva de voc, Ayla. Eu a 
amava demais e ainda amo at hoje. Achei que voc estava contrariada por ter perdido seu leite por minha causa.
     - Mas no foi por sua causa, Creb. A culpa foi minha. Nunca o culpei por isso.
     - Mas eu me culpava. Devia ter sabido que um beb precisava mamar para que o leite da me no secasse e voc parecia querer ficar sozinha com sua dor.
     Como voc podia saber? Nenhum homem entende muito de bebs. S gostam do guri para segurar, brincar, e quando ele est bem cheio e alegre. Mas, ao primeiro 
resmungo, correm logo para devolv-lo  me. Alm do que, isso no fez mal nenhum a Durc. Ele est entrando no ano em que deveria ser desmamado, mas h muito tempo 
que j deixou de mamar, e veja como est agora, um menino forte e sadio.
     - Mas voc sofreu muito por causa disso, Ayla.
     - Mama est sofrendo? - interrompeu Durc, ainda preocupado com o grito dela.
     - No, Durc. Mama no est mais sofrendo.
     - Onde Durc arranjou esse nome que ele d a voc?
     - s vezes, eu e Durc brincamos de fazer sons com a boca e ele resolveu me chamar assim - disse ela, corando um pouco.
     Creb acenou com a cabea, compreendendo. Depois, disse:
     - Como ele chama todas as mulheres de me acho que precisou arrumar um nome para dar a voc. Isso para ele quer dizer me.
     - Para mim tambm.
     - Quando voc chegou, Ayla, tambm fazia uma poro  de sons e falava com a boca. Talvez seu povo se comunique por meio de sons.
     - Meu povo  a gente dos cls. Eu sou uma mulher dos cl.
     - no Ayla - gesticulou Creb, pausadamente. - Voc no  de nossa raa e sim uma mulher dos Outros.
     - Iza me disse a mesma coisa na noite em que morreu. Ela falou que eu era uma mulher dos Outros.
     Creb pareceu surpreso.
     - Achava que ela no soubesse. Iza era uma mulher muito sbia, Ayla. S desconfiei disso na noite em que voc nos seguiu at aquela caverna.
     - Eu no pretendia entrar naquele lugar, Creb. Nem sei como fui parar l. no sei o que o deixou to acabrunhado, Creb, mas pensei que voc deixou de gostar 
de mim por eu ter invadido aquela caverna.
     - No Ayla. Jamais deixei de gostar de voc. O meu amor por voc  muito grande.
     - Durc est com fome - interrompeu o menino, ainda confuso com o grito da me e, agora, cansado com aquela longa conversa entre ela e Creb.
     - Durc est com fome? Vou ver se encontro alguma coisa para voc comer.
     Ayla se levantou e foi at o fogo, enquanto Creb a observava. Tinha curiosidade de saber por que ela foi mandada para viver conosco. Nasceu dos Outros e sempre 
foi protegida pelo Leo da Caverna. Por que teria ele enviado Ayla para ns? Por que no a conduziu de volta para os Outros? E por que ele se deixou derrotar, permitindo 
que tivesse um beb para depois perder seu leite? As pessoas acham que isto aconteceu porque Durc no pode ser um menino feliz. Mas, veja como ele est agora. Forte, 
alegre e todo mundo gosta dele. 
     Talvez Dorv tivesse razo ao dizer que os espritos dos totens de todos os homens se misturaram com o Leo da Caverna de Ayla. Ela estava certa, Durc no  
deformado, ele  uma mistura. Consegue at emitir os mesmos sons que a me sabe fazer. Uma parte dele  de Ayla, e outra, de nossa raa.
     De repente, Creb sentiu a pele arrepiando e o sangue sumir de seu rosto. Uma parte de Ayla e uma parte de nossa raa! Foi para isso que ela nos foi enviada? 
Por causa de Durc? 
     Para gerar um filho? Os cl esto condenados,iro desaparecer, e somente a raa dela sobreviver.. Eu sei e sinto isso. Mas e Durc? Uma parte sua  dos Outros, 
por isso ele continuar neste mundo; mas, por outro lado, ele pertence tambm a ns. E Ura? Ela se parece com Durc. Nasceu pouco depois daquele incidente com os 
homens dos Outros. Ser que os seus totens so to fortes a ponto de vencer o totem de uma mulher em to pouco tempo?  possvel. Se suas mulheres podem ter o Leo 
da Caverna como totem, os deles tm de ser fortssimos. E Ura, ser tambm uma mistura? E se existem Durc e Ura, deve haver mais outros como eles. Crianas provin 
das da mistura de espritos, crianas que prosseguiro com a vida, que daro continuidade aos cls. Talvez no muitas, mas o suficiente.
      possvel que os cl j estivessem condenados muito antes de Ayla presenciar a cerimnia sagrada e que ela tenha sido conduzida l apenas para me fazer compreender 
isso. J no estaremos mais aqui, mas, enquanto houver Durcs e Uras, no morreremos. Tinha curiosidade de saber se Durc possui as memrias. Se ele fosse mais velho, 
o suficiente pelo menos para assistir a uma cerimnia... Bem, no tem importncia. Durc tem mais do que memrias, ele carrega nele a vida dos cl. Ayla, a minha 
boa menina, a filha de meu corao voc leva a felicidade consigo e a trouxe para ns. Agora sei por que veio, no para nos trazer a morte, e sim para nos dar a 
nossa nica oportunidade de viver. Nunca ser o mesmo, mas j  alguma coisa.
     Ayla trouxe para o filho um pedao de carne fria. Creb parecia perdido em pensamentos, mas, quando ela se sentou, o feiticeiro olhou em sua direo.
     - Sabe, Creb - disse ela, pensativa. - s vezes, imagino que Durc no  filho s meu. Desde que perdi meu leite, ele ficou to acostumado a ir de fogueira em 
fogueira para mamar, que hoje ele come em todas e todo mundo lhe d comida. Ele me faz lembrar um filhote de urso da caverna,  como se Durc fosse filho do cl inteiro.
     No olho de Creb, Ayla percebeu a enorme tristeza que lhe ia na alma.
     - Durc, Ayla,  o filho do cla. Ele  o nico filho dos cls.
     As primeiras luzes do dia comearam a tomar o espao triangular da entrada e a brilhar no interior da caverna. Ayla, deitada de olhos abertos, observava o filho 
dormindo a seu lado, enquanto a claridade gradativamente se formava. Ela podia ver Creb em sua cama, sob as peles e, pela respirao regular, sabia que ele tambm 
estava dormindo. Fico contente por eu e Creb termos voltado a conversar, pensou ela, sentindo como se um enorme peso tivesse sido tirado de cima de seus ombros, 
mas o mal-estar que a acompanhara todo o dia anterior e a noite havia piorado. Sentia um n na garganta e, se permanecesse um instante mais dentro da caverna, achava 
que ficaria sufocada. Em silncio, deslizou para fora da coberta, meteu-se rapidamente dentro de uma roupa, cal ou-se e se encaminhou sem rudo para a entrada.
     Logo que chegou ao exterior, respirou fundo. O alvio sentido foi to grande que pouco se importava que a chuva gelada empapasse sua vestimenta de couro. Atravessou 
o grosso lamaal em frente da caverna e foi para o riacho, comeando subitamente a tremer com o frio. Blocos de neve, enegrecidos pela fuligem das fogueiras, impulsionavam 
os crregos pelas encostas abaixo, transformando-os em imensos aguaceiros que engrossavam o riacho coberto pelo gelo.
     As solas de couro de seu calado deslizavam no barro vermelho e ela escorregou caindo na ribanceira do riacho. Os cabelos lisos empastados na cabea se penduravam 
como cordas grossas fazendo regos que terminavam no barro colado em sua roupa, antes que a chuva pudesse lav-la. Por longo tempo, ficou parada na margem do riacho, 
olhando suas guas escuras lutando para se libertar das amarras do gelo e redemoinhando em torno dos blocos que por fim se desprendiam e eram levados de quina para 
paragens desconhecidas.
     Na volta, seus dentes batiam, enquanto a custo subia a encosta escorregadia, observando o cu escuro clareando imperceptivelmente para alm do morro prximo 
da caverna. Ayla teve de esforar-se para passar pela boca da entrada que parecia bloqueada por uma barreira invisvel. No momento em que pisou no interior, voltou-lhe 
a mesma sensao de mal-estar.
     - Ayla, voc est ensopada. Por que saiu com um tempo deste? - gesticulou Creb. Ele apanhou um pedao de lenha e botou na fogueira. - Tire essa roupa molhada 
e venha para perto do fogo. Vai pegar uma gripe.
     Ela trocou de roupa e veio sentar-se perto de Creb junto da fogueira, dando graas por no haver mais o silncio constrangedor entre ambos.
     - Creb, estou to contente por termos conversado ontem  noite. Fui at o riacho, o gelo est comeando a se desprender. O vero vai chegar e vamos poder dar 
nossos longos passeios outra vez.
     - Sim, Ayla, o vero j est chegando. Se voc quiser, poderemos dar os nossos passeios novamente... no vero.
     Ela se arrepiou com a horrvel sensao de que jamais voltariam os dois a passear juntos novamente e teve a impresso de que ele sentia o mesmo. Veio, ento, 
para perto dele e se abraaram como se fosse pela ltima vez.
     Pelo meio da manh, a chuva melhorou, transformando-se num chuvisco aborrecido e,  tarde, parou completamente. Um sol frouxo, descorado, atravessou a slida 
camada de nuvens, mas no servia muito para aquecer ou secar a terra empapada. Apesar do tempo feio e da pouca comida, o cl se via excitado com a festa, um acontecimento 
memorvel. A mudana de chefe j era algo raro, mas ter ao mesmo tempo a troca de mog-ur fazia daquela uma ocasio excepcional. Oga e Ebra iriam ter um papel especial 
na cerimnia, bem como Brac, agora com sete anos e o novo herdeiro.
     Oga estava um feixe de nervos, correndo a cada momento a tudo quanto fosse fogueira que tivesse comida cozinhando. Ebra procurava acalm-la, mas ela prpria 
no se via muito tranquila, e Brac, querendo se dar ares de adulto, expedia ordens s crianas menores e s mulheres, todas atarefadssimas. Por fim, apareceu Brun 
e o afastou, levando-o para ensaiar mais uma vez seu papel. Uba, para poder tirar as outras crianas do caminho,carregou-as para a fogueira de Vorn e, depois, quando 
tudo j estava preparado, Ayla veio juntar-se a ela. Alm da ajuda na cozinha, seu nico papel na cerimnia seria o de preparar a infuso de datura para os homens, 
j que Creb lhe dissera para no fazer a bebida de razes.
      noitinha, sobraram apenas algumas nesgas de nuvens que, vez por outra, atravessavam diante da lua cheia iluminando a paisagem erma e inerte. No interior da 
caverna, ardia uma enorme fogueira na rea demarcada por um cr culo de tochas, atrs da ltima fogueira.
     Ayla foi sentar-se sozinha sobre sua pele de dormir com os olhos para dos nas chamas do fogo que estalava perto dela. no conseguira ainda ver-se livre do seu 
mal-estar. Resolveu ir at a entrada da caverna e l ficar admirando a lua, enquanto no comeasse a festa, mas, no momento em que se levantava, deu com Brun fazendo 
o sinal e ela se encaminhou na direo oposta. Depois de todos haverem tomado os seus lugares, o Mog-ur, seguido por Goov, saiu da gruta dos espritos, todos os 
dois vestindo uma capa de pele de urso.
     O grande feiticeiro, pela ltima vez invocou os espritos, e era como se os anos no houvessem passado para ele. Seus conhecidos gestos de bela eloquncia tinham 
uma fora e graa como h muito o cl no via. Foi uma atuao magistral. Jogava com sua platia com a mestria de um virtuose, levando-a, sempre dentro de um senso 
de oportunidade perfeito, a reagir ao crescendo das emoes evocativas at atingir o climax que lhe sugou toda a energia, deixando-o em estado de completa exausto. 
Ao lado dele, Goov mostrava-se uma pobre cpia do original. O jovem era um mog-ur correto, bom mesmo, mas longe de poder comparar-se ao Mog-ur. O mais poderoso dos 
feiticeiros que os cls conheceram.
     havia celebrado a ltima e a mais bela de suas cerimnias. Quando ele passou o controle para Goov, Ayla no era a nica a chorar. O cl tinha os olhos secos, 
mas chorava com o corao.
     Enquanto Goov prosseguia na gesticulao que aposentava Brun e ele vava Broud  posio de chefe, Ayla se achava distrada em seu pensamento. Observando Creb, 
lembrou-se da primeira vez que o viu, quando ela estendeu a mo para tocar no seu rosto desfigurado pela falta de um olho e marcado por cicatrizes. Lembrou-se da 
sua pacincia, tentando ensin-la a falar e de como, de repente, se fizera o entendimento. Levou a mo ao amuleto, sentindo a minscula cicatriz e se lembrou do 
momento em que ele, com um gesto de grande percia, lhe abrira na garganta um talho para que seu sangue fosse sacrificado em honra dos velhos espritos que lhe concederam 
liceno para caar. Recordou-se, estremecendo, de sua visita clandestina  pequenina caverna escondida nas profundezas de uma montanha e, por fim, lembrou-se dele 
na noite anterior, com um olhar cheio de amor e tristeza, fazendo-lhe aquela declarao de sentido estranho e enigmtico.
     Na festa celebrando a transferncia do poder  nova gerao ela apenas tocou na comida. Os homens entraram no seu sacrossanto recinto a fim de completar em 
segredo sua cerimnia, e Ayla distribuiu entre as mulheres a da tura recebida de Goov, j ento mog-ur. 
     A moa, no entanto, no estava com esprito para danar, os seus ritmos careciam de entusiasmo e tinha tomado to pouco da bebida cerimonial que os efeitos 
logo passaram. 
     Depois de ter dado um tempo conveniente para deixar a festa, foi para sua fogueira e, antes que Creb tivesse voltado, j estava dormindo, mas seu sono no foi 
tranquilo. Ao chegar, Creb ficou algum tempo observando-a dormir junto do filho e s depois  que foi para a cama.
     - Mama, voc vai caar? Durc tambm quer ir - falou o menino, pulando para fora da cama e se encaminhando na direo da entrada. Poucas pessoas encontravam-se 
de p, mas Durc j estava perfeitamente acordado.
     - Se tiver de ir, Durc, ser depois de comer. Venha c - falou Ayla, enquanto se levantava para ir peg-lo. - Talvez hoje no. A primavera chegou, mas o calor 
ainda noDepois de comer, Durc ficou vigiando Grev, e quando correu para a fogueira de Broud j no se lembrava mais de caar. Ayla, sorrindo com ternura, ficou 
observando-o afastar-se. 
     O sorriso, no entanto, logo desapareceu ao ver o olhar que Broud lanou ao menino. Seu cabelo chegou a arrepiar na cabea. Durc e Grev correram juntos para 
fora. De repente, ela se viu tomada por uma sensao to forte de claustrofobia que pensou que vomitaria, se no sasse da caverna. Foi, ento para a entrada com 
o corao batendo apressado e ali sorveu profundos goles de ar.
     - Ayla!
     Ela pulou ao ouvir seu nome proferido por Broud e deu meia-volta, abaixando a cabea 
     para olhar o novo chefe.
     - Esta mulher sada o chefe - disse, atravs de gestos formais.
     Raramente, Broud ficava frente a frente com ela. Ayla era muito mais alta do que qualquer homem do cl e Broud no se achava entre os mais altos. Mal lhe alcanava 
o ombro. A moa sabia que ele no gostava de olh-la de baixo para cima.
     - Hoje, no v sair daqui correndo para ir a nenhum lugar. Dentro de alguns minutos, vou fazer uma reunio.
     Ayla balanou a cabea com ar submisso.
     Aos poucos, o cl foi-se reunindo. O sol brilhava e eles estavam satisfeitos por Broud ter resolvido realizar a reunio do lado de fora, apesar do cho enlameado. 
Esperaram por algum tempo, at que Broud surgiu, empertigado, consciente de seu status, e foi tomar o lugar antes ocupado por Brun.
     - Como sabem, sou o novo chefe - comeou ele. Era a primeira vez que falava ao cl em sua nova posio e traiu seu nervosismo com uma declarao de sentido 
to manifestamente bvio.
     J que o cl tem novo chefe e novo mog-ur, esta  uma boa ocasio para fazer algumas mudanas por aqui - continuou ele. - Quero que saibam que Vorn de hoje 
em diante ser o meu segundo em comando.
     As cabeas acenaram, em sinal de aprovao. J era esperado. Brun achou que Broud poderia ter aguardado at que Vorn ficasse um pouco mais velho e no pass-lo 
 frente de caadores mais experimentados. Em todo caso, todo mundo j sabia que isso iria acontecer. Talvez seja melhor mesmo fazer isso de uma vez, disse o antigo 
chefe consigo.
     - H ainda outras mudanas - prosseguiu Broud. - Uma mulher neste cl no tem companheiro. - Ayla sentiu que o sangue lhe subia ao rosto. - Algum precisa sustent-la 
e no quero sobrecarregar meus caadores com mais este fardo. Agora sou o chefe e devo responsabilizar-me por ela. Tomarei Ayla como segunda mulher na minha fogueira.
     Ayla j o esperava, mas o fato de saber que estava certa no a deixou nem um pouco feliz. 
     Ela pode no gostar, mas Broud est fazendo o que  de vido, pensou Brun, olhando, orgulhoso, para o filho de sua companheira. Broud est preparado para o cargo.
     - Ela tem um filho deformado - continuou Broud. - Quero que todos saibam que nenhuma criana deformada ser de hoje em diante mais aceita neste cl. Fao questo 
de deixar bem claro que isso nada tem a ver com os meus sentimentos pessoais, quando a prxima for recusada. Se ela tiver uma criana normal, esta ser aceita.
     Creb, de p na entrada, meneava tristemente a cabea ao ver Ayla em palidecendo e curvando-se ainda mais para esconder o rosto. Bem, Broud, voc pode ter certeza 
de que outros filhos eu no vou ter, pelo menos enquanto a mgica de Iza funcionar em mim, pensou ela. no me interessa saber se so os rgos dos homens ou os seus 
totens que fazem filhos, s sei que voc nunca mais vai fazer um em mim. no vou botar filhos no mundo para voc mandar matar, porque acha na sua cabea que so 
deformados.
     - J deixei isso bem explcito antes - continuou falando Broud. - De modo que no deve ser surpresa para ningum. no quero nenhuma criana deformada vivendo 
em minha fogueira.
     Ayla levantou a cabea. O que significa isso? Se eu mudar para a fogueira dele, meu filho tem de me acompanhar.
     - Vom concordou em levar Durc para sua fogueira. Sua companheira gosta do menino, mesmo sendo ele anormal. A criana l ser bem tratada.
     Ouviu-se um murmrio de inquietao enquanto as mos se agitavam nervosas e apressadas. Toda criana at se tornar adulta vive com sua me. Por que Broud assumia 
Ayla e recusava seu filho? Ayla largou o seu lugar e veio atirar-se aos ps de Broud. Ele lhe bateu no ombro.
     - Ainda no terminei, mulher.  falta de respeito interromper a fala do chefe, mas por essa vez passa. Bem, fale.
     - Broud, voc no pode tirar Durc de mim. Ele  meu filho. Para onde vai a mulher, o filho tambm vai - gesticulou ela, esquecendo-se em sua nsia, de introduzir-se 
cerimoniosamente e falar em tom suplicante. Brun estava furioso, o orgulho que sentira h pouco tinha desaparecido.
     - Por acaso, mulher, voc est querendo dizer ao chefe o que ele deve fazer? - gesticulou Broud, cheio de sarcasmo. Tinha chegado seu grande momento, h anos 
o vinha planejando e ela estava se comportando tal como ele esperava. - Voc no  mae. Oga  mais me de Durc do que voc. Quem lhe deu de mamar? No foi voc, 
pelo que me consta. 
     O garoto nem sabe quem  a me dele. Qualquer mulher deste cl pode ser sua me. Que diferena faz onde ele vive?  evidente que Durc pouco est ligando, ele 
come na fogueira de todo mundo - falou Broud.
     - Eu sei que no pude alimentar meu filho, mas voc sabe que ele me pertence, Broud. Ele dorme comigo todas as noites.
     - Bem, pois comigo  que no vai dormir todas as noites. Voc pode negar que a companheira de Vorn no seja me para ele? J falei com Goov
     quer dizer com o mog-ur. Ele ir celebrar a cerimnia de acasalamento aps essa reunio. 
     No h mais por que esperar. Esta noite voc mudar para a minha fogueira e Durc para a de Vorn. Agora, volte a seu lugar - ordenou. Em seguida, passou os olhos 
pelo cl e reparou em Creb apoiado sobre seu cajado perto da caverna. O velho tinha uma expresso furiosa.
     Mas no tanto quanto a de Brun que estourava de raiva, enquanto observava Ayla voltando a seu lugar. Lutava para poder controlar-se e no interferir. No seu 
rosto havia mais do que raiva, nele transparecia tambm a tristeza que lhe ia na alma. O filho de minha companheira, pensou, que eu criei, eduquei e acabo de fazer 
chefe deste cl usando sua posio para tirar uma vingana pessoal? Vingar-se de uma mulher por motivos que s ele 
     conhece? Por que no vi isso antes? Por que no percebi os seus defeitos? Agora, entendo por que subiu Vorn to rapidamente de posto. Broud tramou toda a coisa 
com ele. Vinha planejando fazer isso com Ayla h muito tempo. Broud, Broud,  este o primeiro ato de um novo chefe? Arriscar a vida de seus caadores com um segundo 
em comando inexperiente, s para poder vingar-se de uma mulher? Que prazer voc pode ter em separar um filho de sua me, sabendo que ela  uma mulher que tanto j 
sofreu? Ser que no tem sentimentos, filho de minha companheira? Tudo que essa mulher tem  o filho com quem de noite divide sua cama.
     - Ainda no acabei. H algo mais a dizer - gesticulou Broud, tentando prender a ateno do cl escandalizado e se sentindo muito pouco  vontade. Por fim, as 
pessoas se aquietaram.- no sou eu o nico aqui que ascendeu a uma nova posio. Ns temos tambm um novo mog-ur. H certos privilgios que correspondem ao status 
do indivduo. Resolvi que Goov... digo o mog-ur se mudar para a fogueira que, por direito, pertence ao feiticeiro do cl. Creb ser transferido para o fundo da 
caverna.
     Brun lanou um olhar a Goov. Estaria ele metido tambm na trama? Goov, com uma expresso de espanto, sacudiu a cabea recusando.
     - No quero mudar para a fogueira do Mog-ur - disse ele. - O lugar lhe pertence, sempre foi a sua casa, desde que viemos para esta caverna.
     O cl j no se sentia s pouco  vontade, comeava a ficar bastante intranquilo com seu chefe.
     - Eu ordeno que mude! - gesticulou Broud imperiosamente, furioso com a recusa de Goov. No momento em que ele olhara na direo de Creb, compreendeu, subitamente, 
que o velho aleijado apoiando-se sobre um cajado e o encarando cheio de raiva j no era mais o grande Mog-ur. Que tinha ele a temer de um pobre velho decrpito? 
Num impulso de momento, tinha feito o oferecimento, esperando que Goov fosse avanar sobre o privilegiado lugar dentro da caverna, tal como acontecera com Vorn, 
quando ele lhe acenou com a possibilidade de subir de posto. Achou que, com isso, estaria for talecendo a lealdade do novo mog-ur para com ele e fazendo com que 
o rapaz fosse sentir-se obrigado. 
     S que no contara com a fidelidade e o amor de Goov a seu mentor. Brun no conseguiu mais conter-se e j ia interferir, quando Ayla lhe passou  frente.
     - Broud! -gritou ela de seu lugar.
     Ele levantou, rpido, a cabea.
     - Voc no pode fazer isso! no pode obrigar Creb a mudar-se de sua fogueira! - disse justamente indignada e avanando com passos firmes em sua direo - Ele 
precisa de um lugar que seja abrigado contra o tempo. H muita corrente de ar no fundo da caverna e voc sabe como ele passa mal nos invernos. - Ayla se esquecera 
de suas maneiras clmicas, ali se achava apenas a curandeira tentando proteger o paciente. - Voc est fazendo isso s para me agredir. Querendo vingar-se de Creb, 
porque ele tomou conta de mim. Pouco estou ligando para o que voc fizer comigo, Broud, mas deixe Creb em paz!
     - Encontrava-se de p na frente dele, dominando-o, gesticulando com as mos furiosamente diante de seu rosto.
     - Quem lhe deu permisso para falar, mulher! - disse Broud colrico, levantando o punho cerrado em sua direo mas ela percebeu a tempo e se desviou do murro. 
Ele, surpreso, viu-se acertando o ar. A raiva logo substituiu a expresso de espanto e j ia partir para cima dela.
     - Broud! - O berro de Brun deixou-o imvel. Ele estava habituado de mais a obedecer quela voz, principalmente se erguida em tom de raiva.
     - Aquele lugar pertence ao Mog-ur, Broud. E at que ele morra, l ser sempre a sua fogueira. Isso ir acontecer dentro de pouco tempo e no h necessidade 
de voc apressar sua mudana. Por muitos anos ele vem servindo este cl da melhor forma possvel. Ele merece viver ali. Que espcie de chefe  voc? Que espcie 
de homem  voc, Broud? Um homem que usa sua posio para se vingar de uma mulher? Uma mulher que nunca lhe fez nada e que ainda que quisesse no poderia. Broud, 
voc deixou de ser o chefe!
     - no Brun, eu sou o chefe, voc  que no  mais. - Passado o primeiro impulso de obedecer, Broud havia recuperado a conscincia da posio dele e da de Brun. 
- Agora, sou eu o chefe! Quem toma daqui por diante as decises sou eu! Voc sempre se ps contra mim para ficar do lado dela. Sempre a protegeu. Bem, j no vai 
mais poder proteg-la! - Broud comeava a perder o autodomnio, gesticulando furiosamente com a cara vermelha de raiva. - Ela far o que eu disser, ou do contrrio 
ser amaldioada! E desta vez no ser por tempo limitado. Voc acabou de ver a insolncia dela e mesmo assim ainda continua tomando sua defesa. no irei tolerar 
isso! Nunca mais. Ela merece ser amaldioada pelo que acaba de fazer. E  o que farei. O que voc acha disso, Brun? Goov! Amaldioe esta mulher. Agora! Neste instante! 
Quero que ela seja imediatamente 
     amaldioada. Ningum vai dizer a este chefe o que ele tem a fazer e muito menos esta mulher horrenda. Voc me entendeu, Goov? Vamos, faa logo a maldio!
     Creb, desde o momento que viu Ayla se precipitando na direo de Broud, procurava atrair-lhe a ateno, querendo avis-la. Pouco lhe importava se estivesse 
vivendo no fundo ou na frente da caverna, dava tudo no mesmo. A suspeita tinha comeado a surgir no seu esprito, quando Broud disse que tomaria Ayla como segunda 
mulher. Era uma mudana cheia de implicaes, e no seria tomada por Broud, se no houvesse alguma razo por de trs de tudo. 
     Mas as suas suspeitas no chegaram ao ponto de prepar-lo para a feia cena que se seguiu. 
     Ao ver Broud dando ordens a Goov para amaldio-la, o pouco ainda que lhe restava de esprito de luta desapareceu. no quis ver mais nada, fez meia-volta e 
vagarosamente se encaminhou para o interior da caverna. Ayla levantou os olhos no momento em que ele sumia no buraco da entrada.
     Creb no era o nico a se sentir mal com aquele confronto aberto. O cl inteiro via-se em rebulio, gesticulando, gritando e andando alvoroado.
     Alguns no aguentavam ver e outros olhavam incrdulos e extasiados o espetculo que jamais imaginaram presenciar em suas vidas. Sempre haviam vivido de modo 
muito ordenado, muito protegidos e escudados em suas tradies, costumes e hbitos.
     Tinham ficado surpresos com a notcia absurda e inusitada da separao de um filho de sua me; em seguida, escandalizados tanto com a atitude de Ayla entrando 
em confronto direto com o novo chefe quanto com a deciso deste de tirar Creb de sua fogueira e, por fim, estupefatos com a investida colrica de Brun contra o homem 
que ele acabara de fazer chefe e com o acesso de Broud exigindo a maldio de Ayla. Mas outras surpresas ainda os aguardavam.
     Ayla tremia tanto que s percebeu o tremor sob seus ps ao ver as pessoas caindo de bruos, sem conseguir manter-se equilibradas sobre as pernas. Seu rosto 
espelhava a mesma expresso que se via no dos outros:
     primeiro de assombro, depois de medo e por fim de pavor. Foi, ento que escutou o rumor grave e aterrorizante vindo das entranhas da terra.
     - Duuurc! - gritou, ao mesmo tempo em que via Uba agarrando-o e caindo sobre ele, como se tentasse proteger o corpinho do menino com o dela. Ayla ia correr 
para onde se achavam quando, de repente, lembrou-se de uma coisa que a encheu de pavor.
     - Creb! Ele est dentro da caverna!
     De gatinhas, Ayla subiu o aclive do terreno oscilante, tentando alcanar a boca triangular da caverna. Uma enorme pedra rolou do ngreme paredo que sustentava 
a entrada e caiu a seu lado, desviada por uma rvore que ficou espatifada. A moa no reparou. Estava entorpecida, em estado de choque. As lembranas revividas em 
seus velhos pesadelos vieram  tona, mas de forma embrulhada e confusa pelo pnico total. Em meio ao rugido do terremoto, no chegou nem mesmo a escutar a palavra 
sada de seus lbios numa lngua j h muito esquecida.
     - Mam
     Sob seus ps, o cho sumia abaixando-se muitos centmetros, para de pois tornar a elevarse. Ela caa e lutava para se manter de p, quando viu o teto em abbada 
da caverna desmoronando. Blocos de pedras se desprendiam do alto e se esborrachavam no cho com o impacto. E outros mais iam caindo. A seu redor, as pedras ricocheteavam, 
despencadas da face rochosa da montanha para rolar pelo aclive e ir esboroar-se no riacho congelado. O morro do lado leste partiu-se, e a metade ruiu, tambm se 
despencando pela encosta.
     Dentro da caverna, era uma chuva de pedras, cascalhos e p que vinha com o trovejar intermitente de grandes sees da parede e do teto em arcadas. Do lado de 
fora, os altos pinheiros danavam como se fossem gigantes desengonados e as velhas rvores desfolhadas balanavam seus galhos desajeitada- mente, ao ritmo de um 
rquiem trovejante. Uma rocha na parede, prxima  parte leste da entrada, do lado oposto ao lago, se alargou com estrondo fazendo jorrar as rochas e pedregulios 
soltos. Sob o cho, abriu-se um outro canal de gua que, antes de fazer sua viagem inaugural para o riacho, depositou uma massa de detritos no prtico da entrada. 
O rugir da terra e dos rochedos se despedaando abafavam os gritos aterrorizados do cl. O som era ensurdecedor.
     Finalmente, o tremor cedeu. Umas ltimas pedras ainda se despencavam da montanha, ricocheteando e rolando at parar em algum ponto. s tontas, cheias de medo, 
as pessoas comearam a se pr de p e a caminhar a esmo com expresso aparvalhada procurando recobrar a razo. Pouco a pouco, foram se juntando ao redor de Brun. 
Ele sempre significou garantia e estabilidade para as suas vidas e, agora, gravitavam em torno da segurana que sua figura representava.
     Mas Brun nada fez. Estava certo de que em todos os anos dele como chefe, o seu pior erro fora passar o comando do cl a Broud. Naquele imstante, compreendeu 
o quanto se mostrara cego s falhas de carter do filho de sua companheira. At mesmo as virtudes de Broud, a coragem imprudente e os grandes atos de bravata, pareciam-lhe 
agora como manifestaes de um ego inconsequente e de um temperamento impulsivo. Mas no era essa a razo por que Brun se recusava a agir. Broud era agora o chefe, 
fosse para o bem ou para o mal. Era tarde demais para ele voltar atrs e preparar outro homem para o cargo, embora soubesse que o cl o acompanharia na deciso. 
A nica esperana, tanto para que Broud se tornasse de fato um chefe como para o cl, seria faz-lo governar. Broud, desafiadoramente, sem o menor domnio de si, 
disse ser o chefe. Bem, Broud, pois ento seja, d as ordens. Vamos, faa alguma coisa. Doravante, quaisquer que fossem as suas decises - ou antidecises - Brun 
j no mais iria interferir.
     Ao se convencer de que Brun no tomaria de novo as rdeas do poder, o cl se voltou para Broud. Eles estavam habituados demais a seguir as tradies com o seu 
enquadramento hierrquico e Brun fora um chefe extremamente bom, forte e capaz. Achavam-se acostumados com sua voz de comando nos tempos de crise e a depender de 
seu julgamento cahno e sensato. no sabiam como agir por conta prpria e nem tomar decises por si mesmos na ausncia de um chefe. At Broud esperava que Brun reassumisse, 
tambm ele necessitava de apoiar-se em algum. Quando, por fim, percebeu que o peso da responsabilidade havia recado sobre si, tentou assumi-lo. E realmente tentou.
     - Quem est faltando? Quem est ferido? - perguntou Broud.
     Todos deram um ligeiro suspiro de alvio. Finalmente, algum fazia alguma coisa. Os grupos de famlia comearam a reunir-se e,  medida que ocl ia se juntando, 
foram vendo com surpresa as pessoas que temiam ter desaparecido. 
     Miraculosamente, parecia que ningum faltava. Apesar de todo o tremor da terra e de toda a quantidade de rochas despencadas, ningum se achava seriamente ferido. 
Machucados, cortes, arranhes, mas nenhuma fratura de osso. Isso no era inteiramente verdade.
     - Onde est Ayla? - gritou Uba, meio em pnico.
     - Aqui - respondeu Ayla, descendo pela encosta, esquecida, por um momento, do motivo por que se encontrava naquele lugar.
     - Mama! - gritou Durc, soltando-se das garras protetoras de Uba e correndo. Ayla se precipitou para ele. Suspendeu-o no colo, abraando-o apertado e vindo com 
ele de volta.
     - Uba, voc est bem?
     - Sim, nada de srio.
     - Onde est Creb? - perguntou Ayla, lembrando-se. Ela meteu Durc no colo de Uba e correu de volta na direo da encosta da montanha.
     - Ayla, onde voc vai? no entre na caverna! Pode haver mais tremores.
     Ela no viu o aviso, mas de qualquer maneira no lhe teria prestado ateno. Entrou na caverna correndo direto para a fogueira de Creb. De vez em quando ainda 
caam pedras e cascalhos formando pequenos montes no cho. Exceto algumas pedras e uma camada de poeira, o lugar da fogueira deles permanecera intacto. Creb, entretanto, 
no se achava l. 
     Ayla procurou em uma por uma das fogueiras. Algumas estavam completamente destrudas, mas a maioria ficou com muitas coisas que ainda davam para ser salvas. 
Creb no se encontrava em nenhuma das fogueiras. Ayla hesitava em passar pela estreita abertura que levava  gruta dos espritos; depois, decidiu entrar, mas estava 
muito escuro. 
     Precisava de uma tocha. Resolveu, ento fazer primeiro uma vistoria no restante da caverna.
     Uma chuva de pedregulhos caiu sobre ela, fazendo-a dar um pulo para o lado, e um grande bloco dentado passou rente por seu brao antes de espatifar-se na terra. 
Examinava as paredes, ia e vinha pelo recinto, penetrava nas sombras por trs dos recipientes de armazenar comida na total escurido da caverna. J estava pronta 
para ir buscar uma tocha, quando decidiu procurar num ltimo lugar.
     Encontrou Creb ao lado da sepultura de Iza. Deitara-se sobre o lado deformado de seu corpo, com as pernas encolhidas, quase como se tivessem sido amarradas 
na posio fetal. 
     O magnfico crnio que guardara seu poderoso crebro j no o protegia mais. A grande pedra que o havia partido achava-se a alguns centmetros dele. A morte 
devia ter sido instantnea. Ayla se ajoelhou ao lado de seu corpo e as lgrimas comearam a correr.
     - Creb,  Creb, por que voc foi entrar na caverna? - gesticulou se balanando sobre os joelhos e gritando seu nome. Em seguida, por alguma razo inexplicvel, 
ps-se de p e passou a gesticular com os movimentos que tinha visto Creb fazer sobre Iza durante o funeral desta. Sozinha na caverna juncada de pedras, a mulher 
alta e loura, com lgrimas toldando-lhe a viso, silenciosamente deixou que os movimentos de antiqussima simbologia flussem com uma graa e sutileza to perfeitas 
quanto as do prprio homem santo. Muitos daqueles movimentos eram de significado desconhecido para ela. E jamais iria entend-los. Era a ltima homenagem que prestava 
ao nico pai que conhecera.
     - Est morto - gesticulou Ayla, ao sair da caverna, para os rostos que estavam virados em sua direo.
     Broud, como todos os outros, tinha os olhos fixos nela. Subitamente, ele se viu tomado por enorme medo. Era ela quem encontrara a caverna, e a ela que os espritos 
favoreciam. Logo depois de ele a ter amaldioado, as foras invisveis sacudiram a terra destruindo a caverna que ela achara. Estariam os espritos zangados com 
ele por querer sua maldio? Teriam destrudo a caverna que ela havia encontrado por se acharem com raiva dele? E se o cl pensasse que fora ele a causa da calamidade 
que os atingia agora? Nos recnditos de sua alma supersticiosa, tremia com a idia do mau pressgio, apavorado por haver desencadeado a raiva dos espritos, da qual 
estava certo ser o responsvel. De repente, atravessou-lhe na mente um raciocnio artificioso. Se pusesse a culpa nela antes que os outros o achassem culpado, ningum 
poderia dizer que fora ele o causador da desgraa e os espritos se voltariam contra Ayla.
     - Foi ela quem causou isso! A culpa  dela! - gesticulou Broud, subitamente. - Foi ela quem fez os espritos ficarem com raiva. Ela  a nica aqui a desdenhar 
nossas tradies. 
     Vocs todos viram. Esta mulher foi insolente e desrespeitosa com o chefe. Tem de ser amaldioada para que os espritos vol tem a ficar felizes. Ento, eles 
vero como saberemos honr-los e nos conduziro a uma outra caverna. Melhor ainda que esta e at mais afortunada. Eles iro nos guiar, tenho certeza de que vo. 
Goov, amaldioe esta mulher! Ande, neste instante. Faa isso imediatamente. Amaldioe, vamos! Amaldioe esta mulher!
     Todas as cabeas se viraram na direo de Brun. Ele olhava em frente, com as mandbulas comprimidas, os punhos cerrados, os msculos das costas latejando com 
a tenso. Recusava a se mover, a interferir, embora estivesse apelando para todas as suas reservas de fora de vontade. As pessoas, inquietas, entreolhavam-se. Depois, 
olharam seguidamente para Goov e Broud. O aclito, em total perplexidade, encarava Broud. Como pde ele culpar Ayla? Se algum culpado h aqui  ele prprio. Goov, 
por fim, caiu em si.
     - Goov, eu sou o chefe e voc  o mog-ur. Ordeno a maldio desta mulher. A maldio de morte!
     Goov deu as costas abruptamente, apanhando um galho de pinho que se queimava na fogueira armada enquanto Ayla estava dentro da caverna e se dirigiu para a encosta, 
desaparecendo na escurido da boca triangular. Caminhava com cuidado, evitando os escombros no cho, com a ateno voltada para as pedras e pedregulhos que de vez 
em quando ainda despencavam, sabendo que um outro terremoto poderia despejar toneladas sobre sua cabea e desejando que tal acontecesse, antes que consumasse o que 
lhe havia sido ordenado. Entrou na gruta dos espritos e arranjou os sagrados ossos do urso da caverna em filas paralelas, fazendo antes um gesto com cada um deles. 
O ltimo, ele enfiou pela base do crnio, de modo que a outra extremidade sasse pela cavidade ocular. Em seguida, pronunciou em voz alta os terrveis nomes dos 
espritos malignos, s conhecidos pelos mog-urs. Com isso, estava reconhecendo a existncia deles e lhes dando poder.
     Ayla ainda se encontrava de p em frente  caverna, quando ele passou por ela sem v-la.
     - Eu sou o mog-ur e voc o chefe. Voc ordenou a maldio de morte de Ayla e o servio foi executado - gesticulou Goov, dando em seguida as costas ao chefe 
do cl.

     No princpio, ningum conseguia acreditar. Tinha sido demasiadamente rpido. no era assim que se deveria fazer. Brun, teria primeiro discutido o assunto, argumentado, 
preparado o cl para o fato. Mas, antes de tudo, ele no teria amaldioado Ayla. Afinal, o que a moa tinha feito? Havia sido malcriada com o chefe e essa era uma 
coisa errada, mas seria motivo para uma maldio de morte? Ela simplesmente estava defendendo Creb. E Broud, o que tinha feito? Tirado seu filho, expulsado o velho 
feiticeiro de sua fogueira, com o intuito exclusivo de vingar-se dela. Agora, ningum tinha fogueira. Por que Broud foi fazer isso? Por que foi amaldio-la? Os 
espritos sempre estiveram do lado de Ayla. Ela sempre lhes trouxera sorte at o momento de Broud ordenar sua maldio. Fora Broud que lhes tinha trazido desgraa. 
Agora, o que seria do cl? Broud havia enraivecido os espritos protetores e deixado os malignos  solta. E o velho feiticeiro estava morto. O Mog-ur j no poderia 
mais ajud-los.

     Ayla achava-se to perdida em sua dor que nem notou a rapidez com que se processaram os acontecimentos ao redor dela. Vira quando Broud ordenou sua maldio 
e vira quando Goov disse que o servio estava feito, mas, com o pensamento todo voltado para seu sofrimento, no captou o que se estava passando. Aos poucos, a compreenso 
foi se infiltrando em sua conscincia. Quando pde, por fim, absorver todas as implicaes do acontecido, o choque foi arrasador.
     Amaldioada? Maldio de morte? Por qu? O que foi que eu fiz de to grave? Como foi isso acontecer to depressa assim? O cl se mostrava to lento para entender 
quanto ela. Eles ainda no se haviam recuperado inteiramente do impacto do terremoto. Ela, curiosamente, sentia-se alheia, observando as pessoas, uma a uma, irem 
ficando com os olhos vidrados, parecendo cegas. L est Crug, quem ser o prximo? Ika. Agora  a vez de Droog. Aga ainda no. Ah, agora sim, ela deve ter visto 
que eu olhava em sua direo.
     Ayla somente caiu em si quando os olhos de Uba se tornaram opacos e ela comeou com a sua nnia, lamentando a morte da me da criana que segurava nos braos. 
Durc! O meu beb, o meu filhinho! 
      eu estou amaldioada! O que ser dele? S existe Uba. Ela tomar conta dele, mas o que pode Uba fazer contra Broud? Ele tem dio de Durc por ser meu filho. 
Ayla olhava desesperada  sua volta e viu, ento, Brun. Brun! Ele pode proteger Durc. S Brun poder olhar por ele.
     Correu para Brun, o homem forte, sensvel e controlado que at a vspera havia chefiado o cl. Ela se deixou cair a seus ps com a cabea abaixada, levando 
alguns momentos para compreender que ele jamais lhe iria dar o tapinha no ombro. Quando ergueu os olhos, ele olhava por cima de sua cabea para a fogueira atrs 
dela. Se ele quisesse os seus olhos poderiam enxerg-la. Ele pode me ver, disse Ayla consigo. Ele pode me ver, sei que pode. 
     Creb se lembrava de tudo quanto eu disse, e Iza tambm.
     - Brun, eu sei que voc pensa que estou morta. no afaste seus olhos. Eu imploro, no fique olhando para longe. Tudo aconteceu rpido demais! Eu vou embora, 
prometo que vou. Mas tenho medo por Durc. Broud tem dio dele, voc sabe disso. O que ser de meu filho, com Broud como chefe? Durc pertence ao cl, Brun. Voc o 
aceitou. Eu lhe peo, Brun, proteja Durc. S voc pode fazer isso. No deixe Broud fazer mal a ele.
     Brun, sem pressa, virou as costas para ela, pondo-se a olhar em outra direo como se tivesse mudado de posio e no como se tentasse desviar os olhos dela. 
ayla, entretanto, lhe percebeu nos olhos um brilho nfimo, sugestivo de que ele tomara conhecimento de sua presena ali. Era uma leve indicao de aquiescncia, 
mas j bastava. Ele iria proteger Durc, assim havia prometido ao esprito de sua me. Era fato que tudo se tinha passado depressa demais e ela no tivera tempo de 
fazer o pedido antes. Sua deciso de no interferir com Broud no chegava a tal ponto. No permitiria que o filho de sua companheira fizesse mal ao filho de ayla.
     A moa se levantou e se encaminhou propositadamente para a caverna. At falar com Brun ainda no tinha resolvido ir embora, mas depois sim. A dor pela morte 
de Creb foi relegada a um canto de sua mente para ser sentida mais tarde, quando sua sobrevivncia No estivesse em jogo. Talvez fosse para o mundo dos espritos, 
talvez No, mas no iria de mos abanando.
     Da primeira vez que entrou na caverna no tomara conscincia das avarias ocorridas l e agora olhava como se aquele fosse um lugar desconhecido, dando graas 
por no haver ningum dentro no momento do terremoto. Ela respirou fundo e, sem tomar conhecimento das condies de perigo, correu para a fogueira de Creb. Se no 
pegasse o necessrio para sua subsistncia, cer tamente morreria.
     Retirou uma pedra de sua cama, sacudiu a capa de pele e por cima desta comeou a empilhar uma srie de coisas: a sacola de remdios, a funda, dois pares de 
calados, perneiras, luvas, uma manta forrada de pele, um capuz. E mais:
     sua cuia, uma bacia, recipientes para gua e ferramentas. Em seguida, dirigiu- se para o fundo da caverna e encontrou l os bolos preparados para viagem feitos 
de carne-seca, cereais e gordura que tinham alto teor alimentcio. Revistando por entre as pedras, achou os potes de madeira contendo acar de bor do e ainda frutas 
secas, diversos tipos de nozes, farinha de cereais, tiras de carne-seca e peixe, e alguns vegetais. A estao j estava no fim e a variedade por isso no era grande, 
mas, em todo caso, servia. Limpou sua cesta de colher, retirando as pedras e a poeira de dentro e se ps a ench-la.
     Com lgrimas nos olhos, pegou a manta de carregar Durc e a encostou no rosto. No ia precisar dela. Durc iria ficar, mas guardou-a. Pelo menos, teria uma coisa 
que pertencera a seu filho e que tinha estado muito junto dele. Vestiu-se com roupas quentes, iria fazer frio na plancie no princpio da estao Talvez ainda fosse 
inverno no norte. Por enquanto, no tinha tomado nenhuma deciso sobre que direo seguir. Sabia que estava indo para o continente que ficava ao norte da pennsula.
     No ltimo momento, resolveu apanhar o couro da barraca que levava quando saa com os homens nas expedies de caa. A rigor, no lhe pertencia. Ela teria direito 
de levar tudo quanto fosse dela, e o que deixasse seria queimado. Achava que por justia uma parte dos alimentos lhe pertencia, mas o pano de couro era para uso 
das pessoas vivendo na fogueira de Creb. Afinal, Creb no estava mais l e em vida nunca o havia usado. Ela imaginava que ele no fosse se importar.
     Botou-o por cima de tudo na cesta, suspendeu s costas aquele pesado volume e amarrou as correias que o firmavam no lugar. De p, no meio da fogueira de Creb, 
as lgrimas ameaavam voltar, olhando para aquilo que fora seu lar, para onde tinha sido levada poucos dias depois de Iza a ter encontrado. Nunca tornaria a v-lo. 
Por seus olhos desfilou um turbilho de lembranas a se atropelarem em sua mente - algumas, mais significativas, 
     detendo-se por um tempo maior. O ltimo pensamento foi para Creb. Gostaria de saber o que causara a ele tanto sofrimento. Talvez um dia eu compreenda, mas fico 
feliz por termos conversado antes de voc partir para o mundo dos espritos, Creb. Nunca me esquecerei de voc, de Iza e do cl. E veio para fora da caverna.
     Ningum olhava, mas todos sabiam que Ayla tinha aparecido. Ao parar Junto do lago para encher os cantis, uma outra lembrana lhe atravessou o esprito. Antes 
de agitar a superfcie mergulhando o recipiente na gua, ela se inclinou, querendo ver seu rosto. 
     Examinou-o com ateno. Desta vez no lhe pareceu to feio. No entanto, no era nela que estava interessada. Desejava ver um rosto dos Outros.
     Quando se levantou, Durc lutava para se desprender dos braos de Uba. Alguma coisa que tinha a ver com sua me estava acontecendo. no tinha certeza do que 
fosse, mas sabia que no gostava. Com um safano, conseguiu soltar-se e correu para Ayla.
     - Voc est indo embora - falou, acusando. Comeava a entender e estava indignado por no lhe terem dito. - Voc est vestida e vai embora.
     Por uma frao de segundo, Ayla hesitou. Depois, estendeu os braos e Durc voou a seu encontro. Lutando contra as lgrimas, ela o apanhou, abraando-o apertado. 
Em seguida, agachou-se para ficar de sua altura e olhou diretamente dentro de seus grandes olhos castanhos.
     -  verdade, Durc, eu vou embora. Tenho de ir.
     - Mama, me leve com voc. Mama, me leve! no me deixe!
     - no posso, Durc. Voc tem de ficar com Uba Ela vai cuidar de voc, e Brun tambm.
     - no quero ficar aqui! - gesticulou Durc, debatendo-se. - Quero ir com voc. no v embora, deixando-me aqui!
     Uba aproximou-se. Era preciso. Tinha de tirar Durc das mos do esprito. Ayla abraou seu filho novamente.
     - Eu o amo, Durc. Nunca se esquea disso, nunca se esquea de que sua me o ama muito. - Ela pegou o filho e o botou nos braos de Uba. - Tome conta dele para 
mim, Uba - gesticulou, olhando-a nos olhos cheios de tristeza. Uba devolveu o olhar, tinha visto Ayla. - Cuide dele... minha irm.
     Broud, cada vez mais furioso, observava a cena. Aquela mulher est morta. Ela  um esprito. Por que no est agindo como tal? E por que h pessoas que no 
a esto tratando como um esprito?
     - Ela  um esprito - gesticulou, possesso. - Ela est morta. Ser que no sabem que j morreu?
     Ayla, com passos firmes, encaminhou-se para Broud e se ps de p, a toda altura, na sua frente. Ele estava tendo dificuldade para no enxerg-la. Tentava ignor-la, 
mas ela o olhava de cima para baixo, e no sentada a seus ps como uma mulher deveria estar.
     - no estou morta, Broud - gesticulou, desafiadoramente. - E nem vou morrer. Voc no me pode matar. Pode me forar a ir embora e pode tirar meu filho de mim, 
mas no me pode obrigar a morrer!
     A raiva e o medo se misturaram, quando ele, tomado por um mpeto,e o punho fechado para esmurr-la, mas se conteve, temendo tocar nela. Ela  um truque, disse 
consigo. no passa de um estratagema do esprito. Ela t morta, foi amaldioada.
     - Vamos, Broud, bata em mim. Vamos, reconhea esse esprito que est aqui. Bata e ver que no estou morta.
     Broud virou-se para Brun, querendo desviar os olhos do esprito. Depois, abaixou o brao, embaraado com a posio que podia parecer pouco na tural. no chegara 
a encostar nela, mas tinha medo de que s o fato de levantar a mo fechada j fosse suficiente para reconhecer-lhe a presena e tentou passar para Brun a responsabilidade 
do ato que atraa desgraa.

     - no pense que no vi, Brun, quando voc respondeu ao esprito antes de ele entrar na caverna. Ela  um esprito, Brun, e voc vai atrair desgraa - ameaou 
ele.
     - S eu, Broud? E que outra desgraa mais poderia acontecer-me? Mas quando voc viu Ayla conversando comigo? Quando a viu entrando na caverna? Por que voc 
ameaou bater num esprito? Parece que voc ainda no entendeu, no ? Voc reconheceu sua existncia, Broud. E ela o venceu. Voc fez tudo que pde contra ela, 
at mesmo a amaldio-la chegou e, ainda assim, ela o venceu. Ayla era uma mulher e tinha mais coragem do que voc, Broud. Muito mais fora de vontade e carter. 
Era mais homem do que voc. Ayla  que deveria ter sido o filho de minha companheira.
     Ayla se viu surpresa com o inesperado elogio de Brun. Durc, novamente, contorcia-se chamando-a. Ela no conseguiu aguentar mais e correu, afastando-se. Ao passar 
por Brun, abaixou a cabea e fez um gesto expressando sua gratido. Chegando ao morro, virou-se para uma ltima olhada. Viu Brun levantar a mo como se fosse coar 
o nariz, mas era como se ele fizesse um certo gesto, o mesmo feito por Norg, quando eles se despediram da reunio de cls. Pareceu-lhe ver Brun dizendo:
     - Que Ursus a acompanhe.
     A ltima coisa que Ayla ouviu, ao desaparecer por trs do morro fendido, foi o grito choroso de Durc:
     - Maama! Maaania! Maamaaa!
     
     
     
      - Fim - 
     
     
     
     
     
     
     Este livro continua em outro volume com o nome de O vale dos cavalos
